A luta pela Democracia popular, pela difusão de bens, Estado social, economia mista, nosso ideal concreto histórico

Não há uma filosofia oficial, confessional, cristã.

A “filosofia cristã” é, em si mesma, ecumênica, pluralista, como a própria razão, pois é fruto da razão humana, com a ajuda da graça e da fé. Graça e fé são ajudas da razão, limpam e aperfeiçoam o gume da razão, a luz natural da razão, que foi feita para nos guiar. Deus nos criou para sermos os senhores de nossos destinos.

Da mesma forma, não há uma estética (ou sociologia, ou biologia) cristã, como já apontada Bréhier. Também não há um modelo concreto de economia ou de Estado cristão, só linhas gerais. Não há uma política cristã, mas há uma visão cristã da política, um conjunto de idéias e diretrizes, ligadas historicamente à Igreja, idéias que são gerais, respeitando a liberdade política dos católicos. Dentro das ideias gerais, podemos ter diferenças legítimas. 

Este ponto foi bem explicado na “Fides et ratio”, por João Paulo II:

“76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos designam com a expressão filosofia cristã. A denominação, em si mesma, é legítima, mas não deve dar margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela designação, deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua pesquisa, quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico que não seriam alcançados sem a contribuição, direta ou indireta, da fé cristã”.

A expressão “filosofia cristã” significa, assim, como bem explicou João Paulo II, “o pensamento filosófico” gerado pela luz da razão e da experiência histórica (da “tradição”), sem “contradizer a fé” e que abraça os “importantes avanços do pensamento filosófico”, sendo mutável pela ampliação gradual do conhecimento na história.

Por valorizar a razão e a história, no fundo, por valorizar a vida concreta e histórica, o catolicismo exige a liberdade política, cultural, filosófica, pedagógica, civil, liberdades civis moderadas pelo bem comum etc.

João Paulo II, ainda na “Fides et ratio” (14.09.1998), no capítulo 19, ensinou:

Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua inteligência, é capaz de “conhecer a constituição do universo e a força dos elementos (…), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes” (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo.

Retomando o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: “Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso “livro da natureza”; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre e pelo seu pecado.

João Paulo II explicou bem que “a Revelação propõe claramente algumas verdades que, embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria”.

Frise-se: grande parte da Revelação, especificamente dos textos bíblicos, é também acessível pela via natural da razão. Estas verdades naturais são salvíficas, venham de onde vierem. Ao serem aprofundadas por grandes pensadores, geraram como que uma corrente filosófica cristã (sempre racional, ressalte-se), mas sem uma união indissolúvel, pois há um progresso da razão no tempo e também no aprofundamento do entendimento dos dados da Revelação.

No mesmo documento, João Paulo II elogia como exemplos:

“74. A prova da fecundidade de tal relação é oferecida pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se distinguiram também como grandes filósofos, deixando escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados ao lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da Igreja, de entre os quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S. Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino.

A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov’ev, Pavel A. Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij.

Ao referir estes autores, ao lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir para o avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da Igreja e da humanidade”.

Os “grandes mestres da filosofia antiga”, por serem grandes eruditos (que reconheceram o conhecimento disperso nas culturas egípcias, persa, grega, suméria, babilônica etc), coincidem, em grande parte, com as idéias bíblicas e com as idéias dos Santos Padres e da Escolástica.

Assim, os textos de homens como São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino são ainda fecundos.

Frise-se que os exemplos dados por João Paulo II conciliavam catolicismo com democracia popular, Estado social, distributismo, bem comum, difusão de bens. Este ponto fica patente nos textos do Cardeal Newman, em Rosmini, Maritain, Etienne Gilson, Edith Stein (morta pelos nazistas) e em outros grandes autores (faltou uma boa citação de Mably, Dupanloup, Ketteler, Ozanam ou Buchez).

O papa também citou corretamente Soloviev e Chaadaev, no mundo oriental ortodoxo (que tem as mesmas idéias católicas, podendo inclusive os católicos participarem das Missas ortodoxas, confessarem perante padres ortodoxos etc).

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