Texto papal elogiando a cultura antiga da China, em 1928

Pio XI, numa Mensagem ao delegado apostólico na China, em 01.08.1928, também ressaltava a importância da cultura antiga da China, com ideias sobre justiça e honra:

são reconhecidas plenamente as legítimas aspirações e os direitos de um povo, que é o mais numeroso da terra, povo de cultura antiga que conheceu momentos de grandeza e esplendor, e ao qual, ao se manter nos caminhos de justiça e da honra, não pode faltar um porvir grandioso”.

A sociedade e o Estado devem atender e satisfazer as necessidades humanas básicas, a cada um de acordo com suas necessidades

As necessidades e as aspirações humanas são sagradas e devem ser atendidas e satisfeitas pela sociedade, o Estado etc.

Isso vale inclusive pelas freiras e frades contemplativos (que sempre fazem trabalhos manuais e intelectuais, fiéis ao espírito da regra beneditina).

João XXIII, na carta às religiosas (de 02.07.1962), ressaltava:

“sim, deveis estar espiritualmente presentes a todas as necessidades da Igreja militante. Nenhuma desgraça, nenhum luto ou calamidade vos encontre estranhas; nenhuma descoberta científica, congresso cultural, reunião social e política vos faça pensar: “são coisas que não nos interessa”. Que a Igreja militante possa contar convosco sempre que a vossa contribuição espiritual for necessária para o bem das almas e também para o verdadeiro progresso humano e a paz universal”.

A lição de João XXIII é excelente: mesmo os mais contemplativos devem ter em conta as necessidades sociais, as idéias, os projetos, as aspirações, as desgraças e as descobertas científicas da sociedade.

O bem, sendo difusivo, exige dos contemplativos que ensinem e rezem pelo bem comum, para que todos tenham os bens necessários e suficientes para uma vida digna, plena e feliz.

A Igreja tem o dever de “proferir” um “juízo moral sobre realidades que se relacionam com a ordem política, quando o exigirem os direitos fundamentais da pessoa” (cf. “Gaudium et Spes”, n. 76).

Os esforços de ecumenismo do monge trapista Thomas Merton (o padre Louis) tinham a mesma linha ecumênica (manteve correspondência com Martin Luther King).

O monge Merton mantinha diálogo com socialistas, budistas e religiosos chineses, confucianos, taoístas, xintoístas e outros, como pode ser visto em obras como o “Diário na Ásia”.

Os textos do trapista Merton constituem excelente exemplo de militância social e política, sendo digno de nota o fato de Merton ter sido uma grande estrela de uma das ordens mais rigorosas e fechadas, a Ordem Cisterciense da Trapa (reformada por Rancé, em 1662) .

Esta militância deve estar presente até na vida dos monges da Igreja, e em escala bem maior nos sacerdotes, bispos, sendo, no entanto, a tarefa sagrada específica dos leigos.

A ação dos leigos tem exemplos específicos na vida de Moisés, dos profetas e de grandes santos.

O ideal da Igreja é um grande Estado social, popular, que difunda renda básica para todos, e tribute o excesso, o supérfluo, para redistribuir

Giorgio La Pira e outros políticos mostraram que as idéias éticas são as principais fontes da democracia popular e do Estado social.

João Paulo II, num discurso à Associação Nacional dos Municípios italianos, no centenário de Giorgio La Pira, em 26.04.2004, ensinou:

“Na teoria e na práxis política, La Pira sentia a exigência de aplicar a metodologia do Evangelho, inspirando-se no mandamento do amor e do perdão. Permanecem emblemáticos os “Congressos pela paz e pela civilização cristã”, que promoveu em Florença de 1952 a 1956, com a finalidade de favorecer a amizade entre cristãos, judeus e muçulmanos. (…)

La Pira fez uma extraordinária experiência de homem político e de crente, capaz de unir a contemplação e a oração à actividade social e administrativa, com uma predileção pelos pobres e por quantos sofrem.

Caríssimos Presidentes Municipais, possa este luminoso testemunho inspirar as vossas opções e acções quotidianas! (…) Não deixeis de cultivar aqueles valores humanos e cristãos que formam o rico património ideal da Europa. Ele deu vida a uma civilização que, ao longo dos séculos favoreceu o surgimento de sociedades autenticamente democráticas. Sem bases éticas a democracia corre o risco de se deteriorar no tempo e até de desaparecer”.

