Arquivos para : A “Fórmula” para explicar a relação entre Teologia, Economia, Política, Ciências e a Luta dos Trabalhadores

Conceito de Parusia – Participação na Presença, no Ser, na Substância divina, na Vida de Deus

No “Léxico de Metafísica”, de Aniceto Molinaro, vejo que o termo “Participação” vem do latim “Partem capere”, que significa “tomar parte”.

A palavra portuguesa “Participação” vem da palavra latina “partem capere”, que, por sua vez,  vem da palavra grega “Parousia”. Parusia é “Participação”.

Parusia é a Vinda de Cristo pela segunda vez e lembro que isso é um processo, no final das contas.

A parusia é um processo de ampliação da Presença de Deus no mundo. Parusia é a ampliação da participação na Substância de Deus, no ser de Deus, um processo de Comunhão ampliada.

No fundo, é participar (ter comunhão, cada vez mais…) na Vida de Deus, no Amor de Deus, na Ação, no Trabalho, na essência divina, divinizar-se, um processo de união das pessoas entre si, com a natureza e com Deus.

Deus é o Bem, logo é participar no Bem, ampliar sua cota-parte no Bem Comum, na união de Deus com o universo, pois o Universo é como a Casca de Deus, a parte externa de Deus, a criação do Criador, a parte externa de Deus.

Não é monismo e nem panteísmo, pois Deus é imanente e transcendente ao Universo, está Presente em tudo, sendo mais que o tudo.

Parusia é um processo que tende à ampliação cada vez mais da Presença, a união cada vez maior do Universo com Deus, o “venha a nós o Vosso Reino” em processo.

Parusia é o processo de ampliação da união da “terra” e do “Céu”, a plenificação, ampliar a plenitude de Deus, no mundo.

Unir “terra” (especialmente as pessoas, mas também a natureza) e Deus, num movimento eterno.

Um processo de Evolução cósmica, pois Deus sempre melhora e sempre melhora o Universo, o movimento histórico é um movimento para cima e para diante, de melhoramento, de Evolução.

As pessoas vão melhorar mesmo após a morte, frise-se, e isso sempre foi ensinado pela Igreja e é apenas repisado por teólogos como Champlin. 

O termo “parusia” vem de tomar parte na “ousia”.

Ousia, por sua vez, significa “ser”, “substância”, “presença”, “essência”, conteúdo, vida etc.

Vejamos o que está no Wikipédia sobre “ousia”, termo grego muito importante. 

“Ousía (οὐσία, pronúncia moderna “ussía”) é um substantivo da língua grega formado a partir do feminino do particípio presente do verbo “ser”, εἶναιeinai”.

Note que “ousía” é pronunciado como “ussía”, com “u”.

“A palavra é, por vezes, traduzida para português como substância ou essência, devido à sua vulgar tradução para latim como substantia ou essentia. É termo utilizado em Filosofia[1] e em Teologia.[2]

Filósofos gregos, como Platão e, principalmente, Aristóteles utilizaram esta palavra frequentemente nos seus discursos; é do uso dado por estes dois autores que decorre o atual significado atribuído correntemente à palavra, tanto em contexto filosófico como teológico.

Aristóteles usou o termo ao criar filos de animais, nos seus tratados de taxonomia biológica. Para este autor, o conceito de hypostasis (ou hipóstase) referia-se à existência de um ponto de vista lato, enquanto que ousia se referia a um espécime ou individual das coisas ou seres.

Martin Heidegger, mais tarde, defendeu que o significado original da palavra se perdeu na sua tradução para o Latim e, consequentemente, para as línguas modernas. Para este autor, significava “Ser” e não “substância”; isto é, não se pode aplicar a um conceito cuja etimologia remete para algo que permanece (-estância) “sob” outra (sub-). Usou, ainda o termo binomial parousia – apousia para significar ‘presença’ – ‘ausência’ e o termo hypostasis para significar existência.

Significado teológico primitivo

Orígenes, (c. 182 – c. 251) usou o termo ao dizer que Deus é um gênero de ousia com três espécies distintas de Hipóstases: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo”, ou seja, Um Ser e três Presenças, “hypostasis”, “hipóstase”.

