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O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

Uma boa lição de Jacques Maritain, o mestre de Alceu

Como ensinou Maritain, no livro “Introdução geral à filosofia” (Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1951, p. 48), “Deus é o Bem” e cada pessoa se associa (união) a Deus pela prática do bem: “como o homem toma posse [une-se] de seu Bem? Tornando-se tanto quanto possível, responde Platão, semelhante a Ele, por meio da virtude e da contemplação”, pela prática de boas obras (das “virtudes”) e pelo estudo (a boa teoria leva à prática, não havendo nada mais prático do que uma boa teoria), corrigindo os erros etc.

A prática do bem é, principalmente, pautar a vida em prol do bem da sociedade, com destaque para o serviço aos oprimidos. O lema cristão dos policiais, “proteger e servir”, é o lema de todo agente público, de toda a atividade estatal.

A essência do Plano divino: liberdade pessoal e igualdade social

A essência do Plano divino é uma síntese entre liberdade pessoal e igualdade social.

É um Plano de libertação, a vida em plenitude, a concessão de poder divino, por participação na natureza divina, a todas as pessoas.

A estratégia de Deus é baseada na democratização da “vida eterna”, na democratização e universalização do poder (“Carta a Tito, 1,2).

O “ideal” cristão exige uma sociedade justa, estruturada para o bem comum, que compatibilize a igualdade social e a liberdade pessoal.

Estes pontos de ética política constam nos textos e nas obras de milhares e milhares de autores e personagens. Dentre estes, para ilustrar com exemplos, basta pensar em expoentes como: os textos bíblicos, os Santos Padres e doutores da Igreja, os grandes santos, São Tomás Morus, Las Casas, Francisco Vitória, Luiz de Molina, Mariana, Francisco Suárez, Bellarmino, George Calvert Baltimore (1580-1632, fundador de Maryland, em 1629), Pope, o padre Mably, o padre Raynal, o bispo Henrique Gregório (1750-1831), o bispo Fauchet, O´Connell, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, Rosmini, Balmes, Dupanloup, o bispo Doutreloux (patrono da “Escola de Liége”), Dupanloup, Ketteler, Acton, Tocqueville, Windthorst, Mercier, Mermillod, Leão XIII, Albert de Mun, Marc Sangnier, Joseph Vialatoux, Paul Archambault, Grégoire (Georges Goyau), Pottier, Toniolo, Antoine, Pesch, Luigi Sturzo, Maurice Hauriou, Maritain, Mounier, Alceu, Lubac, Lercaro, João XXIII, Dom Hélder e outros.

Detalhando mais, a linha da Igreja tem homens como o padre Jacques Roux e o bispo Gregório.

O bispo Gregório foi praticamente o primeiro a reclamar a República, na Convenção, em 1792. Foi também o principal advogado dos negros, dos escravos e dos judeus. Em 1794, foi graças principalmente a ele que a escravidão foi abolida na França.

O Círculo Social também era católico, pois era liderado por dois bispos católicos, o Bispo Claude Fauchet e o bispo Nicholas Bonneville. 

Outro grande Cardeal democrático foi o bispo Gibbons, de Baltimore, que presidiu os concílios católicos nacionais, nos EUA, em 1852, 1866 e 1884.

Santo Ozanam – o socialismo tem origens cristãs, tradições cristãs, dando apenas novos nomes para as antigas virtudes, regras

Os profetas, Cristo, os Apóstolos, os Mártires, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Las Casas (autor do livro “Destruição das Índias”, 1552, em defesa dos indígenas), Suárez, Bellarmino, Pope, Mably, Montesquieu, Acton, Tocqueville, Ozanam, Lamennais, O´Connel, Lacordaire, Buchez, Ketteler, o Cardeal Charles Lavigerie (18235-1892, arcebispo de Cartago e Primaz da África), Chesterton (1874-1936), Simone Weil, Marc Sangnier (1873-1950), Maritain, Mounier, os artigos e a linha da revista “Espírito” (“Esprit”) Lebret, Fessard (cf. “Autoridade e bem comum”, 1944) e outros tinham o mesmo ideal de liberdade, fraternidade e igualdade para todos (o ideal cristão de Morgan, autor que Marx apreciava).

Como explicaram Leão XIII, Pio XII, João XXIII e Paulo VI, o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade é o ideal cristão, católico, que os maçons apenas adotaram, pois a maior parte da maçonaria é cristã, sendo apenas uma pequena parte anticlerical (e esta parte diminui, ano a ano). 