O cristianismo difundiu “valores [idéias] humanos e cristãos” que são o acervo principal do “patrimônio ideal da Europa”, especialmente o apreço pela democracia.

Frise-se : “valores humanos e cristãos”, ou seja, idéias naturais que são exigências do bem comum e algumas idéias reveladas, supra-racionais, mas nunca irracionais.

Este “patrimônio” de idéias foi a principal fonte que “deu vida a uma civilização que, ao longo dos séculos, favoreceu o surgimento de sociedades autenticamente democráticas”.

Pelos textos de João Paulo II e de La Pira, fica bem claro que as idéias cristãs, hauridas na Revelação e nas idéias da Paidéia, atuaram, como causas teóricas, na eclosão da democracia, na formulação de uma democracia popular, social e participativa, que é nosso “ideal” (“patrimônio ideal”).

Giorgio La Pira foi professor da Universidade de Florença e propôs que Willy Brandt (n. 1913) recebesse o Prêmio Nobel da Paz, em 1971, tendo conseguido este propósito.

Conclusão: o texto acima abona a tese deste humilde blog: as idéias verdadeiras (verdades), que são o cerne da ética, são fatores (causas) fundamentais do bem comum, do poder do povo.

A ética social, na essência do cristianismo, exige, assim, como “ideal histórico” concreto, uma democracia popular, social, comunitária, participativa, trabalhista e humanista, com economia mista (estatais, cooperativas e pequenas e médias propriedades familiares) e vasto Estado social que difunda bens, renda básica para todos, tal como tribute os ricos, tire o excesso (supérfluo) de uns para dar a outros, eliminando a miséria e as grandes fortunas privadas, difundindo igualdade social, mediania.

Como mostrou o padre Fernando Bastos, o socialismo cristão pré-marxista foi a principal fontes das melhores ideias de Karl Marx

Marx explicitou suas fontes teóricas: São Tomás Morus (1516), o Padroeiro católicos dos políticos, um santo da Igreja; o monge Campanella (1602); Gerard Winstanley (1609-1652), o abade Ferdinando Galiani (1728-1787, autor do livro “Diálogos sobre o comércio de grãos”); Mably; Morelly; o Círculo Social (cujos dirigentes eram padres); o padre Jacques Roux; Babeuf e Phillipp Buonarroti (1761-1837, autor do livro “História da conspiração de Babeuf”), sendo estes dois teístas, com base em Morus, Mably e Morelly; Sismondi; William Cobbett (autor apreciadíssimo por Marx); Weitling; Buchez; Leroux; Robbertus; Saint Simon e Bartolomeu-Próspero Enfantin (1796-1864, que deixou boas obras sobre ética e economia); Owen; Fourier e Victor Considerant; Thomas Carlyle; Buchez, Moses Hess e antes Spinoza; Etienne Cabet; Eugenio Buret (que influenciou diretamente Engels); Louis Blanc; Vitor Hugo; os cartistas; os irlandeses católicos (com O´Connell antes do cartismo e depois com os fenianos); o movimento de independência polonês, quase todo católico; os Cavaleiros do Trabalho nos EUA (dirigidos por um grande católico chamado Powderly); e centenas de outros autores, quase todos católicos ou cristãos.

As fontes principais de Marx são religiosas: Hegel, Saint-Simon, Santo Tomás Moorus, Morelly, Babeuf, Buonarotti, Weitling, Moses Hess, Spinoza e mesmo Feuerbach (que inclusive elogia textos de São Tomás e dos Santos Padres da Igreja).

Analisei estas fontes e dezenas de outras em meu livro “Socialismo, utopia cristã”, com os textos transcritos, para deixar claro que não inventei nada, apenas pesquisei e transcrevi os textos e as fontes cristãs de Marx, como abonações.

O próprio Marx escreveu que o comunismo cabetiano era o maior na França no início dos anos 40 (antes de Marx se tornar comunista) e esta forma de socialismo utópico era difundida com base em idéias cristãs (inclusive nos bons textos de Victor Considerant, 1808-1893).

Na Inglaterra, os cartistas cristãos (Thomas Cooper e especialmente Feargus Edward O´Connor, 1794-1855, dirigente cristão da ala esquerda dos cartistas, fundador e redator do jornal “A Estrela do Norte, que era o órgão central do cartismo, autor elogiado por Marx e Engels), foram os precursores do socialismo e o primeiro movimento operário organizado. Feargus lutava por uma extensa reforma agrária na Inglaterra.

