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O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

O catolicismo exige um amplo Estado social, com Democracia popular participativa

Eduardo Benes (1884-1948), ex-presidente da antiga Tchecoslováquia (hoje, dividida em dois países: República Tcheca e Eslováquia), também ensinava que a essência da democracia é a tese cristã que todas as pessoas têm almas (consciências), que todas as pessoas são sagradas e irrepetíveis (ponto visto por Marx, como pode ser lido no livrinho “A questão judaica” e em outras obras, e repetido por Lenin, em “O Estado e a revolução”).

Benes continuou a linha de seu mestre, Tomás Garrigue Masaryk (1850-1937), que também adotava um socialismo democrático com fundamentos religiosos. Masaryk foi o primeiro presidente da Tchecoslováquia.

Benes expôs suas idéias no livro “Democracia de hoje e de amanhã” (Rio de Janeiro, Ed. Calvino, 1945). No epílogo (p. 287), Benes, também defensor de uma democracia popular, social, concluía:

A democracia humanitária, concebida com todas as suas conseqüências, tem um aspecto pelo quase se distingue de outros sistemas, isto é, sua relação direta e positiva para com aquele elemento espiritual e social que constitui a religião e o conceito de Deus. Toda a essência da democracia, seu caráter espiritual, idealista e humanitário, sua fé no aperfeiçoamento do homem até o mais alto. O sistema democrático sempre tem respeitado, portanto, a religião, o culto religioso e as igrejas. A religião cristã, em particular, como sistema religioso, é, na sua essência ideológica e ética, absolutamente compatível com a democracia”.

Na mesma linha, Bergson ensinava, em seu livro sobre as duas fontes da ética, que “a democracia é de essência evangélica e tem por motor o amor” (buscar o bem de todos).

O cristianismo, especialmente o catolicismo, exige um Estado social amplo, uma democracia popular participativa. Este ponto foi destacado por Maritain, Bernanos, Mounier, Jean Lacroix, De Gaulle, Alceu e outros.

Há lições parecidas e análogas nos livros de Arnold Toynbee (“a democracia é uma página rasgada do Evangelho”), Glenn Tinder (ver “O significado político do cristianismo”, Lousiana University, 1989), Dag Hammarskjöld, Miguel de Unamuno, François Mauriac, Graham Greene, o grande Cronin (um inglês católico que soube redigir romances lindos sobre medicina e enfermagem, no Reino Unido), Fabbri, Rilke, Sigrid Undset (1882-1949, norueguesa, democrata e católica), Valverdi, D´Amico, Böll, Claudel, Gertrud von Le Fort (n. 1876), Marcel, Péguy, Thomson, Tecchi, Giuseppe Ungaretti, Weil, Busset, Frossard, Mario Pomilio, Quoist, Robinson, Senghor, Ulivi, Testori, Julien Green (1900-1998), Shusaku, Alfred Döblin, Jean Guitton, Bruce Marshall, Montherlant, D´Ormesson, Parazzoli, Muggeridge, Jean Delumeau e outros.

Sigrid Undset, como grande escritora, lutou pelos direitos políticos e econômicos das mulheres e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1928. Ela também combateu o nazismo, que matou um de seus três filhos. Redigiu obras importantes como “Os dias felizes na Noruega” (1942).

A essência do Plano divino: liberdade pessoal e igualdade social

A essência do Plano divino é uma síntese entre liberdade pessoal e igualdade social.

É um Plano de libertação, a vida em plenitude, a concessão de poder divino, por participação na natureza divina, a todas as pessoas.

A estratégia de Deus é baseada na democratização da “vida eterna”, na democratização e universalização do poder (“Carta a Tito, 1,2).

O “ideal” cristão exige uma sociedade justa, estruturada para o bem comum, que compatibilize a igualdade social e a liberdade pessoal.

