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As melhores ideias de Bertrand Russel são ideias católicas, defendendo um socialismo moderado, economia mista

Com um pensamento político semelhante a Stuart Mill, Bertrand Russel, em sua “Autobiografia”, de 1914 a 1944 (ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1970, vol II, de 1914 a 1944, p. 353), escreveu: “considero o socialismo em suas formas mais moderadas como um desfecho natural da tradição cristã” e acrescenta que “infelizmente o marxismo venceu entre os socialistas”, ponto que está errado, pois a corrente hegemônica no socialismo foi sempre o socialismo religioso, especialmente o socialismo cristão, católico.

Se tivesse vivido um pouco mais, Russel veria que correntes como a teologia da libertação e outras geraram boas sínteses que reincorporam os elementos verdadeiros do marxismo (como foi constatado por papas como Pio XI, João XXIII, João Paulo II e até o atual), combinando socialismo, democracia, nacionalismo, distributismo, nacionalismo etc. Lembro que o marxismo nasce do socialismo pré-marxista, cristão. As melhores ideias de Marx nascem da Tradição cristã e judaica-semita. 

Na página 148 da autobiografia, Bertrand Russel reconhece que foi influenciado pelo “catolicismo liberal”(liberal no sentido restrito de esquerda, social) desde 1913.

Em cartas de 1935 (p. 292, da autobiografia), ele escreveu que “a idéia religiosa no comunismo, que é a razão de seu sucesso (a certeza que dá de que o Tempo, que é Deus, está do lado da gente” pode levar à “estagnação” e que “a energia e combatividade das nações cristãs provêm, a meu ver, da doutrina do pecado, sobretudo do pecado original e do gênero de luta que se deve travar pela redenção”.

Russel devia ter visto que a luta “pela redenção” (libertação, bem comum) tem o apoio efetivo de Deus, que opera por mediações, no processo histórico, respeitando a liberdade das pessoas.

Russel, infelizmente, declarou-se ateu. No entanto, soube destacar corretamente as origens religiosas (cristãs) do socialismo, de uma democracia popular, social.

Suas idéias de pluralismo e de uma democracia avançada lembram as idéias de Stuart Mill e dos radicalistas cristãos ingleses, que têm como precursor o grande William Cobbet (elogiado por Marx). Cobbet inspirou os cartistas e, depois, os trabalhistas ingleses (que eram, quase todos, socialistas cristãos).

Conclusão: uma forma de socialismo moderado, democrático e participativo, com liberdade, é plenamente compatível com o cristianismo, tal como são compatíveis o nacionalismo (sem os erros totalitários e imperialistas, claro), o distributismo, a democracia participativa, a economia mista, o Estado social etc.

Um elogio de Feuerbach a São Tomás de Aquino, ao tomismo, a doutrina social da Igreja

Ludwig Feuerbach (1804-1872), discípulo de Spinoza e um dos mestres de Marx (influenciando bastante no início), em seu livro “A essência do cristianismo” (Campinas, Ed. Papirus, 1988, p. 193), ressaltava a ligação da doutrina da Igreja com o melhor do pensamento antigo, da Paídéia (“os antigos”):

“Os cristãos, de fato, “sacrificavam” o “indivíduo”, isto é, aqui o indivíduo enquanto parte, ao todo, ao gênero, à comunidade. A parte, diz Santo Tomás de Aquino, o maior pensador e teólogo cristão, sacrifica-se a si mesma, por um instinto natural, para a conservação do todo. “Toda parte, por natureza, ama mais o todo do que a si mesma. E todo indivíduo por natureza ama mais o bem do seu gênero do que o seu bem individual. por isso, todo ser naturalmente ama mais a Deus, o bem universal, do que a si mesmo (“Summae P. I., q. 60, art. V). Portanto, neste sentido os cristãos pensam como os antigos. Tomás louva os romanos (de “Regim. Princ.”, liv. III, c. 4) pelo fato deles terem colocado a sua pátria acima de tudo e de terem sacrificado o próprio bem-estar ao bem-estar dela”.