Os Sínodos de Antioquia, em 264-268 condenaram o termo homoousios (mesma substância) para se referir ao Filho e ao Pai, devido às raízes gregas e filosóficas da palavra, contudo a expressão foi consagrada pelo Primeiro Concílio de Niceia como fórmula de fé, já que Paulo de Samósata, cujos predicados teológicos estavam então em discussão, usava a palavra homoousios para significar que o Logos ou o Filho era uma só pessoa com o Pai [Pai e Filho, duas Pessoas, um Ser]. 

No Primeiro Concílio de Niceia em 325 debateram-se, de fato, os termos homoousios e homoiousios. A palavra homoousios significa “a mesma substância”, enquanto que a palavra homoiousios significa “de substância similar”. Note-se que os termos diferem apenas numa letra (a letra grega iota). Existe mesmo uma expressão idiomática em inglês (“differ not by one iota.”) que faz eco deste conceito: duas coisas que não difiram um iota são duas coisas que têm a mesma substância.

Credo de Calcedônia de 451 afirmava que Deus tinha uma só ousia, ainda que tivesse três hipóstases. Um Ser, Três Pessoas. 

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  1. Ir para cima CHAUI, Marilena, Convite à Filosofia, Ed. Ática, São Paulo, 2000
  2. Ir para cima Doutrina Católica – acesso a 28 de Novembro de 2007

Amor às tradições não é fossilização, e sim conservar o que seja bom e fecundo, para ampliar, para progredir, aumentando o bem comum, no tempo

Pio XII, num discurso de 28.02.1957, resumiu bem este ponto, ressaltando que “o respeito às tradições” não significa “a fossilização em formas ultrapassadas pelos tempos;

mas sim a conservação em vida daquilo que os séculos demonstraram ser bom e fecundo. Desse modo, a tradição não impede absolutamente em nada o justo e feliz progresso“.

A tradição correta – o bom tradicionalista é sempre progressista – é “um poderoso estímulo para perseverar no caminho seguro”, pois visa aumentar o bem comum na história, no tempo, na eternidade, uma evolução sempre contínua, um evolucionismo eterno.

Todas as estruturas estatais e econômicas devem melhorar, estarem organizadas para o florescimento da vida de todos.

A evolução e flexibilidade do direito natural já era explicada e constatada por Hermes Lima, um de nossos juristas progressistas. Este ensinou em sua obra principal, “Introducção à sciencia do direito” (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1933, p. 124), que o pensamento tomista era flexível e evolutivo:

“… a filosofia escolástica teve em Santo Tomás de Aquino o grande elaborador da concepção jurídica do cristianismo. Ela adotou a tríplice distinção romana do jus naturale, jus gentium, jus civile, distinção que inspirou a Santo Tomás o seu famoso quase silogismo, no qual se procuram determinar as relações do direito natural com o positivo. Os dados do direito são a maior desse silogismo, imperfeito, porque flexível; as contingências do meio histórico são a menor e o direito positivo, a conclusão”.

Trocando em miúdos, em linguagem clara como a luz do sol – o  “jus naturale” são as ideias naturais práticas, do povo, para melhorar a estrutura e organização dos Estados e das estruturas econômicas, para todos terem vida plena.

O “jus gentium” é o Direito Internacional público, que exige um Estado mundial, Federações Continentais e Estados nacionais com Regiões (regionalismo), estados membros, Municípios fortes, bairros organizados com poder político, difusão de foruns para auto-organização das pessoas, dos trabalhadores.

O “jus civile” é o conjunto das leis positivas em cada nação (há umas 240 nações no mundo, talvez mais), das regras positivas, estruturais, institucionais, consensuais como toda regra deve ser, para melhoria da vida das pessoas. 

O que Hermes deixou de explicar foi que, além das mudanças da premissa menor (“as contingências do meio histórico”), há também uma evolução na compreensão da “lei natural” (ou seja, na premissa maior do silogismo), como mostraram Maritain, Renard, Stammler, Sertillanges, Alceu e outros grandes luminares.

O conhecimento aumenta no tempo, ponto bem frisado por Francis Bacon. 

