Elogio da escola Mangueira e de Marielle Franco, grande mártir da luta do povo

Datena, a Direita penal em carne e osso, propagando ódio, gerando FAKES e gerando monstros

Datena e o ódio bolsonarista na TV

Por João Filho, no site The Intercept-Brasil:

Logo depois de saber que seu filho havia matado oito pessoas e se suicidado, Tatiana foi perseguida na rua por um repórter do Brasil Urgente. Bastante incomodada, ela escondeu o rosto e tentou escapar das perguntas. A dor que ela estava sentindo parecia irrelevante para o jornalista. Ele continuou a perseguição pela calçada com uma abordagem inacreditável:
“Você se sente culpada de alguma forma?”

“Você quer ajuda, Tatiana? Vamos conversar um pouquinho”.

“Ele é uma criança ainda pra você?”
“Isso poderia ser evitado de que forma?”
“É importante você falar para defender a honra da sua família”.


No estúdio, Datena narrou aos berros as imagens de terror registradas pelas câmeras de segurança do colégio onde ocorreu o atentado. Ao fim da narração, o apresentador vaticinou: “Eu nunca vi uma cena tão canalha e covarde como essa. Esse moleque deve tá queimando no inferno”.

O Brasil já se acostumou a acompanhar violência explícita na TV. Quase todas as emissoras têm em sua grade de programação um jornal policial vespertino que traz diariamente as novidades do mundo cão.

Há quase três décadas, empresas privadas se utilizam de concessões públicas para fomentar uma cultura de ódio, vingança e violência. Chavões como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” vem sendo exaustivamente repetidos pelos apresentadores desses programas.
Ali a violência policial é reverenciada, suspeitos são tratados como culpados e os direitos humanos servem apenas para proteger bandido.
Pobres, negros e gays têm seus estereótipos negativos reforçados todos os dias. Qualquer semelhança com o bolsonarismo não é mera coincidência.

O ideário reacionário que gestou a candidatura de Bolsonaro foi disseminado com uma contribuição importante da grande mídia.

Quando o candidato que faz gesto de arminha apareceu, já havia uma massa habituada a desprezar os direitos humanos e a valorizar soluções simples para problemas complexos. O caldo cultural já estava fervendo no caldeirão.

Desde a estreia do Aqui Agora, em 1991, as crianças brasileiras têm acesso a imagens de sangue, perseguições policiais, tiroteios e cadáveres em plena luz do dia. O formato foi replicado em todo o país e hoje pelo menos toda capital brasileira tem o seu programa.

Um dos precursores do formato é o falecido jornalista Luiz Carlos Alborghetti, apresentador de um jornal policial em Curitiba que também era transmitido para outros locais do país.

Com uma toalha pendurada sobre os ombros, condenava bandidos ao inferno aos berros enquanto batia com um porrete na mesa. Era um ultrarreacionário que fazia apologia da tortura e chegou a destruir o cenário do estúdio em certa ocasião. Virou referência desse tipo de jornalismo.
Alborghetti talvez seja o pioneiro na fórmula ódio + humor que pariu Carlos Massa, o Ratinho, que hoje caracteriza parte dos programas policiais. Em nome de denunciar crimes e apresentar “a realidade como ela é”, esses programas transformam tragédias sociais em produtos de entretenimento bastante lucrativos.
Fazem apologia da barbárie com pitadas de humor — uma tática bastante usada pelo bolsonarismo durante a campanha.
Esses apresentadores se portam como justiceiros e acabam construindo uma imagem de autoridade. Apontam rapidamente as causas dos crimes e decretam sentenças de imediato. Ali a justiça nunca falha, e a audiência se sente vingada.
Por outro lado, o sistema de justiça real tem outro tempo e nem sempre atende aos desejos da população, aumentando a frustração e a sensação de impunidade. O Estado de direito requer uma frieza incompatível com a sede de vingança imediata que os apresentadores incitam na audiência.

Datena, o maior expoente nacional do jornalismo mundo cão, costuma apresentar diagnósticos simplistas para crimes bárbaros, como “falta Deus no coração dessas pessoas”. Chegou até a ser processado por isso.

