Arquivos para : A “Fórmula” para explicar a r. entre Filosofia, Política, Religião, Economia e a Luta dos Trabalhadores

A ética social do catolicismo é formada pelo melhor da ética judaica e pelo melhor da ética da Paideia. Por isso, é tão DIVINA

O cristianismo primitivo usou principalmente as idéias estoicas para fundamentar as idéias éticas e políticas da “filosofia cristã”

Marciano Vidal, no livro “Nova moral fundamental” (Aparecida, Ed. Santuário/Paulinas, 2003, p. 333), demonstrou que a ética cristã foi gestada com base na “inculturação”. O mesmo ocorreu com a ética judaica, a mãe da ética cristã.

Assim, “a moral cristã encarna-se na sociedade greco-romana e na cultura do helenismo”, com base no “judaísmo” e nas idéias da Paidéia, especialmente nas idéias estóicas (“a influência do estoicismo é patente na moral patrística, através de categorias éticas como a lei natural”).

Fica claro que é a mesma conclusão de Bruno Bauer e de Friedrich Engels, no texto que este redigiu sobre a contribuição de Bauer, quando este teólogo, amigo de Marx, morreu.

Marciano transcreve trecho da encíclica “Fides et ratio”, de João Paulo II: “diante das filosofias, os Padres não tiveram medo de reconhecer tanto os elementos comuns como as diferenças que apresentavam com a Revelação” (n. 41). Aceitavam as “convergências” como vindas do Logos, da Razão divina, que fala em todas as consciências. O que era racional era aceito pelos Santos Padres, como expressão das sementes do Verbo, da Razão.

Como destaca Marciano, “a patrística” não é só um “momento histórico na formação da moral cristã, mas também” uma “expressão paradigmática da dimensão ética da fé”. O “espírito” da “moral patrística” é expressão quase direta da Tradição.

Para entender a ética cristã (formulada na patrística, na Tradição viva, que permanece atuante ainda hoje) é preciso entender algo da moral estóica, tal como é necessário entender as idéias hebraicas.

As idéias hebraicas (o humanismo semita, cf. Enrique Dussel) formam o veio principal.Filon já elaborou uma síntese entre a ética judaica e a ética estóica, e o mesmo foi feito na corrente dos FARISEUS, a corrente que Cristo e São Paulo elogiaram e que constitui o NÚCLEO EXCELENTE da Ética dos Pais, da Ética do Talmud.

As idéias da Paidéia formam o veio menor, mas essencial também.

Dentre as idéias da Paidéia, o estoicismo eclético forma o principal afluente.

O estoicismo eclético era uma mescla, gestada no meio fenício-semita, de idéias socráticas, platônicas, cínicas, aristotélicas, estóicas, pitagóricas, persas, egípcias etc. Frise-se: o próprio ESTOICISMO TEM RAÍZES SEMITAS, no fundo, HEBRAICAS, pela proximidade entre judeus e fenícios, na Terra Santa. 

A ética cristã é racional. Para entende-la, é muito conveniente e útil o estudo da ética estóica, que tem elementos válidos até hoje.

Trata-se, como a ética cristã, de uma ética anticapitalista, crítica, social e bem humana, pautada pela razão e pelo bem comum.

A ética estóica e a ética platônica e aristotélica foram bem combinadas por Cícero, no livro “Dos ofícios”, obra que encantou homens como Santo Ambrósio, Santo Agostinho e os grandes expoentes da Igreja.

Em Musônio Rufo, Sêneca e Epicteto há também esta linha estóica eclética e aberta, ecumênica.

Mussônio, Sêneca e Epicteto influenciaram São Clemente de Alexandria.

A Bíblia menciona uma pessoa com o nome de Rufo (“Vermelho”), em Roma (cf. Mc 15,21; Rm 16,13; At 13,1; Mc 15,21 e outros textos), mas, infelizmente, não há comprovação histórica de ser a mesma pessoa. É bem mais provável que não seja, mas é bonita a hipótese.

