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A ligação entre Paideia e as ideias semitas foi feita dentro da Bíblia, do judaísmo e do cristianismo

O livro de Júlio Trebolle Barrera, “A Bíblia judaica e a Bíblia cristã” (Petrópolis, Ed. Vozes, 1996, p. 564 e 565), mostra a linha principal do judaísmo, onde a “hermenêutica judaica, babilônica e alexandrina, oriental e ocidental, semitizante ou helenizante” tem um “ponto de condensação no personagem Hillel”, que “promulgava normas e ensinava a doutrina baseando-se mais na lógica e na dedução racional que na tradição e nas autoritates”. Como explica Trebolle Barrera, Hillel usava a “lógica”, “de corte grego”, “introduzindo no direito e no pensamento hebraico o princípio do realismo socrático e estóico e um talante dialógico”.

O estoicismo valorizava a lógica e mesmo a interpretação etimológica e estes textos foram usados pelos hebreus.

Trebolle é claro: houve uma “simbiose de tradição e modernidade”. Na p. 569, Júlio Trebolle lembra que “a lógica da hermenêutica hilleliana correspondia um estilo dialógico, que favorecia e alentava o pluralismo de opiniões e de pontos de vista”, “resolvida uma questão”, “por decisão majoritária, ainda era possível ensinar uma opinião contrária, sempre que esta fosse defensável por argumentos racionais”. Por esta via, “a razão ocupa lugar central na hermenêutica rabínica”.

A Paidéia (no sentido de “cultura”, de “Tradição”) helênica foi construída, desde o início, nas cidades jônicas, da Ásia, permeadas pelas ideias semitas, usando um alfabeto semita, o fenício, que foi usado pelos gregos. O início foi feito por pessoas descendentes de fenícios, como Tales, Ferecides e pessoas como Pitágoras, influenciadas pelas ideias semitas. O mesmo para Heráclito e outros. Esta síntese se amplia com o estoicismo. E, depois, aumenta mais ainda, especialmente após a ampliação da Grécia, por Alexandre o Grande. Alexandre foi até Jerusalém, até o Egito, a Pérsia e mesmo a Índia (parte da Índia esteve sob o controle dos persas, antes).

Logo, a Paidéia teve amplas fontes semitas, foi sintetizada na fase helenística, é uma síntese gestada especialmente nas cidades asiáticas da Jônia, e, depois, em Alexandria e nas cidades da Ásia Menor (destaque para Tarso, Antioquia e Éfeso), permeada de idéias persas, fenícias, hebraicas, egípcias, babilônicas etc.

Norberto Bobbio mostra as origens medievais católicas das ideias democráticas

Norberto Bobbio e Nicola Matteucci, no “Dicionário de política ” (5ª edição, Brasília, Ed. UnB/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2.000, p. 281), no verbete sobre “contratualismo” aponta as origens medieval da democracia, na Europa:

“As teses dos pensadores da tardia Idade Média, como as de Marsílio de Pádua (1275-1342), Ockam (1290-1349), Bartolomeu de Sassoferrato (1317-1357), Nicolau de Cusa (1401-1464), reproduzirão temas do século XI (Manegoldo de Lautenbach) e do século XII (John de Salisbury) e não estarão muito longe do que defenderiam os monarcômacos protestantes, como G. Buchanan (1506-1582), F. Hotman (1523-1590), o autor anônimo (talvez Ph. Duplessis-Mornay) de Vindictae contra tyrannos (1579), John Milton (1608-1674), ou os teólogos da Segunda Escolástica, como L. de Molina (1535-1600), R. Bellarmino (1542-1621), Juan de Mariana (1536-1624) e F. Suárez (1548-1617)”.

Bobbio destacou bem: Manegoldo e John de Salisbury, dois grandes católicos, nos séculos XI e XII, deram continuidade à linha do Império Romano já cristão, que incorporou a Paidéia grega (cf. lição de Werner Jaeger). Depois, houve Marsílio de Pádua, Bartolomeu de Sassoferrato e autores como Jerônimo Vida, que escreveu o livro “De optimo statu reipublicae”, em 1550, com o personagem porta-voz: o cardeal Flaminius. Tudo isso foi registrado na “Carta Magna”, um documento católico, feito quando a Inglaterra era católica, em 1215. 

Bobbio não soube analisar Santo Tomás e Egídio Romano e se o fizesse veria que estes autores trabalham com as mesmas fontes que um Marsílio de Pádua.

