Arquivos para : A “Fórmula” Buchez: Estado deve criar cooperativas. Estado deve promover organização do trabalho em cooperativas, unindo autogestão, co-gestão e gestão social participativa

Mais precursores cristãos, quase todos católicos, do socialismo, pré marxistas

O padre Heinrich Pesch S.J., jesuíta, citou, corretamente, como precursores da doutrina social da Igreja: Jacques Marat, Jacques Roux, Robespierre, Buchez, Lamennais, Constantin Pecqueur, Francisco Huet, Albert de Mun, La Tour-du-Pin, Antoine e outros.

Buchez escreveu: “o fim humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução; foi no primeiro que se inspirou a segunda”, ou seja, o melhor da Revolução Francesa e do socialismo nascem de ideias cristãs.

Buchez, segundo Charles Gide (considerado o maior teórico do cooperativismo), “foi o fundador das associações cooperativas de produção (1832)”.

Charles Gide também destacou a participação de Lamennais, outro grande católico, que escreveu obras como “A questão do Trabalho” sobre a escravidão moderna do regime assalariado, onde defendeu o cooperativismo, dizendo que “o problema a resolver é chegar a um estado tal que, para o futuro, os operários trabalhem para eles e não para outrem….Dia virá em que ninguém ceifará o campo que não tiver semeado, em que cada um colherá os frutos do seu trabalho”. A inspiração no livro de Isaías (estudado por Marx, num curso na Universidade de Berlim) é clara.

François (Francisco) Huet, no livro “O reino social do cristianismo” (1853), usou o termo “socialismo cristão”, conforme consta no livro de Charles Gide, “História das Doutrinas Econômicas”, onde há um capítulo sobre o cristianismo social.

Gide menciona Huet, tal como menciona Renouvier, Fouillée (este, com Boutroux, soube mostrar a conciliação da liberdade com a necessidade, com a idéia de plano, de Providência divina e humana) e Secrétan, todos dirigistas e intervencionistas. Poderia ter citado Pedro Larousse também, republicano e socialista cristão, bem próximo de Vitor Hugo. 

O próprio Auguste Comte elogia muitíssimo a Igreja, principalmente na Idade Média. No “Tratado de Política Positiva”, I, p. 407, Comte escreveu: “a igualdade original dos homens não é um fato de observação… ela foi afirmada claramente e pela primeira vez pelo cristianismo”. É um certo exagero, pois esta verdade é constatável pela razão somente e já consta no Antigo Testamento e no melhor da literatura pagã clássica. Mas, é bom constatar o apreço de Comte e como o mesmo apontou a conexão do princípio da igualdade com o cristianismo.

Sismondi, Carlyle, Ruskin, Buchez, Lamennais e outras centenas de escritores são precursores cristãos do socialismo.

Denunciaram o liberalismo e o capitalismo.

A influência de Sismondi, Buchez e Carlyle sobre Marx e Engels é clara e documentada. Basta considerar as citações de textos de Sismondi, inclusive no “Manifesto Comunista”. O texto do jovem Engels sobre Carlyle (publicado no jornal “Anais franco-alemães”, no início de 1844) também prova esta influência. Houve também a influência de Buchez sobre Louis Blanc e Lassalle e há ligações deste último com Ketteler.

Karl Marx, na obra “Crítica ao Programa de Gotha”, escreveu que as fontes de Lassalle eram as idéias de Buchez e Louis Blanc, dois socialistas cristãos, com boa religiosidade. E Marx frisou principalmente Buchez, socialista católico. 

Eduardo Sanz y Escartín, nascido em 1855, foi outro economista espanhol que defendeu idéias de proteção social aos trabalhadores, colonização interior, municipalização dos serviços públicos e seguros sociais obrigatórios. Escreveu o livro “O Estado y la reforma social” (1896) e “La questión económica” (1890).

