A “doutrina social” da Igreja, exposta por autores como Buchez e Keteller, tem conteúdos semelhantes com a teologia da libertação. No fundo, a Teologia da libertação é apenas um ponto na Torrente da Teologia, mas um ponto luminoso. 

O termo “socialismo” nasceu em águas católicas italianas, nasceu nos meios religiosos italianos, lá por 1820. Depois, foi ressuscitado por Leroux e alguns owenistas religiosos, em 1827. Também foi a linha de Saint-Simon, a linha de um socialismo inspirado nas idéias cristãs, expostas em seu último livro de cristianismo social.

Pierre Leroux (1798-1871) continuou a linha de Saint-Simon, tendo, em paralelo, a ação de homens como Buchez e Etienne Cabet, que foram grandes cristãos.

Pierre Leroux, católico, foi o principal divulgador do termo, usando-o a partir de 1832.

Os seguidores de Fourier também passaram a usar esta palavra, para se autodenominarem, especialmente Victor Considerant (cujos textos cristãos mereceriam ser reunidos para serem lidos nas CEBs).

Owen consagrou o termo “socialismo” em 1841. Os livros de Owen são éticos e têm um fundo religioso, especialmente seus primeiros e últimos textos, de utopia social e religiosa. O mesmo ocorre com Considerant, Leroux e Fourier.

Os textos de Leroux são os mais importantes na difusão do socialismo pré-marxista, de feitio cristão. Os títulos de seus livros falam por si mesmo: “Do cristianismo e de sua origem democrática”, “Uma religião nacional ou do culto” (1844), “Da plutocracia ou dos governos dos ricos” (1848) e outras.

Leroux era sansimoniano católico e se inspirava nos textos de Saint-Simon, que era, por sua vez, também um grande autor socialista cristão, que se inspirou nos textos de Bonald (e de De Maistre), sobre o primado da sociedade.

A religiosidade de Saint-Simon é mais do que explícita e o mesmo vale para Enfantin, seu principal seguidor.

François Huet, um católico social, no livro “O reino social do cristianismo” (1853, livro lido por Marx), usava a expressão “socialismo cristão”. Numa linha paralela com Leroux, houve os textos de Buchez.

No Brasil, o socialismo também nasce na forma utópica, cristã. O general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Bolivar, escreveu o livro “O socialismo”. Além disso, homens como Antônio Pedro Figueiredo, o principal ideólogo da Revolução Praieira, em 1848, na cidade de Recife, tentaram colocar em prática as idéias de uma democracia social. O livro de Tiago Adão Lara, “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo” (São João del Rei MG, Ed. Faculdade Dom Bosco, 1977), ilustra bem a presença do socialismo cristão na vida política brasileira.

Mais tarde, há homens como João Mangabeira, Alceu, San Thiago Dantas, Pontes de Miranda e centenas de outros escritores. O velho Pontes de Miranda morreu se auto-declarando como católico e socialista, a mesma linha de Alceu, Dom Hélder e outros luminares da Igreja, como Fábio Comparato. 

Buchez (1796-1865) era discípulo de Saint-Simon (1760-1825). Simon foi um cristão socialista, com firmes crenças religiosas. Saint-Simon não usava o termo “socialista”, e sim “cristão”. Sua última obra tem o título “Novo cristianismo” e é a mais religiosa e avançada de sua bibliografia. Os sansimonianos eram todos religiosos, a começar por Enfantin.

Tal como seu mestre imediato, Saint-Simon, Buchez unia catolicismo e sansimonismo. A influência de Buchez foi tamanha que foi chamado, por Marx, de “o chefe do partido socialista católico”. Buchez ensinava que “o objetivo humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução [Francesa]: o primeiro é que inspirou o segundo” (cf. “Traité de la politique”, t. III, p. 504).

Marx e Engels fizeram dezenas de referências aos textos de Buchez, em cartas e livros.

Marx o cita desde o livro “Sobre a questão judaica” (texto de abril ou maio de 1843), como historiador da Revolução Francesa. Marx o chamava de chefe da escola francesa católica-revolucionária, do “partido socialista católico”.

Ao lado de Buchez militavam homens como Pierre Pradié (1816-1892), um advogado de esquerda, republicano, deputado na Assembléia Geral da 2ª República, tendo Buchez presidido a Assembléia, em 1848.

Desde 1831, Buchez, em várias obras, como o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso” (1838-1840), desenvolveu suas idéias sobre cooperativas de produção com apoio do Estado. Esta foi a fórmula usada por Louis Blanc e por Lassale, como reconheceu Marx, no texto “Crítica ao Programa de Gotha”.

Buchez tem também o mérito de ter sido o precursor da defesa das cooperativas de produção. Seu trabalho não era apenas teórico, pois, em 1834, ele auxiliou a criação de uma cooperativa de trabalhadores, que continuou a existir até 1873. A cooperativa de Rochedale, para comparar, era apenas de consumo e foi criada em 1844, em Manchester.

Numa linha paralela, Lamennais defendeu o cooperativismo com apoio de um Estado democrático, em obras como “A questão do trabalho” (1848). A idéia de cooperativas com o apoio do Estado também foi adotada por Luís Blanc, que era teísta, tal como por Ledru-Rollin. Num parêntese, é bom recordar que no próprio texto do “Manifesto Comunista”, Marx e Engels consideraram o “partido democrático” e popular de Louis Blanc, aliado e discípulo de Buchez, como o partido aliado do Partido ligado a Marx, na França.

A tese da difusão das cooperativas com apoio estatal está presente também nos textos de Etienne Cabet e reaparece, mais tarde, nos textos de Lassalle, de Ketteler e dos socialistas cristãos, na Inglaterra, influenciados por Lamennais e outros.

A fórmula de Buchez de cooperativismo com intervenção e apoio do Estado consta também do “Programa de Gotha” de 1875 e também no “Manifesto” da 1ª Internacional.

Luís Blanc foi teísta durante toda a vida e há autores que consideram que foi ele que cunhou o termo “capitalismo”, para significar o sistema econômico liberal.

Blanc e Victor Hugo eram amigos, teístas e socialistas democráticos, adotando a mesma fórmula de Buchez. No século XX, o cooperativismo foi bem defendido por Antônio Sérgio, um socialista cooperativista.

Conclusão: Karl Marx, em carta de 13.10.1868, a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale, tal como em outros textos (“Crítica ao programa de Gotha”), reconheceu que Buchez foi o precursor das idéias de Lassale. Marx citou Buchez em várias obras como “A questão judaica”, “A ideologia alemã”, “A sagrada família”, “Crítica ao Programa de Gotha” e em outras, mostrando, assim, que recebeu também a influência das idéias de Buchez.

Em várias obras, Marx e Engels reconheceram que o núcleo do pensamento de Lassale tinha origem em Buchez e, por isso, chamaram Lassale de plagiário.

O próprio Schweitzer, sucessor de Lassalle, elogiava a santidade de Ketteler e o considerava como aliado. Schweitzer escreveu obras como “O espírito do tempo e o cristianismo” (1861) e “Lucinda” (1864).

Bebel, em sua autobiografia, “Minha vida” (3 vols., Stuttgart, 1910-1914), lembra que Schweitzer usava o nome de Ketteler para fortalecer o partido fundado por Lassalle.

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