Arquivos para : A “Fórmula” do Socialismo cristão PRÉ MARXISTA, especialmente o Socialismo católico

Uma citação de Karl Marx, de uma frase de São Pedro, pois o jovem Marx foi educado num Ginásio católico, cheio de seminaristas católicos, em Trier

São Pedro, o primeiro Papa (bispo com prioridade sobre os demais bispos): “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (cf. At 5,29).

O próprio Karl Marx, no texto “Debates sobre a liberdade de imprensa” (1842), usa esta imagem cristã, como é costume em seus textos (cf. a análise de Dussel sobre as metáforas religiosas de Marx), dizendo que o escritor deve “se necessário”, sacrificar a própria vida por suas obras, deve erigir, “como princípio, mais ou menos como o pregador religioso”, a máxima “é melhor obedecer a Deus que aos homens”.

O jovem Marx entendeu corretamente a lição de Cristo: os maridos e os que exercem o poder devem, se for preciso, darem a própria vida em prol da esposa (da família) e da sociedade (do bem comum).

Em todos os atos, a pessoa racional e o cristão devem ter em conta a causa do próximo (amar ao próximo como a si mesmo), a causa do povo, da sociedade.

Os melhores textos de Spinoza são baseados no melhor da Tradição católica da Península ibérica

Spinoza constatou a existência de elementos democráticos na Idade Média e no pensamento cristão, especialmente católico. 

Baruch Spinoza (1632-1677), um judeu de origem portuguesa cuja família foi para a Holanda, foi influenciado pelo pensamento hebraico, inclusive pela Cabala, um ramo da cultura hebraica que tem pontos próximo ao cristianismo.

Também foi influenciado pelo estoicismo, por grandes filósofos cristãos (Descartes e outros), pelo arminianismo (corrente próxima do catolicismo, na Holanda, que criticava erros de Calvino) e por outras fontes.

Spinoza era panteísta. Elogiava Cristo e o cristianismo. O panteísmo tem uma parte correta, a onipresença de Deus no mundo. Erra, no entanto, por não apontar a diferença entre Deus e o mundo, e a transcendência de Deus. Deus está presente em tudo, no centro de tudo, mas vai além de tudo. 

Em seu livro “Tratado político” (São Paulo, Ed. Ícone, 1994, pp. 96-97), Spinoza cita, com elogios, o exemplo dos Aragoneses católicos (o Reino de Aragão), na Idade Média, uma forma política organizada com o apoio do Papa, na época.

Este livro, o livro socialista de Spinoza, foi o último de Spinoza e ficou inclusive inacabado, sem o final do livro.

Após Spinoza esboçar as linhas de um Estado social democrático ideal, este pensador demonstra a possibilidade de seu projeto, com o exemplo do antigo Estado de Aragão, católico, na Espanha:

§ 30 – Apesar de que nenhum Estado, que eu saiba, tenha tido as instituições aqui expostas, poderíamos demonstrar, mesmo pela experiência, que esta forma de monarquia é a melhor… (…)

“Citarei, portanto, um único exemplo, na minha opinião, digno de memória: o Estado dos Aragoneses, que foram fidelíssimos ao rei e mantiveram sem violação as instituições do reino. Depois de se terem libertado do jugo dos mouros, decidiram eleger um rei; todavia, não estando de acordo entre eles sobre as condições a estabelecer, resolveram consultar a este respeito o Soberano Pontífice Romano. Este último, representando no caso o papel do vigário de Cristo, reprovou quererem obstinadamente um rei sem tomar em consideração o exemplo dos hebreus. 

“Se, todavia, se recusassem a mudar de opinião, aconselhou-os a não eleger rei sem terem estabelecido regras justas de acordo com o caráter da raça e, em primeiro lugar, a criar um conselho supremo que pudesse opor-se ao rei, como os éforos em Esparta, e que tivesse o direito absoluto de regular os litígios que pudessem surgir entre o rei e os cidadãos.

“Seguiram este conselho, instituíram as leis que lhes pareceram mais justas e cujo intérprete supremo não era o rei, mas o conselho chamado dos Dezessete, cujo presidente usava o nome Justizia [Justiça].

Este presidente Justizia, portanto, e os dezesseis nomeados vitaliciamente, não por sufrágios, mas pela sorte, tiveram o direito absoluto de revogar e anular todas as sentenças dadas contra qualquer cidadão por outros conselhos civis e eclesiásticos, ou pelo próprio rei, de tal modo que qualquer cidadão podia chamar o rei perante este Tribunal. Os aragoneses tinham, além disso, outrora, o direito de eleger o rei e de o depor. (…)

“Defendidos por estas regras, instituídas por consenso comum, não tiveram de suportar durante um tempo incrível nenhuma violação e a fidelidade dos súditos ao rei, como a do rei aos súditos, nunca se desmentiu”.

Vejamos a conclusão de Spinoza, depois deste texto: “a nossa conclusão será, portanto, a de que o povo pode conservar sob um rei uma ampla liberdade, desde que o poder do rei tenha por medida o poder do próprio povo e não tenha outra proteção senão o povo”.

Spinoza era descendente de judeus portugueses, emigrados, chamados de sefarditas. Em sua casa e em sua rua, na Holanda, as línguas mais faladas eram o português e o espanhol.

Spinoza foi profundamente influenciado pelas idéias dos grandes juristas católicos de Portugal e da Espanha, do século XVI, por sua vez, embebidos em idéias hebraicas e da Paidéia.