A premissa maior é composta da natureza, das ideias práticas que melhoram as pessoas e coisas. De regras racionais e sociais exigidas pelo bem comum, que se ampliam e se aperfeiçoam com o progresso cultural, tecnológico, psicológico etc.

A “lei natural” é formada por um conjunto de idéias (verdades) nascidas do movimento natural da inteligência e há um progresso (científico, cultural, no conhecimento etc) verdadeiro na história.

As teorias sobre o progresso na história foram esboçadas nos textos de Santo Agostinho, São Gregório de Tours (538-594 d.C.), Vico, Herder, Hegel, o grande Agustin Thierry (um grande católico, que foi o verdadeiro criador da classificação das classes sociais, cf. explicou e reconheceu Marx), Bergson, Maritain, Teilhard e outros autores.

Hermes Lima queria uma Democracia popular, por isso, seu pensamento é bem próximo da Igreja Católica, progressista. 

Algumas boas lições de Pio XI, bem atuais

Pio XI, na “Divini Redemptoris” (n. 34), também destacava que o papel da doutrina da Igreja e de seus militantes é: “conservar sempre o equilíbrio da verdade e da justiça; reivindica-o na teoria, aplica-o e promove-o na prática, conciliando os direitos e os deveres de um com os dos outros, como a autoridade com a liberdade, a dignidade do indivíduo com a do Estado, a personalidade humana” com a autoridade.

A doutrina da Igreja visa conciliar “o amor ordenado de si mesmo, da família e da pátria, com o amor das outras famílias e dos outros povos, fundado no amor de Deus, pai de todos, primeiro princípio e último fim”.

Pio XI também destacou que o cristianismo não “separa a justa preocupação dos bens temporais” e a “justiça”.

Segundo o bom ensinamento de Pio XI, o cristianismo não visa “prejudicar os progressos da sociedade” ou “impedir os adiantamentos materiais”, pois,

pelo contrário sustenta e promove da maneira mais razoável e eficaz. E assim, até mesmo no campo econômico-social, a Igreja, muito embora não tenha jamais apresentado como seu um determinado sistema técnico, por não ser essa a sua missão, fixou contudo claramente princípios e diretivas que, prestando-se a diversas aplicações concretas segundo as várias condições dos tempos, dos lugares e dos povos, assinalam o caminho seguro para obter o feliz progresso da sociedade”.

Algo sobre a Parusia em curso e a regeneração das pessoas

A doutrina da Igreja ensina que as pessoas foram feitas e planejadas por Deus para serem co-criadoras, co-regentes, para controlarem a si mesmos e ao universo (cf. Gn 1,26), para serem cooperadores de Deus na criação e na redenção, libertação plena.

A “renovação do mundo” será feito pela união do mundo com o céu, renovação gradual, tipo um purgatório extenso, de melhoria constante, embora hajam melhorias no Céu, até mais uai.

Estes pontos estão claros no Apocalipse, 21,2, na elevação do universo para a união com o Céu, unindo a natureza (especialmente a natureza humana) com a natureza divina. Por esta razão, na oração do “Pai Nosso”, os cristãos rezam “venha a nós o vosso Reino”, “assim na terra como no Céu”, para uma grande fusão, superação, elevação, boa síntese.

O documento “Gaudium et spes” (07.12.1965, n. 39), ensina que “o universo” “será transformado”, numa “nova morada”, “nova terra, onde habita a justiça (cf. 2 Cor 5,2; 2Pd 3,13) e cuja felicidade saciará superabundantemente todas as aspirações de paz que sobem do coração dos homens (cf. 1 Cor 2,9; Ap 21,4-5)”.

A “morte” será “vencida” e os “frutos” da “caridade” permanecerão, com a criação “libertada da escravidão”. Isso ocorre junto com a regeneração das pessoas. Todas as vezes que as pessoas fazem o mal, devem ser levantar e se regenerarem, irem melhorando, tal como todas as vezes que fazemos o bem, e devemos melhorar.

Esta regeneração (consciência do erro e desejo de melhora, a base do Sacramento da Regeneração, do perdão, do amor crescente) vem junto com a ressurreição gradual, a formação do corpo espiritual em nós, que é a base da vida eterna. Um corpo integrado ao espírito, um espírito corporificado, onde o coração, as entranhas, os olhos, a boca, o peito, as mãos, tem papel e permanecem. As verdades do Catecismo são fragmentárias e sempre comportam boas interpretações, que ampliam o conhecimento religioso. 

