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A boa lição de Alceu de defesa da Democracia popular, socialismo democrático, trabalhismo

Alceu Amoroso Lima, o maior leigo católico do Brasil, num artigo com o título “A democracia social” (em 21.10.1962), com boa visão histórica, defendia as “reformas de base” [esposadas pelo grande presidente católico, João Goulart.

João Goulart talvez tenha sido o Presidente que mais citou textos de papas, especialmente de João XXIII.

João Goulart, em seus discursos, fundamentava estes projetos nos textos de João XXIII]. Segundo Alceu, os projetos de reforma social de Goulart visavam consolidar “a democracia social, na linha de nossa autêntica tradição histórica”, de democracia com fundamentação popular e cristã.

Em obras posteriores, Alceu demonstrou claramente que as idéias cristãs exigem, como ideal histórico atual, uma forma de socialismo humanista (era também o ideal de Pontes de Miranda, católico, pouco antes de morrer).

Na terminologia atual, a democracia social e popular poder ser chamada, também de “um socialismo participativo” e “humanista”, para usar os termos de Marciano Vidal, talvez o maior teólogo ético da Igreja, nos anos 70, 80 e 90 do século XX, sendo ainda atual.

A preocupação com a liberdade individual (pessoal, personalização) é correta e necessária, desde que numa síntese com o bem comum, com a socialização.

Esta preocupação foi compartilhada por pensadores como Bielinski, que também tinha em alta conta o “destino do sujeito, do indivíduo, da pessoa” (de cada pessoa), sendo este um ponto essencial num socialismo. Isto fica claro nos melhores textos de Jean Jaures, Karl Kautsky, Bernstein e outros. 

No mesmo sentido, há bons textos de Herzen, Tolstoi, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Ibsen, Oscar Wilde, Anatole France, Zola e outros.

Estes textos de apologia da liberdade pessoal (nos limites da razão, e em boa síntese com o bem comum), redigidos por estes grandes pensadores, somente demonstram o poder da difusão de boas verdades, pois a Igreja também considera a liberdade pessoal racional (nos limites do bem comum e em síntese com este) como algo essencial, bom e querido por Deus.

Boas lições de Proudhon, Charles Péguy, Jaures, Maurice Hauriou e Henri de Lubac

Maurice Hauriou (1856-1929), um jurista católico, também ensinou que há uma “evolução… das formas sociais”, “das instituições”, dos modos de produção, e que este “movimento de transformação” é constante.

Hauriou foi influenciado por Bergson e por Proudhon, como constatou Marcel Waline (1900-1982), no livro “As idéias mestras de dois grandes publicistas franceses: Léon Duguit e Maurice Hauriou” (1930).

Em Proudhon, há milhares de idéias cristãs. Parte deste acervo foi recepcionado por Karl Marx, que conviveu com Proudhon e elogiou parte dos textos de Proudhon, contra a propriedade quiritária, sem vinculação com o bem comum, sem função social. 

O próprio Bakunin conta que Proudhon era leitor assíduo da Bíblia e dos textos do direito romano e do Direito Civil francês, tendo escrito inclusive comentários sobre a Bíblia.

O padre Henri Lubac (1896-1991) escreveu, em 1945, o livro “Proudhon e o cristianismo”, mostrando as fontes cristãs da ética deste socialista pequeno burguês, tão parecido com Charles Péguy, outro grande socialista católico.

Jaurès também era amigo de Péguy e seguia Proudhon, em vários pontos. A fonte principal das idéias de Hauriou é Santo Tomás de Aquino, como este mesmo jurista reconheceu, no início da obra acima referida:

“O imenso e rico tesouro de reflexões sociais acumulado na “Suma Teológica” prestou-me os mais assinalados serviços. Confesso que não só achei ali minhas melhores inspirações, senão que nela encontrei a chave necessária para não cometer grosseiros erros” (p. XXIV).