O texto de Feurbach resume mesmo parte da doutrina social da Igreja.

Os cristãos pensam como os melhores dos antigos. A idéia de “justiça” (de bem comum, que é o objeto desta virtude cardeal) está nos textos de Homero, de Hesíodo, nos poetas e trágicos gregos, tal como nos textos dos filósofos (Xenófanes, Heráclito), historiadores e no pensamento filosófico-religioso. Destas fontes, migrou para o ensino de Sócrates, de Platão (o livro “Protágoras”, “República” e especialmente “As leis”), sendo mais detalhado nos textos de Aristóteles e dos estóicos. Há praticamente as mesmas ideias nas fontes semitas. 

O ideal da justiça é o ideal da razão pautando a vida pessoal e social, sendo esta a essência do conceito de virtude (“Arete”). O elogio da razão era também o ideal de Isócrates (436-338 a.C.), do “logos”, um orador aluno de Sócrates, que redigiu obras como “Contra os sofistas” (390 a.C.), “Panegírico” (380 a.C.) e “Nicoles”. Também era o ideal de Paidéia de Demóstenes. Demóstenes e Isócrates discordavam sobre o que fazer perante o poder de Filipe, pai de Alexandre, mas concordavam no mesmo ideal civilizatório, do poder do “logos”, da razão.

As idéias persas-semitas, do mazdéismo, também influenciaram Pitágoras, pois seu professor foi Ferécides, um fenício (como Tales de Mileto), nascido em Tiro. O mesmo ocorreu nas doze cidades asiáticas, onde teve início a filosofia grega, cidades como Éfeso e outras. 

Segundo Diógenes Laércio, Ferécides (de origem fenícia) foi “o primeiro grego que escreveu sobre a alma e os deuses” e atribuem a este filósofo várias predições (profecias), o que mostra a influência oriental, semita, talvez hebraica. Ferécides ensinava que “naõ se deve honrar o ouro e a prata”. Diógenes transcreve uma carta de Ferécides a Tales, enviando a este suas obras, antes de morrer. Uma carta entre dois gregos de origem fenícios. O pitagorismo tem influência do orfismo e do mazdéismo, correntes ligadas à cultura semita.

Os próprios gregos atribuem o alfabeto grego ao alfabeto fenício.

Cadmos, um fenício, fundador de Tebas na Beócia, teria trazido o alfabeto fenício. Tales seria um descendente de Cadmos. Diógenes Laércio diz que “muitos” consideravam Tales como “o primeiro que defendeu a imortalidade da alma” e estudos os astros (indício da influência da cultura suméria, persa e fenícia). Pitágoras influenciou Platão através de Filolau e de outros pitagóricos, cujas obras foram compradas por Platão, como consta em todas as biografias de Platão.

Como explicou Heródoto, toda a religiosidade grega vem do Egito e do oriente (influência semita, persa, fenícia etc) e a religiosidade grega é a base da filosofia da Paidéia, como fica claro nos textos de Tales, Ferecides, Xenófanes, Heráclito, Anaxágoras, Pitágoras, Sófocles, Sócrates, Platão, Aristóteles, os estóicos e outros.

Estas idéias filosóficas e da religiosidade natural-racional, boa parte de origem semita, coincidiam com os textos bíblicos, hebraicos, semitas, e foram, assim, aceitos pelo cristianismo (que manteve o melhor da Paidéia, cf. Werner Jaeger), sendo a filosofia cristã uma síntese do melhor da filosofia clássica, da Paidéia, em mescla com o melhor das ideias semitas hebraicas.

