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A Doutrina social da Igreja quer um socialismo cooperativista, com amplas liberdades pessoais

Um “regime justo” (ordem social justa), hoje, adquire os contornos de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

Teria uma estrutura econômica cooperativa, sendo autogestionária, com base na libertação (proibição da demissão sem justa causa, estabilidade, participação na gestão em todos os níveis e esferas etc). Estabilidade no emprego como recomenda a OIT, só podendo demitir com justa causa. 

Como destacaram Alceu e Chesterton, seria uma estrutura distributista (destinação universal dos bens, cf. Marciano Vidal), sendo este um dos pontos centrais da doutrina social da Igreja, como pode ser visto no livro de Henri Desroches, “Le Projet Coopératif” (Paris, Les Editions Ouvriéres, 1976).

Desroches menciona precursores e expoentes do cooperativismo cristão e natural: J. Bellers, Fourier, Saint-Simon, Buchez, Owen, Louis Blanc, Ketteler, Lassale, Cabet, Huber, William King, Ludlow, Charles Kingsley (1819-1875), Charles Gide (1847-1932), Alfred Sauvy (“O socialismo e a liberdade”) e Georges Lasserre (“socializar com liberdade”).

Lasserre foi professor na Faculdade de Direito de Lyon. Charles Kingsley foi um grande sacerdote anglicano, expoente do socialismo cristão, cooperativista. Outro grande anglicano foi John Frederick Denilson Maurice (1805-1872), que via o movimento socialista como uma forma de realização mais intensa do Reino de Deus na sociedade, no mundo.

Quase todos os autores referidos tinham sentimentos e idéias religiosas, especialmente Fourier (que fundamentava suas idéias no Evangelho), Buchez, Ketteler, Sangnier, Maritain e Mounier. Pio X, Pio XI, Pio XII, especialmente João XXIII e João Paulo II (na “Laborem exercens”, 1981).

Estes autores e outros expoentes da Igreja elogiaram o cooperativismo, como a melhor base econômica e política de uma sociedade. O apoio cristão ao cooperativismo é a busca de uma base econômica de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

O Padre Fernando Bastos de Ávila mostrou bem a influência cristã em Marx

O livro do padre Fernando Bastos de Ávila, “O pensamento social cristão antes de Marx” (Rio, Ed. José Olympio, 1972), lista vários expoentes do socialismo cristão, arrolando uma coletânea de textos destes autores, que escreveram antes de Marx, influenciando-o.

Em outras obras de Ávila, há a mesma tese, onde explica que a expressão “democracia social e participativa” é também conhecida como “solidarismo” ou “socialismo democrático”.

Ávila descreveu a linha que passa por Mably, Chateaubriand, Buchez, Ozanam, Ketteler, Lacordaire, Montalembert, Albert de Mun e outras estrelas da doutrina social da Igreja, que lutaram por uma democracia verdadeira, a Democracia Popular.

O ideal católico de uma Democracia popular econômica, política, cultural, educacional etc

Alceu Amoroso Lima, no livro “No limiar da idade nova” (Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1935), defendia o ideal histórico de uma “idade nova”.

Defendia um regime político e econômico que misturasse, numa boa síntese, vários movimentos e idéias cristãs.

Alceu queria uma democracia popular com base no distributismo (a destinação universal dos bens); na democracia (princípio da destinação universal do poder, que é também um bem); no sindicalismo (a organização dos trabalhadores para superar o regime assalariado, para o controle efetivo do processo produtivo pelos trabalhadores, autogestão, co-gestão); no cooperativismo (as unidades econômicas devem ter formas cooperativistas, baseadas na co-gestão, autogestão e planejamento participativo, sendo esta a linha de Buchez, Ketteler, Ozanam, Renard, Maritain e de Mounier); no solidarismo (ênfase nos direitos sociais, no bem comum); no personalismo (na defesa dos direitos da pessoa); e no dirigismo econômico (formas amplas de participação do Estado na economia, por estatais e por planificação participativa).