É um jornalista medindo o caráter do cidadão pelo grau de fé em Deus que ele tem. É como se ateus fossem potenciais criminosos. “Deus acima de tudo” não é mesmo?

Muitos desses apresentadores se permitem xingar entrevistados brigar com colegas ao vivo. A grosseria faz parte do show. Eles são carismáticos [ASQUEROSOS, isso sim…], e a presença diária na TV fazem deles figuras muito populares.

Não é raro vê-los virando candidatos. Pelo contrário, é uma tendência. Primeiro ajudam a instalar o alarmismo na sociedade, depois se apresentam como parte da solução. Wagner Montes (RJ), Carlos Viana (MG), Laudívio Carvalho (MG), Mauro Tramonte (MG), Hélio Costa (SC), Amaro Neto (ES), Ely Aguiar (CE), Joaquim Campos (PA), Silas Freire (PI), Wilson Lima (AM), Paulo Wagner (RN) são alguns dos nomes que migraram de jornais policiais sensacionalistas para a política.

Mas esses são só alguns exemplos. Há uma infinidade de outros apresentadores catapultados para cargos públicos. Não preciso dizer que todos os citados (exceto Wagner Montes, falecido em janeiro) fazem parte da base de apoio do governo ou estão alinhados aos valores bolsonaristas.

Como é de se esperar, nem todos os justiceiros televisivos têm moral para se arvorar como paladinos dos bons costumes. Um bom exemplo é o amazonense Wallace Souza.

Ele era um policial civil que foi expulso por roubar gasolina da corporação. Em 1996, tentou ser vereador, mas obteve apenas 898 votos e não se elegeu. Nesse mesmo ano, ele virou apresentador do sanguinário Canal Livre em Manaus, que lhe rendeu fama e o ajudou a se tornar o deputado estadual mais votado do Amazonas em 1998 pelo PL. Em 2009, uma investigação da Polícia Civil descobriu que Wallace não só comandava uma quadrilha de traficantes como também ordenava assassinatos de traficantes rivais para poder dar com exclusividade em seu programa de TV.
Era chefe de uma milícia com conexões nas polícias, no Ministério Público e na política. O ex-apresentador teve o mandato cassado, foi preso e faleceu em 2010 de infarto.
Destaco que essa não é uma questão que opõe a esquerda e a direita, mas a civilização e a barbárie. Liberais de verdade não desprezam os direitos humanos e o estado de direito.
Não saem por aí repetindo que “bandido bom é bandido morto”, porque este não é um valor democrático, mas de uma ideologia reacionária, de gente extremista que despreza as conquistas civilizatórias. Criminosos devem ser tratados com o rigor e a frieza da lei. E quem mata bandido simplesmente porque acha que é o certo a se fazer está cometendo um crime. O bordão, tão caro ao presidente, é uma apologia ao crime.

É curioso ver como a grande mídia tem dado destaque para a hipótese de que games violentos teriam influência na tragédia de Suzano, como se ela própria não vendesse violência como entretenimento para crianças todos os dias da semana há quase três décadas.

Em qualquer birosca de qualquer lugar do Brasil, você encontrará um televisor escorrendo sangue enquanto passa um Brasil Urgente, um Cidade Alerta ou um Balanço Geral da vida.
Não estou insinuando [eu estou afirmando, é uma das CAUSAS…] que esses programas são responsáveis pela eleição de um presidente extremista ou pelas mortes em Suzano. Essa também seria uma resposta simples para problemas complexos. Mas não dá para negar a simbiose entre esses agentes propagadores da cultura de violência. Até quando a sociedade vai tolerar que concessões públicas sejam utilizadas para disseminar uma ideologia reacionária?

A maluquice total da ideia de uma Fundação particular, de 2,5 bilhões, para pagar régias palestras de entreguistas udenistas, alienados e sem nenhuma cultura…

Paulo Henrique Amorim mostra como o Bozo atua como lacaio da CIA, sem nenhuma dignidade, nenhuma grandeza, nenhum nacionalismo

Celso Amorim descreve como o Bozo é submisso, como beija as mãos dos Opressores, e não tem nada de nacionalista, dado que atua como um capacho do imperialismo

Meu socialismo, o mesmo de Pontes de Miranda, Alceu, Dom Hélder e outros luminares da Igreja

Dentro dos limites de minhas forças precárias, procurei seguir os passos dos melhores teólogos da Igreja, estrelas como Frei Clodovis Boff, em obras como “Cristianismo, humanismo e democracia” (São Paulo, Ed. Paulus) e de outras centenas de autores.

