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João Paulo II atestou o diálogo estoico cristão, desde o início da Igreja

João Paulo II, ainda na “Fides et ratio” (1998), atesta a ligação dos textos de São Paulo com o estoicismo:

22. S. Paulo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, ajuda-nos a avaliar melhor quanto seja incisiva a reflexão dos Livros Sapienciais. Desenvolvendo com linguagem popular uma argumentação filosófica, o Apóstolo exprime uma verdade profunda: através da criação, os “olhos da mente” podem chegar ao conhecimento de Deus. Efetivamente, através das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu “poder” e a sua “divindade” (cf. Rm 1, 20). Deste modo, é atribuída à razão humana uma capacidade tal que parece quase superar os seus próprios limites naturais: não só ultrapassa o âmbito do conhecimento sensorial, visto que lhe é possível refletir criticamente sobre o mesmo, mas, raciocinando a partir dos dados dos sentidos, pode chegar também à causa que está na origem de toda a realidade sensível. Em terminologia filosófica, podemos dizer que, neste significativo texto paulino, está afirmada a capacidade metafísica do homem.

36. Os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com “alguns filósofos epicuristas e estóicos” (17, 18). A análise exegética do discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares, predominantemente de origem estoica. Certamente isso não se deu por acaso; os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas “Moisés e os profetas” nos seus discursos, mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rm 1, 19-21; 2, 14-15; At 14, 16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria (cf. Rm 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos mistéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência divina”.

O papa João Paulo II, tal como autores como Champlin (um autor ortodoxo grego, bem aberto e próximo da Igreja), descreveram corretamente que São Paulo usou “idéias populares, predominantemente de origem estoica” (inclusive texto de Cleantes), para deixar claro a importância da razão e da harmonia da razão com a fé. Por exemplo, em I Cor 2,14-15, São Paulo usa a expressão “a própria natureza das coisas” “ensina”. Esta expressão é claramente estóica. São Paulo também combinava uma concepção de predestinação divina (atuação divina, Providência, planos, desígnios de Deus) com a liberdade humana, uma síntese que os melhores estoicos fizeram também.

Uma síntese de idéias hebraicas com idéias estóicas também faz parte dos textos dos melhores fariseus, especialmente Flávio Josefo, mas também em Filon, tal como também no Talmud. Por exemplo, o rabi Akiva escreveu “tudo está previsto e foi dado o livre arbítrio”. Este texto está registrado no “Pirkei Aboth” Avot (3,5), o texto mais importante do Mishna (compilado em 220 d.C., usando textos bem antigos). O Mishna é a parte mais importante dos dois Talmudes. No Mishnah, dividido em várias partes, a parte mais relevante no aspecto ético é o Nezikin, a quarta ordem (“seder”, livro no sentido amplo) do Mishnah, sobre danos. No Nezikin, há o tratado “Pirkei Avot”, que tem menos de 30 páginas, mas tem enorme importância para a ética.

A Igreja sempre amou o estoicismo, pela semelhança de ideias e origem

José Ferrater Mora, no “Dicionário de filosofia” (São Paulo, Ed. Loyola, 2001, tomo II, p. 932), no verbete sobre ética, ensinou que

os pensadores cristãos… aproveitaram muitas das idéias da ética grega – principalmente as platônicas e estoicas – de tal modo que parte da ética, tal como a doutrina das virtudes e a sua classificação, inseriram-se quase por completo no corpo da ética cristã. Foi muito comum adotarem-se certas normas éticas de algumas escolas (como a estoica)… suprimindo as porções (por exemplo, a justificação do suicídio) incompatíveis com as idéias morais cristãs. À medida que o pensamento grego foi sendo acolhido dentro do pensamento cristão destacaram-se certos fundamentos que, no fim, eram comuns a ambos. Entre eles mencionamos como o principal a clássica equiparação do bom com o verdadeiro, que os filósofos cristãos desenvolveram em sua teoria dos transcendentais”.

O estoicismo tem origem semita, em Chipre, onde havia ampla influência semita, judaica e fenícia (povo semita). Assim, as ideias do estoicismo nascem na cultura semita fenícia e hebraica, em boa síntese. A mesma cultura da base hitita, que permeou a Lídia, berço da filosofia grega, com origens também semitas e fenícias, na origem. 

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