No fundo, estas idéias, o ideal de uma democracia popular verdadeira, estão nos textos bíblicos de Moisés e do Novo Testamento e nos “Atos dos Apóstolos” (o texto paralelo com o “Levítico” e o “Deuteronômio”).

O ponto mais importante é a tese distributista, a destinação universal dos bens, o que abarca também o poder, pois todas as pessoas devem ter participação no poder (cf. Santo Tomás de Aquino) e nos bens, que foram criados por Deus para todos.

A democracia não pode ser unicamente política, todas as relações sociais devem ser democratizadas. Como foi explicado por Michel Foucault, no livro “Microfísica do poder” (Rio, Ed. Graal, 1982), o poder do Estado é apenas o macro-poder. Há também os micro-poderes dispersos nas relações sociais e interpessoais, inclusive do cotidiano. Em todas as relações sociais, o ser humano deve ter o primado, destruindo as reificações, as opressões.

O poder está difuso na sociedade, localiza-se em cada pessoa, de uma forma saudável ou perversa. Assim, “nada mudará na sociedade se os mecanismos do poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos do Estado, a um nível mais elementar, cotidiano, não forem modificados”.

Foucault não satanizou o poder, apenas denunciou formas perversas de poder, procurando humanizar o poder público e social, pautá-lo pelos direitos humanos, pela participação, pela razão e pelo bem de todos. Neste ponto, as idéias de Foucault coincidem com as idéias da doutrina social da Igreja, com a teologia da libertação etc.

No mesmo sentido de Foucault, Pio XI ensinava que o poder deve estar espalhado, medido e a serviço do bem comum. Todos os bens cuja posse gere poder excessivo devem ser estatizados ou cooperativizados, postos sob o controle da sociedade, pois toda a sociedade deve ser pautada pelo bem comum.

Afinal, o Projeto (Reino) de Deus é ordenar (organizar, estruturar) a sociedade para “o maior bem-estar espiritual e material possível, nesta vida, graças à união e colaboração de todos” (cf. “Divini illius Magistri”, de Pio XI).

Conclusão: a Tradição da Igreja, a doutrina social da Igreja (vide textos de Pavan e Alceu, mais adiante), contém idéias que pugnam pela democratização do Estado, mas também das principais relações, especialmente das relações econômicas, das unidades de produção e de todo o processo produtivo, tal como de todos os processos decisórios que interessam aos membros da sociedade (toda sociedade deve ser uma irmandade, tendo uma estrutura fraterna, igualitária, horizontal e humanista).

A importância da democratização da economia também foi apontada por autores como Paul Singer, Ladislau Dowbor (vide “Democracia econômica”, Petrópolis, Vozes, 2008), Boaventura de Souza Santos, Maurício Tragtenberg e outros grandes autores.

O ideal cristão e humano é uma democracia real, verdadeira, popular, não-capitalista, uma democracia participativa, social, popular, cooperativa e comunitária.

Rui Barbosa e a Tradição da Igreja, em busca do ideal concreto histórico de um grande Estado social

Rui Barbosa, um dos maiores católicos do Brasil, foi candidato a Presidente do Brasil, em 1919. Pois bem, na plataforma de 1919, Rui atacou a “concepção individualista dos direitos humanos” e se declarou democrata social (nome, na época, para socialista democrático) católico.

O individualismo capitalista, núcleo do liberalismo econômico, foi criticado por autores como Adam Müller (1779-1829), Buchez, Ketteler, Ozanam, Comte, Duguit e outros grandes autores.

Rui Barbosa destacava a importância da “transformação incomensurável nas noções jurídicas”, com a expansão dos “direitos sociais”, onde “a esfera do individuo tem por limites inevitáveis, de todos os lados, a coletividade”. Esta tendência representava, para Rui, o fato que “o direito vai cedendo à moral, o indivíduo à associação, o egoísmo à solidariedade humana. Estou, senhores, com a democracia social”, a democracia social da Igreja, do Cardeal Mercier e de outros.

Rui disse, então: “aplaudo no socialismo o que ele tem de são, de benévolo, de confraternal, de pacificador”.