Na “terra presente” “cresce” “o corpo da nova humanidade”, que “já apresenta uma certa prefiguração que faz entrever o mundo novo”. Assim, todo “progresso terreno” que “pode contribuir para melhor ordenar a sociedade humana” “é de grande importância para o Reino de Deus”.

Noções boas sobre a Providência divina

A teoria providencial da Igreja (inclusive de Taparelli), que é o conjunto de ideias sobre como atua Deus na história e na vida, é toda baseada em causas naturais, especialmente o consentimento racional (fruto do diálogo), como causa eficiente da formação da sociedade, da autoridade, dos governos e das leis.

A teoria cristã sobre o poder não exige milagres, para a formação e para a gestão dos Estados. Da mesma forma, a santificação (que é a divinização) das pessoas não é feita mediante milagres, que são exceções raras, acréscimos, fatos extraordinários, e não normais (ordinários). 

Os Papas ensinaram corretamente como age a Providência no mundo e na história.

Por exemplo, Bento XIV (papa elogiado por Voltaire, que renovou a condenação da escravidão, em 1741) definiu a ação da Providência (dos “fatos providenciais”) do seguinte modo:

Algum fato que não excede os poderes da natureza nem no referente ao fato como tal, nem no referente ao que se faz, nem com referência ao modo ou ordem com que se faz; mas pelas circunstâncias claramente se deduz que o fato procedeu [por mediações, por dentro da natureza, especialmente pela liberdade humana] de Deus, e a Ele deve ser atribuído como especial Autor, que por Si mesmo dispôs o acontecimento e deliberadamente o quis”.

O Cardeal Newmann (1801-1890) deixou bons textos sobre o papel da Providência e como esta age, principalmente, por influência moral, tal como sobre a existência periódica e excepcional de milagres. É o mesmo ensinamento das teorias sobre a graça (o ápice da ação divina), a graça não ocorre, normalmente, por milagres. A graça (que é a ação do Espírito Santo) ocorre por “dentro” da natureza, sem violar a natureza, e sim aperfeiçoando a natureza, melhorando-a. 

A ação do Espírito Santo ocorre como que “por dentro” (inculturação) da natureza.

Este é o núcleo do ensinamento da teoria tomista sobre a graça, tal como das teorias de Santo Agostinho, franciscana e especialmente das teorias de Luís de Molina, do congruísmo e da Escola de Sorbonne. Todas estas teorias explicam que a divinização (perfeição, união dialógica com Deus) humana ocorre pela cooperação ativa (as pessoas cooperam, trabalham junto com o trabalho divino, do Espírito Santo) da inteligência, da vontade, dos afetos, da imaginação, dos instintos, da memória e mesmo do corpo humano, num movimento só, próprio da unidade humana.

Quanto mais a pessoa for boa, mais enxerga os “sinais” e os planos divinos na história de sua vida pessoal, familiar e social. Os textos do Cardeal Newmann constam no livro “Milagres” (São Paulo, Ed. Loyola, 1996, pp. 291-292), do padre Quevedo.

Vejamos o ensino do Cardeal Newmann, que explicam a ação normal de Deus no mundo por dentro das forças naturais, sendo esta a forma de agir normal da Providência:

Dedicando-se tão longamente à questão das leis da natureza, esquecem [os racionalistas] em igual proporção a existência de um sistema [conjunto de regras racionais e éticas] moral. [Este “sistema” moral, regras racionais tendentes ao bem comum], nas suas leis [naturais, regras presentes e geradas pela consciência] e disposições é tão inteligível como o sistema do mundo material. Determinados instintos de nossa alma referem-se a este governo moral: a consciência, o senso de responsabilidade, a aprovação outorgada à virtude, o desejo inato de saber, um sentimento quase universal da necessidade de observâncias religiosas, e no seu conjunto as recompensas concedidas à virtude, os castigos infligidos ao vício. E apesar de encontrarmos aqui várias anomalias patentes é evidente que não são mais do que anomalias, a ainda talvez somente anomalias aparentes, provindas de que somos incompletamente informados”.

