Arquivos para : A “Fórmula” da Teologia da libertação: teologia-reflexão DO, PELO e PARA O POVO, para AMPLIAR A VIDA e a DIGNIDADE HUMANA

Carta dos 29 Parlamentares dos EUA, destaque p Senador Sanders, socialista democrático

247 – Leia a íntegra da carta dos 29 congressistas americanos, incluindo o senador Bernie Sanders, que foi pré-candidato à presidência dos Estados Unidos em 2016, enviada nesta quinta (26) ao embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral e, através dele, ao governo brasileiro:

“26 de julho de 2018

Caro Embaixador Sergio Silva do Amaral:

Nós somamos nossas vozes aos recentes pedidos dos ex-presidentes do Chile e da França, Michelle Bachelet e François Hollande, bem como do ex-primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, em oposição à intensificação do ataque à democracia e aos direitos humanos no Brasil.

Nos últimos meses, Marielle Franco, vereadora e defensora de direitos humanos amplamente admirada, foi morta em um assassinato executado profissionalmente, enquanto o principal candidato presidencial para as eleições de outubro no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi preso por acusações não comprovadas.

Nós, respeitosamente, pedimos que você trabalhe para facilitar uma investigação independente sobre o assassinato da Sra. Franco; apoiar os direitos dos trabalhadores brasileiros; e trabalhe para assegurar que o Presidente Lula tenha seu direito constitucional ao devido processo legal garantido.

Em março, nós ficamos horrorizados em saber sobre a execução da vereadora da cidade do Rio de Janeiro, Marielle Franco, uma corajosa defensora dos direitos das mulheres afro-brasileiras e membros da comunidade LGBTQ, e uma destemida ativista contra os assassinatos de jovens pela polícia nas favelas do Rio. Evidência críveis sugerem que membros das forças de segurança do Estados poderiam estar implicados no assassinato.

Em abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi preso após um processo judicial altamente questionável e politizado, no qual seus direitos processuais foram aparentemente violados. Os fatos do caso do Presidente Lula nos dão razão para acreditar que o principal objetivo de sua prisão é impedi-lo de concorrer nas próximas eleições.

O Brasil é atualmente o lugar mais perigoso do mundo para os defensores dos direitos à terra e recursos naturais, segundo a Global Witness. O respeitado grupo de direitos humanos Comissão Pastoral da Terra documentou mais de 70 assassinatos de defensores dos direitos da terra em 2017, incluindo muitos líderes de comunidades indígenas e membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A grande maioria desses assassinatos ficou impune.

Além disso, desde que assumiu o poder por meio de um controverso processo de impeachment, o governo de extrema-direita do presidente Temer instituiu um congelamento de gastos que desencadeou importantes cortes em programas vitais de saúde e educação, e promoveu um total ataque aos direitos dos trabalhadores.

Em fevereiro de 2018, o comitê de especialistas da Organização Internacional do Trabalho descreveu as mudanças de 2017 do governo Temer no direito dos trabalhadores de barganhar coletivamente como “não baseadas em negociações, mas na abdicação de direitos”. Nós encorajamos seu governo a usar sua autoridade para evitar mais ataques aos trabalhadores.

Nós também exortamos as autoridades judiciais e políticas brasileiras para que garantam eleições justas e proteções aos direitos humanos: os tribunais brasileiros devem avaliar prontamente os méritos das acusações contra o presidente Lula, em que nenhuma evidência material foi apresentada como prova das acusações de corrupção do ex-presidente.

Como exortaram ex-líderes do governo europeu, o presidente Lula deve ter sua liberdade concedida enquanto as apelações à sua condenação estão pendentes, de acordo com as garantias constitucionais do Brasil. A luta contra a corrupção não deve ser usada para justificar a perseguição de opositores políticos ou negar-lhes o direito de participar livremente nas eleições.

Também esperamos ver justiça no caso de Marielle Franco, com os autores de seu assassinato capturados e processados, e medidas sendo tomadas para proteger outros ativistas corajosos que colocam suas vidas em risco denunciando a violência e a injustiça do Estado. Nós nos juntamos aos apelos por uma investigação internacional independente sobre seu assassinato.

