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As virtudes, os valores, as emoções (paixões), os prazeres, como tudo isso se correlaciona…e tende ao bem comum, à superação da miséria, da exploração…

As virtudes humanas são o equivalente humano dos atributos morais de Deus. São as regras práticas que o próprio Deus segue.

Do mesmo modo, os afetos humanos foram criados à imagem e semelhança das emoções divinas, no modo e nos limites humanos

São Paulo, na “Carta a igreja em Éfeso” (5,9), resume a lista das virtudes (boas ideias, boas regras, e boas condutas que concretizam, realizam as referidas ideias práticas) de uma pessoa da seguinte forma: “andai como filhos da Luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios”.

Na “Carta aos filipenses” (cf. Fp 4,8), São Paulo ensina:

tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

O texto acima tem o mesmo conteúdo que a ética de Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” (livro I, 13): Há também pontos semelhantes com a ética de Cícero e de Sêneca, o mesmo para os melhores textos de Epiteto e Marco Aurélio…

O termo “virtude” (“aretè”) aparece na Bíblia, como ser visto em 1 Ped 2,9, 2 Ped 1,3-5 ou Fp 4,8.

O trecho mais importante é 1 Pd 2,9, pois é uma citação de Isaías 43,21 (da “Septuaginta”; tal como 42,8-12; e 63,7) como o sentido de “atos dignos de louvor” (em hebraico, “te hillah”; “aretas”, em grego).

No livro apócrifo “Macabeus 4”, há o termo “aretè”, com claríssima ligação com os estóicos.

No livro “Sabedoria” (5,13), a virtude (“aretè”) é o contrário da “maldade”, sendo atos (a prática) de bondade, do bem. O livro “Sabedoria” (4,1) ensina que a prática das virtudes gera a “imortalidade”.

O livro “Sabedoria” adota a classificação clássica das quatro virtudes cardeais (cf. 8,7).

Na “Segunda Carta” (2 Pd 1,3-4), São Pedro relaciona a virtude (“aretè”) com a “glória” e com “poder” (“dynamis”).

Virtudes são perfeições, são atualizações do potencial humano, é a plenitude, a realização da natureza humana. Pela prática das virtudes, a pessoa torna-se participante da natureza divina (“theias physeos”), como pode ser visto em Mt 5,48.

No fundo, para isso fomos feitos, para sermos deificados, sermos filhos de Deus, compartilhar da natureza de Deus, da Comunhão, do Corpo Místico de Cristo, do Corpo Místico de Deus, sermos Deuses, “como anjos”, unidos a Deus, mas mantendo nossa independência, nossa autonomia. 

As listas de virtudes têm correlação com as listas clássicas (Fp 4,8 com “Disputas Tusculanas” 5, 23 e 67, obra de Cícero). Esta correlação foi praticamente demonstrada por Santo Ambrósio (no livro “De officiis Ministrorum”, 1, 24-49; com base no livro “De officiis”, “Dos deveres”, de Cícero), por Santo Agostinho (cf. “De libero arbitrio” 1,27), por Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”, I-II, questões 55-67; e II-II, questão 101 e outras).

Uma boa síntese possivelmente seja o livro do padre J. Pieper, “As virtudes fundamentais”, obra que compulsei com cuidado, para a redação deste post.

Virtudes são a prática do bem, como ensinaram Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”) e São Paulo (cf. Rm 12,9).

Amar é querer o bem e daí há também uma relação intrínseca entre o amor e as virtudes, sendo o amor (a caridade, a misericórdia) a alma de todas as virtudes. Há uma correlação entre emoções (paixões no sentido amplo) e virtudes, regras, pois cada regra tem um pathos, uma carga emocional, uma energia emocional, cada emoção tem uma ideia embutida. 

A Igreja, ao nascer, reconhece claramente virtudes e qualidades nos pagãos.

