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Sínodo da Igreja Católica Anglicana denuncia golpe, temer e males do capitalismo. Na linha dos católicos sociais, bom

Do blog Cartas Proféticas– Reunida em Sínodo a Igreja Católica Anglicana desenhou seu rosto com as cores de uma igreja orgânica viva e profética – no sentido de seu compromisso inarredável com a classe trabalhadora, com os pobres injustiçados e excluídos econômica e politicamente – afirmando-se radical e oficialmente engajada na realidade econômica, cultural, política e social do Brasil.

Em nota à Nação Brasileira a Câmara dos Bispos afirmou que “somos conscientes da enorme crise que vivemos no Brasil e no mundo.

a)Sabemos que o capitalismo em sua forma imperialista é o pai das crises e decadências mundiais, arrastando os povos, as nações e o planeta terra ao risco de uma hecatombe sem voltas, com danos irreversíveis à vida humana e a de todas as espécies;

b)Sabemos que o Brasil, nossa amada Pátria, sofre as consequências da falência capitalista nos campos econômico, político, social e moral, que leva o povo, notadamente a classe trabalhadora e os pobres em especial, a sofrimentos em forma da perda de empregos, das terras, das riquezas do subsolo, da educação, da saúde e da segurança com todos expostos à violência que cresce e assombra: b1. No campo econômico nosso País é dirigido pela ganância e pelo reforço dos lucros já gordos dos banqueiros e dos cada vez mais ricos, com esvaziamento dos investimentos no desenvolvimento com justiça social; b 2. No campo político vivemos o desprezo de uma elite de costas para o povo, que tomou o poder de Estado para geri-lo na proteção do egoísmo e da perversidade da concentração do privilégios; b 3. No terreno social vê-se aumentarem as mazelas, a miséria, a criminalidade, a degradação das relações humanas com os riscos do fascismo travestido do discurso moralista-farisaico de proteção à família e disfarçado de combate à corrupção, abrir feridas típicas de uma sociedade doente e em guerra; no que tange à moral nunca se viu na história deste País tanta corrupção, enriquecimento ilícito, roubo dos direitos sociais e da institucionalização da injustiça, com o parlamento e o judiciário conviventes com a corrosão dos valores éticos”, declararam os bispos da Igreja Católica Anglicana.

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Manifesto à Nação Brasileira

“Eis-me aqui, Senhor, envia-me a mim” (Isaías 6, 8).

Nós bispos da Igreja Católica Anglicana passamos três dias juntos em oração e em reflexão sobre a vontade de Deus para o Brasil e para o nosso povo, reunidos em Sínodo Nacional em Cametá, Pará, de 09 – 12 de novembro de 2017, com trabalhadores das águas, das matas, dos campos e da cidade, muitos e muitas da academia como educadores/as e educandos/as, muitos/as quilombolas, negros, negras e ameríndios/as perseguidos/as por ruralistas e grileiros gananciosos, vimos à Nação Brasileira nos manifestar:

Que somos a Igreja Católica Anglicana:

Por que cremos que a Igreja é instituída por Jesus, que recebeu dÊle o convite para o seguirmos. DÊle aprendemos o amor radical e consequente para amarmos os pobres, excluídos e injustiçados. Aprendemos que ao amarmos os pobres é a Êle que amaremos (Mt 25, 31 – 46 e Lc 4, 16 – 19).

Porque cremos nos sacramentos instituídos por Jesus e os aceitos historicamente pela igreja.

