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A filosofia eclética preparou a recepção do catolicismo, pela Providência divina

Em Numênio de Apaméia (sírio, que viveu lá pelo século II d.C.), há a mesma idéia de Trindade, que consta em Eudoro, e foi também acolhida por Plotino. Numênio era platônico e pitagórico. Numênio explicava que há o Pai, que é o Bem personalizado; há o Demiurgo; e há a Alma do mundo. Numênio era bem ecumênico e apreciador da sabedoria oriental. Os textos mais importantes de Numênio foram conservados por Eusébio, especialmente os fragmentos das obras “Sobre o Bem” e “Sobre a infidelidade dos acadêmicos [ligados a Carnéades] a Platão”, onde Eusébio elogia o platonismo médio, e mostra a boa conformidade de seus conteúdos intelectuais com as ideias católicas.

O neoplatonismo de Plotino também era eclético, acolhendo vastas porções de estoicismo, de neopitagorismo e de aristotelismo, como fica evidente nos textos de Porfírio e Proclo.

O mesmo ocorre com os textos de Plutarco de Queronéia e de Galeno.

O estoicismo médio e o platonismo médio eram ecléticos e ecumênicos.

Da mesma forma, era eclético o neopitagorismo de Moderado de Gades (fl. c. 90), de Nicômaco de Gerasa (fl. c. 140) e de Numênio de Apaméia (fl. c. 150). O neopitagorismo floresceu no século I a.C., sendo também uma preparação cultural para o cristianismo. Os textos “Ditos áureos”, “Símbolos” e “Cartas”, atribuídos a Pitágoras, datam do século I a.C., tendo conteúdos próximos às idéias hebraicas. Da mesma forma, os textos de Ocello e os textos atribuídos a Hermes Trimegisto, formando a corrente do hermetismo, com muitos pontos coincidentes com o catolicismo. O principal neopitagórico foi Numênio de Apaméia, cidade síria próxima a Tarso, a pátria de São Paulo.

O ecletismo foi bem elogiado por Diderot, na “Enciclopédia”, sendo o ecletismo o núcleo da filosofia clássica, recepcionada pela Igreja, formando a filosofia cristã.

Nesta recepção, a Igreja recepcionou também o melhor da teoria política grega, da teoria jusnaturalista democrática, bem exposta por Sófocles, por Eurípedes, por Platão (no livro “Protágoras”, também chamado de “Político”), por Aristóteles (no livro “Política” e nas obras éticas) e também pelos estóicos, cujos textos foram bem coletados por Arnim.

A principal estrela do platonismo médio foi o filósofo judeu Fílon de Alexandria (25 a.C. a 50 d.C.). Fílon é como que o precursor da filosofia cristã, pois une o melhor das idéias hebraicas com o melhor das idéias da Paidéia. Fílon de Alexandria foi a continuidade, dentro do judaísmo, da “Septuaginta”, dos livros “Sabedoria”, “Eclesiástico”, “Tobias”, “Macabeus”, “Judite” e outros. A linha de Fílon é também a linha dos fariseus, de Hilel, de Gamalieu e de outros. Esta linha foi, em parte, mantida no “Talmud” e também na “Cabala”, pejada de idéias sobre a Trindade e de idéias próximas do catolicismo.

Antes de Fílon, entre os platônicos médio, houve Cícero, que, na última obra que escreveu, “Dos deveres” (III,20) resume bem o espírito aberto e ecumênico do platonismo médio: “enquanto a mim, a nossa Academia concede-me ampla liberdade para defender, com pleno direito, qualquer opinião que me pareça verossímil”. Cícero continuou a linha de sínteses abertas (ecletismo sadio) de Antíoco, de Panécio e de Posidônio.

Possidônio de Apaméia (135-50 a.C.), outro sírio, deu continuidade ao trabalho de Panécio de Rodes (185-125 a.C.). Apaméia é a antiga Quibotos, mencionada na Bíblia. O termo “quibotos” significa “arca”. No reinado de Sétimo Severo (193-211), foi cunhada uma moeda em Apaméia, representando uma arca (navio) com o nome de Noé.