Como deve ser a Sociedade do futuro, liberdade e justiça, autonomia pessoal com organização social, boa síntese

Foi com base nas idéias bíblicas e também da Paidéia grega que Engels definiu a liberdade como “o domínio sobre nós mesmos e sobre o mundo exterior, fundado no conhecimento das leis necessárias da natureza” (“Anti-Dühring”, T. I), um conceito já ensinado pelos Santos Padres, por Santo Tomás ou Santo Inácio de Loyola.

Engels também escreveu:

“os homens fazem, eles mesmos, a sua história, mas até hoje, …, não o fazem com uma vontade de conjunto nem segundo um plano geral. Suas aspirações entrecruzam-se e é precisamente por isto que em todas as sociedades desse tipo reina a necessidade, da qual o acaso é o complemento e a forma sob que se manifesta” e “são os homens, pelo contrário, que fazem eles mesmos sua história, mas num meio dado que a condiciona, à base de condições reais prévias”.

O mesmo Engels, em fevereiro de 1873, escreveu um ensaio com o título “Da autoridade” (publicado em 1874, no conflito com os anarquistas), onde usou imagens (a imagem do barco em alto mar etc) e argumentos que De Maistre e Aristóteles usavam para justificar a autoridade, o Estado, a intervenção do Estado.

Para Engels, uma sociedade do futuro teria amplas liberdades e boa organização social, com estruturas públicas, com funções públicas, funções estatais, da sociedade organizada, de estratos da organização da sociedade. 

Engels elogiou corretamente a autoridade ressaltando a ligação desta ideia com a de organização (“ação combinada”, “coordenada”) da liberdade.

Engels, sobre o Estado, acrescenta que “certa autoridade, delegada como queira”, e “certa subordinação”, é imprescindível e que “a autoridade e a autonomia são coisas relativas, cujas esferas variam nas diferentes fases do desenvolvimento social”.

A “organização do futuro restringirá a autonomia até o limite estrito em que a façam inevitável as condições da produção”, ou seja, alguma forma de economia mista. Assim, “as funções públicas” serão transformadas em “simples funções administrativas chamadas a velar pelos verdadeiros interesses sociais”. Estas e outras idéias não são “marxistas”, e sim reflexos de boas e antigas verdades presentes e recepcionadas na consciência e nos textos de Marx e Engels.

Lembro que Stalin também deixou textos, no final da vida, sobre as funções do Estado que permaneceriam, numa sociedade futura.

Destaco que mesmo Bakunin e Proudhon, em suas obras, pouco lidas, esboçaram as linhas gerais de uma República, com amplo campesinato organizado livremente em cooperativas, artesões e pequenos produtores autônomos, tal como patrimônios públicos, abertos a todos (no fundo, o modelo das “Leis”, de Platão, de Moisés, de Mably, a fórmula da Igreja, do melhor da Tradição Hebraica-Semita e da Paideia). Em outros termos, uma economia mista, com eleições etc.

Bakunin chega a falar em penas leves, de pequena duração, para crimes.E fala de expulsão da sociedade, do que não aceita padrões mínimos de conduta social. O desconhecimento dos textos anarquistas é que leva a erros.

Bakunin e Proudhon, como mostrarei em outras postagens, queriam uma economia mista e há textos de Marx no mesmo sentido.

Marx mostra claramente como o capitalismo suprime a propriedade baseada na pequena produção, no trabalho próprio, e diz que numa sociedade futura, esta propriedade individual seria restabelecida (e não apenas para objetos de consumo, friso, pois isso foi uma interpretação restritiva, errada, dos melhores textos de Marx). 

Em outros textos, Marx e Engels analisam quais as funções estatais atuais serão mantidas e destacaram a importância da sociedade controlar o Estado. Nestes e em outros pontos, estavam corretos e desenvolviam idéias pré-existentes, no socialismo cristão pré-marxista, no cartismo etc.

