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Foram alguns católicos, como Thierry, que descobriram o papel das classes sociais, que Marx apenas refinou

O movimento histórico da democracia emergindo na história foi descrito parcialmente nos livros de Thierry, de Guizot e de outros historiadores românticos.

A concepção da luta dos camponeses, artesãos e pequenos burgueses contra a nobreza, movimento democrático, foi a base explicativa dos conflitos medievais e mesmo da Revolução Francesa. O principal historiador foi o católico Jacques Nicolas Augustin Thierry (1795-1856).

Therry foi um historiador francês católico.

O católico Thierry foi considerado, por Marx e Engels (cf. consta no livro “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã”), como um dos principais descobridores do papel das classes sociais na história. Este grande historiador católico soube descrever parcialmente o movimento histórico de democratização universal, referido mais tarde por Leão XIII, Antoine, Maritain e Alceu Amoroso Lima.

No mesmo sentido, o grande padre Congar escreveu, nos “Jalons”:

A influência das idéias que alimentaram o movimento das comunas foi sentido na Igreja no século XIII, particularmente nas constituições dos dominicanos, imitadas em seguida por outras ordens; conjugada com a influência das idéias políticas da Escolástica sobre a natureza e a origem do poder, ela se exerceu sobre a constituição inglesa e, mais remotamente, até sobre a americana. As democracias nem sempre conhecem a sua verdadeira ascendência” [as fontes, ascendentes, origens católicas…].

No livro “Cartas sobre a história da França” (1827), o católico Thierry elogiou o movimento das comunas, na Idade Média, especialmente a partir do século XI, como o ressurgimento das antigas tradições gaulesas de liberdade. O feudalismo, para Thierry, foi trazido pelos francos. Os nobres latifundiários seriam os descendentes das famílias francas, invasoras e imperialistas. A mesma explicação foi aplicada à invasão dos normandos, na Inglaterra. Os “nobres” eram oligarcas, que queriam a escravização do povo, concepção que também está presente nos melhores textos de Sismondi. E, daí, para Marx, que as consolidou e refinou. 

O núcleo central, a alma, da concepção histórica de Thierry é a superação do feudalismo (da oligarquia) com o ressurgimento da democracia, na França. Em Portugal, Alexandre Herculano descreveu a história de seu país, seguindo os passos de Thierry. Os textos de Herculano eram católicos. O atrito de Herculano com parte do clero teve mais causas passionais do que diferenças de conteúdo. Parte do clero era mesmo reacionário e o grande Herculano era bem intratável e ainda por cima recluso e fechado (terminou a vida na sua quinta, chamada “O vale dos Lobos”, tipo um lobo solitário, se bem que os lobos não são solitários, as matilhas são regidas por casais de lobos…).

Segundo Thierry, a França gaulesa (a antiga Gália, que combatia os romanos), que falava a língua gaulesa (que gerou, até hoje, o irlandês, o gaélico escocês, o manx, o gaulês e o bretão) teria sido democrática. O feudalismo seria algo externo, uma herança e imposição brutal dos francos. Os nobres, a nobreza, seria composta de descendentes dos francos, o principal povo germânico, que ao ocupar a França adotou a língua latina que já estava difundida, por conta das invasões romanas, desde Júlio César.

As famílias francas seriam o tronco da nobreza, dos latifundiários e não passariam de imperialistas (como se fossem as multinacionais, hoje, no Brasil), invasores e parasitas do povo comum, descendente dos gauleses.

Os gauleses de Asterix são os heróis de Thierry.

Engels também elogiava os gauleses e os celtas, dispersos no País de Gales, na Irlanda e outras regiões. O elogio tinha bom fundamento histórico e talvez também tenha sido influência da esposa irlandesa e mui católica de Engels, que o levou inclusive a redigir um manuscrito sobre a história da Irlanda.

Para Marx e Engels, Thierry expôs o “segredo de toda a luta política, neste país”, na França, pois redigiu a história da França com base no conflito entre a aristocracia latifundiária e o povo.

