Precursores cristãos católicos do melhor do marxismo, cf. Dom José E. Martins Terra

No ensaio sobre a origem da “Rerum Novarum”, Dom José Evangelista Martins Terra, um dos bispos mais cultos do Clero brasileiro, autor de obras excelentes, faz o histórico sobre alguns pensadores católicos que precederam Marx, com base no livro do padre Fernando Bastos de Ávila. O texto é bom, vejamos a transcrição:

Numa obra preciosa e pouco divulgada, escrita pelo sociólogo jesuíta Pe. Fernando Bastos de Ávila, é transcrito o resultado de sua pesquisa realizada em Paris, na qual analisa as obras e a vida de 17 católicos franceses que expressaram com notável precisão o pensamento social cristão antes de Marx.

Nesse livro raro, o Pe. Ávila demonstra como a crítica ao capitalismo como sistema global já se consumara muito antes de 1848.

Esse estudo das obras de católicos franceses que escreveram antes de Karl Marx põe em evidência que todos os pontos vulneráveis do modelo econômico capitalista já tinham sido denunciados com clareza inequívoca pelo catolicismo social.

Muitos elementos integrados por Marx em sua síntese, como dados originais, de fato ele os encontrou elaborados numa corrente de pensamento que inundara o espaço cultural europeu.

Antes de Marx, pensadores cristãos já conheciam o mecanismo da mais-valia e tinham descoberto, no processo espoliador do capitalismo, a causa secreta da questão social.

Até expressões habitualmente atribuídas a Marx, como a “exploração do homem pelo homem”, são encontradas ipsis lilteris na tradição cristã pré- -marxista.

‘ Nesse livro, Pe. Ávila, depois de dar um breve resumo da vida de cada autor, faz uma seleção de suas obras, transcrevendo literalmente textos que focalizam os problemas sociais e que tiveram grande importância na formação do pensamento social católico antes de Leão XIII.

Se tivesse tempo, gostaria de citar os comentários que faz o Pe. Ávila sobre os textos selecionados de cada um desses autores.

Quero pelo menos citar-lhes os nomes: Conde Joseph de Maistre (1753-1821), Luis de Bonald (1754-1840), La Mennais (1782- -1854), Dom Philippe Gerbet (1798-1864), Philippe Buchez (1796- -1865), Joseph Marie deGérando (1722-1842), Louis René Villermé (1782-1863), Visconde de Villeneuve-Bargemont(1784-1850), Conde de Montalembert (1810-1870), Conde Charles de Coux (1787- 1864), Amédée Hennequin, Lacordaire (1802-1861), A. Frédéric Ozanam (1813-1853), Louis Veuillot (1813-1883), A. Gratry (1805- -1872), Visconce Armand de Melun (1807-1877), Felix Dupanloup (1802-1878).

Todos esses escritores católicos tiveram, antes de Marx, uma visão aguda do problema social e propuseram para ele soluções inspiradas na concepção cristã de homem e da sociedade.

Alguns deles deixaram escritos que ainda hoje merecem ser lidos.

Buchez, que Ávila denomina “um socialista cristão”, já usara em 1829 expressões que 20 anos depois haveriam de ser repetidas por Marx: “A exploração do homem pelo homem gera diversos tipos de vícios tanto naqueles que exploram como nos desgraçados que são explorados”. Nesse mesmo texto ele falava da “luta de classes”;

Louis Vellermé, médico, classificado como um “precursor da sociologia moderna”, escreveu em 1829 um tratado sobre os problemas sociais nas prisões e conseguiu a promulgação em 1841 da lei que proibia o trabalho dos menores de 8 anos nas fábricas. O resultado de suas atividades sociais foi publicado em 1849 na sua obra “As associações operárias”.

O Visconde de Villeneuve-Bargemont tomou-se uma fonte da doutrina social; foi o primeiro a definir os elementos essenciais da justiça salarial, lançando a idéia do salário mínimo. Sua doutrina foi assumida por Leão XIII na Rerum Novarum. Suas obras volumosas sobre “Economia cristã” (1834) tiveram ampla influência. Ele é considerado “um precursor do catolicismo social”.