Disse também que o socialismo, quando busca distribuir os bens e “obstar a que se concentrem, nas mãos de poucos, somas tão enormes de capitais” “tem razão” (cf. vol. XLVI, tomo I, das “obras completas”, “Campanha presidencial” de 1919, Rio de Janeiro, Ed. MEC, 1956, p. 81).

No mesmo sentido de Rui, há os textos de Clóvis Bevílaqua (filho de um padre, padre errado, mas padre…), sobre o primado da ética sobre o direito e a importância do direito ser ético e social. O conceito de Bevílaqua sobre o direito é um conceito cristão. Em frases como “o direito” é “um processo de adaptação das ações humanas à ordem pública”, Bevílaqua adota o conceito de ordem em Santo Agostinho, a ordem é a organização da sociedade para o bem comum.

A luta por uma democracia social e popular avançada, um extenso Estado social, economia mista, democracia popular participativa, é o ideal histórico dos principais católicos e cristãos militantes, como mostram os textos de grandes estrelas do catolicismo. 

Estrelas como: Alceu, Barbosa Lima Sobrinho (dando continuidade á linha católica de Barbosa Lima, de Getúlio Vargas e outros grandes católicos), Miguel Arrais, Ariano Suassuna, Frei Betto, Betinho, Henfil, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo Freire, Paulo de Tarso Santos, Marcos Arruda, Leonardo Boff, Márcia Miranda, Clodovis Boff, Paulo Fernando C. Andrade, Paulo Bonavides (por exemplo, “Do Estado liberal ao Estado social”), padre Aloísio Guerra (“A Igreja está com o povo”, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963), João e Francisco Mangabeira, Cândido Portinari (um pouco católico, pois é nosso maior pintor de arte sacra e dos oprimidos), San Tiago Dantas, Brizola (católico no início, depois metodista, sendo que o metodismo é bem próximo do catolicismo), nossos grandes bispos e arcebispos, especialmente Dom Hélder Câmara (ver sua entrevista na revista “Veja”, em 1978, com o elogio de um “socialismo humano”).

Há a mesma linha nos melhores textos da CNBB, em Medellin, Puebla e também nos melhores textos papais, como será demonstrado neste blog, em milhares de postagens. 

A essência do Plano divino: liberdade pessoal e igualdade social

A essência do Plano divino é uma síntese entre liberdade pessoal e igualdade social.

É um Plano de libertação, a vida em plenitude, a concessão de poder divino, por participação na natureza divina, a todas as pessoas.

A estratégia de Deus é baseada na democratização da “vida eterna”, na democratização e universalização do poder (“Carta a Tito, 1,2).

O “ideal” cristão exige uma sociedade justa, estruturada para o bem comum, que compatibilize a igualdade social e a liberdade pessoal.

Estes pontos de ética política constam nos textos e nas obras de milhares e milhares de autores e personagens. Dentre estes, para ilustrar com exemplos, basta pensar em expoentes como: os textos bíblicos, os Santos Padres e doutores da Igreja, os grandes santos, São Tomás Morus, Las Casas, Francisco Vitória, Luiz de Molina, Mariana, Francisco Suárez, Bellarmino, George Calvert Baltimore (1580-1632, fundador de Maryland, em 1629), Pope, o padre Mably, o padre Raynal, o bispo Henrique Gregório (1750-1831), o bispo Fauchet, O´Connell, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, Rosmini, Balmes, Dupanloup, o bispo Doutreloux (patrono da “Escola de Liége”), Dupanloup, Ketteler, Acton, Tocqueville, Windthorst, Mercier, Mermillod, Leão XIII, Albert de Mun, Marc Sangnier, Joseph Vialatoux, Paul Archambault, Grégoire (Georges Goyau), Pottier, Toniolo, Antoine, Pesch, Luigi Sturzo, Maurice Hauriou, Maritain, Mounier, Alceu, Lubac, Lercaro, João XXIII, Dom Hélder e outros.

Detalhando mais, a linha da Igreja tem homens como o padre Jacques Roux e o bispo Gregório.

O bispo Gregório foi praticamente o primeiro a reclamar a República, na Convenção, em 1792. Foi também o principal advogado dos negros, dos escravos e dos judeus. Em 1794, foi graças principalmente a ele que a escravidão foi abolida na França.