Nos EUA, os Cavaleiros do Trabalho era uma corrente cristã, liderada por um católico, sendo a corrente precursora do movimento operário nos EUA, conforme reconheceram Marx, Engels e Lenin. 

Ideal da Igreja – destinação universal dos bens com controle dos trabalhadores sobre os processos produtivos, os bens produtivos

A subjetividade da sociedade, ou seja, a soberania da sociedade, é a forma principal para a concretização do princípio da dignidade do ser humano e, assim, da destinação universal dos bens e do primado do trabalho. 

O ideal da Igreja é uma síntese entre liberdade e justiça, entre liberdade e autoridade, entre autogestão pessoal e social, entre destinação universal dos bens e controle pessoal pelos trabalhadores dos bens produtivos, dos fluxos de produção de bens, fixação de preços, formas de distribuição e consumo etc. 

João Paulo II, na encíclica “Sollicitudo Rei Socialis” (1987), criticou a falta de gestão operária (controle pessoal dos trabalhadores sobre o processo produtivo), como um pecado (mal) do capitalismo liberal e do capitalismo de Estado:

“Em lugar da iniciativa criadora prevalecem a passividade, a dependência e a submissão ao aparato burocrático que, como único órgão «disponente» e «decisional» — se não mesmo «possessor» — da totalidade dos bens e dos meios de produção, faz com que todos fiquem numa posição de dependência quase absoluta, que é semelhante à tradicional dependência do operário-proletário do capitalismo.

Ora isto gera um sentimento de frustração ou desespero e predispõe para o desinteresse pela vida nacional, impelindo muitas pessoas para a emigração e favorecendo em todo o caso uma espécie de emigração «psicológica».

Uma situação assim tem as suas conseqüências também sob o ponto de vista dos «direitos das nações singularmente». Com efeito, acontece com freqüência que uma nação é privada da sua subjetividade, ou seja, da «soberania» que lhe compete, no sentido econômico e mesmo político-social e, de certo modo, cultural, porque adstrita a uma comunidade nacional onde todas estas dimensões da vida estão ligadas entre si”.

Como fica claro, a Igreja condena o capitalismo liberal e o capitalismo de Estado, a privatização de tudo e a estatização de tudo, sendo partidária do meio termo, da economia mista, como destacaram Liberatore, Antoine, Pesch e outras estrelas da Igreja. 

Na encíclica “Laborem exercens”, João Paulo II tornou a frisar o primado do trabalhador (ligado intrinsecamente ao princípio da destinação universal dos bens e da soberania da sociedade) e destacou sua importância.

A sociedade (o povo) só é soberana (se é baseada em formas de autogestão, em formas ampliadas de autogestão, mediante a planificação participativa) se cada membro dela exerce controle sobre sua própria vida e trabalho (autogestão na vida cultural, familiar, econômica, artística etc).

A destinação universal dos bens exige a difusão de pequenas e médias propriedades familiares, sendo submetidas ao controle social, às exigências do bem comum, à função social dos bens, de todos os direitos subjetivos.

Tudo sujeito ao planejamento público participativo da economia, a controles da sociedade, limitando o âmbito dos direitos subjetivos privados, para haver harmonia, bem comum. 

Boas lições de Proudhon, Charles Péguy, Jaures, Maurice Hauriou e Henri de Lubac

Maurice Hauriou (1856-1929), um jurista católico, também ensinou que há uma “evolução… das formas sociais”, “das instituições”, dos modos de produção, e que este “movimento de transformação” é constante.

Hauriou foi influenciado por Bergson e por Proudhon, como constatou Marcel Waline (1900-1982), no livro “As idéias mestras de dois grandes publicistas franceses: Léon Duguit e Maurice Hauriou” (1930).

Em Proudhon, há milhares de idéias cristãs. Parte deste acervo foi recepcionado por Karl Marx, que conviveu com Proudhon e elogiou parte dos textos de Proudhon, contra a propriedade quiritária, sem vinculação com o bem comum, sem função social. 

O próprio Bakunin conta que Proudhon era leitor assíduo da Bíblia e dos textos do direito romano e do Direito Civil francês, tendo escrito inclusive comentários sobre a Bíblia.

