O sansimonismo apresentou uma forma de interpretação progressista e, em muitos pontos, correta do cristianismo, especialmente no seu último livro “Novo cristianismo”, de 1825. Este livro inspirou socialistas cristãos como Leroux, Buchez, Enfantin, Considérant e outros socialistas cristãos.

Saint-Simon aceitava até mesmo pontos do cristianismo sobre a possibilidade de comunicação e de aparição de santos ou pessoas mortas (basta lembrar das conversas de Santa Joana d’Arc com santas mortas e do diálogo normal dos católicos com os santos , especialmente com Nossa Senhora, das aparições de Maria etc), o que demostrava, explicitamente, sua fé na imortalidade da alma.

Este ponto da fé não é “espírita”, e sim cristão. Foi o espiritismo cristão que assimilou estes dois pontos corretos do cristianismo, acrescentando, infelizmente, erros como a idéia de “possessão” dos mortos pelos “médiuns”.

Saint-Simon escreveu, no livro “Lettre á son Neveu” (1810):

Carlos Magno me apareceu e me disse: desde que o mundo existe, nenhuma família gozou a honra de produzir um herói e um filósofo de primeira linha; esta honra estava reservada à minha casa. Meu filho, teus sucessos como filósofo igualarão àqueles que obtive como militar e como político; e desapareceu”.

Saint-Simon queria a união (no fundo, a cooperação do Estado e da Igreja) do poder temporal com o espiritual:

O poder temporal e espiritual será exercido por todas as Academias de Ciências de Europa. Um conselho de vinte e um sábios escolhidos pela humanidade inteira, o Conselho de Newton, terá a tarefa de representar a Deus sobre a terra e de dirigir aos homens para seu maior bem”.

A corrente socialista sansimoniana sempre apresentou bons elementos de religiosidade, como pode ser visto nos textos e nas vidas de Leroux, Enfantin, Buchez, Georges Sand, Victor Hugo e Louis Blanc.

As raízes cristãs (e há algumas hebraicas também) são claras no sansimonismo. Por exemplo, no livro “Cartas de um habitante de Genebra a seus contemporâneos”, 1803, Saint-Simon coloca a voz de Deus anunciando: “dia virá em que farei da terra um paraíso”.

Esta idéia é claramente católica (e hebraica). Para provar isso, basta a leitura do Catecismo do Vaticano, na parte sobre os novíssimos, relativo ao “oitavo dia” da criação. Ou o livro de Jean Delumeau, “O que sobrou do paraíso?” (editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003).

Louis Blanc, no livro “Organização do trabalho”, escreveu, desenvolvendo algumas das idéias de Saint-Simon (especialmente a de usar recursos públicos para amparar talentos, trabalho produtivo, pesquisa científica, artes etc, cooperativas, no fundo): “a emancipação dos trabalhadores é uma obra muito complicada (….). É preciso recorrer a toda a força do Estado. O que falta aos proletários, para se emanciparem, são os instrumentos de trabalho. A função do governo é fornecer-lhos. Se tivéssemos de definir o Estado segundo a nossa concepção, responderíamos: o Estado é o banqueiro dos pobres”.

Marx, no documento “Da indiferença em matéria política” (1873), escreveu: “não temos o direito de renegar esses patriarcas do socialismo (Fourier, Owen, Saint-Simon), assim como os químicos atuais vêem nos antigos alquimistas os precursores e os ancestrais”. Correto.

Frise-se: os “patriarcas” (termo bem bíblico), os “ancestrais” e os “alquimistas” do socialismo eram, quase todos, cristãos, deístas ou pessoas com inspiração em idéias religiosas.

Engels escreveu, no prefácio ao livro “A guerra dos camponeses” (editado em Londres, em 1874), uma frase, com base na famosa declaração de Newton sobre os precursores: “o socialismo alemão teórico não esquecerá jamais que se apoiou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e utopia de suas doutrinas, contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras idéias das quais demonstramos presentemente a justeza científica”.

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