Woodrow Wilson e a influência do cristianismo na democracia

Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) foi professor de direito e também Presidente (democrata) dos EUA, de 1913 a 1921. Este presidente visitou Bento XV, em 1919, demonstrando a linha bem semelhante que os unia, no tocante à busca de uma estrutura jurídica positiva para o mundo, um Estado mundial.

Os célebres “catorze pontos”, propostos por Wilson, foram precedidos pelas propostas de Bento XV, de desarmamento, arbitragem e criação de um organismo internacional, o núcleo de um Estado mundial, para abolir todas as guerras.

Woodrow escreveu várias obras importantes que refletem o pensamento de parte importante dos democratas norte-americanos (do “Partido Democrata”). O sistema de voto distrital, nos EUA (tal como na Inglaterra), gera o bipartidarismo e inibe as forças políticas (por isso, Raul Pilla, nosso maior parlamentarista, cristão, defendia o parlamentarismo com sistema proporcional). Por conta do engessamento, o Partido Democrático, nos EUA, é bem heterogêneo. Existem democratas tão ruins quanto os republicanos, mas há também bons quadros e boas idéias, que militam naquele Partido, por falta de opção.

Historicamente, o voto católico, nos EUA, vai, na maior parte, para o Partido Democrático. Isto fica bem claro na história do Estado de Nova Iorque, onde a aliança entre católicos e democratas data da maciça entrada de irlandeses e da militância católica. Também fica patente no apoio a Al Smith, Franklin Roosevelt, a Adlai Stevenson, Kennedy, George Stanley McGovern (candidato meio esquerda, do Partido Democrata, em 1972) ou mesmo a Jimmy Carter. E, hoje, com Sanders. 

A linha dos democratas, nos EUA, passa por Jefferson, Wilson, o “New Deal” de Franklin Roosevelt, o “Fair Deal” de Harry Truman, a pregação de Kennedy, a “Grande sociedade” de Lyndon Johnson (com imensos defeitos, mas melhor que Barry Goldwater, seu adversário em 1964), o ideário de McGovern, Carter e Obama. Os Clinton foram coniventes. O governo de Obama Hussein Barack teve coisas boas, mas teve erros grotescos como o ataque a países árabes.

Wilson, no livro “O Estado” (Madrid, Librería General de Victoriano Suárez, 1922, pp 24-25), examinou as “teorias relativas à origem do Estado”, concluindo que a teoria jusnaturalista-contratualista é “a mais famosa e a mais importante”. Demonstrou, com base em dados históricos, que esta teoria tem base na Paidéia e na Bíblia.

Os pensadores democráticos mais renomados, para Wilson, seriam “Hooker, Hobbes, Locke e Rousseau”. As obras fundamentais seriam: o livro “Política eclesiástica” de Hooker (que segue uma matriz nitidamente escolástica), o “Leviatã” de Hobbes, o livro “Sobre o governo civil” de Locke e o “Contrato Social” de Rousseau.

O que Wilson não examinou a fundo foram as fontes escolásticas, patrísticas, gregas e bíblicas de Hooker, Locke e Rousseau, e também dos textos racionais de Hobbes (os erros horríveis deste são só dele). A maior parte destas fontes tem matriz cristã, hebraica ou na Paidéia (combinada com a religiosidade grega, próxima da cristã, como frisou Dom Martins Terra).

Wilson resume a teoria “tradicional” da democracia (a teoria jusnaturalista, como também ensinou Schumpeter, como será demonstrado no capítulo seguinte) dizendo que esta “parte” (tem como premissa) “sempre de que existe fora, e por cima das leis dos homens, um direito natural” (logo, parte da tese jusnaturalista) e diz que mesmo Hobbes “considerava que este direito compreendia a justiça, a equidade, a modéstia, o perdão, em suma, fazer aos demais o que queremos que estes façam por nós” (ou seja, da “regra áurea” e democrática do Evangelho, resumindo os dez mandamentos, segundo Cristo).

Para Wilson, a teoria democrática clássica diz que “a lei humana” devia “conformar-se” a estas virtudes (ou seja, com as idéias práticas e juízos racionais presentes na consciência de todos e conexos com as necessidades de todos).

Wilson redigiu, na pág. 28 da obra referida, um capítulo com o título “a verdade nas teorias” onde recusava a existência de um “contrato original”, adotando uma fundamentação jusnaturalista da democracia, na linha aristotélica. Ele chega a citar a frase de Aristóteles: “o homem é, por natureza, um animal político”, uma frase usada por Aquino, reiteradas vezes.

