Arquivos para : A “Fórmula” Ketteler, Buchez, Louis Blanc e Lassalle: Grandes meios de produção devem ser organizados na forma de cooperativas ou estatais, com planificação pública.

Marx lia católicos sociais e os citava, com respeito, nas cartas pessoais

O movimento democrático-cristão de Buchez, Ozanam, Tocqueville, dos poloneses e irlandeses, de Montalembert, Lacordaire e outros é um dos elos precursores da Teologia da libertação, e merece ser resgatado, historicamente. 

O próprio Marx lia e gostava de textos de católicos sociais. Por exemplo, Marx transcreveu de forma apreciativa, num artigo de 11.07.1856 (publicado no jornal “New York Daily Tribune”) um extenso texto de Montalembert, onde este denunciava o regime autoritário de Napoleão III.

Segundo Montalembert, no trecho transcrito por Marx, Napoleão III tinha “sufocado toda a vida política” da França. A “grande nação francesa não podia entregar-se ao sonho, à passividade”, pois “a vida política” estava sendo substituída “pela febre da especulação, pela avidez da ganância, pelo afã do jogo”.

Montalembert atacava a especulação da Bolsa, dos monopólios privados, males que Vogelsang também denunciou ardentemente depois.

Montalembert dizia que a França apodrecia e “a verdadeira causa deste mal consiste em que se feito dormitar na França todo espírito político”.

Em 1840, Montalembert denunciava o trabalho das crianças nas manufaturas. Marx, ao transcrever Montalembert, como que assina embaixo nas críticas ao governo de Napoleão III.

Numa carta a Engels, em 25.09.1869, Marx menciona Ketteler:

Eles, como, por exemplo, o bispo Ketteler, de Magúncia, os sacerdotes reunidos no Congresso em Dusseldorf etc., são simpáticos à questão trabalhista em todos os lugares onde lhes é possível sê-lo. Em 1848, trabalhamos em seu favor. Eles são os únicos que se têm beneficiado durante a restauração dos frutos da revolução”.

As idéias de Montalembert influenciaram vários políticos ligados ao Partido Liberal no Brasil (inclusive Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e outros), ao Partido Progressista e, mais tarde, ao Partido Republicano, na ala católica.

Montalembert, no discurso no congresso de Malines, na “Assembléia geral dos católicos belgas”, em 1863, elogiou o progresso da democracia e ressaltou que a “liberdade de consciência” tem base bíblica, na negativa de obediência às leis iníquas, como ensinaram os Profetas, Cristo, os Apóstolos e os Mártires da Igreja.

Montalembert elogiou a liberdade política, civil e de consciência.

Lacordaire, Montalembert, o padre Augusto José Afonso Gratry (1805-1872, com idéias próximas de Rosmini), Dupanloup, Foisset e outros representaram o partido democrata-católico de 1857 a 1870.

O padre Gratry escreveu obras como o “Curso de filosofia” 91855), “A moral e a lei da história” (1868), “Do conhecimento de Deus” e “Lógica”. Gratry saudou a Revolução Francesa como uma “renovação da face do mundo, na justiça, na verdade e na liberdade”. Gratry influenciou Blondel, especialmente pela obra “A moral e a lei da história” (1874).

Montalembert era um dos principais líderes dos melhores militantes leigos da Igreja na França e as palavras acima de Marx são como que um elogio indireto a esta corrente.

Montalembert escreveu obras como “Pio IX e a França de 1848 e 1859” (1861) e “A Igreja livre no Estado livre” (1863). Este último livro foi a base teórica principal da luta de Cavour (1810-1861). Cavour, Primeiro-ministro do Piemonte, usava como “lema” o título do livro de Montalembert, adotando também os textos de Rosmini e de Gioberti (elogiados até por Tobias Barreto).

Estes católicos defendiam o progresso, a liberdade e a justiça social, continuando os ideais de Lamennais, Buchez, William Cobbett (um católico inglês que elogiava a Igreja e que escreveu obras como “Papel contra ouro; ou, a história e o mistério do Banco da Inglaterra, da dívida”, em 1828), Ozanam ou Charles François Chevé (1813-1865, diretor do jornal “Voz do povo” e aliado de Proudhon) e outros autores ligados ao romantismo cristão. Lembro que Chevé militava ao lado de Proudhon e se denominava socialista ao modo dos Santos Padres e escreveu o livro “O reino de Cristo”.

O grande Simonde de Sismondi (1773-1824), que é a fonte de uma boa parte do movimento socialista do século XIX, escreveu o livro “Novos princípios de economia política”, que foi amplamente citado por Marx, Rodbertus e outros.