Um bom Estado social ampliado, uma boa economia mista, erradicação das grandes fortunas privadas, erradicação da miséria, renda estatal para todos, aumento dos cargos públicos, da função social dos direitos individuais, democracia participativa-popular, distributismo (todos devem ter bens suficientes para uma vida digna, moradia etc). São estas as boas fórmulas da Tradição e da Igreja, e do melhor do pensamento socialista. 

Kropotkin defendia pequenas unidades econômicas aliadas em cooperativas, no fundo, economia mista

Piotr Alekseievitch Kropotkin (1842-1921) foi um grande geógrafo russo. Escreveu obras como “A conquista do pão” (1888), “Auxílio mútuo” (1902) e “A grande revolução francesa” (1909).

Kropotkin negava as vantagens da grande empresa sobre a pequena empresa familiar. Ensinava que as pequenas unidades produtivas podem sobreviver e prosperar, pela difusão da energia elétrica e pelo cooperativismo (e informática, hoje). 

O mesmo núcleo das ideias de Proudhon, na França. Idem, para Tolstoi, na Rússia. 

No fundo, esta tese foi também defendida pela Igreja. É preciso um setor público pujante, um setor privado pequeno e médio (familiar) e um setor cooperativista, em boa síntese, com amplas liberdades, economia mista, Estado social, democracia participativa-popular. 

A influência de Buchez e do socialismo católico sobre as melhores ideias do marxismo, a parte trigo

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs socialistas e católicas de Saint-Simon. Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana, que teve a participação de Pierre Leroux e Etienne Cabet, dois grandes socialistas cristãos. As obras de Leroux, principalmente, mereceriam ampla reedição, pela atualidade. 

Em 1832, Buchez criou as primeiras cooperativas de produção, como destacou Charles Gide. Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil, pois foram estes dois católicos quem divulgaram mais o socialismo, no Brasil, já em torno de 1848, bem antes de haver marxistas no Brasil.

Lembro que o católico General Abreu e Lima militou ao lado de Bolívar, sendo um dos generais de Bolívar, que era também católico. Os católicos buscam a integração do continente latino-americano, sendo este um velho sonho, mesmo de Eduardo Prado, um Projeto católico e dos pobres. O UNASUL e o mercosul tem pleno apoio da Igreja.

A Igreja criticou erros neoliberais no Mercosul, não o Mercosul. Da mesma forma, a unificação da Europa foi um grande Plano da Igreja, que apoia a União Européia, mas sem neoliberalismo. Tal como apoia a Organização dos Estados Africanos, da Oceania, da Ásia etc. Governos continentais preparam um bom Estado mundial, que não anulará as nações, e sim as protegerá, como protegerá os municípios, as pessoas etc. 

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a linha cristã-democrata e socialista. A linha democrática popular passa pelo melhor da Bíblia, da Paidéia, tal como os Santos Padres, Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, passando, depois, por Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, a teologia política européia etc.

Esta linha representa, a meu ver, a linha luminosa (a ortodoxia) que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa, numa boa síntese, democracia política, econômica, social e cultural. Democracia participativa, popular, economia mista, distributismo, Estado social. 

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras. Nisso, o próprio Marx atesta e admite a influência de Buchez sobre a gestação das idéias marxianas. Por exemplo, Marx cita Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital” e em outras obras e cartas pessoais. Marx citou, já desde a temporada em Paris e antes em Colônia, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX.

Buchez redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa, atestando a religiosidade dos jacobinos, especialmente de Robespierre.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant e outros expoentes.

Sismondi e Buret representavam o socialismo pequeno burguês, ou seja, economia mista. Idem para Proudhon, que defendia um socialismo pequeno burguês, com ampla camada de pequenos e médios produtores, associados em cooperativas. Um modelo que nada tem de errado. Proudhon disfarçava a necessidade do Estado por vastos consensos e deveria saber que as leis positivas são vastos consensos, para serem legítimas. O próprio Proudhon participava de eleições parlamentares e foi inclusive deputado federal na França.

Boa parte do anarquismo não era contra a pequena propriedade privada, camponesa e artesã ou pequena burguesa, e sim a defendia, ponto que vou mostrou em outras postagens. Ou seja, o melhor do anarquismo, inclusive de Tolstoi e o mesmo vale para o georgismo, era favorável a economia mista. 