Atenciosamente,

Mark Pocan (D-WI), Raúl M. Grijalva (D-AZ), Bernard Sanders (I-VT), Ro Khanna (D-CA), Jan Schakowsky (D-IL), Keith Ellison (D-MN), Pramila Jayapal (D-WA), Barbara Lee (D-CA), Adriano Espaillat (D-NY), Eleanor Holmes Norton (D-DC), José Serrano (D-NY), Rosa DeLauro (D-CT), James McGovern (D-MA), Maxine Waters (D-CA), Jamie Raskin (D-MD), Frank Pallone (D-NJ), Zoe Lofgren (D-CA), Alan Lowenthal (D-CA), Alma Adams (D-NC), Yvette Clarke (D-NY), Bobby Rush (D-IL), Linda Sánchez (D-CA), Peter Welch (D-VT), Robert Brady (D-PA), Henry C. “Hank” Johnson, Jr. (D-GA), Karen Bass (D-CA), David Price (D-NC), Luis Gutiérrez (D-IL), Derek Kilmer (D-WA)”

O cuidado da Igreja com operários e camponeses é algo tradicional, e não novo

Pio XI, na encíclica “Firmissiman constantim” (em 28.03.1937), sobre a situação dos trabalhadores no México, escreveu: “se amais verdadeiramente o operário (e deveis amá-lo, porque sua condição se assemelha, mais que nenhuma outra, a do divino Mestre), deveis prestar-lhe assistência material (…). Assistência material, procurando que se cumpra em seu favor não só a justiça comutativa, mas também a justiça social, quer dizer, todas aquelas providências que visam melhorar a condição” deste...” (…)

“Não menos grave nem menos urgente é outro dever, o da assistência religiosa e econômica aos camponeses”, “em sua maior parte agricultores, que formam a população indígena; são milhões de almas”, “são milhões de seres humanos que frequentemente vivem em condições tão tristes e miseráveis, que não têm nem sequer o mínimo de bem estar indispensável para conservar a dignidade humana”.

O papa destacava o “cuidado especial” da Igreja por operários e camponeses, especialmente pelos “mexicanos emigrados, os quais, arrancados de sua terra e de suas tradições” ficam facilmente “envoltos entre as insidiosas redes”. 

Boas lições do Padre Ducattillon O.P.

No livro organizado por François Mauriac e outros, denominado “O Comunismo e os cristãos” (Vecchi Editor, RJ, 1939, pp. 113-114), há um bom texto do padre Ducattillon O. P.:

Para o cristianismo o ponto de vista é completamente o das necessidades da vida humana (que não são de modo algum consideradas de maneira puramente subjetiva).

“Por isso a tradição doutrinária do cristianismo define a pro­priedade: o direito de usar coisas: quantum ad potestatem utendi ipsis.

“E assim cada homem, na medida das suas necessidades, tem o direito de possuir aquilo de que precisa.

“O que não é, certamente, afastar os méritos do traba­lho em relação à propriedade. O cristianismo quer, pelo contrário, que o homem normal obtenha pelo trabalho aquilo que necessita para viver, e o trabalho, pelo qual um homem coloca o seu traço pessoal num objeto, adquire-o para ele por esse fato mesmo, “porque, diz Leão XIII na encíclica Rerum Novarum, assim como o efeito segue a cau­sa, também é justo que o fruto do trabalho pertença ao tra­balhador”.

“Por isso o cristianismo não esperou o comunis­mo para condenar veementemente os abusos da proprie­dade baseada numa exploração indébita do homem pelo homem. E continuará a fazê-lo quando o comunismo já ti­ver desaparecido.

“Consequentemente, o cristianismo está longe de negar que em certos casos, segundo a expressão de Proudhon, “a propriedade é o roubo.” (…)

“Há a acrescentar que, para o cristianismo, o trabalho não é a única justificativa da propriedade e que, mesmo quando o adquiriu pelo próprio labor, o homem deixa de possuir um bem desde que ele cessa de corresponder a uma necessida­de da sua vida.

“É por não ter certeza de que o comunismo dos bens pode melhor assegurar o seu destino humano que o cristianismo recusa erigi-lo em regra absoluta”.

O padre Ducattillon foi um dominicano que veio várias vezes ao Brasil.

O padre Ducattillon e o padre Lebret auxiliaram muito a Igreja.