Depois, houve a “Segunda Escolástica”, baseada justamente nos textos de Santo Tomás e que foram ressaltados pela Escola de Salamanca e pelo Cardeal Cajetano. Esta linha foi ampliada nos textos de Molina, Bellarmino, Mariana, Suárez e outros monarcómacos católicos.

Os textos de Salamanca (Francisco de Vitória, Las Casas, Domingos Soto e outros), tal como da Segunda Escolástica, são a base do movimento dos “monarcômacos” católicos, tendo como expoentes Salomonius, Fickler, Jean Boucher (prior da Sorbona), Roussaeus, Mariana, Luís Dorleans e outros.

Os monarcómacos protestantes (especialmente François Hotman, Du Plassis, Mornay, Buchanan, Danaeus e outros) seguem a linha bíblica e do melhor da escolástica, utilizando inclusive, como os monarcómacos católicos, as melhores tradições germânicas e gaulesas, pois estes povos antigos tinham formas de governos representativos, como destacou Tácito e mesmo Júlio César.

François Hotman (1524-1590), um dos melhores monarcómacos protestantes, no livro “Franco-Gallia” (Genebra, 1573), expôs a teoria da soberania do povo ou da nação com base nas antigas tradições históricas francesas e sua obra foi elogiadíssima pelo grande historiador católico Thierry, a quem Karl Marx chamou de “pai da luta de classes”.

Os monarcómacos usavam os termos “contrato”, “pacto etc, adotando explicitamente a teoria do contrato, do consentimento (do consenso ou diálogo, como origem do poder) como base da sociedade e do Estado. Buchanan usa a expressão “um pacto mútuo entre o rei e os cidadãos” como uma das leis fundamentais e, por isso, o rei, ao tomar posse no cargo, fazia o juramento de respeitar as liberdades e as leis fundamentais, ficando, assim, sujeito à lei.

Outro marco importantíssimo que Bobbio e Matteucci não examinou bastante foram os textos de Johannes Althusius (1557-1638). Althusius seguia a Bíblia e o melhor do pensamento escolástico, como pode ser visto em seu livro “Política” (1603), onde adota explicitamente as teses escolásticas.

Althussius é o principal teórico do federalismo, superando Proudhon, e seus textos são ainda atualíssimos. Uma das principais fontes de inspiração de Althussius foi o livro “Digesto” e o direito romano recolhido pela Igreja. O “Digesto” é um documento católico, feito por Justiniano, um imperador católico-ortodoxo.

A opinião de Bobbio e de Matteucci é a mesma do jurista italiano, Gaetano Mosca (1858-1941). Também é a mesma de B. Bouthoul, exposta no livro “História das doutrinas políticas” (Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1958), com um bom prefácio de Milton Campos. Esta opinião era ainda compartilhada por expoentes como Bakunin, Trotski e outros, como veremos em outras postagens, neste blog.

Mosca ensinou que a democracia é o regime que permite a renovação e a circulação das “elites” éticas e intelectuais.

No mesmo sentido, Hannah Arendt, na conclusão de seu livro “Origens do totalitarismo” (1951), lembrou que “os grandes homens da Revolução Francesa” acreditavam “num consenso universal do qual o homem seja uma parte, e cujas leis naturais” ele teria que “imitam e a elas conformar-se”.

A idéia de imitação da natureza e de Deus (no fundo, de lei natural) é essencial na teoria estética, ética e política de Aristóteles e é plenamente respaldada pela idéia bíblica do homem criado à imagem e semelhança de Deus, a quem cabe imitar, seguir etc.

Conclusão: a genealogia ou árvore hereditária da democracia é formada por idéias naturais, hebraicas e da Paidéia (especialmente as idéias gregas), que foram fundidas nos textos católicos dos Santos Padres, na escolástica, na Carta Magna e dali fluíram mais tarde, para autores como Savonarola, Santo Tomás Morus, Suárez, Bellarmino e Locke. Mais tarde, houve as correntes neoclássicas, Montesquieu, Mably, Morelly, Rousseau e outros, quase todas católicas. Estas foram as correntes de idéias que geraram o padre Condillac, o iluminismo escocês, Thomas Jefferson, John Adams, os Jacobinos, os textos do padre Sieyés e outros. As raízes culturais de todo este movimento estão na Bíblia e nos melhores textos gregos (na Paidéia grego-romana), tal como em idéias racionais e naturais.

