{"id":9419,"date":"2018-11-05T10:00:15","date_gmt":"2018-11-05T13:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/?p=9419"},"modified":"2018-11-05T10:00:15","modified_gmt":"2018-11-05T13:00:15","slug":"bom-artigo-sobre-cirurgia-plastica-que-considero-vital-para-as-mulheres-e-dever-do-sus-no-entanto-ha-riscos-de-racismo-apontado-no-artigo-por-cynara-menezes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/2018\/11\/05\/bom-artigo-sobre-cirurgia-plastica-que-considero-vital-para-as-mulheres-e-dever-do-sus-no-entanto-ha-riscos-de-racismo-apontado-no-artigo-por-cynara-menezes\/","title":{"rendered":"Bom artigo sobre CIRURGIA PL\u00c1STICA, que considero VITAL para as mulheres  e DEVER DO SUS. No entanto, h\u00e1 RISCOS de RACISMO, apontado no artigo por CYNARA MENEZES"},"content":{"rendered":"<div class=\"info\">\n<div class=\"author\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Cynara Menezes <i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/strong><\/span><\/div>\n<div class=\"pull-left date\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span class=\"\">15 de maio de 2018, 21h37 <\/span><\/strong><\/span><span style=\"color: #333333;\"><strong><i class=\"fa fa-facebook\" aria-hidden=\"true\"><\/i> <i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i> <i class=\"fa fa-print\" aria-hidden=\"true\"><\/i> <span class=\"fa-stack-2\"> <i class=\"fa fa-comment\" aria-hidden=\"true\"><\/i> <i class=\"fa fa-stack-1x\" aria-hidden=\"true\"><a style=\"color: #333333;\" href=\"http:\/\/www.socialistamorena.com.br\/cirurgioes-plasticos-brasileiros-usam-pobres-como-cobaias-acusa-antropologo-do-equador\/#comments\">7 <\/a><\/i> <\/span><\/strong><\/span><\/div>\n<\/div>\n<article>\n<div class=\"has-content-area\" style=\"text-align: justify;\" data-url=\"http:\/\/www.socialistamorena.com.br\/cirurgioes-plasticos-brasileiros-usam-pobres-como-cobaias-acusa-antropologo-do-equador\/\" data-title=\"Cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos brasileiros usam pobres como cobaias, acusa antrop\u00f3logo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Quando se fala em cirurgia pl\u00e1stica pelo SUS (Servi\u00e7o \u00danico de Sa\u00fade), ou seja, paga por n\u00f3s, cidad\u00e3os, sempre se pensa em cirurgia reparadora: para corrigir defeitos do corpo ou da face cong\u00eanitos ou acidentais, deformidades resultantes de queimaduras e redu\u00e7\u00e3o de seios para problemas de coluna, por exemplo<\/span>. <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>De fato, o minist\u00e9rio da Sa\u00fade <a style=\"color: #333333;\" href=\"http:\/\/portalms.saude.gov.br\/atencao-especializada-e-hospitalar\/especialidades\/cirurgia-plastica-reparadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00f3 aprova cirurgia pl\u00e1stica<\/a> na rede p\u00fablica nestes e nos seguintes casos: <span style=\"color: #008000;\">reconstru\u00e7\u00e3o das mamas p\u00f3s-c\u00e2ncer, l\u00e1bio leporino, ginecomastia, <a style=\"color: #008000;\" href=\"http:\/\/portalms.saude.gov.br\/atencao-especializada-e-hospitalar\/especialidades\/obesidade\/tratamento-e-reabilitacao\/indicacoes-para-cirurgia-plastica-reparadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cirurgia reparadora p\u00f3s-cirurgia bari\u00e1trica<\/a> e desvio de septo.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Mas <span style=\"color: #800000;\">Alvaro Jarr\u00edn, um antrop\u00f3logo equatoriano, professor da <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.holycross.edu\/academics\/programs\/sociology-and-anthropology\/faculty\/alvaro-e-jarr%C3%ADn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade Holy Cross<\/a>, nos Estados Unidos, defende, em um livro publicado em agosto passado pela Universidade da Calif\u00f3rnia, que 95% das cirurgias pl\u00e1sticas na rede p\u00fablica brasileira hoje s\u00e3o meramente est\u00e9ticas.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Segundo ele, <span style=\"color: #800000;\">estes n\u00fameros n\u00e3o aparecem porque as regras s\u00e3o burladas e as estat\u00edsticas s\u00e3o maquiadas pelos chefes dos setores de cirurgia pl\u00e1stica dos hospitais brasileiros. \u201cRinoplastia\u201d, a pl\u00e1stica para afinar o nariz, vira \u201ccorre\u00e7\u00e3o de desvio de septo\u201d no formul\u00e1rio; \u201cabdominoplastia\u201d vira \u201ccorre\u00e7\u00e3o de h\u00e9rnia\u201d; \u201clifting\u201d se transforma em \u201ccorre\u00e7\u00e3o de paralisia facial\u201d.