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O termo “socialismo” nasceu do socialismo cristão, PRÉ-MARXISTA, antes de Marx

Pierre Leroux usou o termo “socialismo”, um neologismo, lá por 1834, para se opor ao termo “individualismo”, capitalismo, usando esta palavra nova, no artigo “De l’individualisme e du socialisme”, na Revue encyclopedique.

No fundo, este autor seguia a linha bíblia, de Morus, Morelly, Mably, Bonneville, do padre Claude Fauchet, Bispo Gregoire, padre Jacques Roux, de Babeuf e de outros precursores CRISTÃOS, quase todos CATÓLICOS, do socialismo. Desta forma, inspirou Georges Sand, Flora Tristan e o padre Jacques Pillot.

Pierre Leroux, um cristão católico sansimoniano, é considerado como o primeiro a usar o termo “socialismo” na França (no artigo “Do individualismo e do socialismo”, publicado na “Revista enciclopédica”, em 1834, sobre o qual escreveu anos depois: “fui eu o primeiro que usou a palavra socialismo. Era então um neologismo necessário. Forjei esta palavra em oposição ao individualismo”.

O artigo de Ch. Gruenberg (“A origem das palavras socialismo e socialista”, publicado na “Revue d’histoire des doctrines économiques”, 1908, p. 289), no entanto, lembra que o pastor Vinet, em 1831, usava o termo socialismo em um sentido religioso e aplicado aos sansimonianos.

Leroux escreveu um livro sobre as origens democráticas da Igreja, que deveria ser reeditado, pela atualidade.

Jean Touchard, na obra “História das idéias políticas” (editado pela Publicações Europa-América, 1959), tem um bom texto sobre Pierre Leroux:

Pierre Leroux e a religião da humanidade.

“Mais ainda do que Buchez, Pierre Leroux (1797-1871) é o homem das vastas sínteses. Como Buchez, ele passa pelo sansimonismo (que deixa em 1831) e, como ele também, invoca comovidamente as recordações da Convenção e dá mesmo a entender que nasceu em 1793: “Nasci no tempo em que a Convenção lutava contra o negociantismo”, escreve ele, no ano de 1846, em Malthus et les économistesFala igualmente do “verdadeiro cristianismo” e “destas duas grandes coisas: o Evangelho e a Revo­lução”.

“Pierre Leroux foi muito admirado em vida. O católico Lamartine afirmava que as obras de Pierre Leroux seriam lidas um dia como se lê o Con­trato Social.

“George Sand declarava-se um pálido reflexo de Pierre Leroux.

“Renan, nos seus Souvenirs d’ enfance et de jeunesse, põe em destaque a sedução que exercia Pierre Leroux sobre os alunos do semin­ário católico de Saint-Sulpice.

“As suas obras principais, De l’humanité, De l’égalité, Du christianisme et de son origine démocratique, Malthus et les économistes, La grève de Samarez, etc., interessam muito para o conhecimento da época.

“Segundo Pierre Leroux, que inventou o termo, o socialismo tem por missão “fazer concordar, por meio duma síntese verdadeira, a liberdade, a fraternidade e a igualdade”. Liga portanto, também, o socialismo à Revolução Francesa.

“Já em 1832, ele preconiza “a dou­trina da Revolução Francesa, a doutrina da igualdade organizada”.

“Em 1833, no número de Outubro-Dezembro da Revue encyclopédique, escreve: “A luta atual dos proletários contra a burguesia é a batalha daqueles que não possuem os instrumentos de trabalho contra aqueles que os possuem.”

“O pensamento de Pierre Leroux é acima de tudo religioso: “Eu sou crente”, compraz-se ele em repetir, e no seu livro La carrosse de M. Aguado (1848) não hesita em escrever: “Jesus é o maior dos economistas, e não existe verdadeira ciência econômica fora da sua dou­trina.”

“A democracia é para Pierre Leroux uma religião.

“Pensa que o sistema representativo deve ser, não uma representação da realidade, mas uma “representação do Ideal”. Isso leva-o a elaborar, em 1848, um projeto de Constituição dos mais estranhos, em que as instituições parlamentares refletem o mistério da Trindade.

“As passagens estra­nhas não são raras, de resto, em Pierre Leroux, quanto mais não fosse a sua teoria acerca do princípio de continuidade e a utilização do estrume humano…”

Benoit Malon, na obra “O socialismo integral, historia das theorias e tendências geraes” ( do Instituto Geral das Artes Gráficas, Lisboa, 1899, pp. 105-106) escreveu sobre Leroux:

A palavra socialismo foi criada (…) por Pedro Leroux, para ser oposta (conforme este mesmo escritor nol’o ensina na Gréve de Samaraz) ao individualismo que começava a ter curso. L. Reybaud, na sua obra famosa: “Os Reformadores contemporâneos”, adaptou o neologismo de Pedro Leroux e popularizou-o tão depressa e tão bem que foi acreditado como seu autor”.

Meu comentário – Pierre Leroux foi elogiado por Marx em seus primeiros escritos, desde 1842. Ele e a maioria dos socialistas pré-marxistas eram socialistas religiosos, como mais tarde Victor Hugo e outros.

Leroux era lido nos seminários e a religiosidade engajada do mesmo (especialmente no livro “Do cristianismo e de sua origem democrática”) influenciou até mesmos latino-americanos. Foi Leroux quem espalhou o termo “socialismo” na França, o que também prova a tese deste blog, sobre as fontes religiosas do socialismo.