O Círculo Social também era católico, pois era liderado por dois bispos católicos, o Bispo Claude Fauchet e o bispo Nicholas Bonneville. 

Outro grande Cardeal democrático foi o bispo Gibbons, de Baltimore, que presidiu os concílios católicos nacionais, nos EUA, em 1852, 1866 e 1884.

Todas as pessoas devem ter parte no Estado, na organização da sociedade, para assegurar a todos a felicidade temporal

A autoridade (os agentes públicos e as estruturas estatais e sociais) deve espelhar a ação de Deus, sendo como que um representante da ação divina e dos interesses do povo, sempre em movimento em prol do bem comum.

No final da encíclica “Notre Charge”, Pio X destacou que “Nós desejamos vivamente que” os leigos e homens de bem “tomem parte ativa na organização da sociedade”, para (como “fim”) tornar “acessível” a todos “a felicidade temporal”.

Assim, Pio X concluiu: todas “as engrenagens sociais deveriam estar organizadas de tal forma” que gerem o bem comum e “paralisassem os esforços dos maus”. Todas as estruturas estatais devem promoverem e defenderem o bem comum, devem regenerar e recuperar os maus, livrando as pessoas da maldade, das opressões, da iniquidade.

Pio XI, na encíclica “Ubi arcano” (23.12.1922), também ensinou que o cristianismo (como o judaísmo, antes, e também o melhor da Paidéia) prega “o culto do direito”, pois “a fonte do direito” (e da “autoridade” legítima) vem de Deus, pela mediação da consciência (cf. São Paulo, no início da “Carta aos Romanos”, no capítulo 2).

O “sujeito da autoridade política é o povo”, como destacaram Pio XII e João Paulo II.

A Igreja não tem uma fórmula pronta, pois sabe que a fórmula correta é a sabedoria do povo (dos leigos, especialmente), que deve irradiar-se por toda a sociedade, por todo o Estado. A Igreja tem apenas princípios, ideias gerais. Está certo o brocardo latino que ensina que “a sabedoria civil” (do povo) é “coisa santíssima” (“est quidem res sanctissima civilis sapientia”).

Conclusão: como ensinou o então Cardeal Ratzinger (hoje, Bento XVI), no livro “O sal da terra” (Rio, Ed. Imago, 2005, p. 112 e 114), “existem diferentes escolas políticas no catolicismo” (liberdade política), o que importa é que “os cristãos, em todos os partidos, atuem de acordo uns com os outros, de modo transversal”, “no que diz respeito às questões éticas essenciais da política, a partir da sua responsabilidade comum” pelo bem comum.

Resumindo – nenhum cristão (católico) deve apoiar a privatização de tudo (liberalismo) e nem a estatização de tudo (coletivismo), pois o correto é um meio termo, difusão de bens pequenos e médios para todos, patrimônio estatal amplo, estatais, cooperativas, economia mista, ponto bem explicado por Liberatore, Pesch, Ketteler, Antoine, Toniolo, Buchez e outras estrelas da Igreja. 

Afinal, “Deus é amor” (cf. I Jo 4,16), o Ser que tem com Plano o Bem comum (em inglês, “good”, bom”, decorre de “God”, “Deus”).

Santo Ozanam – o socialismo tem origens cristãs, tradições cristãs, dando apenas novos nomes para as antigas virtudes, regras

Os profetas, Cristo, os Apóstolos, os Mártires, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Las Casas (autor do livro “Destruição das Índias”, 1552, em defesa dos indígenas), Suárez, Bellarmino, Pope, Mably, Montesquieu, Acton, Tocqueville, Ozanam, Lamennais, O´Connel, Lacordaire, Buchez, Ketteler, o Cardeal Charles Lavigerie (18235-1892, arcebispo de Cartago e Primaz da África), Chesterton (1874-1936), Simone Weil, Marc Sangnier (1873-1950), Maritain, Mounier, os artigos e a linha da revista “Espírito” (“Esprit”) Lebret, Fessard (cf. “Autoridade e bem comum”, 1944) e outros tinham o mesmo ideal de liberdade, fraternidade e igualdade para todos (o ideal cristão de Morgan, autor que Marx apreciava).