Estes pontos de ética política constam nos textos e nas obras de milhares e milhares de autores e personagens. Dentre estes, para ilustrar com exemplos, basta pensar em expoentes como: os textos bíblicos, os Santos Padres e doutores da Igreja, os grandes santos, São Tomás Morus, Las Casas, Francisco Vitória, Luiz de Molina, Mariana, Francisco Suárez, Bellarmino, George Calvert Baltimore (1580-1632, fundador de Maryland, em 1629), Pope, o padre Mably, o padre Raynal, o bispo Henrique Gregório (1750-1831), o bispo Fauchet, O´Connell, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, Rosmini, Balmes, Dupanloup, o bispo Doutreloux (patrono da “Escola de Liége”), Dupanloup, Ketteler, Acton, Tocqueville, Windthorst, Mercier, Mermillod, Leão XIII, Albert de Mun, Marc Sangnier, Joseph Vialatoux, Paul Archambault, Grégoire (Georges Goyau), Pottier, Toniolo, Antoine, Pesch, Luigi Sturzo, Maurice Hauriou, Maritain, Mounier, Alceu, Lubac, Lercaro, João XXIII, Dom Hélder e outros.

Detalhando mais, a linha da Igreja tem homens como o padre Jacques Roux e o bispo Gregório.

O bispo Gregório foi praticamente o primeiro a reclamar a República, na Convenção, em 1792. Foi também o principal advogado dos negros, dos escravos e dos judeus. Em 1794, foi graças principalmente a ele que a escravidão foi abolida na França.

O Círculo Social também era católico, pois era liderado por dois bispos católicos, o Bispo Claude Fauchet e o bispo Nicholas Bonneville. 

Outro grande Cardeal democrático foi o bispo Gibbons, de Baltimore, que presidiu os concílios católicos nacionais, nos EUA, em 1852, 1866 e 1884.

Santo Ozanam – o socialismo tem origens cristãs, tradições cristãs, dando apenas novos nomes para as antigas virtudes, regras

Os profetas, Cristo, os Apóstolos, os Mártires, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Las Casas (autor do livro “Destruição das Índias”, 1552, em defesa dos indígenas), Suárez, Bellarmino, Pope, Mably, Montesquieu, Acton, Tocqueville, Ozanam, Lamennais, O´Connel, Lacordaire, Buchez, Ketteler, o Cardeal Charles Lavigerie (18235-1892, arcebispo de Cartago e Primaz da África), Chesterton (1874-1936), Simone Weil, Marc Sangnier (1873-1950), Maritain, Mounier, os artigos e a linha da revista “Espírito” (“Esprit”) Lebret, Fessard (cf. “Autoridade e bem comum”, 1944) e outros tinham o mesmo ideal de liberdade, fraternidade e igualdade para todos (o ideal cristão de Morgan, autor que Marx apreciava).

Como explicaram Leão XIII, Pio XII, João XXIII e Paulo VI, o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade é o ideal cristão, católico, que os maçons apenas adotaram, pois a maior parte da maçonaria é cristã, sendo apenas uma pequena parte anticlerical (e esta parte diminui, ano a ano). 

O ideal de um socialismo (socialização) com liberdade (com personalização), um amplo Estado social, democracia popular participativa, economia mista, controles amplos e públicos sobre a economia etc. 

Em 1848, a linha mais brilhante da doutrina social da Igreja foi explicitada inclusive em discursos e atos de Pio IX.

O próprio Marx reconheceu que Pio IX e a Igreja atuaram de forma positiva nos movimentos de 1848.

No mesmo sentido, Ozanam, em carta de 22.02.1848, escrevia: “julgo ver o Soberano Pontífice consumar o nosso anseio de vinte anos [desde 1828]: passar para o lado dos bárbaros, isto é, do campo dos reis e dos homens de Estado de 1815 para se encaminhar ao povo”.

Ozanam escreveu um ensaio com o título “As origens do socialismo”, onde ressaltou que a maior parte dos socialistas fundamentava suas idéias em “tradições cristãs”, “cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes”.