O “sacrifício” de Cristo é apresentado como exemplo maior e o próprio Cristo ensinou que não há amor maior que dar a própria vida pelo próximo, pelo bem dos outros, da sociedade. Augusto Comte, nas pegadas de Saint-Simon, um grande cristão socialista, cunhou o termo “altruísmo” como contraposto (contrário) ao “egoísmo” (pecado) e os próprios positivistas terminaram por reconhecer que o altruísmo é a mesma coisa que o velho amor ao próximo (a caridade).

Conclusão: a “pátria” é a sociedade onde nascemos e a regra vale para toda sociedade, em seus diversos níveis, da família, bairro até o mundo.

O cristianismo, como bem expôs Santo Agostinho e os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio e São Basílio), tem, em suas entranhas, uma ética social, baseada no bem comum, no bem da sociedade e de cada pessoa concreta.

O Estado e o poder, tal como a organização da economia, só são legítimos se servirem ao bem de cada pessoa e de toda a sociedade.

Conclusão: o primado da sociedade (domínio eminente da sociedade), ou seja, do bem comum, é a essência da concepção política cristã e está presente também nos melhores textos da Paidéia, do pensamento hindu, muçulmano (neste ponto, basta ver os elogios de Santo Tomás a Avicena e a Averróis) e nos textos mais antigos de todas as culturas, como a chinesa, a japonesa, coreana, dos povos da África, do Tibet, de nossos povos indígenas etc. 

Elogio de Ferdinand Lundberg, escritor nos EUA, contra a desigualdade social

Ferdinand Lundberg (1902-1955) escreveu obras como “As sessenta famílias da América”, onde mostra como a oligarquia financeira, nos EUA, é formada basicamente por 60 famílias, ultra-ricas.

Também atacou o Império de Rockefeller e de Hearts, atacando o controle das corporações sobre a mídia, petróleo, os trustes, cartéis etc. Mostra como há inteligência nos EUA, e como os trabalhadores dos EUA são nossos aliados. 

Boas opiniões de Goethe sobre o cristianismo e o catolicismo

Goethe escreveu: “sejam quais forem os progressos da cultura intelectual, das ciências naturais e do espírito humano, nunca ultrapassarão os píncaros da cultura moral do cristianismo, tal como ela brilha nos evangelhos” (“Conversas com Eckermann”).

No “Fausto” (segunda parte), este é assassinado por Mefístoles, mas tem a alma salva por intercessão de Margarida, da Virgem, de Santa Maria Egipcíaca, de Santa Maria Madalena e da Samaritana, o que mostra claramente a influência católica no imaginário e nas idéias de Goethe.

Francisco Suarez, quase igual a São Tomás e a Santo Agostinho. Um grande gênio da humanidade

Detalhando as idéias de Santo Tomás, Francisco Suárez (elogiado por Rui Barbosa, na “Oração aos moços”, p. 29) explicou, no livro “Defensio fidei catholicae” (III, c. 2, 11), que cada pessoa foi feita para agir “de motu próprio” (com movimento, moto, autônomo), para agir livremente, “compos sui”, “sui juris”. Deus é libertador (como está claro na abertura do Primeiro Mandamento, onde Deus se identifica como o que liberta da escravidão do “Egito”). Esta regra essencial do ser humano é também uma regra essencial para a sociedade, que é um conjunto de pessoas, logo, deve ser estruturada (ordenada, regrada) com base nas estruturas (antropológicas e naturais) essenciais da pessoa, para que seja humana e racional. Vejamos o texto do grande Suarez:

O corpo político [a sociedade, pessoa moral, pessoa jurídica de direito público natural] é originariamente livre e sui juris [sujeita ao direito natural, próprio, aos ditames, regras, da própria razão]. A liberdade inclui especificamente a competência ou autonomia [autodeterminação, independência] e exclui a sujeição a uma determinada pessoa, pelo menos no que toca ao direito natural”.