O termo “aretè” vem da raiz “ari”, de “agradável”, “louvável”, tal como está presente no termo “aristo” (de “melhor”, os melhores). As melhores pessoas são as que praticam as virtudes.

Platão, nos livros “Protágoras” (329) e “Apologia” (n. 25), mostra que Sócrates ensinava que a virtude pode ser ensinada, é fruto da educação e da aceitação desta pelo educando, no fundo, é fruto do auto-educação do educando com a ajuda do educador, como parteiro. Aristóteles destaca que a virtude é “hexis”, um conjunto de hábitos, nascidos da prática de atos louváveis (cf. “Ética a Nicômaco”, 2,4-5; 1106; e outros trechos).

São Paulo, na “Carta aos Gálatas” (5,14), repete o ensinamento de Cristo, e resume toda a ética cristã: “toda a lei se resume em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5,4), em outros termos, fazer ao próximo o que gostaríamos que fosse feito conosco, nos por no lugar do próximo, do outro, cultivarmos a SANTA IGUALDADE.

Um ponto peculiar da ética cristã é relacionar todas as virtudes ao amor (cf. Gl 5,22; Ef 4,32 e 5,2; Cl 3,12; e outros trechos).

As principais listas de virtudes estão em Gl 5,19-23; Fp 4,8; Cl 3,5 e 12; 2 Co 12,20; Tt 3,3; 1 Tm 3,1-13; e outras passagens. Estas listas coincidem, em linhas gerais, com as listas vétero-testamentárias (do Antigo Testamento), tal como do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo. Também há pontos comuns com os Rolos do Mar Morto. Autores como A. Vogtle (“Die Tugende und Lasterkataloge um Neuen Testament”, 1936) tentaram demonstrar a influência estóica nestas listas. Possivelmente exista também influência do mitraísmo (cf. S. Wibbing, “Die Tugend”, 1959). –

Na “Carta aos Gálatas” (2,4), diz que os cristãos “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” desordenadas, no sentido estóico, de ordenação racional dos afetos.

A Igreja nunca foi contra as emoções, e nem contra o sexo e os prazeres, pois sempre ensinou, como mostra o tratado do matrimônio de São Tomás de Aquino, que haveria mais PRAZER SEXUAL sem pecado, que o PRAZER SEXUAL aumenta com AFETO, COM AMOR, e não o contrário. 

A lista das virtudes, no texto da “Carta aos Gálatas” (5,22-23), é a seguinte, formando os nove frutos do Espírito:

1) amor é “ágape”, em grego. Significa “caridade”, misericórdia, bondade, que é principal virtude (vide Primeira Carta aos Coríntios, 13,4 e, principalmente, I Cor 13,13, o “Hino ao amor”). É a mesma lição da Primeira carta de São João (4,7), que ensina que o amor é a primeira das virtudes e é eterno. Caridade em relação ao próximo é misericórdia, que é preocupar-se com o atendimento das necessidades do próximo (cf. explicação de Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”), preocupar-se com o bem do outro, com o bem comum;

2) alegria é “chara”, em grego. Vem do verbo “chairo”, significa alegrar-se com o bem. A Septuaginta usado também a palavra grega “agalliasis”. Em hebraico, “alegria” é “simhah”, do verbo “saimeah”. Deus é um Ser alegre (cf. Sl 16,11; Fp 4,4; e Rm 15,13). São Pedro frisa que o cristão deve ser uma pessoa alegre (cf. 1 Pd 1,8). Neemias ensina: “a alegria do Senhor é a nossa força” (cf. Ne 8,10). A “tristeza” (“lype”, em grego) é um vício, uma paixão desordenada. Os estóicos aconselhavam, na mesma linha: “foge da tristeza” (cf. Periandro, “Sentenças”, 56);

3) paz é “eirene”, em grego. Daí, “pacificador” (“eire”opoieo”), pessoa pacífica. Há referência também em Isaías 45,7. Cristo ensinou: “aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração” (cf Mt 11,29). Em hebraico, “paz” é “shalom”, que significa bem estar no sentido pleno, prosperidade, felicidade etc.;