O padre Henri Lubac (1896-1991) escreveu, em 1945, o livro “Proudhon e o cristianismo”, mostrando as fontes cristãs da ética deste socialista pequeno burguês, tão parecido com Charles Péguy, outro grande socialista católico.

Jaurès também era amigo de Péguy e seguia Proudhon, em vários pontos. A fonte principal das idéias de Hauriou é Santo Tomás de Aquino, como este mesmo jurista reconheceu, no início da obra acima referida:

“O imenso e rico tesouro de reflexões sociais acumulado na “Suma Teológica” prestou-me os mais assinalados serviços. Confesso que não só achei ali minhas melhores inspirações, senão que nela encontrei a chave necessária para não cometer grosseiros erros” (p. XXIV).

Maçonaria deveria abandonar anticlericalismo e liberalismo econômico

Alec Mellor, possivelmente o melhor historiador maçonico, reconhece alguns méritos em De Maistre, especialmente pelo fato deste considerar que “o objetivo futuro da Franco-Maçonaria” seria “realizar a unidade das confissões cristãs separadas”.

Este mérito foi principalmente de católicos dentro da Maçonaria, especialmente os católicos jacobitas da Escócia, em luta contra seu governo absolutista. E há mérito em vários anglicanos, dentro da Maçonaria, que buscavam a unidade da Igreja. 

De fato, se a maçonaria abandonasse o anticlericalismo e retomasse seus fundamentos históricos e matrizes cristãs, como quer Alex Mellor, poderia ter um papel histórico positivo no ecumenismo abrangente e unificador, via diálogo.

No mundo judaico, a corrente do judaísmo reconstrucionista, ligado a Mordecai Kaplan, defende um judaísmo ético e aberto, ecumênico.

Ocorre o mesmo com o judaísmo humanístico, em Detroit; e outras correntes humanistas mais afastadas do Talmud.

Lembro que correntes muito ligadas ao Talmud, os ortodoxos, têm muitos pontos em comum com a Igreja, frise-se, pois guardam mais as Tradições judaicas, comuns a católicos e a judeus ortodoxos. 

Marx aprendeu com grandes padres da Igreja, como Lamennais

O padre Lamennais (1782-1854), se estivesse vivo, teria gostado muito de Leão XIII, tal como Marc Sangnier teria beijado as mãos de João XXIII e abraçado os teólogos da libertação.

Antes de Marx, Lamennais descreveu a escravidão atual dos trabalhadores, com as seguintes palavras:

o capitalista e o proletário têm, entre si, efetivamente, as mesmas relações existentes entre o senhor e o escravo das sociedades antigas.

O que é o escravo perante o senhor? Um instrumento de trabalho, uma parte e a mais preciosa de sua propriedade… e o que é o proletário em vista do capitalismo? Um instrumento de trabalho. Livre no direito atual, legalmente livre em sua pessoa, ele não é realmente a propriedade vendável ou comprável de quem o emprega. Mas esta liberdade é fictícia. O corpo não é escravo, mas a vontade o é. (…) As cadeias do escravo moderno são a fome”.

Lamennais influenciou os melhores textos da Liga dos Justos, que antecedeu Marx, e deu a Marx suas melhores ideias.

A Liga era basicamente cristã, como fica claro com os textos de Weitling, Karl Shapper, Auguste Becker e outros. 

Boas lições de Democracia popular, por Ratzinger, futuro Bento XVI.

O então Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, escreveu o texto “Democratização da Igreja?” (Madrid, Ed. San Pablo, 2005, sendo reedição de um texto de 1971). O texto mostra a concordância parcial de Ratzinger com várias das propostas de democratização da Igreja, exposta por bons teólogos como Karl Rahner, Evr, H. Maier e outros.

No entanto, Ratzinger concorda com vários pontos importantes e desenvolve boas idéias, que vale a pena transcrever.

Nesta obrinha, Ratzinger escreveu, na página 62:

“4. A “voz do povo” como instância na Igreja.