A linha estóica está presente nos melhores textos de homens como Virgílio, Quintus Horácio (65-8 a.C.), Juvenal, Pérsio, Tácito, Ovídio, Tito Lívio, Lucano, Quintiliano (35-95 d.C.), Plutarco, Galeno e outros escritores que os Santos Padres leram e citaram com alegria.

Horácio e Virgílio são os poetas do amor simples, da vida ética, do patriotismo, das virtudes. Seus textos ainda são atuais. Marx sempre apreciou a literatura clássica, especialmente Ovídio e outros.

Os grandes escritores sobre agricultura seguiam também esta linha, a linha de Virgílio, que os Santos Padres e os Papas também veneraram.

Por exemplo, no livro “O cultivo das hortas”, do monge Walafrido Estrabão (808-849), este monge saxão elogia a agricultura familiar, usando textos de Columela, Virgílio (“Geórgicas”) e Sereno Sammonico.

Os textos de Columela (“Res rústica”, “Coisas rústicas”, sobre a agricultura) são apologias da agricultura familiar, textos que o MST deveria reeditar.

Os livros de Galeno e de Dioscórides também são EXCELENTES, mostrando como quase todos os remédios têm origem na agricultura.

A razão gera as verdades éticas necessárias e isso foi explicitamente ensinado por São Paulo, no texto sobre a “lei natural”, que é exatamente um conjunto de verdades (regras) práticas.

Na “Fides et ratio”, João Paulo II explicou bem este ponto: “36. Os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com alguns filósofos epicuristas e estóicos (cf. At 17, 18)”.

A análise exegética do discurso de São Paulo no Areópago demonstra repetidas alusões a idéias populares, predominantemente de origem estóica.

São Paulo teve educação estóica em sua cidade natal, de Tarso, uma cidade onde o estoicismo tinha sua principal base. E São Paulo também teve educação entre os Fariseus, que eram os estóicos hebreus, como apontou corretamente Flávio Josefo, testemunha da época e grande historiador hebreu. 

Num parêntese, vale a pena lembrar que São Paulo discursou no Tribunal de Atenas onde Édipo, Sócrates e Demóstenes tinham sido julgado, tendo São Paulo pisado a terra onde Sócrates também pisara, dando continuidade à Paidéia, recepcionada pela Igreja, para formar a “filosofia cristã”, que é a filosofia clássica, da Paidéia, depurada.

Como ensinou João Paulo II, “certamente isso”, o uso de idéias estóicas no discurso, “não se deu por acaso”. Afinal, “os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas “Moisés e os profetas” nos seus discursos (o afluente hebraico), “mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rm 1, 19-21; 2, 14-15; At 14, 16-17)”, usar as idéias da Paidéia, que foram recepcionadas pelo cristianismo, como bem demonstrou Werner Jaeger, em suas várias obras luminosas.

Frise-se: o “conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral” ocorre pelas forças da razão natural, pela luz natural da razão, que gera verdades éticas práticas, idéias práticas verdadeiras para o bem comum.

As luzes da razão natural estão expressas na cultura, nas correntes culturais da época, tal como estão dispersas hoje em várias linhas culturais (o cristianismo deve ser sempre aberto à verdade, venha de onde vier).

São Paulo usou textos de Arato ou de Cleantes, possivelmente dos dos dois autores ligados ao estoicismo e também usou outros textos ligados ao estoicismo.

O léxico (palavras) de São Paulo tem ampla influência estóica. O estilo mesmo de São Paulo é o estilo estóico das “diatribes”, usado por Musônio Rufo, Epicteto e Sêneca, tal como por outros estóicos.

O gênero da diatribe foi criado por Bíon de Borístenes, um cínico eclético da primeira metade do século III a.C, com ligação com Teofrasto. O gênero diatribe (“diatribes”) é polêmico, uma espécie de arenga popular, com breves sentenças éticas. Este estilo foi usado por vários Apologistas e Santos Padres. Foi usado por Taciano e Tertuliano, por exemplo.

Bíon ensinava que as boas escolhas, na vida, geram a felicidade; as más escolhas, geram desgraças. Há a mesma tese na Bíblia e nos textos estóicos.

