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Uma boa lição dos Bispos da região Sul do Brasil, em 1915

A “Pastoral Coletiva, de 1915”, dos bispos brasileiros da região sul, ensinou que a Igreja rejeita “as falsas doutrinas do positivismo que, absurda e impiamente, pretendem que a mente humana não pode atingir a natureza das coisas, mas somente os fenômenos que caem debaixo dos sentidos”.

Os bispos também frisaram que “a verdade é a libertadora e defensora dos povos, assim, a falsidade e o erro embaraçam e impedem a felicidade, tanto dos indivíduos como das sociedades” (cf. n. 90).

O futuro dos corpos humanos, pelo ensinamento católico

A doutrina da Igreja diz que o Projeto de Deus para o ser humano é a renovação, a regeneração, o surgimento do “homem novo”. Este ponto foi explicado por Santo Tomás de Aquino, no final da “Suma Teológica”, no “Tratado dos novíssimos”(Madrid, BAC, 1960). Haverá uma nova criação, uma nova natureza, uma nova sociedade, novos corpos, tudo baseado nos atuais, uma melhora, um processo de melhoria, de síntese onde a tese é mantida, elevada. 

As pessoas terão corpos espirituais, com as qualidades descritas na Bíblia, após a ressurreição. O homem novo ou corpos novos teriam qualidades como: mais ágeis (“agilitate”, tratada por Tomás de Aquino na questão 84, sobre a “agilidade dos corpos dos bem-aventurados” e por Santo Alberto Magno, no tratado “De resurrectione”, ou seja, rapidez, para se mover pelo espaço estc), mais luminosos (“luminositate”, algo da luz), impassíveis (resistentes, “impassibilitas”, invulneráveis, não podendo ser mortos ou feridos, nem destruídos), sutis (“subtilitas”, atravessando objetos) etc. Corpos que deixariam o superhomem no chinelo rs. 

Estas são basicamente as mesmas qualidades expostas por Tomás de Aquino, Santo Alberto e outros grandes santos sobre os novos corpos (renovação das pessoas, pela ressurreição) no universo renovado, no futuro.

O presente, como explicou Cristo, está grávido do futuro, o processo histórico contém a eternidade, dentro, por dentro.

Resumo da vida de São Paulo e dados sobre sua cidade, Tarso

São Paulo nasceu em Tarso (cf. At 9,11) lá por 5 d.C. e teria vivido ali até aos 20 anos. Depois, partiu para Jerusalém, onde morava uma irmã sua, casada, cujo sobrinho salvou a vida de São Paulo, anos depois. Em Jerusalém, permaneceu de 25 d.C. até cerca de 33 ou 36 d.C, tendo sido aluno do grande Gamaliel, “o rabino erudito mais ilustre de seu tempo” (cf. David H. Stern, “Comentário judaico do Novo Testamento”, Belo Horizonte, Ed. Atos, 207, p. 337, sendo Stern um “judeu messiânico”, um judeu cristão).

São Paulo nasceu na cidade de Tarso, que tinha mais cultura do que talvez houvesse em Alexandria e foi aluno do principal rabino de seu tempo, o que mostra bem como age a Providência, usando meios naturais como mediações.

Lá por 36 d.C., São Paulo converteu-se e foi assassinado em 67 ou 68 d.C., uns três anos depois do assassinato de Sêneca.

São Paulo fundia, em si mesmo, o melhor da Paidéia e o melhor do pensamento hebraico, tendo como professor Gamaliel, o neto do grande Hilel. Gamaliel salvou São Pedro e os Apóstolos (cf. At 5,34) e há uma tradição que diz que Gamaliel teria se convertido e sido batizado, junto com Nicodemo.

Tarso foi a cidade onde Antônio encontrou Cleópatra, em 41 a.C., tendo feito de Tarso a capital do que seria seu império asiático.

Júlio César também esteve em Tarso, lá por 47 a.C. Augusto (63 a.C. a 14 d.C.) concedeu a cidadania romana aos habitantes de Tarso, o que foi a origem da cidadania romana de São Paulo. A razão para isso deve-se à gratidão que tinha pelo estóico Atenodoro, que nasceu em Tarso.