O povo francês seria o “bloco” (na terminologia de Gramsci) dos trabalhadores, artesãos, pequenos burgueses e camponeses. Nos melhores textos da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja este mesmo bloco é apontado como a parte sadia e boa da economia, sendo a oligarquia (latifundiários, grandes capitalistas e grandes fortunas privadas…) a parte maligna, que deve ser erradicada, para erradicarmos a miséria.

Thierry é citado desde as primeiras cartas entre Marx e Engels (por exemplo, em 09.03.1847). Nos livros de François Mignet, Guizot, Mignet e em outros há a mesma linha historiográfica. Foram estes autores cristãos (quase todos católicos) que influenciaram Karl Marx na idéia da luta de classes como motor e explicação da história. No fundo, na parte boa da idéia, é a luta do povo por liberdade e justiça social, pelo bem comum. A origem da parte boa da teoria da luta de classes é católica.

Na carta a Engels, de 27.07.1854, Marx chama Thierry de “pai da luta de classes na historiografia francesa” e elogia o livro “Ensaio sobre a história da formação e dos progressos do terceiro estado”.

Thierry foi um dos expoentes do romantismo católico. Thierry defendia que a Idade Média era o berço das liberdades e do governo representativo. Os germes da democracia tinham sido abafados pelo absolutismo monárquico a partir dos séculos XVI e XVII, tendo o absolutismo atingido o auge no século XVIII. Então, ocorreu a crise da revolução francesa.

A crise, como ensinavam livros médicos ligados a Hipócrates, gera a saúde, pelo movimento pendular destacado por Alceu Amoroso Lima. Marx também lia com cuidado os textos de François Guizot, mas não o elogiava, pois este o expulsou da França, em 1844 e sempre sobra alguma amargura, especialmente quando gerada por uma injustiça. E Guizot teve muitas falhas mesmo, estando o velho Marx correto, em não gostar do sujeito

De fato, na Idade Média existiram governos representativos (ponto destacado por Chateaubriand, no livro “O gênio do cristianismo”), com elementos da democracia. Para demonstrar isso, basta considerar os governos das comunas.

O movimento das comunas foi sempre elogiado como movimento revolucionário, como está bem claro nos textos de Kropotkin, Bakunin, Reclus, Proudhon e de outros autores. A Igreja participou intensamente deste movimento anti-feudal, anti-oligárquico, contra a tirania.

A aclamação dos reis era considerada uma parte intrínseca e um pressuposto da cerimônia da coroação dos reis. Mesmo nas cerimônias de coroação existia o reconhecimento implícito da necessidade do consentimento da sociedade na escolha dos agentes públicos, da forma do Estado e na produção das leis. No próprio juramento de Dom Pedro I, no Brasil, há a fórmula “Eu, Pedro I, por graça de Deus e unânime aclamação dos povos”. Só depois do juramento (de “observar e fazer observar constitucionalmente as leis”) havia a coroação e a entrega do cetro.

O padre Michel Riquet, no livro “Os cristãos e o poder (Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1950) transcreveu o conselho do rei São Luís a seu filho:

“Meu filho, peço-te que te faças amar pelo povo de teu reino; porque, em verdade, preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o povo do reino bem e lealmente a ver-te governá-lo mal” [cf. Joinville, “Histoire de Saint Louis”, Ed. Wally, Paris, 1890, n° 21].

O amor (logo, o consentimento) do povo e o bom governo (com base no bem comum) é a base real da legitimidade do poder, é o que torna justo o poder. O que há de comum entre vários reis religiosos (São Luís, Santa Isabel, São Venceslau, Alfredo e outros) é o fato de ajudarem os pobres, buscarem erradicar (extinguir) a miséria física, econômica, moral e intelectual do povo. Este é o papel do Estado, que se torna bom ao se pautar pelo bem comum, pelas idéias da ética cristã e natural.

Conclusão: os textos de Thierry e da maior parte dos historiadores românticos e cristãos do século XIX descreveram o movimento histórico de democratização, em prol da soberania nacional e popular, que exige o fim das classes opressoras, das opressões sociais. Exige a instauração cada vez mais ampliada e profunda do bem comum.

Os melhores textos históricos de Marx também seguem esta linha histórica, identificada com o iluminismo e o romantismo. Trata-se, no fundo, de um movimento providencial e divino contra as opressões, fazendo parte do núcleo (do coração) do processo histórico.