4) paciência é “makrothymia”, em grego. Significa “longanimidade”, “paciência”, “constãncia”, “perserança”). Trata-se de virtude elogiada em vários textos como: 1 Cor. 13:4-7; 2 Cor. 6:4-6; Ephes. 4:1-2; Col. 1:11; Col. 3:12-13; 1 Tim. 1:16; 2 Tim. 3:10; e 2 Tim. 4:2. Em hebraico, “paciência” é “arekh”. A Bíblia elogia a paciência de Deus (cf. Ex 34,6; Nm 14,18; Ne 9,17), que é “longo” em irar-se. Daí, o termo “longanimidade”. Deus é lento em irar-se ao tratar com os pecadores (cf. Os 11,8; e Is 48,9). Os cristãos devem imitar a Deus na paciência ao irar-se (cf. Mt 18,26; I Co 13,4; Gl 5,22; Ef 4,2; e 1Ts 5,14);

5) gentileza (“chrestotes”, em grego), elogiada em textos como: 2 Tim. 2:24-26; Tt 3:1-2; e Tiago 3:17;

6) bondade (“agathosune”, em grego), elogiada em textos como: Ex 33:19; Ex 34:6; Rm 2:4; Ef 5:9; Mt 5:44-48; e Lc 6:27-32. A “Septuaginta” usou o termo “agathos” para traduzir a palavra hebraica “tov”, “bom”. O termo “tov” significa “bom”, “alegre”, “agradável” etc. A “Septuaginta” usa o termo “kalos” também, que significa “belo” (“admirável”, “digno”, “honroso”). São Paulo também usa o termo “chrestotes” (cf. Rm 2,4; 11,22). O termo hebraico “hessed” também significa “bondade”, “compassivo”, “misericordioso”, “benigno”, “amoroso”;

7) fidelidade (“pistis”, em grego). Sobre a fidelidade, há um bom texto de Karl Barth, “Fidelidade na comunhão”;

8) modéstia (“praotes”, em grego); e

9.Temperança (“engkrateia”, em grego, autocontrole). Virtude elogiada em textos como: Prov 23:1-3; Prov 25:16; Dan 1:8-16; Rm 13:14; 2 Cor. 9:25-27; Fil 4:5; 1 Tes. 5:6-8; Tt 2:2-3,11-12; 2 Pt 1:5-10. Está expresso nos “Dez Mandamentos”, com o preceito “não cobiçar”.

Como fica claro, as virtudes morais são afetos bem ordenados por idéias práticas do bem, ou seja, pela razão, em prol do bem comum. O ponto central em todas as virtudes é que são práticas do bem, atos que conduzem e produzem o bem comum, a comunhão, como destacou Santo Tomás de Aquino.

Aristóteles, no livro “Ética a Nicômaco” (III-V), listou as principais virtudes, a seu ver: justiça, franqueza (veracidade, amor à verdade), coragem (fortaleza), temperança (autocontrole), liberalidade (querer ajudar o próximo), magnanimidade e mansidão.

Magnanimidade é desejar grandes feitos e ser digno deles, vem de desejar grandeza, grandes obras em prol do bem comum. Santo Inácio também elogiou esta virtude. O livro de Humberto Grande, “O culto à grandeza” (São Paulo, Ed. Ipê S/A, 1949) explica esta virtude, bem cultiva no mundo dos esportes, nas Forças Armadas, no mundo da cultura e das artes e em outros círculos.

Os quatro valores (princípios, idéias-forças, tipos gerais de conduta) “mais altos e universais” (cf. Paulo VI), principais, são, conforme a lista feita em documentos do Vaticano: “a verdade, a liberdade, a justiça, o amor” (cf. discurso de Paulo VI, em 15.12.1967). Estes valores, idéias, estão ligados aos atributos morais principais de Deus.