Atenodoro de Tarso (74 a.C. a 7 d.C.) foi um dos professores de Augusto e foi tutor de Marcelo, sobrinho de Augusto. Atenodoro deixou conselhos éticos a Augusto, conselhos em harmonia com as idéias hebraicas, como: “quando estiveres irado, César, nada digas e nada faças até que tenhas repetido as letras do alfabeto” e “vive de tal modo com os homens como se Deus te visse; fala de tal modo com Deus como se os homens estivessem ouvindo”. Augusto também nomeou Nestor, de Tarsos, para ser o tutor (professor) de seu filho ou sobrinho.

Atenodoro de Tarso, como Cícero, foi aluno de Posidônio, em Rhodes. Posidônio, por sua vez, foi aluno de Panécio.

Ora, Panécio era discípulo de Antípater de Tarso. Cícero foi aluno de Posidônio, o que mostra o tanto que o pensamento de Cícero tem origem em Tarso, a cidade de São Paulo, que Cícero governou, em 51 a.C.

Posidônio (135-50 a.C.) nasceu em Apaméia, cidade da Síria, que fica a uns 200 quilômetros de Tarso e 150 km de Chipre.

Posidônio é o exemplo perfeito do estóico ligado à tradição de Crisipo, pois Posidônio combinava, numa síntese, estoicismo, aristotelismo e platonismo. Esta síntese está também em Plutarco, Tácito, Galeno, no Pseudo-Dionísio e, depois, em São João Damasceno e Boécio, preparando a síntese tomista.

Atenodoro, no final da vida, voltou a Tarso e ajudou a expulsar Boethus, um tirano.

Atenodoro teria auxiliado Cícero na confecção do livro “Dos deveres” (o mesmo título da obra de Antípater de Tiro, outro estóico), livro que influenciou profundamente os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Lactâncio e São Jerônimo). Atenodoro foi o mestre de Apolônio de Epiro. Em 50 a.C., Atenodoro foi para Roma para ser o professor de Augusto, permanecendo em Roma até 33 a.C. Atenodoro faleceu com 82 anos e era amigo de Estrabão. Houve ainda outro Atenodoro de Tarso, que tinha o apelido de Cordilion. Este segundo Atenodoro era o encarregado da Biblioteca de Pérgamo e era também estóico. Este segundo Atenodoro foi levado para Roma, por Catão de Útica e teria ajudado Cícero na redação do livro “Dos ofícios”, na parte que resume das idéias de Posidônio.

A região em torno de Tarso era uma área onde o estoicismo era bastante cultivado e estas idéias, com certeza, influenciaram São Paulo.

O estoicismo é uma filosofia influenciada desde a origem pelas idéias semitas, asiáticas, persas, sumérias, dos caldeus e também dos hebreus e, por esta razão, pelas idéias em comum, era a filosofia preferida dos Santos Padres (na parte ética) e está presente na lista de virtudes e de vícios, nos textos de São Paulo.

Após a conversão, São Paulo retornou a Tarso, por algum tempo, para refugiar-se.

Como a Igreja foi formando a Democracia, após a grande crise da destruição dos bárbaros

Como também apontou João Paulo II, as “Regras” das ordens de São Bento, dos monges de São Bernardo, dos franciscanos e principalmente a dos dominicanos são claramente democráticas, com eleições em todas as instâncias (abades, gerais, com parlamentos, formas de consulta da base etc), busca de consensos etc.

A estrutura monástica era democrática já nas unidades da Tebaida, região do Egito próxima de Tebas do Egito. O mesmo vale para as organização das paróquias, dos bispados, dos Sínodos, a organização dos conventos e das instituições eclesiais em geral. 

A estrutura das ordens e das congregações religiosas influenciou a gestação das idéias democráticas, junto com a formação das comunas após o período de destruição pelos bárbaros.

Ocorreu o mesmo com a estrutura dos Concílios, que foi utilizada para os Parlamentos.

Da mesma forma, a eleição de bispos (e sacerdotes) e as eleições dos papas foram fontes decisivas para o florescimento dos governos representativos, dos parlamentos nacionais (inspirados também nos governos representativos das cidades e nos parlamentos regionais) etc.