O padre Lebret escreveu que as posições de vários pensadores e militantes da Igreja ficavam mais à esquerda que muitos socialistas e apontou pontos de unidade entre as idéias cristãs e o socialismo.

Outros discípulos de Maritain (Bernanos) moraram no Brasil e defenderam a democracia, a reforma agrária, os camponeses etc.

Alceu Amoroso Lima destacou-se como o maior discípulo de Maritain, no Brasil. Os textos acima mostram bem a condenação ao capitalismo, à propriedade liberal (quiritária, pagã, capitalista) e ao latifúndio. Condenam também o imperialismo, pois no fundo o imperialismo é a ação do grande capital internacional, criticado também por autores como John dos Passos.

Como está claro no texto transcrito acima, mesmo os bens adquiridos licitamente pelo trabalho pessoal (em quantidade ética condizente e medida pelo bem comum) deixam de ser do dono quando cessam de corresponder a uma necessidade (finalidade social, utilidade social).

comunismo tem elementos corretos, como foi exposto neste blog e apontar estes pontos é fundamental num diálogo respeitoso e ecumênico.

Um bom texto de Pio XI, na “Divini Redemptoris”

As necessidades são os cernes (núcleos, miolos) dos direitos naturais. A cada necessidade natural fundamental corresponde um direito natural ao bem, objeto da necessidade específica.

Pio XI ensinou na “Divini Redemptoris” que, “assim como um organismo vivo não pode funcionar bem em seu conjunto se não se dá a cada parte e a cada membro tudo o que precisam para exercer suas funções, assim, tampouco, se pode procurar o bem do organismo social e de toda a sociedade [bem comum], se não se dá a cada uma das partes e a cada um de seus membros (…) tudo o que devem ter para suas funções sociais”.

A concepção da função social pressupõe deveres, mas também direitos subjetivos positivos, conforme o texto citado.

Elogio merecido de Lewandowski, por Paulo Henrique Amorim

A Tradição socializante da Igreja, dos católicos, no Brasil e no mundo

A doutrina social da Igreja é formada pela confluência entre o melhor da civilização grega-romana (e fenícia, egípcia, persa, suméria, babilônica, hindu, bantu etc) e o melhor da Tradição hebraica. Esta confluência ou síntese forma, no prisma humano, o cristianismo. Depois, há a Tradição dos Santos Padres, a Escolástica, São Tomás Morus, o abade Saint Pierre, os grandes santos, Mably, Morelly, o bispo Gregório, o bispo Faucher e outros, indo para os precursores da doutrina social (no sentido estrito) e os grandes Papas.

Todas estas fontes confluem em vários movimentos, especialmente a Ação Católica, dirigida principalmente por Alceu e Dom Hélder, no Brasil. Outro marco foi a A.P (Ação Popular, que surgiu da JUC), que defendia idéias de socialismo participativo, com liberdade. Os textos dos irmãos Betinho e Henfil trazem a mesma concepção, relacionando socialismo e democratização radical da sociedade. Esta concepção faz parte das entranhas do PT.

Dom Ivo Lorscheiter, que foi presidente da CNBB, propôs, em 1983, um modelo social cooperativista para o Brasil. Teve, ainda, uma militância na ação comunitária e cooperativista, na região de Santa Maria/RS. Seu irmão, Dom Aloisio Lorscheiter, em Fortaleza, defendia idéias semelhantes.

Outros bispos, como Dom José Gomes, Dom Hélder, Dom Casaldáliga, Dom Paulo E. Arns, Dom Tomás Balbuíno e muitos outros, defenderam idéias socializantes e democráticas (e muitos usaram o termo “socialista”). Vários bispos usaram corretamente a expressão socialismo com liberdade, ou socialismo personalista, ou socialismo participativo. Os marcos são Alceu e Dom Hélder. Na mesma linha, autores como Barbosa Lima Sobrinho, Getúlio, João Goulart, Brizola, San Thiago Dantas e centenas de outros. 

A CNBB, numa Mensagem da Comissão Central, na Páscoa de 1963, defendeu várias reformas de base essenciais, propostas por João Goulart, citando João XXIII e Getúlio Vargas, especialmente a reforma agrária (anti-latifundiária), a empresarial (formas de co-gestão e de participação na propriedade e nos lucros que visavam abolir o regime salarial), tributária (preferência pelos tributos diretos e progressivos, como forma de obter a justiça social, o bem comum), administrativa (democratizando o Estado), eleitoral e do sistema educacional.

