{"id":1937,"date":"2016-12-21T22:39:44","date_gmt":"2016-12-21T22:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/?p=1937"},"modified":"2016-12-22T03:04:11","modified_gmt":"2016-12-22T03:04:11","slug":"francois-perroux-a-fonte-principal-de-celso-furtado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.luizfdesouza.com.br\/index.php\/2016\/12\/21\/francois-perroux-a-fonte-principal-de-celso-furtado\/","title":{"rendered":"Fran\u00e7ois Perroux, a fonte principal de Celso Furtado"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Celso Furtado, numa linda entrevista que concedeu a pesquisadora Rosa Maria Vieira, em 06.08.2001, mostra as fontes de seu pensamento. Principalmente Fran\u00e7ois Perroux, um grande cat\u00f3lico, e tamb\u00e9m Keynes, a CEPAL, Prebisch, Roberto Simonsen, List, Manoilesco e outros. Celso Furtado defendeu a constru\u00e7\u00e3o de um grande Estado social e econ\u00f4mico, de prote\u00e7\u00e3o social, com planifica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica (cf. Karl Mannheim, autor que Alceu tamb\u00e9m cita), no fundo, o mesmo ideal que Alceu, como mostra a biografia de Alceu, &#8220;Mem\u00f3rias improvisadas&#8221;, feita por Medeiros Lima.\u00a0<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>Vejamos: &#8220;RM: E, j\u00e1 que estamos falando de leituras, eu quero perguntar, tamb\u00e9m, sobre Manoilesco e List. CF: Tomei conhecimento de Manoilesco um pouco mais tarde, quando ele teve muita repercuss\u00e3o no Brasil. 3 0 VIEIRA, R.M.. Entrevista com Celso Furtado RM: &#8230;inclusive a FIESP financiou a tradu\u00e7\u00e3o de seu livro sobre o <\/b><strong><span style=\"color: #800000;\">protecionismo para a ind\u00fastria<\/span><\/strong><b>. CF: Sim, a tradu\u00e7\u00e3o a partir do franc\u00eas, n\u00e3o \u00e9? Li esse livro com curiosidade. <span style=\"color: #800000;\">Ali\u00e1s, Prebisch fora influenciado por ele. A obra de Manoilesco tem coisas muito positivas.<\/span> <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>Mas o que ficou foi o corporativismo, que tem aspectos muito negativos. Como as duas vertentes do pensamento dele n\u00e3o foram separadas, sua influ\u00eancia tendeu a diminuir. RM: Isso provavelmente deve ter partido de cr\u00edticas do pensamento liberal, digamos assim. CF: Exato&#8230; Mas, os dirigentes da FIESP [sob a dire\u00e7\u00e3o de Roberto Simonsen, l\u00e1 por 1944 e 1945] perceberam <span style=\"color: #800000;\">a import\u00e2ncia da teoria do protecionismo, do moderno protecionismo. RM: Se me lembro bem, o Roberto Simonsen cita, freq\u00fcentemente, o Manoilesco em seus trabalhos. CF: \u00c9&#8230; ele foi traduzido e difundido por influ\u00eancia de Simonsen. RM: E List, o te\u00f3rico alem\u00e3o? CF: Eu fiz s\u00f3 uma resenha sobre o livro dele, que trata da Alemanha. Ali\u00e1s, tudo que permitia entender o atraso do Brasil me interessava. Manoilesco, por exemplo, me permitia mostrar que o Brasil n\u00e3o podia seguir pelo caminho em que estava. Ele propunha um sistema de prote\u00e7\u00e3o do setor moderno de produ\u00e7\u00e3o e List foi o grande te\u00f3rico que influenciou Manoilesco. List \u00e9 de 1840, 1850, e sua obra foi definitiva, porque criou o conceito de ind\u00fastria infantil.<\/span> Ele procurava mostrar que toda ind\u00fastria \u00e9 fr\u00e1gil no come\u00e7o <span style=\"color: #800000;\">e que, portanto, precisa de prote\u00e7\u00e3o.<\/span> <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>Todas essas id\u00e9ias foram se estruturando em minha cabe\u00e7a, como uma forma nova de pensar. <span style=\"color: #800000;\">Mas a influ\u00eancia maior que tive foi de Keynes. RM: Nessa entrevista dada \u00e0 Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares<\/span> e ao Manuel Corr\u00eaa de Andrade, l\u00e1 pelas tantas, o senhor disse algo que me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o: que a CEPAL tinha sido sua escola de trabalho como economista. Eu queria, ent\u00e3o, lhe perguntar se sua aproxima\u00e7\u00e3o mais intensa com o pensamento de Keynes ocorreu quando passou a fazer parte da CEPAL. Gostaria que me falasse