A influência bíblica e semita difundia-se no Império Romano. Parte desta difusão ocorria pela via do mitraísmo, do zoroastrismo, que era a religião oficial do Império Parta. O zoroastrismo é baseado principalmente em idéias semitas e hebraicas, geradas, tudo indica, pelas diásporas de 721 a.C. e de 586 a.C. especialmente dirigidas a terras da Média, a terra de origem do zoroastrismo.

A cidade de Rodes encarregou Possidônio da defesa de seus interesses junto a Roma, o que mostra a militância política dos estóicos. Possidônio foi amigo de Pompeu e foi professor de Cícero.

A síntese eclética de Possidônio foi feita na mesma linha do trabalho posterior de síntese de Antíoco de Ascalão, que dirigiu a Academia de Platão, nos anos de 85 a 69 antes de Cristo.

Antíoco elaborou uma síntese entre platonismo e estoicismo, chegando ao ponto de afirmar que o estoicismo tinha conservado as idéias de Platão.

Cícero teve como mestres Possidônio e Antíoco, o que mostra a razão de Cícero ser uma síntese de estoicismo médio com platonismo médio.

Por estas e outras razões, Cícero soube elaborar uma síntese de platonismo eclético, com estoicismo eclético e aristotelismo. Síntese que foi ampliada por Sêneca, que apreciava muito os trabalhos filosóficos de Cícero. 

Conclusão: como explicou São Clemente de Alexandria, o melhor da Paidéia atuou como preparação pedagógica para o cristianismo.

Esta proposição foi aceita por Marx, com base nos trabalhos do teólogo Bruno Bauer, o melhor amigo do jovem Marx, de 1839 a 1841, em Bonn, na Alemanha.

O ecletismo da Paidéia foi recepcionado pelo cristianismo, pela Igreja, formando a “filosofia cristã”, sempre aberta e ecumênica.

Nesta recepção, a Igreja aceitou o melhor da teoria política da Paidéia e da Tradição hebraica, o que mostra como o catolicismo aprecia a Democracia popular, o Estado social, a economia mista, o cooperativismo etc.

A origem da filosofia cristã, aberta, eclética, ecumênica, amante das boas sínteses

O platonismo médio foi descrito corretamente em verbetes do “Dicionário de filosofia de Cambridge” (São Paulo, Ed. Paulus, 2006, obra dirigida por Robert Audi).

Vejamos a transcrição de parte do verbete “estoicismo” (p. 295), deste Dicionário, dado que a Universidade de Cambridge continua a estar entre as cinco ou dez melhores universidades do mundo:

“Convencionalmente, distingue-se uma segunda fase da escola, o estoicismo médio. Este se desenvolveu em grande parte em Rodes, sob Panécio e Posidônio, visto que ambos estes filósofos influenciaram a apresentação do estoicismo nos tratados filosóficos de Cícero, que tanta influência tiveram (metade do século I a.C.). Panécio (c. 185-100) abrandou algumas posições estóicas clássicas, sendo a sua ética mais pragmática e menos preocupada com o sábio idealizado. Posidônio (c. 135-50) tornou o estoicismo mais aberto às idéias platônicas e aristotélicas, trazendo à baila a inclusão platônica de componentes irracionais na alma. Uma terceira fase, o estoicismo romano, é a única era estóica cujos escritos sobreviveram em quantidade. É representado especialmente pelo jovem Sêneca (d.C. 1-65), por Epicteto (d.C. 55-135) e Marco Aurélio (d.C. 121-180). Ele continuou a tendência estabelecida por Panécio, enfatizando fortemente sobre a ética prática e pessoal. Várias importantes figuras públicas romanas foram estóicas”.

O “Dicionário de filosofia de Cambridge”, na p. 728, explica corretamente que Mitridates tomou Atenas, em 88 a.C. e destruiu o prédio da Academia (o prédio foi reconstruído, ao contrário do Liceu, de Aristóteles, que permaneceu destruído fisicamente). Em 86 a.C., a destruição foi ampliada pelo saque de Silas. Então, isso deu mais liberdade e amplitude aos platônicos, dando origem ao platonismo médio, graças a Antíoco de Ascalão.