Como explicaram Leão XIII, Pio XII, João XXIII e Paulo VI, o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade é o ideal cristão, católico, que os maçons apenas adotaram, pois a maior parte da maçonaria é cristã, sendo apenas uma pequena parte anticlerical (e esta parte diminui, ano a ano). 

O ideal de um socialismo (socialização) com liberdade (com personalização), um amplo Estado social, democracia popular participativa, economia mista, controles amplos e públicos sobre a economia etc. 

Em 1848, a linha mais brilhante da doutrina social da Igreja foi explicitada inclusive em discursos e atos de Pio IX.

O próprio Marx reconheceu que Pio IX e a Igreja atuaram de forma positiva nos movimentos de 1848.

No mesmo sentido, Ozanam, em carta de 22.02.1848, escrevia: “julgo ver o Soberano Pontífice consumar o nosso anseio de vinte anos [desde 1828]: passar para o lado dos bárbaros, isto é, do campo dos reis e dos homens de Estado de 1815 para se encaminhar ao povo”.

Ozanam escreveu um ensaio com o título “As origens do socialismo”, onde ressaltou que a maior parte dos socialistas fundamentava suas idéias em “tradições cristãs”, “cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes”.

Por isso, Ozanam, que foi canonizado pela Igreja, dizia: “não desconhecemos a generosidade” dos socialistas e, tal como Ketteler, queria “proceder à triagem”, pois “as antigas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade” eram “nossas”, sendo o fundo da tradição cristã.

O ponto essencial da ética, na visão de Ozanam (e dos vicentinos, da Teologia da libertação e da doutrina social, tal como da lei natural), era “promover a abolição do pauperismo”, “advogar a causa dos operários” e “procurar para os homens a maior felicidade terrestre”.

Em resumo: o “anarquismo” cristão do padre Ivan Illich (tal como o anarquismo profundamente cristão do jovem Bakunin, em seus primeiros textos; ou o de Tolstoi) tinha a mesma fundamentação que o distributismo democrático de Alceu e Chesterton, baseado no “reino da liberdade”, do “amor”.

O poder – como qualquer outro bem – deve ser difundido, democratizado, generalizado.

O Estado deve ser ampliado, tendo cada pessoa um pedaço do espaço público, uma cota do bem comum, dos bens comuns a todos. Uma ampla base pública, com distributismo, com setor de pequenas e médias propriedades privadas, principalmente moradias populares de ótima qualidade. 

É esta a doutrina cristã sobre os bens, inclusive o poder. O mesmo vale para o prazer, a felicidade, a cultura, o saber, as informações, o conhecimento etc. Tudo deve ser difundido, sem excluir ninguém, sem monopólio que prive outros. 

Por isso, o próprio Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (1917), reconhecia “o espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”.

Vários anarquistas apontaram corretamente a necessidade de difusão do poder, como pode ser visto nos textos de Proudhon, Tolstoi e outros.

Ainda mais – Bakunin, Proudhon e Tolstoi não eram contra o Estado em si, e com contra a figura do Estado liberal ou absolutista da época, queriam, na verdade, um Estado, uma organização da sociedade, debaixo para cima, como deve ser. O mesmo recomendou Marx, num livro sobre a Comuna de Paris. Eu li os melhores de Bakunin e atesto isso.

Vou por no blog uma parte relevante dos textos de Bakunin sobre o Estado, direito das pessoas a pequenos bens etc. 

A formação histórica da “Rerum Novarum”, por Dom João E. Martins Terra

Colhi no texto num ensaio de Dom João Martins Evangelista Terra –

“A encíclica Rerum Novarum tem uma longa pré-história. Durante todo seu pontificado. Leão Xlll já vinha alimentando a ideia de promulgar um documento que tratasse exaustivamente da questão social que desafiava dramaticamente a civilização ocidental.