“Estes dois sistemas, o físico e o moral, estão umas vezes em harmonia, outras em conflito. E da mesma forma que a ordena da natureza se encontra às vezes em oposição às leis morais, por exemplo, quando homens virtuosos morrem prematuramente ou os dons da natureza são prodigados aos malvados; da mesma forma nada tem de inverossímil a idéia de que um grande objetivo moral possa ser realizado por uma interrupção da ordem física (…) Mais ainda, embora as leis físicas possam atrapalhar a ação do sistema moral, não obstante em conjunto o servem. Porque é certo que elas contribuem para o bem (…) do homem, e que às vezes inclusive lhe trazem corretivos as suas desordens morais. (…)”.

“E em conseqüência, o [milagre] está bem longe de ser improvável quando um grande bem moral não pode ser alcançado senão às expensas da regularidade física”.

O ponto central da concepção política da Igreja é que a ação normal da Providência (os milagres são exceções), como ensina a doutrina da Igreja, opera por “dentro” da natureza, “não supera de nenhuma maneira as forças da natureza” (cf. Bento XIV, na continuidade do texto acima transcrito).

A voz do povo, nas peças de teatro clássicas, é a voz do povo, é a voz de Deus. A voz de Deus é o conjunto das idéias naturais, concebidas na consciência, que servem de luzes para nossa vida.

O “destino” é a Providência divina, é a Voz de Deus que nos aponta os caminhos da vida. Nós podemos controlar nosso destino se nos autogovernarmos, se pautamos nossas vidas de forma racional e em adequação ao bem comum.

O Espírito atua em nosso espírito, reforçando nossas faculdades naturais, especialmente a inteligência, mas também a vontade, a imaginação, a relação profunda entre consciência e corpo etc. Isso ocorre principalmente por moções, graças, gerando idéias boas, em nós. A vida humana é um combate, tendo de um lado as idéias boas vindas de Deus pelo movimento natural de nossa consciência. De outro lado, há as idéias más, vindas do Diabo, por mediações, por maus livros, por maus amigos, por leis iníquas, por situações e condições infra-humanas e iníquas.

A ação de Deus ocorre no mundo todo, em toda a Paideia natural

O Concílio Vaticano II, no documento “Ad gentes”, cita o discurso de São Paulo, ensinando a importância da inculturação, que é o universalismo, a essência do catolicismo (“católico” é um termo “grego”, usado no Novo Testamento, que significa “universal”, geral, difuso, comum):

As iniciativas religiosas, por meio das quais os homens procuram Deus de muitas maneiras…  precisam ser esclarecidas e corrigidas, ainda que, por um desígnio benevolente da Providência divina, se possa às vezes considerá-las como uma orientação para o verdadeiro Deus ou uma preparação para o Evangelho”.

A Paidéia no sentido lato (não só a grega, mas a persa, a egípcia, a mesopotâmica, a indiana, a chinesa, a japonesa, a indígena, a africana etc), como foi ensinado por vários Santos Padres (São Justino, São Clemente de Alexandria, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Basílio e outros) e por vários Papas (Leão XIII, Pio X, Pio XI, Pio XII e outros), foi uma “preparação” e “orientação” para o Evangelho.

A Paidéia floresceu sob o terreno da razão natural e da Tradição primitiva, da Religião primitiva, da Paidéia mais antiga, que gerou também o núcleo mais profundo do hinduísmo (que não é reencarnacionista); da religiosidade chinesa, japonesa, corena, vietnamita etc; tal como da religiosidade africana (destaque para os iorubas da Nigéria); da Oceania; e ameríndia, dos índios do continente americano.

Elogio da China, por Pio XI, em 1928

Pio XI, numa Mensagem ao delegado apostólico na China, em 01.08.1928, elogiava o povo chinês, prevendo um futuro grandioso para a China:

são reconhecidas plenamente as legítimas aspirações e os direitos de um povo, que é o mais numeroso da terra, povo de cultura antiga que conheceu momentos de grandeza e esplendor, e ao qual, ao se manter nos caminhos de justiça e da honra, não pode faltar um porvir grandioso”.