Leroux escreveu, em 1833, quando Marx tinha apenas 15 anos: “a luta atual dos proletários contra a burgueia é a luta dos que não possuem os instrumentos de produção contra os que os possuem” (retirado do livro de Garaudy, “Rumo a uma guerra santa?”, da Jorge Zahar Editor,1995). Leroux foi amigo de Lamennais, sendo os dois amigos de George Sand.

O padre Fernando Bastos de Ávila escreveu um livro sobre o socialismo antes de Marx, socialismo pré-marxista, onde menciona os precursores socialistas cristãos, demonstrando parte do que é exposto neste blog. O marxismo foi uma síntese, formada por várias idéias antes expostas e divulgadas por pensadores cristãos (Hegel, Leroux, Fourier, os socialistas ricardianos que se inspiravam em fontes religiosas, Saint-Simon, Owen, Considérant, Pecqueuer, Ludwig Gall e outros).

O Clero, na Revolução Francesa, em prol da democratização do Estado

Houve várias estrelas de primeira grandeza, do Clero, na Revolução Francesa. Estrelas como o bispo Henri Gregório (1750-1831). Este teve grande participação na reunião das três ordens em 1789. Na Convenção, em 1792, o bispo Gregório foi o primeiro a propor a abolição da monarquia e a criação da república. O bispo Gregório também propôs a abolição da pena de morte. O bispo Gregório toi também o principal responsável pela restituição aos judeus dos direitos civis e pela abolição da escravatura, em 1794.

O bispo Gregório também defendeu a Declaração dos Direitos e a queria mais social, com deveres sociais da sociedade etc. Este bispo lutou pela igualdade civil, a liberdade de cultos e pela tolerância religiosa. Redigiu obras como “Ensaio sobre a regeneração física, moral e política dos judeus” (1789); “Discurso sobre a liberdade dos cultos” (1794); “Ensaio histórico e patriótico sobre as árvores da liberdade” (1794); “Da liberdade de consciência e do culto no Haiti”; “Da Constituição francesa do ano de 1814”; “Apologia de Bartolomeu de las Casas”; “Da literatura dos negros”; “Da influência do cristianismo sobre a condição das mulheres” (1821) e outras. Enfim, uma estrela de primeira classe, de brilho imenso e benéfico. 

O bispo Gregório ocupou cargos na rede pública de educação e criou várias bibliotecas públicas, organizou livros didáticos simples e baratos etc. Hipólito Carnot redigiu sua biografia, com o título “Henri Gregóire, bispo republicano” (Paris, 1882).

Numa atuação próxima, na época, havia o bispo Jean Baptist Gobel (1727-1794), de Paris, que defendeu a teoria da soberania do povo. Gobel disse, em boa voz, que sempre buscara “aumentar” no “povo”, o “amor aos princípios eternos da liberdade, da igualdade e da moral”.

Além do bispo Gregório, de Gobel e de outros, houve vários grandes figuras do clero que brilharam na Revolução. Especialmente o padre Sieyès, o bispo Claude Fauchet, Nicolau de Bonneville (1760-1828, autor de “Do espírito das religiões”), o bispo Antônio Pascoal Jacintho Sermet (1732-1808) e o padre Jacques Roux, o principal líder dos “enraivecidos”.

Fauchet e Bonneville fundaram o “Círculo Social” (que Karl Marx elogiou e considerou como movimento precursor ao seu movimento), inspirado nas idéias de Saint-Martin, que são extremamente religiosas, formando parte do iluminismo cristão e religioso (a maior parte do movimento iluminista era cristão e religioso, frise-se). Por exemplo, os Iluminados de Avinhão tinham como principal líder o beneditino Pernety. Este criou um rito, em 1760, que foi introduzido na Universidade de Montpellier, em 1799, influenciando José Alvares Maciel, que conspirou para a independência do Brasil.

Outro bispo que teve grande parte na Revolução Francesa e em seus desdobramentos foi Talleyrand (1754-1838). Talleyrand era bispo em Autun e tornou-se presidente da Assembléia Nacional, em 1790, tendo sido várias vezes Ministro de Estado, no Estado gestado pela Revolução Francesa. Mesmo Taleyrand teve seus méritos, tal como cometeu vários erros éticos graves. No final, acabou tendo uma boa morte, graças à mediação de Dupanloup, um dos maiores bispos do século XIX. O grande bispo Dupanloup, intérprete principal dos textos de Pio XI, inclusive do “Sylabbus”, mostrando a interpretação democrática dos textos de Pio IX, interpretação que teve a chancela do Papa. Dupanloup reconduziu Talleyrand para a Igreja, a confissão e uma boa morte, com extrema unção. Houve, ainda, milhões de leigos católicos que conciliavam perfeitamente catolicismo com a luta pela democracia. Há vários precursores do Vaticano II, como o padre Anton Gunter (1783-1863), da Congregação dos Redentoristas.

Num parêntese, até mesmo figuras turvas como Metternich e Talleyrand não defenderam a teoria do direito divino dos reis. Talleyrand e Metternich eram partidários de uma teoria consensual (jusnaturalista) de fundo histórico, flexível, parecida com a de Burke, um dos líderes do whig.

Mais tarde, houve homens como o cardeal Hércules Consavi; Sismondi (1773-1842, próximo ao catolicismo); Béranger; Buchez; Lamennais; Villeneuve-Bargemont e vários outros precursores da doutrina social da Igreja (especialmente Buchez, Ozanam e Ketteler).

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