O Estado deve apoiar a organização do trabalho em cooperativas, em unidades produtivas com autogestão, co-gestão e controle social

Flora Tristan (n. 1803) foi outra grande socialista cristã, pré marxista, filha de um peruano. Também prova que o socialismo nasceu cristão (e judaico), pré-MARXISTA, antes de Marx. Marx fez uma síntese, sendo um grande socialista, de ideias cristãs, no fundo (cf. Dussel). 

Flora Tristan defendeu ideias baseadas na Fórmula Buchez, o Estado ajudar os trabalhadores a formarem cooperativas, a mesma ideia depois defendida por Luís Blanc e por Ferdinand Lassalle, e que foi acolhida no “Manifesto” de Marx e nos documentos bases da I Internacional.

Conforme consta no livro de Maximilien Rubel, “Karl Marx – ensayo de biografia intelectual” (Ed. Paidos, Buenos Aires, 1970, p. 90), Flora Tristan viajou várias vezes para a Inglaterra, onde se encontrava com católicos irlandeses, como O´Connor e O´Brien e outros cartistas, todos com ampla religiosidade.

Flora Tristan aprendeu bastante com o movimento dos irlandeses católicos. E aprendeu muito com a luta dos poloneses católicos contra o czarismo e com os cartistas.

Os poloneses católicos (e o mesmo vale para os judeus poloneses) sempre lutaram contra países imperialistas (Rússia, Prússia e Áustria). Situada entre a Rússia e a Prússia, tendo embaixo a Áustria, sempre estiveram em estado de rebelião. Frederico II, da Prússia, o amigo de Voltaire, dividiu a Polônia no século XVIII. Depois, em 1815, a Rússia praticamente a anexou. Em 1830, o Czar tentou enviar tropas polonesas contra os revolucionários franceses e belgas.

A Bélgica se emancipou da Holanda, em 1830, movimento que teve a participação efetiva dos católicos, democratizando mais a Bélgica e, depois, o Estado belga deu um bom exemplo construindo ferrovias, ou seja, intervindo diretamente na produção, infringindo “dogmas” do liberalismo econômico.

Diante das tropas do Czar, houve a insurreição em Cracóvia, em 1830 e o Parlamento polonês “destitui” a dinastia russa. Em toda a Europa há movimentos de simpatia pelos poloneses, mas nenhum país os ajuda efetivamente. Em 1832, a Polônia se torna uma província russa e milhares de poloneses emigram, a maior parte para a França. Em 1846, há outra insurreição em Cracóvia e desta vez é a Áustria que anexa a cidade de Cracóvia. Em 1863, há outra insurreição que fracassa e gera a morte e a prisão de milhares de patriotas. Em 1864, a Rússia proíbe até a língua polonesa.

Católicos e judeus lutavam lado a lado contra o czarismo, tal como lutaram juntos, dentro do Partido Democrático, nos EUA, apoiando o New Deal e a luta contra o racismo e pelo Estado social. 

No século XIX, os católicos irlandeses, poloneses e da Renânia foram expoentes em prol da Democracia e do Estado social. 

Quando Marx chegou a Paris, Ruge o aconselhou a conhecer Proudhon e as “mulheres”, Flora Tristan e George Sand, pois “elas são mais radicais que Louis Blanc e Lamartine” (cf. a carta de Ruge a Marx, de 01 de dezembro de 1843).

Marx citou Flora Tristan no livro “A Sagrada Família”, escrito no final de 1843. Ruge era ardentemente democrata, e por isso foi amigo de Marx por vários anos (desde 1841 ou antes e permaneceu em parte amigo mesmo após a briga contra Marx, em 1844).

Os palácios operários de Flora Tristan, tal como os falanstérios de Fourier e as fazendas com grandes casas comuns de Owen, tinham como precursoras os mosteiros e as comunidades religiosas (shakers etc).

Queriam unir campo e cidade, fortalecendo as pequenas cidades, formando agrovilas, o mesmo plano do MST, hoje, em linhas gerais. 