Sobre o “platonismo médio”, vejamos parte do verbete:

“Platonismo médio, o período do platonismo entre Antíoco de Ascalão (c. 130-68) e Plotino (204-270 d.C.), caracterizado por uma rejeição da posição cética da Nova Academia (…) e certa tolerância, como, p. ex., entre as posições estoicizante e peripatetizante, na esfera ética”.

Fica claro que entre 150 a.C. e 200 d.C., houve a criação de um campo eclético, misturando platonismo, aristotelismo, estoicismo, pitagorismo etc, num conjunto de filosofia que foi recepcionado pela Igreja, formando a base humana da filosofia cristã, aberta, mesclada com as ideias hebraicas, semitas, orientais etc. 

O “Dicionário Oxford de filososofia” (Ed. Jorge Zahar, p. ) traz a mesma informação, ensinando que Antíoco de Ascalon rompeu com Fílon de Larissa. O rompimento foi registrado no diálogo “Luculus”, de Cícero:

“Platonismo médio – (…). O próprio Antíoco tinha extrema simpatia pelo estoicismo. Públio Nigídio Fígulo (98-45 a.C.) e Eudoro de Alexandria (fl. c. 25 a.C.) introduziram novos elementos, tais como a ênfase na transcendência e na natureza imaterial de Deus, o interesse na numerologia mística pitagórica e a tentativa de erigir uma hierarquia divina da realidade. A introdução de novos elementos continuou com a reconciliação das obras pagãs e judaicas, operada por Fílon de Alexandria”.

O platonismo médio aceitou várias idéias estóicas, aristotélicas e neopitagóricas, numa síntese eclética, que foi preparatória, uma pedagogia para o cristianismo, como ensinou São Clemente de Alexandria.

No platonismo médio há inclusive um esboço da idéia da Trindade, nos textos de Eudoro de Alexandria (fl. c. 25 a.C.), que ensinava que existe um Deus supremo, que é a Mônada; tal como um Deus criador secundário, o Demiurgo [Cristo]; e, também, uma Alma do mundo (o Espírito Santo).

Os cristãos recepcionaram estas idéias platônicas, explicando que Cristo é o Demiurgo, que opera (age) com base nos Planos do Pai, moldando a matéria-prima do universo, atuando no mundo especialmente pelo Espírito Santo, Ruach, em hebraico (cf. “Timeu”, 51 a-b).

A luta pela Democracia popular, pela difusão de bens, Estado social, economia mista, nosso ideal concreto histórico

Não há uma filosofia oficial, confessional, cristã.

A “filosofia cristã” é, em si mesma, ecumênica, pluralista, como a própria razão, pois é fruto da razão humana, com a ajuda da graça e da fé. Graça e fé são ajudas da razão, limpam e aperfeiçoam o gume da razão, a luz natural da razão, que foi feita para nos guiar. Deus nos criou para sermos os senhores de nossos destinos.

Da mesma forma, não há uma estética (ou sociologia, ou biologia) cristã, como já apontada Bréhier. Também não há um modelo concreto de economia ou de Estado cristão, só linhas gerais. Não há uma política cristã, mas há uma visão cristã da política, um conjunto de idéias e diretrizes, ligadas historicamente à Igreja, idéias que são gerais, respeitando a liberdade política dos católicos. Dentro das ideias gerais, podemos ter diferenças legítimas. 

Este ponto foi bem explicado na “Fides et ratio”, por João Paulo II:

“76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos designam com a expressão filosofia cristã. A denominação, em si mesma, é legítima, mas não deve dar margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela designação, deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua pesquisa, quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico que não seriam alcançados sem a contribuição, direta ou indireta, da fé cristã”.

A expressão “filosofia cristã” significa, assim, como bem explicou João Paulo II, “o pensamento filosófico” gerado pela luz da razão e da experiência histórica (da “tradição”), sem “contradizer a fé” e que abraça os “importantes avanços do pensamento filosófico”, sendo mutável pela ampliação gradual do conhecimento na história.

Por valorizar a razão e a história, no fundo, por valorizar a vida concreta e histórica, o catolicismo exige a liberdade política, cultural, filosófica, pedagógica, civil, liberdades civis moderadas pelo bem comum etc.

João Paulo II, ainda na “Fides et ratio” (14.09.1998), no capítulo 19, ensinou:

Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua inteligência, é capaz de “conhecer a constituição do universo e a força dos elementos (…), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes” (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo.

