{"id":9347,"date":"2018-11-02T06:25:38","date_gmt":"2018-11-02T09:25:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/?p=9347"},"modified":"2018-11-02T06:25:38","modified_gmt":"2018-11-02T09:25:38","slug":"artigo-de-luiz-alberto-gomez-de-souza-grande-catolico-social-pela-construcao-de-uma-frente-ampla-democratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/2018\/11\/02\/artigo-de-luiz-alberto-gomez-de-souza-grande-catolico-social-pela-construcao-de-uma-frente-ampla-democratica\/","title":{"rendered":"Artigo de Luiz Alberto G\u00f3mez de Souza, grande cat\u00f3lico social, pela constru\u00e7\u00e3o de uma Frente Ampla Democr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Artigo de 30.10.2018. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Nas \u00faltimas semanas, vivemos um certo movimento de tomada de consci\u00eancia cidad\u00e3. Houve como que um despertar de alguns setores da popula\u00e7\u00e3o, que se deram conta de um perigo iminente. \u00c9 o que se chamou uma poss\u00edvel virada eleitoral. Expressiva nas grandes cidades, com pessoas de todas as idades, mas particularmente entre jovens e mulheres. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tempo curto, que n\u00e3o impediu a derrota de nosso candidato Haddad, mas que mostrou um movimento saud\u00e1vel na sociedade e que poder\u00e1 servir para desenhar um caminho futuro. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pela rua, no momento da vota\u00e7\u00e3o, aqui no Rio, havia um grande n\u00famero de botons 13, de pessoas de uma alegria contagiante. Do outro lado, uma certa perplexidade, diante de uma vit\u00f3ria que j\u00e1 n\u00e3o parecia t\u00e3o fragorosa. Mesmo assim, foi uma ampla maioria, de cerca de 12%. Em S\u00e3o Paulo, ela foi enorme. Ali nasceram PT e PSDB, assim como fortes movimentos sindicais. E agora \u00e9 o centro do conservadorismo. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em plano nacional, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas pesquisas, foi caindo a diferen\u00e7a entre os dois candidatos, mas n\u00e3o levou a uma invers\u00e3o no resultado final. <span style=\"color: #800000;\">H\u00e1 como que dois brasis, o do nordeste, onde ganhou Haddad e as outras regi\u00f5es. Temos, neste momento, alguns ingredientes b\u00e1sicos com que preparar um programa de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o futuro.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o posso deixar de lembrar, no passado, dois momentos traum\u00e1ticos para o pa\u00eds: <span style=\"color: #800000;\">a elei\u00e7\u00e3o de J\u00e2nio e sua vassoura e de Collor com a den\u00fancia dos maraj\u00e1s, dois presidentes sem equil\u00edbrio nem apoio pol\u00edtico.<\/span> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Receberam o voto de setores de classe m\u00e9dia, como agora, pendentes de um discurso anticorrup\u00e7\u00e3o. Uma \u00e9tica necess\u00e1ria virava um moralismo simplificador e enganoso. Ali\u00e1s, <span style=\"color: #800000;\">a falta de \u00e9tica desses dois presidentes foi ficando evidente, na vida privada e p\u00fablica. Estaremos repetindo o mesmo erro, com os mesmos apoios?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bolsonaro aproveitou o terr\u00edvel atentado para posar como v\u00edtima ou para eximir-se de debater e de apresentar um programa de governo minimamente coerente. <span style=\"color: #800000;\">E ent\u00e3o, assim, jornalistas a soldo, se lan\u00e7aram como abutres contra a dupla democr\u00e1tica. Lembremos a valentia de Manuela diante de perguntas mal intencionadas num programa roda viva.