Por isso, Ozanam, que foi canonizado pela Igreja, dizia: “não desconhecemos a generosidade” dos socialistas e, tal como Ketteler, queria “proceder à triagem”, pois “as antigas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade” eram “nossas”, sendo o fundo da tradição cristã.

O ponto essencial da ética, na visão de Ozanam (e dos vicentinos, da Teologia da libertação e da doutrina social, tal como da lei natural), era “promover a abolição do pauperismo”, “advogar a causa dos operários” e “procurar para os homens a maior felicidade terrestre”.

Em resumo: o “anarquismo” cristão do padre Ivan Illich (tal como o anarquismo profundamente cristão do jovem Bakunin, em seus primeiros textos; ou o de Tolstoi) tinha a mesma fundamentação que o distributismo democrático de Alceu e Chesterton, baseado no “reino da liberdade”, do “amor”.

O poder – como qualquer outro bem – deve ser difundido, democratizado, generalizado.

O Estado deve ser ampliado, tendo cada pessoa um pedaço do espaço público, uma cota do bem comum, dos bens comuns a todos. Uma ampla base pública, com distributismo, com setor de pequenas e médias propriedades privadas, principalmente moradias populares de ótima qualidade. 

É esta a doutrina cristã sobre os bens, inclusive o poder. O mesmo vale para o prazer, a felicidade, a cultura, o saber, as informações, o conhecimento etc. Tudo deve ser difundido, sem excluir ninguém, sem monopólio que prive outros. 

Por isso, o próprio Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (1917), reconhecia “o espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”.

Vários anarquistas apontaram corretamente a necessidade de difusão do poder, como pode ser visto nos textos de Proudhon, Tolstoi e outros.

Ainda mais – Bakunin, Proudhon e Tolstoi não eram contra o Estado em si, e com contra a figura do Estado liberal ou absolutista da época, queriam, na verdade, um Estado, uma organização da sociedade, debaixo para cima, como deve ser. O mesmo recomendou Marx, num livro sobre a Comuna de Paris. Eu li os melhores de Bakunin e atesto isso.

Vou por no blog uma parte relevante dos textos de Bakunin sobre o Estado, direito das pessoas a pequenos bens etc. 

A luta da Igreja em prol da Democracia popular, do Estado social

Além de vários expoentes que citei em outras postagens, como Buchez, houve, ainda, Taparelli e sua defesa de governos representativos, em obras como o “Exame crítico da ordem representativa” (Roma, 1854).

Na mesma linha, os trabalhos de pesquisa de Villermé; Leão XIII e suas encíclicas democráticas; a reconciliação entre católicos e republicanos, na França e no mundo todo; o grupo de Eduardo Sanz y Escartín (ver “O Estado e a reforma social”, 1896) e a Escola de catolicismo social, de Liège.

Na mesma linha, houve o círculo de Friburgo e o cardeal Mermillod (autor do livro “A Igreja e os operários no século XIX”, 1868).

Nos EUA, o episcopado norte-americano teve lideranças como o Cardeal Gibbons (1834-1921). Na Inglaterra, o cardeal Manning; a Liga Democrática Belga (aprovada por Pio X); o Partido Popular Cristão, ligado ao padre Daens; o “solidarismo” do padre Antônio Pottier, do padre Pesch e do padre Llovera; o partido popular, ligado ao padre Sturzo; a corrente do personalismo cristão de Renouvier; Maritain, Mounier, a Resistência Francesa, De Gaulle etc.

Esta linha teve estrelas como Kothen (seu livro, “Problemas sociais da atualidade”, foi editado no Brasil com o prefácio de Alceu), até chegar à teologia da libertação e aos socialistas cristãos (especialmente os católicos, como Alceu e Pontes de Miranda) de hoje, que retomam as linhas históricas mais importantes.