A Paideia foi incorporada pelo Catolicismo, por ser fruto da razão e da influência semita-hebraica, boa e salutar

Como explicou Pio XI, na “Urbi Arcano” (27.12.1922), os primeiros princípios são “os princípios de justiça, que os próprios filósofos pagãos, como Cícero, reconheceram”, chamando-os de “lei eterna” (“eterna” por vim do Eterno, de Deus), “lei universal”, “comum a todos” (daí, “common law), de “lei natural”.

Dentre os jusnaturalistas, há estrelas como: Sófocles, Protágoras, Heráclito, Sócrates, Platão, Xenofonte (autor de “Hieron” ou “Da tirania”), Pitágoras, Anaxágoras, os cínicos, os estóicos, os epicureus, Cícero, Plutarco e centenas de outros grandes escritores, formando a parte mais relevante da Paidéia, incorporada pelo cristianismo, como explicou Werner Jaeger, em suas boas obras.

A Paideia foi incorporada ao cristianismo porque é fruto da razão (que sempre anda em harmonia com a fé e a graça) e pelo fato da Paideia ter amplas fontes semitas-hebraicas, desde o início (inclusive o alfabeto). 

Uma boa lição de August Bebel sobre a origem humana do cristianismo, pois Deus atua por mediação humana

August Bebel, no livro “Cristianismo e a emancipação da mulher”, escreveu que o cristianismo “é uma mescla de judaísmo e de filosofia grega, que, por sua vez, tinham as raízes nas antigas civilizações do Egito, da Babilônia e da Índia”.

Bebel também reconheceu que a situação da mulher melhorou no “mundo cristão”, embora atribua a melhora ao progresso da civilização, mostrando preconceito ao não reconhecer o papel positivo dos hebreus e do cristianismo primitivo.

A grande lição de Leão XIII – Deus destinou os bens para todas as pessoas

A concepção bíblica, judaica e católica, defende o direito natural das pessoas ao controle, fruição, uso, até apropriação pequena, dos bens necessários e suficientes para uma vida digna, plena, abundante.

Este direito natural tem como fundamento o princípio da destinação universal dos bens.

Este direito natural não fundamenta (legitima) o direito de propriedade quitário e nem formas ditadoriais de poder, no entanto, fundamenta formas consensuais de controle social dos bens e da vida.

O poder não passa de uma espécie de “bem” e, assim, a teoria do bem comum é a teoria política (e jurídica, econômica, cultural etc) da Igreja, da Bíblia e do melhor da Paidéia (das idéias de Platão, Pitágoras, dos estóicos, de Epicuro, Sêneca, Epíteto, Marco Aurélio e outros).

O poder foi feito para todos, para ser quebrado, fatiado como uma linguiça, para que cada pessoa tenha uma fração do poder, tal como uma quota-parte dos bens, feitos por Deus, para todos. 

Como ensinou Leão XIII, na “Rerum novarum” (n. 13, 1891), “Deus deu a terra” (destinou os bens, todos os bens, inclusive o poder) para “toda a totalidade do gênero humano”, para o uso racional e social destes bens, como suporte de uma vida digna e feliz.

O papa Leão XIII foi enfático: “Deus deu a terra em comum” a todos, não tendo “assinalado a ninguém a parte que haveria de possuir, deixando a delimitação das posses privadas à atividade das pessoas e às instituições dos povos”.

Em latim, “quos vero terram Deus universo generi hominum utendam, fruendam dederit” e “Deus enim generi hominum donavisse terram in commune dicitur… quia partem nullam cuique assignavit possidendam, industriae [“indústria” no sentido de atividade, trabalho] hominum institutisque populorum permissa privatarum possessionum descriptione”.

A lição de Leão XIII sobre o princípio bíblico e patrístico (e tomista) da destinação universal dos bens vale também para o poder.

Deus não destinou (“assignavit”) especificamente nenhuma parte do Estado a esta ou aquela pessoa ou família.

A distribuição e organização dos bens e dos poderes forem entregues ao trabalho (atividade, criatividade) humana e às instituições humanas, temporais, para serem regidos por regras boas (as virtudes), especialmente pela “justiça”.

A “justiça” é a regra (virtude, no sentido objetivo) que tem como objeto (razão de ser, finalidade, objetivo) o “bem comum”.

Justiça são ideias práticas das pessoas, para ordenar, organizar, orientar, planejar, todas as ações humanas para o atendimento do bem comum, do bem de todas as pessoas e da sociedade.