Hegel (e Eduardo Gans) também adotou esta teoria histórica, com base teleológica (que Gramsci valorizava, diga-se de passagem), uma teoria que ressalta uma linha histórica e providencial no núcleo do processo histórico (os Santos Padres chamam esta ação de ação da Providência, do Amor).

Thierry e Hegel, tal como Saint-Simon, redigiram textos com boas bases cristãs, principalmente católicas, e estas bases estão presentes nas melhores idéias do marxismo. São alguns dos “elementos de verdade” presentes no marxismo, como ressaltou João Paulo II, a parte boa, do trigo, que devemos preservar inclusive porque tem origem cristã, hebraica e no melhor da Paidéia.

A boa lição de Alceu de defesa da Democracia popular, socialismo democrático, trabalhismo

Alceu Amoroso Lima, o maior leigo católico do Brasil, num artigo com o título “A democracia social” (em 21.10.1962), com boa visão histórica, defendia as “reformas de base” [esposadas pelo grande presidente católico, João Goulart.

João Goulart talvez tenha sido o Presidente que mais citou textos de papas, especialmente de João XXIII.

João Goulart, em seus discursos, fundamentava estes projetos nos textos de João XXIII]. Segundo Alceu, os projetos de reforma social de Goulart visavam consolidar “a democracia social, na linha de nossa autêntica tradição histórica”, de democracia com fundamentação popular e cristã.

Em obras posteriores, Alceu demonstrou claramente que as idéias cristãs exigem, como ideal histórico atual, uma forma de socialismo humanista (era também o ideal de Pontes de Miranda, católico, pouco antes de morrer).

Na terminologia atual, a democracia social e popular poder ser chamada, também de “um socialismo participativo” e “humanista”, para usar os termos de Marciano Vidal, talvez o maior teólogo ético da Igreja, nos anos 70, 80 e 90 do século XX, sendo ainda atual.

A preocupação com a liberdade individual (pessoal, personalização) é correta e necessária, desde que numa síntese com o bem comum, com a socialização.

Esta preocupação foi compartilhada por pensadores como Bielinski, que também tinha em alta conta o “destino do sujeito, do indivíduo, da pessoa” (de cada pessoa), sendo este um ponto essencial num socialismo. Isto fica claro nos melhores textos de Jean Jaures, Karl Kautsky, Bernstein e outros. 

No mesmo sentido, há bons textos de Herzen, Tolstoi, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Ibsen, Oscar Wilde, Anatole France, Zola e outros.

Estes textos de apologia da liberdade pessoal (nos limites da razão, e em boa síntese com o bem comum), redigidos por estes grandes pensadores, somente demonstram o poder da difusão de boas verdades, pois a Igreja também considera a liberdade pessoal racional (nos limites do bem comum e em síntese com este) como algo essencial, bom e querido por Deus.

Norberto Bobbio mostra as origens medievais católicas das ideias democráticas

Norberto Bobbio e Nicola Matteucci, no “Dicionário de política ” (5ª edição, Brasília, Ed. UnB/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2.000, p. 281), no verbete sobre “contratualismo” aponta as origens medieval da democracia, na Europa:

“As teses dos pensadores da tardia Idade Média, como as de Marsílio de Pádua (1275-1342), Ockam (1290-1349), Bartolomeu de Sassoferrato (1317-1357), Nicolau de Cusa (1401-1464), reproduzirão temas do século XI (Manegoldo de Lautenbach) e do século XII (John de Salisbury) e não estarão muito longe do que defenderiam os monarcômacos protestantes, como G. Buchanan (1506-1582), F. Hotman (1523-1590), o autor anônimo (talvez Ph. Duplessis-Mornay) de Vindictae contra tyrannos (1579), John Milton (1608-1674), ou os teólogos da Segunda Escolástica, como L. de Molina (1535-1600), R. Bellarmino (1542-1621), Juan de Mariana (1536-1624) e F. Suárez (1548-1617)”.