A linha que esposo é a linha de estrelas como Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Hélder, Dom Manuel Larrain (no Chile), Dom Balduíno, Dom Luciano Mendes de Almeida, dos irmãos Lorscheider, Dom Fragoso, Dom José Maria Pires, Dom José Gomes, padre José Ernani Pinheiro, Dom Moacir Grecchi, Padre Ibiapina, Padre Júlio Maria, Padre Arturo Paoli, Dom Viçoso, Dom Antônio Macedo da Costa, Dom Vital, o padre Vieira e de outros milhares de expoentes da Igreja.

O catolicismo admite o pluralismo teológico. Admite a liberdade política, filosófica, literária, científica etc.

Adoto, assim, uma corrente à esquerda, um mistura de distributismo, trabalhismo, nacionalismo anti-imperialismo e socialismo democrático, que é, no fundo, a meu ver, uma forma bem concreta de democracia participativa e social. A referência principal é o conjunto de textos de Alceu Amoroso Lima.

A democracia social, popular, participativa é o ideal histórico da doutrina social da Igreja e da teologia da libertação.

Há uma unidade entre os melhores textos da teologia da libertação com os textos papais, da doutrina social da Igreja e também da filosofia, do direito, da sociologia etc.

O ideal de democracia social, participativa, autêntica, não-capitalista, não-oligárquica, popular, comunitária, cooperativista etc é o ideal comum às correntes teológicas que representam a grande maioria da Igreja.

O ideal da realização do bem comum é o ideal de uma democracia popular, participativa, não-capitalista, não-oligárquica, sem classes dominantes e oprimidas, humanista.

Estas são, a meu ver, as linhas gerais do ideário de nossos melhores leigos, sacerdotes, religiosos e bispos.

Como abonação desta tese, basta considerar os textos de gigantes como Alceu, Dom Pedro Casaldáliga, Frei Betto, Dussel, tal como de Dabin, Maritain, Ketteler, Buchez, do padre jesuíta Castillo e outros. 

Meu socialismo, bem próximo de Sanders e Ocasio-Cortez

Sanders e Ocasio-Cortez: socialistas dos EUA?

Por Mehdi Hasan, no site The Intercept-Brasil:

Você sabe o que realmente me irrita na cobertura da mídia sobre a política americana e, principalmente, sobre o Partido Democrata?

Busque no Google as palavras “moderado” ou “centrista” e um pequeno grupo de nomesaparecerá instantaneamente: Michael Bloomberg, Amy Klobuchar, Joe Biden e, sim, Howard Schultz.

Bloomberg é considerado um “líder do pensamento centrista” (Vanity Fair). Klobuchar é a “pragmatista direta” (Time). Biden é o “o mais puro centrista” (CNN) e o “último grito de alegria para democratas moderados” (New York magazine). Schultz é talentoso com entrevistas de altoescalãopara assentar o seu tom de “centrista independente” aos eleitores.

Agora busque no Google a jovem democrata Alexandria Ocasio-Cortez. Ela tem sido apresentada como membro da “esquerda lunática” (Washington Post), uma “agitadora progressiva” (Reuters), e uma “lançadora de bombas liberal” (New York Times).

Entendeu? Biden, Schultz e companhia, conforme nos é dito, ocupam de forma inequívoca o centro da política americana; Ocasio-Cortez está longe, ocupando as beiradas.

Esta é uma distorção descarada da verdade, uma mentira visível e vergonhosa que é repetida dia após dia em editoriais de opinião em jornais e manchetes de canais de tv a cabo.

“É fácil chamar o que Ocasio-Cortez está fazendo de extrema-esquerda, mas nada poderia estar mais longe da verdade,” disse Nick Hanauer, capitalista de risco e ativista progressista, ao MSNBC, em janeiro. “Quando se defende políticas econômicas que beneficiam a grande maioria dos cidadãos, esse é o verdadeiro centrismo. O que Howard Schultz representa, o centrismo que ele representa, é apenas economia de gotejamento (teoria econômica segundo a qual, quando os ricos ganham mais dinheiro, os demais setores começam a se beneficiar também, inclusive os pobres)”.