A idéia que nos movemos em Deus é uma idéia hebraica e estóica, refutando os erros de Epicuro. São Paulo, como será visto neste livro, usou outras citações de grandes escritores da cultura helenística.

João Paulo II completou este ponto assim: “Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria (cf. Rm 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos de mistérios, conceitos mais respeitosos da transcendência divina”, e daí o apreço aos textos de Platão, dos estóicos e até de alguns textos dos cínicos e dos epicuristas contra a idolatria.

Até mesmo alguns textos dos céticos, contra as idéias de idolatria, foram usados pelos Santos Padres. O mesmo no tocante aos textos cínicos.

Marciano Vidal, no livro referido no início deste capítulo, destaca a influência de Cícero (que fez uma síntese de idéias estóicas, aristotélicas e platônicas) em Santo Ambrósio (o livro “De officiis ministrorum” tem o mesmo nome da obra de Cícero, “De officiis”).

Marciano também destaca São Jerônimo, especialmente suas “Cartas”, com influência de Cícero.

Houve influência de Cícero também em Santo Agostinho (embora a influência dos maniqueus tenha deixado vestígios pessimistas em sua concepção ética).

As idéias estóicas e cínicas (um estoicismo radical) estão claras em Santo Atanásio (“Vida de Santo Antão”), em São Basílio Magno e outros.

Em São Basílio Magno (330-379), há uma mistura eclética. Nas homílias sobre o “Gênesis”, Basílio usa idéias platônicas e aristotélicas. Nas idéias éticas, Basílio usa idéias estóicas e cínicas. Elogia Sócrates e Diógenes pelo desprezo às riquezas.

São Basílio escreveu o livro “Tratado sobre a leitura dos livros pagãos”. Adota idéias estóicas principalmente nos textos de ascese, sobre as regras dos monges e também sobre o destino universal dos bens.

Toda a literatura monástica está pejada de idéias estóicas e hebraicas (existia o monasticismo hebraico, nos essênios, terapeutas, batistas e outras correntes).

Há a mesma influência em São Gregório de Nissa (irmão de São Basílio) e em São Gregório Nazianzeno (amigo e praticamente irmão de São Basílio).

As idéias estóicas estão claras como a luz do sol nos textos de Tertuliano, de Cipriano de Cartago, de Lactâncio (o “Cícero cristão”).

Também estavam presentes nos textos de Filon e de Flávio Josefo, numa mescla de platonismo e estoicismo. Há a mesma mescla nas idéias dos fariseus, dos essênios, dos terapeutas e de outras correntes (como mostram os documentos do Mar Morto).

Os essênios estão ligados às idéias órficas e pitagóricas e estas idéias são de origem semita, oriental.

A própria Kabala, em suas fontes mais antigas, tem uma porção de idéias neoplatônicas, pitagóricas, hermetismo e estóicas, como fica evidente no “Livro da criação” e no “Livro do Esplendor”. Estes livros destacam a Sabedoria (“Hochma”) e a Inteligência (“Logos”) de Deus.

Pico della Mirandola tinha razão ao considerar as idéias principais da Kabala como de acordo com o cristianismo e também com as melhores idéias de Platão e Pitágoras.

Há idéias estóicas e hebraicas na “Primeira carta de São Clemente”, do Papa Clemente, em 96 ou 97, à comunidade de Corinto. São Clemente Romano foi o quarto Papa, governando a Igreja de 97 a 101 d.C. A “Primeira Carta” era tão venerada que foi posta várias vezes no Cânon das Escrituras.

Existe a mesma mistura de idéias da Paidéia e idéias hebraicas na “Didaqué”, na “Carta de São Barnabé”, no livro “O Pastor” de Hermas, em Santo Inácio de Antioquia, na “Carta” de São Policarpo, em São Justino, em São Clemente de Alexandria, em Orígenes e oturos.

Há grande influência de Cícero e de Sêneca nos textos de São Martinho de Braga (m. em 580 d.C.), pois seu livro “Honestae vitae” (“Vida honesta”) é baseado no livro “De Ofiiciis”, de Sêneca (mesmo nome da obra anterior de Cícero). Santo Tomás de Aquino cita pilhas de textos de Cícero, tal como Leão XIII, em suas 86 encíclicas.