O Conde de Coux publicou em 1832 seus “Ensaios de Economia Política” e “Curso de Economia Social”. Antes de Marx já mostrava que a “mudança social” é condicionada pela evolução do sistema econômico.

Mas um dos representantes mais impressionantes do pensamento social cristão é Frederico Ozanam, que desde a juventude manifestou grande preocupação pelo problema social; para agrupar jovens intelectuais católicos numa certa unidade de pensamento e ação, fundou, em 1833, as Conferências de São Vicente de Paulo. Deixou várias obras sobre questões sociais entre as quais “Des origines du socialisme”. 

Tendo se restringido por princípio aos pensadores católicos franceses representantes de várias tendências do catolicismo social, que escreveram antes de Karl Marx, o Pe. Ávila não pôde tratar de muitos outros escritores que tiveram enorme importância na formação do pensamento social católico, mas cujos textos são posteriores a 1850.

Vou recordar aqui três desses pensadores que podem ser considerados precursores imediatos da encíclica Rerum Novarum.

Barão Guilherme Manuel Ketteler (1811-1877), membro do parlamento de Francoforte em 1848, impressionou pelo arrojo com que reivindicou a liberdade política perante o autoritarismo vigente no império. Bispo de Mogúncia [Mainz, perto de Treves] em 1850 pugnou sempre pela justiça social e pela liberdade da Igreja. Incitou os cristãos a infundirem o espírito de Cristo nas realidades sociopolíticas. Autêntico promotor da justiça social — Leão XIII chamou-o seu predecessor —, elaborou uma doutrina nova da propriedade e preconizou a associação profissional e organização de sindicato. Presente no Reichstag (1871-1872), sintetizou os princípios do Partido do Centro, foi precursor da atual democracia cristã, combateu sem tréguas a Kulturkampf, e foi um dos iniciadores do socialismo cristão. Escreveu várias obras sobre direito e política social, entre as quais a “(Questão trabalhista e o Cristianismo” (1854). Exerceu grande influência em muitos outros pensadores católicos.

Marquês René La Tour du Pin (1831-1924): durante a guerra franco-prussiana (1870) foi feito prisioneiro em Metz, onde encontrou no cativeiro Alberto de Mun, com quem fundou em 1871, os “círculos católicos de operários”. Com Dom Mermillod, bispo de Genebra, fundou em 1872, em Friburgo, o Conselho de Estudos Sociais, tendo como órgão a revista L’Association Catholique. O marquês La Tour du Pin foi o principal doutrinador, na França, da ação social da Igreja, antes de Leão XIII. Contribuiu notavelmente para o ressurgimento do corporativismo que preconizou como solução entre o individualismo dissolvente e o socialismo estatal. Algumas das suas idéias, como a da relação entre o salário justo e as necessidades do trabalhador, foram assumidas por Leão Xll l na Encíclica Rerum Novarum. Escreveu vários livros, que ainda hoje conservam seu valor, como “Para uma ordem social cristã”; “Aforismos de política social”.

Alberto de Mun (1841-1914), sociólogo e político católico, participou na guerra franco-prussiana (1870); durante o cativeiro na Alemanha leu obras de Dom Ketteler, bispo de Mogúncia, e regressando à pátria, consagrou-se à ação política e social à luz do Evangelho perante as correntes socialistas e revolucionárias da época. Em 1871 fundou com La Tour du Pin a obra dos Círculos Católicos de Operários, que estimulou os católicos à luta sindical. A revista Association Catholique (1874-1891) foi a sua tribuna. Seu pensamento social concretizou-se na defesa da salutar intervenção do Estado, contra o liberalismo capitalista, e na restauração da organização profissional. Publicou, antes da Rerum Novarum duas obras fundamentais sobre a questão social: “La question ouvrière” (1885) e “Organisation professionelle”. A importância de Albert de M un na formação do pensamento social católico foi enorme.

Pe. Ávila supõe que foi Alberto de Mun quem preparou a minuta do texto que serviria de documento de base da encíclica Rerum Novarum (F. Bastos de Ávila, S.J, O pensamento social cristão antes de Marx, Rio de Janeiro 1970, p. 12)”.

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