“Ele não é o centrista”, continuou Hanauer. “Ocasio-Cortez é que é a centrista.”

Hanauer está certo. E Bernie Sanders também é um centrista – difamado como um “ideólogo” (The Economist) e como sendo “perigosamente da extrema-esquerda” (Chicago Tribune). Assim como Elizabeth Warren – descartada como uma “extremista radical” (Las Vegas Review-Journal) e uma “lutadora de classes” (Fox News).

A verdade inconveniente que nossas preguiçosas elites midiáticas tanto buscam ignorar é que Ocasio-Cortez, Sanders e Warren estão muito mais próximos em suas visões da vasta maioria dos americanos comuns do que os Bloombergs e os Bidens. Eles são os verdadeiros centristas, os moderados reais; eles representam o centro político de fato.

Não acredita em min? Veja a questão chave de Ocasio-Cortez: o New Deal verde. O antigo redator de discurso – e defensor da tortura – de George W. Bush, Marc Thiessen, afirma que o New Deal verde “tornará os democratas inelegíveis em 2020.” A The Economist concorda com ele: “O audacioso plano poderá tornar o partido impossível de eleger em estados com tendências conservadoras.” O New Deal verde “não passará no Senado e você pode repetir isso para quem quer que tenha te mandado aqui”, disse uma mal-humorada Diane Feinstein, senadora sênior e supostamente “moderada” do Partido Democrata da Califórnia, a um monte de crianças em um vídeo viral.

Mas aqui está a realidade: o New Deal verde é extremamente popular e tem um enorme apoio dos dois partidos. Uma recente pesquisa do Yale Program on Climate Change Communication e da Universidade George Mason descobriu que 81% dos eleitores disseram que ou “apoiariam fortemente” (40%) ou “apoiariam parcialmente” (41%) o New Deal verde, incluindo 64% de republicanos (e até mesmo 57% de republicanos conservadores).

O que mais Ocasio-Cortez, Warren e Sanders têm em comum entre si – e com os eleitores? Eles querem explorar os ricos. Ocasio-Cortez sugeriu uma alíquota da faixa superior de renda de 70% sobre rendimentos acima de 10 milhões de dólares – algo condenado pelo “centrista” Howard Schulz como “antiamericano” mas apoiado por uma maioria (51%) dos americanos. Warren propôs uma taxa de riqueza de 2% sobre bens acima de 50 milhões de dólares – tendo sua proposta criticada pelo “moderado” Bloomberg e definida como socialismo ao estilo venezuelano, mas apoiada por 61% dos eleitores, incluindo 51% dos republicanos. (Como meu colega Jon Schwarz já demonstrou, “jamais, na história recente, os americanos foram contra maiores impostos aos mais ricos.”)

E os serviços de saúde? A vasta maioria (70%) dos eleitores, incluindo uma maioria dos republicanos (52%), apoiam um sistema nacional de saúde pública, o chamado Medicare para Todos. Seis em dez dizem que é “responsabilidade do governo federal” assegurar que todos os americanos tenham acesso ao sistema de saúde.

Isenção de dívidas e universidades gratuitas? Uma clara maioria (60%) do público, incluindo uma significante minoria (41%) dos republicanos, apoiam ensino universitário gratuito “para todos que tiverem os níveis de renda compatíveis”.

Salário mínimo mais alto? Conforme o centro Pew, quase 6 em cada 10 (58%) americanos apoiam o aumento do salário mínimo nacional de 7,25 dólares/hora para (o valor recomendado por Sanders) 15 dólares/hora.

Controle de armas? Quase seis em cada 10 (61%) dos americanos apoiam leis mais restritas sobre o controle de armas, conforme a Gallup, “a percentagem mais alta a favor de leis mais rígidas sobre armas de fogo em duas ou mais décadas.” Quase todos os americanos (94%) apoiam a universalização da checagem de antecedentes criminais em todas as vendas de armas – incluindo quase três quartos dos membros da National Rifle Association.