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #003300;\">Segundo Alvaro Jarr\u00edn, 95% das cirurgias pl\u00e1sticas na rede p\u00fablica brasileira hoje s\u00e3o meramente est\u00e9ticas. Estes n\u00fameros n\u00e3o aparecem porque as estat\u00edsticas s\u00e3o maquiadas pelos chefes dos setores de cirurgia pl\u00e1stica dos hospitais<\/span><i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Mais grave: <span style=\"color: #003300;\">em <a style=\"color: #003300;\" href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/book.php?isbn=9780520293885\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Biopolitics of Beauty: Cosmetic Citizenship and Affective Capital in Brazil <\/em><\/a>(<em>A Biopol\u00edtica da Beleza: Cidadania Cosm\u00e9tica e Capital Afetivo no Brasil<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Jarr\u00edn<\/span> <span style=\"color: #800000;\">acusa os m\u00e9dicos residentes em cirurgia pl\u00e1stica de usarem pessoas pobres como cobaias dos novos procedimentos que ir\u00e3o aplicar com sucesso, depois de formados, em sua clientela rica<\/span>. <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Quando um erro acontece, os pacientes, a maioria mulheres pobres, n\u00e3o t\u00eam recursos para entrar com um processo na Justi\u00e7a contra o hospital.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-16964\" src=\"http:\/\/www.socialistamorena.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/biopolitics-e1526428653725.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"601\" \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>O antrop\u00f3logo encontrou <span style=\"color: #800000;\">casos como o de Celine, em Belo Horizonte, que foi orientada a relatar ter uma h\u00e9rnia e sentir dores intestinais para conseguir uma abdominoplastia sem custo, paga pelo SUS, feita por um residente em cirurgia pl\u00e1stica.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cIsto permitiria que <span style=\"color: #800000;\">o cirurgi\u00e3o conduzisse uma cirurgia de maior envergadura que ele chamaria de corre\u00e7\u00e3o de h\u00e9rnia, enquanto estava, na verdade, fazendo uma mini-abdominoplastia,<\/span> uma nova t\u00e9cnica que ele afirmava ser menos invasiva. <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Celine concordou, <span style=\"color: #800000;\">esperando se livrar do excesso de tecido na barriga que a chateava desde a segunda gravidez\u201d, escreveu Jarr\u00edn. \u201cQuando ela acordou da cirurgia, por\u00e9m, viu que sua barriga estava deformada e desnivelada, com uma cicatriz muito pior do que a da cesariana.\u201d<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cO jovem cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico ofereceu <span style=\"color: #800000;\">uma cirurgia corretiva, novamente de gra\u00e7a, mas ela recusou, com medo que ele simplesmente n\u00e3o tivesse experi\u00eancia suficiente para fazer um bom trabalho. N\u00e3o valeria a pena, ela me disse, denunciar o m\u00e9dico ou process\u00e1-lo na Justi\u00e7a, porque ela n\u00e3o conseguiria nada e advogados custam muito caro.\u201d<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Outro caso relatado foi <span style=\"color: #800000;\">o de Renata, submetida a uma mamoplastia em um hospital universit\u00e1rio do Rio de Janeiro.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cEla esperava recuperar os seios firmes que tinha quando era mais jovem. No dia da cirurgia, por\u00e9m, descobriu que seria operada por um jovem residente colombiano que nunca tinha encontrado antes, e que a cirurgia seria apenas supervisionada por um cirurgi\u00e3o experiente\u201d, Jarr\u00edn conta.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\"> A cirurgia de Renata foi um fracasso: um dos seios ficou mais alto do que o outro e os mamilos ficaram fora de lugar. Al\u00e9m disso, o local das cicatrizes passou a infeccionar com frequ\u00eancia<\/span>.<\/strong><\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #008000;\">A cirurgia de Renata foi um fracasso: um dos seios ficou mais alto do que o outro e os mamilos ficaram fora de lugar. Al\u00e9m disso, o local das cicatrizes passou a infeccionar com frequ\u00eancia<\/span><i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cRenata pensou em acionar o m\u00e9dico judicialmente, mas descobriu que suas chances de ganhar eram m\u00ednimas, <span style=\"color: #008000;\">e que mesmo com um advogado trabalhando <em>pro bono<\/em> ela n\u00e3o teria dinheiro para processar: s\u00f3 a avalia\u00e7\u00e3o de especialistas para confirmar o erro m\u00e9dico lhe custaria no m\u00ednimo 3.500 reais\u201d, diz o livro.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Ela decidiu ent\u00e3o processar o hospital para que custeasse a avalia\u00e7\u00e3o. Eles recusaram, oferecendo apenas refazer a cirurgia gratuitamente, desta vez com o pr\u00f3prio diretor do setor de cirurgia pl\u00e1stica no comando.