<\/span> Ou no mesmo programa a clareza de estadista de Fernando Haddad. Antes, <span style=\"color: #800000;\">ele fora agredido com viol\u00eancia por uma dupla raivosa, que n\u00e3o fazia perguntas mas desfiava acusa\u00e7\u00f5es sem prova.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de refletir sobre o que est\u00e1 acontecendo no pa\u00eds. Vivemos um tempo de divis\u00e3o profunda, marcada pela intoler\u00e2ncia, e, inclusive h\u00e1 que dizer, com a contribui\u00e7\u00e3o apaixonada de companheiros de nosso lado. Fam\u00edlias, amigos, colegas, entraram em choque e ficou dif\u00edcil a conviv\u00eancia. A sociedade adoeceu. Como recuperar o que os ingleses chamam sanity? H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o a tirar para nosso lado democr\u00e1tico. N\u00e3o podemos cair na s\u00edndrome paralisante da decep\u00e7\u00e3o e da derrota. Mas, principalmente, n\u00e3o dever\u00edamos reagir com agressividade e rancor, por mais que pudesse haver raz\u00e3o de sobra, ao descobrir um trabalho criminoso de falseamento da realidade e de constru\u00e7\u00e3o de slogans absurdos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O curioso \u00e9 que muitos votaram em <span style=\"color: #800000;\">Bolsonaro em nome do novo na pol\u00edtica. Incr\u00edvel a falta de mem\u00f3ria. Esse cidad\u00e3o foi deputado em mais de uma legislatura, obscuro, imerso h\u00e1 tempos no grupo informe do chamado baixo clero.<\/span> Apareceu para a opini\u00e3o p\u00fablica naquela noite lament\u00e1vel, capitaneada vingativamente por Eduardo Cunha, no encaminhamento do impeachment de Dilma Rousseff. <span style=\"color: #800000;\">Ali, na sua declara\u00e7\u00e3o, fez uma incr\u00edvel homenagem a um dos maiores torturadores dos tempos da ditadura. Procurando descobrir sua atua\u00e7\u00e3o nas vota\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara, vemos que estava sempre ao lado do chamado grupo da bala, daquele do boi e de um fundamentalismo religioso. Nada mais velho e caduco.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Assusta ver pessoas inteligentes e de boa vontade dizerem coisas insensatas e sem provas, afirmando que o pa\u00eds correria o risco de se tornar uma nova Venezuela, ou que seria invadido por m\u00e9dicos cubanos doutrinadores. Ou invocando um inexistente &#8220;kit gay&#8221;. Ao tentar desmanchar esses equ\u00edvocos, <span style=\"color: #800000;\">muitas vezes nos temos deparado com um semblante r\u00edgido e inexpressivo, incapaz de entrar num contradit\u00f3rio. Fi\u00e9is de igrejas pentecostais votam no que os pastores ordenam, considerando que s\u00f3 eles dizem a verdade. O di\u00e1logo torna-se quase imposs\u00edvel.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 dois tipos de eleitores bolsonarescos. <span style=\"color: #800000;\">Uns, que tem a mesma s\u00edndrome violenta do candidato e que agridem advers\u00e1rios, odeiam negros e gays ou s\u00e3o de um machismo espantoso. A\u00ed, pelo momento, h\u00e1 pouco a fazer, a n\u00e3o ser denunciar uma s\u00edndrome de destrui\u00e7\u00e3o, que surge em todos as ocasi\u00f5es que viram nascer o nazismo e o fascismo.<\/span> Temos de apelar aos psiquiatras e aos psic\u00f3logos e lembrar com eles, Karen Horney e sua mentalidade neur\u00f3tica de nosso tempo, ou o medo da liberdade de Eric Fromm. Joel Birman tem desocultado com maestria essa enfermidade coletiva.