Retomando o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: “Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso “livro da natureza”; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre e pelo seu pecado.

João Paulo II explicou bem que “a Revelação propõe claramente algumas verdades que, embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria”.

Frise-se: grande parte da Revelação, especificamente dos textos bíblicos, é também acessível pela via natural da razão. Estas verdades naturais são salvíficas, venham de onde vierem. Ao serem aprofundadas por grandes pensadores, geraram como que uma corrente filosófica cristã (sempre racional, ressalte-se), mas sem uma união indissolúvel, pois há um progresso da razão no tempo e também no aprofundamento do entendimento dos dados da Revelação.

No mesmo documento, João Paulo II elogia como exemplos:

“74. A prova da fecundidade de tal relação é oferecida pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se distinguiram também como grandes filósofos, deixando escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados ao lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da Igreja, de entre os quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S. Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino.

A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov’ev, Pavel A. Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij.

Ao referir estes autores, ao lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir para o avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da Igreja e da humanidade”.

Os “grandes mestres da filosofia antiga”, por serem grandes eruditos (que reconheceram o conhecimento disperso nas culturas egípcias, persa, grega, suméria, babilônica etc), coincidem, em grande parte, com as idéias bíblicas e com as idéias dos Santos Padres e da Escolástica.

Assim, os textos de homens como São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino são ainda fecundos.

Frise-se que os exemplos dados por João Paulo II conciliavam catolicismo com democracia popular, Estado social, distributismo, bem comum, difusão de bens. Este ponto fica patente nos textos do Cardeal Newman, em Rosmini, Maritain, Etienne Gilson, Edith Stein (morta pelos nazistas) e em outros grandes autores (faltou uma boa citação de Mably, Dupanloup, Ketteler, Ozanam ou Buchez).

O papa também citou corretamente Soloviev e Chaadaev, no mundo oriental ortodoxo (que tem as mesmas idéias católicas, podendo inclusive os católicos participarem das Missas ortodoxas, confessarem perante padres ortodoxos etc).

Erros e acertos de Anatole France

Anatole France, no livro “O jardim de Epicuro”, escreveu que “a existência seria intolerável se não houvessem sonhos”. Escreveu também que o melhor da vida “é a idéia que nos sugere que há algo indefinível que não se acha nela. O real só nos serve para construir, melhor ou pior, um pouco de ideal. Talvez não seja útil para outra coisa”.

Nesta obra referida acima, Anatole France defende uma vida simples, com base nos estudos, nos prazeres simples e honestos etc. O mesmo ideal dos estoicos, ideal que a parte boa dos textos de Epicuro defendia e isso foi visto corretamente por Sêneca, quando mostra a parte boa dos textos de Epicuro, em boa sintonia com o estoicismo. 

No livro “Opiniões de Jerônimo Coignard”, de Anatole France, o personagem principal é o abade Coignard, uma “mescla maravilhosa de Epicuro e de São Francisco de Assis”, “os dois melhores amigos que a humanidade sofrida encontrou em sua marcha desorientada”. Anatole coloca um personagem literário padre, para ser o porta-voz de sua doutrina, de suas ideias sobre a vida, o que mostra o apreço de Anatole por parte das ideias cristãs. 

No livro, “Opiniões de Jerônimo Coignard”, Anatole France elogia Sully e Richelieu, dois grandes católicos.

No entanto, Anatole cometeu erros graves, pois se divertia atacando a luz natural da razão, que seria um “traste molesto”. Anatole fazia isso para valorizar os afetos, os sentidos, o instinto e neste ponto estava correto, mas deveria saber que o elogio católico da razão natural ocorre com o elogio simultâneo dos sentidos, das percepções, do instinto e das emoções. 

Os bons textos de Anatole foram corretamente apreciados por Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, dois grandes católicos. Os bons textos de Anatole são aqueles que mantêm a linha cristã. Seus piores textos são horríveis e prejudiciais, de um hedonismo vazio, embora temperado, pois chegou a criticar as piores obras de Zola, a parte ruim das obras realistas de Zola.