Além do exemplo dos aragoneses, existiam outros exemplos de democracia na Idade Média: os suíços, a Islândia, as comunas (especialmente as cidades-estados italianas, suíças e alemãs), o Franco-Condado, a Carta Magna, os Parlamentos, as Cortes Gerais etc.

Spinoza cita, aprovando implicitamente, a boa resposta do Papa aos aragoneses, que lembrou e alertou sobre as frases bíblicas que vêem com maus olhos a instituição jurídica e política dos reis.

A resposta do Profeta Samuel à reclamação do povo que pedia um rei é clássica e é bem citada por vários teólogos da libertação.

A resposta de Samuel ao pedido do povo para que houvesse um rei em Israel foi lembrar que as Leis de Moisés não prevêem um rei, são regras republicanas.

Samuel, inspirado por Deus, destacou, então, os perigos da monarquia, especialmente o militarismo, o uso da força militar para implantar tiranias. Os hebreus, como os romanos, cultivavam sólidas tradições anti-monárquicas, republicanas, não militaristas.

Conclusão: o modelo preferido por Spinoza (tal como por Santo Tomás) é uma mistura da república hebraica (com as linhas comunitárias e socialistas de Moisés) com idéias vindas do Egito (as leis agrárias, atribuídas, pela Bíblia, a José do Egito, filho de Jacob, de Israel), da Esparta (pela via de Creta, que tinha sólidas relações com os fenícios e estes com os hebreus, permitindo, assim, a influência hebraica na Grécia e na Itália antiga),

idéias de Platão (dos livros “A República” e “Leis”), do livro “Política” de Aristóteles, dos estóicos, cínicos etc.

A Doutrina social da Igreja trabalha com estas ideias e outras melhores. 

A própria Bíblia, no livro dos “Macabeus”, explicita a ligação e a semelhança entre as instituições espartanas (inspiradas nas idéias cretenses, como destacou Platão, que elogia Creta, ligada aos fenícios), romanas e hebraicas, instituições republicanas, democráticas.

Esta semelhança foi destacada por Werner Jaeger, mostrando como o melhor da Paidéia antiga (permeado pela influência hebraica, difundida por várias vias, inclusive pelos fenícios e persas) foi recepcionado pelo cristianismo, por coincidir, em vários pontos, com o pensamento hebraico-cristão.

A legislação de Esparta foi criada, em suas linhas gerais, por Licurgo. Este, segundo Plutarco, seu biógrafo, teria se baseado na legislação de Creta e do Egito, duas civilizações gêmeas, em sólido contato com os hebreus.

O próprio alfabeto grego veio do alfabeto fenício-cartaginês, com influência também do Egito e da Mesopotâmia (que deu vastas lições sobre calendário, estrelas, matemática etc aos gregos).

Os fenícios estavam em amplas ligações amistosas com os hebreus, servindo como veículo das idéias hebraicas, acolhidas e difundidas, por serem racionais.

Spinoza estava certo em suas melhores idéias políticas: o poder dos governantes, de todos os agentes públicos, depende (tem como medida) do “poder do próprio povo”, de regras consensuais e racionais que assegurem o bem do próprio povo, o bem comum. E cabe ao Estado assegurar e promover a destinação universal dos bens. 

O padre Morelly, um dos maiores precursores católicos de Marx

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Um bom texto realista de Frederico Engels, o maior amigo de Marx

No final da vida, Engels escreveu vários ensaios pequenos sobre o “cristianismo primitivo” e também reconheceu que:

a situação econômica é a base, mas os diversos elementos da superestrutura–formas políticas da luta de classes e seus resultados, a saber:

“constituições estabelecidas pela classe vitoriosa após uma batalha etc,

“fórmulas jurídicas e até mesmo reflexos de todas essas lutas no cérebro dos participantes delas, teorias políticas, jurídicas, filosóficas, pontos de vista religiosos e seus desenvolvimentos em sistemas de dogmas–

“também exercem influência sobre o curso das lutas históricas e, em muitos casos, são preponderantes na determinação de sua forma.

“Há uma interação de todos esses elementos, na qual, por entre a infindável coorte de acidentes (isto é, coisas e acontecimentos cuja conexão íntima é tão remota ou tão impossível de provar que podemos tê-la como não-existente, desprezível), o movimento econômico afirma-se finalmente como necessário”.

Rosa de Luxemburgo, Lukács, Gramsci, Sartre, Garaudy e outros destacaram o papel da consciência, da cultura, das formas jurídicas e das idéias no processo histórico, reaproximando o “marxismo” das idéias cristãs e clássicas.

Pio XI e Maritain reconheceram os elementos cristãos dentro do socialismo

Como reconheceu Pio XI, em 1931, na “Quadragesimo anno” (n. 119), “o socialismo, como todos os erros, encerra algo de verdade (o que os sumos pontífices nunca negaram)”.

Mais ainda. Segundo Pio XI, no mesmo texto, estas verdades “não se afastam da verdade cristã”, “não pertencem exclusivamente ao socialismo”, “suas reivindicações concordam, às vezes muitíssimo, com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social” (n. 113).

Pio XI também reconheceu que as mudanças do socialismo levaram o próprio socialismo a se “aproximar” do cristianismo.

Pio XI talvez tenha sido assassinado pelos nazistas ou fascistas, pois morreu quando estava terminando uma encíclica contra o racismo, com ótimos textos.