Como Rui Barbosa apontou, na “Oração aos moços” (Rio de Janeiro, Ed. Organziação Simões, 1962, p. 30), Suárez escreveu cerca de 200 obras e morreu “comparado com Santo Agostinho e Santo Tomás”, sendo considerado, abaixo dos dois santos, como “o maior engenho que tem tido a Igreja”. O próprio Grócio disse que “apenas havia quem o igualasse”, mas não quem o superasse. Grócio era próximo da Igreja, pois estava ligado à corrente pró católica do arminianismo, corrente que encantou Spinoza. O arminianismo ajudou a Holanda a superar os erros do calvinismo. Hoje, a religião principal da Holanda, tal como da Suiça e da Alemanhã, é o catolicismo. 

A religiosidade dos trabalhistas ingleses

Bertrand Russell, em sua “Autobiografia” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1967, vol. I, pp. 94 e 96), descreve a religiosidade de Beatrice:

“Mrs, Webb tinha um âmbito mais amplo de interesses que o marido. Interessava-se bastante pelas criaturas humanas, tomadas individualmente, e não apenas quando estas podem ser úteis. Era profundamente religiosa, sem que pertencesse a qualquer ramo reconhecido da ortodoxia, embora como socialista, ela preferisse a Igreja da Inglaterra, por se tratar de uma instituição estatal. (…)

Durante vários anos, Mrs. Webb era adepta do jejum, devido, por uma parte, a motivos higiênicos e, por outra, a razões religiosas. Não tomava breakfast e, ao jantar, comia pouquíssimo. Sua única refeição sólida era o almoço. Ela quase sempre tinha várias pessoas ilustres para almoçar, mas sentia-se tão faminta, no momento em que o mesmo era anunciado, que passava à frente de todos os seus convidados e punha-se a comer. Não obstante, acreditava que a fome a tornava mais espiritual, sendo que, certa vez, me disse que ela lhe proporcionava delicadas visões”.

James Keir Hardie, Ramsay MacDonald, Wells, Bernard Shaw, os Webb e o sobrinho destes, Stafford Cripps e outros grandes políticos trabalhistas ingleses eram socialistas e também pessoas religiosas, demonstrando, pela prática, que não há contradição alguma nestas idéias. Defendiam Estado social, democracia popular, cooperativismo, economia mista, planejamento, estatais etc. Basicamente o que eu defendo. 

Cripps, o sobrinho dos Webb, dirigiu o Partido Trabalhista, e foi um dos políticos mais influenciados pelo cristianismo, tal como foi Clement Attlee. Desde o inicio, os bispos católicos ingleses liberaram os leigos para participarem do Partido Trabalhista, mesmo sendo este um partido socialista.

Os socialistas cristãos controlaram o Partido trabalhista Independente desde o início, basta considerar James Keir Hardie, Philip Snowden, Bem Tillett, Tom Mann, Katharine Glasier, Margaret MacMillan e Rachel MacMil. Esta corrente influenciou, também, os líderes do partido socialista americano, especialmente Thomas Normando e Upton Sinclair.

O Cardeal Bourne, arcebispo de Westminster, deixou claro, em 1925, que os católicos podiam licitamente filiar-se no partido trabalhista, que era socialis

O socialismo cooperativista de Anatole France era próximo da Igreja

Anatole France (n. 1844), como pode ser visto no livro “Anatole France, uma vida sem ilusões” (sem autor no exemplar que li, São Paulo, Ed. Assunção, sem data, trad. de M. C. Wagner Vieira da Cunha), tinha idéias sobre a democracia com fundo jusnaturalista hebraico e cristão, tal como no melhor da literatura francesa e antiga.