A Paideia foi incorporada pelo Catolicismo, por ser fruto da razão e da influência semita-hebraica, boa e salutar

Como explicou Pio XI, na “Urbi Arcano” (27.12.1922), os primeiros princípios são “os princípios de justiça, que os próprios filósofos pagãos, como Cícero, reconheceram”, chamando-os de “lei eterna” (“eterna” por vim do Eterno, de Deus), “lei universal”, “comum a todos” (daí, “common law), de “lei natural”.

Dentre os jusnaturalistas, há estrelas como: Sófocles, Protágoras, Heráclito, Sócrates, Platão, Xenofonte (autor de “Hieron” ou “Da tirania”), Pitágoras, Anaxágoras, os cínicos, os estóicos, os epicureus, Cícero, Plutarco e centenas de outros grandes escritores, formando a parte mais relevante da Paidéia, incorporada pelo cristianismo, como explicou Werner Jaeger, em suas boas obras.

A Paideia foi incorporada ao cristianismo porque é fruto da razão (que sempre anda em harmonia com a fé e a graça) e pelo fato da Paideia ter amplas fontes semitas-hebraicas, desde o início (inclusive o alfabeto). 

Alguns dos erros graves de Nietzsche

Nietzche acusou a Igreja de efetuar o juízo negativo sobre o poder, o sexo e o amor.

Estas acusações de Nietzsche eram improcedentes e injustas.

No fundo, Nietzche atacava erros quietistas e jansenistas, condenados bem antes pela cúpula da Igreja.

Muitas vezes, as críticas feitas à Igreja são repetições de críticas da própria Igreja a erros, a heresias.

São reprises de condenações, de anátemas redigidos pela própria Igreja.

Como a Bíblia ensina, tudo o que Deus criou é bom.

A Igreja tem uma visão positiva dos afetos, do amor, do sexo, do prazer, do Estado, das leis positivas e do poder.

Estas coisas são tão importantes na vida que, como tudo o que é importante, devem ser dirigidas pela luz natural da razão (pela consciência), devem ser pautadas pelo bem comum. Quando estes assuntos são regrados pela razão e pelo bem comum, dão todos os bons frutos, de acordo com o Plano de Deus.

Na Bíblia, o termo “poder” é tão positivo que Deus é considerado o Todo-Poderoso, o Senhor.

Isto significa que o poder (e o mesmo vale para os bens materiais, o saber, o prazer etc) deve ser difundido ao máximo, deve ser universalizado, pois todo ser humano é feito à imagem de Deus, os atributos divinos são os atributos humanos, numa escala infinitamente maior (a igualdade é por analogia).

Cada ser humano foi criado para realizar o próprio potencial, para ser pleno, perfeito (“consummatum”), para iluminar o mundo com as idéias da razão e participar da co-gestão do universo, do mundo, da continuação da criação-renovação-redenção mundial. 

Nicolau Maquiavel, como católico, deixou muito boas ideias e algumas ideias erradas.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), com todos seus erros, manteve sua religiosidade católica até o final da vida. Isto fica claro biografia de Maquiavel, feita por Roberto Ridolfi, “Maquiavel” (São Paulo, Musa Editora Ltda, 1999). Por isso, num momento em que suas idéias cristãs falaram mais alto que suas idéias maquiavélicas, em sua obra principal, “Discursos sobre as Décadas de Tito Lívio” (III), Maquiavel escreveu frases dentro da grande tradição cristã-católica democrática:

“não sem motivo se compara a voz de um povo à voz de Deus, porque se vê uma opinião universal [comum a todos] fazer efeitos maravilhosos nos seus prognósticos” [e]

“são melhores governos os dos povos que os dos príncipes… E se os príncipes são superiores aos povos no ordenar as leis, provocar vidas de civismo, ter a iniciativa da legislação, os povos são superiores em manter as coisas ordenadas que eles acrescentam à glória dos que as ordenam”.

Mesmo no livro “O príncipe”, de Maquiavel, há idéias cristãs. Este fundo fica patente no capítulo XXVI do livro “O príncipe” (São Paulo, Ed. Martin Claret, 2004, pp. 152-154), com o título “Exortação à libertação da Itália, dominada pelos bárbaros”.