Assim, o ápice da teologia fundamental e mística ensina o mesmo que a teologia moral e política: o poder, todo poder, até o poder do Todo Poderoso, está vinculado, naturalmente sujeito a estes valores, à ética, ao que há de melhor na consciência humana e também na divina.

Como explicou São Leão I, que foi Papa de 440 a 461 d.C. na Carta “Quam laudabiliter” (em 21.07.447), a ética é baseada na participação. As pessoas boas são “participantes da verdade, da sabedoria e da justiça”. Estas virtudes fazem parte da “essência” de Deus, que “renova tudo”. Cada pessoa, como o Diabo, tem o livre arbítrio, pode usar mal deste e “não permanecer na verdade” (cf. Jo 8,44), “desligando-se do Sumo Abem, ao qual devia aderir”.

Estas virtudes estão elogiadas também no Sermão da Montanha, nos Dez Mandamentos e também na estrutura da Cabala, nos dez sefirot etc. Também estão na estrutura das virtudes, dos livros aristotélicos e estóicos, livros adotados pela Igreja, por coincidir, em quase tudo, com as idéias cristãs, sendo as idéias cristãs mais completas.

As virtudes estão enunciadas de forma negativa nos Dez Mandamentos, pois o contrário do que é proibido é elogiado e considerado como conduta meritória.

Confúcio também ensinava que o “Tao” (“Caminho”) era baseado em quatro grandes virtudes: “os quatro maiores dons que o Céu concedeu às pessoas sábias são: a benevolência, a amabilidade, a justiça e a prudência”.

Há outras listas de virtudes implícitas na Bíblia. Isso ocorre porque quando a Bíblia critica um vício ou um pecado, a conduta contrária é implicitamente elogiada. Como explicou Aristóteles, para cada virtude há dois vícios, por falta ou por excesso.

São Tomás de Aquino e a teoria clássica da translação, ou mediação, sobre o poder civil

Na “Suma teológica”, São Tomás de Aquino esposa a teoria da translação, a mais clássica na Igreja, sobre a origem do poder civil. Esta teoria adota a tese da democracia real ou popular como forma natural de governo. Vejamos uma boa síntese no seguinte trecho da “Suma Teólogica” (I, II, questões 95, 96 e 97):

“si enim sit libera multitudo, quae possit sibi legem facere, plus est consensus totius multitudinis ad aliquid observandum, quem consuetudo manifestat, quam auctoritas principis, qui non habet potestatem condendi legem, nini inquantum gerit personam multitudinis. Unde licet singulae personae non possint condere legem, tamen totus populus legem condere potest”.

Vejamos minha tradução deste trecho:

“… Se o povo é livre para poder fazer a lei para si, mais vale o consenso de todo o povo para obedecer a algo, consenso que o costume manifesta, do que o poder do príncipe, o qual não possui autoridade para determinar uma lei senão enquanto representa a pessoa do povo. Daí que, embora cada indivíduo não possa fazer a lei, todavia, o povo em conjunto pode fazer a lei”).

O texto de Santo Tomás de Aquino deixa claro como a teoria da translação ou mediação é, de fato, a teoria tradicional da Igreja, como explicou o padre Heinrich A. Rommen, em livros elogiados e ratificados por Paulo VI.

Síntese do realismo moderado, de São Tomás de Aquino, por Orest Vladimirovich Trachtenberg