A ligação entre Paideia e as ideias semitas foi feita dentro da Bíblia, do judaísmo e do cristianismo

O livro de Júlio Trebolle Barrera, “A Bíblia judaica e a Bíblia cristã” (Petrópolis, Ed. Vozes, 1996, p. 564 e 565), mostra a linha principal do judaísmo, onde a “hermenêutica judaica, babilônica e alexandrina, oriental e ocidental, semitizante ou helenizante” tem um “ponto de condensação no personagem Hillel”, que “promulgava normas e ensinava a doutrina baseando-se mais na lógica e na dedução racional que na tradição e nas autoritates”. Como explica Trebolle Barrera, Hillel usava a “lógica”, “de corte grego”, “introduzindo no direito e no pensamento hebraico o princípio do realismo socrático e estóico e um talante dialógico”.

O estoicismo valorizava a lógica e mesmo a interpretação etimológica e estes textos foram usados pelos hebreus.

Trebolle é claro: houve uma “simbiose de tradição e modernidade”. Na p. 569, Júlio Trebolle lembra que “a lógica da hermenêutica hilleliana correspondia um estilo dialógico, que favorecia e alentava o pluralismo de opiniões e de pontos de vista”, “resolvida uma questão”, “por decisão majoritária, ainda era possível ensinar uma opinião contrária, sempre que esta fosse defensável por argumentos racionais”. Por esta via, “a razão ocupa lugar central na hermenêutica rabínica”.

A Paidéia (no sentido de “cultura”, de “Tradição”) helênica foi construída, desde o início, nas cidades jônicas, da Ásia, permeadas pelas ideias semitas, usando um alfabeto semita, o fenício, que foi usado pelos gregos. O início foi feito por pessoas descendentes de fenícios, como Tales, Ferecides e pessoas como Pitágoras, influenciadas pelas ideias semitas. O mesmo para Heráclito e outros. Esta síntese se amplia com o estoicismo. E, depois, aumenta mais ainda, especialmente após a ampliação da Grécia, por Alexandre o Grande. Alexandre foi até Jerusalém, até o Egito, a Pérsia e mesmo a Índia (parte da Índia esteve sob o controle dos persas, antes).

Logo, a Paidéia teve amplas fontes semitas, foi sintetizada na fase helenística, é uma síntese gestada especialmente nas cidades asiáticas da Jônia, e, depois, em Alexandria e nas cidades da Ásia Menor (destaque para Tarso, Antioquia e Éfeso), permeada de idéias persas, fenícias, hebraicas, egípcias, babilônicas etc.

A grande lição democrática do Cardeal Louis Billot, resumindo a lição de Francisco Suarez, o maior tomista da Igreja

O cardeal Louis Billot, jesuíta, foi um dos principais estudiosos dos textos de Suárez. Billot teve o mérito de expor com clareza o pensamento democrático da neo-escolástica (a partir de 1850, mais ou menos). A neo-escolástica, por sua vez, foi baseada na Paídéia e nos textos bíblicos, no melhor do pensamento antigo (especialmente grego-romano), dos Santos Padres e de Santo Tomás.

O Cardeal Billot, segundo consta no livro do padre Jose Llovera (“Tratado de sociologia cristiana”, Editorial Luis Gili, Barcelona, 1959, p. 117), adotava as duas teses centrais (que são as vigas mestras da teoria política e jurídica) expostas por Santo Ambrósio, Santo Isidoro, Santo Tomás, John de Salisbury (1115-1180), Suárez e outros luminares da Igreja:

a) “o direito de determinar a forma de governo e a lei de investidura do poder residem originariamente na comunidade”; e,

b) “o direito de estabelecer uma nova forma de governo e uma nova investidura do poder reside sempre na comunidade, enquanto o exige a necessidade do bem comum”.

Estas teses foram explicitadas com mais clareza por Francisco Suárez e Bellarmino (um dos 33 Doutores da Igreja), que, com vários escolásticos e neoescolásticos, ensinavam a tese da origem divina mediata (e não imediata) da autoridade, do poder. Ensinavam que o poder vem, sim, de Deus, mas Deus atua por mediações, pela mediação do povo. O livro “Sobre o mundo”, atribuído a Aristóteles, mas escrito no início do século II d.C., explica bem a transcendência de Deus, destacando a ação divina por mediações, por motores (causas) segundos. O mediador principal é a natureza, especificamente, a razão humana, presente em todos, logo, a fonte imediata está no próprio povo, na comunidade (na consciência da sociedade, formada pelo enlace das razões pessoais, pelo diálogo).

