Arquivos para : A “Fórmula” para diálogo cristãos e marxistas. Marxistas que elogiaram o cristianismo como fator democrático e socialista

Marx, Engels, Lenin, Rosa, Kaustky, Bebel e outros elogiaram o cristianismo primitivo, o cristianismo

O elogio da razão e do bem comum está claro na pregação dos primeiros cristãos, do “cristianismo primitivo”, que foi elogiado por Marx, Lenin, Engels, Rosa de Luxemburgo, Kaustky, Bebel e outros.

A razão e o bem comum são o núcleo mais profundo da concepção jusnaturalista (cf. Rm 2,14) sobre o poder, ou seja, o poder público deve estar sujeito às idéias do povo, à razão do povo, para o bem do povo. São Paulo valorizou a filosofia e a razão, pois citou verso de Menandro, do livro “Taíde” (“as más companhias corrompem os bons costumes”, citado em I Cor 15,33). São Paulo também cita Arato, texto do livro “Fenômenos” (n. 5), obra inspirada no estoicismo e São Paulo fez isso no discurso no Areópago de Atenas (cf. At 17,28; “nós somos e Sua raça”, filhos de Deus). A própria estrutura das cartas de São Paulo segue a estrutura das “diatribes” estoicas, estrutura que pode ser vista nas “Cartas a Lucílio”, de Sêneca. O uso de alegorias e figuras (cf. Gl 4,22ss; I Cor 10,1ss) também mostra influência estoica.

Marx reconheceu que a Igreja defendeu os trabalhadores

O próprio Marx, num artigo com o título “O comunismo e a Gazeta Geral de Augsburgo” (em 16.10.1842), escreveu: “Quem fala de corporações de artesãos? Os reacionários“; e, por reacionários, entendia os militantes da doutrina social da Igreja, que defendiam idéias que ficaram conhecidas como “socialismo pequeno-burguês”, como pode ser lido no “Manifesto Comunista”, de 1848.

Stalin e a Internacional lançaram mov mãos estendidas à Igreja, aos católicos, ortodoxos e anglicanos

Mesmo a Internacional Comunista prestou depoimento de elogio da boa linha da Igreja no movimento “mãos estendidas” à Igreja, desde 1935, com o apoio de Stalin (que se aproximava da Igreja Ortodoxa, da qual foi seminarista até quase chegar à ordenação, na Georgia), expressa por líderes como Togliatti (a “utopia religiosa” é fermento revolucionário) e mesmo Antônio Gramsci (1891-1937). No Brasil, este movimento de mãos estendidas tem um símbolo em Luiz Ignácio Maranhão Filho, do Comitê Central do antigo PCB. Luiz Maranhão foi torturado e morto pela ditadura de 64, mas antes organizou o livro “A marcha social da Igreja” (Rio, Ed. Encontro, 1967), escrevendo um capítulo do livro, com introdução de Alceu Amoroso Lima.

Stalin nasceu em 1878, e não em 1879, como alguns historiadores erram. E estudou em escolas religiosas no ensino primário, médio e no Seminário. Ficou no Seminário até 1899, ou seja, até aos 21 anos. Como Seminarista, não foi figura apagada. Tirou boas notas e chegou a publicar poesias religiosas lindas no maior jornal da Geórgia. Só faltava um ano para ser padre, quando saiu do seminário e não foi expulso, e sim apenas saiu. Durante a vida, em geral não perseguiu a Igreja Ortodoxa. Desde 1934, tentou aproximar o Estado soviético da Igreja Ortodoxa. Durante a Segunda Guerra, ajudou a reconstruir as estruturas eclesiais ortodoxas. Enviava dinheiro para alguns colegas seminaristas, fazendo isso até quando tinha cerca de 70 anos. 

Karl Marx teve educação católica

Karl Marx nasceu na cidade de Trevès, uma cidade quase toda católica, na Alemanha. Estudou no primário e no ensino médio, em escolas católicas, onde estavam vários seminaristas. Assim, adquiriu, na juventude, várias idéias cristãs, idéias nascidas no meio renano, católico. No segundo grau, no liceu, boa parte de seus colegas eram seminaristas católicos e Marx teve como colega inclusive o futuro bispo de Trevès. Assim, no livro “O Capital”, ideal descrito por Marx é um ideal cristão: o ideal humano é o de “produtores associados, que regulam racionalmente seu intercâmbio [relações] com a natureza, submetendo-a a seu controle, em lugar de ser dominados por ela e pelas forças cegas da natureza”, implantando “com o mínimo gasto de energia” “condições mais favoráveis e mais dignas de sua natureza humana”.