Orest Vladimirovich Trachtenberg (1889-1959) foi Doutor em Filosofia, na URSS. O autor principal do livro “Compêndio de História da Filosofia”, do Instituto de Filosofia, da Academia de Ciências da URSS. Foi o Chefe do Departamento de História da Filosofia, do Instituto de Filosofia, entre 1946 a 1949. Recebeu, em 1943, o Prêmio Stalin, pelo livro “A História da filosofia”. Enfim, representava o pensamento de Stalin e da cúpula do Partido Comunista da URSS. Vejamos como ele resume o realismo moderado de São Tomás de Aquino:
O mais alto expoente da teologia católica e sistematizador da escolástica ortodoxa foi o dominicano Tomás de Aquino (anos 1225-1274). A obra deste “santo”, “Summa Theologiae” (resumo dos conhecimentos teológicos), é uma enciclopédia original da ideologia oficial da Idade Média. O catolicismo reconhece até hoje as doutrinas de Tomás como sua “única filosofia verdadeira”. Tomás tentou colocar Aristóteles a serviço do catolicismo. Embora o fato de usar amplamente a doutrina aristotélica em si já significasse um passo indubitável para diante” (…).  Tomás foi partidário do realismo “moderado”. Os “universais” existem “antes das coisas” na “razão divina”; “nas coisas”, no mundo corporal; e “depois das coisas” na consciência humana”.
Minha síntese do texto acima do soviético: Deus planejou o Universo, por boas ideias. Depois, organizou as coisas de forma racional, estando as ideias “nas coisas”, de onde a mente humana as extraí, por abstração, por induções, pondo as ideias na “consciência humana”. Se as ideias são verdadeiras, estão em conformidade com as coisas. Boa síntese do soviético. 

Um elogio de Feuerbach a São Tomás de Aquino e a Igreja

Feuerbach, em seu livro “A essência do cristianismo” (Campinas, Ed. Papirus, 1988, p. 193), ressaltava a ligação da doutrina da Igreja com o melhor do pensamento antigo, da Paídéia (“os antigos”):

“Os cristãos, de fato, “sacrificavam” o “indivíduo”, isto é, aqui o indivíduo enquanto parte, ao todo, ao gênero, à comunidade. A parte, diz Santo Tomás de Aquino, o maior pensador e teólogo cristão, sacrifica-se a si mesma, por um instinto natural, para a conservação do todo. “Toda parte, por natureza, ama mais o todo do que a si mesma. E todo indivíduo por natureza ama mais o bem do seu gênero do que o seu bem individual. por isso, todo ser naturalmente ama mais a Deus, o bem universal, do que a si mesmo (“Summae P. I., q. 60, art. V). Portanto, neste sentido os cristãos pensam como os antigos. Tomás louva os romanos (de “Regim. Princ.”, liv. III, c. 4) pelo fato deles terem colocado a sua pátria acima de tudo e de terem sacrificado o próprio bem-estar ao bem-estar dela”.

A idéia de “justiça” (de bem comum, que é o objeto desta virtude cardeal) nasce na Suméria, depois vai para o Egito, os fenícios, hititas etc e depois segue para os textos de Homero, de Hesíodo, nos poetas e trágicos gregos. Também está nos textos dos filósofos (Xenófanes, Heráclito), historiadores e no pensamento filosófico-religioso. Destas fontes, migrou para o ensino de Sócrates, de Platão (o livro “Protágoras”, “República” e especialmente “As leis”), sendo mais detalhado nos textos de Aristóteles e dos estóicos.

O ideal da justiça é o ideal da razão comum do povo pautando a vida pessoal e social, sendo esta a essência do conceito de virtude (“Arete”). O elogio da razão era também o ideal de Isócrates (436-338 a.C.), do “logos”, um orador aluno de Sócrates, que redigiu obras como “Contra os sofistas” (390 a.C.), “Panegírico” (380 a.C.) e “Nicoles”. Também era o ideal de Paidéia de Demóstenes. Demóstenes e Isócrates discordavam sobre o que fazer perante o poder de Filipe, pai de Alexandre, mas concordavam no mesmo ideal civilizatório, do poder do “logos”, da razão.