O ideal de um socialismo (socialização) com liberdade (com personalização), um amplo Estado social, democracia popular participativa, economia mista, controles amplos e públicos sobre a economia etc. 

Em 1848, a linha mais brilhante da doutrina social da Igreja foi explicitada inclusive em discursos e atos de Pio IX.

O próprio Marx reconheceu que Pio IX e a Igreja atuaram de forma positiva nos movimentos de 1848.

No mesmo sentido, Ozanam, em carta de 22.02.1848, escrevia: “julgo ver o Soberano Pontífice consumar o nosso anseio de vinte anos [desde 1828]: passar para o lado dos bárbaros, isto é, do campo dos reis e dos homens de Estado de 1815 para se encaminhar ao povo”.

Ozanam escreveu um ensaio com o título “As origens do socialismo”, onde ressaltou que a maior parte dos socialistas fundamentava suas idéias em “tradições cristãs”, “cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes”.

Por isso, Ozanam, que foi canonizado pela Igreja, dizia: “não desconhecemos a generosidade” dos socialistas e, tal como Ketteler, queria “proceder à triagem”, pois “as antigas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade” eram “nossas”, sendo o fundo da tradição cristã.

O ponto essencial da ética, na visão de Ozanam (e dos vicentinos, da Teologia da libertação e da doutrina social, tal como da lei natural), era “promover a abolição do pauperismo”, “advogar a causa dos operários” e “procurar para os homens a maior felicidade terrestre”.

Em resumo: o “anarquismo” cristão do padre Ivan Illich (tal como o anarquismo profundamente cristão do jovem Bakunin, em seus primeiros textos; ou o de Tolstoi) tinha a mesma fundamentação que o distributismo democrático de Alceu e Chesterton, baseado no “reino da liberdade”, do “amor”.

O poder – como qualquer outro bem – deve ser difundido, democratizado, generalizado.

O Estado deve ser ampliado, tendo cada pessoa um pedaço do espaço público, uma cota do bem comum, dos bens comuns a todos. Uma ampla base pública, com distributismo, com setor de pequenas e médias propriedades privadas, principalmente moradias populares de ótima qualidade. 

É esta a doutrina cristã sobre os bens, inclusive o poder. O mesmo vale para o prazer, a felicidade, a cultura, o saber, as informações, o conhecimento etc. Tudo deve ser difundido, sem excluir ninguém, sem monopólio que prive outros. 

Por isso, o próprio Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (1917), reconhecia “o espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”.

Vários anarquistas apontaram corretamente a necessidade de difusão do poder, como pode ser visto nos textos de Proudhon, Tolstoi e outros.

Ainda mais – Bakunin, Proudhon e Tolstoi não eram contra o Estado em si, e com contra a figura do Estado liberal ou absolutista da época, queriam, na verdade, um Estado, uma organização da sociedade, debaixo para cima, como deve ser. O mesmo recomendou Marx, num livro sobre a Comuna de Paris. Eu li os melhores de Bakunin e atesto isso.

Vou por no blog uma parte relevante dos textos de Bakunin sobre o Estado, direito das pessoas a pequenos bens etc. 

A influência católica nos melhores textos de Marx

Marx nasceu na Renânia católica, na cidade mais católica da Alemanha, a cidade mais antiga da Alemanha, a cidade católica de Trier.

Estudou no Ginásio de Trier, que tinha sido um Colégio jesuíta. E teve como colegas seminaristas católicos, inclusive o futuro bispo de Trier. Depois, quando era jornalista, defendeu o bispo de Trier, contra a prisão, determinada por Frederico Guilherme IV.

Marx foi influenciado principalmente pela Liga dos Justos, organização cristã, com ampla citação de católicos. E pelos cartistas, com ampla participação católicos, dos irlandeses.

Marx foi influenciado por grandes católicos, como Béranger; Buchez; Lamennais e Villeneuve-Bargemont.

Villeneuve-Bargemont (1784-1850) escreveu o livro “Economia política cristã” (1834), onde criticou o liberalismo e defendeu a intervenção estatal a favor dos pobres.

Marx, ao começar seus estudos sobre economia política, leu o livro de Villeneuve, recebendo boa influência cristã pré-marxista. Numa linha próxima, houve ainda Ozanam (1813-1853), professor na Sorbonna e fundador dos Vicentinos.

O primado do bem comum era a base da concepção de Alban de Villeneuve-Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), onde critica a “concentração de riqueza e do poder” nas mãos da nobreza, como a causa principal da revolução francesa.