Gramsci viu a essência democrática popular da doutrina da Igreja

Há um comentário de Gramsci bem explicativo sobre alguns pontos da concepção política da Igreja. Este comentário consta do livro de Hugo Assmann, “Sobre a religião” (Tomo II, Salamanca, Ediciones Sígueme, 1975, p. 546). Gramsci comenta um artigo publicado na revista “Civiltà Cattolica” (01.12.1928), com o título “Autoridade e oportunismo”. Neste artigo, o Vaticano refutava a acusação antiga de Gambetta, que chamava a concepção política da Igreja de “oportunista”, por aceitar revoluções e mudanças de governo, convivendo com os novos governos, inclusive republicanos.

Gramsci destacou bem a teleologia, o finalismo católico. Esta teleologia ensina que a finalidade da sociedade e do Estado é o bem comum:

A questão foi examinada na época de Leão XIII e do “ralliement” de um parte dos católicos em relação à República Francesa e foi resolvida pelo Papa com estes pontos essenciais: 1) aceitação, ou seja, reconhecimento do poder constituído; 2º.) respeito prestado a ele como a representação de uma autoridade advinda de Deus; 3º.) obediência a todas as leis justas promulgadas por esta autoridade, mas resistência às leis injustas, com o esforço tendente a emendar a legislação e a cristianizar a sociedade. Para a “Civiltà Cattolica”, isto não seria “oportunismo”, já que este termo deve ser aplicado somente a atitude servil e exaltadora em bloco das autoridades de fato, e não de direito (a expressão “direito” tem um valor particular para os católicos).  Os católicos devem distinguir entre a “função da autoridade”, que é direito inalienável da sociedade, que não pode viver sem uma ordem [organização voltada ao bem comum], e a pessoa que exerce tal função (…). Os católicos se submetem à função, não à pessoa”.

A síntese de Gramsci do conteúdo do artigo está quase toda correta. O ponto principal é a função pública (de servir ao povo, ao bem comum) do Estado e dos cargos públicos. A concepção política da Igreja destacava a função de promotor do bem comum da autoridade e também distinguia entre leis positivas justas e leis iníquas (leis espúrias, que prejudicam o bem comum, que não obrigam, que devem ser reinterpretadas ou desobedecidas).

A função intrínseca da autoridade é a de defender, tutelar, conservar, ampliar, promover e aumentar o bem comum. O bem comum é a base da “ordem” verdadeira, cf. Santo Agostinho, sendo a base dos deveres, da hierarquia, da disciplina. Tudo deve girar em torno do bem comum. A lei natural é o conjunto das regras de proteção da natureza, da ordem, da organização racional da natureza, são as regras de proteção do bem comum (no fundo, da natureza, ponto em que a doutrina da Igreja abona o núcleo da teoria estóica, frise-se). 

O Estado é um feixe de funções, cargos, órgãos, instituições e agentes, que devem atuar em prol do bem comum. Os ocupantes podem mudar, mas o ponto central são as funções, a finalidade do Estado, o tanto que ele atende a sua finalidade intrínseca (como também ensinava Galeno), que é servir ao povo, promover o bem comum.

Em resumo: este finalismo (teleologia social, cf. Lukács, próprio de todo trabalho social) é intrinsecamente democrático, pois vincula totalmente o Estado à sociedade, ao povo (doutrina democrática popular), dando prioridade à sociedade, ao povo, à pessoa humana, o centro do universo. Da mesma forma, a concepção de “lei positiva justa” tem o mesmo conteúdo. Como explicou Santo Tomás, toda lei (norma estatal) deve ser uma ordenação racional visando o bem comum, devendo ser promulgada pela sociedade ou pelos representantes do povo, com a participação de todos no poder.