A caridade (amor, misericórdia) vai além da justiça, passando pela justiça, exigindo mais, mais cuidados com o próximo, especialmente com os que mais sofrem. Justiça e amor se completam, sendo o amor maior, pois tem, em si, a justiça. Não há amor sem justiça. 

O principal princípio – regras da civilização do amor de Deus – é a destinação universal dos bens: os bens, todos os bens, inclusive o poder, são destinados a todas as pessoas e o critério de distribuição está implícito nesta regra, é o princípio “a cada um de acordo com suas necessidades”, ou seja, os bens são destinados ao atendimento das necessidades de todas às pessoas.

Na terminologia tomista – e antes na platônica, aristotélica e estóica –, as atividades humanas (econômicas, culturais, estatais etc) estão destinadas à garantia e à promoção do bem comum e devem regulamentadas e planificadas para este fim. Esta é a regra número um da ética social, da religião, do Direito. O coração da ética, o coração de Deus. 

Até Bakunin viu que o jusnaturalismo católico foi a corrente principal da democracia, na história

Bakunin constatou uma bela verdade: o jusnaturalismo (hebraico, socrático, platônico e aristotélico-estóico) foi a corrente teórica principal do movimento democrático, no processo histórico. Este jusnaturalismo foi chamado por Schumpeter de “teoria clássica” da democracia e tem, em seu núcleo, uma concepção positiva sobre a razão e liberdade, como fontes de regras racionais, consensuais, sociais para a proteção, conservação e promoção do bem comum.

Esta noção positiva da liberdade estava bem presente nos textos de Bakunin. Este grande anarquista adotou o anarquismo quando era jovem e cristão, deixando bons textos religiosos, os textos do jovem Bakunin. O livro de H. Arvon, “Bakounine. Absolu et Révolution” (Paris, Cerf, 1972), mostra que Bakunin tornou-se revolucionário por causa de Weitling e do cristianismo revolucionário da Liga dos Justos e também por influências de outras fontes cristãs, que também influenciavam a Liga dos Justos, em seu socialismo cristão pré-marxista.

Só mais tarde é que Bakunin se tornou ateu, mas era já era revolucionário antes e com bases cristãs. Mesmo afirmando que se tornara ateu, escreveu bons textos como, por exemplo: “socialismo sem liberdade é escravidão, é brutalidade”; e “a felicidade, o paraíso humano sobre a terra” é “ver e sentir minha liberdade confirmada, sancionada, estendida ao infinito pelo assentimento de todos os homens”.

O “ateísmo” de Bakunin e de Proudhon era fruto de erros destes autores, embora também contivesse a crítica de erros da parte humana da Igreja, das religiões positivas, das ligações de pessoas religiosas com os Estados burgueses ou absolutistas daqueles tempos. O velho Bakunin, como Proudhon, com certeza, estenderia suas mãos a João XXIII ou a Francisco I.

Bakunin, tal como alguns hereges antigos, rejeitava o Estado e as leis positivas em bloco, o que era um erro. Bakunin deveria, na linha jusnaturalista, ter rejeitado apenas as leis e as formas estatais iníquas, prejudiciais ao bem da sociedade, ao povo. No entanto, Bakunin também ensinava corretamente que a liberdade, para durar e ser efetiva, deveria estar regrada pelas “leis naturais”. Da mesma forma, Helvetius, no livro “O Espírito”, é jusnaturalista, defendendo leis boas, leis conforme ao bem comum, que é a essência do jusnaturalismo católico, tomista etc. O mesmo defenderam autores como Voltaire, Diderot, Rousseau e outros, todos rebentos da tradição católica, mesmo deturpando-a em várias pontos. 

Os textos de Bakunin sobre a “lei natural” e a liberdade mereceriam uma boa compilação, mostrando o prisma jusnaturalista de algumas boas idéias de Bakunin. Como demonstrei no meu livro sobre as origens religiosas do socialismo, Bakunin tornou-se socialista anarquista em sua juventude e, nesta época, o jovem Bakunin tinha fortíssimas idéias e sentimentos religiosos, hauridos do cristianismo primitivo, especialemente de Weitling, recebendo esta influência no período em que esteve na Suiça, quando era jovem.

Conclusão: o “jusnaturalismo” da Paidéia combinou-se com o jusnatualismo hebraico, formando o núcleo da parte humana do catolicismo.