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cNeste meio tempo, ela teria que se conformar em ter seios deformados que a faziam incrivelmente infeliz e que ela n\u00e3o poderia consertar se decidisse ir \u00e0 Justi\u00e7a, porque eles eram a \u00fanica prova do erro m\u00e9dico do qual tinham sido v\u00edtimas.\u201d<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>O antrop\u00f3logo equatoriano tamb\u00e9m afirma que <span style=\"color: #800000;\">uma t\u00e9cnica question\u00e1vel s\u00f3 passou a ser amplamente utilizada ap\u00f3s ser experimentada na rede p\u00fablica, com os pobres como cobaias: a bioplastia, aplica\u00e7\u00e3o de uma subst\u00e2ncia pl\u00e1stica, o PMMA, para \u201cpreenchimento\u201d de partes do corpo e rosto.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Jarr\u00edn diz que 60 litros de PMMA s\u00e3o utilizados por m\u00eas em procedimentos est\u00e9ticos apenas no Rio de Janeiro. Como uma aplica\u00e7\u00e3o de poucos mililitros custa pelo menos 600 reais, \u00e9 poss\u00edvel presumir que se trata de um mercado milion\u00e1rio, embora a subst\u00e2ncia esteja longe de ser segura.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>O CFM (Conselho Federal de Medicina) <a style=\"color: #333333;\" href=\"http:\/\/portal.anvisa.gov.br\/documents\/33868\/2492231\/doc_alerta_953.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fez um alerta em 2006<\/a> pedindo cautela em seu uso porque n\u00e3o se sabe o efeito do PMMA no organismo a longo prazo.<\/strong><\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Em sua maioria homens brancos e de elite, os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos projetam nas pacientes um padr\u00e3o de beleza europeu que tem na modelo Gisele B\u00fcndchen seu ideal, incentivando, na classe trabalhadora, a avers\u00e3o por suas caracter\u00edsticas negras e mesti\u00e7as<\/span><i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201cComo outras t\u00e9cnicas experimentais, <span style=\"color: #800000;\">a bioplastia foi testada primeiro nos corpos de pacientes de baixa renda em hospitais p\u00fablicos, mas se tornou dispon\u00edvel para uso do p\u00fablico em geral sem um hist\u00f3rico comprovado de seguran\u00e7a\u201d, diz o livro. \u201cH\u00e1 controv\u00e9rsia sobre quem inventou a bioplastia<\/span>, porque um cirurgi\u00e3o do Rio de Janeiro diz que ele e seus estudantes de medicina primeiro testaram o uso est\u00e9tico do PMMA em um hospital p\u00fablico, percebendo seu potencial.\u201d<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">O mais chocante do trabalho de Alvaro Jarr\u00edn s\u00e3o as conclus\u00f5es a que ele chega a partir destas descobertas: que os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos brasileiros s\u00e3o influenciados at\u00e9 hoje pelo conceito de eugenia e pelas concep\u00e7\u00f5es ultrapassadas de Cesare Lombroso<\/span>. <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Em sua maioria homens brancos e de elite, <span style=\"color: #800000;\">os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos projetam nas pacientes um padr\u00e3o de beleza europeu que tem na modelo Gisele B\u00fcndchen seu ideal, incentivando, na classe trabalhadora, a avers\u00e3o por suas caracter\u00edsticas negras e mesti\u00e7as, e perpetuando a baixa autoestima e uma vis\u00e3o racista da beleza.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_16954\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16954\" src=\"http:\/\/www.socialistamorena.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/negroide-e1526418520902.png\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"266\" \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Nariz \u201cnegroide\u201d na Acta Cirurgica Brasileira. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Logo na introdu\u00e7\u00e3o do livro, Jarr\u00edn conta como o impressionou a frase que lhe foi dita por uma amiga negra: \u201cNo Brasil n\u00e3o tem feio, s\u00f3 tem pobre\u201d. A senten\u00e7a deixou claro para o antrop\u00f3logo que, para os brasileiros, ser feio ou bonito \u00e9 uma quest\u00e3o de ter dinheiro.<\/span> Tamb\u00e9m ficou evidente para ele que <span style=\"color: #008000;\">\u201cboa apar\u00eancia\u201d, requisito exigido em todos os empregos por aqui, \u00e9 sin\u00f4nimo de ser branco, ter cabelo liso e \u201cnariz fino\u201d<\/span>, da\u00ed a <span style=\"color: #008000;\">busca por \u201cafinar o nariz\u201d nas classes mais baixas, cirurgia estimulada por profissionais de sa\u00fade que at\u00e9 hoje chamam o nariz \u201cachatado\u201d de \u201cnegroide\u201d, uma terminologia de dois s\u00e9culos atr\u00e1s.