O humanismo é intrínseco ao cristianismo, quanto mais humanos, mais somos divinos

O humanismo cristão é a vertente principal, a linha luminosa, a filosofia cristã, o núcleo do pensamento cristão e, assim, da teoria cristã do poder. A forma de explicar o poder público e mesmo o poder em geral tem fonte principalmente na filosofia cristã.

Pio XII, no VII Congresso Internacional de Arqueologia Clássica, em 07.09.1958, lembrou que a cultura clássica (a Paidéia) foi uma “preparação evangélica” (título de um bom livro de Eusébio, que mostra como a Providência preparou a humanidade para o cristianismo, pois todo bom movimento da razão leva a Deus). Pio XII apenas ratificou a proposição bem explicada por São Justino, São Clemente de Alexandria, Minúcio Felix, Tertuliano, Lactâncio, Eusébio, o Pseudo-Dionísio Areopagita, Santo Ambrósio, São Basílio, São Gregório Nazianzo, Santo Agostinho, Boécio, Santo Isidoro e Santo Tomás de Aquino.

O humanismo clássico e cristão foi a base filosófica dos melhores expoentes da Igreja. Para citar alguns, basta mencionar: São Tomás Morus, Francisco Vitória, Las Casas, Salomonius, Boucher, Roussaeus, Lainez, Suarez, Luís de Molina, Mariana, Bellarmino, Camões, o abade de Saint Pierre, Mably e todos os grandes precursores da doutrina social da Igreja, no século XIX (Buchez, Ozanam, Lamennais, Ketteler, De Mun, César Cantu e milhares de outros autores).

João Paulo II, na visita a Grécia, em 04.05.2001, enfatizou corretamente a importância do humanismo da Paidéia e sua recepção no catolicismo e no mundo ortodoxo: o “mundo helênico”, ao tornar-se “cristão”, também tornou o “cristianismo”, “num certo sentido, grego”, pois:

… a herança helênica clássica e a herança cristã deram origem a um humanismo fundado na consciência de que todos os seres humanos são criados, desde a sua origem, à imagem e semelhança de Deus”. Além disso, a “filosofia helênica” é a filosofia “greco-romana” e também a filosofia oriental-africana (egípcia), assimilada e matriz da filosofia grega. A filosofia clássica, a Paidéia, é, na verdade, uma síntese da cultura “greco-romano-judeu-oriental” (cf. Ferrater Mora, no verbete sobre “filosofia greco-romana”, no “Dicionário de filosofia”). A Paidéia contém idéias sumérias, africanas (da Etiópia, Quênia, Sudão, do Egito etc) egípcias, babilônicas, persas, asiáticas, gregas, romanas, fenícias e tudo isso permeado pela influência hebraica-semita.

O Vaticano chancelou e abonou a interpretação democrática da Tradição (e da Paidéia), exposta pelos Santos Padres. A teoria política da Paidéia é democrática, como fica claro nas melhores idéias de Sófocles, de Péricles, Sólon, Sócrates, Platão (428-347 a.C.), Aristóteles, Tucídides, dos estóicos, Tito Lívio, Cícero, Marcial, Sêneca, Tácito e dos grandes juristas romanos. A teoria política da Paidéia foi acolhida e recepcionada pelos grandes Santos Padres, pelos leigos católicos e também por grandes expoentes da Igreja, como: Santo Isidoro de Sevilha, Abelardo, John de Salisbury (1120-1180), Santo Tomás de Aquino, frei Jerônimo Savonarola (1452-1498), Michelângelo, Santo Tomás Morus, Bartolomeu de Las Casas, Frei Domingos Soto, Luiz de Molinas, Miranda, Suárez, Camões, Bellarmino, Francisco de Quevedo, Santo Afonso de Ligório e outros grandes luminares da Igreja.