Além destas estruturas eletivas e representativas, houve também, como causa teórica, o pensamento claramente democrático dos Santos Padres, baseado na síntese entre o pensamento hebraico e grego-romano.

Algumas ótimas lições de Pio IX, um grande Papa

Pio IX, em 1855, destacou quatro proposições sobre a relação entre a fé e a razão:

1ª.) “a razão e a fé procedem da mesma fonte imutável da verdade, que é Deus”;

2º.) “o raciocínio pode provar com certeza a existência de Deus, a espiritualidade da alma e o livre arbítrio”;

3º.) “o uso da razão precede a fé”; e

4º.) “a razão humana é uma certa participação da razão divina”.

Estas quatro proposições integram o núcleo da concepção jurídica e política do cristianismo, da relação entre a teologia, o direito e a política.

Como o Concílio de Trento deixou claro: o livre arbítrio humano não foi perdido e nem extinto, apenas reduzido, tal como as luzes naturais da razão. No mesmo sentido, vale a pena ler, do cardeal Pie, a “Instrução sinodal sobre a primeira constituição do Concílio do Vaticano”.

A fé complementa e acrescenta as verdades oriundas da razão, sem nunca a contrariar, pois a fé apenas acrescenta verdades supra-racionais (e nunca irracionais).

Assim, as pessoas devem se guiar pela luz da razão, assim como as sociedades devem guiar-se pela luz da razão comum, presente em todas as pessoas. Neste sentido, vale a pena ler o livro “Coscienza e politica” (Brescia, Ed. Morcelliana, 1953) do padre Luigi Sturzo (1871-1959); tal como os livros de Roussellot, Maritain, Hermann Busenbaum (1600-1668), Afonso Ligório, Haring, Marciano Vidal, Rahner e outros.

No “Syllabus”, Pio IX deixou bem claro que “as leis humanas” [positivas] devem ser “conformes ao direito natural”, aos direitos humanos naturais, ou seja, todas as normas (regras) jurídicas devem ser formuladas para atender às necessidades e aspirações humanas, do povo.

Na “Quanta cura”, encíclica que encabeça o “Syllabus”, Pio IX frisou bem que “a verdadeira noção da justiça e do direito humano” rejeita o primado da “força material”. Isto ocorre porque o verdadeiro direito é formado pelas regras e “princípios mais certos da sã razão”, ou seja, pela “lei natural, gravada pelo próprio Deus em todos os corações”, ou seja, na “reta razão”.

A “reta razão”, razão correta, é a razão informada por idéias verdadeiras, adequadas e em harmonia com a realidade.

O hilemorfismo do catolicismo, estoicismo católico e hebreu

A união entre alma e corpo, da antropologia semita e do hilemorfismo estóico e aristotélico, faz parte essencial do cristianismo.

Cada idéia má em nós gera maus efeitos no corpo; e o corpo influencia a alma.

Pio XII, no discurso sobre “Os distúrbios hormonais e neurovegetativos”, proferido no XII Congresso da Sociedade Otorrinolaringológica Latina, em 01.07.1958, em Roma, destacou bem o “equilíbrio psicofísico” da pessoa, tema repetido na Assembléia do Colégio Internacional Neuropsicofarmacológico, também em Roma, sobre sedativos etc.

A Igreja aceitou experiências de hipnotismo para fazer o bem, controladas por bons médicos, com ética. 

Grandes lições de São Tomás de Aquino, um grande gênio da humanidade

Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica” (no vol. XI, 2ª parte, questões 1-17, da edição traduzida por Alexandre Correia, São Paulo, Ed. Saraiva/Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1949) redigiu centenas de páginas sobre a “beatitude” (felicidade) das pessoas, examinando se a beatitude (felicidade) consiste “nas riquezas”, “na honra”, “na glória”, “no poder”, “nos bens do corpo”, “no prazer”, “nos “bens da alma” etc.

Santo Tomás ensinou que “é necessária a perfeição do corpo para não ficar impedida a elevação da mente”, logo é um dever cuidar da saúde e este dever cabe também e principalmente ao Estado.