Vale a pena lembrar que nos mosteiros e conventos os abades eram eleitos democraticamente, com rodízio e com eleições periódicas, como também foi bem lembrado por Frei Betto, em um texto onde defende que o socialismo é co-natural aos religiosos (pelo voto de pobreza, pela ojeriza à propriedade privada, pela escolha dos abades, o espírito colegial etc).

Flora Tristan seguiu, explicitamente, os exemplos do grande católico Daniel O´Connor, um grande líder católico, tal como dos cartistas. A luta dos católicos irlandeses deu o exemplo para a organização dos cartistas e a que tentou Flora Tristan, que morreu com pouco mais de 41 anos, e ainda assim é precursora de Marx em vários pontos, especialmente na terminologia.

As idéias de organizar ou constituir a classe dos trabalhadores no país e internacionalmente foram divulgadas por Flora, que teve como exemplo Daniel O´Connor e também os Companheiros, uma organização gremial de artesãos muito antiga e ligada à Igreja.

Flora Tristan leu e conversou com Agricole Perdiguier, autor do “Livre du Compagnonnage”, de 1840. A instituição “compagnonnage”, Companheiros, remonta à Idade Média. Daí, Flora lançou o movimento “União Operária”, possivelmente uma das maiores precursoras da Internacional, da ideia de organizar os trabalhadores no prisma internacional.

Flora também conheceu François Villegardelle, editor das obras de Campanella e de Morelly, o que também demonstra bem a origem cristã católica de suas idéias, pois Campanella e Morelly baseavam suas idéias na Bíblia e nos Santos Padres. Os palácios operários teriam 3.000 trabalhadores, parecidos com os falanstérios de Owen.

Flora, seguindo as ideias de Buchez (e de Leroux) defendeu a inalienabilidade dos bens dos palácios operários, ou seja a limitação do elemento mais importante do direito de propriedade quiritário e liberal, a disponibilidade dos bens. A inalienabilidade significava a retirada do bem do mercado, da apropriação privada, e a vinculação do mesmo a formas de gestão colegial (em geral eleitas) e a funções sociais (atender às necessidades de pessoas).

A inalienabilidade (e sua vinculação a funções sociais, a atender às necessidades materiais e espirituais dos pobres, dos necessitados) era o instituto jurídico aplicado aos bens da Igreja (e do Estado) – mosteiros, conventos, paróquias, orfanatos, hospitais, as instituições de caridade e de quase todos os bens da Igreja.

Qualquer instituição ou unidade produtiva com bens alienáveis, com o trabalho, vai progredindo, pois os retornos são re-investidos, não sendo divididos, ficando os trabalhadores no controle dos bens produtivos e estes sob controle social-estatal. 

Marx, em “O capital”, seguindo textos do grande católico William Cobbett, criticou a usurpação dos bens da Igreja, apontando a usurpação destes bens, tal como a usurpação da propriedade comunitária (bens inalienáveis, como os mosteiros e a ideia de Buchez) dos camponeses, como uma das causas da acumulação primitiva dos capitais dos capitalistas.

A inalienabildade dos bens e sua vinculação às necessidades sociais é também a base jurídica das fundações e cooperativas (daí o plano do padre católico Renard de transformar todas as unidades produtivas em fundações, que são patrimônios dotados de personalidade jurídica e vinculados a fins sociais) e das cooperativas. 

Friso que o socialista católico Buchez foi o principal pensador a ressaltar os fundos indivisíveis na base das cooperativas, ponto que os Pioneiros de Rochdale também seguiram.

O instituto dos “bens de mão morta” e as “sociedades perpétuas” significam que as associações  e unidades produtivas cooperativas operárias iriam gerir os meios de produção de forma institucional e ainda com funções sociais (deveres para com o bem comum, sujeição à soberania popular e ao domínio eminente). Eram esboços de formas jurídicas cooperativas vinculadas a funções sociais, ao bem comum.

Buchez lembrou expressamente a inalienabilidade como base de suas unidades produtivas operárias (tal como Louis Blanc).