Na carta aos soldados da França, na primeira guerra mundial, France escreveu (p. 353 da obra referida): “o que estais defendendo é a vossa terra nativa”, “são os seus campos e as suas campinas… o que estais defendendo é o próprio campanário de vossa igreja, vossos tetos de tijolos e ardósia, os túmulos de vossos pais e os berços de vossos filhos”, “nossas… cidades, alinhando ao longo das barrancas dos rios os monumentos de gerações”, enfim, o patrimônio material comum. Mais ainda, “o que estais defendendo é o nosso patrimônio moral, nossos costumes, nossas leis, nossos hábitos, nossas tradições”, “as obras de nossos escultores, nossos arquitetos, nossos artistas”, “o canto de nossos músicos”, “a língua que por oito séculos floriu sem cessar nos lábios de nossos poetas, nossos oradores, nossos historiadores, nossos filósofos; é a ciência do homem e da natureza”, “o gênio francês, que deu luz ao mundo e trouxe liberdade à nação”.

No discurso proferido no enterro de Zola, Anatole disse (p. 266): “não há paz em lugar algum, exceto na justiça, nenhum repouso senão na verdade. Não falo da verdade metafísica… falo da verdade moral que podemos alcançar, porque esta é relativa, sensível em conformidade com a nossa natureza, e está tão perto de nós que uma criança pode tocá-la com sua mão”. Disse ainda “quão admirável é o gênio de nossa terra! Como é bela a alma da França, que, desde os séculos passados, tem ensinado o direito e a justiça à Europa e ao mundo! A França é outra vez a terra da razão – e dos pensamentos benevolentes, o solo da magistratura eqüitativa, o berço de Turgot, de Montesquieu, de Voltaire, de Malesherbs. Zola bem honrou o seu país, não desesperando da justiça na França” [no caso Dreyfus].

France criticara um dos piores livros de Zola, “A Terra”, por não este não ver que “há em todos nós, no grande como no pequeno, no humilde como no orgulhoso, um instinto do belo, um desejo por tudo que adorna e embeleza”, que “faz o encanto da vida”, “Zola não sabe disto. Há na terra formas magníficas e nobres pensamentos. Até muitas fraquezas, muitos erros, e muitas faltas, encerram uma comovente beleza”, mas reconheceu a importância ética dos livros de Zola, especialmente as últimas obras deste autor, onde Zola defende um socialismo cooperativista bem próximo da doutrina da Igreja.

O “ceticismo” de France foi definido por ele mesmo, quando tinha quase 80 anos, perto da morte. Ele escreveu (cf. p. 366 da obra citada acima), que era discípulo (“humilde estudante”) de “Rabelais, Montaigne, Molière, Voltaire e Renan” e que estes homens, tido como céticos, “foram os homens mais afirmativos e corajosos. Eles repudiam apenas as negações. Atacam todos aqueles se opõem à inteligência e à vontade. Lutam contra a ignorância que humilha, contra o erro que oprime, contra a intolerância que tiraniza, contra a crueldade que tortura, contra o ódio que mata”. Estes homens tinham “profunda compaixão”, “desta compaixão” alimentaram “um amor fraternal”, “piedade” etc e que eram homens que “perdem-se no combate para salvar seus infelizes irmãos… Em suma, eles são os mais idealistas dos mortais”. France se considerava discípulo também de Racine (cuja morte cristã foi descrita por France, com admiração), Montesquieu e Goethe. Seu ceticismo não é destrutivo e negativo, pois reconhecia a importância da religião, de todas as religiões.

Seu “ceticismo” idealista não negava a existência da verdade, apenas entendia que “a conquista das verdades que conduzem à felicidade do homem é uma coisa vagarosa e difícil, e a raça humana está emergindo dolorosamente e pouco a pouco de seu primitivo barbarismo” (p. 252).

Em 1922, France publicou seu último livro, “A vida em flor”, onde escreveu: “amo a verdade. Acredito que o homem precisa dela; mas, certamente, ele ainda precisa mais das ilusões que encorajam, consolam, e não lhe impõem limite às suas esperanças e aspirações”.

Sobre o socialismo, e ele morreu no seio do partido socialista, France escreveu: “parece-me que o socialismo, que luta pela verdade, deveria também lutar pela justiça e bondade, que tudo que é justo e bom deveria originar-se dele tão naturalmente como a maçã cresce da árvore”. E completou: “em minha opinião, tudo que é eqüitativo é um começo de socialismo” e “todas as sociedades cujos órgãos não mais correspondem às funções para as quais foram criadas, e cujos membros não são recompensados de acordo com o trabalho valioso que realizam, morrem”.