Maquiavel exortou o povo, como sujeito histórico e político, a constituir “uma nova forma de governo” que “beneficiasse o povo”. Lembrou o exemplo do povo de Israel e a libertação do poder do Egito e ressaltou que a ação de Deus, no mundo, ocorre pela mediação do exercício “do livre-arbítrio”, “a parte de glória que nos cabe”. Disse que “a Itália, depois de tanto tempo, precisa encontrar seu libertador”, pois “o odor ácido do domínio bárbaro penetra por todas as narinas”. Sob a “bandeira” deste libertador, “nossa pátria” voltará “a se levantar”, confiando, como Petrarca, “no coração dos italianos”.

O ponto central e tradicional é que a Itália (e o mesmo vale para as outras nações, como viu Moses Hess e outros) é considerada uma pessoa moral, formada pelos italianos e tem, para Maquiavel (ecoando a teoria política da Paidéia e do catolicismo), o direito natural à autonomia, como nação, incluindo o controle sobre os principais recursos naturais, que devem ser usados para o bem de todos.

O princípio da nacionalidade, que nasce do princípio da democracia, está claro nas entranhas cristãs mesmo desta obra, ainda que com erros “maquiavélicos” (o joio, no meio do bom trigo).

Conclusão: Maquiavel estava certo ao ensinar que o Estado é algo natural e que a política tem relativa autonomia em relação à ética e à religião. Errou, no entanto, ao exagerar esta autonomia e ao defender, em alguns textos, regras políticas imorais.

O que se convencionou chamar de “maquiavelismo”, e que foi condenado pelo Vaticano (pouco depois da publicação do livro de Maquiavel), é a cisão entre política e ética, entre o Estado e a ética (o velho Comte condenou corretamente esta cisão).

O padre Pedro Ribaneira, discípulo direto de Santo Inácio de Loyola, escreveu um livro especificamente contra estes erros de Maquiavel e o livro expressou o juízo dos Jesuítas e da Igreja, contra as idéias erradas do “maquiavelismo” (a parte boa nunca foi condenada).

Boas sínteses, ecletismo, filosofia do catolicismo

A Igreja sempre adotou uma filosofia eclética, chamada de filosofia cristã, uma mistura, um bom ecletismo. Por isso, a Igreja teve em grande apreço a figura e os textos de pensadores como Victor Cousin, amigo de Ampere (ótimo católico), de Hegel e outros.

Um dos melhores hegelianos, Augusto Veras, conciliava Platão, Aristóteles e Hegel, numa boa síntese.

Antônio Genovesi, Rosmini, Manzoni, Giovanni Reale e outros mostram a linha do bom ecletismo católico. 

A Igreja ama a razão e as emoções (paixões); ama o raciocínio indutivo e o dedutivo (o que há de bom no empirismo e no racionalismo); a Igreja ama a natureza e o espírito; ama a liberdade e a autoridade; a arte e a frugalidade; as estatais e regras públicas da economia, a intervenção estatal na economia, tal como as pequenas empresas, o empreendedorismo, a pequena burguesia, os técnicos, os artesãos, os artistas, os escritores, os servidores públicos, as cooperativas, enfim, economia mista; a Igreja gosta do que há de bom no presidencialismo e no parlamentarismo, numa linha que Paulo Bonavides explica. 

A Igreja, como Hegel, ama as sínteses entre os contrários, depura o joio, mantém o trigo. 

 

Algumas boas ideias de Herbert Spencer, tal como seus erros

Herbert Spencer (1820-1903) adotava uma forma de jusnaturalismo, que fica bem clara no livro “Princípios de ética”, especialmente no texto “Beneficência positiva” (1893). A justiça é, para Spencer, o fundamento da convivência social, regras razoáveis para o convívio social, e ele fez um bom elogio da “simpatia”, da “compaixão”.

Spencer ensinava que há uma lei natural evolucionista, como manifestação do Incognoscível (Deus). Esta lei natural seria uma síntese do altruísmo (tão defendido por Comte, com a fórmula “viver para o próximo”) com a fórmula liberal “viver para si”, o que geraria a fórmula “vive para ti e para os outros”.