É fácil descobrir uma tradição democrática da Igreja, de características especiais, se nos fixamos na circunstância de que a Igreja, nos momentos de crises contra os poderosos, apoiou-se sempre com força no povo, apelou à comunidade dos crentes e pos em jogo o elemento democrático contra os príncipes. Isto fica manifesto quando Ambrósio se apóia na opinião pública (…) contra o intento de tomar decisões nos assuntos eclesiásticos por parte da política imperial (…). O mesmo ocorre quando Gregório VII e os promotores de sua reforma apelam ao povo contra a usurpação estatal da Igreja, como um meio da política imperial, e se esforçam por estabelecer a Igreja como Igreja, partindo do povo, contra o poder dos príncipes. Ocorreu o mesmo quando, no século XIX, a Igreja se aliou por algum tempo ao liberalismo, esperando e encontrando apoio em seu impulso democrático, para superar o galicanismo, o josefismo e a tendência das Igrejas nacionais e estatais”.

Ratzinger destaca a “TRADIÇÃO DEMOCRÁTICA DA IGREJA”, tal como o fato que foi o povo católico que debelou a “crise ariana”, quando “o povo cristão” manteve a fé de Nicéia contra “teólogos e hierarcas”, atuando o povo como “força regeneradora da Igreja”.

Ratzinger também mostra como a Igreja aceitou parte do liberalismo, a parte sobre democracia, para “superar o galicanismo, o josefismo e a tendência das Igrejas ..estatais”. isso foi mérito de estrelas da Igreja, como Lacordaire, Lamennais, Ozanam, Tocqueville, Dupanloup e centenas de milhares de outros católicos, que ficaram com a parte boa do liberalismo, o trigo, a parte sobre democracia política. 

Em seguida, Ratzinger acrescenta que “o mesmo sucede também hoje em dia”, em 1971, “quando a fé das comunidades [CEBs] está configurando a forma da Igreja do futuro”, mesmo contra os compromissos da direção da Igreja e contra o conformismo de não poucos intelectuais”.

Na página 23, Ratzinger destaca que “no caso do Estado, o sujeito da soberania é o próprio povo como tal”, sendo esta forma a mais eficaz para obter o “bem comum de todo o povo”, que é a “Res publica” (as coisas públicas, o Estado, é algo do povo, coisa pertencente ao povo, o povo tem o direito natural de controlar o Estado).

Na página 24, Ratzinger lembra que “segundo Rom 13, a existência, em princípio, da autoridade, forma parte da ordem da criação” [da natureza] e “que, portanto, o detentor concreto da autoridade não obtém seu cargo pela graça de Deus imediatamente e prescindindo do povo”. O poder vem de Deus, mas não diretamente, e sim por mediação do povo, pela natureza. 

Afinal, cf. Ratzinger, a própria “existência do ordenamento estatal está de acordo com a natureza humana”. Assim, o detentor concreto da autoridade a obtém por mediação do povo, vindo o poder de Deus, de forma mediata, não imediata, pois o poder vem de Deus pela mediação da consciência do povo.

Se o poder vem de Deus imediatamente ou por mediação, este ponto não foi abordado diretamente por Leão XIII. Esta questão foi aclarada por Feret, no livro “Le pouvoir civil devant l´enseignement catholique” (Paris, 1888). Feret, quando preparava uma nova edição desta obra, pediu uma explicação a um Cardeal sobre a frase de Leão XIII, na “Diuturnum” (“aqueles que vão governar as repúblicas podem… ser eleitos pela vontade e juízo da multidão”, do povo, “com cuja eleição se designa certamente o príncipe, mas não se conferem os direitos do principado”, somente “se estabele quem vai exerce-lo”).

O Cardeal explicou que Leão XIII não discutiu na “Diuturnum” a questão se o poder vinha de Deus “immediate” ou “mediate”. Mas, grandes Teólogos da Igreja o fizeram e Ratzinger os recomenda, o futuro Bento XVI recomenda o melhor da teologia política, como Haring, que, por sua vez, seguia Suarez, Molina e outros. ill

Ratzinger acrescenta que “a teoria da soberania do povo” é aceita pela Igreja, com “uma dupla limitação”.

A primeira limitação é que “a finalidade dos Estados” nacionais é limita pelo fato dos povos nacionais serem “parte da humanidade”, tendo, assim, cada Estado um conjunto de “obrigações supra-estatais”. Cada povo é soberano “dentro” dos limites dos “fins superiores da humanidade como tal”. pois a Igreja recomenda a criação de um Estado federativo ou confederativo mundial.