Conclusão: a Igreja criticou os textos hedonistas de France, mas não há, em seus textos mais relevantes e éticos, idéias em conflito com a doutrina da Bíblia ou do jusnaturalismo. 

As boas lições de Joseph A. Schumpeter, sobre Democracia Popular

Joseph A. Schumpeter (1883-1950) foi Ministro das Finanças da Áustria e depois professor em Harvard de 1932 a 1950. Em seu livro “Capitalismo, socialismo e democracia” (Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976, pp. 313, 331-335), expôs a “teoria clássica” e aristotélica da democracia, com fundamento no bem comum, no bem de todos, com fundamentação jusnaturalista, nas idéias consensuais e comuns do povo:

“A doutrina clássica da democracia. 1. O bem comum e a vontade do povo.

A filosofia da democracia do século XVIII pode ser enunciada na seguinte definição: o método democrático é o arranjo institucional para se chegar a decisões políticas que realiza o bem comum fazendo o próprio povo decidir as questões através da eleição de indivíduos que devem reunir-se para realizar a vontade desse povo. Vamos desenvolver as implicações disso.

Afirma-se, então, que existe o Bem Comum, o farol óbvio da política, que é sempre simples de definir e que qualquer pessoa normal pode ver através da argumentação racional.

Não há, portanto, qualquer desculpa para não vê-lo, e na verdade qualquer explicação para a presença de pessoas que não o vêem, exceto a ignorância – que pode ser removida -, a estupidez e o interesse anti-social. Além disso, esse bem comum implica respostas definidas a todas as perguntas, de modo que todo fato social e toda medida tomada ou a ser tomada podem, inequivocamente, ser classificadas como “boas” ou “ruins”. Todas as pessoas têm, portanto, de concordar, ao menos em princípio, em que há também um Bem Comum do povo (= vontade de todos os indivíduos razoáveis), exatamente coincidente com o bem, ou interesse, ou bem-estar, ou felicidade comuns.

A única coisa, excetuando-se a estupidez ou os interesses sinistros, que possivelmente pode trazer discordância e responder pela presença de uma oposição é uma diferença de opinião quanto à velocidade em que o objetivo, ele mesmo comum a quase todos, deve ser alcançado. Assim, todos os membros da comunidade, conscientes de tal objetivo, conhecendo seu próprio pensamento, discernindo o que é bom do que é ruim, tomam parte, ativa e responsavelmente, na ampliação do primeiro e na luta contra o segundo, e todos os membros assumem juntos o controle dos negócios públicos”.

Schumpeter deixou claro que a “teoria clássica da democracia” é baseada na síntese do jusnaturalismo hebraico e da Paidéia (especialmente, o grego-romano), com base na idéia de “bem comum” e nas luzes da razão. Estas idéias jusnaturalistas eram sintetizadas no provérbio: “a voz do povo é a voz de Deus”. A conclusão de Schumpeter é correta e atual:

“Razões para a sobrevivência da doutrina clássica. Transposta assim às categorias da religião, essa doutrina – e, em conseqüência, o tipo de fé democrática nela baseada – modifica sua própria natureza. Não é mais preciso qualquer escrúpulo lógico sobre o Bem Comum e sobre os Valores Supremos. Tudo nos é estabelecido pelo plano do Criador, cujo propósito a tudo define e sanciona. De repente, o que antes parecia indefinido e sem motivação torna-se claramente definido e convincente. A voz do povo é a voz de Deus, por exemplo. (...)