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u201c<span style=\"color: #008000;\">Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos e outros m\u00e9dicos com certeza representam e reproduzem os ideais de beleza das elites brancas brasileiras, j\u00e1 que s\u00e3o membros dessas elites e t\u00eam interesse em manter as hierarquias est\u00e9ticas de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero que o pa\u00eds possui\u201d,<\/span> diz o antrop\u00f3logo. <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #008000;\">\u201cOs cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos t\u00eam um discurso racializado da beleza no Brasil, e fazem o diagn\u00f3stico do \u2018nariz negroide\u2019 como um problema que precisa de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, e falam de pessoas que se \u2018misturaram demais\u2019 e portanto precisam de cirurgia pl\u00e1stica.<\/span>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Os modelos de beleza nacionais, segundo os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos, s\u00e3o mulheres como a Gisele B\u00fcndchen, pessoas que s\u00e3o claramente de origem europeia, e simplesmente n\u00e3o representam a diversidade racial e a diversidade de corpos no Brasil.\u201d<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos t\u00eam um discurso racializado da beleza no Brasil, e fazem o diagn\u00f3stico do &#8216;nariz negroide&#8217; como um problema que precisa de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, e falam de pessoas que se &#8216;misturaram demais&#8217; e portanto precisam de cirurgia pl\u00e1stica<\/span><i class=\"fa fa-twitter\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Por tudo isso, <span style=\"color: #800000;\">o equatoriano desafia o \u201cdireito \u00e0 beleza\u201d propagandeado por nosso mais festejado cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico, Ivo Pitanguy, que angariou prest\u00edgio tal \u00e0 profiss\u00e3o que ningu\u00e9m questiona que o Estado brasileiro permita fazer cirurgias pl\u00e1sticas pelo SUS. \u201cOs cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos utilizam sua disciplina m\u00e9dica para refor\u00e7ar as diferen\u00e7as de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero no pa\u00eds, e n\u00e3o democratizam a beleza\u201d, afirma.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">O antrop\u00f3logo Alvaro Jarr\u00edn falou ao site com exclusividade, por e-mail<\/span>.<\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_16955\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16955\" src=\"http:\/\/www.socialistamorena.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/20180503-Prof-Alvaro-Jarrin-Portraits-ab-4-e1526419330550.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>O professor Alvaro Jarr\u00edn. Foto: arquivo pessoal<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Socialista Morena \u2013 Por que voc\u00ea se interessou pela quest\u00e3o das cirurgias pl\u00e1sticas no Brasil?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>Alvaro Jarr\u00edn \u2013 Minha especializa\u00e7\u00e3o dentro da antropologia \u00e9 a antropologia m\u00e9dica ou antropologia da sa\u00fade, e portanto estava muito interessado no sistema de sa\u00fade brasileiro.\u00a0 <span style=\"color: #800000;\">Eu sabia que o pa\u00eds tinha um n\u00famero muito alto de cirurgias pl\u00e1sticas, mas inicialmente eu ia pesquisar o turismo m\u00e9dico que traz estrangeiros ao Brasil para fazer pl\u00e1stica.\u00a0 Foi s\u00f3 depois de falar com cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos brasileiros que fiquei sabendo que o sistema p\u00fablico de sa\u00fade dava acesso \u00e0 cirurgias pl\u00e1sticas. Isso \u00e9 bastante \u00fanico no mundo, e tem muito a ver com a vis\u00e3o do Ivo Pitanguy e a influ\u00eancia que ele teve desde os anos 1960 com seu conceito do \u201cdireito \u00e0 beleza,\u201d que ganhou apoio do governo do Juscelino Kubitschek e continua at\u00e9 hoje em dia.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 \u00c9 diferente no Equador? Te chocou a mudan\u00e7a cultural, a forma como n\u00f3s, brasileiros, naturalizamos estas cirurgias?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 As cirurgias pl\u00e1sticas est\u00e3o ficando mais comuns no Equador, <span style=\"color: #800000;\">mas ainda s\u00e3o um produto de consumo limitado \u00e0s elites do pa\u00eds. O que mais me surpreendeu no Sudeste brasileiro \u00e9 o quanto a cirurgia pl\u00e1stica tem se popularizado em todas as classes sociais, dos mais ricos aos mais pobres, e a ampla percep\u00e7\u00e3o de que a \u2018boa apar\u00eancia\u2019 \u00e9 crucial para ter qualquer tipo de oportunidades na vida.\u00a0 Beleza, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 simplesmente um assunto de vaidade, mas \u00e9 algo muito mais profundo, e tem a ver com acesso \u00e0 cidadania e com as profundas desigualdades de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe que o pa\u00eds vive.