Aborto? O apoio ao direito legal de realizar aborto, conforme uma pesquisa de junho de 2018realizada pela NBC News e o Wall Street Journal, está em “número recorde”. Sete em cada 10 americanos dizem crer que o caso Roe contra Wade (caso judicial pelo qual a Suprema Corte dos Estados Unidos que reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez nos EUA) “não deve ser revertido”, incluindo a maioria (52%) dos republicanos.

Legalização da maconha? Dois em cada três americanos acham que a maconha deveria ser legalizada. De acordo com uma pesquisa da Gallup de outubro de 2018, isso marca “mais um aumento na tendência observada pela Gallup na última metade do século.” E aqui uma surpresa: a maioria (53%) dos republicanos também apoia a legalização da maconha!

Encarceramento em massa? Cerca de 9 em cada 10 (91%) americanos dizemque o sistema de justiça criminal “tem problemas que precisam ser resolvidos”. Cerca de 7 a cada 10 (71%) dizem que é importante “reduzir a população carcerária nos Estados Unidos”, incluindo a maioria (52%) dos eleitores de Trump.

Imigração? “Um recorde de 75% dos americanos”, incluindo 65% de republicanos e republicanos com tendências independentes, disseram à Gallup em 2018 que a imigração é uma “coisa boa para os EUA”. Seis em dez americanos se opõem à construção de um muro na fronteira sul do país enquanto massivos 81% apoiam a cidadania para imigrantes sem documentos vivendo nos Estados Unidos.

NO ENTANTO, quanto dessas pesquisas se reflete nas coberturas de notícias dos democratas, que buscam colocar ativistas “esquerdistas” contra eleitores “centristas” e “liberais” contra “moderados”?

Como rótulos como “centrista” e “moderado”, que o senso comum nos diz que deveriam refletir a visão da maioria dos americanos, acabaram por ser aplicados a aqueles que representam interesses e opiniões de uma minoria?

Quantos repórteres políticos estão dispostos a dizer a seus leitores ou telespectadores o que o cientista político David Broockman, da Universidade Stanford, disse ao jornalista Ezra Klein, do Vox, em 2014: “Quando dizemos ‘moderados’ o que realmente queremos dizer é ‘o que as corporações querem’. Dentro dos dois partidos há essa tensão entre o que os políticos que recebem mais dinheiro corporativo e tendem a fazer parte do sistema querem – e isso é o que geralmente chamamos de ‘moderado’ – versus o que o Tea Party e membros mais liberais querem”?

O caminho do meio – se é que ele existe – não pode ser encontrado em um mapa; ele não é uma localização geográfica fixa. Você não pode entrar no carro, digitar o endereço no GPS e então dirigir até lá.

Ele se move, se modifica, e reage a eventos. O centro de 2019 não é o mesmo centro de 1999 e nem sequer o de 2009. Você quer saber onde ele está agora? Você quer encontrar o centro moderado? Então ignore as invenções da direita, os sabe-tudo convencionais, a “classe das doações”. Busque conhecer as plataformas políticas de Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

* Tradução de Maíra Santos.

Estado deve erradicar bilionários e multimilionários, para erradicar a MISÉRIA

E se nos livrássemos de todos os bilionários?

Por Farhad Manjoo, no site Outras Palavras:
No último outono, Tom Scocca, editor do blog essencial Hmm Daily, escreveu um pequeno post que está mexendo com minha cabeça desde então.
“Algumas ideias de como tornar o mundo melhor requerem um pensamento cuidadoso e com nuances, sobre como melhor equilibrar interesses conflitantes,” ele começou. “Outras, não: Bilionários são ruins. Nós devemos nos livrar deles preventivamente. De todos eles”.

Scocca – escritor por muito tempo no Gawker, até que o site foi abafado por um bilionário – ofereceu um argumento direto para dar um tranco nos mais ricos. Um bilhão de dólares é muito mais do que alguém precisa, mesmo fazendo os maiores excessos da vida. É muito mais do que aquilo a que qualquer um poderia alegar ter direito, não importa o quanto acredite ter contribuído com a sociedade.