A mistura de aristotelismo, platonismo e estoicismo fica claríssima em São João Damasceno, em São João Cassiano (360-435, semipelagiano e estóico cristão), em São Gregório Magno, em Boécio, em São Isidoro de Sevilha e outros.

A mesma mistura está em Herácio, um platônico que misturou idéias platônicas com idéias estóicas e aristotélicas. Escreveu sob re a justiça, mostrando que justiça, no sentido lato, significa a moralidade em geral, pautar todos os atos de forma racional e em prol do bem comum.

Boécio (480-524 d.C.) foi mestre do palácio do rei godo, Teodorico, em 520 d.C. Foi condenado à morte sob a acusação de ter ligações subversivas com Bizãncio. Boécio deu continuidade à síntese de platonismo, aristotelismo e estoicismo, que também estava presente no neoplatonismo eclético de Plutarco, Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo, tal como estava presente no estoicismo eclético e em autores como Galeno, Ptolomeu e outros.

Boécio traduziu várias obras de Aristóteles do grego para o latim e deixou a obra linda “Consolação filosófica”, demonstrando a importância da filosofia para a religião.

Boécio ainda nos deixou seu discípulo, Cassiodoro (485-580 d.C.), ministro dos reis godos, que deixou uma congregação de monges filósofos, copistas e várias obras.

O estoicismo cristão florescia especialmente nos mosteiros cristãos e ortodoxos.Os textos do padre Elorduy demostram isso bem.

O aristotelismo em mescla com o estoicismo também está nos textos de São João Damasceno. Está ainda nos textos do patriarca Fócio (820-890 mais ou menos), de Constantinopla. Fócio cometeu erros, mas era aristotélico e ajudou a difundir os textos de Aristóteles.

A ética estóica e a ética aristotélica estão dispersas na cultura ocidental e mundial, especialmente em certas palavras-chaves.

Até hoje, para “uma elevação contínua do ideal da perfeição humana” (cf. Marciano), para a educação ética, é importante entender a ética socrática, platônica, do hermetismo, cínica, aristotélica e estóica.

É claro que também é importante a recepção (pela aplicação das mesmas regras de inculturação) das idéias da cultura chinesa, hindu, coreana, vietnamita, russa, africana, tal como das várias correntes culturais (marxismo etc) etc.

Marciano Vidal expôs a influência predominante estóica na ética patrística, em ligação com as idéias hebraicas, com base nos textos de estudiosos como J. Stelzenberger e M. Spanneut (“Le stoicisme des Pères”, Paris, 1957).

Marciano cita texto de L. Vereecke, do livro “Historia de la teologia moral”, sobre a ética cristã e suas fontes. Vejamos o texto de Vereecke:

A teologia moral dos Padres é uma teologia da perfeição, que indica a meta que é preciso alcançar, a virtude, sobretudo a caridade. Inpira-se, em primeiro lugar, na Escritura, as se serve também dos grandes sistemas de moral do estoicismo e do platonismo [e do aristotelismo, intrinsecamente ligado ao platonismo], aos quais confere um traço evangélico. O ensinamento moral inclui-se no quadro litúrgico, deixando a cada um a tarefa de aplicar as leis [regras] gerais aos casos práticos”.

A Igreja, deste o início, combinou idéias da Paidéia com idéias hebraicas.

As idéias da Paidéia vieram principalmente do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo, mas também do pitagorismo, do hermetismo, do orfismo e de outras fontes orientais.

Uma explicação para tantas “convergências” entre estoicismo e idéias hebraicas-semitas está na origem semita do estoicismo, como fica patente na biografias dos autores estóicos (ponto que será examinado mais adiante).