Alban atacou o “absenteísmo” dos grandes proprietários.

Criticou também a burguesia, a “nova feudalidade”, “do dinheiro e da indústria”, que “começa pela servidão das massas e termina com a usurpação dos poderes públicos”.

Alban criticou o capitalismo, na mesma linha de Sismondi, um dos autores que mais citava. Karl Marx, quando era jovem, leu Villeneuve-Bargemont e também Sismondi, sendo estas algumas de suas grandes fontes cristãs, especialmente católicas.

Os textos de Karl Marx estão cheios de metáforas religiosas, de textos bíblicos e de grandes autores cristãos (inclusive Montalembert). Outra influência católica ocorreu pelos textos católicos de Saint Simon, que era católico e socialista. 

Marx também foi influenciado por Petr Yákovlevich Chaadaev (1794-1856), que foi um pensador russo, católico, influenciado por Lamennais. Chaadaev militou ao lado de Alexandre Herzen (1812-1870), pela democracia e a igualdade, tal como faziam os católicos que militavam ao lado de Mazzini e Garibaldi, apesar do anticlericalismo destes líderes que tinham ampla religiosidade.

Outro expoente católico foi Daniel O´Connell (1775-1854), o líder do movimento católico na Inglaterra, organizando a luta do povo irlandês em prol da independência da Irlanda.

Houve ainda Fergus O`Connor, líder dos cartistas.

Outro marco foi o movimento dos católicos da Renânia, na década de 1830 e 1840, elogiado até por Bakunin.

Outro marco foi o movimento católico dos poloneses, contra o czarismo, contra a opressão da Prússia etc. Houve inclusive santos católicos, dirigentes do movimento polonês, no século XIX. 

Nos EUA, os católicos militavam no movimento dos Cavaleiros do Trabalho, chegando à liderança deste movimento operário (elogiado por Lenin), com Powderly.

Na Itália, houve líderes emblemáticos como Alexandre Manzoni (1785-1873, elogiado por Pio XI, na “Divini Illius”), Rosmini e Gioberti. Além destes, vale à pena lembrar dos padres Gallupi, Garelli, Billia, Sanseverino, Liberatore, Cornoldi, Satolli, Prisco e outros. E também o grande César Cantu. 

Na França, devem ser recordados expoentes como Tocqueville, Ozanam, Buchez, Albert de Broglie, Augustin Cochin, Montalembert, Lacordaire, Dupanloup e outros. Tocqueville, por exemplo, influenciou autores como Edouard Laboulaye (1811-1883), na obra “O partido liberal” (1863), que teve influência no Partido Liberal, no Brasil, no século XIX, defendendo teses pro democracia.

Há ainda Huit, Piat, Desdouits, Fonsegrive, Graty, Ollè-Laprunne, Domet de Vorges, Farges, Peillaube e outros que foram precursores de Maritain.

Há ainda expoentes como John Acton (1834-1902); Skrzynecki; Montalembert; Lacordaire; Ketteler; Ludwig Windsthorst (1812-1891, líder do Partido do Centro, crítico de Bismarck, e Marx pediu textos de Windsthorst, numa de suas cartas); César Cantu; Albert de Mun e outros.

Na Polônia, houve o carmelita São Rafael Kalinowski (1835-1907), um dos líderes da insurreição polonesa e lituana, de 1863, contra a opressão russa contra a Polônia, tendo sido mandado para a Sibéria, por dez anos.

Depois, o próprio Leão XIII, Newmann (elogiado por Henri Brémond), Manning, Gibbon, Péguy, Marc Sangnier, Maritain, Mounier, o abade Pierre, João XXIII, Dom Hélder, Alceu e há milhões de outros expoentes, que, por sua vez, refletem o rio vivo de verdades que corre na consciência (“coração”) do povo, tal como do coração de Deus (cf. Ap. 22).

Napoleão ressaltou que o catolicismo é perfeitamente compatível com um “governo democrático e republicano”. Em seu testamento, Bonaparte escreveu: “morro na religião apostólica e romana, na qual nasci há mais de cinqüenta anos”.

Convém lembrar que até Marx reconhecia o papel positivo de Napoleão ao disseminar na Europa os princípios democráticos da Revolução Francesa.

O livro de Daniel-Rops (1901-1965), “A Igreja das revoluções” (São Paulo, Ed. Quadrante, 2003), em quase 900 páginas, deixou algumas boas páginas sobre a participação da Igreja nos movimentos democráticos do século XIX, reconhecendo que “os escolásticos, com Santo Tomás e depois Bellarmino (acrescentemos, naturalmente, Suárez, para não irmos mais longe)” corroboravam a tese da “soberania do povo”.