Pio XI também afirmou que os grandes meios de produção devem pertencer ao Estado, o que implicaria, cedo ou tarde, na supressão do latifúndio e do capital monopolista.

A tradição colbertista e dos tempos de monarquia, da Igreja, a Tradição católica mais antiga, sempre aceitou um amplo grau de intervenção estatal na economia, basta a leitura dos textos de Vieira e outros autores renascentistas.

Maritain, no livro “Humanismo integral” (Ed. Dominus, São Paulo, 1962, p. 34), apontou os elementos de verdade no comunismo, deixando claro que dentre as fontes (“elementos originários”) que geraram o comunismo há “elementos cristãos”. Vejamos o texto do grande Maritain, autor da Igreja citado por Paulo VI em sua principal encíclica sobre a questão social, a “Populorum progressio”:

Há também, entre os elementos originários do comunismo, elementos cristãos.

“S. Tomás Morus tinha idéias comunistas. Em suas fases preparatórias, não foi sempre ateu o comunismo. A idéia mesma de comunhão que constitui sua força espiritual, e que ele quer realizar na vida social-terrestre (e ela se deve nela realizar, mas não exclusivamente nela, nem arruinando a vida justamente onde ela se realiza do modo mais perfeito e segundo as aspirações mais altas da pessoa humana), a idéia mesma de comunhão é uma idéia de origem cristã. E são virtudes cristãs desviadas, as “virtudes enlouquecidas” de que falava Chesterton, é o espírito de fé e de sacrifício, são as energias religiosas da alma que o comunismo se esforça por canalizar em proveito da sua própria obra e de que tem necessidade para subsistir”.

Os “elementos originários do comunismo”, ou seja, as fontes religiosas do mesmo, devem ser reconhecidas e resgatadas e são as pontes para um bom diálogo.

Os melhores marxistas escreveram textos defendendo a ética cristã e judaica

Jules Guesde e Maurice Thorez reconheceram a ética (ideias práticas sobre o que fazer e não fazer) do cristianismo primitivo como uma das fontes do socialismo e do comunismo.

No livro “Sobre la religion” II, organizado por Hugo Assmann e Reyes Mate (editado pela Ediciones Sígueme, em Salamanca, Espanha, 1975), há vários textos sobre religião, escritos por Bebel, Lafargue, Dietzgen, Jaurès, Sorel, Kautsky, Labriola, Korsch, Togliatti, Rosa de Luxemburgo e outros socialistas.

Estes textos mostram a influência do cristianismo sobre as principais ideias do socialismo, que usa pilhas de textos e ideias cristãs. 

Há um texto, retirado de um livro de Maurice Thorez, que vale a pena transcrever. Thorez é tido como o pai da política de mãos estendidas aos cristãos. Nasceu em 1900 e faleceu em 1964. Foi nomeado secretário geral do Partido Comunista Francês, em 1930. Em 1947, foi Ministro de Estado, no primeiro governo do católico De Gaulle. Merece a gratidão por parte dos católicos, por ter auxiliado a diminuir o anticlericalismo no PCF.

Maurice Thorez, no livro “A França da frente popular e sua missão no mundo”, retirado do informe apresentado no IX Congresso do PCF, em Arles, em 25.12.1937, escreveu:

Junto com as palavras de Engels sobre o papel do cristianismo primitivo que citamos na Mutualidade, e que acarretaram algumas críticas bastante vivas, acrescentaremos estas declarações de Jules Guesde na tribuna do Palais-Bourbon, em 24 de junho de 1896.

“A um interpelador de direita que o acusava de clericalismo – vê-se como não fomos nós os primeiros a nos expormos a estes ataques, não é verdade? – Guesde, o apóstolo do socialismo na França, lhe respondeu:

Não creio nem me inquieta essa acusação de clericalismo; no entanto, sou mais justo com o cristianismo, com o grande passado da Igreja católica, que esses membros do Centro com o qual vos confundis cada vez mais vossos votos”.

Guesde ainda dizia:

Nos repugna o papel de acusadores públicos contra a série de séculos que estão atrás de nós. Não desconhecemos nem insultamos nenhuma das diferentes fases da evolução social. As classificamos, proclamando sua razão de ser sucessiva e fazendo-lhes sucessivamente justiça.

“Assim foi como no século XIII a Igreja – não temos nenhuma dificuldade em confessá-lo – desempenhou uma missão muito grande e muito útil.

“Foi ela que, levantando-se contra os homens forrados de ferro de então, não somente no físico, senão na moral, surgiu como a única potência intelectual capaz de impor um limite, um freio, ao menos relativo, às brutalidade e violências de cada dia”.

“E não é estranho que alguns socialistas, alguns comunistas formados na escola de Guesde e de Cachin, observem uma atitude justa diante dos trabalhadores católicos. (…)

“Leon Blum fez a um semanário católico estas declarações, que não chegaram no entanto ao conhecimento dos operários socialistas nos periódicos de seu partido:

Perguntais se creio possível uma colaboração entre católicos franceses e o governo da frente popular. Sim, acredito que é possível…E posto que é possível, não estarão de acordo os católicos franceses que isso é desejável?”.

“Os desejos de Leon Blum se realizaram pelo menos parcialmente, já que sentou a seu lado no governo da frente popular o católico Felipe Serre. Então, será que para alguns é possível esta colaboração no governo e não na fábrica nem na aldeia? Aprovariam eles ao partido operário belga, ao partido que dá seus presidentes à II Internacional, e que desde faz vinte anos pratica quase sem intermitência uma política de coalizão governamental com os conservadores católicos? E desaprovariam aos operários comunistas da França que estendem a mão a seus irmãos, o operários cristãos?