O livro de Brad Inwood, “Os estóicos” (São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, p. 8) mostra bem as origens semitas do estoicismo:

O fundador do estoicismo, Zenão, chegou a Atenas vindo da cidade de Cício (a atual Larnaca), situada em Chipre. Seu sucessor, Cleantes, era nativo de Assos, na Tróade (ocidente da Turquia). O sucessor deste último, Crisipo, o maior de todos os estóicos, era natural de Soles, na Cilícia (parte austral da Turquia). Na geração posterior a Crisipo, as duas figuras centrais e dirigentes da escola eram de origem similarmente oriental: Diógenes da Babilônia e Antípatro de Tarso”.

Zenão, Cleantes, Crisipo, Diógenes da Babílônia e Antípatro de Tarso formam as estrelas do estoicismo antigo.

O estoicismo médio teve Panécio (180-110 a.C), Posidônio de Apaméia na Síria (135-50 a.C.) e Cícero, que formam o estoicismo médio. O estoicismo médio ensina as virtudes (deveres, ofícios) médios, acessíveis a todos.

Depois, vem o estoicismo romano, com Sêneca, Musônio Rufo (25-80 d.C.), Epicteto (50-125 d.C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.). Estes são os principais estóicos.Dion Crisóstomo também merece ser lembrado.

O estoicismo tem raízes fenícias e semitas, tal como tem raízes no mazdeísmo-mitraísmo.

O maior dos estóicos foi Crisipo (281-208 a.C.), filho de Apolônio de Soli, cidade vizinha a Tarso, na Cilícia, a cidade de São Paulo.

Crisipo escreveu 705 livros, todos perdidos, mas deixou fragmentos importantes. Suas obras eram profundamente ecléticas e ecumênicas, pois, segundo Diógenes Laércio, eram formadas principalmente de textos de grandes autores anteriores, que Crisipo comentava. Com este método, Crisipo reforçou o ecletismo e ecumenismo natural do estoicismo.

Como veremos mais adiante, a cidade natal de São Paulo, Tarso, era o principal centro do estoicismo. Houve inúmeros estóicos de Tarso, como o próprio Crisipo (de Soles, cidade a 20 km de Tarso), Perseo de Tarso, Zenão de Tarso, Paramono de Tarso (seguir de Panécio) e outros.

Brad Inwood, ainda do livro “Os estóicos” (p. 32), detalha alguns das inúmeras relações entre Tarso e o estoicismo:

Uma boa ilustração é oferecida por Tarso, na Cilícia. Estrabão julgava que a, à sua época, em fins do século I a.C., os estabelecimentos educacionais em Tarso, incluindo as escolas de filosofia, superavam os de Atenas e Alexandria (…). De fato, a cidade tinha produzido estóicos eminentes pelos dois últimos séculos pelo menos – incluindo dois escolarcas: Zenão de Tarso e Antípatro de Tarso (mesmo Crisipo, o maior entre os estóicos, era filho de pai társio) e bem pode ser o caso daquela tenha tido sua própria escola estóica, bem antes da época de Estrabão”.

Atenas foi saqueada nas guerras entre Mitradates e Roma e parte do acervo bibliográfico foi levado para Roma, especialmente os livros perdidos de Aristóteles.

Chegaram a Roma em 84 a.C., estando eclipsados antes, o que explica o primado do estoicismo na difusão na cultura da época. Alexandria também foi saqueada e parte da biblioteca foi queimada nas lutas entre Júlio César e Pompeu.

Há ligações também entre o mazdeísmo e o hinduísmo (tal como entre islamismo e mazdéismo). Existiam amplos pontos comuns, por influência de Heráclito, de Éfeso, cidade ligada à cultura persa. Houve influências também de outras fontes, como será visto e este foi o caldo cultural que banhou a difusão do estoicismo e do cristianismo.

Os estóicos se consideravam como “socráticos” (cf. Filodemo, “De Stoicis, XIII, 3).

Houve também influência aristotélica no estoicismo, como aponta o professor Hahm (em estudos de 1977). Também há vastas influências aristotélicas por causa de Teofrasto, Xenócrates, Polemon e outros platônicos.