Bobbio destacou bem: Manegoldo e John de Salisbury, dois grandes católicos, nos séculos XI e XII, deram continuidade à linha do Império Romano já cristão, que incorporou a Paidéia grega (cf. lição de Werner Jaeger). Depois, houve Marsílio de Pádua, Bartolomeu de Sassoferrato e autores como Jerônimo Vida, que escreveu o livro “De optimo statu reipublicae”, em 1550, com o personagem porta-voz: o cardeal Flaminius. Tudo isso foi registrado na “Carta Magna”, um documento católico, feito quando a Inglaterra era católica, em 1215. 

Bobbio não soube analisar Santo Tomás e Egídio Romano e se o fizesse veria que estes autores trabalham com as mesmas fontes que um Marsílio de Pádua.

Depois, houve a “Segunda Escolástica”, baseada justamente nos textos de Santo Tomás e que foram ressaltados pela Escola de Salamanca e pelo Cardeal Cajetano. Esta linha foi ampliada nos textos de Molina, Bellarmino, Mariana, Suárez e outros monarcómacos católicos.

Os textos de Salamanca (Francisco de Vitória, Las Casas, Domingos Soto e outros), tal como da Segunda Escolástica, são a base do movimento dos “monarcômacos” católicos, tendo como expoentes Salomonius, Fickler, Jean Boucher (prior da Sorbona), Roussaeus, Mariana, Luís Dorleans e outros.

Os monarcómacos protestantes (especialmente François Hotman, Du Plassis, Mornay, Buchanan, Danaeus e outros) seguem a linha bíblica e do melhor da escolástica, utilizando inclusive, como os monarcómacos católicos, as melhores tradições germânicas e gaulesas, pois estes povos antigos tinham formas de governos representativos, como destacou Tácito e mesmo Júlio César.

François Hotman (1524-1590), um dos melhores monarcómacos protestantes, no livro “Franco-Gallia” (Genebra, 1573), expôs a teoria da soberania do povo ou da nação com base nas antigas tradições históricas francesas e sua obra foi elogiadíssima pelo grande historiador católico Thierry, a quem Karl Marx chamou de “pai da luta de classes”.

Os monarcómacos usavam os termos “contrato”, “pacto etc, adotando explicitamente a teoria do contrato, do consentimento (do consenso ou diálogo, como origem do poder) como base da sociedade e do Estado. Buchanan usa a expressão “um pacto mútuo entre o rei e os cidadãos” como uma das leis fundamentais e, por isso, o rei, ao tomar posse no cargo, fazia o juramento de respeitar as liberdades e as leis fundamentais, ficando, assim, sujeito à lei.

Outro marco importantíssimo que Bobbio e Matteucci não examinou bastante foram os textos de Johannes Althusius (1557-1638). Althusius seguia a Bíblia e o melhor do pensamento escolástico, como pode ser visto em seu livro “Política” (1603), onde adota explicitamente as teses escolásticas.

Althussius é o principal teórico do federalismo, superando Proudhon, e seus textos são ainda atualíssimos. Uma das principais fontes de inspiração de Althussius foi o livro “Digesto” e o direito romano recolhido pela Igreja. O “Digesto” é um documento católico, feito por Justiniano, um imperador católico-ortodoxo.

A opinião de Bobbio e de Matteucci é a mesma do jurista italiano, Gaetano Mosca (1858-1941). Também é a mesma de B. Bouthoul, exposta no livro “História das doutrinas políticas” (Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1958), com um bom prefácio de Milton Campos. Esta opinião era ainda compartilhada por expoentes como Bakunin, Trotski e outros, como veremos em outras postagens, neste blog.

Mosca ensinou que a democracia é o regime que permite a renovação e a circulação das “elites” éticas e intelectuais.

No mesmo sentido, Hannah Arendt, na conclusão de seu livro “Origens do totalitarismo” (1951), lembrou que “os grandes homens da Revolução Francesa” acreditavam “num consenso universal do qual o homem seja uma parte, e cujas leis naturais” ele teria que “imitam e a elas conformar-se”.

A idéia de imitação da natureza e de Deus (no fundo, de lei natural) é essencial na teoria estética, ética e política de Aristóteles e é plenamente respaldada pela idéia bíblica do homem criado à imagem e semelhança de Deus, a quem cabe imitar, seguir etc.