Em algum nível de riqueza extrema, o dinheiro inevitavelmente corrompe. Na esquerda e na direita, ele compra poder político, silencia dissidências, serve principalmente para perpetuar uma riqueza cada vez maior, frequentemente sem relação com qualquer bem social recíproco. Para Scocca, esse nível é evidentemente algo em torno de um bilhão de dólares; com mais do que isso, você é irredimível.

Escrevo sobre tecnologia. Muito de minha carreira exigiu uma pesquisa profundamente antropológica entre o reino dos bilionários. Mas estou envergonhado em dizer que nunca tinha considerado a ideia de Scocca – que se almejarmos, por meio de políticas públicas e sociais, simplesmente desencorajar as pessoas de possuir mais de um bilhão, estaremos construindo um mundo melhor.

Devo dizer que, em outubro, abolir bilionários me pareceu fora de lugar. Soava radical, impossível, e mesmo Scocca pareceu sugerir esta noção como um mero devaneio.

Mas o fato de esta ideia ter se tornado um tema central da esquerda democrática revela, paradoxalmente, a fragilidade política dos bilionários. Nos Estados Unidos, Bernie Sanders e Elizabeth Warren estão propondo novos impostos voltados aos super ricos – incluindo taxas especiais para bilionários. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, que também é a favor de impostos mais altos sobre os ricos, tem feito um caso moral contra a existência de bilionários. Dan Riffle, seu assessor político, recentemente mudou seu nome no Twitter para “Todo Bilionário É Uma Falha Política.” Semana passada, o Huffpost perguntou, “Bilionários deveriam existir?

Suspeito que se a questão está recebendo tanta atenção, é porque tem uma resposta óbvia: Não: bilionários não deveriam existir – com seu poder de engolir o mundo, conquistando esse nível de adulação, enquanto o resto da economia se debate para sobreviver.

Abolir bilionários pode não parecer como uma ideia prática, mas se você pensar na proposta como um objetivo a longo prazo, à luz dos desarranjos econômicos mais profundas de hoje em dia, pode ser tudo – menos radical. Banir bilionários – buscando cortar seu poder econômico, trabalhar para reduzir seu poder político e tentar questionar seu status social – é uma visão perfeitamente clara para sobreviver ao futuro digital.

A abolição de bilionários poderia tomar diversas formas. Poderia significar evitar que as pessoas tenham mais de um bilhão em cash, mas provavelmente significaria maiores impostos sobre rendimentos, riqueza e propriedades para bilionários e pessoas a caminho de se converterem nisso. Essas ideias de políticas revelaram-se muito populares ainda que provavelmente não sejam suficientemente redistributivas para converter a maior parte dos bilionários em sub-bilionários.

Mais importante, o objetivo de abolir bilionários iria envolver remodelar estrutura da economia contemporânea, para que produza uma proporção mais igualitária entre os super ricos e restante de nós.

A desigualdade está definindo a condição econômica da era tecnológica. O software, por sua própria natureza, leva a concentrações de riqueza. Por meio dos efeitos em rede, em que a própria popularidade de um serviço assegura que ele se torne cada vez mais popular; e de economias de escala sem precedentes – em que a Amazon pode fazer a assistente digital Alexa uma única vez e vê-la trabalhar em todos os lugares, para todo mundo – a tecnologia instila uma dinâmica de o-vencedor-leva-tudo em grande parte da economia.

Alguns destes efeitos já começaram a aparecer. Corporações muito famosas, muitas de tecnologia, são responsáveis pelo grosso dos lucros corporativos, enquanto a maior parte do crescimento econômico, desde os anos 1970, foi para um pequeno número de super-ricos.

Mas o problema está prestes a piorar. A Inteligência Artificial está criando novas indústrias muito prósperas, que não empregam muitos trabalhadores. Se forem deixadas sem controle, tecnologia criará um mundo em que alguns bilionários controlarão uma parcela sem precedentes da riqueza global.

Mas a abolição não envolve apenas política econômica. Pode também tomar a forma de vexame social e político. Há pelo menos vinte anos vivemos uma relação amorosa devastadora com os bilionários – um flerte em que o setor tecnológico avançou mais do que em qualquer outro.