Porque cremos que o sacerdócio ordenado serve a igreja na realização dos sacramentos no mundo, perdoando os pecados, pregando, organizando a Igreja, remetendo-a à missão do reino de Jesus e a denunciar as injustiças frutos das estruturas opressoras;

Porque nos inspiramos nos santos mártires da libertação, que entregaram suas vidas à causa da realização libertadora do Reino de Deus para dignificar as existências humanas independentemente da fé que as pessoas adotam;

Porque nos vinculamos por fé e consciência ao anglicanismo desde os celtas, valorizando, por isso, as raízes autóctones dos povos, geralmente agredidos, destruídos culturalmente por missões estrangeiras eivadas de colonização escravocrata e antiecológica;

Porque valorizamos sobremaneira o ministério leigo dos santos e santas, batizados/as e confirmados/as no pacto batismal como sinal de fé e compromisso com a igreja que se dispõe a servir o reino proposto por Jesus;

Porque somos ecumênicos e macro ecumênicos sendo pequenos sinais e testemunhos de provocação de unidade e comunhão entre os iguais e os diferentes, com a mais profunda compaixão;

Porque acolhemos sacramental e pastoralmente todas as formas de amor e de comunhão ética e justa, agindo com compaixão entre as pessoas diferentes do que os modelos injustos estabelecem como certos.

Outrossim, somos conscientes da enorme crise que vivemos no Brasil e no mundo.

a)Sabemos que o capitalismo em sua forma imperialista é o pai das crises e decadências mundiais, arrastando os povos, as nações e o planeta terra ao risco de uma hecatombe sem voltas, com danos irreversíveis à vida humana e a de todas as espécies;

b)Sabemos que o Brasil, nossa amada Pátria, sofre as consequências da falência capitalista nos campos econômico, político, social e moral, que leva o povo, notadamente a classe trabalhadora e os pobres em especial, a sofrimentos em forma da perda de empregos, das terras, das riquezas do subsolo, da educação, da saúde e da segurança com todos expostos à violência que cresce e assombra: b1. No campo econômico nosso País é dirigido pela ganância e pelo reforço dos lucros já gordos dos banqueiros e dos cada vez mais ricos, com esvaziamento dos investimentos no desenvolvimento com justiça social; b 2. No campo político vivemos o desprezo de uma elite de costas para o povo, que tomou o poder de Estado para geri-lo na proteção do egoísmo e da perversidade da concentração do privilégios; b 3. No terreno social vê-se aumentarem as mazelas, a miséria, a criminalidade, a degradação das relações humanas com os riscos do fascismo travestido do discurso moralista-farisaico de proteção à família e disfarçado de combate à corrupção, abrir feridas típicas de uma sociedade doente e em guerra; no que tange à moral nunca se viu na história deste País tanta corrupção, enriquecimento ilícito, roubo dos direitos sociais e da institucionalização da injustiça, com o parlamento e o judiciário conviventes com a corrosão dos valores éticos.

Somos uma Igreja profética e orgânica:

a)que amamos a libertação como nome da salvação empreendida por Javé, que libertou o povo hebreu da escravidão do Egito, como quer que trabalhemos pela libertação de nosso povo mais injustiçado e imerso nas escravidões de hoje, acentuadas por reformas que retrocedem o regime de trabalho às condições da escravatura de antes da proclamação da República.

b)com os profetas Isaías, Jeremias, Amós e outros proclamamos: “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo! Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em sua própria opinião! Ai dos que são campeões em beber vinho e mestres em misturar bebidas, dos que por suborno absolvem o culpado, mas negam justiça ao inocente!” (5, 20 – 23);

“Ai daquele que constrói o seu palácio por meios corruptos, seus aposentos, pela injustiça, fazendo os seus compatriotas trabalharem por nada, sem pagar-lhes o devido salário. Ele diz: ‘Construirei para mim um grande palácio, com aposentos espaçosos’. Faz amplas janelas, reveste o palácio de cedro e pinta-o de vermelho. “Você acha que acumular cedro faz de você um rei? O seu pai não teve comida e bebida?