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Voc\u00ea afirma em seu livro que <span style=\"color: #800000;\">as pessoas pobres, sobretudo mulheres pobres, est\u00e3o sendo usadas por residentes em hospitais p\u00fablicos como cobaias para se esmerarem nas t\u00e9cnicas que ser\u00e3o melhor utilizadas nas ricas.<\/span> Muitos erros m\u00e9dicos surgem dessa pr\u00e1tica? N\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o por parte do governo?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 <span style=\"color: #800000;\">Nos hospitais p\u00fablicos, universit\u00e1rios e filantr\u00f3picos do Sudeste brasileiro \u2013hospitais que dependem do SUS\u2013, as cirurgias pl\u00e1sticas s\u00e3o utilizadas para os residentes em cirurgia pl\u00e1stica poderem p\u00f4r em pr\u00e1tica as t\u00e9cnicas que eles s\u00f3 sabem em teoria, e desenvolver novas t\u00e9cnicas que ainda s\u00e3o experimentais. Os residentes s\u00e3o supervisionados por m\u00e9dicos formados em cirurgia pl\u00e1stica e ganham experi\u00eancia aos poucos, mas acontecem erros s\u00e9rios que deixam os pacientes das classes populares (a maioria mulheres) com problemas graves, sejam cicatrizes, infec\u00e7\u00f5es ou resultados est\u00e9ticos que as tornam mais infelizes do que antes.<\/span> <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Por\u00e9m, \u00e0 diferen\u00e7a dos pacientes com mais condi\u00e7\u00f5es, os pacientes pobres n\u00e3o possuem recursos para processar por erro m\u00e9dico ou ganhar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia.\u00a0A maioria dos pacientes nos hospitais p\u00fablicos ficam felizes com as cirurgias que recebem, mas uma importante minoria est\u00e1 sendo injusti\u00e7ado. Do ponto de vista \u00e9tico, me preocupa que pessoas corram riscos sem necessidade.\u00a0 <span style=\"color: #800000;\">O governo n\u00e3o fiscaliza estas cirurgias, em parte porque o governo n\u00e3o tem os recursos nem o capital humano para fiscalizar o que ocorre no dia a dia dentro dos hospitais financiados pelo SUS, e em parte porque os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos brasileiros t\u00eam um prest\u00edgio muito alto e n\u00e3o s\u00e3o questionados pelos seus colegas.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><strong>Nos hospitais p\u00fablicos, universit\u00e1rios e filantr\u00f3picos do Sudeste \u2013hospitais que dependem do SUS\u2013, as cirurgias pl\u00e1sticas s\u00e3o utilizadas para os residentes poderem p\u00f4r em pr\u00e1tica as t\u00e9cnicas que s\u00f3 sabem em teoria, e desenvolver novas t\u00e9cnicas que ainda s\u00e3o experimentais<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Acredito que a ideia geral (a minha, por exemplo) \u00e9 que as cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticas no SUS seriam para problemas como seios grandes que causam dores na coluna, deforma\u00e7\u00f5es faciais\u2026 Mas, pelo que voc\u00ea diz, <span style=\"color: #800000;\">hoje 95% das cirurgias pl\u00e1sticas no servi\u00e7o p\u00fablico s\u00e3o est\u00e9ticas. Como foi que isso mudou?<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 A mudan\u00e7a ocorreu aos poucos, por press\u00e3o dos residentes que preferem aprender cirurgias est\u00e9ticas que eles podem depois vender em cl\u00ednicas particulares, e por a\u00e7\u00f5es do Conselho Federal de Medicina que relativizaram a defini\u00e7\u00e3o de cirurgia reparadora. Inicialmente, <span style=\"color: #800000;\">quando Pitanguy inaugurou seu servi\u00e7o na Santa Casa da Miseric\u00f4rdia em 1960, a maior parte das cirurgias eram reparadoras e tratavam deformidades cong\u00eanitas ou casos de queimaduras graves<\/span>.\u00a0 <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Por\u00e9m, pouco a pouco esse tipo de cirurgia reparadora perdeu import\u00e2ncia na Santa Casa e em outros servi\u00e7os similares abertos em hospitais p\u00fablicos, universit\u00e1rios e filantr\u00f3picos no pa\u00eds. <span style=\"color: #800000;\">As cirurgias reparadoras simplesmente n\u00e3o d\u00e3o lucro e todos os residentes que eu entrevistei n\u00e3o t\u00eam nenhum interesse em aprender a faz\u00ea-las.\u00a0<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\"> N\u00e3o s\u00e3o simplesmente residentes brasileiros, mas residentes do mundo inteiro que v\u00eam ao Brasil para aprender cirurgias est\u00e9ticas, e as residencias m\u00e9dicas que ensinam uma maior porcentagem de cirurgias est\u00e9ticas t\u00eam uma melhor reputa\u00e7\u00e3o global e s\u00e3o mais atrativas. Ao mesmo tempo, a profiss\u00e3o m\u00e9dica como um todo come\u00e7ou a relativizar o que podia ser inclu\u00eddo como cirurgia reparadora<\/span>, e com o passar de tempo um maior n\u00famero de\u00a0cirurgias foram consideradas n\u00e3o s\u00f3 est\u00e9ticas mas cirurgias reparadoras pelo CFM, incluindo cirurgias de mama, cirurgias de p\u00e1lpebra, cirurgias de face, abdominoplastias, etc.