“Os que “proclamam o ateísmo como um artigo de fé obrigatória” vão pedir, então, que se exclua do partido socialista ao cidadão Philip, deputado de Lyon e cristão militante? Vão acusar ao Partido Trabalhista, cujos dirigentes lêm com maior agrado a Bíblia que O capital?”.

Jules Guesde foi preso em 1878, quando estava auxiliando a organização de um congresso internacional de operários, em Paris. Guesde foi interrogado em 24.10.1878, perante a 10ª Câmara Correcional. Ao defender-se, acusou a burguesia de confiscar os direitos subjetivos positivos decorrentes da Revolução Francesa e disse:

ou a sociedade está fundada na justiça, na igual repartição entre todos dos encargos e vantagens, na igual satisfação das necessidades de cada qual” “ou a sociedade está fundada no monopólio… e na exploração que deriva dele, de um maior número por alguns; e , nessa sociedade, que só uma minoria tem interesse em conservar, a ordem é uma questão de força; é o arbítrio e a violência…” (texto retirado do livro “A defesa acusa…”, de Marcel Willard, Editorial Calvino, Rio de Janeiro, 1946).

As palavras de Guesde, transcritas acima, são perfeitamente harmônicas com a fé cristã, especialmente na parte concernente à justiça social e distributiva, que exigem que os bens sirvam (seja controlados, atribuídos, usados) por todos, para satisfazerem as necessidades de cada um, dando a todos uma vida digna e feliz.

Guesde continuou a defesa, citando a frase de Mazzini: “os direitos não passam de palavras vãs para aqueles a quem faltam os meios de fazê-los valer”. E reivindicou o direito de “cada homem para um gozo igual do patrimônio da humanidade, restituído à humanidade” (ou seja, o domínio eminente da sociedade ou bem comum).

O termo “patrimônio da humanidade” tem clara raiz bíblica, pois, como apontaram vários Papas (inclusive Leão XIII), Deus deu todos os bens às pessoas, a humanidade, para que todos vivam felizes. O termo “restituído” vem de restituir, ou seja, entregar os bens a quem de direito, a quem tem o direito natural aos bens (ao povo, na medida das necessidades para uma vida digna). A restituição é também um termo cheio de religiosidade, que consta em várias passagens bíblicas.

Guesde queria “o sufrágio na oficina, a República no domínio econômico”. Ou seja, queria o controle dos trabalhadores sobre os meios de produção, o primado do trabalho, como consta claramente no “Gênesis” (subjugai os bens…). São ideais profundamente cristãos, que Maritain e Alceu não hesitariam em assinar embaixo.

Leon Blum definiu o socialismo (na “Revue de Paris”, de 01.05.1924), como a doutrina que pretende “reduzir o sofrimento e a desigualdade até seu resíduo incompressível, e instalar a razão e a justiça onde hoje reinam o privilégio e o acaso”.

Os melhores textos de Blum também são perfeitamente coerentes com o cristianismo.

Thorez exerceu uma boa influência no PCF e o crescimento do mesmo, creio, tem muito a haver com esta política de mãos estendidas, de mãos abertas, de diálogo e de ecumenismo (de respeito ao pluralismo, às diversas fontes do socialismo).

Na Itália, Palmiro Togliatti (1893-1964), co-fundador do jornal “Ordine Nuovo”, em 1919, com Gramsci, teve papel semelhante. Após a prisão de Gramsci, Togliatti lidera o Partido Comunista na Itália, como secretário geral do partido. O PCI, em 1956, graças a Togliatti, superou bem a crise do XX Congresso do PCUS, indo além da desestalinização. No final da vida, Togliatti emitiu vários juízos favoráveis sobre o trabalho conjunto com os cristãos. O “testamento de Togliatti”, um memorando que ditou pouco antes de morrer, tem boas críticas ao socialismo soviético.

Togliatti, líder do Partido Comunista Italiano, deixou claro, durante a II Guerra Mundial e em várias ocasiões (como Fidel Castro o faria mais tarde) que a consciência religiosa não é avessa ao socialismo humanista: “Não é verdade que a consciência religiosa traga, necessariamente, obstáculos à compreensão e à realização dos deveres e perspectivas (da construção do socialismo) e à adesão a este combate” (março de 1963).

Togliatti aproximou os comunistas e socialistas da religião e da Igreja.

Enrico Berlinguer seguiu a mesma linha.

Os textos de Berlinguer sobre saúde pública, especialmente as políticas preventivas e sobre a reforma sanitária são também excelentes, tendo como seguidor, no Brasil, dentre outros, o Senador Tião Viana, do PT do Acre.

Pio XI, em dezembro de 1937, escreveu aos bispos franceses sobre a política de mãos estentidas (“main tendue”):

Aos católicos franceses fala-se muito da mão estendida…Podemos apertar esta mão estendida? Gostaria muito de fazê-lo. Não se recusa uma mão estendida. Mas não se pode fazer isso em detrimento da verdade. A verdade é Deus. E não se pode sacrificar Deus. Agora, os que falam da mão estendida não se declaram inequivocamente sobre este ponto. Em sua linguagem há confusões e obscuridades que deveriam ser esclarecidas. Colhamos pois sua mão, para levá-la para a doutrina divina de Cristo”.