Ele fez o que era justo e certo, e tudo ia bem com ele. Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? “, declara o Senhor. “Mas você não vê nem pensa noutra coisa além de lucro desonesto, derramar sangue inocente, opressão e extorsão. ” Portanto, assim diz o Senhor a respeito de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá: “Não se lamentarão por ele, clamando: ‘Ah, meu irmão! ‘ ou ‘Ah, minha irmã! ‘ Nem se lamentarão, clamando: ‘Ah, meu senhor! ‘ ou ‘Ah, sua majestade! ‘

Ele terá o enterro de um jumento: arrastado e lançado fora das portas de Jerusalém!” (22, 13 – 19);

“Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes. Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal, isso não me agradará. Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não darei a menor atenção a elas. Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene! “. “Foi a mim que vocês trouxeram sacrifícios e ofertas durante os quarenta anos no deserto, ó nação de Israel?” (5, 21 -25).

c)comprometidos com Jesus porque queremos ser uma igreja como a que sonhou Lucas ao descrever a experiência do Pentecostes em Atos dos Apóstolos; porque lutaremos para que em nossa sociedade a partilha seja assim tão profunda que não mais haja quem roube e quem seja roubado: “Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum.

Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (2, 44-45); “não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um” (4, 34 – 35) e viva como corpo de Cristo: “Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo”; “… que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros” e ” quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele” (I Coríntios12,12, 25 e 26).

Movemo-nos pela fé no Deus que caminha conosco nos dolorosos caminhos da libertação e da missão do Reino de Deus.

Movemo-nos conscientes da enorme crise que vivemos, mas, sobretudo, pela esperança dos que amam a Deus e ao povo no meio de quem Ele nos coloca com humildade.

Queremos ser uma igreja do serviço e não do senhorio dos que se pensam donos do mundo e do cultivo do autoritarismo.

Queremos ser uma igreja com as outras igrejas e com as outras religiões na construção do Reino de Deus, que não é propriedade de nenhuma estrutura eclesiástica e de nenhum senhor coronel espiritual.

Queremos ser uma igreja com Jesus, sobretudo, na opção preferencial pelos injustiçados e pelos oprimidos, sem nenhuma exclusão dos que se converterem como Zaqueu ( Lucas 19, 1 – 10) e se dispuserem a distribuir suas riquezas.

Neste 12 de novembro de 2017 nos manifestamos à Nação Brasileira como Igreja Católica Anglicana.

Conclamamos nosso povo brasileiro aos caminhos da justiça social, que passam pelos elos da grande corrente da democracia com soberania nacional e com direitos sociais.

Cametá, 12 de novembro de 2017.

Dom Orvandil Moreira Barbosa – Arcebispo Primaz e Bispo da Diocese Anglicana do Centro Oeste;

Dom Ricardo Vicente dos Anjos – Arcebispo Primaz Sufragâneo e Bispo da Diocese Anglicana do Pará;

Dom Franciney Rodrigues Pantoja – Bispo Auxiliar da Diocese Anglicana do Pará;

Dom Jorge dos Santos Costa – Bispo da Diocese Anglicana da Santa Cruz, Bahia.

Homenagem a Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, um grande nacionalista brasileiro, pro povo

Colhi este texto do 247 – “Morreu nesta sexta-feira (10), em Heidelberg, na Alemanha, o historiador e cientista político Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, um dos principais intelectuais brasileiros e pioneiro no estudo das Relações Internacionais; Moniz Bandeira convivia problemas cardíacos e estava internado desde outubro; ele morreu por volta das 14h na cidade alemã de Heidelberg, onde encontrava-se radicado e era cônsul honorário do Brasil; em 2015, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores (UBE), em reconhecimento pelo seu trabalho como “intelectual que vem repensando o Brasil há mais de 50 anos”, segundo o presidente da UBE, José Maria Botelho”. 

O elogio de Hipólito José da Costa às confrarias e instituições do Clero católico no Brasil

Hipólito José da Costa foi o criador do “Correio Braziliense”. Foi um dos homens que mais ajudaram no processo de independência do Brasil.

Ele também apontava as confrarias religiosas, no Brasil, como exemplos de um regime representativo de convívio social, de instituições livres.