Estas idéias eram defendidas, antes, por pensadores cristãos como Loewenstein, Vogelsang e Breda, que queriam a superação do regime assalariado, o mesmo fim almejado pela Liga Democrática belga e aprovada num Congresso de pensadores cristãos, em Roma, em 1894.

O Pe. Luigi Sturzo, na Itália, seguiu idéias semelhantes, que ecoaram na opção de Aldo Moro de aceitar amplas coligações com os socialistas e comunistas. Os governos de coalizão entre democratas cristãos e socialistas, na Itália, desde 1946, ficando mais forte em 1962, demonstram a mesma posição doutrinária. Na Itália, o PDC tinha várias correntes. Alcide Gasperi controlou o PDC após a segunda guerra e colaborou para melhorar a Itália, promulgando uma Constituição, com muitos pontos positivos e aceitava coligações com os socialistas. 

Depois, Amintore Fanfani passou a controlar parte do partido, graças a seguidores na Universidade de Católica de Milão. Aldo Moro, nascido em 21.09.1916, controlava um segmento mais à esquerda. Aldo Moro foi Ministro da Justiça e Ministro da Educação e várias vezes deputado federal. Aldo guiou o PDC na aliança com os socialistas, com o apoio da Igreja. A aliança não foi condenada, pois as idéias socialistas já tinham sido objeto de discernimento e depuração, estando adequadas à doutrina da Igreja. Além disso, muitas idéias socialistas tinham origens bíblicas, ou seja, no próprio Deus. Aldo Moro também admitia coligação com os comunistas. Este movimento foi que gerou o atual Partido Democrático, na Itália, com católicos sociais, socialistas e comunistas italianos eurocomunistas do antigo PCI. 

Fanfani, na década de 30, escreveu bons textos anticapitalistas. Na década de 60, defendeu a coligação com os socialistas. Depois, infelizmente, foi se tornando complacente com o capitalismo, até ser afastado da direção do PDC. Aldo Moro reforçou a ligação com os socialistas e tentou uma aliança com os comunistas, até ser assassinado. Há historiadores que apontam o dedo da CIA, pois a morte de Moro favoreceu as multinacionais.

As atividades da CIA mostram a face cruel e imperialista dos governantes dos EUA, representantes das multinacionais. O livro recente de Lincoln Gordon, que foi Embaixador dos EUA no Brasil, no período do golpe militar de 1964, confessa o que foi apurado na CPI do IBAD: que a CIA, tal como as multinacionais, financia e dá dinheiro (compra as consciências, forma traidores) para candidaturas de parlamentares e governantes, que defendem políticas da preferência do FMI e das multinacionais. Mais claramente, a CIA organiza a atuação das multinacionais, do latifúndio e do grande capital nacional (oligarquia), para o controle do Estado brasileiro. A esquerda combate isso, lutando por um Estado popular, de todo o povo. 

Dom Hélder recomendava um socialismo com liberdade, para o Brasil, na entrevista que deu em 1970, ao sair de visita ao Papa Paulo VI

Dom Hélder Câmara, no início de 1970, visitou o Canadá, sendo recebido pelo velho Pierre Trudeau (muito mais a esquerda que o atual Trudeau.

Depois, Dom Hélder foi a Roma, sendo recebido pelo Papa Paulo VI. No término da entrevista, deu uma entrevista famosa. Também foi ao Conselho Mundial das Igrejas. 

Na visita ao Papa, uma “fonte oficial” do Vaticano disse que o encontro teria sido “muito cordial”. Dom Hélder contou ao Papa suas “experiências passadas” e seus “projetos”. Saiu da audiência confiante e com “sua alma de bispo reconfortada”.

Na entrevista que Dom Hélder deu, disse que o Brasil “deve pensar em modelos socialistas proporcionais às nossas necessidades particulares”.

Ressaltou que esse socialismo brasileiro não coincide com o que se pratica atualmente nos países socialistas e acrescentou: “Sonho com uma socialização que seja realmente capaz de criar condições de desenvolvimento integral do homem, como define a encíclica “Populorum Progressio”.

