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Boas lições do Padre Ducattillon O.P.

No livro organizado por François Mauriac e outros, denominado “O Comunismo e os cristãos” (Vecchi Editor, RJ, 1939, pp. 113-114), há um bom texto do padre Ducattillon O. P.:

Para o cristianismo o ponto de vista é completamente o das necessidades da vida humana (que não são de modo algum consideradas de maneira puramente subjetiva).

“Por isso a tradição doutrinária do cristianismo define a pro­priedade: o direito de usar coisas: quantum ad potestatem utendi ipsis.

“E assim cada homem, na medida das suas necessidades, tem o direito de possuir aquilo de que precisa.

“O que não é, certamente, afastar os méritos do traba­lho em relação à propriedade. O cristianismo quer, pelo contrário, que o homem normal obtenha pelo trabalho aquilo que necessita para viver, e o trabalho, pelo qual um homem coloca o seu traço pessoal num objeto, adquire-o para ele por esse fato mesmo, “porque, diz Leão XIII na encíclica Rerum Novarum, assim como o efeito segue a cau­sa, também é justo que o fruto do trabalho pertença ao tra­balhador”.

“Por isso o cristianismo não esperou o comunis­mo para condenar veementemente os abusos da proprie­dade baseada numa exploração indébita do homem pelo homem. E continuará a fazê-lo quando o comunismo já ti­ver desaparecido.

“Consequentemente, o cristianismo está longe de negar que em certos casos, segundo a expressão de Proudhon, “a propriedade é o roubo.” (…)

“Há a acrescentar que, para o cristianismo, o trabalho não é a única justificativa da propriedade e que, mesmo quando o adquiriu pelo próprio labor, o homem deixa de possuir um bem desde que ele cessa de corresponder a uma necessida­de da sua vida.

“É por não ter certeza de que o comunismo dos bens pode melhor assegurar o seu destino humano que o cristianismo recusa erigi-lo em regra absoluta”.

O padre Ducattillon foi um dominicano que veio várias vezes ao Brasil.

O padre Ducattillon e o padre Lebret auxiliaram muito a Igreja.

O padre Lebret escreveu que as posições de vários pensadores e militantes da Igreja ficavam mais à esquerda que muitos socialistas e apontou pontos de unidade entre as idéias cristãs e o socialismo.

Outros discípulos de Maritain (Bernanos) moraram no Brasil e defenderam a democracia, a reforma agrária, os camponeses etc.

Alceu Amoroso Lima destacou-se como o maior discípulo de Maritain, no Brasil. Os textos acima mostram bem a condenação ao capitalismo, à propriedade liberal (quiritária, pagã, capitalista) e ao latifúndio. Condenam também o imperialismo, pois no fundo o imperialismo é a ação do grande capital internacional, criticado também por autores como John dos Passos.

Como está claro no texto transcrito acima, mesmo os bens adquiridos licitamente pelo trabalho pessoal (em quantidade ética condizente e medida pelo bem comum) deixam de ser do dono quando cessam de corresponder a uma necessidade (finalidade social, utilidade social).

comunismo tem elementos corretos, como foi exposto neste blog e apontar estes pontos é fundamental num diálogo respeitoso e ecumênico.

A Igreja inspirou os primeiros modelos de socialismo e só rejeita formas espúrias e erradas de socialismo

Marciano Vidal, na obra “Ética teológica” (Vozes, RJ, 1999, p. 607), escreveu um bom texto demonstrando que o Vaticano não condenou todas as formas de socialismo:

“depois da publicação da encíclica Quadragésimo anno, onde Pio XI afirmava que ‘ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista’, os católicos ingleses consultaram a Santa Sé para saber se o trabalhismo era atingido também pela condenação e o Vaticano respondeu negativamente, ‘posto que se achava livre do vírus anti-religioso e preconizava suas melhorias sociais pelas vias democráticas’”.

Ressalto e friso que Pio XI, na Quadragesimo anno, em 1931, mostrou que a doutrina social da Igreja e o socialismo democrático tinham vários pontos em comuns e mostrou que a Doutrina da Igreja defende a estatização dos grandes bens produtivos, dos grandes meios de produção (os bens que têm grande poder devem ser do Estado). 

A condenação era restrita aos tipos de socialismo que aderiam ao “naturalismo” (rejeição da religião), à pregação da violência sem limites (com desprezo da democracia) e à defesa da estatização total, concentratória e antidemocrática, sem estabelecer direitos subjetivos positivos e eficazes para a população.