Em 1913, Woodrow Wilson proferiu as seguintes palavras sobre a situação dos EUA, mostrando que há algumas luzes entre os democratas (há também bons textos de Franklin Roosevelt, Kennedy, Carter e de outros autores):

Os fatos da situação são os seguintes: um número relativamente pequenos de homens controla as matérias-primas deste país; um número relativamente pequeno de homens controla a força hidráulica… que o mesmo número de homens controla em grande parte as ferrovias; que, por acordo entre si, controlam preços e que o mesmo grupo controla os maiores créditos do país. Os donos do governo dos Estados Unidos são os capitalistas e industriais”.

Da mesma forma, há excelentes textos de Franklin Roosevelt e de seu grande vice-presidente, Henry Wallace (“a democracia é a única expressão política verdadeira do cristianismo”).

As obras de Arthur Schlesinger Jr (professor da Universidade de Nova Iorque) demonstram que o Partido Democrata, nos EUA, tem, em sua história e ideário, a tradição jusnaturalista de Thomas Jefferson e de Jackson, adversária do grande capital e do latifúndio.

Neste mesmo sentido, vale a pena ler os livros de Michael Moore; de Michael Harrington (socialista de formação católica, entre os jesuítas); tal como as obras de Schlesinger, como “A era de Jackson” e “A era de Roosevelt”. Há as mesmas idéias nos livros históricos de Gore Vidal (atacando corretamente o grande capital) e nos textos de Norman Mailer, cristão de esquerda. Mais ou menos na mesma linha houve ainda Stevenson.

Galbraith, ligado a Kennedy, também deixou bons textos sobre a importância do controle de preços e sobre a iniquidade do liberalismo, como consta no livro “A sociedade justa – uma perspectiva humana” (livro elogiado até por Dom Pedro Casaldáliga).

Outro autor que redigiu textos jusnaturalistas foi Walter Lippmann (apesar de limitações e erros do neoliberalismo), especialmente o livro “A reconstrução da sociedade” (Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1961, p. 286), onde elogia o jusnaturalismo como a base filosófica que proporciona base teórica para o controle social sobre o Estado, “realizar o que Platão chamava de vitória da persuasão sobre a força”.

O partido Democrático é controlado pelos capitalistas, como acentua Michael Moore (de formação católica), mas oferece um certo espaço de militância anti-capitalista. A maior parte dos negros e dos católicos, nos EUA, militam no Partido Democrático, por não terem outra alternativa no sistema majoritário (que o PFL/DEM sonha implantar no Brasil). Há uma tradição democrática anticapitalista nos EUA, como pode ser visto no movimento dos “Cavaleiros do Trabalho” (a primeira organização operária nos EUA, que foi liderada por um católico e teve o apoio de Leão XIII e o elogio de Lenin).

O populismo e o agrarismo (basta pensar em Henry Wallace) são outros movimentos populares anticapitalistas.

O populismo teve, como grande liderança, William Briant. Estes movimentos ainda influenciam parte do povo americano. Da mesma forma, os movimentos negros e chicanos (com lideranças católicas e camponesas como César Chavez) também são anticapitalistas.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, existente até hoje, com Convenções nacionais), o movimento de Luther King, dos Muçulmanos Negros, dos Panteras Negros e de Malcom X, tal como igrejas ligadas à teologia negra e a teologia da libertação nos EUA, são movimentos democráticos e anticapitalistas.

As idéias de “dispersão do poder” na sociedade (distributismo dos bens e do poder) estão claras nas melhores obras de Jefferson, que Alceu Amoroso Lima tanto elogiava.

Alceu também ensinava que o Partido Democrata, nos EUA, tinha algumas boas tradições, sendo um mal bem menor que o Partido Republicano, o partido do grande capital, de Nixon, Reagan, dos Busch e de outros fantoches do capital, como Trumpo.

Conclusão: para o constitucionalista Wilson, os Estados surgem espontaneamente e naturalmente pela agregação e se organizam pela reflexão racional, pelo consentimento. Estruturam-se de acordo com as idéias e as necessidades do povo. Wilson teve seus méritos, pois também defendeu a formação de uma Sociedade das Nações (preconizada pelo padre Francisco Vitória, Suárez, Grócio, o abade de Saint Pierre e por Taparelli) e, depois de muita pressão das sufragistas (há um filme lindo sobre esta luta), terminou por aceitar o voto feminino.

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