A linha correta dentro da Igreja em prol da democracia popular, da economia mista e do Estado social

A linha correta na Igreja foi defendida por grandes bispos e cardeais como Lienart, Lercaro, Cardijn, Bea, Suenens, Frings, Dopfner e outros luminares da Igreja. 

E isso ocorreu na sequência da condenação do jornal “L´Action Française”, em 1926. Movimento em sequência a atuação de grandes Papas como Bento XIV, Pio VII, Leão XIII, Pio XI e outros. As estrelas maiores são João XXIII e Francisco I, vindo Paulo VI depois. 

Como destacou Pio XII, em 20.07.1943, numa carta ao Cardeal Francisco Marcheti, Roma tem “os subterrâneos”, que foram os “refúgios do povo cristão”, tem “anfiteatros e circos” “sagrados”, pelo sangue derramado, que formaram os “berços do cristianismo”. Da mesma forma, completou o Papa, há em Roma o depósito da “sabedoria antiga” (da Paidéia), que faz de Roma “um farol da civilização”.

A teoria política da Paidéia foi a principal corrente que inspirou a Revolução Francesa, como fica claro no estilo neoclássico que marca todas as estruturas da Revolução Francesa e também do movimento da independência nos EUA.

Como lembrou Bento XVI, num discurso de 16.05.2011, comemorando 50 anos da “Mater et Magistra”, a Igreja sempre trabalhou e trabalha para “desenvolver sínteses culturais humanísticas”, ponto que fica claro nos textos de São Justino, São Clemente de Alexandria e outros Santos Padres.

A doutrina social da Igreja sobre o poder foi ensinada por todos os Santos Padres e foi detalhada por Leão XIII. Leão XIII cercou-se de grandes estrelas democráticas, como o Cardeal Rampolla, o Cardeal abolicionista e pró-republicano Lavigerie, o Cardeal Newman, o Cardeal Mercier, o Cardeal Manning, o Cardeal James Gibbons, Dupanloup, São João Bosco e outros grandes luminares da Igreja.

A vida política, administrativa e judicial da sociedade depende de “certezas morais”, de proposições razoáveis, ponto bem explicado por Pio XI, em 01.10.1942, num discurso perante o Tribunal da Sagrada Rota. Certezas morais são certezas razoáveis e dialógicas, um meio termo entre certezas absolutas (matemáticas etc) e quase certezas (probabilidades). Marciano Vidal chama este meio termo de probabilismo moderado ou equiprobabilismo, a linha hegemônica da doutrina ética do cristianismo.

As origens católicas e cristãs da democracia

Norberto Bobbio e Nicola Matteucci, no “Dicionário de política ” (5ª edição, Brasília, Ed. UnB/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2.000, p. 281), no verbete sobre “contratualismo” aponta as origens medieval da democracia, na Europa:

“As teses dos pensadores da tardia Idade Média, como as de Marsílio de Pádua (1275-1342), Ockam (1290-1349), Bartolomeu de Sassoferrato (1317-1357), Nicolau de Cusa (1401-1464), reproduzirão temas do século XI (Manegoldo de Lautenbach) e do século XII (John de Salisbury)

e não estarão muito longe do que defenderiam os monarcômacos protestantes, como G. Buchanan (1506-1582), F. Hotman (1523-1590), o autor anônimo (talvez Ph. Duplessis-Mornay) de Vindictae contra tyrannos (1579), John Milton (1608-1674),

ou os teólogos da Segunda Escolástica, como L. de Molina (1535-1600), R. Bellarmino (1542-1621), Juan de Mariana (1536-1624) e F. Suárez (1548-1617)”.

Bobbio destacou bem: Manegoldo e John de Salisbury, nos séculos XI e XII, grandes católicos, deram continuidade à linha do Império Romano já cristão, que incorporou a Paidéia grega (cf. lição de Werner Jaeger). Depois, houve Marsílio de Pádua, Bartolomeu de Sassoferrato e autores como Jerônimo Vida, que escreveu o livro “De optimo statu reipublicae”, em 1550, com o personagem porta-voz: o cardeal Flaminius.

Bobbio não soube analisar Santo Tomás e Egídio Romano e se o fizesse veria que estes autores trabalham com as mesmas fontes que um Marsílio de Pádua.

Depois, houve a “Segunda Escolástica”, baseada justamente nos textos de Santo Tomás e que foram ressaltados pela Escola de Salamanca e pelo Cardeal Cajetano. Esta linha foi ampliada nos textos de Molina, Bellarmino, Mariana, Suárez e outros monarcómacos católicos.