Adotando a mesma opinião sobre a relação entre jusnaturalismo e democracia, há também a opinião abalizada de Nicola Abbagnano, no “Dicionário de filosofia”(São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2007, p. 682):

Jusnaturalismo. (…). Essa doutrina, cujos defensores formam um grande contingente de autores dedicados às ciências políticas, serviu de fundamento à reivindicação das duas conquistas fundamentais do mundo moderno no campo político: o princípio da tolerância religiosa e o da limitação dos poderes do Estado. Desses princípios nasceu de fato o Estado… moderno”.

Conclusão: Bakunin, Engels, Marx, Trotsky, a Academia de Ciências da URSS, Abbagnano e outros autores concordam em vários pontos com o teor da tese exposta neste blog sobre as origens racionais, jusnaturalistas e religiosas da democracia. Seus textos coligidos servem, assim, como boas abonações e testemunhas históricas em prol da tese central deste blog. 

A tese central deste blog tenta expressar as linhas gerais de uma concepção política que está presente nas idéias éticas da Igreja. Estas linhas gerais exigem, como ideal histórico atual, uma democracia real, popular, baseada no bem comum. A Igreja sempre ensinou que o poder civil deve ser pautado pela ética, ou seja, pela razão dialógica e pelo bem comum. O mesmo vale para o sistema econômico, que deve ser misto, com área pública para os grandes meios de produção e milhões de pequenas e médias propriedades familiares, cooperativas etc. 

São Paulo e tomismo – a lei natural são as ideias práticas da razão natural

O tomismo nunca adotou a tese inatista, ou seja, sempre interpretou a lição bíblica de São Paulo nos termos do jusnaturalismo da Paidéia, do pensamento antigo (onde o pensamento hebreu era o mais acurado, vindo, após, o grego, que aprendeu com os fenícios, com os hititas, com os egípcios etc).

A expressão “reta razão” significa a razão informada pela verdade. Verdade é a adequação entre a representação (a idéia) e a realidade. Logo, verdades são idéias verdadeiras, que correspondem à realidade. Pois bem, as idéias práticas (regras) verdadeiras são o núcleo do pensamento racional prático, a base da vida moral, pessoal e social, logo, também a base da vida política. Assim, a lei natural são as idéias, as regras racionais de condutas, nascidas da interação da consciência com a realidade, são frutos do conhecimento efetivo da realidade.

São Paulo, exatamente na carta que fala sobre o poder político, iniciou seu estudo, na abertura da “Carta aos Romanos” (2,15), ensinando que a “lei” está inscrita no coração, na consciência humana. Importa repetir e frisar: esta metáfora não endossa a tese inatista, quer dizer apenas que Deus nos deu a razão, a consciência, para reger nossas vidas.

Cada pessoa deve ser pautada pela própria consciência. Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, sendo esta a base da ética, como ensina o Patrono da Teologia Moral e Doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório. A intenção de São Paulo fica clara na estrutura da carta: o poder público, para ser legítimo, deve pautar-se pela lei natural, pelas regras da consciência de todos, visando o bem comum.

Leão XIII expôs bem as raízes da filosofia cristã

Leão XIII, na encíclica “Aeterni”, passa a enumerar os principais filósofos entre os Santos Padres:

Merece, entre esses, o primeiro lugar, São Justino, mártir, que depois de ter freqüentado as celebérrimas Academias dos gregos, viu que só das doutrinas reveladas é que pôde extrair a verdade, como ele mesmo confessa, e abraçando-as com todo o ardor da sua alma, as purificou das calúnias, defendeu-as veementemente e, eloqüentemente diante dos Imperadores Romanos, e com elas harmonizou grande número de opiniões dos filósofos gregos”.

São Justino foi um dos precursores da “filosofia cristã”, harmonizando “grande número de opiniões dos filósofos gregos”. São Justino nasceu em Siquém (atual Nablus), na Palestina. Era um filósofo aristotélico e platônico, que se converteu lá por 130 d.C. Viveu em Éfeso e depois em Roma, onde morreu como mártir, lá por 165 d.C.