Houve marcos como o movimento da Democracia cristã, com expoentes como Romolo Murri (1870-1944); o abade Naudet; o “Sillon” e Marc Sangnier (1873-1950); Péguy, Giuseppe Toniolo, Sturzo e o partido popular.

E marcos como o padre Francesco Olgiatti; Maritain; Mounier e a corrente do personalismo, do socialismo personalista, de Mounier. Depois, o próprio De Gaulle (que defendeu corretamente a descolonização, a participação dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas e criticou o imperialismo ianque, criou estatais) e os católicos da Resistência Francesa (a Resistência foi liderada por um católico, chamado Bidault).

Há também os católicos existencialistas; a JOC e a Ação Católica Operária, especialmente com o Cardeal Cardjin.

E as alianças entre a democracia cristã e os socialistas democráticos; tal como o voto católico inglês no Partido Trabalhista, e o voto católico estadunidense na ala esquerda do Partido Democrático, nos EUA.

E há a estrela de João XXIII; o Concílio Vaticano II; Medellin; a teologia da libertação; o movimento “Cristãos pelo Socialismo”; Puebla; a CPT, o MST e a Via Campesina etc.

Para detalhar um pouco a linha acima esboçada, vejamos o padre Pottier e Pesch, que são bons exemplos de sacerdotes.

O padre Antônio Pottier (1849-1923) foi um dos líderes da Escola de Liège, elaborando bons textos sobre democracia popular-social em 1892 e 1893. Ele participou também do movimento da democracia cristã. Escreveu obras como “De iure et iustitia” (Liège, 1900), “A cooperação e as sociedades operárias” (Liège, 1889); “A Igreja e a democracia cristã” (1901), “A questão operária” (Roma, 1903); “A moral católica e as questões sociais de hoje” (Milão, 1921).

Pottier também atuou ao lado de homens como Georges Goyau (sua obra, “O Cristo”, foi traduzida, no Brasil, por Alceu, em 1942) e Romolo Murri (1870-1944).

Goyau escreveu obras importantíssimas como “O Cristo”, “Ketteler” (1907), “Retratos católicos de precursores” (1921) e “Catolicismo social” (5 volumes).

O padre Heinrich Pesch (1854-1926) foi aluno de Rudolf Meyer (socialista cristão, amigo de Frederico Engels) e de Adolf Wagner (n. em 1835).

Adolf Wagner também era socialista cristão e defendia a extensão das funções do Estado, mas com respeito à liberdade etc.

Wagner era filho de Rodolpho Wagner (1805-1864), que foi um grande cientista alemão, bem ligado à religião.

O solidarismo de Pesch era uma forma branda de socialismo com liberdade e distributismo. Bem próximo de Renouvier, na França, do radicalismo francês, que levou a reconciliação do socialismo com o cristianismo, na França, já na década de 20 e de 30, com a ajuda do Núncio papal, que era João XXIII, antes de ser Papa, já atuando. 

O solidarismo e o socialismo de cátedra eram formas de socialismo ligadas à religião.

O cristianismo e o pensamento hebraico foram as matrizes do socialismo utópico, pré-marxista.

Pesch, em seu livro “Tratado da economia nacional” (5 volumes, 1905-1923), defendeu o “solidarismo cristão”, ressaltando que o bem comum significa a síntese entre o bem pessoal e o bem da sociedade. Ou seja, o dever de assegurar o bem de cada pessoa em harmonia com o bem da sociedade, o bem comum.

Na linha do socialismo romântico e cristão, há também as figuras dos irmãos Clemente Brentano (1778-1842) e Lujo Brentano, na Alemanha.

Pesch escreveu livros como “Solidarismo” (1919) e outros, bem próximos do radicalismo e do socialismo democrático.

Antes, o padre Hitze (1851-1921) já frisava que “somente uma obra legislativa ampla e profunda, somente a mão onipotente do Estado poderão estabelecer a ordem na vida social”.