Engels elogiou o cristianismo como fator democrático e popular na história

Engels, nos textos que deixou para a redação do “Anti-Dühring” (que colhi no livro “Frederico Engels, Obras filosóficas”, México, Ed. Fondo de Cultura Económica, 1986, p. 645), tratou corretamente da relação entre “igualdade e justiça”:

“Igualdade, justiça. A idéia de que a igualdade é a expressão da justiça, o princípio da ordem político ou social perfeita, surgiu por uma via totalmente histórica. Esta idéia não existia nas comunidades naturais [há milhares de anos], ou só de um modo muito limitado, para o membro com plenitude de direitos de uma só comunidade, e entranhava a escravidão. O mesmo ocorria na democracia antiga [gregas etc]. A igualdade de todos os homens, gregos, romanos, bárbaros, livres e escravos, membros do Estado e estrangeiros, cidadãos e clientes etc, não só era, para uma cabeça antiga, disparatado, senão, além disso, criminoso; e seus primeiros inícios nasceram consequentemente com o cristianismo. No cristianismo [aparece] pela primeira vez a igualdade negativa de todos os homens ante Deus como pecadores, e, no sentido estrito, a igualdade de um e outro como filhos de Deus, redimidos pela Graça e o sangue de Cristo. Estas concepções aparecem fundadas no papel do cristianismo como religião dos escravos, dos desterrados, dos proscritos, dos perseguidos, dos oprimidos”.

Na seqüência do texto, Engels menciona como outro marco para a democratização – “a aparição das cidades” na Idade Média, a partir de 1.050, após uma pausa na barbárie. O movimento das comunas representou o reaparecimento das idéias democráticas cristãs em combinação com idéias democráticas do germanismo e também da Paidéia. Nas cidades, existiam estruturas democráticas de governo, eleições, universidades com postos eletivos, ordens onde toda a estrutura era eletiva etc.

Engels constatou que os “primeiros inícios” da idéia de “igualdade de todos os homens” vem do cristianismo. Estas idéias reaparecem, mais tarde, no movimento das comunas e na Guerra dos Camponeses. Há um certo exagero, pois ideias boas aparecem normalmente nascidas da razão natural, mas o cristianismo as frisou, foi mais enfático, e nisso Engels está certo. E há a mesma lição em Lenin, como será mostrado em outra postagem. 

O mesmo Engels admite que o socialismo nasce destas idéias, pois, com as cidades, “necessariamente tinham que ir iluminando-se pouco a pouco o postulado da igualdade como condição da existência civil, derivando-se daí a igualdade proletária de conseqüências, transladada da igualdade política à igualdade social. Em forma religiosa, isto se manifesta pela primeira vez, claramente, na guerra dos camponeses”, com Thomas Munzer, que adotava idéias do cristianismo primitivo e jusnaturalistas (ponto que explano mais adiante). Friso, corrigindo Engels, que um pouco antes de Munzer, há as idéias democráticas e socialistas de Santo Tomás Morus.

Assim, segundo Engels, a idéia de igualdade fundamental brota do cristianismo. Há certa imprecisão, pois estas idéias estavam, de forma embrionária, nas melhores idéias da Paidéia e do judaísmo e, dali, no prisma humano, foram recepcionadas pelo cristianismo. O papel de Rousseau foi apenas ter reconhecido esta igualdade de forma mais “nítida”. Os maiores anarquistas (Proudhon, Bakunin, Kropotkin e outros) também elogiaram o movimento das comunas nos séculos XI, XII e XIII, movimentos que tiveram o apoio da Igreja, especialmente dos franciscanos, servitas e dominicanos.

Engels, no livro “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, destacou os precursores do socialismo ou da democracia social (defensores do “postulado da igualdade”:

“… os anabatistas [e, antes, o cristianismo primitivo, como ele apontou em outras obras] e Thomas Munzer, os levellers na grande Revolução inglesa e Babeuf na grande Revolução Francesa. Ao lado destas manifestações revolucionárias de uma classe ainda imatura nós encontramos, nos séculos XVI e XVII, os correspondentes relatos utópicos de sociedades ideais [a “Utopia”, de Santo Tomás Morus, em 1516; e “A cidade do sol”, de Campanella, em 1623] e no século XVIII aparecem já teorias diretamente comunistas (Morelly, Mably). O postulado da igualdade não se limitava já aos direitos políticos, e sim fazia-se extensivo à situação social dos indivíduos; (…). A primeira forma de manifestar-se a nova doutrina foi, portanto, um comunismo ascético, inimigo de todos os gozos da vida, que recordava aos espartanos. Vieram lago os três grandes utopistas: Saint-Simon, …, Fourier e Owen”.

Como demonstrei no livro “Socialismo, uma utopia cristã”, todas estas fontes tinham, principalmente, bases bíblicas, hebraicas e cristãs, tendo também suporte em idéias racionais e na Paidéia. Fourier, Owen e Saint Simon eram homens profundamente religiosos, outro ponto para ser frisado. E Morelly e Mably foram dois grandes abades da Igreja, duas estrelas do Clero católico. 

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