O socialismo religioso, cristão, foi a base, a matriz, a fonte do melhor do socialismo pré-marxista. Suas idéias bíblicas (e as próprias idéias bíblicas de Marx, cf. mostrou o padre Miranda) formam o melhor das idéias marxistas, que são, assim, no fundo e na parte sadia, idéias cristãs colhidas numa síntese por Marx.

A difusão do marxismo na China, no Japão, na Coréia, no Vietnam e em outros países carrega, por esta razão, um enorme acervo de idéias cristãs, facilitando a evangelização do mundo. Claro que há o trigo, a parte boa, e o joio, a parte com erros. O correto é ficar com o bebê, jogando fora a água suja, o joio, mantendo o bom trigo. 

Marx, dois anos após a morte de Lassale, em 1868, nuam carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, reconhece que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”. Também reconhece que a maior parte das idéias de Lassale tinha origem em Buchez, um grande socialista católico. Vejamos as palavras de Marx:

“Depois de um sono de quinze anos, o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante – sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch– o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez – assistência do Estado às sociedades operárias– com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

A “fórmula de Buchez”, de “assistência [apoio, estruturação] do Estado às sociedades operárias”, às cooperativas, no mínimo “desde 1843”, mas, na verdade, bem antes, foi também a fórmula de Ketteler, mais tarde, sendo, em algumas linhas, a fórmula de Mounier, de Alceu, da teologia da libertação, hoje. Esta fórmula ainda é atual e correta, pois toda a estrutura produtiva deveria ser cooperativista completada pelo planejamento estatal participativo (esta é a fórmula de Mounier, Alceu, Dom Hélder e outros).

Lembro que os cartistas, na Inglaterra, eram um partido cristão, ligado aos irlandeses católicos, pois parte do proletariado inglês era formado de irlandeses católicos. O mesmo vale para o movimento dos poloneses, apoiado por Marx, e que era um movimento principalmente católico. O mesmo vale para os Cavaleiros do Trabalho, nos EUA, que era cheio de católicos, tendo até um presidente católico, e tendo apoio do Vaticano e de Marx e Engels.

Na China, naquela época, houve o Movimento dos taipings, o maior movimento camponês na China, liderado por cristãos. Depois, a China se torna uma República, com o Pai da República chinesa, Sun Yat Sen, sendo católico. Na Turquia, mais tarde, o movimento que cria a República, se aproxima do cristianismo, ponto que é atestado por João XXIII, quando era Núncio na Turquia. 

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez. Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Lamennais e Blanc, como Victor Hugo, eram pessoas profundamente religiosas, cristãs, católicos lato senso. Lamennais tinha sido padre. Victor Hugo seguiu a linha de François Chateaubriand, grande escritor pré-romântico, que ajudou na reconciliação da Revolução Francesa com a Igreja, pela Concordata, via Napoleão. 

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel, diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez. Engels, nestes textos, combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”. De fato, os camponeses, os artesãos, os pequenos burgueses e a classe média são aliadas naturais dos operários contra a oligarquia (o latifúndio e os olipólios, trustes e cartéis).

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada.

Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

O partido lassalista usou, assim, em seu programa, de idéias de Buchez, idéias católicas. Usou também as idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde os católicos militavam e tinham hegemonia. Como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também, no livro “A organização do trabalho”, inspirado em Buchez. Estas mesmas idéias estão em Etienne Cabet, em Rodbertus e outros socialistas cristãos.

Estão em Adolph Wagner, e depois, foram acolhidas por Pesch, aluno de Adolph Wagner. Pesch criou o solidarismo, linha que resume bem a doutrina da Igreja, defendendo democracia popular, Estado social, distributismo. O solidarismo era também o melhor da Terceira República, na França, com Renouvier, Bourgeois, Bouglé e outros, inclusive grandes estrelas da Igreja, como Péguy. 