Os Bispos da Nicarágua, na “Carta pastoral”, de 17 de novembro de 1979, distinguiram várias formas de socialismo, deixando claro que há formas de socialismo conformes à doutrina da Igreja:

“Se, como alguns pensam, o socialismo se desvirtua usurpando aos homens e aos povos sua condição de protagonistas livres de sua história; se pretende submeter o povo cegamente às manipulações e imposições dos que detêm arbitrariamente o poder, não podemos aceitar esse socialismo espúrio e falso”.

“Muito menos poderíamos aceitar um socialismo exorbitante que pretendesse arrebatar ao homem o direito às motivações religiosas de sua vida, assim como o direito de expressar publicamente suas motivações e suas convicções, qualquer que seja sua fé religiosa”.

“Igualmente inaceitável seria negar aos pais o direito de educar seus filhos segundo sua convic­ção, bem como qualquer outro direito da pessoa humana”.

“Se, ao contrário, socialis­mo significa, como deve significar, a preeminência dos interesses da maioria dos nicaragüenses e um modelo de economia planificada nacionalmente, solidária e progres­sivamente participativa, nada temos a objetar”

“Um projeto social que garanta o des­tino comum dos bens e recursos do país e permita que, sobre esta base de satisfação das necessidades fundamentais de todos, se assegure a qualidade humana da vida, parece-nos justo. Se socialismo implica numa redução das injustiças, das tradicionais desigualdades entre as cidades e o campo, entre a remuneração do trabalho intelectual e manual, se significa participação do trabalhador nos resultados de seu trabalho, superando a alienação econômica, nada há no cristianismo que implique em contradição com tal processo. O próprio papa João Paulo II acaba de recordar na ONU a preocupação causada pela separação radical entre trabalho e propriedade”.

Somente há socialismo quando as pessoas são “protagonistas livres de sua história”, onde há libertação. Sem isso, trata-se de um “socialismo espúrio e falso”. A síntese é boa, serve de abonação para as afirmativas contidas neste blog.

As fontes mais antigas do socialismo corroboram estas teses. Por exemplo, Esteban Echeverría, um argentino precursor do socialismo, escreveu o livro “Dogma socialista y otros páginas políticos” (Ediciones Estrada, Buenos Aires, 1839), inspirado em Lamennais, Mazzini, Saint-Simon e Pierre Leroux (fontes eminentemente cristãs).

Esteban também seguia as idéias de Leibnitz, Vico, Herder, Turgot, Buchez, Leroux e de outros autores cristãos. Seguia uma forma de socialismo inspirado na religião. A obra é tida como a primeira, na América Latina, a ter no título o termo “socialismo”.

O General Abreu e Lima escreveu “O socialismo”, o segundo livro socialista da América Latina, também inspirado na religião, especialmente em Buchez, Lamennais e outros precursores cristãos.

Os jornais socialistas surgidos em Pernambuco e no Rio de Janeiro, nos anos 40 do século XIX, tinham como base o socialismo francês, religioso, com base no cristianismo. No Brasil, esta afirmativa pode ser facilmente provada com uma simples pesquisa nos jornais do século XIX. Seria interessante um livro com uma antologia destes artigos favoráveis ao socialismo retirado destes jornais antigos. Provaria que o socialismo foi divulgado e veiculado em formas cristãs. Mesmo nos jornais anarquistas existem várias citações de santos e de pensadores cristãos (especialmente Lamennais).

Lamennais exerceu grande influência em vários socialistas. Influenciou a Liga dos Justos, Ludwig Börne e Weitling. Estes, por sua vez, influenciaram Marx e Engels.

Lamennais também influenciou os socialistas cristãos, através de F. D. Maurice, Charles Kingsley e dezenas de outros pensadores.

O socialismo, que tem fundamento em boas raízes bíblicas (como foi exposto por Dussel e por outros teólogos da libertação), é uma síntese, “um modelo de economia planificada nacionalmente, solidária e progressivamente participativa”, com distributismo (exige a difusão de milhões de moradias, direito à renda básica, pequenas empresas com base no trabalho pessoal ou familiar, computadores pessoais, ferramentas, difusão do ensino e da saúde etc), cooperativismo (autogestão e co-gestão), estatais organizadas como queriam Betinho e Prestes (com co-gestão), democracia, liberdades fundamentais e outros pontos programáticos.

Unir a máxima difusão de micro e pequenas propriedades e firmas com sólida base estatal, com boas estatais, proteção estatal e subsídios aos pequenos produtores, proteção alfandegária, repulsa ao livre cambismo etc. Este é o bom Caminho. 

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