Hipólito escrevia:

“as confrarias religiosas serviam para fornecer a idéia das eleições e do governo representativo”, “pois nas confrarias havia o compromisso, a que se obrigavam os confrades; no Estado havia a Constituição; nas confrarias, os irmãos elegiam uns tantos consórcios para compor a mesa dirigente em certo período, e mais o juiz ou presidente, o tesoureiro, o secretário, o andador; no Estado, aconteceria o mesmo em ponto grande, escolhendo o povo o parlamento”.

Conclusão: as instituições da própria Igreja são quase todas representativas, democráticas. Estas estruturas representativas e eletivas influenciaram na gestação das estruturas do Estado Democrático.

As confrarias com o Presidente, o Tesoureiro, o secretário e o Andador são precursores da organização social e mesmo da estrutura das lojas maçonicas, que se organizam nos moldes das antigas confrarias da Igreja, pois nasceram dentro da Igreja.

O erro da maçonaria, na América Latina e em parte da Europa (não toda), foi ter adotado o liberalismo econômico e pautas anticlericais. 

Antônio Pedro de Figueiredo, negro, socialista e católico. Precursor do socialismo no Brasil. Discípulo de Buchez, de Victor Cousin, eclético

Amaro Quintas – bom amigo de José Honório Rodrigues, um historiador católico, eminente, do PSB, elogiadíssimo por Alceu –, no livro “O sentido social da Revolução Praieira” (Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1967, pp. 147-148), fez um bom elogio da revolução praieira e do papel de líder intelectual, de Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1850).

Antônio era negro, socialista e católico, como Domingos Velasco, outra grande liderança católica e socialista (idem para Alceu, Pontes de Miranda, Sérgio Buarque de Holanda e outros).

Vejamos o texto de Amaro:

“Diz Pereira da Costa ter Antonio Pedro de Figueiredo nascido em Igaraçu no dia 22 de maio de 1822. Essa afirmativa na me parece, entretanto, retratar fielmente a verdade. Noticiando o falecimento do mulato socialista afirma historiógrafo pernambucano que a “morte o arrebatou a vida da eternidade, aos trinta e sete anos de idade, no dia 21 de agosto de 1850”.

Mas o jornal Liberal Pernambucano de 25 e agosto de 1859 anota: “Obituário das pessoas que foram sepultadas no cemitério público. Dia 22, Antonio Pedro de Figueiredo, pernambucano 45 anos, solteiro, São José, congestão cerebral”. A mesma coisa encontramos no Diário de Pernambuco de 23 de agosto de 1859; “Mortalidade do dia 22: Antonio Pedro de Figueiredo, pardo, solteiro 45 anos, conforme atestam os dois jornais acima citados, o seu nascimento não ocorreu em 1822, como declara Pereira da Costa, e sim em 1814.

São obscuras as suas origens. Sabemos quase somente terem sido elas humildes. Falam os jornalecos da época em um pardo Basílio como o seu pai. É o que diz o Volcão de 30 de agosto de 1847; “… o ridículo Cousin Fusco, filho do pardo Bazílio lá de Iguarassu, onde sempre viveu de limpar a estribaria do pai, e de pescar os seus ciris e bodiões”.

Vindo para o Recife procurou o amparo de um amigo que não correspondeu as suas esperanças, expulsando-o de sua casa. João Sinhô, assim se chamava – conforme O Proletário de 1 de setembro de 187 – esse falso amigo que o desprezou numa ocasião em que Antonio Pedro tanto necessitava de uma ajuda. Mas, buscando abrigo junto aos frades do Convento do Carmo lá encontrou acolhimento e amparo material para aprofundar-se nos estudos”.

Antônio Pedro de Figueiredo era católico, negro, pobre, eclético ligado a Victor Cousin e ao ecletismo católico.Nasceu antes de Marx e era socialista católico, pré-marxista. Lembro que as melhores ideias do socialismo nasceram no socialismo cristão-católico, pré-marxista. 

