Arquivos para : Planificação democrática e participativa, com economia mista, modelo da Igreja

Turismo interno supera 62 milhões de pessoas, mais de dez vezes o número dos turistas estrangeiros. Mercado interno é o que move mesmo a economia

Tirei o texto do Ministério do Turismo, dados referentes ao ano de 2014. Mostram que até no turismo a economia interna é muito mais importante. Mais de 90% do turismo é TURISMO INTERNO.

“O mercado doméstico de viagens apresentou desempenho recorde no ano passado. Os brasileiros realizaram cerca de 206 milhões de deslocamentos pelo país, melhor número da série histórica, que representa acréscimo de 2% em relação a 2013, segundo estimativa do Ministério do Turismo.

Cerca de um terço da população, ou 62 milhões de brasileiros, visitaram algum destino nacional em 2014. Somente durante a Copa do Mundo, foram três milhões de turistas locais viajando pelo país. “As pesquisas confirmam que o turismo é um dos principais sonhos de consumo do brasileiro. Portanto, em 2015 vamos reforçar ações de estímulo ao turismo doméstico, que tem grande potencial de crescimento”, afirma o ministro do Turismo, Vinicius Lages.

Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), as quatro companhias filiadas transportaram 95,1 milhões de passageiros em voos nacionais no ano passado. A demanda por transporte aéreo doméstico cresceu 5,7% no período.

De acordo com sondagem mensal de intenção de viagem do consumidor, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para o MTur, em janeiro 25,6% dos brasileiros planejavam viajar até julho deste ano. A maioria, 73,6%, pretende visitar algum destino dentro do Brasil. O avião é o meio de transporte escolhido por 58,5%, enquanto que 24,4% farão os deslocamentos de carro.

Ouça aqui comentário do Ministro do Turismo, Vinicius Lages, sobre o crescimento do turismo doméstico em 2014″.

Meu comentário – o Brasil recebe apenas de cinco a seis milhões de turistas externos, por ano. E isso é pífio, em relação ao número de turistas internos, de 62 milhões. No mais, os dados acima não listam sequer o número de viagens por ônibus, veículo preferido pelas pessoas mais pobres, pela maioria.

Conclusão – A ECONOMIA INTERNA, o MERCADO INTERNO, é que move mesmo a economia e deve ter prioridade no planejamento da economia. 

Planificação pública participativa da economia, controle do Estado sobre as relações de produção

O golpe de 64 eliminou o antigo Conselho Nacional de Economia, previsto na Constituição de 1946, e entregou nossa economia e nosso Estado para o imperialismo (com testas-de-ferro como Roberto Campos, Delfim e outras pragas).

As idéias de planificação e de nacionalismo também floresceram na Indonésia, onde Achmed Sukarno (1901-1970) criou um Conselho de Planificação Nacional. No Irã, com Mossadegh. A CIA insuflou golpes contra cada um destes defensores da economia mista, do Estado planificador e interventor, de estatais etc. 

Na Índia e no Egito também foram organizadas experiências de planificação.

Vital Moreira, um grande jurista português, escreveu o livro “A ordem jurídica do capitalismo” (Coimbra, Centelha, 1978, pp. 250-255), onde mostra o surgimento dos conselhos econômicos (órgãos estatais de intervenção econômica) a partir da primeira guerra mundial.

O artigo 165 da Constituição de Weimar (1919, democrática, uma das mais avançadas de seu tempo e com boa participação da Igreja) previa o Conselho Econômico, que seria “a cúpula de uma complexa organização de corpos de administração econômica autônoma, cuja base se encontrava nos conselhos de fábrica, saídos da revolução de novembro” (p. 251). Trata-se, como explicou Vital, da “utopia de uma economia auto-administrando-se a partir de conselhos de fábrica e de um parlamento econômico – que moveu até certo o sistema de Weimar”(p. 255).

Vital escreveu, ainda: “uma das grandes linhas de força da constituição dos conselhos econômicos no após-guerra assenta no reconhecimento e nas exigências das associações operárias, produto dos conflitos econômicos e sociais dessa época e do estreitamento das relações entre a economia e o Estado”.

Na França, a Frente Popular reestruturou e fortaleceu a estrutura do “Conseil Economique”. Vital acrescenta (p. 255): “Depois da II Guerra, assiste-se a um novo surto de criação de conselhos econômicos”, com os trabalhistas, De Gaulle e as coligações entre democratas cristãos e socialistas democráticos. 

Estas correntes políticas e de economia política usavam como substrato ideológico as idéias de velhos mercantilistas cameralistas.

Os grandes cameralistas eram adeptos de ampla intervenção pública na economia. Este ponto fica claro com a leitura das obras de escritores como: Antônio Serra, colega de Campanella, expostas no livro “Breve tratado” (1613), depois ampliadas por Colbert. Outros grandes nomes são: Juan de Mariana, Jean Bodin, Juan Botero, Thomas Mun (1571-1641) Antoine de Montchrétien (1575-1621, autor de “Tratado de economia política”, 1615); Nicholas Barbon ou von Justi.

A ação correta e a intervenção do Estado não anula a liberdade pessoal, e sim a amplia, como a ação de Deus, a graça

A liberdade humana é ampliada pelo concurso da “graça”, que é a ação do Espírito Santo, em nós e no mundo.