O Cardeal Mercier também frisava que “quando trabalha para repartir mais equitativamente a riqueza da sociedade, o socialismo tem toda razão”.

A influência católica nos melhores textos de Marx

Marx nasceu na Renânia católica, na cidade mais católica da Alemanha, a cidade mais antiga da Alemanha, a cidade católica de Trier.

Estudou no Ginásio de Trier, que tinha sido um Colégio jesuíta. E teve como colegas seminaristas católicos, inclusive o futuro bispo de Trier. Depois, quando era jornalista, defendeu o bispo de Trier, contra a prisão, determinada por Frederico Guilherme IV.

Marx foi influenciado principalmente pela Liga dos Justos, organização cristã, com ampla citação de católicos. E pelos cartistas, com ampla participação católicos, dos irlandeses.

Marx foi influenciado por grandes católicos, como Béranger; Buchez; Lamennais e Villeneuve-Bargemont.

Villeneuve-Bargemont (1784-1850) escreveu o livro “Economia política cristã” (1834), onde criticou o liberalismo e defendeu a intervenção estatal a favor dos pobres.

Marx, ao começar seus estudos sobre economia política, leu o livro de Villeneuve, recebendo boa influência cristã pré-marxista. Numa linha próxima, houve ainda Ozanam (1813-1853), professor na Sorbonna e fundador dos Vicentinos.

O primado do bem comum era a base da concepção de Alban de Villeneuve-Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), onde critica a “concentração de riqueza e do poder” nas mãos da nobreza, como a causa principal da revolução francesa.

Alban atacou o “absenteísmo” dos grandes proprietários.

Criticou também a burguesia, a “nova feudalidade”, “do dinheiro e da indústria”, que “começa pela servidão das massas e termina com a usurpação dos poderes públicos”.

Alban criticou o capitalismo, na mesma linha de Sismondi, um dos autores que mais citava. Karl Marx, quando era jovem, leu Villeneuve-Bargemont e também Sismondi, sendo estas algumas de suas grandes fontes cristãs, especialmente católicas.

Os textos de Karl Marx estão cheios de metáforas religiosas, de textos bíblicos e de grandes autores cristãos (inclusive Montalembert). Outra influência católica ocorreu pelos textos católicos de Saint Simon, que era católico e socialista. 

Marx também foi influenciado por Petr Yákovlevich Chaadaev (1794-1856), que foi um pensador russo, católico, influenciado por Lamennais. Chaadaev militou ao lado de Alexandre Herzen (1812-1870), pela democracia e a igualdade, tal como faziam os católicos que militavam ao lado de Mazzini e Garibaldi, apesar do anticlericalismo destes líderes que tinham ampla religiosidade.

Outro expoente católico foi Daniel O´Connell (1775-1854), o líder do movimento católico na Inglaterra, organizando a luta do povo irlandês em prol da independência da Irlanda.

Houve ainda Fergus O`Connor, líder dos cartistas.

Outro marco foi o movimento dos católicos da Renânia, na década de 1830 e 1840, elogiado até por Bakunin.

Outro marco foi o movimento católico dos poloneses, contra o czarismo, contra a opressão da Prússia etc. Houve inclusive santos católicos, dirigentes do movimento polonês, no século XIX. 

Nos EUA, os católicos militavam no movimento dos Cavaleiros do Trabalho, chegando à liderança deste movimento operário (elogiado por Lenin), com Powderly.

Na Itália, houve líderes emblemáticos como Alexandre Manzoni (1785-1873, elogiado por Pio XI, na “Divini Illius”), Rosmini e Gioberti. Além destes, vale à pena lembrar dos padres Gallupi, Garelli, Billia, Sanseverino, Liberatore, Cornoldi, Satolli, Prisco e outros. E também o grande César Cantu. 