Os textos de Salamanca (Francisco de Vitória, Las Casas, Domingos Soto e outros), tal como da Segunda Escolástica, são a base do movimento dos “monarcômacos” católicos, tendo como expoentes Salomonius, Fickler, Jean Boucher (prior da Sorbona), Roussaeus, Mariana, Luís Dorleans e outros.

Os monarcómacos protestantes (especialmente François Hotman, Du Plassis, Mornay, Buchanan, Danaeus e outros) seguem a linha bíblica e do melhor da escolástica, utilizando inclusive, como os monarcómacos católicos, as melhores tradições germânicas e gaulesas, pois estes povos antigos tinham formas de governos representativos, como destacou Tácito e mesmo Júlio César.

François Hotman (1524-1590), um dos melhores monarcómacos protestantes, no livro “Franco-Gallia” (Genebra, 1573), expôs a teoria da soberania do povo ou da nação com base nas antigas tradições históricas francesas e sua obra foi elogiadíssima pelo grande historiador Thierry, a quem Karl Marx chamou de “pai da luta de classes”.

Os monarcómacos usavam os termos “contrato”, “pacto etc, adotando explicitamente a teoria do contrato, do consentimento como base da sociedade e do Estado. Buchanan usa a expressão “um pacto mútuo entre o rei e os cidadãos” como uma das leis fundamentais e, por isso, o rei, ao tomar posse no cargo, fazia o juramento de respeitar as liberdades e as leis fundamentais, ficando, assim, sujeito à lei.

Outro marco importantíssimo que Bobbio e Matteucci não examinou bastante foram os textos de Johannes Althusius (1557-1638). Althusius seguia a Bíblia e o melhor do pensamento escolástico, como pode ser visto em seu livro “Política” (1603), onde adota explicitamente as teses escolásticas. Althussius é o principal teórico do federalismo, superando Proudhon, e seus textos são ainda atualíssimos. Uma das principais fontes de inspiração de Althussius foi o livro “Digesto” e o direito romano.

A opinião de Bobbio e de Matteucci é a mesma do jurista italiano, Gaetano Mosca (1858-1941). Também é a mesma de B. Bouthoul, exposta no livro “História das doutrinas políticas” (Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1958), com um bom prefácio de Milton Campos. Esta opinião era ainda compartilhada por expoentes como Bakunin, Trotski e outros, como veremos em capítulos mais adiante. Mosca ensinou que a democracia é o regime que permite a renovação e a circulação das “elites” éticas e intelectuais.

No mesmo sentido, Hannah Arendt, na conclusão de seu livro “Origens do totalitarismo” (1951), lembrou que “os grandes homens da Revolução Francesa” acreditavam “num consenso universal do qual o homem seja uma parte, e cujas leis naturais” ele teria que “imitam e a elas conformar-se”.

A idéia de imitação da natureza e de Deus (no fundo, de lei natural) é essencial na teoria estética, ética e política de Aristóteles e é plenamente respaldada pela idéia bíblica do homem criado à imagem e semelhança de Deus, a quem cabe imitar, seguir etc.

Conclusão: a genealogia ou árvore hereditária da democracia é formada por idéias naturais, hebraicas e da Paidéia (especialmente as idéias gregas), que foram fundidas nos textos dos Santos Padres, na escolástica, na Carta Magna, documento católico, e dali fluíram mais tarde, para autores como Savonarola, Santo Tomás Morus, Suárez, Bellarmino e Locke. Mais tarde, houve as correntes neoclássicas, Montesquieu, Mably, Morelly, Rousseau e outros. Estas foram as correntes de idéias que geraram o padre Condillac, o iluminismo escocês, Thomas Jefferson, John Adams, os Jacobinos, os textos do padre Sieyés e outros. As raízes culturais de todo este movimento estão na Bíblia e nos melhores textos gregos (na Paidéia grego-romana), tal como em idéias racionais e naturais.

Descartes, católico, discípulo de Francisco Suarez

Como ensinou Descartes, que foi um grande católico, no “Discurso do método”, a ciência (inclusive o direito, a “ciência jurídica”), tal como os “ofícios de nossos artesãos”, deve ser utilizada para “fins” éticos como “nos tornar senhores e possuidores da natureza” (cf. mandamento no Gênesis 1,26) e “contribuir para aperfeiçoar a vida humana”.