\u00a0Isto facilitou a inclus\u00e3o de mais e mais cirurgias no conceito de cirurgia reparadora, embora estas cirurgias seriam consideradas cirurgias est\u00e9ticas em outros pa\u00edses.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Em seu livro voc\u00ea diz que <span style=\"color: #800000;\">\u00e9 frequente rinoplastias virarem \u201cdesvio de septo\u201d e pl\u00e1sticas no rosto virarem \u201ccorre\u00e7\u00e3o de paralisia facial\u201d. Os cirurgi\u00f5es recorrem \u00e0\u00a0fraude para disfar\u00e7ar essas cirurgias? Isso \u00e9 recorrente?<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Durante os tr\u00eas anos da minha pesquisa em diferentes hospitais do Sudeste brasileiro, eu vi centenas de casos onde a cirurgia mudava de nome para conseguir que o SUS pagasse por ela. <span style=\"color: #800000;\">Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos e os residentes s\u00e3o os \u00fanicos presentes durante o diagn\u00f3stico do problema que o paciente est\u00e1 sofrendo, e eles tamb\u00e9m s\u00e3o os que preenchem os documentos que justificam a cirurgia aos olhos do governo.\u00a0<\/span>De certa forma, os m\u00e9dicos t\u00eam a total autoridade do Estado dentro do espa\u00e7o hospitalar, e eles utilizam essa autoridade para transformar o sistema p\u00fablico de sa\u00fade em algo que eles acham \u00fatil e importante. <span style=\"color: #800000;\">Acho que eles n\u00e3o chamariam isso de fraude, simplesmente diriam que d\u00e3o um jeito para aprovar as cirurgias necess\u00e1rias. Por\u00e9m, do ponto de vista do governo, isto representa um gasto enorme num sistema de sa\u00fade que j\u00e1 tem recursos muito limitados, e as estat\u00edsticas que o governo possui certamente est\u00e3o erradas e n\u00e3o representam a realidade.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Esta pr\u00e1tica ocorre tamb\u00e9m na famosa cl\u00ednica do Pitanguy?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 <span style=\"color: #800000;\">A cl\u00ednica do Pitanguy em Botafogo, Rio de Janeiro, s\u00f3 faz cirurgias particulares, mas a enfermaria dele, na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia, faz agora quase s\u00f3 cirurgias est\u00e9ticas, embora originalmente tenha sido criada para cirurgia reparadora. Diferentemente de outros servi\u00e7os na rede p\u00fablica,<\/span> a enfermaria do Pitanguy \u00e9 financiada pelos ex-alunos dele, e oferecem cirurgias a baixo custo, n\u00e3o de gra\u00e7a. A enfermaria n\u00e3o \u00e9 financiada pelo SUS diretamente, mas a estrutura hospitalar geral da Santa Casa depende sim do SUS. Mas foi em outros hospitais da rede p\u00fablica que eu vi a tend\u00eancia de reclassificar cirurgias para que sejam cobertas pelo SUS.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><strong>Vi centenas de casos onde a cirurgia mudava de nome para conseguir que o SUS pagasse por ela. Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos e os residentes s\u00e3o os \u00fanicos presentes durante o diagn\u00f3stico, e tamb\u00e9m s\u00e3o os que preenchem os documentos que justificam a cirurgia aos olhos do governo<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Como eles conseguiram colocar um produto exclusivo para uso est\u00e9tico, como \u00e9 o PMMA, na rede p\u00fablica?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 O PMMA tem usos na cirurgia reparadora, por exemplo em pacientes que s\u00e3o soropositivos e que sofrem m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de gordura devido aos medicamentos que precisam tomar.\u00a0Por\u00e9m, o PMMA \u00e9 muito mais lucrativo como preenchimento est\u00e9tico, embora seja uma t\u00e9cnica de alto risco. Residentes de medicina que desejam aprender a fazer aplica\u00e7\u00f5es de PMMA acham formas de oferecer esses servi\u00e7os aos pacientes da classe trabalhadora, n\u00e3o s\u00f3 em hospitais da rede p\u00fablica mas em centros de medicina est\u00e9tica que oferecem preenchimentos a baixo custo. <span style=\"color: #800000;\">Eu entrevistei uma mulher que at\u00e9 servia de cobaia para um m\u00e9dico em congressos de medicina est\u00e9tica, e ele fazia preenchimentos no rosto dela de gra\u00e7a, em troca de vender o produto que ele oferecia a outros m\u00e9dicos.\u00a0Devido ao lucro que representam, h\u00e1 v\u00e1rias outras especialidades m\u00e9dicas al\u00e9m da cirurgia pl\u00e1stica que oferecem procedimentos est\u00e9ticos a pacientes de baixos recursos.