Pio XII, no discurso aos militantes da Ação Católica (20.04.1941), destacou que “os Padres da Igreja” colheram tudo o que era bom (o trigo) da “cultura pagã grego-romana”, como mostram os exemplos de “Justino e Orígenes”. O Papa Pio XII ressaltou que este movimento de recepção ocorreu “desde os tempos apostólicos”, mesmo antes de São Paulo. A abertura ecumênica no sentido lato fica claro nos textos de São Paulo, que cita Arato, Cleantes e outros autores clássicos, da Paidéia. Também é evidente nos textos de São Lucas, de São João, de São Pedro, de São Judas e mesmo nas palavras conservadas de Jesus Cristo.

O diálogo entre a filosofia da Paidéia e o pensamento hebraico ocorreu desde antes de Cristo, na própria elaboração da Bíblia, tal como na formação do texto da “Septuaginta”. Este diálogo ocorreu também durante a vida terrena de Jesus Cristo.

Desde o começo, o catolicismo usa a regra prática do discernimento, da separação do trigo do joio, da colheita do que há de verdadeiro em cada cultura e pessoa. Esta regra foi enunciada por São Paulo, com base no ensinamento de Cristo (“provai tudo, conservai o que é bom”). Esta regra foi resumida por Santo Ambrósio e São Basílio (cf. discurso aos jovens sobre a leitura dos clássicos), sendo elogiada, mais tarde, por Pio XI, na encíclica “Divini Illius Magistri”, de 31.12.1929. Es

Como explicou Pio XII, no discurso acima referido, a mesma regra de discernimento (detalhada por Santo Inácio de Loyola, de forma genial) foi aplicada por “Agostinho”, no livro “A Cidade de Deus”. Usando esta regra, “nasceu o pensamento e a civilização cristã”, a “cristandade”, a “filosofia cristã” (que é a filosofia da Paidéia em síntese com as idéias hebraicas), como observou Pio XII, no discurso de 20.04.1941.

A razão para isso é simples: como ressaltou Pio XII, ainda neste documento referido, “a Igreja” “nunca foi inimiga da ciência e da arte”, pois há plena harmonia “entre a verdade e a prática do bem”. Há a mesma observação na “Aeterni Patris” (1879), de Leão XIII, que traz um bom esboço de história da filosofia (ampliado e aproveitado pelo padre Leonel Franca, em sua “História da filosofia”).

O documento “Lumen gentium”, do Vaticano II, também ensinou que a Igreja, na parte humana e sobrenatural, nasceu inspirada nas idéias hebraicas e nas melhores idéias gregas e da Paidéia (inclusive egípcia, persa, fenícia etc).

Pedro Abelardo (1079-1142), no livro “Diálogo entre um judeu, um filósofo e um cristão” (1141), resume o núcleo de seu ensinamento, no final da vida. Neste livro, explica que o cristianismo é a plenitude da verdade, pois contém as verdades hebraicas e as verdades filosóficas, unindo a Revelação com a Paidéia, a religião e a razão (a filosofia clássica), a fé e a razão. Abelardo termina o livro elogiando seus mestres: Santo Agostinho, Cícero e Plotino.

A estrutura da “Suma dos Gentios” e da “Suma Teológica”, de Santo Tomás de Aquino, tem a mesma base, demonstrando a harmonia entre a Paidéia (a razão humana temporal) e a Fé, a Revelação. O livro de Santo Agostinho, “Cidade de Deus”, especialmente no livro X, tem a mesma base, ao historiar o desenvolvimento da filosofia.

A Igreja, o Povo ligado a Deus, “recebe vários nomes: “Casa de Deus” (1 Tim. 3,15), na qual habita a Sua “família”; habitação de Deus no Espírito (cfr. Ef. 2, 19-22); tabernáculo de Deus com os homens (Apoc. 21,3); “Templo” santo e “Povo de Deus”, frases que apontam a convergência entre a razão e a fé, entre a voz da consciência humana e a Voz da Consciência divina.

A Igreja acatou o melhor da teoria política grega (vide Ernest Barker, “Teoria política grega”, Brasília, Ed. UnB, 1978). A Igreja acatou as lições da Paidéia que eram coincidentes com os textos bíblicos. A Igreja acatou cada texto racional que estava em adequação com a Revelação.