Conclusão: a genealogia ou árvore hereditária da democracia é formada por idéias naturais, hebraicas e da Paidéia (especialmente as idéias gregas), que foram fundidas nos textos católicos dos Santos Padres, na escolástica, na Carta Magna e dali fluíram mais tarde, para autores como Savonarola, Santo Tomás Morus, Suárez, Bellarmino e Locke. Mais tarde, houve as correntes neoclássicas, Montesquieu, Mably, Morelly, Rousseau e outros, quase todas católicas. Estas foram as correntes de idéias que geraram o padre Condillac, o iluminismo escocês, Thomas Jefferson, John Adams, os Jacobinos, os textos do padre Sieyés e outros. As raízes culturais de todo este movimento estão na Bíblia e nos melhores textos gregos (na Paidéia grego-romana), tal como em idéias racionais e naturais.

Como deve ser a Sociedade do futuro, liberdade e justiça, autonomia pessoal com organização social, boa síntese

Foi com base nas idéias bíblicas e também da Paidéia grega que Engels definiu a liberdade como “o domínio sobre nós mesmos e sobre o mundo exterior, fundado no conhecimento das leis necessárias da natureza” (“Anti-Dühring”, T. I), um conceito já ensinado pelos Santos Padres, por Santo Tomás ou Santo Inácio de Loyola.

Engels também escreveu:

“os homens fazem, eles mesmos, a sua história, mas até hoje, …, não o fazem com uma vontade de conjunto nem segundo um plano geral. Suas aspirações entrecruzam-se e é precisamente por isto que em todas as sociedades desse tipo reina a necessidade, da qual o acaso é o complemento e a forma sob que se manifesta” e “são os homens, pelo contrário, que fazem eles mesmos sua história, mas num meio dado que a condiciona, à base de condições reais prévias”.

O mesmo Engels, em fevereiro de 1873, escreveu um ensaio com o título “Da autoridade” (publicado em 1874, no conflito com os anarquistas), onde usou imagens (a imagem do barco em alto mar etc) e argumentos que De Maistre e Aristóteles usavam para justificar a autoridade, o Estado, a intervenção do Estado.

Para Engels, uma sociedade do futuro teria amplas liberdades e boa organização social, com estruturas públicas, com funções públicas, funções estatais, da sociedade organizada, de estratos da organização da sociedade. 

Engels elogiou corretamente a autoridade ressaltando a ligação desta ideia com a de organização (“ação combinada”, “coordenada”) da liberdade.

Engels, sobre o Estado, acrescenta que “certa autoridade, delegada como queira”, e “certa subordinação”, é imprescindível e que “a autoridade e a autonomia são coisas relativas, cujas esferas variam nas diferentes fases do desenvolvimento social”.

A “organização do futuro restringirá a autonomia até o limite estrito em que a façam inevitável as condições da produção”, ou seja, alguma forma de economia mista. Assim, “as funções públicas” serão transformadas em “simples funções administrativas chamadas a velar pelos verdadeiros interesses sociais”. Estas e outras idéias não são “marxistas”, e sim reflexos de boas e antigas verdades presentes e recepcionadas na consciência e nos textos de Marx e Engels.

Lembro que Stalin também deixou textos, no final da vida, sobre as funções do Estado que permaneceriam, numa sociedade futura.

Destaco que mesmo Bakunin e Proudhon, em suas obras, pouco lidas, esboçaram as linhas gerais de uma República, com amplo campesinato organizado livremente em cooperativas, artesões e pequenos produtores autônomos, tal como patrimônios públicos, abertos a todos (no fundo, o modelo das “Leis”, de Platão, de Moisés, de Mably, a fórmula da Igreja, do melhor da Tradição Hebraica-Semita e da Paideia). Em outros termos, uma economia mista, com eleições etc.

Bakunin chega a falar em penas leves, de pequena duração, para crimes.E fala de expulsão da sociedade, do que não aceita padrões mínimos de conduta social. O desconhecimento dos textos anarquistas é que leva a erros.

Bakunin e Proudhon, como mostrarei em outras postagens, queriam uma economia mista e há textos de Marx no mesmo sentido.