Sismondi era profundamente cristão e foi apreciado inclusive pelo Visconde de Cairu. Marcuse, no livro “Razão e revolução” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1978, p. 307), também elogiou Sismondi por ter elaborado “a primeira crítica imanente radical do capitalismo” e por ter colocado a “nu os mecanismos do capitalismo industrail nascente” que produziam a miséria.

Para Sismondi, “todas as formas de organização social” existiam (no sentido de tinham o dever) de “satisfazer as necessidades humanas” e, com base nesta premissa, como apontou Marcuse, ele criticou o capitalismo.

Sismondi foi chamado por Marx de “economista romântico”, chefe do socialismo pequeno burguês, e foi considerado por Lênin como a base do romantismo econômico e do populismo. No fundo, são constatações indiretas de Marx e de Lênin sobre as bases cristãs do romantismo e do populismo, tal como da crítica cristã ao capitalismo.

Proudhon tinha respeito pela “escola de Buchez e Ott, representantes modernos da democracia cristã” e redigiu bons textos sobre o cristianismo primitivo e sobre a Bíblia.

Em suas primeiras obras, Proudhon era panteísta (bem religioso, especialmente no livro sobre a propriedade, que Marx elogiava muito); depois, ele adotou uma filosofia que ele mesmo descreveu no livro “Da justiça na revolução e na Igreja”: Deus “é a personificação do Equilíbrio Universal: Deus é o Arquiteto” e, “na ordem moral, Ele é a Justiça”, dirigindo o processo histórico com nossa participação. Nestas idéias, há elementos hebraicos e cristãos corretos, junto com uma ganga de erros maniqueístas, em parte presentes na maçonaria heterodoxa, como veremos mais adiante, em outras postagens. A maçonaria mais tradicional é jusnaturalista e teísta, seguindo idéias da Paidéia, do judaísmo e do cristianismo (os textos do grande Padre Valério Alberton são bastante elucidativos e corretos).

Durante o século XIX houve uma corrente romântica e eclética que teve maioria no Brasil e na Europa, baseado numa síntese entre cristianismo e democracia. Victor Cousin (1792-1867), um dos principais formuladores da escola eclética, num discurso na Câmara dos Pares, na França, em 21.04.1844, ressaltou que esta corrente baseava-se “nas grandes verdades naturais que pertencem ao senso comum, que formam o patrimônio da razão humana”, base da “verdadeira moral pública e privada”.

Cousin, em 1856, enviou uma carta ao Papa, ressaltando que sua filosofia era compatível com o catolicismo e morreu católico.

No livro “Fragmentos filosóficos”, Cousin escreveu que “as verdades estão ao alcance de todos, o senso comum as possui em sua consciência espontânea, sem necessidade de qualquer ciência especial: a única coisa que distingue o filósofo das outras pessoas é que ele descobre no que consiste a consciência através da introspecção”, enquanto o outro distingue as mesmas verdades essenciais sem tanta reflexão e elaboração, de forma mais rude. Enfim, há uma “fé natural e permanente do gênero humano” com base na “razão natural”.

Na mesma linha de Cousin, do ecletismo, houve autores como Emilio Castelar, Jules Simon (1814-1896, autor de obras como “O dever”, “Deus, pátria, liberdade” e “A religião natural”), Sully Prudhomme (1839-1907) e outros.

Jules Simon foi discípulo e continuador de Victor Cousin, o grande eclético, tendo sido deputado de 1848 a 1850, Senador de 1876 a 1877 e ainda ocupou outros cargos. Prudhomme ganhou o Prêmio Nobel de literatura, em 1901, tendo redigido boas obras como “A justiça” (1878), “A felicidade” (1888), “O problema das causas finais”, “A verdadeira religião segundo Pascal” e outras.

Na linha da defesa dos poderes da razão, antes de Cousin, houve o pastor Richard Price (1723-1791), secretário particular de Sherburne (primeiro-ministro da Inglaterra). Price, num discurso em 04.11.1789, elogiado por Thomas Paine, no início de seu livro “Direitos do homem” (1792), ensinava que o Direito cristão (anglicano e católico) inglês, desde a Carta Magna de 1215 e da Revolução Gloriosa de 1688, reconhece o direito do povo de eleger os governantes. Da mesma forma, o direito natural de cassá-los por má conduta (tirania) e de moldar o governo para que sirva ao bem comum, sirva a sociedade.

Price era unitário, uma corrente próxima ao catolicismo, na valorização da razão e da natureza humana, contra os erros jansenistas e calvinistas. Era também jusnaturalista.

Conclusão: o movimento democrata cristão é a principal corrente política da democracia, pois os principais expoentes da democracia fundamentaram seu ideário político nas idéias de Jesus Cristo.