Sobre Bellarmino, o papa Clemente VIII, quando o escolheu para ser cardeal, proferiu as seguintes palavras: “elegemos este porque a Igreja não possui outro igual em sabedoria”.

O ideal histórico concreto dos cristãos é uma Democracia Popular, de economia mista com Estado social

Jacques Maritain escreveu o livro “Humanismo integral” (São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1941), onde expõe o ideal histórico concreto dos cristãos.

Maritain lembra que as ideias cristãs têm ideias éticas comuns a todas as pessoas. Estas ideias, marcadas pela universalidade (católico é uma palavra grega, cujo significado é “universal”), na vida prática, geram um ideal prático histórico. 

Este ideal exige, nas palavras de Maritain, “novas estruturas sociais”, “um regime novo de vida social que suceda ao capitalismo” (pp. 46 a 56, do livro citado).

Maritain trabalhava em parceria com Emmanuel Mounier e auxiliou este na fundação da Revista “Esprit”.

Maritain apenas continuou a linha das ideias de Mably, William Cobbett, Sismondi, Lamennais, Ozanam, Buchez, Ketteler, Hitze, Lacordaire, De Mun, Tocqueville, Antoine, Liberatore, Adolph Wagner, Pesch, John Ryan, Chesterton e outros, defensores de um modelo de economia mista, democracia popular e vasto Estado social.

Uma parte destas fontes também geraram boa parte das ideias de Marx (especialmente Cobbett, Sismondi, Lamennais, Buchez e outros). São ideias católicas dentro do marxismo, que devem ser resgatadas, com atribuição correta das fontes. 

O ideal histórico concreto é basicamente uma Democracia popular participativa, com economia mista (grandes estatais, cooperativas e um setor privado com pequenas e médias empresas familiares, sendo este o tripé do núcleo da economia), amplo Estado social, planejamento público participativo da economia, redução maciça da jornada de trabalho, estabilidade no emprego, participação na gestão da produção e nos lucros, imensa legislação trabalhista e previdência, renda básica para todos etc. 

Planificação com liberdade, economia mista, Estado social

A mente humana é essencialmente planificadora, como expus no livro sobre as origens cristãs do socialismo. Este caráter planificador da consciência é que explica o potencial maléfico dos erros, da ignorância e da mentira.

O ponto central é que há a liberdade, esta boa e há a necessidade de bons planos, como planos de vôo.

São estas premissas antropológicas que possibilitam a democracia e uma economia planificada de forma participativa e livre, como mostrou Pontes de Miranda, em várias obras importantes.

Como ensinaram os bispos brasileiros, na “Declaração de Goiânia”, “a cultura [o conhecimento, que nasce de forma discursiva, dialógica, por consensos, por sínteses consensuais] só pode vicejar onde há liberdade de pesquisa”, “uma justa liberdade de pesquisa e de ensinamento, para que se possa ter um autêntico progresso no conhecimento e na compreensão” (cf. João Paulo II, discurso na Gregoriana, em 15.12.1979).

O Estado deve ser um fórum de convivência, de auto-regulação, de cooperação, harmonizando (coordenando) as forças vivas da sociedade.

Este é o ensinamento do jusnaturalismo cristão e hebraico, como pode ser visto em milhares de autores. Por exemplo, nos textos de Alceu, Maritain, Buchez, Ozanam, em Del Vecchio (ver “A verdade na moral e no direito”, Roma, 1952), Mounier, Jean Lacroix e outros.

Antônio Genovesi (1712-1769) também ensinava que a vida e a luta por uma vida mais digna é “de direito natural” e, assim, “a terra, em caso de necessidade, é um patrimônio comum”, devendo ser controlada de forma participativa.

No mesmo sentido, Ludwig Borne, Weitling, Karl Schaper e outros líderes cristãos da Liga dos Justos, precursora cristã do melhor do marxismo. 

A Igreja luta por igualdade social, não aceitando cristalizar condições sociais iníquas, de desigualdade

A Igreja luta por igualdade social, como fica claro em textos papais, como, por exemplo, a alocução “O genuíno significado da libertação cristã” (Roma, 31.07.1974), do papa Paulo VI. Neste documento, este papa destacava que coincide “o conceito de libertação com o de salvação; e assim se compreende como possa falar-se de teologia da libertação”.

