Arquivos para : A “Fórmula” sobre ESTADO SOCIAL, economia mista, dos Grandes democratas do Brasil

Os grandes leigos da Igreja em luta pela Democracia Popular, com economia não capitalista, distributista

Jacques Maritain (1882-1973), um dos maiores leigos do século XX, sendo o autor predileto de Paulo VI, demonstrou, com clareza, que a democracia social, participativa, popular, participativa, comunitária-cooperativa, humanista e não-capitalista é o ideal histórico atual da doutrina social da Igreja. Mais adiante, neste blog, há uma seção com vários capítulos com os textos de Maritain sobre o poder público, o poder da sociedade.

O ideal da democracia social e participativa tem ampla abonação em milhares de textos. Por exemplo, os textos de Clodovis Boff, de Frei Betto, de vários bispos, de Alceu Amoroso Lima, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, do padre Júlio Maria, Pontes de Miranda (católico e socialista), Alberto Pasqualini, Roberto Lyra (católico, socialista e nacionalista), Roberto Lyra Filho, Herkenhoff, Barbosa Lima Sobrinho, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo de Tarso Santos, Francisco Whitaker e de outros milhares de leigos.

Um Estado realmente democrático é um Estado controlado pelo povo organizado, tendo, como núcleo da economia, um conjunto articulado de estatais com co-gestão, cooperativas sujeitas a um plano estatal e uma ampla base distributista, de pequenos bens (renda cidadã, casas, pequenos carros elétricos e de pequenas cilindradas etc).

As cooperativas existem e florescem graças ao apoio do Estado e de estatais com co-gestão. Ao mesmo tempo, na estrutura da economia, deve haver amplo distributismo, com renda básica para todos, boa remuneração, casa e lotes para todos, ferramentas úteis para cada família. Este ideal era, no fundo, o núcleo do programa político e econômico do Sillon, tal como das idéias de Mounier, de Maritain, de boa parte da Resistência Francesa, estando também presente nos melhores textos antiimperialistas do católico De Gaulle e dos católicos socialistas.

A democracia foi construída no Brasil por grandes cristãos

Salvador de Mendonça foi, depois de Quintino Bocaiúva, o principal redator do “Manifesto republicano”, de 1870. Tal como Quintino, era cristão. Vejamos uma análise da evolução política do Brasil, esboçada numa carta de Salvador a Afonso Celso, quando soube da morte de Dom Pedro II:

“Venho trazer-lhe o pêsame sincero, meu e dos meus, pela perda irremediável que todos sofremos [a morte de Dom Pedro II]. – V. Excelência, filho amantíssimo e herdeiro de seu nome ilustre – eu, como velho admirador, que tantas provas de afeição e confiança dele recebi – e a Pátria, que vê de súbito, desaparecer um de seus maiores filhos.

Fomos, em minha família, cinco irmãos, todos veneradores das virtudes do grande finado, desde o Francisco, o Mendonça de S. Gonçalo de Sapucaí, seu lugar-tenente no sul de Minas nas campanhas liberais, até o nosso Lúcio, a quem, pouco antes de morrer, ouvi que um dos pesares que lhe trouxera a República fora a queda do visconde de Ouro Preto. A meu ver, afora o princípio monárquico, nada caiu a 15 de novembro: a própria pessoa do imperante ficou de pé, em toda a majestade da dignidade humana. Em um dia de Outubro de 1889, o conselheiro Lafayette e eu visitávamos Mount Vernon, a meca da Democracia. O vento do outono arrastava os despojos da vegetação e do solo sagrado parecia erguerem-se vozes de oráculo, como as que se ouviam na floresta de Dodona. Lafayeite colhia as folhas de um carvalho que nascera e viçara junto ao túmulo do “mais feliz dos heróis”, e que deviam guardar vestígios do sangue do dragão. “São para o Afonso”, disse ele. Se ele as trouxe, deve v. excelência pô-las no ataúde de seu pai, pois ele pertence à raça dos fundadores do regime da liberdade representativa na América, cujos progenitores foram, nos Estados Unidos, Washington Hamilton e Jefferson, é, no Brasil, José Bonifácio, o da Independência, o padre Feijó, o Regente, e Bernardo de Vasconcelos, cuja luz alumiou o Segundo Império até o advento das vitórias liberais. Ao lado de Teófilo Otoni, Francisco Otaviano, Saldanha Marinho e Zacarias de Góis, Nabuco de Araújo e Saraiva, ele foi sempre o batalhador da vanguarda. Sem as conquistas liberais, a propaganda e a evolução da idéia republicana, não seriam possíveis, e, sem essa evolução, a República teria sido mero aborto. Destarte, o que chegou a parecer uma queda, foi, na verdade, uma ascensão. Demais, o sr. D. Pedro II, que desejava que a República o deixasse na terra natal, ainda que como simples mestre-escola, criou, efetivamente, no Brasil, a escola do patriotismo estóico e da altiva dignidade dos vencidos, de que ele próprio foi exemplo vivo e seu nobre pai o maior discípulo”.

O desenvolvimento do regime representativo, no Brasil, foi bem exposto, embora sem as grandes estrelas do movimento negro, do movimento indígena etc. Os expoentes, ressaltados por Salvador, são todos cristãos (inclusive Saldanha Marinho, maçon cristão).

Salvador ressalta bem o papel democrático do Visconde de Ouro Preto (e de seu filho, Afonso Celso, apologista da Igreja e expoente do nacionalismo). O Visconde de Ouro Preto, com João Alfredo (abolicionista), Gaspar Silveira Martins (seus discursos, publicados pelo Senado, mostram sua religiosidade) e seus maragatos (ressuscitados depois no Partido Libertador, no Partido Democrático e tendo como herdeiro Paulo Brossard) e outros líderes liberais históricos eram da mesma cepa de homens como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, o barão do Rio Branco, Eduardo Prado e outros. Também merece lembrança o velho Visconde de Abaeté (Antônio Paulino Limpo de Abreu, 1798-1883), defensor dos bispos na questão religiosa, tendo dito, na sessão do Conselho de Estado, em 3 e 4 de junho de 1873: “sigo a fé do carvoeiro”. Abaeté combateu pela democracia nos tempos da abdicação, da regência e da maioridade e foi aliado do grande padre Diogo Feijó.

A religiosidade de Lúcio de Mendonça é atestada por Antônio Felício dos Santos, no livro “Casos reais a registar” (Rio de Janeiro, Editora ABC, 1937, p. 6-8): “era o Lúcio grão-mestre adjunto da maçonaria…meu Lúcio, graças a Deus, morreu com os sacramentos da Igreja e nos braços de seu velho e constante amigo, o santo monsenhor Francisco de Paula Rodrigues – o padre Chiquinho, como foi sempre conhecido, e em cuja casa morou sempre ele, o Lúcio, quando estudou em São Paulo”.

Aquino Correa, em 1910, escreveu uma poesia extensa com o nome de “Lúcio de Mendonça, dedicada ao padre Chiquinho, lembrando os versos “Vozes do século”, de Lúcio, que lembram o “Deus da minha infância”.

Lafayette Rodrigues Pereira, um dos signatários do “Manifesto republicano”, de 1870, era jusnaturalista católico, influenciado por Kant e escreveu o livro “Vindiciae”, refutando o empirismo jurídico de Sílvio Romero. O livro “Cartas ao irmão” (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1968) mostra sua religiosidade e seu apreço às irmãs de caridade etc.

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