Na França, devem ser recordados expoentes como Tocqueville, Ozanam, Buchez, Albert de Broglie, Augustin Cochin, Montalembert, Lacordaire, Dupanloup e outros. Tocqueville, por exemplo, influenciou autores como Edouard Laboulaye (1811-1883), na obra “O partido liberal” (1863), que teve influência no Partido Liberal, no Brasil, no século XIX, defendendo teses pro democracia.

Há ainda Huit, Piat, Desdouits, Fonsegrive, Graty, Ollè-Laprunne, Domet de Vorges, Farges, Peillaube e outros que foram precursores de Maritain.

Há ainda expoentes como John Acton (1834-1902); Skrzynecki; Montalembert; Lacordaire; Ketteler; Ludwig Windsthorst (1812-1891, líder do Partido do Centro, crítico de Bismarck, e Marx pediu textos de Windsthorst, numa de suas cartas); César Cantu; Albert de Mun e outros.

Na Polônia, houve o carmelita São Rafael Kalinowski (1835-1907), um dos líderes da insurreição polonesa e lituana, de 1863, contra a opressão russa contra a Polônia, tendo sido mandado para a Sibéria, por dez anos.

Depois, o próprio Leão XIII, Newmann (elogiado por Henri Brémond), Manning, Gibbon, Péguy, Marc Sangnier, Maritain, Mounier, o abade Pierre, João XXIII, Dom Hélder, Alceu e há milhões de outros expoentes, que, por sua vez, refletem o rio vivo de verdades que corre na consciência (“coração”) do povo, tal como do coração de Deus (cf. Ap. 22).

Napoleão ressaltou que o catolicismo é perfeitamente compatível com um “governo democrático e republicano”. Em seu testamento, Bonaparte escreveu: “morro na religião apostólica e romana, na qual nasci há mais de cinqüenta anos”.

Convém lembrar que até Marx reconhecia o papel positivo de Napoleão ao disseminar na Europa os princípios democráticos da Revolução Francesa.

O livro de Daniel-Rops (1901-1965), “A Igreja das revoluções” (São Paulo, Ed. Quadrante, 2003), em quase 900 páginas, deixou algumas boas páginas sobre a participação da Igreja nos movimentos democráticos do século XIX, reconhecendo que “os escolásticos, com Santo Tomás e depois Bellarmino (acrescentemos, naturalmente, Suárez, para não irmos mais longe)” corroboravam a tese da “soberania do povo”.

Sobre Bellarmino, o papa Clemente VIII, quando o escolheu para ser cardeal, proferiu as seguintes palavras: “elegemos este porque a Igreja não possui outro igual em sabedoria”.

Planificação com liberdade, economia mista, Estado social

A mente humana é essencialmente planificadora, como expus no livro sobre as origens cristãs do socialismo. Este caráter planificador da consciência é que explica o potencial maléfico dos erros, da ignorância e da mentira.

O ponto central é que há a liberdade, esta boa e há a necessidade de bons planos, como planos de vôo.

São estas premissas antropológicas que possibilitam a democracia e uma economia planificada de forma participativa e livre, como mostrou Pontes de Miranda, em várias obras importantes.

Como ensinaram os bispos brasileiros, na “Declaração de Goiânia”, “a cultura [o conhecimento, que nasce de forma discursiva, dialógica, por consensos, por sínteses consensuais] só pode vicejar onde há liberdade de pesquisa”, “uma justa liberdade de pesquisa e de ensinamento, para que se possa ter um autêntico progresso no conhecimento e na compreensão” (cf. João Paulo II, discurso na Gregoriana, em 15.12.1979).

O Estado deve ser um fórum de convivência, de auto-regulação, de cooperação, harmonizando (coordenando) as forças vivas da sociedade.

Este é o ensinamento do jusnaturalismo cristão e hebraico, como pode ser visto em milhares de autores. Por exemplo, nos textos de Alceu, Maritain, Buchez, Ozanam, em Del Vecchio (ver “A verdade na moral e no direito”, Roma, 1952), Mounier, Jean Lacroix e outros.