Nos Princípios (regras fundamentais do) de cooperativismo esta inalienabilidade é conhecida como “fundos indivisíveis” das cooperativas. De fato, as chances de superar o patronato, pelo menos o grande, estão nestas associações operárias, com fundos indivisíveis, combinadas com o apoio estatal e a planificação participativa.

Ota Sik, o principal líder intelectual da “Primavera de Praga” e Ministro da Economia de Alexander Dubcek, em 1968, também destaca a importância de unidades produtivas com fundos indivisíveis, autogeridas, sujeitas a formas de planejamento participativo.

Em Praga, na antiga Tchecoslováquia, em 1968, houve um esboço de um “socialismo de rosto humano” (elogiado por Hobsbawm, no livro “Tempos interessantes”, da Companhia das Letras, 2002, onde este autor também exalta o comunismo italiano, pela ênfase na democracia etc). Infelizmente, os tanques soviéticos esmagaram a Primavera de Praga.

No entanto, surgiram outros movimentos marxistas que se aproximaram das idéias da Igreja: o austromarxismo (Max Adler, Otto Bauer, Rudolf Hilferding e outros), formas de marxismo humanistas, a Escola de Frankfurt, o eurocomunismo, alguns idéias boas de Gorbachov, o socialismo autogestionário (o iugoslavo e outros modelos), o socialismo ligado aos ideais de José Martí de Fidel Castro e outros.

Autores como Henri Lefebvre também se aproximaram das teses cristãs, especialmente em livro como “Posição: contra os tecnocratas” (1967), ou em “Lógica formal, lógica dialética” (1947), onde defende a validade da lógica formal para o discurso. Sua concepção de socialismo fundada no “autogoverno”, como base para superar o burocratismo e a tecnocracia, se aproxima de boas idéias cristãs. As obras “Sobre uma interpretação do marxismo” e “Além do estruturalismo” (com crítica a Louis Althusser) trazem bons pontos de união, tal como a crítica que fez contra a teoria da consciência-reflexo. Lefebvre elaborou uma boa definição de socialismo num artigo que foi publicado na revista “Le Monde” (Paris, 29.01.1964 e depois na revista Esprit, n. 346, de fevereiro de 1966, por Desroche e ainda no livro “A utopia”, de Luiz Alberto Gómez de Souza). 

Pensadores como István Meszáros têm conceitos bem semelhantes, pois exigem um modo de produção que combine autogestão, co-gestão com planificação participativa. O mesmo para Maritain e também para Jacques 

Em cada cidade da Europa e do Brasil Colonial (cf. o livro de Nélson Omegna, “A Cidade Colonial”, elogiado por Alceu) e em outras cidades do mundo, onde a Igreja atuou, existiam pessoas bondosas (ou seja, santas, sendo a santidade algo mais comum do que se pensa), que se organizavam em várias formas societárias e jurídicas (grêmios, mosteiros, conventos, ordens, congregações, confrarias, paróquias, grupos de mútua ajuda, capelas, mutirões, corporações de trabalhadores etc), para gerirem bens comuns e para ajudarem o próximo. Estas formas continham, em embrião, em germes, as ideias sociaistas, de socialismo participativo. 

No fundo, eram grupos (associações, estruturas participativas) onde as pessoas se reuniam para a mútua ajuda (cooperação) e a solidariedade, com fundos inalienáveis, indivisíveis, que serviam como base material para estas formas de cooperação. Quem entender de mais valia e de autofinanciamento, sabe o potencial das cooperativas, se forem apoiadas pelo Estado, para erradicar o capitalismo, desde que existam outras reformas sociais essenciais. 

Da mesma forma, as pessoas se organizam em formas familiares (em famílias), que também são estruturas participativas, onde o preceito maior é a comunhão de bens, bens indivisíveis, inalienáveis, ao modo de pequenas cooperativas clãs.

Esta rede de ajuda mútua, de comunidades, de comunhão de bens, era e é a base da vida correta, tal como das famílias, que são igrejas (comunidades) domésticas. São estas as idéias que devem inspirar um modo de produção cooperativo e socialista (participativo).