Antônio Pedro de Figueiredo formou-se no Convento do Carmo, o que, com certeza, contribuiu para a síntese entre catolicismo e socialismo.

Antônio Pedro de Figueiredo foi decisivo para sua liderança na Revolução Praieira, continuando os esforços dos padres da Revolução de 1817, de Frei Caneca e outros. O desembargador Nunes Machado foi outro líder principal, tendo sido morto em combate (em fevereiro de 1849), mas o teórico era Antônio Pedro Figueiredo.

O pensamento socialista deste negro socialista e católico foi descrito da seguinte forma, por Amaro (pp. 152-153):

“Replicando a Autran assegura Figueiredo: “Esta aparição (o socialismo) tende a reformar o estado social em prol do melhoramento da moral e material de todos os membros da sociedade. Para esse fim cada escola socialista oferece meios diferentes, mas não há uma sequer cujas intenções deixem de ser puras e generosas, cujo ideal não seja a realização na terra dos princípios de liberdade e fraternidade”.

Pouco depois acrescenta: “A formula geral da escola socialista a que pertenço, é a realização progressiva do principio cristão de liberdade, igualdade e fraternidade, efetuada sem violência e por meio de medidas apropriadas as necessidades dos diversos países.

E justificando o seu conceito cristão do problema social enumera os argumentos dos grandes doutores da Igreja todos contrários a exploração do homem pelo homem.

Começa com São Clemente: “O uso de todas as coisas que estão neste mundo deve ser comum a todos os homens. A iniquidade foi que permitiu que um dissesse; isto é meu; e outro; isto me pertence. Deste fato proveio a discórdia entre os mortais”(Os grifos são de Figueiredo). Vem depois com Santo Ambrósio: “A natureza ministrou em comum todos os bens a todos os homens. Com efeito, Deus criou todas as coisas a fim de que o gozo delas fosse comum a todos, e a terra se tornasse a posse comum de todos. Assim a natureza gerou o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade”. Em seguida cita as palavras incisivas de São Gregório: “Saibam que a terra de que eles foram tirados é comum a todos os homens, e que por isso os frutos que ela produz pertence a todos indistintamente”.

As fontes de Antônio Pedro de Figueiredo são as mesmas deste meu humilde blog e mostram – tal como as figuras de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Assis Brasil – que os católicos democratas já falavam em socialismo bem antes da influência marxista. Vejamos, na página 157 do livro de Amaro, a ligação de Antônio Pedro de Figueiredo com Buchez, também ligado ao General Abreu e Lima:

“Aproxima-se antes Figueiredo do socialismo cristão de Buchez ou da tendência romântica – tendência essa que não prejudica seu objetivismo em relação ao estudo de nossa situação social – de Pierre Leroux e de seus discípulos.

Talvez a influência de Buchez se tenha feito sentir na sua tentativa de conciliação entre o cristianismo e a doutrina socialista, especialmente depois que Buchez rompeu, em parte, com os sansimonianos, quando Enfantin e Bazard foram proclamados “Pais Supremos”. Não é de desprezar a hipótese de uma possível contribuição de Lamennais e de Lacordaire na obra de Figueiredo. Em relação ao autor das “Palavras de um crente” destacou Aprígio de Guimarães o quanto ele influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo, vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

No mesmo sentido, há o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico.

Na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos, antes de Marx.

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio deste livro. Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824.

Abreu foi para a Colômbia e teve a honra de lutar ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

Vamireh Chacon considerou Antônio Pedro como “o ideólogo da revolução de 1848”, no livro “História das idéias socialistas no Brasil” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1981, p. 74). Chacon afirmou que este pensador católico é “uma indispensável etapa do itinerário ideológico do Brasil”.

O livro de Chacon, “Cooperativismo e comunitarismo” (Rio, Ed. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1959) mostra como o cooperativismo e o comunitarismo também fazem parte da tradição política da Igreja.

