A Teologia católica sempre distinguiu as boas paixões (bons afetos) das más paixões. As boas salvam, são motores essenciais.

Herbert Spencer também distinguia entre os sentimentos (afetos, emoções, paixões), considerando uns como bons e outros como maus. Spencer considerava, corretamente, a ampliação dos “sentimentos altruístas” (os bons sentimentos, os sentimentos racionais) como a base da evolução humana (cf. seu livro “A justiça”).

Jackson de Figueiredo, no livro “A coluna de fogo”, lembrava o ensino da “filosofia tomista”: “deu-nos a Providência a paixão irascível precisamente para resistir ao mal”. Como o mal é a “ausência do bem devido” (como foi demonstrado por Santo Agostinho na discussão com os maniqueus), “resistir ao mal” significa conservar, proteger e promover o bem geral, comum, o bem mais geral e difuso que pudermos.

A “paixão irascível” (indignação, ira etc diante do mal) foi feita para a luta em prol do bem comum. A “paixão da concupiscência” (os prazeres) foi implantada no corpo por Deus para que as pessoas tenham prazeres constantes, moderados e racionais (no fundo, o ideal do próprio Epicuro, tal como do eudemonismo de Aristóteles), o que é essencial para a saúde humana, para a plenitude da natureza humana. Por isso, Deus implantou o prazer sexual para que tivéssemos prazer na união amorosa com nosso par, na geração de filhos, na manutenção da família etc. O prazer da alimentação é essencial para a sobrevivência (para a boa alimentação) do corpo e assim por diante.

A Igreja não despreza o prazer, apenas exige que este seja pautado pela razão e pelo bem comum, as mesmas regras aplicáveis ao poder público.

As paixões e afetos, desde que racionais e sociais, são boas e queridas por Deus, como também ensinou Descartes, em seu “Tratado das paixões”. Em 1880, Leão XIII foi bem conciso: “grande é com efeito a força do exemplo e maior ainda o poder da paixão”. Por isso, os grandes santos eram pessoas apaixonadas, com fortes paixões, mas regidas pela razão e pelo bem comum.

A teologia moral ensina, assim, que existem as boas paixões (os bons afetos e emoções, em harmonia com a razão, com o bem comum) e as más paixões. Na mesma linha, Aristóteles ensinava, na “Poética” (1449), que a boa arte produz a purgação das paixões, a purificação dos afetos (sublimação dos instintos, nos termos de Freud, neste ponto com influência aristotélica), que é, no fundo, a ordenação racional e social (regras que expressam as exigências do bem social) dos afetos, como ensinava Santo Inácio, em seus exercícios espirituais.

O elogio da natureza, a principal mediação da ação de Deus, faz parte das entranhas do catolicismo, tal como das correntes empapadas de catolicismo, como o romantismo, a homeopatia e hidropatia (neste ponto, ver as antigas e boas obras literárias de Monsenhor Sebastião Kneipp, sobre os diversos tipos de água e como curam).

Neste sentido, a ética cristã também coincide (inclusive por ser a matriz) com o melhor da ética muçulmana, como fica claro no livro ético do Dr. Yossef Al-Karadhawi, “O ilícito e o ilícito no Islam” (São Bernardo do Campo, Ed. Alvorada, 1960), especialmente na parte referente aos preceitos éticos consensuais como a base legítima da ética, exaltando o “princípio da permissibilidade” (da aprovação, do consenso), que contém o elogio da liberdade (os atos naturais são naturalmente bons, livres, sendo as proibições uma exceção).

Após deixar claro que as boas paixões (bons afetos, emoções e mesmo bons instintos) marcham junto com a razão, frise-se que usamos a palavra “razão” como faculdade (causa) cognitiva e também o mesmo “razão” como o efeito do ato de raciocinar, significando as idéias racionais. Por isso, escrevemos “a razão humana é uma faculdade essencial” e “esta ideia é irracional”, ou seja, contradiz a razão, contradiz as idéias racionais. Da mesma forma, o poder legítimo é o poder que expressa a faculdade criadora da razão de todos, o poder que adéqua suas estruturas e regras ao conjunto das idéias práticas da sociedade, idéias que expressam as exigências (regras) do bem comum.

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