Marx mostra claramente como o capitalismo suprime a propriedade baseada na pequena produção, no trabalho próprio, e diz que numa sociedade futura, esta propriedade individual seria restabelecida (e não apenas para objetos de consumo, friso, pois isso foi uma interpretação restritiva, errada, dos melhores textos de Marx). 

Em outros textos, Marx e Engels analisam quais as funções estatais atuais serão mantidas e destacaram a importância da sociedade controlar o Estado. Nestes e em outros pontos, estavam corretos e desenvolviam idéias pré-existentes, no socialismo cristão pré-marxista, no cartismo etc.

Um bom Estado social ampliado, uma boa economia mista, erradicação das grandes fortunas privadas, erradicação da miséria, renda estatal para todos, aumento dos cargos públicos, da função social dos direitos individuais, democracia participativa-popular, distributismo (todos devem ter bens suficientes para uma vida digna, moradia etc). São estas as boas fórmulas da Tradição e da Igreja, e do melhor do pensamento socialista. 

Bakunin achava que a teoria jusnaturalista da Igreja é a teoria mais antiga sobre democracia, a mais tradicional

Mikhail Bakunin, no livro “Estatismo e anarquia” (São Paulo, Editora Imaginário, 2003, pp. 154-155), também ensinou que o jusnaturalismo democrático é a mais antiga das teorias democráticas, tendo sido defendida por Santo Tomás de Aquino, Suárez e milhares de outros autores.

O padre Juan de Mariana (1537-1624) foi um destes jesuítas. Mariana escreveu obras como “Historia general de Espana” e “De rege et regis institutione” (1599), onde chegou a defender o tiranicídio, na linha de Cícero. Num parêntese, a Igreja, tal como o marxismo, nunca viu com bons olhos o tiranicídio, mas sempre defendeu o direito de revolução do povo, com preferência para métodos pacíficos de resistência e pressão (cf. a boa lição de Daniel O´Connel). O direito do povo à revolução faz parte do “Catecismo do Vaticano”, está expressamente nos textos dedicados pelo Vaticano para o ensino do cristianismo mesmo às criancinhas.

O texto de Bakunin sobre a relação entre a democracia e o jusnaturalismo no processo histórico é claro e vale à pena transcrevê-lo, como abonação valiosa:

“A tese contratualista é velha. O que há de novo é a sedutora apresentação de um material que já se cuidava de todo gasto com o emprego que dele fizeram os grandes reformistas da ciência política, desde Althusius a Locke, e que voltou, de repente, à tela de debate, conduzido pelo gênio de Rousseau, para cavar assim o alicerce às agitações mais graves que abalaram o prestígio da autoridade régia. Contratualista foi o Santo Tomás de Aquino na Idade Média. Contratualistas precursores foram também os teólogos da Reforma, os monarcômanos calvinistas como Languet e Althusius, os doutos jesuítas da reação romana, como Suárez e Mariana, que, saindo das hostes de Loiola, vieram da Espanha acometer numa guerra sem quartel a vasta heresia de Lutero e Calvino. Contratualistas maduros de teses já secularizadas são ainda, na história do pensamento político, Hobbes, depondo no monarca a soberania, que o consentimento popular legitimou em termos de alienação irreversível, e Locke, lançando ao poder político as bases contratuais que salvaguardam em cada ente humano a sagrada esfera dos três direitos capitais e inalienáveis: a vida, a liberdade e a propriedade. Como se vê, há predecessores ilustres, dos mais afamados canonistas da cristandade ortodoxa e da cristandade dissidente até aos mais expressivos pensadores de uma ciência política já emancipada de laços religiosos que se ocupam com a problemática contratualista, tirando do esforço racional de conceber a origem e a justificação do poder político todas as amplas conseqüências doutrinárias que a tese comporta. Entra assim Rousseau num tema aparentemente esgotado. Atrás de Rousseau, estão também os filósofos da Escola do Direito Natural e das Gentes, toda essa plêiade de pensadores e juristas que abrangem nomes como os de Grotius, Pufendorf, Tomasius, Barbeyrac, Burlamaqui e Vattel, empenhados em arrancar da razão pura a explicação do Estado e do Direito”.