Zenão de Chipre (340-264 a.C.) foi aluno de Crates de Tebas (cidade grega com o mesmo nome da Tebas do Egito, de origem fenícia), onde aprendeu principalmente as idéias de Heráclito de Éfeso, idéias de fundo persa, mazdéistas. Por esta razão, Zenão era monoteísta. O mesmo ocorria com Antístenes. Um dos fragmentos de Antístenes diz: “segundo as leis [positivas gregas], há muitos deuses, mas há apenas Um, segundo a natureza” (cf. Fragmento n. 24).

Zenão também foi aluno de Xenócrates por dez anos, tudo indica até a morte de Xenócrates. Xenócrates deixou como sucessor, na direção da Academia, o filósofo Polemon, que também foi professor de Zenão. Polemon já ensinava que viver corretamente é viver de acordo com a natureza.

Zenão estudou por cerca de vinte anos em Atenas, sendo a maior parte destes anos na Academia, com Xenócrates e Polemon. Xenócrates (396-314 a.C.) chefiava a Academia, o movimento platônico, desde 338 a.C. até 314, ano de sua morte. Depois, Zenão foi aluno de Polemon, o sucessor de Xenócrates. Polemon era pupilo de Xenócrates.

Zenão criou uma escola baseada nas idéias de Sócrates, por mediação de Antístenes, criador dos cínicos, que era socrático; tal como por mediação da Academia. Também fundiu estas idéias com as idéias de Heráclito e, depois, com as idéias éticas do aristotelismo.

A influência aristotélica no estoicismo ocorreu na lógica, na física (no fundo, a física estóica é a física do “Timeu” do livro “Física”, de Aristóteles e da “Metafísica”) e nas idéias éticas. Esta influência aumentou com o ecletismo de Crisipo e foi reforçada no estoicismo médio, mais eclético ainda. Depois, com Cícero e Sêneca, há uma síntese de idéias socráticas, platônicas, aristotélicas e estóicas.

As ligações entre aristotelismo e estoicismo serão detalhadas num post específico mais adiante. Para adiantar um ponto, basta considerar que Cícero escreveu o livro “Hortênsio” baseado no livro “Protréptico”, de Aristóteles.

Marx escreveu corretamente que os estóicos adotaram as idéias de Heráclito, especialmente o conceito “heraclitiano” da “matéria”, “dinânimo, em desenvolvimento e vivo”, refletindo o mesmo conceito ativo sobre Deus, como “Fogo criador”, “Luz” (idéias presentes no judaísmo e no mazdeísmo), “Razão”, “Logos” que governa a natureza e o mundo.

Engels, num de seus últimos textos, no final da vida, num artigo com o título “Bruno Bauer e o cristianismo primitivo”, seguia a mesma opinião que Bauer e Marx. Engels descreveu as semelhanças entre “a filosofia dos estóicos” “em particular, Sêneca” e as idéias do cristianismo primitivo, expostas nos Evangelhos, nos “Atos dos Apóstolos” e especialmente no “Apocalipse”.

Engels apenas dava continuidade aos textos de Bruno Bauer (1809-1882), um teólogo que foi o melhor amigo de Karl Marx na Universidade de Berlim.

Bauer permaneceu ortodoxo-luterano até cerca de 1840, ou seja, durante o convívio com Marx, que tinha como melhor amigo um teólogo.

Bauer escreveu o livro “Cristo e os césares” (1877), sobre a origem do cristianismo. Defendeu, como já o defendera na juventude, que o cristianismo surgiu de uma síntese do judaísmo com o estoicismo, especialmente da linha de Filon e Sêneca. No aspecto humano, há grande verdade nisso.

Filon e os fariseus eram pró-estóicos na parte ética (e o mesmo ocorria com os essênios e terapeutas) e o estoicismo de Sêneca é o estoicismo aberto e eclético, vindo de Crisipo, Panécio, Posidônio e Cícero.

Posidônio (135-50 a.C.) era sírio e eclético, combinando idéias platônicas e aristotélicas com idéias estóicas. Esta linha foi mantida por Cícero, seu discípulo, tal como por Filon de Alexandria e Sêneca.