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Dilma errou em aprovar a cirurgia pl\u00e1stica gratuita para mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Infelizmente <span style=\"color: #800000;\">a aprova\u00e7\u00e3o de cirurgias pl\u00e1sticas para v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica simplesmente abriu todo um novo caminho para justificar cirurgias est\u00e9ticas, e com certeza vai beneficiar muitos pacientes que nunca sofreram viol\u00eancia.<\/span> Acho tamb\u00e9m que garantir este tipo de cirurgia s\u00f3 trata um dos sintomas da desigualdade de g\u00eanero no pa\u00eds, e n\u00e3o faz nada para evitar novos tipos de viol\u00eancia.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m aborda a quest\u00e3o racial por tr\u00e1s das cirurgias pl\u00e1sticas na classe trabalhadora. <span style=\"color: #800000;\">\u201cAfinar\u201d o nariz \u00e9 quase uma exig\u00eancia do mercado de trabalho e da sociedade. Ser \u201cpreto, pobre e feio\u201d \u00e9 considerado uma maldi\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds?<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 <span style=\"color: #800000;\">Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos t\u00eam um discurso racializado da beleza no Brasil, e fazem o diagn\u00f3stico do \u201cnariz negroide\u201d como um problema que precisa de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, e falam de pessoas que se \u201cmisturaram demais\u201d e portanto precisam de cirurgia pl\u00e1stica<\/span>.\u00a0Os modelos de beleza nacionais, segundo os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos, s\u00e3o mulheres como a Gisele B\u00fcndchen, pessoas que s\u00e3o claramente de origem europeia, e simplesmente n\u00e3o representam a diversidade racial e a diversidade de corpos no Brasil.\u00a0Por\u00e9m, as mulheres de classe trabalhadora que eu entrevistei nem sempre concordam com esses discursos m\u00e9dicos. <span style=\"color: #800000;\">Embora procurem afinar o nariz, falam disso como uma consequ\u00eancia direta da discrimina\u00e7\u00e3o racial e da discrimina\u00e7\u00e3o de classe.\u00a0Muitas descreveram a procura pela cirurgia pl\u00e1stica como a \u201cditadura da beleza\u201d. A est\u00e9tica corporal, em minha an\u00e1lise, \u00e9 a arena de conflito onde diferen\u00e7as de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero est\u00e3o sendo discutidas no Brasil.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 No aspecto social, <span style=\"color: #800000;\">voc\u00ea afirma que a primeira coisa que uma pessoa faz quando se torna bem-sucedida \u00e9 alisar o cabelo e afinar o nariz. Como voc\u00ea v\u00ea a influ\u00eancia de \u00edcones pop como Anitta nisso? Quando ela ficou famosa a primeira coisa que fez foi uma rinoplastia.<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 A mobilidade social est\u00e1 muito ligada \u00e0 apar\u00eancia no Brasil.\u00a0<span style=\"color: #800000;\">Muitos dos pacientes da classe trabalhadora que eu entrevistei enxergavam a cirurgia pl\u00e1stica como algo que ia possibilitar sua mobilidade social no futuro, ou que ia garantir qualquer mobilidade social que j\u00e1 haviam conquistado. Isso explica por que a cirurgia pl\u00e1stica continua crescendo no pa\u00eds, inclusive em \u00e9pocas de crise econ\u00f4mica, quando outras formas de consumo diminuem.\u00a0O fato de celebridades falarem das cirurgias pl\u00e1sticas que fizeram com certeza alimenta esse imagin\u00e1rio popular de que beleza, fama e sucesso est\u00e3o interligados.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #333333;\"><strong>O Brasil precisa se questionar se oferecer cirurgia pl\u00e1stica na rede p\u00fablica \u00e9 \u00e9tico e necess\u00e1rio. Num contexto em que o governo est\u00e1 fazendo cortes muito grandes no SUS, \u00e9 preciso repensar se o &#8220;direito \u00e0 beleza&#8221; \u00e9 sustent\u00e1vel e se realmente beneficia a popula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 <span style=\"color: #800000;\">O fato de os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos serem, em sua maioria, homens brancos, influencia nesta concep\u00e7\u00e3o de que ter boa apar\u00eancia \u00e9 sin\u00f4nimo de ter a pele branca? Se fosse poss\u00edvel tamb\u00e9m branquear a pele al\u00e9m de afinar o nariz as pessoas fariam isso?<\/span><\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">\u2013 O Brasil afortunadamente n\u00e3o tem a epidemia de tratamentos de \u201cclareamento de pele\u201d que outros pa\u00edses t\u00eam, como a \u00cdndia.\u00a0<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Embora os afrobrasileiros claramente sofram preconceito no Brasil, <span style=\"color: #800000;\">o ideal em termos de cor \u00e9 o moreno de sol, que representa a habilidade de poder frequentar a praia e consumir essas formas de lazer negadas aos mais pobres.