O esboço histórico está quase todo correto, embora seja incompleto. Bakunin ensinou corretamente que o jusnaturalismo contratualista (“a tese contratualista”, da consensualidade), nascido do “esforço racional de conceber a origem e a justificação do poder político”, é a principal teoria democrática, a mais antiga.

A teoria jusnaturalista está presente na Bíblia e nos melhores textos da Paidéia, tendo sido também acolhida pelos “canonistas da cristandade ortodoxa”, por Santo Tomás de Aquino, Vitória, Azpicueta, Molina, Mariana (“De Regno et regis institutione”),Soto, Alfonso de Castro, Suárez, Mariana, Althusius (1610), Grotius (1625), Pufendorf, Tomasius, Locke, Burlamaqui, Languet e por outros exponentes. Houve também homens como Etienne de la Boétie (1530-1563), autor do livro “Discurso da servidão voluntária” (1548) e seu amigo Michel Montaigne, que deixaram textos importantíssimos para a ampliação da democracia. Todos estes autores tinham princípios religiosos e quase todos eram católicos.

Até Bakunin viu que o jusnaturalismo católico foi a corrente principal da democracia, na história

Bakunin constatou uma bela verdade: o jusnaturalismo (hebraico, socrático, platônico e aristotélico-estóico) foi a corrente teórica principal do movimento democrático, no processo histórico. Este jusnaturalismo foi chamado por Schumpeter de “teoria clássica” da democracia e tem, em seu núcleo, uma concepção positiva sobre a razão e liberdade, como fontes de regras racionais, consensuais, sociais para a proteção, conservação e promoção do bem comum.

Esta noção positiva da liberdade estava bem presente nos textos de Bakunin. Este grande anarquista adotou o anarquismo quando era jovem e cristão, deixando bons textos religiosos, os textos do jovem Bakunin. O livro de H. Arvon, “Bakounine. Absolu et Révolution” (Paris, Cerf, 1972), mostra que Bakunin tornou-se revolucionário por causa de Weitling e do cristianismo revolucionário da Liga dos Justos e também por influências de outras fontes cristãs, que também influenciavam a Liga dos Justos, em seu socialismo cristão pré-marxista.

Só mais tarde é que Bakunin se tornou ateu, mas era já era revolucionário antes e com bases cristãs. Mesmo afirmando que se tornara ateu, escreveu bons textos como, por exemplo: “socialismo sem liberdade é escravidão, é brutalidade”; e “a felicidade, o paraíso humano sobre a terra” é “ver e sentir minha liberdade confirmada, sancionada, estendida ao infinito pelo assentimento de todos os homens”.

O “ateísmo” de Bakunin e de Proudhon era fruto de erros destes autores, embora também contivesse a crítica de erros da parte humana da Igreja, das religiões positivas, das ligações de pessoas religiosas com os Estados burgueses ou absolutistas daqueles tempos. O velho Bakunin, como Proudhon, com certeza, estenderia suas mãos a João XXIII ou a Francisco I.

Bakunin, tal como alguns hereges antigos, rejeitava o Estado e as leis positivas em bloco, o que era um erro. Bakunin deveria, na linha jusnaturalista, ter rejeitado apenas as leis e as formas estatais iníquas, prejudiciais ao bem da sociedade, ao povo. No entanto, Bakunin também ensinava corretamente que a liberdade, para durar e ser efetiva, deveria estar regrada pelas “leis naturais”. Da mesma forma, Helvetius, no livro “O Espírito”, é jusnaturalista, defendendo leis boas, leis conforme ao bem comum, que é a essência do jusnaturalismo católico, tomista etc. O mesmo defenderam autores como Voltaire, Diderot, Rousseau e outros, todos rebentos da tradição católica, mesmo deturpando-a em várias pontos. 

Os textos de Bakunin sobre a “lei natural” e a liberdade mereceriam uma boa compilação, mostrando o prisma jusnaturalista de algumas boas idéias de Bakunin. Como demonstrei no meu livro sobre as origens religiosas do socialismo, Bakunin tornou-se socialista anarquista em sua juventude e, nesta época, o jovem Bakunin tinha fortíssimas idéias e sentimentos religiosos, hauridos do cristianismo primitivo, especialemente de Weitling, recebendo esta influência no período em que esteve na Suiça, quando era jovem.