As linhas gerais da economia em adequação à Doutrina social da Igreja

A doutrina da Igreja aponta como melhor solução uma economia mista, sem ricos, onde os grandes meios de produção pertençam ao Estado, com difusão maciça da pequena propriedade, da educação, da saúde, de direitos políticos, de direitos trabalhistas e sociais.

Um sistema com predominância do Trabalho, como causa única eficiente da produção, e como causa conjunta, junto com a natureza, dos valores de uso, da verdadeira riqueza de uma sociedade. 

A ampliação dos direitos sociais e trabalhistas, naturalmente, amplia o número de pequenos e médios proprietários e impede o surgimento de ricos.

Para evitar o acúmulo de bens, um bom ordenamento jurídico e um sistema tributário distributivo são essenciais. Tal como um Ministério Público e um Judiciário vinculado aos hiposuficientes etc.

Quanto maior o bem de produção, maior o grau necessário de intervenção pública, de controle público, por sua vez controlado pelos trabalhadores, pela sociedade – controle social.

Os grandes meios de produção devem pertencer ao Estado, com a co-gestão dos trabalhadores, que também deve existir em praticamente todas as empresas (e o ideal é que estas adotem as formas de cooperativas e fundações.

O direito de propriedade sobre um carro sofre amplas limitações no direito de uso do carro (leis de trânsito).

Da mesma forma, sobre armas, é justo que sejam praticamente proibidas. Ou sobre pólvora, por exemplo.

Os bens devem ser usufruídos por todos para atenderem às necessidades básicas, esta é a regra básica, serem usados de acordo com as necessidades, e serem regulamentados na medida da necessidade ( finalidade intrínseca).

Quanto mais úteis socialmente, mais contendo valor de uso, mais devem ser regidos publicamente, pelo controle dos preços, por pilhas de formas de gratuidade, de comunhão de uso etc.

A base fundamental da teoria social da Igreja é a caridade (o amor). Desta virtude primordial há uma regra básica que deve reger a economia e a sociedade: que cada um tenha os bens necessários (se possível, de graça), na medida das necessidades.

São Vicente de Paulo, São Francisco de Assis, as Irmãs de Caridade, os Vicentinos e outros tinham consciência clara desta máxima, tal como a maioria das Ordens religiosas e instituições de caridade.

A misericórdia, a caridade, dar de graça, é o miolo, o cerne, da doutrina de Cristo. Uma sociedade onde todos prosperam, têm subjetividade, dignidade, vida plena. 

Buchez, a fonte de Louis Blanc, de Lassalle e dos melhores textos da Internacional

Philippe-Joseph-Benjamin Buchez (1796-1865) é considerado o fundador das cooperativas de produção para os trabalhadores. Houve alguns esboços antes, mas Buchez é o principal autor. É o expoente do socialismo católico.

Buchez difundia suas ideias na revista Europée, nos anos de 1830.

Buchez dirigiu a revista “L´Atelier”, de 1840 a 1850, em Paris, difundindo a ideia de criação de cooperativas de produção, com a ajuda do Estado.

Boa parte das cooperativas fundadas em Paris, depois da revolução de 1848, que teve Buchez como um dos principais expoentes, deve-se às ideias de Buchez.

Buchez foi presidente da Assembléia Constitucional Francesa, em 1848. Foi eleito deputado com maior número de votos que os outros representantes da esquerda. 

O próprio Marx e Engels escreveram, em vários textos, que Buchez está na origem dos melhores textos de Louis Blanc e de Lassalle.

Lassalle conhecia os textos de Louis Blanc, que citava Buchez.

Como Marx reconheceu, numa carta a Engels, em setembro de 1868, há uma grande semelhança entre a “descoberta lassalliana” e textos de Buchez, especialmente de um artigo no primeiro número da revista “L´Atelier”, de setembro de 1840.

Da mesma forma, Buchez combinava a ideia de democratização do Estado com apoio estatal às cooperativas de trabalhadores, ou seja, o núcleo das ideias de Lassalle.

A ideia de democratizar o Estado e criar cooperativas de produção com ajuda do Estado é o núcleo das ideias do “Manifesto” e dos melhores documentos da Internacional.

Estas ideias nascem de um católico, o pai do socialismo católico, Buchez. Foram apoiadas por Ketteler, na Alemanha.

Buchez escreveu obras essenciais como “Introdução á ciência da história ou ciência do desenvolvimento da humanidade” (1833), “História parlamentar da Revolução Francesa” (de 1833 a 1838, em 40 volumes, obra citada por Marx, várias vezes).

Mais importante, Buchez escreveu “Ensaio de um Tratado completo de filosofia do ponto de vista do Catolicismo e do Progresso” (1839 a 1840).

Outro expoente do cooperativismo foi o padre Theodor Amstad. 

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