O núcleo mais profundo das idéias de Descartes está no aristotelismo, ponto que Leibnitz e Juan de Raey 1622-1701) deixaram claro. O melhor do cartesianismo vem da Paidéia e da Bíblia. Afinal, Descartes tinha as obras de Suárez como obras de cabeceira, o mesmo ocorrendo com Grócio e Leibnitz, dois protestantes ecumênicos que buscaram a união entre católicos e protestantes, superando a cisão ocorrida na Igreja. No texto de Descartes, fica claro que o direito natural é a ciência do bem comum, é o conjunto das regras práticas e racionais exigidas pelo bem comum, as regras que devem pautar a sociedade para que o convívio social seja benéfico a todos.

O Catolicismo e o judaísmo amam a Democracia, desde o início

Ernest Renan (1823-1892) teve forte formação eclesial no seminário e foi também professor de hebraico no Colégio da França. Pois Renan, no livro “Cristianismo e judaísmo” (editado com outras obras de Renan, no livro “Qué es uma nación”, Buenos Aires, Ed. Elevación, 1947, p. 45 em diante), soube expor corretamente a relação entre judaísmo (pensamento bíblico, hebraico) e o cristianismo.

Renan demonstrou que o cristianismo mantém, em si, todo o ardor dos profetas por justiça social, por um mundo renovado, sem iniqüidade, acolhendo também, em boa síntese, o melhor da Paidéia. Apesar dos erros de Renan (e de Bruno Bauer), há bons textos em Renan, que foram apreciados pela Igreja, como fica patente nos melhores textos de Joaquim Nabuco e de Alceu Amoroso Lima, dois grandes católicos.

Renan soube demonstrar que as melhores idéias da Paidéia (especialmente da Grécia) e da Bíblia se uniram para gerar a Revolução Francesa e o Estado democrático. Os textos de Renan foram admirados por Joaquim Nabuco, pelo amor à democracia e à razão. Renan deixou bons textos de elogio sobre a vida de grandes expoentes da Igreja, como Lamennais, Agustín Thierry (que Marx considerava como o criador da teoria sobre a influência das classes sociais na história), Pasteur e outras grandes estrelas (inclusive Littré, que se converteu antes de morrer).

Como Werner Jaeger destacou, em sua obra “Cristianismo primitivo e paidéia grega”, a recepção do melhor das idéias gregas (da Paidéia) ocorreu pela semelhança de conteúdo (devido à harmonia entre a razão e a fé, entre a consciência humana e a consciência divina) e porque “os judeus já estavam helenizados nos tempos de São Paulo” e inclusive “na Palestina” (especialmente na Galiléia). Por outro lado, a cultura grega recebeu profunda influência semita, desde o berço.

A recepção da Paidéia trouxe boas idéias harmônicas com o pensamento hebraico, mas também trouxe idéias erradas. A “helenização do cristianismo” tem inúmeros pontos bons e alguns pontos ruins. Os pontos bons devem ser cuidadosamente conservados (pois são frutos da Providência) e os maus (certo desprezo ao corpo, ao trabalho manual etc) devem ser erradicados, depurados, purificados, superados. A parte boa da Paidéia grega deve ser mantida, pois constitui o bom trigo, tendo origem remota em Deus, dado que toda idéia verdadeira é boa (conduz ao bem comum) e vem de Deus, no final das contas.

A Igreja seguiu os passos dos hebreus e valorizou a razão (a filosofia, a ciência, a política etc) desde o início. Os cristãos, como fica claro nos textos dos Santos Padres, aprenderam gramática em obras como a “Gramática”, de Denis da Trácia; medicina com Hipócrates, Pedaneo Dioscórides e Galeno (129-201); geometria com Euclides; astronomia com Cláudio Ptolomeu (de 100 a 138 até 170 d.C.,o autor do “Almagesto”); aritmética com o livro de Diofanto; construção (arquitetura) com o livro “Da arquitetura”, de Marcus Vitrúvio (70-25 a.C.), tal como com “Dos aquedutos de Roma”, de Frontino; engenharia com Arquimedes; agricultura com Marco Pórcio Catão (234-149), Varrão, Virgílio, Gargílio, Marcial e Júnio Moderato Columela; poesia com Horácio; economia com Xenofonte, Platão e Aristóteles; etc. Tudo isso foi recepcionado pela via do diálogo (da inculturação).