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas h\u00e1 outra parte dos que votaram Bolsonaro, que absorveu acriticamente not\u00edcias falsas ou deturpadas, difundidas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ou por p\u00falpitos. Com esses temos de preparar o caminho para um di\u00e1logo. H\u00e1 que provar que realmente aceitamos o pluralismo e que estamos dispostos inclusive a rever nossas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es. Tudo num clima de abertura e de simplicidade. Habermas falava da for\u00e7a da argumenta\u00e7\u00e3o, e ela vale nos dois sentidos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 preciso aprender com a hist\u00f3ria, nas vit\u00f3rias, e especialmente nas derrotas. O grande poeta Antonio Machado, em 1939 partindo para o ex\u00edlio, onde morreria logo depois, escreveu melancolicamente: &#8220;A hist\u00f3ria n\u00e3o caminha no ritmo de nossa impaci\u00eancia&#8221;. Mas <span style=\"color: #800000;\">a resposta vem mais adiante, em 1973, na interven\u00e7\u00e3o pela radio Magallanes de Salvador Allende. Vendo os avi\u00f5es voar baixinho para bombardear o Pal\u00e1cio da Monda e ouvindo Allende despedir-se, baixou-nos num primeiro momento uma enorme tristeza e uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. Por\u00e9m disse o presidente: &#8220;M\u00e1s temprano que tarde volver\u00e1 el pueblo a las grandes alamedas..<\/span>. La historia es nuestra, la hacen los pueblos&#8221;. Suas palavras foram retiradas do ar pela est\u00e1tica dos vencedores. Mas nos trouxeram alento e esperan\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tempos depois da derrota, alguns partidos de diferentes tend\u00eancias criaram a Concerta\u00e7\u00e3o, que elegeria os primeiros presidentes democratas. Eu estava em Santiago mais adiante, voltei \u00e0 Moneda restaurada, atravessei comovido o p\u00e1tio de los naranjos, convidado para almo\u00e7ar ali pelo secret\u00e1rio-geral da presid\u00eancia, que voltara do ex\u00edlio. E no canto da pra\u00e7a, um busto de Allende estava voltado para a janela de onde tantas vezes ele se dirigira a seu povo. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Na base, trechos de sua \u00faltima alocu\u00e7\u00e3o. Mais tarde, quando Ricardo Lagos tomou posse como presidente democraticamente eleito, entrou pela porta da rua Morand\u00e9, por onde chegava Allende,<\/span> e que tinha sido taipada pela ditadura, foi at\u00e9 a sala de onde ele se tirou a vida e depositou ali uma rosa vermelha. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o corpo de Allende voltou a Santiago, atravessou a Alameda Bernardo O&#8217;Higgins, onde um povo comovido o acolheu em sil\u00eancio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tudo isso para dizer que a hist\u00f3ria pode redimir-se de seus trope\u00e7os. Sentimos isso, fortemente, os que retornamos ao Brasil entre 1977 e 1979.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Volto \u00e0 atualidade. Passada a elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 hora de preparar um novo processo. N\u00e3o deveria ser poss\u00edvel ressuscitar velhos ajustes de contas, nem fazer cobran\u00e7as, mas \u00e9 indispens\u00e1vel lembrar fatos nem sempre agrad\u00e1veis de ouvir. Aqui seria necess\u00e1ria uma grande abertura, grandeza e sentido uma revis\u00e3o hist\u00f3rica positiva. Temos uma realidade complexa pela frente.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Criou-se, certamente constru\u00eddo em bases falsas, um clima antipetista violento. Por\u00e9m o pr\u00f3prio partido n\u00e3o sai totalmente absolvido. Faz muitos anos, Tarso Genro, ent\u00e3o presidente interino, prop\u00f4s sua refunda\u00e7\u00e3o, no tempo dos esc\u00e2ndalos do mensal\u00e3o. N\u00e3o foi ouvido. Depois, vieram mais den\u00fancias, infundadas ou n\u00e3o. Talvez por culpa de alguns dirigentes, o partido passou um ar de arrog\u00e2ncia e de incapacidade para confessar falhas. E n\u00e3o se abriu a uma alian\u00e7a, em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, com outros partidos e pol\u00edticos. Por isso, num momento futuro, o PT