um pouco, tamb\u00e9m, sobre suas rela\u00e7\u00f5es intelectuais com Raul Prebisch. CF: A verdade \u00e9 que o pensamento de Prebisch foi fundamental para mim. <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>A experi\u00eancia da CEPAL me permitiu constatar que o Brasil era um pa\u00eds atrasado, e para isso n\u00e3o havia explica\u00e7\u00e3o. Isso eu descobri assim que cheguei a Santiago, comparando as estat\u00edsticas do Brasil, da Argentina, do M\u00e9xico, do Chile. HIST\u00d3RIA ORAL, 7, 2004, p. 21-40 3 1 RM: No Fantasia Organizada o senhor fala sobre isto&#8230; CF: Trato disso, sim. Fui encarregado de fazer um mapeamento do desenvolvimento dos pa\u00edses mais importantes da Am\u00e9rica Latina durante dez anos. Ao fazer esse trabalho, constatei o quanto o Brasil era atrasado. Como explicar? O Brasil tinha mais territ\u00f3rio, mais popula\u00e7\u00e3o, mais recursos e potencial. Onde estava a sua inferioridade? Superada a teoria da inferioridade racial, a resposta s\u00f3 podia estar na Hist\u00f3ria, e l\u00e1 fui busc\u00e1-la. Tudo isso me obrigou a repensar, a abrir um caminho. E comecei a ver o fim do t\u00fanel quando li Keynes. <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>RM: E onde se deu esta aproxima\u00e7\u00e3o com Keynes, professor? CF: Na CEPAL. RM: Na CEPAL? O senhor come\u00e7ou por aquele livro do Prebisch, sobre Keynes? CF: N\u00e3o. RM: \u00e9 que ele tem um livro&#8230; CF: &#8230;um pequeno livro feito nessa \u00e9poca. RM: Isso! CF: N\u00e3o posso dizer que descobri Keynes na CEPAL, porque j\u00e1 o havia estudado antes. Mas at\u00e9 ent\u00e3o, eu via o Keynes da \u201cteoria do ciclo econ\u00f4mico\u201d, que era a sua grande contribui\u00e7\u00e3o e levava \u00e0 pol\u00edtica de estabiliza\u00e7\u00e3o. Na CEPAL, comecei a perceber a import\u00e2ncia da vis\u00e3o macroecon\u00f4mica da Hist\u00f3ria. Tratava-se, agora, de olhar a Hist\u00f3ria, vendo o macroecon\u00f4mico, para entender a l\u00f3gica do atraso e descobrir os fatores que impediam o crescimento de um pa\u00eds como o Brasil. A\u00ed, comecei a ler teoria econ\u00f4mica mais sofisticada. <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b><span style=\"color: #800000;\">RM: Em suas an\u00e1lises, a quest\u00e3o do Estado tem um papel central. O senhor tem uma leitura sobre a interven\u00e7\u00e3o do Estado no Brasil que \u00e9 paradigm\u00e1tica. Neste sentido, queria lhe perguntar sobre a import\u00e2ncia do Fran\u00e7ois Perroux. Ele tem algum papel no momento em que o senhor come\u00e7a a definir a quest\u00e3o da import\u00e2ncia do Estado? CF: O pensamento de Fran\u00e7ois Perroux foi seguramente o que mais me influenciou, pela import\u00e2ncia de sua teoria do \u201cp\u00f3lo de crescimento\u201d, que permite compreender que o crescimento econ\u00f4mico resulta de uma vontade pol\u00edtica. Perroux me orientou para pensar o papel do Estado. \u00c9 a partir da cria\u00e7\u00e3o do Estado Nacional que se pode falar de desenvolvimento. RM: O senhor se lembra o que leu de Perroux, em especial? 3 2 VIEIRA, R.M.. Entrevista com Celso Furtado CF: A Economia do S\u00e9culo XX, aqueles grandes volumes&#8230; Mas eu tamb\u00e9m fui aluno de Perroux, em Paris, segui suas confer\u00eancias. Ele lecionava na mesma faculdade onde fiz o doutorado. Assistir a uma aula de Perroux era um espet\u00e1culo, porque ele fazia uma gesticula\u00e7\u00e3o muito curiosa. Ali\u00e1s, lembro-me de que ele foi acusado de ter sido collabo&#8230; sem fundamento. Seus pr\u00f3prios pares da Universidade o absolveram. RM: Professor, o seu caminho para descoberta do papel do Estado \u00e9 um caminho que foi sedimentado pelo Keynes ou pelo Perroux? CF: Por Perroux.<\/span> <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>Keynes, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do Estado, d\u00e1, digamos assim, a sinaliza\u00e7\u00e3o do ponto de vista econ\u00f4mico. \u00c9 o te\u00f3rico da din\u00e2mica macroecon\u00f4mica. Na realidade, ele criou a necessidade de uma din\u00e2mica. O modelo <span style=\"color: #800000;\">keynesiano \u00e9 um modelo est\u00e1tico, mas \u00e9 claro que na sua \u00e9poca representou um tremendo avan\u00e7o. Keynes valorizou o papel do Estado. A partir dele cabia pensar em pol\u00edtica econ\u00f4mica e n\u00e3o mais, simplesmente, no mercado para regular a economia.