O solidarismo cristão era bem próximo do solidarismo jurídico-político de Leon Bourgeois (1857-1934). Bourgeois pertencia ao partido radical francês e escreveu o livro “Solidariedade”, em 1896, ganhando o Prêmio Nobel da Paz, em 1920.

Renouvier (1815-1903) foi um grande republicano cristão. Teve o mérito de ter sido um dos principais ideólogos da III República. Como Gaetano Mosca e Bouthoul reconheceram, Renouvier “exerceu grande influência sobre os primeiros dirigentes da Terceira República”. Renouvier tinha como ideário, idéias católicas como: “a lei moral está em todos porque está em cada um”, é “universal porque é eminentemente particular e inegavelmente própria e constitutiva de cada consciência”.

O melhor do socialismo francês, com Renouvier, Bourgeois, Jaurès, Péguy e outros defendia um “socialismo bastante extenso, mas que respeita escrupulosamente a liberdade e a autonomia dos indivíduos” (cf. Mosca, no livro “História das doutrinas políticas”, p. 370), defendendo uma República democrática popular e social. Seus textos também mereciam figurar em manuais da teologia da libertação nas CEBs e paróquias.

Os textos de Léon Bourgeois, como o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçaram uma forma de socialismo democrático. Bourgeois chamou esta forma de “solidarismo”, unindo, numa síntese o melhor do pensamento democrático e socialista. O solidarismo é um socialismo humanista, com liberdade. Bourgeois escreveu obras conjuntas com outros autores da mesma linha. Por exemplo, o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade”, 1902, que tem textos de Charles Gide (1847-1932), Boutroux, Croiset e outros.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875. Na fusão, redigiu o “Programa de Gotha”, onde usou a fórmula de Buchez. Ora, a fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do melhor do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional. As idéias dos cristãos sociais davam a linha. Eram idéias de cristãos socialistas como Saint-Simon, Buchez, Leroux, Cabet e outros pré-marxistas. Também eram as idéias da Liga dos Justos, que adotava idéias cristãs, antes de adotar as idéias de Marx.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”. A estrutura estatal do modelo de Marx, para a Comuna de Paris, é baseada em “cooperativas” que planejam “a produção nacional num plano comum”, na planificação participativa com cooperativismo. Esta fórmula é a fórmula de Buchez, que está mais ou menos nos textos de João XXIII e está nos textos de Dom Hélder e de Alceu. Frise-se: esta fórmula não tem nada de ditadura, de proibição de sindicatos livres, de proibição de multipartidarismo, de negação da liberdade de pensamento, de expressão, de palavra, de Gulags etc. Esta parte é o joio, a parte ruim. 

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto. Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez, a fórmula adotada na fusão de seu partido com o partido de Lassale.

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n. em 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem: “o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”. Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez, adotada também por Etienne Cabet e por Luís Blanc. De qualquer forma, Guesde queria economia mista, como transição, ponto que também foi defendido por Trotski, no seu “Programa de transição”, que será analisado num post separado, que estou preparando. 

Numa linha semelhante, Benoit-Malon queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”. Malon tinha boa religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos… libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, livros com o título de “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas, opondo-se aos projetos de ataque à Igreja da Terceira República, projetos elaborados no Grande Oriente da França.

Lembro que, mais tarde, a Maçonaria, na França, sofreu uma cisão, gerando uma Maçonaria cristã, bem católica, elogiada por vários padres, como o Padre Benemelli, ou o Padre Valério Alberton, a quem eu conheci pessoalmente. 

Cooperativismo com planejamento estatal foi também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão protestante, embora Gide errasse por não ver a importância do Estado, coisa que o socialismo católico não fez, pois sempre a Igreja elogiou o Estado, como instituição vital e essencial.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

Conclusão: com várias nuances e algumas diferenças, a maior parte do movimento socialista adotou a fórmula de Buchez, de difusão do cooperativismo com apoio do Estado, para superar o regime assalariado e dar aos trabalhadores o controle dos processos produtivos e do Estado. Esta fórmula tem base cristã, católica, sendo pré-marxista. A teologia da libertação não pode ser acusada de marxista ao adotar idéias cristãs pré-marxistas.