Deus atua através do povo, mais especificamente, pelas regras (idéias, valores, virtudes) práticas, racionais, sociais (éticas) nascidas da luz natural da consciência (especialmente da razão). As consciências, por sua vez, unem-se pelo diálogo, formando o que se convencionou chamar de consciência social (cf. Durkheim, Hegel, Savigny e outros, embora tenham cometidos equívocos aqui e ali).

Esta consciência social (da comunidade), mesma com erros e névoas (oriundas dos erros, das mentiras, imaginação e paixões desordenadas) orienta o processo histórico-social.

Como está claro no chamado “paradoxo do advogado” (cf. Picard, explicando a importância da advogacia para a Justiça), os debates, nas lides, são formas de diálogo. O diálogo é essencial para o esclarecimento dos fatos e das idéias. Na psicanálise, exaltando as palavras e o diálogo, há a linha de Victor Frankl e de Lacan. Lacan destacou a importância do discurso (cf. bons textos do psicanalista católico, Hélio Pelegrino, em “O espelho quebrado”, 1981).

O objetivo da humanidade – como ensinaram Pascal, Maritain e milhares de bons autores– é obter o controle consciente deste processo, da história, orientando-a rumo à parusia (continuidade da criação e renovação do universo).

Citar Billot é importante, pois este Cardeal foi influenciado pelo nacionalismo (havia uma parte boa neste nacionalismo, pois o nacionalismo é bom, em harmonia com um bom Estado mundial federalista) da Ação Francesa. No entanto, mesmo sob a influência de erros de Maurras e outros, Billot soube resumir bem a teoria tradicional da Igreja sobre o poder, usando as fórmulas de Suárez. Num parêntese, apesar de seus erros grotescos, Maurras também deixou alguns textos bons sobre nacionalismo, a importância da razão e da Paidéia. No final da vida, Maurras arrependeu-se de vários erros graves, abandonou o materialismo e aproximou-se da Igreja.

A condenação da “Ação Francesa”, pela Igreja, em 1926, foi muito importante e correta, tendo o elogio de Gramsci.

A condenação deixou claro que a doutrina da Igreja está em perfeita harmonia com as linhas gerais de uma democracia verdadeira, como foi demonstrado por Maritain, Mounier e o próprio De Gaulle. A condenação abriu caminho a Herriot, e a formação da Frente Popular, pela Democracia popular, na França. 

O general De Gaulle foi um grande católico, que ofereceu dura resistência ao neoliberalismo e ao imperialismo dos EUA, tal como soube liderar a Resistência Francesa, contra o nazismo.

De Gaulle queria a extinção do FMI, da forma como foi organizado, o fim do monopólio do dólar, a extinção do Senado, a descentralização do poder, a participação obrigatória dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas e outras reformas sociais, um Estado descentralizado, uma Democracia popular, com Estado social e economia mista.

Conclusão: a consciência do povo é a parte mais importante das forças produtivas, da sociedade.

A consciência da sociedade deve reger e adequar racionalmente as relações sociais (inclusive as produtivas) e os recursos ao bem comum, ao bem de todos. A consciência do povo, e de cada pessoa, está encarnada no corpo humano.

Não temos a natureza de anjos, e sim composta, mesclada com a carne (especialmente o cortéx cerebral), o sangue os nervos e ossos, como ensina o hilemorfismo tomista e os textos hebraicos.

No fundo, somos seres espirituais ligados à matéria, ao corpo, que a alma informa, regenera, permeia, vivifica. Fomos feitos para sermos como anjos, com corpos espirituais, imortais, com as qualidades que São Tomás resumiu, como imortalidade, invulnerabilidade, permeabilidade, agilidade, luminosidade etc. 

— Updated: 09/12/2018 — Total visits: 42,357 — Last 24 hours: 35 — On-line: 0
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