Conclusão: o “jusnaturalismo” da Paidéia combinou-se com o jusnatualismo hebraico, formando o núcleo da parte humana do catolicismo.

A religiosidade de Stuart Mill, defensor de uma democracia popular cooperativista

Sobre a religiosidade (chamada de “idealismo”, por Bakunin) de Stuart Mill, vejamos um pequeno texto de Mikhail Bakunin, do livro “Deus e o Estado” (São Paulo, ed. Cortez, 1988, p. 22):

“Mas há um pequeno número de homem ilustres, dos quais ninguém ousará falar sem respeito, e dos quais nada poderá colocar em dúvida nem a saúde vigorosa, nem a força de espírito, nem a boa fé. Basta que eu cite os nomes de Mazzini, Michelet, Quinet, John Stuart Mill. Almas generosas e fortes, grandes corações, grandes espíritos, grandes escritores, o primeiro, regenerador heroico e revolucionário de uma grande nação, são todos apóstolos do idealismo, e desprezadores, adversários apaixonados do materialismo, e, conseqüentemente, do socialismo, em filosofia tanto quanto em política. É, pois, contra eles que é preciso discutir esta questão”.

Mazzini, Michelet (também dizia: “o povo é a voz de Deus” e escreveu uma linda biografia de Santa Joana d’Arc nesta linha), Edgar Quinet, Mark Twain, John Stuart Mill, Walt Whitman e outros escritores eram democratas avançados, fundamentando suas teorias econômicas e políticas em idéias religiosas. Stuart Mill defendia um socialismo democrático, uma democracia popular. 

As melhores ideias anarquistas eram ideias cristãs

As melhores ideias do anarquismo eram ideias cristãs, como fica claro em Tolstoi. Estas mesmas idéias, no final das contas, eram também as melhores idéias de Bakunin. No livro “Império Knuto-germânico”, ele descreve seu ideal de sociedade justa, resumindo em cinco pontos: 1º.) haveria “disciplina” (organização da sociedade), “mas voluntária e ponderada”, “em perfeita consonância com a liberdade dos indivíduos”, pois esta “disciplina” “permanece e permanecerá sempre necessária, todas as vezes que muitos indivíduos, unidos livremente, empreenderem um trabalho ou uma ação coletiva qualquer”; 2º.) haveria divisão de funções, de “papéis”, que “dividem-se naturalmente segundo as aptidões de cada um, apreciadas e julgadas por toda a coletividade”, “uns dirigem e comandam, outros executam as ordens”, “mas nenhuma função petrifica-se, fixa-se e permanece irrevogavelmente ligado a qualquer pessoa”.

Assim, “o poder funde-se na coletividade, e torna-se a expressão sincera da liberdade de cada um, a realização fiel e séria da vontadede todos; cada um obedecendo apenas porque o chefe do dia só comanda o que a própria pessoa quer”. Há, nestas frases, pilhas de idéias bem cristãs, pois toda verdade, no final das contas, esteja onde estiver, vem de Deus, como lecionou Santo Ambrósio.

Da mesma forma, Malatesca, num artigo com o titulo “Um pouco de teoria”, 1892, escrevia: “é por amor aos homens que somos revolucionários”. E “cremos que este sentimento de amor é o fundamento moral, a alma de nosso programa. É apenas concebendo a revolução como a maior alegria humana, como a liberação e a fraternização dos homens” “que nosso ideal poderá realizar”. Escrevia ainda: “o ódio não produz o amor, e com o ódio não se renova o mundo. A revolução pelo ódio seria um fracasso completo ou, então, engendraria uma nova opressão” (os textos acima, de Bakunin e de Malatesta, foram colhidos no livro de Frank Mintz, “O anarquismo social”, da Ed. Imaginário, ligada à Federação Anarquista do Rio de Janeiro, em 2006, pp. 33 e 50).

O melhor do ideia anarquista é o ideario cooperativista, que é o ideal cristão, que defende cooperativismo. 

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