A ação planificadora divina é o melhor exemplo para uma boa planificação (planos, regulamentos e leis positivas) estatal e social, que considera a liberdade como parte essencial, agindo em concurso, cooperação, colaboração, sinergia, ação combinada e convergente. A economia divina é uma economia mista, parte divina e parte pessoal, em sinergia. 

Deus faz chover as graças (“moções” e “luzes”) de acordo com as necessidades de cada pessoa, dando inclusive, nisto como em tudo o que Deus faz, um bom exemplo ao Estado e para cada um de nós.

Como explicou Pio XII, na “Mystici Corporis Christi” (n. 16), mesmo os sacramentos (tal como a graça), são meios de santificação (de melhoria ética, intelectual) que “proveem abundancialissimamente às necessidades sociais” das pessoas.

São formas de atender às necessidades naturais das pessoas, para restaurar a criação, renovando-a, como faz o fermento, por dentro, por inculturação (ou como o nascimento de uma semente, a seiva nas plantas etc).

Como explicou um grande teólogo que virou Cardeal, em “Sobrenatural”, Deus age no mundo também diretamente, sem precisar dos sacramentos. Os sacramentos são uma via especial, mas não única. 

Planificação com liberdade, economia mista, Estado social

A mente humana é essencialmente planificadora, como expus no livro sobre as origens cristãs do socialismo. Este caráter planificador da consciência é que explica o potencial maléfico dos erros, da ignorância e da mentira.

O ponto central é que há a liberdade, esta boa e há a necessidade de bons planos, como planos de vôo.

São estas premissas antropológicas que possibilitam a democracia e uma economia planificada de forma participativa e livre, como mostrou Pontes de Miranda, em várias obras importantes.

Como ensinaram os bispos brasileiros, na “Declaração de Goiânia”, “a cultura [o conhecimento, que nasce de forma discursiva, dialógica, por consensos, por sínteses consensuais] só pode vicejar onde há liberdade de pesquisa”, “uma justa liberdade de pesquisa e de ensinamento, para que se possa ter um autêntico progresso no conhecimento e na compreensão” (cf. João Paulo II, discurso na Gregoriana, em 15.12.1979).

O Estado deve ser um fórum de convivência, de auto-regulação, de cooperação, harmonizando (coordenando) as forças vivas da sociedade.

Este é o ensinamento do jusnaturalismo cristão e hebraico, como pode ser visto em milhares de autores. Por exemplo, nos textos de Alceu, Maritain, Buchez, Ozanam, em Del Vecchio (ver “A verdade na moral e no direito”, Roma, 1952), Mounier, Jean Lacroix e outros.

Antônio Genovesi (1712-1769) também ensinava que a vida e a luta por uma vida mais digna é “de direito natural” e, assim, “a terra, em caso de necessidade, é um patrimônio comum”, devendo ser controlada de forma participativa.

No mesmo sentido, Ludwig Borne, Weitling, Karl Schaper e outros líderes cristãos da Liga dos Justos, precursora cristã do melhor do marxismo. 

A boa lição do Episcopado católico em Portugal e na Espanha

O Episcopado de Portugal, em 1974, numa carta pastoral, escreveu: “nem todos os socialismos que hoje correm pelo mundo estão dominados por ideologias inaceitáveis para um cristão”.

Depois, no mesmo texto, completou – é necessário um “esforço de discernimento” (n. 50), para, conforme disse Paulo VI, “estabelecer o grau de compromisso possível esta causa, salvaguardados os valores, principalmente da liberdade, da responsabilidade e da abertura ao espiritual, que garante o desabrochar integral do homem”.

Na Espanha, os católicos mais preparados militam no PSOE, que realizou uma boa abertura à Igreja, tal como no Podemos. O mesmo ocorre na França, no Partido Socialista.

Pio XII elogiou o planejamento público da economia, a economia mista

Pio XII, em carta ao Presidente da Semanas Sociais da França, em 03.06.1952, defendeu a planificação econômica estatal. Disse claramente que “a dificuldade de uma sadia distribuição” de bens, para responder “às exigências da vida social”, não pode ser resolvida pelo “abandono ao livre jogo das forças econômicas cegas”.

Disse, ainda, que é preciso “ser considerado” o prisma “da economia nacional”, com “clara visão do fim”, da finalidade da economia, que é o “o serviço do bem comum temporal”.

Pio XII mostrou que é “função normal” do “Estado” fazer a “coordenação” geral, para “aumentar a produção” e organizar a produção para atender às “necessidades e a dignidade do ser humano”, que deve ser colocada “em primeiro plano” na “questão do ordenamento” (organização) “da economia, no capítulo da produção”.

Este Papa destacou que é preciso economia mista, ou seja, nem o “livre jogo das forças econômicas cegas” e nem “a onipotência opressiva” do Estado, e sim intervenção estatal e “legítima autonomia das iniciativas privadas”. Assim, o Estado, “os poderes públicos”, tem uma “função inegável de coordenação, que se impõe sobretudo nas condições complicadas atuais da vida social”. Cabe ao Estado, ao “concurso” do Estado, “construir uma política econômica que favoreça a cooperação ativa de todos para o aumento da produção”, “fonte direta da renda nacional”.

— Updated: 22/07/2018 — Total visits: 30,849 — Last 24 hours: 32 — On-line: 0
Pular para a barra de ferramentas