São Justino deixou duas “Apologias” o “Diálogo com o judeu Trífon”. A base de sua ética é a concepção do “Logos spermatikós” (cf. “Apologia II, 6,8). O critério moral de São Justino é o de viver segundo a razão, o “logos”, sendo este o critério adotado pelos estóicos, por Aristóteles e pelo platonismo.

A Igreja e Sêneca, amplas ligações

O apreço da Igreja por Sêneca (4 a.C-65 d.C.) também é conhecido e houve inclusive a alegação que Sêneca e São Paulo mantinham correspondência (há “Cartas” entre os dois, que devem ser montagem, mas são indícios de ligações). Afinal, São Paulo conheceu o irmão de Sêneca, Galião, em 52 d.C., em Corinto, cidade em que ficou por um ano (vide AT 18,12-17). Galião mandou libertar São Paulo da prisão. Sêneca foi morto por Nero em 65 d.C., em data bem próxima do assassinato de São Pedro e São Paulo, também em Roma.

Sêneca, São Paulo e São Pedro morreram praticamente na mesma data e os três em Roma, por ordens de Nero, o que também é extremamente sintomático e relevante. Sêneca, ao lado de pessoas corajosas como Epicharis (uma mulher), teria participado da conspiração de Pisão, contra Nero. Há historiadores que dizem que a esposa de Sêneca, pela qual ele cometeu suicídio, para poupar a esposa, era cristã. 

Lembro que Diderot morreu como discípulo de Sêneca, teísta, panteísta, tendo escrito duas obras sobre Sêneca, pouco antes de morrer. 

São Jerônimo, no livro “De viris illustribus” (“Dos varões ilustres”, XII), diz que “Lucius Annaeus Sêneca, de Córdoba [Espanha], …, levou uma vida totalmente continente”, merecendo ser posto “no catálogo dos santos”. No livro “Comentário sobre Isaías” (IV, 9 e 11), São Jerônimo ressalta que “os estóicos” “estão de acordo com nosso pensamento [nostro dogmati] sobre a maioria das coisas” (“stoici nostro dogmati in plerisque concordant”).

Tertuliano, bastante influenciado pelo estoicismo, também diz que Sêneca é “frequentemente nosso” (cf. “De anima”, 20,1). A adesão de Tertuliano às idéias éticas do estoicismo fica clara inclusive na adoção do traducianismo, a ideia estoica que a alma dos filhos vem da alma dos pais, como um ramo (“tradux”, em latim) da árvore mãe.

Marx, Engels, Lenin, Rosa, Kaustky, Bebel e outros elogiaram o cristianismo primitivo, o cristianismo

O elogio da razão e do bem comum está claro na pregação dos primeiros cristãos, do “cristianismo primitivo”, que foi elogiado por Marx, Lenin, Engels, Rosa de Luxemburgo, Kaustky, Bebel e outros.

A razão e o bem comum são o núcleo mais profundo da concepção jusnaturalista (cf. Rm 2,14) sobre o poder, ou seja, o poder público deve estar sujeito às idéias do povo, à razão do povo, para o bem do povo. São Paulo valorizou a filosofia e a razão, pois citou verso de Menandro, do livro “Taíde” (“as más companhias corrompem os bons costumes”, citado em I Cor 15,33). São Paulo também cita Arato, texto do livro “Fenômenos” (n. 5), obra inspirada no estoicismo e São Paulo fez isso no discurso no Areópago de Atenas (cf. At 17,28; “nós somos e Sua raça”, filhos de Deus). A própria estrutura das cartas de São Paulo segue a estrutura das “diatribes” estoicas, estrutura que pode ser vista nas “Cartas a Lucílio”, de Sêneca. O uso de alegorias e figuras (cf. Gl 4,22ss; I Cor 10,1ss) também mostra influência estoica.

— Updated: 13/02/2020 — Total visits: 65,009 — Last 24 hours: 36 — On-line: 0
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