Maritain elogiou a resposta de Pio XI, que defendia o diálogo, a necessidade de esclarecimentos e distinções (seria bom se esta linha tivesse sido mantida e ampliada, mas, infelizmente, Pio XII cerceou, na década de 50, a experiência dos padres operários).

Mounier esforçou-se por ampliar o diálogo entre católicos e marxistas.

Depois do XX Congresso do PC da URSS, o diálogo foi um pouco ampliado. Embora Kruchov tenha em alguns pontos reforçado a pregação do ateísmo e do anticlericalism, mas Kruchov teve, no final das contas, um papel positivo. Após a derrubada de Kruchov, a URSS ficou ainda mais burocrática e estagnada.

Robert Havermann e Georg Lukacs (no discurso na Academia Política do PC da Hungria, em 28.06.1956) defendem o diálogo. No começo da década de 60 há semanas de diálogo, tendo Garaudy (com textos magníficos e correspondente de Dom Hélder Câmara) como principal fautor do mesmo.

Além deste, participaram J.P. Vigier, J.P. Sartre e J. Hyppolite.

Em 1964, Togliatti, no “Memorial de Yalta”, escreveu: “a velha propaganda de ateísmo não serve para nada” e pediu aos comunistas para “não contrapor suas convicções de forma abstrata às tendências e correntes diferentes, e sim entrar no diálogo com estas correntes”.

Togliatti elogiou muito os documentos do Concílio Vaticano II e João XXIII.

O Concílio Vaticano II acatou o espírito de João XXIII e ampliou o diálogo.

Em 1964, Ernst Bloch e Adam Schaff se destacaram, no lado marxista, na defesa do diálogo.

Houve inclusive congressos internacionais de diálogo entre cristãos e marxistas, em Salzburgo (1965), em Herrenchiemsee (1966), em Marienbad (1967) e em Praga (1967), na então Tchecolováquia. Somente a URSS, a Albânia de Hoxha e a RDA (Alemanha Oriental) não participaram.

A Ação Católica Operária (ACO), na França, no congresso anual de maio de 1971, deu um bom exemplo de saudável laicidade (tolerância, ecumenismo), ao aceitar trabalhadores marxistas na organização.

Alceu e Paulo VI, pontos em comum em prol de um socialismo católico

Alceu Amoroso Lima, no início da vida, era democrata, distributista ( há textos de Alceu desde 1927) e também adepto de formas de socialismo democrático, como o modelo defendido pelo Grupo Clartè ( Claridade), na França.

Um modelo que também apaixonava o jovem que foi Paulo VI, pois o socialismo do grupo Clartè tinha inúmeros pontos em comum com o catolicismo. 

Nas décadas de 30 a 60, Alceu reencontra suas raízes e vê que eram perfeitamente conciliáveis com o catolicismo.

Os bispos Católicos das Antilhas defendem um socialismo democrático, como o melhor da Tradição política do Brasil

José Marins e equipe, no livro “De Medellín a Puebla” (São Paulo, Edições Puebla, 1979, p. 138), transcreveu um texto dos Bispos das Antilhas que mostra a mesma concepção de socialismo humanista e participativo, exposta neste blog. 

Um modelo de socialismo participativo, humanista, comunitário, personalista foi e é recomendado por expoentes e simpatizantes da Igreja, como Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno, Dom Mauro Morelli, Alceu, Marciano Vidal, Frei Betto, Chico Alencar, Plínio de Arruda Sampaio, Selvino Heck, Frei Anastácio, João Pedro Stédile, Ivan Polleto, Paulo Freire, Madre Cristina Sodré, Patrus Ananias, Pedro Ribeiro de Oliveira, Dom Tomás Balduíno, Antônio Cândido (católico socialista e humanista), Azis Simão, Hélio Pellegrino, Paulo Freire, Henfil, Betinho, Sérgio Buarque de Holanda, José Gomes da Silva (expoente em prol da reforma agrária, autor do livro “Reforma agrária brasileira na virada do século”), Luci Choinacki e outros.

As Antilhas abarcam as ilhas britânicas, holandesas e ligadas à França. Vejamos o texto antológico e exemplar da Conferência Episcopal das Antilhas, dos Bispos das Antilhas:

“Uma sociedade que reclama a si o pensamento socialista deve ter como objetivo assegurar a seus membros, particularmente aos operários e aos agricultores, diretamente implicados na produção, uma parte das responsabilidades na sua própria concepção, o que implica não somente em compartilhar a propriedade, mas também numa participação no poder de decisão, em todos os níveis”.

A participação dos trabalhadores da indústria sempre se constituiu num tema capital da formação social do cristão”.

“Para o socialismo, representa uma exigência fundamental, posto que todas as revoluções devem ser feitas em nome dos agricultores e dos operários”.

“Atualmente, subsiste o perigo de que uma nova elite privilegiada venha a substituir a antiga e, por conseguinte, de que os trabalhadores voltem a viver no mesmo estado de opressão anterior. Devemos estar particularmente atentos para es­se perigo, se não quisermos simplesmente mudar de patrões. (…)”

“Nenhum sistema socialista é aceitável se ele destrói os direitos fundamentais…”

“Longe de destruí-las, o verdadeiro socialismo, aceitável para o cristão, deve combater para defender essas liberdades e inclusive para ampliar o seu campo”.

“Cabe-lhe o dever de assegurar que esses direitos fundamentais sejam respeitados, no interesse de todos, de sorte que essas orientações da liberdade de cada ser humano não se convertam em outra forma de escravidão. (…)”

“a Igreja jamais defendeu a propriedade privada como um direito absoluto”.