\u00a0Afinar o nariz e fazer escova no cabelo s\u00e3o mais importantes como marcadores raciais do que clarear a pele no Brasil,<\/span> embora <span style=\"color: #008000;\">haja dermatologistas brasileiros que oferecem tratamentos para clarear a pele. Os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos e outros m\u00e9dicos com certeza representam e reproduzem os ideais de beleza das elites brancas brasileiras<\/span>, j\u00e1 que s\u00e3o membros dessas elites e t\u00eam interesse em manter as hierarquias est\u00e9ticas de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero que o pa\u00eds possui.\u00a0Por exemplo, a grande maioria de servi\u00e7os de cirurgia pl\u00e1stica no pa\u00eds simplesmente refor\u00e7am a ideia de que as mulheres devem ser mais femininas e os homens mais masculinos, e fazem quase imposs\u00edvel que travestis e transexuais tenham acesso a qualquer tipo de cirurgia pl\u00e1stica.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Voc\u00ea cita m\u00e9dicos brasileiros explicando que s\u00e3o bons porque no Brasil podem fazer tudo, n\u00e3o h\u00e1 um \u00f3rg\u00e3o como o DEA, nos EUA, para impedir. Falta regula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Em outros pa\u00edses, a cirurgia pl\u00e1stica \u00e9 uma das disciplinas m\u00e9dicas com a regula\u00e7\u00e3o mais estrita, precisamente porque \u00e9 uma especialidade que facilmente cai em exageros, e que pode ter s\u00e9rias consequ\u00eancias em termos de erro m\u00e9dico se n\u00e3o for regulada adequadamente.\u00a0<span style=\"color: #008000;\">No Brasil, o prest\u00edgio que a cirurgia pl\u00e1stica tem faz dela uma das disciplinas m\u00e9dicas com menor regula\u00e7\u00e3o no mercado, e os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos brasileiros t\u00eam muitas mais liberdades para experimentar com novas t\u00e9cnicas do que em outros pa\u00edses.\u00a0<\/span>Muitos dos cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos mais s\u00e9rios que eu entrevistei estavam preocupados com o estado desta especialidade m\u00e9dica no Brasil, e criticam o fato de que\u00a0o lucro tem se convertido no principal objetivo e n\u00e3o necessariamente o bem-estar do paciente.\u00a0Por\u00e9m, acho que a regula\u00e7\u00e3o tem que vir do governo para criar mudan\u00e7as duradouras no sistema, <span style=\"color: #008000;\">porque a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pl\u00e1stica n\u00e3o est\u00e1 fazendo o suficiente para combater estes problemas.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Voc\u00ea considera um erro que a cirurgia pl\u00e1stica no Brasil possa ser feita gratuitamente no servi\u00e7o p\u00fablico?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #333333;\"><strong>\u2013 Eu considero que o Brasil precisa pelo menos se questionar se oferecer cirurgia pl\u00e1stica na rede p\u00fablica \u00e9 \u00e9tico e necess\u00e1rio.\u00a0O sistema p\u00fablico de sa\u00fade brasileiro \u00e9 muito importante porque oferece sa\u00fade aos mais pobres e, em certas \u00e1reas, como o tratamento do c\u00e2ncer, o Brasil est\u00e1 bem \u00e0 frente de muitos outros pa\u00edses onde s\u00f3 os ricos t\u00eam acesso ao melhor tratamento. Por\u00e9m, num contexto de austeridade, em que o governo brasileiro est\u00e1 fazendo cortes muito grandes no SUS, \u00e9 preciso repensar se o \u201cdireito \u00e0 beleza\u201d \u00e9 sustent\u00e1vel e se realmente beneficia a popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Meu trabalho questiona o conceito de que os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos simplesmente est\u00e3o fazendo um trabalho humanit\u00e1rio nos hospitais da rede p\u00fablica, porque eles claramente se beneficiam e os pacientes as vezes pagam as consequ\u00eancias.\u00a0Al\u00e9m disso, os cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos utilizam sua disciplina m\u00e9dica para refor\u00e7ar as diferen\u00e7as de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero no pa\u00eds, e n\u00e3o democratizam a beleza.<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cynara Menezes 15 de maio de 2018, 21h37 7 Quando se fala em cirurgia pl\u00e1stica pelo SUS (Servi\u00e7o \u00danico de Sa\u00fade), ou seja, paga por n\u00f3s, cidad\u00e3os, sempre se pensa em cirurgia reparadora: para corrigir defeitos do corpo ou da face cong\u00eanitos ou acidentais, deformidades resultantes de queimaduras e redu\u00e7\u00e3o de seios para problemas de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9419"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9419"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9420,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9419\/revisions\/9420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}