A cristandade abriga um forte elemento igualitário. O Redentor morreu por todos; Ele não diferenciou entre indivíduos de diferentes status sociais. Ao fazê-lo, Ele deu testemunho do valor intrínseco da alma individual, um valor que não admite gradações. Não é isso uma sanção – e, parece-me, a única sanção possível – de que “todos devem contar como um e ninguém deve contar mais que um” – sanção que despeja significados supermundanos nos artigos da fé democrática para a qual não é fácil achar qualquer outra? Sem dúvida alguma, essa interpretação não cobre todo o terreno. Entretanto, até onde ela vai, parece explicar muitas coisas que de outra forma seriam inexplicáveis e até mesmo sem significado”.

Schumpeter foi presidente da Ordem dos Economistas, no EUA, por vários anos. Deixou boas obras como a “História da análise econômica” (1954, inacabada e póstuma) e admitiu, com toda a honestidade, que as economias capitalistas movem-se para uma forma de socialismo, com economia mista, Estado social, distributismo, regulamentações, controle estatal, boas estatais etc. 

Conclusão: os textos de Schumpeter também abonam a tese deste blog: que a “teoria tradicional” da democracia desenvolveu-se com base no jusnaturalismo hebraico-cristão e da Paidéia. No caso dos EUA, também como base no utilitarismo cristão (especialmente o escocês), por sua vez baseado no iluminismo cristão (inglês, irlandês e também escocês). Um iluminismo com fundamentação jusnaturalista e teísta. Afinal, o ideal do utilitarismo é o ideal do bem comum, como demonstrou o maior dos utilitaristas, que foi Stuart Mill, um homem que também combinava democracia, defesa da mulher e da afetividade, tal como socialismo e religião, em seus textos.

Beatrice Webb, grande lutadora do povo

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Ramalho Ortigão e Montalembert lutavam pela Democracia Popular

Ramalho Ortigão (1836-1915) foi um grande escritor, amigo de Eça de Queiroz (1845-1900). Eça também se converteu e redigiu boas obras religiosas, no final da vida, exatamente como Voltaire, Tobias Barreto e outros. Ortigão redigiu, por vários anos (a partir de 1871), “As farpas”, com fascículos mensais, mais tarde recolhidos em livros. O velho Ortigão era nacionalista, católico e democrático, especialmente quando sua cabeça ficou mais branca e serena. No tomo V, “A religão e a arte” (Lisboa, Ed. Fluminense, 1927, p. 15), Ortigão elogia o Congresso de Malines, em 1863/64, transcrevendo vastas porções do discurso de Montalembert (um autor que até Marx admirava e citava com transcrições).

Montalembert, como destacou Ortigão, ensinava que “o verdadeiro progresso” está na “solidariedade entre a democracia e o catolicismo”, entre o povo e a Igreja. Este era o mesmo ponto-chave destacado nos textos de Carlos de Laet, nos textos do padre Júlio Maria, na Pastoral do Cardeal Leme (que fascinou Jackson e Alceu) etc. Também era a base dos textos de bispos como Dupanloup.

Neste discurso, Charles Montalembert discorreu sobre “a Igreja livre no Estado livre”, sendo esta a base da atuação de Camilo Benso Cavour (1810-1861), Rui Barbosa e outros. A frase “Igreja livro no Estado livre” pode ter sido usada por Vinet, mas foi Montalembert quem a divulgou. No livro “A cidade e as serras” (1899, publicada após sua morte), fica patente a religiosidade de Eça e seu bom apego ao campesinato e à vida rural.

O discurso de Montalembert fixou com clareza o conceito de laicidade que a Igreja aceita e faz parte do cristianismo. Como veremos mais adiante, o Arcebispo Dupanloup soube esclarecer e mostrar como o melhor dos textos de Malines estava em harmonia com as idéias centrais até mesmo da “Quanta cura” (08.12.1864). O mesmo fez o Cardeal Newman, na “Carta ao Duque de Norfolk” (Gladstone), onde explicou o significado correto do “Sílabo”. Repetiu a mesma explicação em “Dificuldades dos anglicanos”.

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