Tocqueville, Buchez, Sismondi, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, José Soriano de Souza e a Escola de Liège adotavam duas premissas fundamentais: a importância do associativismo cooperativista e do apoio e da intervenção do Estado

José Soriano de Souza, no livro “Ensaio de programa para o partido católico no Brasil (Porto/Braga, Livraria Internacional, 1877, p. 4), no capítulo I, ensinou que “a idéia formal de sociedade contém-se inteiramente na concórdia [livre] dos cidadãos, conspirando todos, por meio de seus atos para o bem comum” (p. 4). Concórdia é consenso, sendo a mesma base do livro “Concórdia”, de Juan Luís Vives. Significa união dos corações, das consciências, para a regência da vida social em prol do bem comum.

Soriano defendia idéias democráticas como: a “descentralização e a liberdade dos municípios”, a liberdade de imprensa”, de “ensino e instrução popular” e, especialmente, “o direito de associação”, na linha de Tocqueville, Buchez e outros.

A JUC, Lebret e outros apontaram corretamente a democracia popular, socialismo democrático, como o ideal natural e cristão

A JUC seguia a linha de pensadores como Alceu Amoroso Lima, Dom Hélder, o padre Lebret, Karl Jaspers, Gabriel Marcel (1889-1973), Emmanuel Mounier, Jacques Maritain, o padre Teillhard de Chardin, os ideais cristãos da Resistência Francesa e milhares de outras fontes. Mounier, Jaspers (católico meio panteísta e pró-socialista) e Marcel serviram como umas das fontes essenciais de autores como Ricouer e este, por sua vez, é uma das fontes da teologia da libertação.

Para verificar como este movimento internacional estava difundido, basta transcrever um texto elucidativo do padre Lebret, por exemplo, no livro “Manifesto por uma civilização solidária” (São Paulo, Ed. Duas Cidades, 1962, p. 34), onde redigiu um capítulo com “nossa posição face ao socialismo”, com o seguinte texto:

O cristianismo poderia mesmo contribuir para renovar [retomar as raízes religiosas do socialismo pré-marxista, como demonstrei no livro “Socialismo: uma utopia cristã”] um tipo de socialismo aberto [participativo], na medida em que o socialismo abandonasse sua mística materialista [reificadora, melhor dizendo].

A votação de leis sociais foi, em muitos países, obtida pelo apoio de socialistas e de cristãos empenhados no campo social. Socialmente, muitos cristãos estão em posição mais avançada que muitos líderes socialistas ou mesmo que a massa socialista. Desde que o socialismo supere suas posições anti-religiosas e reconheça a importância das responsabilidades pessoais efetivas [da liberdade, da participação], deixará, sem dúvida, de ser considerado pelos cristãos como uma força necessariamente inimiga”.

O ideal histórico (o “projeto histórico” brasileiro, exposto nos Encontros Nacionais de Fé e Política) é que a comunidade se autogoverne, em formas flexíveis de autogestão ampliada, de forma espontânea e livre, onde todos cumpram as regras de convívio de forma espontânea, livremente.

A espontaneidade, a liberdade, só terá condições sociais de generalização quando as normas jurídicas positivas estiverem em harmonia com as idéias práticas do povo (os ditames, as idéias verdadeiras), nascidas da consciência do povo, das razões entrelaçadas, do diálogo, da experiência histórica e dialógica.

Neste sentido, os textos dos melhores anarquistas (especialmente Kropotkin, mas também Proudhon) e socialistas (especialmente os utópicos, quase todos com alguma religiosidade, como pode ser visto na obra de A. Lichtenberger, “O socialismo francês no século XVIII” (1895), que é a obra fundamental para as raízes do socialismo utópico) coincidem com o núcleo da doutrina cristã e este ponto foi constatado até por Nietzsche, como será demonstrado numa das postagens deste meu blog. 