A segunda limitação é dada pela própria finalidade intrínseca dos Estados, que é “o bonum commune”, o “bem comum de seus cidadãos”. O “melhor funcionamento” das “instituições” “constitui, em certa medida, a realização de seu próprio por que”, de seu próprio fim, que é realizar o bem comum. A soberania do povo é limitada pelos limites do bem comum, ou seja, as decisões do povo devem ser a favor do povo. O Estado é legítimo quando nasce do povo, age pelo povo e quando atua tendo como finalidade (causa final) o bem do povo, o bem de todos, o bem comum. 

Ratzinger destaca obras fundamentais da teologia sobre a democracia, especialmente os textos de Haring, Tischleder e outros (faltou Schilling, Carlyle, Alceu e inúmeras estrelas da Igreja):

“A obra clássica sobre o problema da soberania do povo era, sem dúvida, o estudo de A. Tischleder, “ursprung und Trager der Staatsgewalt”, Monchen-Gladbach, 1923. Suas conclusões passaram a ser amplamente “doctrina recepta” – doutrina comum – da teologia moral católica; veja-se, por exemplo, Bernhard Haring, “La Ley de Cristo”, Herder, Barcelona, 1973; K. Morsdorf, “Staat”, em “Lexikon fur theologie und Kirche” IX, 992-995 (especialmente 994)”. Neste blog, eu cito Bernhard Haring várias vezes, pois é uma das maiores autoridades na teologia moral, junto com Marciano Vidal. 

Na página 49, Ratzinger destaca, “dentro” da Igreja, situações que “correspondem ao que, no campo político, chamamos democracia”, já que, “na realidade, a Igreja possui suas próprias tradições democráticas”, que convém “desenvolver”, especialmente “a estrutura colegial” da autoridade; a “infalibilidade do povo cristão em sua totalidade”; e “o caráter subjetivo de cada comunidade concreta”.

O “caráter subjetivo das comunidades” tem reflexo inclusive na liturgia, onde “o sujeito da celebração é precisamente a comunidade reunida como uma unidade”, sendo o “sacerdote” um “intérprete” e um representante da comunidade.

Ratzinger, na página 55, lembra que na “Idade Média, as distintas comunidades elegiam, por si mesmas, seus dirigentes”, sendo a eleição dos “cargos eclesiásticos” “a expressão mais evidente do caráter subjetivo das igrejas particulares”.

Assim, Ratzinger queria uma síntese, onde as comunidades e o Vaticano pudessem ter partes nas nomeações. Se os cargos tivessem “maior transcendência para a Igreja universal”, o Vaticano teria mais peso; se fossem mais próximos, a parte maior ficaria para as comunidades locais. Basicamente, é a linha das centenas de Concordatas feitas pela Igreja, inclusive umas 30 no século XIX. 

Conclusão: os leigos católicos têm um grande caminho pela frente, para reformar os Estados políticos e a própria Igreja, para termos estruturas políticas e eclesiais mais participativas e voltadas ao bem comum. 

Destinação universal dos bens é compatível com pequenas e médias propriedades familiares, moradia popular, carros populares etc

A regra da destinação universal dos bens é a regra da comunhão de bens. Deus fez os bens para todos. Quando Deus nos criou, como está em Gn 1,26, disse – crescei e vos multiplicai, controlai a terra, para que todos tenham vida plena, abundante, simples, digna, feliz. 

Esta regra não significa que a sociedade terá tudo, de forma indivisa.

Significa que cada pessoa deve ter uma porção, uma quota parte, do bem comum, dos bens destinados a todos.

Além desta porção, fração, quota parte, a sociedade deve ter vastos bens públicos, assegurar renda básica para todos, controles, bens grandes produtivos na forma de estatais e cooperativas. Economia mista. 

Todos devem ter lares, moradias populares, de boa qualidade.

Todos devem ter renda básica estatal, tal como uma espécie de herança, quando nascerem, o Estado já deve destinar recursos para a educação de todos, para alimentos de boa qualidade orgânicos, boas roupas, transporte público de ótima qualidade, lazer, cultura etc. 

Todos devem ter pequenos bens. Mediania.

Uma sociedade sem miséria, sem grandes fortunas privadas.

Com um amplo Estado social controlado pelo povo.

Todo processo produtivo deve ter o primado do trabalho.

A subjetividade do trabalhador deve ser amplamente respeitada, por formas de gestão pessoal no que tange a pequenos e médios bens, cogestão, formas de gestão participativa etc. 

 

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