n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ser o catalizador de uma nova alian\u00e7a, mas certamente ser\u00e1 um dos membros principais desse processo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o de uma frente deveria ser fruto de uma concerta\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, como no Chile. <span style=\"color: #800000;\">O PCdoB tem dado um exemplo, colocando-se disciplinadamente nas alian\u00e7as. Manuela d&#8217;\u00c1vila deu um lindo sinal de firmeza e de discre\u00e7\u00e3o. Fl\u00e1vio Dino, reeleito largamente no primeiro turno, entrou de cheio da campanha de Haddad,<\/span> ele que, na primeira elei\u00e7\u00e3o, viu dirigentes petistas apoiarem Roseana Sarney, agora uma vez mais derrotada. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">O PSOL, que sai com uma expressiva vota\u00e7\u00e3o em Marcelo Freixo, teria de abrir-se a alian\u00e7as, o que n\u00e3o conseguira fazer na elei\u00e7\u00e3o municipal, que levou o incompetente Crivella \u00e0 prefeitura carioca.<\/span> Assim por diante, s\u00e3o li\u00e7\u00f5es a tirar, sem m\u00e1goas, mas sem esquecer a dureza implac\u00e1vel dos fatos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Podemos elencar <span style=\"color: #800000;\">deputados eleitos, que podem ajudar a costurar essa grande alian\u00e7a: Alessandro Molon, Paulo Teixeira, Lu\u00edza Erundina, Jandira Feghali, Jean Wyllys e tantos outros que talvez eu esteja esquecendo<\/span>. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Temos senadores como Paulo Paim ou Jacques Wagner. E inclusive pol\u00edticos excelentes que foram varridos pelo tsunami eleitoral, como Flavio Suplicy, Jorge Viana, Dilma Roussef, \u00e0 frente em sondagens no come\u00e7o do per\u00edodo eleitoral ou outros com boas ra\u00edzes, como Lindberg Farias, Chico Alencar e Roberto Requi\u00e3o.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 de prever que o futuro governo poder\u00e1 ser err\u00e1tico, entre militares nacionalistas e economistas privatistas, com um presidente meio perdido no meio. Medidas draconianas poder\u00e3o fazer perder avan\u00e7os hist\u00f3ricos populares, <span style=\"color: #800000;\">nosso petr\u00f3leo seguir\u00e1 sendo rifado, como est\u00e1 fazendo este atual governo liliputiano. Poder\u00e3o crescer setores de repress\u00e3o, \u00e0 sombra de uma nova doutrina de seguran\u00e7a nacional.<\/span> O que parece prov\u00e1vel \u00e9 que, por um desgoverno, o presidente caia mais adiante, v\u00edtima de suas contradi\u00e7\u00f5es e de sua incapacidade. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poder\u00e1 haver pela frente o terr\u00edvel risco de uma interven\u00e7\u00e3o militar. Ou ent\u00e3o, ter\u00edamos, por um tempo, uma ciranda de governos fracos. Sem uma reforma pol\u00edtica &#8211; e este parlamento ser\u00e1 capaz de faz\u00ea-la? &#8211; nos espera um futuro bastante incerto. A n\u00e3o ser que, lenta, mas firmemente, se v\u00e1 afirmando <span style=\"color: #800000;\">a t\u00e3o sonhada Frente Ampla Democr\u00e1tica, Popular e Nacional.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Escrevendo este texto, depois dos foguetes e dos gritos de vit\u00f3ria, saiu de uma janela visinha a voz de Chico Buarque: &#8220;Apesar de voc\u00ea, amanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia&#8221;. Assim seja.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de 30.10.2018. &#8220;Nas \u00faltimas semanas, vivemos um certo movimento de tomada de consci\u00eancia cidad\u00e3. Houve como que um despertar de alguns setores da popula\u00e7\u00e3o, que se deram conta de um perigo iminente. \u00c9 o que se chamou uma poss\u00edvel virada eleitoral. 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