O único direito absoluto que ela defende é o destino universal da criação e, conseqüentemente, o direito do indivíduo a possuir o que necessita para si mesmo. (Antilhas, documento da Conferência Episcopal, 21-11-1975)”.

A Doutrina social da Igreja é basicamente um socialismo personalista, de economia mista, Estado social, distributista, cooperativista, amplamente democrática e participativa

João XXIII ensinou, na “Mater et magistra” (n. 219), que “o princípio mais importante desta doutrina [da doutrina social da Igreja, da lei natural] consiste em cada um dos homens [dos seres humanos] ser necessariamente o fundamento, a causa e o fim de toda a instituição social”.

Toda a estrutura estatal deve ser construída para assegurar a cada pessoa, uma vida simples, plena, digna, abundante e feliz. 

Este princípio fundamental – a pessoa como centro do mundo, como medida dos bens – foi explicitado e cunhado por Pio XII, na “Radiomensagem do Natal, de 1944. Neste documento, este papa ensinou que “a pessoa humana” nunca deve ser “considerada como mero objeto ou elemento passivo da vida social, mas, muito pelo contrário, deve ser tida como o sujeito, o fundamento e o fim da mesma”.

O fundamento democrático popular é claro – o povo (as pessoas) são o sujeito natural da soberania, devem ser sujeitos, controladores, do povo nasce a soberania. O Estado é um servo natural do povo.

O povo deve se autocontrolar por um modo de produção cooperativista e solidário, economia mista, Estado social, distributista, tal como deve controlar o Estado. 

No mesmo sentido, Pio XII, na “Com sempre nuova freshezza” (no Natal de 1942), ensinou que “a estrela da paz” só despontaria, se fosse restituída “à pessoa a dignidade que Deus lhe concedeu desde o princípio”. Para isso, era importante que a sociedade fosse organizada sem “excessiva aglomeração”, sem grandes cidades, como queriam Engels, Bebel, Owen, Fourier, Soria y Mata e outros.

Uma estrutura descentralizada baseada em “formas sociais” (jurídicas, políticas, econômicas etc) onde exista a “possibilidade e garantia para uma plena responsabilidade [participação] pessoal”, baseada nos “direitos fundamentais da pessoa”.

Uma boa organização social adota a estrutura das cidades-lineares e das cidades-aldeias, sem latifúndios, sem grandes fortunas privadas, sem miséria. Um grande arquiteto católico, Soria y Mata, formulou a estrutura ótima das cidades-lineares, com ferrovias estatais, reforma agrária etc. 

A nota personalista, democrática e participativa é evidente, podendo ser chamado de primado da pessoa (ou dos direitos humanos), em torno do qual deve gerar a sociedade, o Estado, as leis positivas, a formação dos preços (cf. Galiani) etc.

A concepção política do cristianismo subordina a economia à política; a política à sociedade; e a sociedade à pessoa. Por isso, os papas ensinaram que “o bem comum”, que é a finalidade da sociedade e das pessoas, significa atender e promover os direitos humanos naturais, fundamentais.

O Vaticano II acolheu esta proposição que tem em seu núcleo uma concepção democrática participativa, que condena o capitalismo e todas as formas de regimes baseados no que Jack London chamou de “tacão de ferro” (São Paulo, Ed. Boitempo, 2003).

A sociedade deve ser organizada de forma protetora e promotora dos direitos humanos, do ser humano, tal como o Estado deve ser uma instituição protetora e promotora dos interesses legítimos (das necessidades) das pessoas.

Em outras palavras, a sociedade deve ser regida pela ética, pelos princípios naturais que nascem da luz natural da razão, presente em todos. Este primado da ética (do bem comum) foi ressaltado por Gregório XVI, na “Mirari vos” (15.08.1832), quando condenou o liberalismo por querer cindir a atividade social, política e econômica dos juízos éticos. No mesmo sentido, Leão XIII condenou o “naturalismo”, irmão do “liberalismo”, pela cisão entre ética e a economia e a política.

João Paulo II teve o mérito de sublinhar, na encíclica “Sollicitudo rei socialis” (n. 15) a relação intrínseca entre “a subjetividade criadora” de cada ser humano e a “subjetividade” da sociedade, das cidades, das nações, ou seja, a “soberania” e o primado da sociedade.

O totalitarismo – tal como o absolutismo e o capitalismo – foi condenado pela Igreja porque “nessa situação, o homem e o povo convertem-se em objeto”, tal como a opressão contra a mulher a reduz a um objeto sexual.

Cada ser humano, tal como as nações e as cidades (e regiões etc), tem o direito sagrado e divino à “autonomia” (à liberdade) dentro dos limites do bem comum. O próprio Deus planejou estes itens que estão inscritos no núcleo da natureza humana.

Na encíclica “Pacem” (“Paz na terra”, n. 26), João XXIII destacou que “a dignidade da pessoa” requer um regime político coerente e condizente com a natureza humana, que é social, política, comunitária, familiar, boa, afetiva etc. Esta natureza estabelece, como direito humano natural, os “direitos políticos” (tal como os direitos econômicos, sociais, familiares, religiosos etc), “o direito de participar ativamente da vida pública” (e do bem comum, dos bens destinados a todas as pessoas), o direito ao acesso aos bens necessários e suficientes para uma vida digna (renda estatal, moradia, jornadas pequenas de trabalho não reificantes etc), tal como de “trazer, assim, a sua contribuição pessoal ao bem comum dos concidadãos”.