Os fundamentos anticapitalistas deste tipo de idéias são evidentes, tanto pelos preceitos positivos, quanto pelas críticas (preceitos negativos), expressas nas frases contra os ricos (contra a propriedade quiritária, contra as relações de produção com base na acumulação e na exploração). Críticas proferidas por Cristo, São Judas Tadeu, São Lucas, São Paulo, São Pedro, Moisés, os Profetas bíblicos, os Santos Padres, Roux, Buchez, Ketteler e, hoje, pelos teólogos da libertação.

A luta pela superação do regime assalariado é uma luta tradicional da Igreja

O padre jesuíta Theodor Amstadt, no início do século XIX, foi um dos precursores do cooperativismo (na forma atual), no Brasil.

É importante destacar a expressão “na forma atual”, pois as aldeias indígenas, a República dos Guaranis, os Quilombos e práticas como o mutirão mostram que formas cooperativistas de produção são comuns na história do Brasil.

Muitíssimos sacerdotes, como o padre Roque Lauchner e Odelmo Schneider seguiram as pegadas do padre Theodor Amstadt. Outros precursores do cooperativismo são: Joaquim Inácio Tosta, Carlos Alberto de Menezes, Fábio Luz, Saturnino Brito, Sarandy Lobo, Luiz Amaral e outros.

Joaquim Inácio Tosta, um grande católico social, foi o responsável pela primeira lei de cooperativismo no Brasil. Sua inspiração era explicitamente católica. Lutou por leis trabalhistas em defesa dos operários, no início do século XX. Conseguiu que o Congresso aprovasse a primeira lei sobre sindicatos, no Brasil. Quase todos estes precursores eram católicos ou cristãos. Outro grande católico, Luiz Amaral, deixou uma boa obra sobre a história da agricultura e bons textos cooperativistas.

Jessie Jane Vieira de Souza, no livro “Círculos operários” (Editora Uerj Faperj, 2002, p. 189), traz um bom texto de Joaquim Inácio Tosta:

A associação, por sua vez, era ligada à Confederação Nacional dos Operários Católicos, entidade criada pela hierarquia da Igreja na década de 1920 e sediada na capi­tal federal (…)

“Os objetivos da entidade eram os de instruir os filhos dos operários, propagar entre eles os princípios da doutrina cristã, incentivar o cooperativismo, esti­mular e auxiliar a aquisição da casa própria e desenvolver uma política de aluguéis baratos, propostas que também já estavam presentes em 1908 nas palavras do deputado baiano Joaquim Ignácio Tosta, presidente do II Congresso Católico Brasileiro:

Tal é, em verdade, o pensamento do clero brasileiro. Se ele quer ir ao encontro do povo (…) é para valer, pela pureza da doutrina cristã, para cuidar dos interesses temporais do ope­rário e do agricultor em instituições cristãs, animar a formação de sindicatos profissionais e cooperativas de crédito, de con­sumo e de produção, que tornem a vida mais barata e mais confortável ao operário e ao agricultor; é para aconselhar aos que trabalham no descanso dominical e assegurar a sua obser­vância por meio de associações contra os abusos dos especu­ladores do trabalho; e para, à sombra da liberdade de ensino, fundar escolas onde o filho do povo aprenda a ler e escrever, amar a pátria e a Deus sobre todas as coisas. (Joaquim Ignácio Tosta, apud Lustosa, 1986, p. 10)”.

Em 1908 (e mesmo antes), militantes da Igreja defendiam a formação de sindicatos e cooperativas. A Confederação Nacional dos Operários Católicos, nos anos 20 do século XX, incentivava o cooperativismo e o sindicalismo, pontos que os anarquistas e sindicalistas também defendiam. Uma parte da hostilidade era pelo fato das duas doutrinas brigarem por seguidores nos mesmos círculos, na mesma órbita.