Antônio Genovesi (1712-1769) também ensinava que a vida e a luta por uma vida mais digna é “de direito natural” e, assim, “a terra, em caso de necessidade, é um patrimônio comum”, devendo ser controlada de forma participativa.

No mesmo sentido, Ludwig Borne, Weitling, Karl Schaper e outros líderes cristãos da Liga dos Justos, precursora cristã do melhor do marxismo. 

A Igreja luta por igualdade social, não aceitando cristalizar condições sociais iníquas, de desigualdade

A Igreja luta por igualdade social, como fica claro em textos papais, como, por exemplo, a alocução “O genuíno significado da libertação cristã” (Roma, 31.07.1974), do papa Paulo VI. Neste documento, este papa destacava que coincide “o conceito de libertação com o de salvação; e assim se compreende como possa falar-se de teologia da libertação”.

O Papa Paulo VI lembrou que a concepção social da Igreja “proíbe-nos cristalizarmos o aspecto estático das condições humanas quando estas fomentam a desigualdade e a riqueza egoísta”.

Logo, a doutrina da Igreja condena as cristalizações jurídicas e econômicas de estruturas más, como o latifúndio, os monopólios e o próprio conceito de capital e de propriedade quiritária.

Esta foi a linha do melhor da doutrina social da Igreja, a linha de Borne, Buchez, Leroux, Ozanam, Dupanloup, Lacordaire, do bispo Ketteler, de Tocqueville, Mun, de Manning, Toniolo, Pesch, Maritain, Mounier, Thomas Merton e de muitos outros expoentes da doutrina social da Igreja e do socialismo utópico, de feição cristã (“pré-marxista”, vindo antes de Marx, cf. lições do padre Fernando Bastos de Ávila).

A Democracia é de essência evangélica, tem pleno amparo na ética da religião cristã-judaica

Bergson ensinava, em seu livro sobre as duas fontes da ética, que “a democracia é de essência evangélica e tem por motor o amor” (buscar o bem de todos).

Este ponto foi destacado por Maritain, Bernanos, Mounier, Jean Lacroix, De Gaulle, Alceu e outros.

Há lições parecidas e análogas nos livros de Arnold Toynbee (“a democracia é uma página rasgada do Evangelho”), Glenn Tinder (ver “O significado político do cristianismo”, Lousiana University, 1989), Dag Hammarskjöld, Miguel de Unamuno, François Mauriac, Graham Greene, o grande Cronin, Fabbri, Rilke, Sigrid Undset (1882-1949, norueguesa, democrata e católica), Valverdi, D´Amico, Böll, Claudel, Gertrud von Le Fort (n. 1876), Marcel, Péguy, Thomson, Tecchi, Giuseppe Ungaretti, Weil, Busset, Frossard, Mario Pomilio, Quoist, Robinson, Senghor, Ulivi, Testori, Julien Green (1900-1998), Shusaku, Alfred Döblin, Jean Guitton, Bruce Marshall, Montherlant, D´Ormesson, Parazzoli, Muggeridge, Jean Delumeau e outros.

O apreço de Jung pela religião também tem basicamente o mesmo fundamento. 

Economia mista, defendida por Buchez, Ketteler, Pesch, Liberatore e Haring

O padre Heinrich Pesch (1854-1926), um grande padre jesuíta e economista, adotou o nome de solidarismo, para sua síntese da doutrina social da Igreja. Um nome já adotado pelo melhor do socialismo possibilista e democrático, com Renouvier, Bourgeois, Peguy, Paul Magnaud (“o bom juiz”, compassivo) e outros. 