Ensinou que “o prazer” é bom e, no livro sobre o casamento, Tomás mostra que o casamento foi recomendado antes do pecado original e que sem este, se não houvesse o pecado original, haveria inclusive um prazer sexual maior, prova clara da valorização do prazer sexual dentro do casamento.

Sobre os “bens da alma” e os demais bens criados, Tomás ensinou claramente que os bens são bons (tal como a natureza), feitos para a felicidade e que o segredo está no bom uso (uso social) destes bens: “precisa o homem nesta vida de bens necessários ao corpo, para a atividade, tanto da virtude contemplativa como da ativa; sendo-lhe ainda, para esta, necessários muitos outros bens pelos quais exerça as obras da virtude ativa”.

Os bens são instrumentais, devem ser usados para a consecução do bem comum, pois “a beatitude significa a obtenção do bem”, a fruição do bem, sendo Deus o bem supremo (Tomás analisa a união das pessoas com Deus com base na união amorosa entre marido e esposa, seguindo nisso o livro “Cântico dos cânticos”, da Bíblia).

Em capítulos que poderiam compor livros de auto-ajuda, Tomás examina como as pessoas podem obter a beatitude (a felicidade), mostrando a importância da amizade e a alegria da sociedade (“societate gaudent”).

A sociedade e o Estado são construções humanas, da razão humana

A sociedade no sentido amplo é uma construção, tal como o Estado.

A Bíblia também considera a própria Igreja como uma “construção” humana (“aedificatio”, daí a expressão para edificação), feita sob a luz da graça e da fé, mas com forças humanas (a graça opera por dentro, pela mediação da natureza, por meio desta, sem anulá-la).

A graça aperfeiçoa a natureza, atua por dentro, “penetra o nosso ser e o nosso agir, enobrece todo trabalho honesto”, cf. Pio XII, em 1943).

O próprio Cristo usou a imagem da construção de um edifício (cf. Mt 21, 42; At 4,11; e 1 Pd 2,7). A Igreja foi sendo construída por forças humanas (1 Cor 3,11) e ocorre o mesmo com o Estado, embora a atuação divina seja mais direta na Igreja.

O termo construção é complementado pelo resultado da construção, pois a Bíblia chama a Igreja de “Casa de Deus” (“Domus Dei”, cf. 1 Tm 3,15); “Morada de Deus” (“Habitaculum Dei”, Ef 2, 19-22); “Tenda de Deus” (“Tabernaculum Dei”, cf. Ap 21,3; e “Templo Santo” (“Templum Sanctum”. Nesta “Casa”, todos somos “pedras vivas” (cf. 1 Pd 2,5), partes atuantes.

Da mesma forma, a Igreja é chamada de “Jerusalém”, ou seja, de cidade, construção humana.

Outra foto de Jenny Marx, filha de Marx, com um crucifixo

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A fé e a graça visam fortalecer as energias da razão, da vontade, dos afetos, do corpo

O documento “Para uma pastoral da cultura”, do Conselho Pontifício da Cultura, órgão do Vaticano, diz que “a Igreja esclarece o sentido e o valor da vida, alarga os horizontes da razão e fortalece os fundamentos da moral humana”. Em outras palavras, a fé e a graça fortalecem as forças humanas, atuam por dentro das forças naturais, purificando, aperfeiçoando. Dentre estas forças, a fé atua principalmente sobre a inteligência:

“… desde as origens, o cristianismo se distingue pela inteligência da fé e pela audácia da razão. Testemunham-no pioneiros como são Justino e são Clemente de Alexandria, Orígenes, os Padres Capadócios, o encontro entre o pensamento platônico e neoplatônico e santo Agostinho, depois a integração da filosofia de Aristóteles efetuada por santo Tomás, sem esquecer santo Anselmo, santo Alberto Magno e são Boaventura, até a época contemporânea ilustrada por Newman e Rosmini, Edith Stein e Vladimir Soloviev, Pavel Florensky e Vladimir Lossky, evocados pelo Papa João Paulo II, na sua encíclica Fides et Ratio (cf. nn. 36-48)”.

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