Dom Hélder desmentiu a versão dos capitalistas que a Santa Sé lhe teria limitado a faculdade de fazer pronunciamentos sobre matéria econômico-social, declarando ser “plenamente livre para expressar suas idéias em qualquer parte do mundo”. Inclusive no Brasil, portanto.

O diário“Unità”, órgão do Partido Comunista,  publicou a entrevista com um título de chamada na primeira página. Colocou na matéria a fotografia de policiais fazendo uma carga de cavalaria contra pessoas fazendo um protesto, na saída de uma igreja no Rio.

Pio XII reconheceu que cabe ao Estado organizar (ordenar) a economia, a vida econômica

Pio XII ensinou claramente que o povo, pelo Estado, deve dirigir a economia.

Vejamos trechos do Discurso de 7 de março de 1957 ao VII Congresso da União Cristã dos Chefes de Empresas e Dirigentes da Itália — UCID — “Discorsi e Radiomessaggi”, n.º XIX, pag. 30): 

Cabe ao “povo” “a tarefa própria, se bem que parcial, de ordenar a economia futura. Este “encargo” deve ser feito pelo Estado e também por micro e pequenas empresas. 

Acrescentou: “sem dúvida alguma, segundo a doutrina social da Igreja, o Estado tem seu papel próprio na ordenação da vida social. Para desempenhar esse papel, deve mesmo ser forte e ter autoridade”, mas não deve reger tudo, e sim parte da economia. Economia mista. 

Salvador Allende, ao assumir o poder, disse que tentaria “converter em realidade o pensamento cristão”, uma forma de socialismo com liberdade, economia mista

Salvador Allende, quando assumiu o poder, declarou que “estaremos tentando converter em realidade o pensamento cristão”:

“A Igreja Católica sofreu mudanças fundamentais. (…) Hoje, depois de João XXIII, ela se orientou para transformar o Evangelho de Cristo em realidade, pelo menos em alguns lugares. Tive ocasião de ler a Declaração dos Bispos em Medelin, e a linguagem que usam é a mesma que usamos desde nossa iniciação na vida política, há 30 anos. Naquela época, éramos condenados por tal linguagem que hoje é empregada pelos bispos católicos. Acredito que a Igreja não será fator de oposição ao governo da Unidade Popular. Ao contrário, será um elemento a nosso favor, porque estaremos tentando converter em realidade o pensamento cristão. Além disso, haverá a mais total liberdade de crença religiosa”.

Alguns dos grandes projetos de reformas sociais, de Peron, no final de 1973

No final de 1973, existia, na América Latina, uma boa constelação de governos democráticos populares. No Chile, Allende; no Peru, Velasco Alvarado; na Argentina, Peron. 

Vejamos alguns dos Projetos de leis de reforma social, de Peron:

Lei de nacionalização de depósitos bancários. Foi aprovada pelo Congresso em 1º de Agosto de 1973 e já se acha regulamentada pelo Banco Central. Dispõe ela que todos os depósitos recebidos pelos Bancos particulares ficam sob gestão e responsabilidade do Banco Central. Os Bancos particulares se converteram, assim, em meros agentes daquele Banco oficial, recebendo comissão pelos serviços que executam. Somente podem eles fazer empréstimos a quem, e do modo por que, o Banco Central autorize. As operações especiais ficam sujeitas, em cada caso, à consulta do Banco Central.

Lei de Imposto de renda potencial da terra. Aprovou-a o Congresso em 11 de setembro de 1973. Institui um cadastro de todos os imóveis rurais, no qual deverá vir indicado o valor de cada qual. Cada proprietário deverá apresentar, sob juramento, uma declaração do valor de sua propriedade. Se ele declarar um valor inferior ao real, expor-se-á a uma desapropriação.

O triste Plínio Correa, ao comentar esta linda lei, disse: “se, pelo contrário, declarar um valor alto demais, ficará arruinado por um imposto anual, que chega até 4% sobre o valor da terra. A rentabilidade normal de uma propriedade agrícola na Argentina não é muito maior do que essa. Assim, ocorrendo qualquer erro na declaração, o proprietário facilmente se verá arruinado”.

Prorrogação dos arrendamentos urbanos. Estão suspensos os despejos dos locatários de imóveis urbanos. Assim, o proprietário urbano não poderia espoliar o inquilino.