Henfil, nosso maior humorista, uma estrela imensa

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Católicos e positivistas no Brasil, uma síntese, no final das contas

Jackson de Figueiredo, no livro “A questão social na filosofia de Farias Brito” (Rio de Janeiro, Ed. Revista dos Tribunais, 1919), elogiou Raimundo Farias, mas o criticou porque:

“Farias Brito não compreendeu nunca que, apesar de tudo, o positivismo foi, de certo modo, uma reação contra o materialismo radical e grosseiro que vinha dominando nos centros filosóficos europeus, e também, do ponto de vista político, um movimento hostil ao liberalismo excessivo que tudo desmoralizava, fazendo ruir todos os princípios tradicionais da sociedade cristã”.

A verdade é que, no Brasil, positivistas ligados a Comte agiram ao lado dos católicos em várias boas causas, especialmente na elaboração do direito trabalhista no Brasil e na criação de boas estatais. Os positivistas militaram ao lado dos nacionalistas e muitos se converteram. Basta pensar em Barbosa Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Roberto Lyra, Roberto Lyra Filho, Evaristo de Moraes Filho, Borges de Medeiros (1863-1961), o próprio Getúlio Vargas, Rondon, Lauro Sodré e muitos outros. A conversão de positivistas como Borges e Getúlio Vargas foi uma grande vitória da Igreja. O mesmo para Roberto Lyra, que morreu como católico, trabalhista, socialista e semi-positivista. 

Lindolfo Leopoldo Boeckel Collor (1890-1942), o fundador do Ministério do Trabalho, no governo de Getúlio Vargas, redigiu também livros importantes, como “O Brasil e a Sociedade das Nações”, “Sinais dos tempos”, “Garibaldi e a guerra dos farrapos” e outras. Este leigo católico soube elaborar uma boa síntese, unindo católicos, socialistas, positivistas e outras correntes no Ministério do Trabalho.

Os positivistas, nas Forças Armadas, também tiveram um papel bom, pois eram pacifistas, no final das contas, abominando saques imperialistas e tendo um saudável horror e ódio cristão às guerras (há poucas coisas mais irracionais que as guerras). A luta por seguridade estatal e social, a ampliação das estatais, das normas trabalhistas e outros pontos é ainda atual, é parte relevante da luta por uma república social, por uma democracia não-capitalista, popular e participativa.

O pensamento cristão de Silva Jardim – democracia popular, Estado social

Para ilustrar a proximidade da militância política entre positivistas e católicos (atestada por Ivan Lins e exemplificada especialmente por Teixeira Mendes), basta ver o caso de Silva Jardim (1860-1891, morrendo nas lavas do Vesúvio).

Jardim foi coroinha aos doze anos e queria ser sacerdote. Sobre suas idéias políticas, nada melhor que as próprias palavras de Jardim, colhido do livro de Maurício Vinhas de Queiroz, “Paixão e morte de Silva Jardim” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1967, p. 25):

“A República caracteriza-se pelo governo da opinião pública [das idéias da sociedade, correlatas às necessidades], à qual obedece o magistrado supremo da nação, (…), pela fraternidade como princípio dominante que aproxima pelo amor a política da moral, e que estabelece a ascendência desta, pelo respeito às leis artificiais, resultantes das leis naturais; pelo desenvolvimento da instrução popular, pelo regime do trabalho e da paz, pela elevação dos fracos, dos desprotegidos, dessa enorme massa do proletariado, até agora não domiciliada, acampada, sim, na sociedade moderna”.

Na p. 21 do livro de Vinhas de Queiroz, este escreveu: “No seu livro de memórias, [Silva Jardim] dá uma relação das obras que mais o influenciaram”, explicitando as fontes cristãs de suas idéias políticas: as de Comte, a quem denominava “mestre imortal”; a Bíblia; a “Imitação de Cristo”, de Thomas Kempis e algumas obras de Condorcet, de Leon Donat (“Política experimental”) e o livro “A República Federal”, de Assis Brasil (cristão, inclusive com capela em casa, como tinha o Barão do Rio Branco).