O Papa Paulo VI lembrou que a concepção social da Igreja “proíbe-nos cristalizarmos o aspecto estático das condições humanas quando estas fomentam a desigualdade e a riqueza egoísta”.

Logo, a doutrina da Igreja condena as cristalizações jurídicas e econômicas de estruturas más, como o latifúndio, os monopólios e o próprio conceito de capital e de propriedade quiritária.

Esta foi a linha do melhor da doutrina social da Igreja, a linha de Borne, Buchez, Leroux, Ozanam, Dupanloup, Lacordaire, do bispo Ketteler, de Tocqueville, Mun, de Manning, Toniolo, Pesch, Maritain, Mounier, Thomas Merton e de muitos outros expoentes da doutrina social da Igreja e do socialismo utópico, de feição cristã (“pré-marxista”, vindo antes de Marx, cf. lições do padre Fernando Bastos de Ávila).

A grande lição democrática do Cardeal Louis Billot, resumindo a lição de Francisco Suarez, o maior tomista da Igreja

O cardeal Louis Billot, jesuíta, foi um dos principais estudiosos dos textos de Suárez. Billot teve o mérito de expor com clareza o pensamento democrático da neo-escolástica (a partir de 1850, mais ou menos). A neo-escolástica, por sua vez, foi baseada na Paídéia e nos textos bíblicos, no melhor do pensamento antigo (especialmente grego-romano), dos Santos Padres e de Santo Tomás.

O Cardeal Billot, segundo consta no livro do padre Jose Llovera (“Tratado de sociologia cristiana”, Editorial Luis Gili, Barcelona, 1959, p. 117), adotava as duas teses centrais (que são as vigas mestras da teoria política e jurídica) expostas por Santo Ambrósio, Santo Isidoro, Santo Tomás, John de Salisbury (1115-1180), Suárez e outros luminares da Igreja:

a) “o direito de determinar a forma de governo e a lei de investidura do poder residem originariamente na comunidade”; e,

b) “o direito de estabelecer uma nova forma de governo e uma nova investidura do poder reside sempre na comunidade, enquanto o exige a necessidade do bem comum”.

Estas teses foram explicitadas com mais clareza por Francisco Suárez e Bellarmino (um dos 33 Doutores da Igreja), que, com vários escolásticos e neoescolásticos, ensinavam a tese da origem divina mediata (e não imediata) da autoridade, do poder. Ensinavam que o poder vem, sim, de Deus, mas Deus atua por mediações, pela mediação do povo. O livro “Sobre o mundo”, atribuído a Aristóteles, mas escrito no início do século II d.C., explica bem a transcendência de Deus, destacando a ação divina por mediações, por motores (causas) segundos. O mediador principal é a natureza, especificamente, a razão humana, presente em todos, logo, a fonte imediata está no próprio povo, na comunidade (na consciência da sociedade, formada pelo enlace das razões pessoais, pelo diálogo).

Deus atua através do povo, mais especificamente, pelas regras (idéias, valores, virtudes) práticas, racionais, sociais (éticas) nascidas da luz natural da consciência (especialmente da razão). As consciências, por sua vez, unem-se pelo diálogo, formando o que se convencionou chamar de consciência social (cf. Durkheim, Hegel, Savigny e outros, embora tenham cometidos equívocos aqui e ali).

Esta consciência social (da comunidade), mesma com erros e névoas (oriundas dos erros, das mentiras, imaginação e paixões desordenadas) orienta o processo histórico-social.

Como está claro no chamado “paradoxo do advogado” (cf. Picard, explicando a importância da advogacia para a Justiça), os debates, nas lides, são formas de diálogo. O diálogo é essencial para o esclarecimento dos fatos e das idéias. Na psicanálise, exaltando as palavras e o diálogo, há a linha de Victor Frankl e de Lacan. Lacan destacou a importância do discurso (cf. bons textos do psicanalista católico, Hélio Pelegrino, em “O espelho quebrado”, 1981).

O objetivo da humanidade – como ensinaram Pascal, Maritain e milhares de bons autores– é obter o controle consciente deste processo, da história, orientando-a rumo à parusia (continuidade da criação e renovação do universo).