A Igreja, pelos Santos Padres e pelos leigos comuns, aceitou a teoria política na forma como foi exposta por homens como Cícero, Fedon e Sêneca, que adotavam uma teoria eclética, unindo o melhor da Paidéia, teoria esta aceita pelos Santos Padres, formando o que historicamente tomou o nome de “filosofia cristã”. Quando Cristo assumiu corpo humano, existia, na época, um ecletismo filosófico, bem ecumênico, defendido principalmente pelos estóicos, com base nos textos de Crisipo, Posidônio, Panécio, Cícero e, mais tarde, Sêneca, Musônio Rufo, Epicteto e outros.

O livro de Cláudio Moreschini, “História da filosofia patrística” (São Paulo, Ed. Loyola, 2008), especialmente no capítulo “Ecletismo do pensamento cristão nos séculos IV e V latinos”, demonstra bem como os Santos Padres adotaram o melhor da Paidéia, adotando o método da síntese, um bom ecletismo ecumênico. Isto ocorreu desde São Justino, Santo Irineu, Tertuliano (155-240 d.C., vide “Da alma” e “Contra os judeus”), a Escola de Alexandria, em Arnóbio (260-327 d.C, em obras como “Contra os pagãos”, onde adota um estoicismo católico), Lactâncio, Eusébio, até Boécio, Nemésio, Santo Isidoro de Sevilha e outros. O livro “Sobre a natureza humana”, de Nemésio de Emessa, sucessor de Eusébio na sede de Cesaréia, foi amplamente difundido, sendo atribuído a São Gregório de Nissa, o que ampliou a aceitação da obra. É um dos primeiros ensaios de antropologia cristã e demonstra bem o humanismo dos Santos Padres.

Há praticamente a mesma tese no livro de Etienne Gilson (1884-1978), “A filosofia na Idade Média” (São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1998), que mostra que a filosofia medieval é a filosofia da Paidéia, adotada pelos Santos Padres, na parte racional, em harmonia com os dados da Revelação, da Bíblia.

O livro de Maritain (1882-1973), “Humanismo integral”, também tem tese similar: o humanismo é a filosofia do cristianismo. A mesma idéia está bem exposta e demonstrada nos textos de Henri Marrou, Cochrane (“Cristianismo e cultura clássica”, 1941) e, especialmente, nos volumes redigidos por Th. Klauser. Esta tese teve como grande expositor, principalmente a figura de Werner Jaeger, tendo também sido exposta por Simone Weil, em seu elogio à cultura clássica (há algo parecido nas idéias cristãs de Hegel).

A Igreja acolheu uma concepção humanista e jusnaturalista, como foi destacado no discurso de Pio XII ao I Congresso Nacional da União dos Juristas Católicos Italianos, em 06.11.1949, quando este Papa expôs o “conceito cristão do direito”, com a primazia da consciência (da pessoa, da sociedade) sobre o direito positivo, sobre o Estado. Como resumiu Pio II, o direito positivo deve positivar os direitos naturais humanos (as ideias práticas do povo, as necessidades subjetivadas), deve proteger, conservar e promover os direitos humanos.

Nos termos de Pio XII, o direito estatal, toda estrutura estatal e social, deve “tutelar o bem” comum (pessoal, familiar e social), evitando o mal, danos ao povo etc, pois não se deve “aplicar uma lei que a” “consciência condena como injusta”.

O jusnaturalismo democrático e social, correlato ao ideal histórico de uma democracia real e popular, é a tese de nossos grandes juristas e escritores católicos. Para ilustrar isso, basta citar: Alceu Amoroso Lima, Rui Cirne Lima, Francisco Whitaker, Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Silva, Sobral Pinto, Fábio Konder Comparato, Dalmo Dallari, Jonathas Serrano, Alexandre Correia, Zacarias Goés de Vasconcelos, os vários Cândido Mendes que honram o Brasil e milhares de outros escritores de nossa história. A bibliografia política brasileira está, ainda, bastante soterrada nos sebos e bibliotecas e, por isso, tentei trazer o que pude à tona, para facilitar obras mais profundas.