Para a preparação, o Papa chegou a criar uma comissão confidencial liberada pelo Pe. Matteo Liberatore e o Cardeal Mermillod com os integrantes de sua “União de Friburgo”. O Cardeal IDomenico Tardini descobriu nos arquivos da Secretaria de Estado do Vaticano, entre alguns escritos do latinista Volpini, os rascunhos da Rerum Novarum.

O primeiro rascunho foi redigido pelo jesuíta Liberatore, em 5 de julho de 1890. São trinta páginas. Em setembro do mesmo ano, o Cardeal Zigliara fez um segundo rascunho mais amplo de sessenta e oito páginas.

O texto de Zigliara, inspirado no texto primitivo de Liberatore, foi por sua vez revisto e corrigido por Liberatore e por fim pelo próprio Leão XIII. No texto se percebiam tendências diversas.

A redação de Zigliara era mais acadêmica e doutrinal. redação de Liberatore, que por mais de quarenta anos escreveu sobre questões sociais na revista Civiltà Catlolica, era mais aberta aos problemas e exigências de seu tempo. A Encíclica não se escreveu rapidamente. Foram consultados numerosos teólogos e especialistas em questões sociais, inclusive D. Ketteler [erro de Dom João, pois Ketteler faleceu em 1877, influenciou a encíclica com seus textos, não com a presença na redação] e De Mun.

Os textos estão cheios de correções. O Papa releu-o inúmeras vezes. Corrigia e acrescentava. As margens estão repletas de alterações. Leão XIII conversou longamente com o sociólogo TonioloSubmeteu-lhe o texto provisório da Encíclica.

A elaboração foi lenta e laboriosa através de múltiplas redações italianas e latinas. Durante um ano toda uma equipe de filósofos, sociólogos, teólogos, filólogos, trabalhou sob a orientação de Leão XIII.

Liberatore fez a última revisão do texto italiano. Os latinistas Volpini e Boccali traduziram o texto para o latim. Volpini anota no manuscrito: “Redação latina, feita sobre o esquema Zigliare-Liberatore, posto em ordem e modificado por Boccali, 21 de abril de 1891″.

Assim, no dia 15 de maio de 1891, foi promulgada a Encíclica sobre as condições dos operários. A Rerum Novarum, Carta Magna da ação social católica, é a resposta serena e objetiva de Leão XIII aos desafios do seu tempo”.

Destinação universal dos bens e controle pelos trabalhadores do processo produtivo, linhas gerais da Doutrina social da Igreja

Albert Mun – tal como Étienne Lamy ou Jacques Piou – destacava corretamente a boa linha doutrinária da Igreja, no século XIX, ao escrever: “muitas de nossas idéias estão em germe em Lamennais, Montalembert, Lacordaire e a escola de Buchez”.

O mesmo foi dito, alguns anos depois, por Marc Sangnier, no livro “Reformadores sociais” (1932).

A “Rerum novarum” (15.05.1891) apenas chancelou algumas idéias bem mais antigas, condensadas e expostas por Buchez, Lamennais, Lacordaire, Montalembert, Ozanam, Ketteler, a União de Friburgo, De Mun, a Escola de Liège, Péguy, Mounier e outras boas correntes, precursoras da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja.

As idéias de Buchez e de Ozanam podem ser resumidas no ideal de uma “democracia participativa e social”, um grande Estado social, economia mista. Este ideal concreto está nas entranhas da “doutrina social da Igreja” e na teologia da libertação.

De fato, há como que uma linha solar e brilhante entre os textos bíblicos, da Paidéia, dos Santos Padres, da escolástica, de Santo Tomás Morus, Vives, Gil Vicente, Montaigne, Las Casas, Vitória, Suárez, Bellarmino, Vieira, Montesquieu, Mably e os políticos latino-americanos que participaram do movimento de independência de seus países.

Esta linha é a mesma de Manzoni, Daniel O´Connell, Tocqueville, Ozanam, Buchez, Balmes, Ketteler, Toniolo, Georges Goyau (um grande apóstolo), Antônio Pottier (1849-1923), Marc Sangnier e os grandes românticos.

— Updated: 21/05/2018 — Total visits: 27,426 — Last 24 hours: 70 — On-line: 0
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