<\/span> Foi um salto enorme. Isso nos deixou fascinados: <span style=\"color: #800000;\">o Brasil era atrasado porque n\u00e3o havia uma pol\u00edtica econ\u00f4mica e o mercado n\u00e3o iria resolver os problemas do pa\u00eds. Ia deixar o Brasil onde estava, acumulando cada vez mais atraso. A ruptura qualitativa na minha vis\u00e3o do mundo d\u00e1-se a\u00ed: compreender o papel do Estado, perceber que o desenvolvimento, no fundo, \u00e9 obra de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/span>, e que essa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica poderia ter sido facilitada por uma certa estrutura social, uma classe burguesa din\u00e2mica, como houve na Europa&#8230; RM: O que n\u00e3o era o caso do Brasil&#8230; CF: De fato. Aqui a classe dirigente era passiva, dominada intelectualmente de fora. Havia que se formar uma vontade pol\u00edtica. Passei, ent\u00e3o, a ver o mundo como um desafio. Fazer pol\u00edtica \u00e9 enfrentar desafios. <span style=\"color: #800000;\">N\u00e3o cabe esperar por solu\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas. N\u00e3o pode haver infra-estrutura sem pol\u00edtica, sem planejamento. O mercado \u00e9 maravilhoso, mas n\u00e3o transforma a infra-estrutura a m\u00e9dio e longo prazos. <\/span><\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b><span style=\"color: #800000;\">RM: Numa de suas entrevistas recentes o senhor disse uma frase muito significativa: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mercado sem Estado\u201d. CF: Exato. Penso, por exemplo, nas cidades italianas do passado. Uma cidade como Veneza foi um verdadeiro Estado nacional, regida por uma vontade pol\u00edtica que defendia os seus interesses para valer.<\/span> HIST\u00d3RIA ORAL, 7, 2004, p. 21-40 3 3 RM: Professor, ainda dentro desta linha, eu encontrei no seu Auto-retrato intelectual algumas <span style=\"color: #800000;\">refer\u00eancias a Mannheim, quanto \u00e0 quest\u00e3o do planejamento democr\u00e1tico. Pelo que eu estou percebendo, o senhor pensou, originalmente, a quest\u00e3o do planejamento na Faculdade de Direito, quando entrou em contato com a preocupa\u00e7\u00e3o americana com a administra\u00e7\u00e3o. Mas, h\u00e1 um dado momento em que Mannheim aparece em seu pensamento. Gostaria de saber at\u00e9 onde o senhor reconhece a influ\u00eancia de Mannheim nessa quest\u00e3o do planejamento democr\u00e1tico<\/span>. <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\"><b>E, tamb\u00e9m, uma outra coisa: at\u00e9 onde a no\u00e7\u00e3o de intelligentsia de Mannheim influenciou suas concep\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito dos intelectuais? CF: Para mim, Mannheim foi fundamental. Ele me iluminou, me tirou do tecnicismo. Pude perceber que h\u00e1 valores, que o planejamento n\u00e3o decorre apenas de uma boa estrat\u00e9gia. H\u00e1 que estar iluminado por valores, para ser democr\u00e1tico. Mannheim me ensinou a ver a sociedade como um sistema de valores, antes de tudo. RM: Quando se d\u00e1 este contato o pensamento de Mannheim? CF: Muito cedo, na \u00e9poca em que chegavam aqui as tradu\u00e7\u00f5es de suas obras feitas pelo Fondo de Cultura. Eu estava na Faculdade de Direito. O livro de Mannheim publicado por essa \u00e9poca, in\u00edcio da Segunda Guerra, foi Ideologia e Utopia. <span style=\"color: #800000;\">Havia outro livro dele sobre planifica\u00e7\u00e3o social, mas eu me concentrei no Utopia&#8230; RM: Essa id\u00e9ia, essa concep\u00e7\u00e3o de intelectual que o senhor tem, como algu\u00e9m capaz de intervir&#8230; CF: \u00c9 inspirada em Mannheim&#8230; No conceito de intelligentsia&#8221;.<\/span><\/b><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celso Furtado, numa linda entrevista que concedeu a pesquisadora Rosa Maria Vieira, em 06.08.2001, mostra as fontes de seu pensamento. 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