Esta síntese conciliava o interesse particular com o geral, o bem próprio com o bem social, ou seja, a mesma ideia de economia mista, da idéia aristotélica e cristã do bem comum. O jusnaturalismo de Herbert Spencer foi constatado por Cogliolo e também por João Monteiro, no livro “Programa do curso do processo civil” (São Paulo, Ed. Duprat, 1905, p. 65).

O livro de Spencer “A base da moral evolucionista” ilustra esta tese, numa corrente próxima ao pensamento ético e também religioso de Stuart Mill.

A diferença é que Spencer era liberal, tendo enorme ojeriza à intervenção estatal, atacando até a beneficência estatal (assistência social). Apesar destes erros liberais, deixou bons textos, que até hoje merecem ser lidos. Há a parte nefasta, horrenda, e há uma parte boa. Distinguir, separar o joio do trigo, eis o papel de distinção dos católicos, como apontou Maritain e também Alceu. 

Spencer, no livro “Primeiros princípios”, ensinou que em todas as opiniões e crenças há um fundo de verdade e que entre a religião e a ciência há uma harmonia fundamental. Ele justifica a “fé do carvoeiro”, das pessoas simples, com a idéia do incognoscível.

Neste mesmo sentido, vale a pena lembrar que a ciência – tal como também entendiam Santo Tomás de Aquino, Descartes, Comte, Herbert Spencer e outros – é “um desenvolvimento do conhecimento vulgar”, “ninguém pode dizer com exatidão onde terminam os axiomas do senso comum e em que ponto começam as generalizações científicas”. Isso ocorre por conta da concepção que a Igreja tem das aparências (no caso Galileu esta concepção foi exposta), que não esconderiam a verdade, e sim seria um meio de apreensão dos conceitos verdadeiros. A aparência não engana, o que engana são as falsas aparências. A aparência, o que aparece aos sentidos, tem, intrínseco, latente, as ideias, as boas regras. A inteligência deve avançar da aparência à essência e a essência (os conceitos, as ideias) estão nas coisas, na aparência. 

O elogio do homem comum, do povo, tem boa base teológica. Spencer, apesar de ter sido defensor do individualismo, do liberalismo econômico, deixou bons textos e o apreço de Sílvio Romero por seus textos tinha boa base de razoabilidade.

No Brasil, Sílvio Romero (1851-1914) adotava a linha evolucionista de Spencer, que era anti-militarista e via corretamente a evolução social como a substituição da força bruta e da violência (Forças Armadas, escravidão, polícia, presídios etc) pela força da razão e da justiça.

Este evolucionismo, próximo também de Bergson (e de Boutroux e Eucken), influenciou Alceu e também alguns anarquistas. Romero escreveu “Doutrina contra doutrina ou o evolucionismo e o positivismo no Brasil” (1894) contra alguns erros do positivismo de Comte. Ele definia o Direito como “o complexo das condições criadas pelo espírito das várias épocas, que servem para, limitando o conflito das liberdades, tornar possível a coexistência social”, definição que tem vários pontos verdadeiros e foi formulada antes por Kant, que era teísta e é uma das fontes fundamentais da democracia, como provam os bons textos de Norberto Bobbio.

Alfred Fouillée (1838-1912) foi outro grande pensador, que destacou várias boas idéias. Esta corrente ganhou o nome de ego-altruísmo, economia mista, conciliação entre a pessoa e a sociedade, bem comum. E esta corrente tem respaldo na corrente cristã do cumberlandismo (em homenagem a Richard Cumberland), que exaltava a benevolência. Fouillée, Spencer e Stuart Mill defendiam a democracia, ainda que Spencer fosse individualista, ligado ao liberalismo econômico, ao racismo etc.

Lição de João Paulo II sobre a liberdade humana situada, com condicionamentos, em contextos, quadros

João Paulo II, em 28.10.2003 (no centenário da morte de Leão XIII), ensinou que “os acontecimentos históricos  são  o  resultado  de  interligações  complexas  entre  a  liberdade  humana  e  os  condicionamentos  pessoais e  estruturais”, formando “pontos de cristalização da identidade nacional”, inclusive da identidade “religiosa”.

A liberdade humana é sempre situada, “encarnada” dentro de “um quadro histórico”, num “contexto socio-cultural da época”, que influencia profundamente “as motivações, as circunstâncias e os aspectos do período” histórico.

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