Prorrogação das execuções hipotecárias. Foi aprovado pelo Senado um projeto de lei suspendendo até 31 de julho de 1974 as ações de execução de hipotecas, mesmo as que já tenham sentença passada em julgado.

Censo da propriedade urbana. No dia 23 de agosto de 1973, foi convertido em lei um projeto que ordena ao Poder Executivo iniciar dentro de 90 dias e terminar dentro de 180, um recenseamento das propriedades urbanas, do qual constem o número de inquilinos por unidade habitacional; a idade e estado civil de cada qual; a data da construção do prédio; o número de cômodos disponíveis, etc.

Do mesmo modo serão recenseadas as residências desocupadas, esclarecendo se estão, ou não, à venda.

Lei do monopólio do comércio de carnes. A Câmara dos Deputados aprovou o projeto de reforma do Estatuto da Junta Nacional de Carnes, mediante o qual o Estado fica facultado a chamar a si o monopólio do comércio da carne, ou a autorizar a intervenção em cooperativas de açougueiros. Falta agora a aprovação do Senado.

Mediante decreto n. 597/73 de 20 de agosto p.p., o Poder Executivo fez cessar as atividades do tradicional grêmio dos “matarifes”, isto é, dos pequenos frigoríficos e matadouros para provisão dos açougues de Buenos Aires, e da Grande Buenos Aires. Esses pequenos frigoríficos foram substituídos pelos grandes frigoríficos e por duas entidades estatais: FERCAM e CIFEM. Simultaneamente, em 21 de agosto, o Poder Executivo decretou a intervenção na Corporação dos Produtores de Carne (CAP), proprietária de vários frigoríficos que fornecem carne para o consumo interno, bem como a exportam. A CAP pertence aos produtores agropecuários.

Essas medidas, acrescidas pelo tabelamento dos preços máximos, já em vigor para as vendas de gado, outorgam ao Estado um crescente monopólio do comércio de carne.

Falência do grupo DELTEC. A Corte Suprema confirmou a sentença de um juiz esquerdista decretando a falência do frigorífico Swift. Além disso, estendeu a falência a outras companhias pertencentes ao grupo internacional DELTEC. Entre essas empresas encontram-se o Engenho da Esperança S/A, a Provita S/A, o Complexo Avícola Ibri S/A e outras. No dia 5 de setembro o governo resolveu intervir em todas essas empresas e colocá-las na “área social” – para usar a terminologia empregada pela Unidade Popular no Chile. 

Monopólio do comércio de cereais. No dia 25 de agosto, o Senado deu sua aprovação a um projeto de lei que autoriza o Estado a monopolizar todo o comércio de cereais. Se a lei for aprovada também pela Câmara, só o Estado poderá comprar cereais, armazená-los, vendê-los ou exportá-los. Nenhuma empresa privada, nacional ou estrangeira, poderá dedicar-se a tal comércio. Somente cooperativas poderão ser autorizadas a tal.

Corporação de Empresas Nacionais. Também obteve a sanção do Senado o projeto de lei de corporação de Empresas Nacionais. Esta Corporação será destinada a administrar todas as empresas que pertencem ou venham pertencer ao Estado, função análoga a que no Chile de Allende teve a CORFO. É o instrumento burocrático necessário para manejar ampla gama de empresas transferidas para a “área social”, como, por exemplo, a Swift.

Outros projetos de lei apresentados pelo Poder Executivo, em pauta para serem aprovados pelo Legislativo:

Lei de terras inexploradas. Autoriza o Estado a dar terras privadas em arrendamento compulsório. O preço do arrendamento é fixado pelo Estado e pode vigorar até por 20 anos.

Lei instituindo a Corporação da pequena indústria. Permite centralizar e controlar as pequenas indústrias, e provocar a fusão de empresas, quando forem consideradas supérfluas, ou por razão de melhor exploração. Fomentará a co-gestão e a participação dos operários nos lucros das empresas.

Lei de empresas estrangeiras. Estabelece um regime sumamente estrito para as empresas estrangeiras, e dispõe, a longo prazo, a paulatina estatização de todas elas.

— Updated: 19/09/2018 — Total visits: 35,466 — Last 24 hours: 119 — On-line: 0
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