Os Santos Padres aprenderam a ciência política democrática com autores como Aristóteles, Cícero, os grandes juristas romanos, Demóstenes, Platão, os estóicos e outros. Acolheram todas as idéias verdadeiras, por serem racionais e por estarem em harmonia com a Bíblia.

Os Santos Padres colheram as melhores idéias da Paidéia, em autores como Virgílio, Sêneca, nos estóicos, Aristóteles, Políbio e outros. Um autor que foi muito utilizado pelos Santos Padres foi Diodoro da Sicília (90 ou 80-20 a.C.), a obra “Biblioteca histórica”. Diodoro descreveu a história do Egito, dos Assírios, dos Líbios, da Grécia, das ilhas da Ásia Menor, dos Medos, dos Citas, da Etiópia e de outros povos. Diodoro narrou o confronto entre Antíoco Epifânio e os hebreus.

A linha historiográfica de Políbio e de Diodoro da Sicília (elogiado por Eusébio de Cesaréia) era estóica. Esta era a linha também de Dion Cássio (elogiado por Montaigne, pelas idéias estóicas) e a linha do Pseudo-Apolodoro (que viveu lá por 150 a.C., em Atenas), no livro “Biblioteca” (a obra pode ter sido escrita depois de Cristo, atribuída a Apolodoro de Atenas). Com base nestes historiadores, quase todos estóicos, os cristãos começaram a redigir textos sobre a história, como a “Crônica” de São Jerônimo, de Abraão até sua época.

Os primeiros cristãos deram seqüência ao trabalho de síntese dos judeus entre as idéias hebraicas-semitas e o melhor da Paidéia, como fica claro nos textos de Fílon e de Flávio Josefo. Flávio Josefo, no livro “Antiguidades judaicas”, usou os textos de Dionísio de Halicarnasso e outros, na mesma linha dos textos de Diodoro e de Políbio. Flávio Josefo e Filon, tal como os grandes Santos Padres, apontaram a influência semita desde o berço da cultura grega, ponto importantíssimo para a recepção da Paidéia, pela Igreja.

Por exemplo, Bossuet, que era admirador da Paidéia, no livro “Discurso sobre a história universal” (1681), seguiu os passos de Diodoro da Sicília (90-30 a.C.). Diodoro foi um historiador grego, autor de “Biblioteca Histórica” (também conhecida como “História universal”). Há a mesma base em Shakespeare (católico ou filho de católico, pró-católico), Corneille, Racine e outros grandes católicos.

Os elogios de Leão XIII, Pio XI, Pio XII, João XXIII, dos bispos do mundo todo no Vaticano II, de Paulo VI, de João Paulo II e Bento XVI à democracia são continuidade de textos mais antigos, dos Santos Padres. Estes textos mais antigos ficam patentes no texto de Pio VII, no Natal de 1797, onde lembrou, numa homília, que a forma democrática de governo nada tem de contraditório com a Revelação. Pio XII repetiu este ponto no Natal de 1944.

A harmonia entre catolicismo e democracia também foi a linha geral do Secretário de Estado de Pio VII, o Cardeal leigo Hércules Consalvi (1757-1824), o que prova que os leigos podem ser cardeais excelentes, tal como podem participar de Sínodos e Concílios (como ocorria antigamente, nos antigos Concílios). O amor à democracia estava também nas idéias do Cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII e seu sucessor natural. O Cardeal Ercole (Hércules) Consalvi teve a honra de ter sido signatário da “Concordata” da Igreja com Napoleão Bonaparte, em 1801, reconciliando a Igreja com a estrutura democrática do Estado moderno. A biografia de Consalvi foi feita por Fischer, “Kardinal Consalvi” (Moguncia, 1899) e por Angelucci, “Il grande secretario della Santa Se” (Roma, 1924). Há também o livro “Memórias”, organizado por Crétineau Joly, em Paris, 1864.

Conclusão: a teologia da Igreja, especialmente a moral e política, tem um “ideal histórico” (cf. o documento da antiga Ação Popular), o ideal humanista (do melhor da Paidéia e da Bíblia) de uma democracia popular, participativa, social, horizontal, toda pautada pelo bem comum. As idéias cristãs conduzem a um regime justo, um regime misto, uma economia mista, onde o povo seja a origem imediata do poder, o titular (sujeito) do poder, pautando tudo em prol do bem comum, do bem do povo, para assegurar condições de vida plena e abundante para todos. Maritain e Alceu demonstraram bem esta proposição.

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