Assisti a uma geração de esforçados empreendedores juntarem-se ao clube das três pontos [termo utilizado para definir bilionários] e instantaneamente transformarem-se em super heróis da ordem global, pelo que se considera ser sua sabedoria óbvia e irrefutável sobre qualquer coisa e todas as coisas. Colocamos bilionários em capas de revistas, especulamos sobre suas ambições políticas, saudamos suas grandes visões para salvar o mundo e piscamos afetuosamente aos seus planos malucos para nos ajudar a escapar – graças aos seus foguetes gigantes e de-forma-alguma-sugestivos-freudianamente – para um novo mundo

Mas a adulação que concentramos nos bilionários obscurece o dilema moral no centro de sua riqueza. Por que qualquer pessoa deveria ter um bilhão de dólares e sentir-se orgulhosa em exibir seus bilhões, enquanto há tanto sofrimento no mundo? É como Alejandria Ocasio-Cortez disse, num diálogo com Ta-Nehisi Coates: “Não afirmo que Bill Gates ou Warren Buffet sejam imorais, mas um sistema que permite a existência de bilionários, quando há muitas partes do mundo em que as pessoas estão se enchendo de verminoses porque não há acesso à Saúde pública está doente”.

Na semana passada, para ir mais fundo na questão de se é possível ser um bom bilionário, eu falei com dois especialistas.

O primeiro foi Peter Singer, o filósofo da moral, de Princeton, que escreveu extensivamente sobre os deveres éticos dos ricos. O Singer me disse que em geral, ele não achava possível viver moralmente como bilionário, apesar de apontar algumas exceções: Bill Gates e Warren Buffet, que se decidiram doar a maior parte de suas riquezas para a filantropia, não teriam o desprezo de Singer.

“Eu tenho uma preocupação moral com os indivíduos – nós temos tantos bilionários que não estão vivendo eticamente, e não estão fazendo o melhor que podem, por uma larga margem,” disse o Sr. Singer.

Além disso, há a complicação adicional se, de fato, mesmo aqueles que estão “fazendo o bem” estão mesmo fazendo o bem. Como argumentou Anand Giridharadas, muitos bilionários aproximam-se da filantropia como uma espécie de exercício de marca, para manter um sistema no qual conseguem manter seus bilhões.

Quando um bilionário se compromete a colocar dinheiro na política – seja para o seu lado ou o outro – você deveria enxergar melhor de que se trata: um esforço para ganhar vantagens sobre o sistema político, um esquema para causar um curto-circuito na revolução e mitigar a revolta.

O que me leva ao meu segundo especialista no assunto, Tom Steyer, o antigo investidor de fundos multimercados, que está dedicando sua fortuna de bilhões de dólares para uma onda de causas progressistas, como registro de eleitores, mudanças climáticas e o impeachment de Donald Trump.

Steyer preenche todos os requisitos de um liberal. Ele é a favor de um imposto sobre fortunas e ele e sua esposa assinaram a Giving Pledge. Ele não vive em luxo excessivo – ele dirige um Chevrolet Volt. Ainda assim, eu me perguntei quando conversei ao telefone com, semana passada: Não estaríamos melhor se não tivéssemos que nos preocupar com pessoas ricas como ele tentando alterar o processo político? Steyer foi afável e eloquente; ele falou comigo durante quase uma hora sobre seu interesse em justiça econômica e suas crenças em organizações de base. Em determinado ponto, comparei suas doações com as dos Irmãos Koch, e ele pareceu genuinamente aflito com comparação. 

“Eu compreendo os problemas reais do dinheiro na política,” disse. “Nós temos um sistema que sei que não é certo, mas é o sistema que temos, e nós estamos tentando o máximo possível para mudá-lo.”

Eu admiro seu zelo. Mas se nós tolerarmos os supostamente “bons” bilionários na política, inevitavelmente deixamos as portas abertas para os ruins. E eles nos ultrapassarão. Quando o capitalismo norte americano nos envia seus bilionários, não está enviando os melhores. Está nos enviando pessoas que tem muitos problemas, e elas trazem esses problemas com elas.

Elas estão trazendo desigualdade e injustiça. Elas estão comprando políticos.

E alguns, creio eu, são boas pessoas.

* Tradução de Marianna Braghini.

Sentenças penais encomendadas, copiadas, coladas. Injustiça grotesta

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