José Saturnino Britto, um dos maiores anarquistas do Brasil, no livro “Evolução do cooperativismo”(Editora Casa Mandarino, Rio de Janeiro, 1936, pp. 8-9 e 152-154), reconheceu a importância de Buchez e do Dr. King (dois homens extremamente religiosos), para o cooperativismo:

As leis, ao invés de corrigir a deturpação do cooperativismo, em muitos lugares a provocaram pas­sivamente. Porventura, o socialismo alerta de Buchez serviu de exem­plo na França, onde ele criou o “Fundo indivisível” da Associa­ção Obreira, aliás análogo ao capital coletivo, anteriormente criado pelo Dr. King.

“Dizia o predestinado Buchez: “a sagrada arca que é preciso sempre aumentar e nunca diminuir e sem a qual o princípio salvador da Associação não teria a sua virtude”, fundo destinado a permitir á Associação “tal extensão que ela acabou por congraçar todos os operários exercendo a mesma profissão numa mesma localidade. Essas Associações, se o governo lhes fosse favorável, teriam o direito de posse, poderiam reger as condições do tra­balho, organizar as instituições de previdência e assistência. Enfim, os operários manuais, ao invés de serem salariados, sem ter o futuro garantido, passariam a proprietários, entre si, dos instrumentos do trabalho e formariam instituições destinadas a garantir sua velhice ou a os ajudar nas dificuldades da vida”. Isto na época em que o maquinário substituiu o trabalho manual, citação que fizemos em “Dialogo com o Povo”, publicado em 1927.

“Mas todos aqueles esforços, possivelmente desprezados pela demagogia, degeneraram em “clubs” e sindicatos políticos, ligas de resistência, para os operários, e para os agrícolas em sindicatos comerciais, perdendo-se a noção do verdadeiro sistema cooperativista, que ficou sempre por se definir. (pp. 8-9) (…)

“Filão histórico do cooperativismo

“Os princípios que regem a cooperação representam a inteireza absoluta na forma de se economizar, abolir intermediários, criar e aplicar o capital coletivo, organizar o trabalho e distribuir a produção deste, financiar o parque das atividades profissionais.

Antes do Dr. King, Owen, Howarth, Fourier, decerto já exis­tia o regime das guildas, ansas, mirs e outras formas remotas de combinar uma finalidade comum, quer para reunir um pecúlio destinado a socorros mútuos, quer para garantir os meios de trabalho, o comércio dos produtos deste. Isto nas cidades, como nos campos.

“Por ventura o que respeitava ao regimen comunista da Idade Média, reunia na sua simplicidade toda a família das populações, quer organizada em corporações urbanas, quer na vida rural, em torno dos castelos feudais ou nos latifúndios da “não morta”.

“Era a forma espontânea, quase paradisíaca, debaixo de todos os céus enquanto o Estado se não imiscuiu, para garantir magna­tas surgidos com o maquinário, arrancando os instrumentos medievais do trabalho corporativo, desmembrado pelos monopólios, o liberalismo que permitiu que os niebelungens do capitalismo se apoderassem dos bancos, das fabricas, das terras e dos mares. Hoje até dos ares. Traída a plebe pelos girondinos e jacobinos, as idéias geniais de socialização das terras e industrias, dos armazéns municipais e de consignação dos produtos de primeira necessidade, nebulosa cooperativista, só mais tarde, Owen e Fourier desenvol­veram.

“Foi assim pressentido o gênio da cooperação, que é tão gênio como o da natureza, cujo método, que até hoje não variou, pois seria tão difícil como substituir a água, o fogo, a plebe de 44, em Rochdale, metodizou, com não menor genialidade do que a plebe de Paris e Lyon.

“Mas não bastava. A luta econômica, pacifica da cooperação não resolvia senão por meio de conta-gotas a sede de justiça. A demagogia tomou conta do campo de ação e fez das cooperativas seus instrumentos. Resultado, os princípios cooperacionistas foram deturpados em favor da ação das barricadas e das greves, até que se observou a destruição das cooperativas proletárias, salvo as que se aburguesaram, dando um mau exemplo, do qual surgiu propriamente a “cooperação livre”, que tanto serviu a gregos, como a troianos, como tudo que tem tabuleta, se expõe à deturpação, passa a instrumento dos mais velhacos.