Da mesma forma, os textos de Clóvis Bevilacqua, filho de um padre casado, também adotam a tese cristã da ascendência da ética (da moral) sobre a política e o Estado. Em outras palavras, a política e o Estado devem ser racionais e pautadas pelo bem comum.

Os grandes leigos da Igreja em luta pela Democracia Popular, com economia não capitalista, distributista

Jacques Maritain (1882-1973), um dos maiores leigos do século XX, sendo o autor predileto de Paulo VI, demonstrou, com clareza, que a democracia social, participativa, popular, participativa, comunitária-cooperativa, humanista e não-capitalista é o ideal histórico atual da doutrina social da Igreja. Mais adiante, neste blog, há uma seção com vários capítulos com os textos de Maritain sobre o poder público, o poder da sociedade.

O ideal da democracia social e participativa tem ampla abonação em milhares de textos. Por exemplo, os textos de Clodovis Boff, de Frei Betto, de vários bispos, de Alceu Amoroso Lima, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, do padre Júlio Maria, Pontes de Miranda (católico e socialista), Alberto Pasqualini, Roberto Lyra (católico, socialista e nacionalista), Roberto Lyra Filho, Herkenhoff, Barbosa Lima Sobrinho, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo de Tarso Santos, Francisco Whitaker e de outros milhares de leigos.

Um Estado realmente democrático é um Estado controlado pelo povo organizado, tendo, como núcleo da economia, um conjunto articulado de estatais com co-gestão, cooperativas sujeitas a um plano estatal e uma ampla base distributista, de pequenos bens (renda cidadã, casas, pequenos carros elétricos e de pequenas cilindradas etc).

As cooperativas existem e florescem graças ao apoio do Estado e de estatais com co-gestão. Ao mesmo tempo, na estrutura da economia, deve haver amplo distributismo, com renda básica para todos, boa remuneração, casa e lotes para todos, ferramentas úteis para cada família. Este ideal era, no fundo, o núcleo do programa político e econômico do Sillon, tal como das idéias de Mounier, de Maritain, de boa parte da Resistência Francesa, estando também presente nos melhores textos antiimperialistas do católico De Gaulle e dos católicos socialistas.

A democracia foi construída no Brasil por grandes cristãos

Salvador de Mendonça foi, depois de Quintino Bocaiúva, o principal redator do “Manifesto republicano”, de 1870. Tal como Quintino, era cristão. Vejamos uma análise da evolução política do Brasil, esboçada numa carta de Salvador a Afonso Celso, quando soube da morte de Dom Pedro II:

“Venho trazer-lhe o pêsame sincero, meu e dos meus, pela perda irremediável que todos sofremos [a morte de Dom Pedro II]. – V. Excelência, filho amantíssimo e herdeiro de seu nome ilustre – eu, como velho admirador, que tantas provas de afeição e confiança dele recebi – e a Pátria, que vê de súbito, desaparecer um de seus maiores filhos.