Conclusão: o “ideal histórico” ou “projeto histórico” dos católicos, no Brasil, é uma Democracia Popular, Participativa, Social, um Estado Social, uma forma de socialismo humanista, participativo, democrático, com liberdade, economia mista, distributismo, bens pequenos e médios para todos, erradicação da miséria, erradicação das grandes fortunas privadas etc.

Até Bakunin viu que o jusnaturalismo católico foi a corrente principal da democracia, na história

Bakunin constatou uma bela verdade: o jusnaturalismo (hebraico, socrático, platônico e aristotélico-estóico) foi a corrente teórica principal do movimento democrático, no processo histórico. Este jusnaturalismo foi chamado por Schumpeter de “teoria clássica” da democracia e tem, em seu núcleo, uma concepção positiva sobre a razão e liberdade, como fontes de regras racionais, consensuais, sociais para a proteção, conservação e promoção do bem comum.

Esta noção positiva da liberdade estava bem presente nos textos de Bakunin. Este grande anarquista adotou o anarquismo quando era jovem e cristão, deixando bons textos religiosos, os textos do jovem Bakunin. O livro de H. Arvon, “Bakounine. Absolu et Révolution” (Paris, Cerf, 1972), mostra que Bakunin tornou-se revolucionário por causa de Weitling e do cristianismo revolucionário da Liga dos Justos e também por influências de outras fontes cristãs, que também influenciavam a Liga dos Justos, em seu socialismo cristão pré-marxista.

Só mais tarde é que Bakunin se tornou ateu, mas era já era revolucionário antes e com bases cristãs. Mesmo afirmando que se tornara ateu, escreveu bons textos como, por exemplo: “socialismo sem liberdade é escravidão, é brutalidade”; e “a felicidade, o paraíso humano sobre a terra” é “ver e sentir minha liberdade confirmada, sancionada, estendida ao infinito pelo assentimento de todos os homens”.

O “ateísmo” de Bakunin e de Proudhon era fruto de erros destes autores, embora também contivesse a crítica de erros da parte humana da Igreja, das religiões positivas, das ligações de pessoas religiosas com os Estados burgueses ou absolutistas daqueles tempos. O velho Bakunin, como Proudhon, com certeza, estenderia suas mãos a João XXIII ou a Francisco I.

Bakunin, tal como alguns hereges antigos, rejeitava o Estado e as leis positivas em bloco, o que era um erro. Bakunin deveria, na linha jusnaturalista, ter rejeitado apenas as leis e as formas estatais iníquas, prejudiciais ao bem da sociedade, ao povo. No entanto, Bakunin também ensinava corretamente que a liberdade, para durar e ser efetiva, deveria estar regrada pelas “leis naturais”. Da mesma forma, Helvetius, no livro “O Espírito”, é jusnaturalista, defendendo leis boas, leis conforme ao bem comum, que é a essência do jusnaturalismo católico, tomista etc. O mesmo defenderam autores como Voltaire, Diderot, Rousseau e outros, todos rebentos da tradição católica, mesmo deturpando-a em várias pontos. 

Os textos de Bakunin sobre a “lei natural” e a liberdade mereceriam uma boa compilação, mostrando o prisma jusnaturalista de algumas boas idéias de Bakunin. Como demonstrei no meu livro sobre as origens religiosas do socialismo, Bakunin tornou-se socialista anarquista em sua juventude e, nesta época, o jovem Bakunin tinha fortíssimas idéias e sentimentos religiosos, hauridos do cristianismo primitivo, especialemente de Weitling, recebendo esta influência no período em que esteve na Suiça, quando era jovem.

Conclusão: o “jusnaturalismo” da Paidéia combinou-se com o jusnatualismo hebraico, formando o núcleo da parte humana do catolicismo.

— Updated: 15/10/2018 — Total visits: 38,180 — Last 24 hours: 113 — On-line: 0
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