“Entretanto, não faltaram os Vergnanini, os Rabbeno, os Vigano, os Mazzini, os Nast, os Vidari, para proclamar bem alto os princípios puríssimos da cooperação, que concretizaram o sociais mo anti-político, verdade e, que ainda bem poucos o percebem claramente.

“Não se confunde a poeira levantada a prol da realidade, com a neblina que vela o berço da natureza nas madrugadas das inicia­tivas humanas.

“A jornada cooperacionista continua. Não a da cooperação à beça, que tanto agrada aos especuladores que se aproveitam das idéias as mais puras para emporcalha-las.

“A jorrada que não cessa e a dos princípios sadios da coope­ração, que não prescinde da quantidade, embora com a cooperação predomine a qualidade afim de se padronizar a quantidade. Sua moral é esta. Esta e sua lei.

Nós aqui, com a promulgação da legislação em vigor, que gra­vitou em torno do postulado sindical-cooperativista, subsequente retificação sistemática, do Mestre Sarandy Raposo, criou-se o “habitat” legal para a concretização dos nobres princípios da cooperação, na coordenação das suas funções cíclicas, que carecem de ser especializadas, adquirindo para esse fim personalidades jurí­dicas distintas e justapostas.

“Não menoscabemos tal retificação, intrigando-a com o que surgiu espontaneamente do filão histórico cooperacionista, na luta pela realização coordenada dos princípios, pois tudo decorre da própria evolução cooperacionista e merece o melhor conceito. O que tem caráter cíclico, forçosamente tem que partir de um foco moral”. (pp. 152-154).

José Saturnino Brito escreveu belíssimas obras. Por exemplo: “a cooperação é um Estado”, “Socialismo pátrio”, “Da volúpia ao ideal”, “A escravidão dos pequenos lavradores”, “Socialismo progressivo” e “Amor, vence!”.

Lima Barreto lia e elogiava os textos de Saturnino Brito. Lima Barreto foi um dos maiores escritores brasileiros, inspirando-se no cristianismo. Elogiava São Paulo pelo amor aos pobres, criticando Nietzsche. Nietzsche odiava o cristianismo por ser uma religião que criticava os ricos e defendia os pobres, os doentes, os humilhados, os fracos etc. Jackson de Figueiredo, que converteu Alceu, foi elogiado por Lima Barreto. Por exemplo, em 23.04.1921, Lima Barreto, numa carta, reconheceu os méritos de Perilo Gomes e da Igreja.

No Brasil, houve correntes anarquistas ligadas ao cristianismo. Um exemplo: Afonso Schmidt escreveu o livro “Tesouro de Cananéia”, onde conta a história de São Nicolau, retirada do “Flos Sanctorum”.

O Plano de Deus para uma boa sociedade, sem miséria, sem grandes fortunas, com igualdade social, mediania. Uma civilização do amor e do trabalho, da paz, da vida

Deus não destinou bem algum especificamente a esta ou aquela pessoa.

Destinou todos os bens (inclusive o poder) à satisfação das necessidades de todas as pessoas, à promoção da vida em abundância para todos.

Para isso, Deus deixou à sociedade a forma de difusão e de organização dos bens, o que abarca o poder, que também é um bem temporal, como todos os outros.

Cabe a todos estruturar um modo de produção onde todos controlem os meios de produção, por difusão, com ampla distribuição de bens (propriedades limitadas pela função social) para todos, sem miséria, sem grandes fortunas privadas, com mediania, boas estatais na forma de cooperativas estatais, cooperativismo amplo (a fórmula de Buchez e Ketteler), distributismo (renda estatal para todos, apoio do Estado para todos), Democracia participativa, combinando formas de democracia direta e indireta etc. 

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