Os bispos latino-americanos, na assembléia em Puebla, em 1979, ressaltaram que “a transformação das estruturas” deve ser uma “expressão externa da conversão interior” (n. 1.221). Quiseram ressaltar que “a conversão interior” (a santidade, a correção ética) exige “a transformação das estruturas”. Como ensinou o 3º Encontro Nacional das CEBs, a Igreja está comprometida “com a mudança das estruturas econômica, social e política”.

Conclusão: a premissa implícita neste raciocínio é clara: as estruturas (“as leis e as estruturas”, especialmente no tocante à gestão dos bens, cf. n. 199, do doc. de Puebla) devem ser a expressão da consciência (logo, das necessidades, dos interesses legítimos) do povo. Em outras palavras, devem ser a expressão e a forma de atender aos interesses, às necessidades, às aspirações do povo, de cada pessoa, pois toda pessoa é sagrada e única.

Com outra terminologia, Pio XI ressaltava a função do Estado de “guardião do direito” e que “o conjunto das leis, das instituições, a constituição e a administração da sociedade” devem ser conformadas no sentido do bem comum, para que “façam florescer naturalmente a prosperidade pública e privada” (a mesma ideia foi ensinada por Leão XIII, na Rerum).

O Estado deve assegurar “a proteção da comunidade e dos membros que a compõem”.

A ética cristã e judaica formam o núcleo mais profundo do que há de melhor nas ideias socialistas

Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (Lisboa e Moscou, Edições Avante! e Edições Progresso, 1981, “Obras escolhidas”, tomo 2, p. 251), reconheceu expressamente o “espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”. Em 1905, Lênin, num artigo chamado “O terceiro congresso”, ressaltou a “efervescência entre o clero, que aspira a novas formas de vida”, principalmente “os socialistas cristãos e os democratas cristãos”. Marx também constatou a importância do movimento operário liderado por Ketteler, na Alemanha, tal como por Montalembert e Lacordaire, na França.

O bispo Ketteler, de Maguncia, em 1864, escreveu o livro “A questão operária e o cristianismo”, defendendo as ideias básicas de Buchez, que também eram defendidas por Lassalle. Ideias de fortalecimento do Estado, da criação de um Estado social, de um Estado do bem estar social. Defendia que o Estado apoiasse as pequenas e médias empresas e as cooperativas. Assim, a economia seria formada por milhões de pequenas empresas familiares organizadas em cooperativas e por grandes cooperativas, que iriam gerir os meios de produção. Buchez e Ketteler foram as grandes estrelas do catolicismo social. 

Foi pena que Lênin não tenha desenvolvido mais esta bela proposição. O livro do padre Affonso Urbano Thiesen S.J., “A ética política de Lênine” (Porto Alegre RS, Ed. Instituto de Filosofia da UFRS, 1967) também mostra como Lênin usava termos religiosos em suas cartas e textos. As fontes cristãs e hebraicas ficam claras nos textos de Lênin. Por exemplo, num artigo de 1905, ele defendeu que o ateísmo não deveria integrar o programa do partido comunista, pois, segundo ele, o importante era transformar a terra num paraíso, sendo esta exatamente a meta do judaísmo e do cristianismo. Na verdade, o cristianismo busca algo mais: quer transformar o universo no Céu, interpenetrando-os, renovando o universo e unindo-o ao Céu.

O espírito democrático e socialista do cristianismo foi também registrado por autores como: Michael Lowy; Ernst Bloch; os expoentes da Escola da Frankfurt, como Max Horkheimer; Erich Fromm (1900-1980, com Horney, depurou erros das idéias freudianas e aproximou-se das idéias religiosas e de um socialismo humanista); Walter Benjamin; Garaudy e outros.

Estes autores redigiram textos de reconhecimento e apreço ao cristianismo primitivo, como fizeram Engels, Kaustky, Bebel, Rosa de Luxemburgo e Marx. Por exemplo, a carta de Marx a Domela (um pastor), em 1881, contém um elogio ao cristianismo primitivo. Engels deixou vários textos de elogio. Rosa de Luxemburgo (no livro “O socialismo e as igrejas”), Bakunin, Trotski, Marx, Engels, Kautsky (“A origem do cristianismo”), Bebel (em vários textos no livro “A mulher” e em discursos), Liebknecht e outros marxistas elogiaram o “cristianismo primitivo”. No fundo, estes autores elogiaram a ética cristã.

Fidel Castro elogiou inúmeros pontos do cristianismo. Estes autores constataram, assim, que os primeiros cristãos eram “comunistas” (na verdade, comunitários e solidários, partidários da comunhão dos bens, do bem comum), favoráveis a propriedades comunitárias, de auto-ajuda etc. Por via oblíqua, reconheceram que o cristianismo é o movimento precursor do socialismo, tendo sido a alma do socialismo utópico, pré-marxista. Os melhores textos de Mao Tse Tung, especialmente sobre a ética do “servir ao povo”, tem a mesma base. No Vietnam, há também textos praticamente cristãos de Ho Chi Minh (1890-1969, que inclusive esteve no Brasil, lá por 1911). O próprio pseudônimo de “Ho Chi Minh” significa “Aquele que ilumina”.

