Rousseau, Carnegie e João Paulo I – a alegria é o estado natural das pessoas, fomos criados para sermos alegres

Rousseau foi criado como católico e foi católico quase toda a vida. Foi influenciado por quatro grandes católicos, o abade Saint Pierre (1658-1743), Montesquieu, Mably e Condillac.

Mably e Condillac eram irmãos, sendo os dois sacerdotes católicos, sendo duas estrelas de máxima magnitude, no movimento intelectual que gerou a Revolução Francesa. Mesmo depois de passar do catolicismo ao protestantismo, Rousseau condenou os erros antropológicos jansenistas e calvinistas, de pessimismo.

Rousseau foi também influenciado por Daniel Defoe, por John Locke, Grócio e outros autores cristãos. Grócio era praticamente católico, pois era o principal líder arminiano, na Holanda. Os arminianos eram praticamente católicos. 

Hugo Grócio (1583-1645), jurista e teólogo holandes, leu as obras de Santo Tomás e Suárez, sendo um continuador destes luminares católicos. Grócio foi discípulo também de Escalígero (um grande católico estoico), na Universidade de Leyden. Grócio viveu na França por vários anos e recebeu mesmo pensão de Luís XIII. Foi partidário dos arminianos, pois defendia o livre arbítrio, contra as teses do calvinismo. Na mesma linha que Grócio, trabalhava Leibnitz, também pró católico. Leibnitz e Grócio eram ecumênicos e queriam a reconstituição da Igreja, com a volta dos protestantes, e a aceitação pela Igreja das boas ideias dos reformadores. Boa solução. Leibnitz era também ultra otimista na vida e foi criticado por Voltaire, no livro “Cândido”, por este otimismo saudável. 

Hugo Grócio ensinou, na mesma linha da Igreja, que “o direito natural é o ditado da reta razão”, direito natural é o conjunto das melhores ideias práticas das pessoas. O direito natural é composto dos “ditos” (palavras, idéias) da razão natural, “que indica que algum ato, por sua adequação ou falta de adequação com a natureza racional mesma” é “moralmente necessário” (bom) ou uma “torpeza moral”. Assim, a democracia é a melhor forma de governo, a mais natural, pois trabalha com o consenso entre as luzes naturais da razão, em cada um de nós, o que gera, em regra, decisões práticas razoáveis, boas, conformes à mente da Deus, em perfeita adequação à natureza. 

Sobre o otimismo cristão e o culto à alegria, ideário que inspirou Rousseau, vale a pena ler um bom texto de João Paulo I, na “Audiência de 20.09.1978:

A mensagem cristã — disse o Concílio não afasta os homens da construção do mundo… impõe-lhes, ao contrário, um dever mais rigoroso” (Gaudium et Spes, 34. Cfr. nn. 39 e 57; e Mensagem ao Mundo dos Padres Conciliares, de 20 de Outubro de 1962).

Têm surgido de vez em quando no decurso dos séculos afirmações e tendências de cristãos demasiado pessimistas quanto ao homem. Mas tais afirmações foram desaprovadas pela Igreja e esquecidas graças a uma falange de santos alegres e ativos, graças ao humanismo cristão, aos mestres de ascética que Saint-Beuve chamou “les doux” [“os doces”] e graças ainda a uma teologia compreensiva. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, coloca entre as virtudes a “iucunditas” [alegria] ou seja a capacidade de converter num sorriso alegre — na medida e no modo conveniente — as coisas ouvidas e vistas (Cf. 2.2ae, q. 168, a. 2). Jucundo deste modo — explicava aos meus alunos — foi aquele pedreiro irlandês, que se precipitou do andaime e quebrou as pernas. Levado ao hospital, vieram o médico e a Irmã enfermeira. “Pobrezinho — disse esta última feriu-se muito caindo”. Replicou o ferido: “Madre, não foi precisamente caindo, mas chegando ao chão é que me feri”. Declarando ser virtude gracejar e fazer sorrir, Santo Tomás encontrava-se de acordo com a “alegre nova” pregada por Cristo, com a hilaritas [hilariedade] recomendada por Santo Agostinho. Vencia o pessimismo, revestia de alegria a vida cristã, convidava-nos a tomar “animo também com os gozos sãos e puros que se nos deparam no caminho. Quando eu era rapaz, li alguma coisa sobre Andrew Carnegie, escocês, que imigrou com os pais para a América e chegou pouco a pouco a ser um dos maiores ricaços do mundo. Não era católico, mas impressionou-me que falasse com insistência das alegrias genuínas e autênticas da sua vida. “Nasci na miséria — dizia —, mas não trocaria as recordações da minha meninice com as dos filhos dos milionários. Que sabem eles das alegrias familiares, da terna figura da mãe que junta em si os cargos de encarregada de crianças, de lavadeira, de cozinheira, de mestra, de anjo e de santa?”. Julgo que o Magistério da Igreja nunca insistirá demais em apresentar e recomendar a solução dos grandes problemas da liberdade, da justiça, da paz e do desenvolvimento; e os leigos católicos nunca se baterão suficientemente para resolver estes problemas”.

O otimismo é profundamente cristão. Esta proposição foi bem demonstrada pela vida e pelas idéias de santos como São Francisco de Assis, João XXIII, Alceu Amoroso Lima e também nos textos dos padres Edvino Augusto Friedrichs, Roque Schneider, Oscar Quevedo e Valério Alberton.

Num movimento paralelo à Revolução Francesa, existiram movimentos pró-democracia na Polônia, na Irlanda, no Brasil, na Europa inteira, com ampla participação dos leigos católicos. Na Inglaterra, anos depois, o movimento pela ampliação e radicalização da democracia, dos cartistas e dos irlandeses, tinha inúmeros leigos católicos irlandeses. Durante do século XIX, os leigos católicos brilharam, na linha de frente do movimento democrático, nos movimentos da Polônia, da Bélgica e na América Latina.

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