Fomos, em minha família, cinco irmãos, todos veneradores das virtudes do grande finado, desde o Francisco, o Mendonça de S. Gonçalo de Sapucaí, seu lugar-tenente no sul de Minas nas campanhas liberais, até o nosso Lúcio, a quem, pouco antes de morrer, ouvi que um dos pesares que lhe trouxera a República fora a queda do visconde de Ouro Preto. A meu ver, afora o princípio monárquico, nada caiu a 15 de novembro: a própria pessoa do imperante ficou de pé, em toda a majestade da dignidade humana. Em um dia de Outubro de 1889, o conselheiro Lafayette e eu visitávamos Mount Vernon, a meca da Democracia. O vento do outono arrastava os despojos da vegetação e do solo sagrado parecia erguerem-se vozes de oráculo, como as que se ouviam na floresta de Dodona. Lafayeite colhia as folhas de um carvalho que nascera e viçara junto ao túmulo do “mais feliz dos heróis”, e que deviam guardar vestígios do sangue do dragão. “São para o Afonso”, disse ele. Se ele as trouxe, deve v. excelência pô-las no ataúde de seu pai, pois ele pertence à raça dos fundadores do regime da liberdade representativa na América, cujos progenitores foram, nos Estados Unidos, Washington Hamilton e Jefferson, é, no Brasil, José Bonifácio, o da Independência, o padre Feijó, o Regente, e Bernardo de Vasconcelos, cuja luz alumiou o Segundo Império até o advento das vitórias liberais. Ao lado de Teófilo Otoni, Francisco Otaviano, Saldanha Marinho e Zacarias de Góis, Nabuco de Araújo e Saraiva, ele foi sempre o batalhador da vanguarda. Sem as conquistas liberais, a propaganda e a evolução da idéia republicana, não seriam possíveis, e, sem essa evolução, a República teria sido mero aborto. Destarte, o que chegou a parecer uma queda, foi, na verdade, uma ascensão. Demais, o sr. D. Pedro II, que desejava que a República o deixasse na terra natal, ainda que como simples mestre-escola, criou, efetivamente, no Brasil, a escola do patriotismo estóico e da altiva dignidade dos vencidos, de que ele próprio foi exemplo vivo e seu nobre pai o maior discípulo”.

O desenvolvimento do regime representativo, no Brasil, foi bem exposto, embora sem as grandes estrelas do movimento negro, do movimento indígena etc. Os expoentes, ressaltados por Salvador, são todos cristãos (inclusive Saldanha Marinho, maçon cristão).

Salvador ressalta bem o papel democrático do Visconde de Ouro Preto (e de seu filho, Afonso Celso, apologista da Igreja e expoente do nacionalismo). O Visconde de Ouro Preto, com João Alfredo (abolicionista), Gaspar Silveira Martins (seus discursos, publicados pelo Senado, mostram sua religiosidade) e seus maragatos (ressuscitados depois no Partido Libertador, no Partido Democrático e tendo como herdeiro Paulo Brossard) e outros líderes liberais históricos eram da mesma cepa de homens como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, o barão do Rio Branco, Eduardo Prado e outros. Também merece lembrança o velho Visconde de Abaeté (Antônio Paulino Limpo de Abreu, 1798-1883), defensor dos bispos na questão religiosa, tendo dito, na sessão do Conselho de Estado, em 3 e 4 de junho de 1873: “sigo a fé do carvoeiro”. Abaeté combateu pela democracia nos tempos da abdicação, da regência e da maioridade e foi aliado do grande padre Diogo Feijó.

A religiosidade de Lúcio de Mendonça é atestada por Antônio Felício dos Santos, no livro “Casos reais a registar” (Rio de Janeiro, Editora ABC, 1937, p. 6-8): “era o Lúcio grão-mestre adjunto da maçonaria…meu Lúcio, graças a Deus, morreu com os sacramentos da Igreja e nos braços de seu velho e constante amigo, o santo monsenhor Francisco de Paula Rodrigues – o padre Chiquinho, como foi sempre conhecido, e em cuja casa morou sempre ele, o Lúcio, quando estudou em São Paulo”.

Aquino Correa, em 1910, escreveu uma poesia extensa com o nome de “Lúcio de Mendonça, dedicada ao padre Chiquinho, lembrando os versos “Vozes do século”, de Lúcio, que lembram o “Deus da minha infância”.

Lafayette Rodrigues Pereira, um dos signatários do “Manifesto republicano”, de 1870, era jusnaturalista católico, influenciado por Kant e escreveu o livro “Vindiciae”, refutando o empirismo jurídico de Sílvio Romero. O livro “Cartas ao irmão” (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1968) mostra sua religiosidade e seu apreço às irmãs de caridade etc.

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