Pesch queria um sistema misto, como foi proposto por Moisés, Platão (“As leis”), Aristóteles (“Política”), os estoicos, Confúcio e outros. O padre Pesch escreveu o livro “Tratado da economia nacional” (1905 a 1923, 5 volumes), que foi a base principal da minuta da “Quadragesimo anno” (1931), de Pio XI, consagrando a economia mista (os bens que atribuem muito poder devem ser socializados, estatais ou cooperativas sob controles estatais). 

Pesch queria uma síntese entre o “princípio individual” (pessoal) e o “princípio social”, do melhor da economia de mercado com o melhor das ideias socialistas (de origem cristã, pois o marxismo mesmo nasce de ideias pré-marxistas, ideias cristãs, do socialismo utópico). 

A mesma síntese é a conclusão e as linhas gerais do livro “Princípios de economia política”, do padre Matteo Liberatore (1810-1892), antes de Pesch, lá por 1890. Os textos do padre Liberatore, junto com os textos do Cardeal Zigliara, foram a base da minuta da “Rerum novarum” (1891), de Leão XIII. 

O padre Heinrich Pesch seguia as ideias de Rodbertus, Rudolf Meyer (amigo de Frederico Engels) e de Adolf Wagner, que, por sua vez, seguiam as ideias anteriores de Buchez. 

Em todos estes autores, há a ideia de síntese entre defesa das liberdades e socialização, de planificação com liberdades, de Estado social, com democracia popular (real, participativa) e economia mista. 

No fundo, são as mesmas ideias católicas. Basta pensar na condenação dos erros do jansenismo. O Papa Inocêncio X condenou os erros do jansenismo, na bula “Cum occasione”, deixando claro que a graça é dada a todos, que a graça (a ação de Deus, pelo Espírito Santo) ocorre em cooperação com a ação humana (liberdades).

O molinismo tentou uma síntese, para mostrar como a ação de Deus (e o mesmo pode ser dito do Estado, da sociedade) ocorre sem anular a liberdade, como é possível o máximo de socialização com o máximo de personalização (liberdades).

A predestinação (planos de Deus) ocorre como ajuda à ação humana (cooperação entre as pessoas e Deus, ação humana e ação divina e ação social, em boa síntese). A Comunhão não suprime a liberdade.

O Céu é a libertação, a participação das pessoas no governo do universo, com autogestão, autogoverno em boa síntese com autogestão social, com gestão participativa, democrática, pois Deus não anula a criação, e sim a plenifica.

Autonomia humana e socialização, autonomia humana, cooperação humana e ação divina, em boa síntese. Os melhores teólogos jesuítas, dominicanos, franciscanos, redentoristas defenderam esta síntese, que está no núcleo do catolicismo. 

O Céu é uma República popular, democrática, Cooperativa, com gestão participativa, e assim devem ser os governos humanos, prenúncios do Céu, portas, participação em Deus.

Comunhão participativa, como bons administradores, bons pastores da Criação, bons agricultores, bons trabalhadores cooperativos na Criação.

O primado do trabalho e da destinação universal dos bens são núcleos do Céu.

A ressurreição é um processo, que inicia na vida e continua pela eternidade, como a parusia.

A parusia não é um ponto final, e sim um processo. A renovação do universo ocorre por dentro, dentro da Criação, como um parto. O novo mantém as coisas antigas e as eleva, mantém e melhora. 

Da mesma forma, o equiprobabilismo de Santo Afonso de Ligório, Padroeiro dos teólogos morais e dos confessores, bem exposto pelo padre Bernard Haring (“Livres e fiéis em Cristo”), mostra a síntese entre a liberdade criativa e a ética, uma consciência ética age baseada em boas razões, pela luz da razão, da consciência (as regras éticas, a lei natural, são perfeitamente conciliadas com a liberdade humana). 

Há a mesma síntese em Mounier, Thomas Merton, Alceu e também em Teilhard de Chardin e Berson.

Evolucionismo que exige a ação humana, a humanização do universo, a ação humana, o trabalho humano, continuando, em colaboração com Deus, o processo criador-renovador do universo. 

 

 

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