A 3ª. Internacional lançou, na década de 30, a política das mãos estendidas aos católicos, política que implicitamente reconhece e aprecia a crítica cristã ao capitalismo. O livro do Deão de Canterbury, anglicano,com edições em vários países, foi editado por orientação da Internacional (sob o controle de Stalin, que estudou em seminário ortodoxo por uns nove anos) explicitando a tese que o cristianismo condenava o capitalismo, o latifúndio, o imperialismo, o belicismo etc. Este livro lançou vastas pontes entre os ortodoxos e parte dos anglicanos com o movimento socialista. Dentre os ortodoxos, houve a aproximação com Stalin, na 2ª. Guerra, aproximação fácil, pois Stalin foi praticamente criado em escola religiosa ortodoxa e no seminário ortodoxo, na Geórgia, onde brilhou entre os alunos pelos estudos.

O cristianismo é o precursor do socialismo, pelo movimento do socialismo utópico. Assim, fica claro que, mesmo no bojo do socialismo marxista, há elementos cristãos, tal como há nas outras correntes socialistas. Afinal, o precursor e o movimento subseqüente têm, por força, elementos comuns e, por isso, a antecedência é considerada como precursora. Por esta forma, por via oblíqua e às vezes explícita, estes grandes marxistas reconheceram a prioridade dos ensinamentos cristãos. Reconheceram implicitamente que no bojo do que se chama socialismo/comunismo há uma porção de idéias cristãs, oriundas do socialismo utópico e do movimento democrático universal, quase todo movido por idéias cristãs e hebraicas.

Um exemplo basta para provar a existência destes elementos cristãos e também racionais e naturais: a máxima “a cada um de acordo com suas necessidades”, que é o princípio mais importante para Marx de uma sociedade comunista consta expressamente duas vezes no livro “Atos dos Apóstolos” (capítulos 2 e 4) como característica (princípio dirigente) que distinguia as comunidades cristãs, a marca específica de uma sociedade cristã.

As idéias éticas deste livro, que narra os primeiros 30 anos da Igreja (de 33 a 63 d.C.), são claras: “não havia entre eles necessitado algum”; tinham “um só coração e uma só alma”; dividiam tudo “entre todos, segundo as necessidades de cada um”; “tudo entre eles era comum”; e distribuíam “a cada um, segundo a sua necessidade”. Estas idéias formam o núcleo do ideal do bem comum e do que há de bom nas idéias democráticas e socialistas.

A comunhão (ou socialização) de bens não é a estatização dos bens. É, isso sim, a titularidade (o controle) pela sociedade de todos os bens, inclusive do poder, para que todos tenham os bens necessários e suficientes para uma vida digna. Deus deu os bens todos à humanidade, para que a sociedade organizasse a distribuição e o controle, de acordo com as necessidades de cada pessoa. E também para que todos controlassem os bens (pelo trabalho desalienado), como está claro no “Genêsis” (1,26-29). Os bens foram criados para que as pessoas pudessem povoar, multiplicar e controlar a terra, todos os bens. Moisés, que ouvia a voz de Deus e do povo, explicou bem estes pontos.

Os bispos católicos de todo o mundo, na “Gaudium et spes (n. 57), resumiram bem: as pessoas devem cultivar (controlar) a “terra” (os bens), controlando-a, para construírem “uma habitação digna da família humana” e, para isso, é um dever a participação consciente na vida da sociedade, sendo este o plano de Deus. “Dominar a terra e completar a criação” implica em formas de co-gestão, autogestão (comunidades “autogestionárias”, cf. Leonardo Boff, em entrevista na “Caros Amigos”, n. 3, junho de 1997, pp. 27-35), de trabalhos livres, de planificação participativa (como ensinaram Karl Manheim e Jaspers). Os bens, para que atendam às necessidades de cada pessoa, devem estar sob o controle destas mesmas pessoas (destinatários naturais dos bens), sujeitos às idéias verdadeiras de cada pessoa. Este é o conteúdo da expressão “comunhão de bens”, “bem comum”, comunhão das almas (nos bens etc) etc.

O projeto carro-chefe do catolicismo social passa pela desproletarização (de-reificação, desalienação) dos trabalhadores, para que todas as pessoas tenham pequenos bens, círculo de proteção, poder sobre pequenas porções, para não serem reificados, transformados em objetos, em robos, em marionetes. 

Foi na Bíblia que os grandes expoentes da democracia e do socialismo retiraram o sumo de suas idéias. Isto fica claro nos textos de homens como os Santos Padres, Santo Tomás Morus, Campanella (cf. “A Cidade do Sol”, 1623), Morelly, Mably, Rousseau, Babeuf, Buonarotti, o Círculo Social (com o padre Faucher e outros), o padre Jacques Roux e nos “enraivecidos”. Outras pessoas influenciadas profundamente pelas idéias cristãs foram: a antiga Liga dos Justos (baseada nos textos de Weitling, Sismondi, Lamennais e de outros autores religiosos), os cabetistas e centenas de outros autores.

Karl Marx, a partir de 1842, sintetizou idéias destas correntes cristãs e religiosas, mais antigas, esboçando sua síntese, baseada nestes antigos conteúdos, mantendo-os, como núcleo de seu ensinamento, mas dentro de termos da terminologia hegeliana e dos economistas da época. Em Marx, há boas ideias e ideias ruins. O catolicismo defende a depuração, ficamos com o bom trigo, e deixamos o joio. 

— Updated: 16/11/2018 — Total visits: 40,905 — Last 24 hours: 55 — On-line: 0
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