Citar Billot é importante, pois este Cardeal foi influenciado pelo nacionalismo (havia uma parte boa neste nacionalismo, pois o nacionalismo é bom, em harmonia com um bom Estado mundial federalista) da Ação Francesa. No entanto, mesmo sob a influência de erros de Maurras e outros, Billot soube resumir bem a teoria tradicional da Igreja sobre o poder, usando as fórmulas de Suárez. Num parêntese, apesar de seus erros grotescos, Maurras também deixou alguns textos bons sobre nacionalismo, a importância da razão e da Paidéia. No final da vida, Maurras arrependeu-se de vários erros graves, abandonou o materialismo e aproximou-se da Igreja.

A condenação da “Ação Francesa”, pela Igreja, em 1926, foi muito importante e correta, tendo o elogio de Gramsci.

A condenação deixou claro que a doutrina da Igreja está em perfeita harmonia com as linhas gerais de uma democracia verdadeira, como foi demonstrado por Maritain, Mounier e o próprio De Gaulle. A condenação abriu caminho a Herriot, e a formação da Frente Popular, pela Democracia popular, na França. 

O general De Gaulle foi um grande católico, que ofereceu dura resistência ao neoliberalismo e ao imperialismo dos EUA, tal como soube liderar a Resistência Francesa, contra o nazismo.

De Gaulle queria a extinção do FMI, da forma como foi organizado, o fim do monopólio do dólar, a extinção do Senado, a descentralização do poder, a participação obrigatória dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas e outras reformas sociais, um Estado descentralizado, uma Democracia popular, com Estado social e economia mista.

Conclusão: a consciência do povo é a parte mais importante das forças produtivas, da sociedade.

A consciência da sociedade deve reger e adequar racionalmente as relações sociais (inclusive as produtivas) e os recursos ao bem comum, ao bem de todos. A consciência do povo, e de cada pessoa, está encarnada no corpo humano.

Não temos a natureza de anjos, e sim composta, mesclada com a carne (especialmente o cortéx cerebral), o sangue os nervos e ossos, como ensina o hilemorfismo tomista e os textos hebraicos.

No fundo, somos seres espirituais ligados à matéria, ao corpo, que a alma informa, regenera, permeia, vivifica. Fomos feitos para sermos como anjos, com corpos espirituais, imortais, com as qualidades que São Tomás resumiu, como imortalidade, invulnerabilidade, permeabilidade, agilidade, luminosidade etc. 

Algumas ótimas lições de Pio IX, um grande Papa

Pio IX, em 1855, destacou quatro proposições sobre a relação entre a fé e a razão:

1ª.) “a razão e a fé procedem da mesma fonte imutável da verdade, que é Deus”;

2º.) “o raciocínio pode provar com certeza a existência de Deus, a espiritualidade da alma e o livre arbítrio”;

3º.) “o uso da razão precede a fé”; e

4º.) “a razão humana é uma certa participação da razão divina”.

Estas quatro proposições integram o núcleo da concepção jurídica e política do cristianismo, da relação entre a teologia, o direito e a política.

Como o Concílio de Trento deixou claro: o livre arbítrio humano não foi perdido e nem extinto, apenas reduzido, tal como as luzes naturais da razão. No mesmo sentido, vale a pena ler, do cardeal Pie, a “Instrução sinodal sobre a primeira constituição do Concílio do Vaticano”.

A fé complementa e acrescenta as verdades oriundas da razão, sem nunca a contrariar, pois a fé apenas acrescenta verdades supra-racionais (e nunca irracionais).

Assim, as pessoas devem se guiar pela luz da razão, assim como as sociedades devem guiar-se pela luz da razão comum, presente em todas as pessoas. Neste sentido, vale a pena ler o livro “Coscienza e politica” (Brescia, Ed. Morcelliana, 1953) do padre Luigi Sturzo (1871-1959); tal como os livros de Roussellot, Maritain, Hermann Busenbaum (1600-1668), Afonso Ligório, Haring, Marciano Vidal, Rahner e outros.

No “Syllabus”, Pio IX deixou bem claro que “as leis humanas” [positivas] devem ser “conformes ao direito natural”, aos direitos humanos naturais, ou seja, todas as normas (regras) jurídicas devem ser formuladas para atender às necessidades e aspirações humanas, do povo.

Na “Quanta cura”, encíclica que encabeça o “Syllabus”, Pio IX frisou bem que “a verdadeira noção da justiça e do direito humano” rejeita o primado da “força material”. Isto ocorre porque o verdadeiro direito é formado pelas regras e “princípios mais certos da sã razão”, ou seja, pela “lei natural, gravada pelo próprio Deus em todos os corações”, ou seja, na “reta razão”.

A “reta razão”, razão correta, é a razão informada por idéias verdadeiras, adequadas e em harmonia com a realidade.

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