Engels também ensinou que “os crentes cristãos” notaram estas semelhanças atribuindo à influência hebraica em Sêneca e nos antigos estóicos. De fato, pode ter ocorrido influência hebraica, mas a luz natural da razão bastaria e as melhores idéias da Paidéia foram mesmo recepcionadas pelo cristianismo, numa síntese entre hebraísmo e Paidéia (na parte humana do cristianismo).

Os estóicos, ao contrário dos epicureus, ensinavam, na mesma linha que a Bíblia, que o sábio, toda pessoa, tem o dever de participar da vida social e política (o elogio da sabedoria, feito por Salomão, na Bíblia, é intrinsecamente político).

Os textos de Rufo Musônio são excelentes nesta linha, tal como os de Varrão e de Marcos Pórcio Catão, de Útica, um político romano, estóico, neto de Catão, o Censor. O nome “Marcos”, do Evangelista, era o mesmo que o prenome de Marcos Catão.

A Bíblia, em I Reis, 3,5-12, descreve o amor de Salomão pela sabedoria. Antes, Salomão agradece a Deus pelos dons dados a Davi, seu pai: “de grande beneficência usaste Tu com teu servo, Davi, meu pai”, que “andou contigo em verdade, em justiça e em retidão de coração”. Salomão pede, então, a Deus “um coração” (consciência) “entendido, “para julgar [reger, aplicando as leis de Moisés] a teu povo”, para discernir “entre o bem e o mal”.

A sabedoria prática é, de fato, o conjunto das idéias práticas do bem comum, idéias nascidas da “consciência” (do “coração”). Deus elogia Salomão porque este não pediu para si “muitos dias”, nem “riquezas”, nem a “vida de teus inimigos”, mas sim “entendimento, para discernir o que é justo”. O “coração” “sábio” é, nas palavras de Deus, o que sabe discernir o bem do mal, o que sabe gerar e enunciar idéias práticas para o bem comum.

Há a mesma lição nos “Provérbios” e no livro “Sabedoria” (um tratado de teologia política), atribuídos a Salomão, pela Bíblia.

A sabedoria, na Bíblia, é a capacidade humana de autogoverno pessoal e social e esta concepção deve ter influenciado profundamente a cultura grega, todo o movimento filosófico (o termo “filósofo” traz um indício da influência semita, pois “filósofo” é a pessoa que ama a “sabedoria”, o “saber”).

O ideal político cristão e estóico era humanista.

Zenão de Chipre, Cleantes e Crisipo de Soli (cidade vizinha de Tarso), tal como os outros estóicos, esboçaram a descrição de uma República humanista, sem escravidão, sem “dinheiro”, com controle público da economia.

Os estóicos já explicavam que o direito positivo, para ser legítimo, deve ser pautado pelo direito natural e pelo direito dos povos. Em outras palavras, o direito positivo e todas as estruturas estatais e sociais devem ser pautadas (regradas, regidas, governadas) pelas idéias racionais em adequação ao bem comum.

Os estóicos usavam estas idéias para criticar as leis e instituições positivas, constituídas, tal como fizeram os cristãos e tinham feito os Profetas. Na área cultural hebraica, os fariseus, como destacou Flávio Josefo, tinham inúmeras idéias em comum com os estóicos. Os essênios e os terapeutas também tinham ligação com o estoicismo radical dos cínicos.

As idéias estóicas eram idéias semitas, pois os fundadores da Escola estóica eram de origem semita.

O estoicismo está presente nos textos do judaísmo rabínico, de origem farisaica e também estava nos textos dos grandes juristas romanos, que foram essenciais para criar as linhas do direito romano clássico, especialmente do século II depois de Cristo, já com influência cristã, como será visto.

As idéias estóicas foram elogiadas por Erasmo, Lutero, Zwinglio, Calvino, Montaigne (seguia Sêneca e Plutarco), Descartes, Justus Lipsius, Grócio, Spinoza, Diderot, Holbach, Kant, Schiller, Goethe e até por Frederico o Grande (numa poesia, declarou que era um “philosophe stoicien”).

Nero, Vespasiano e Domiciano perseguiram os estóicos e os cristãos, unindo na perseguição estas duas correntes. Nero ordenou a morte de Sêneca e de Lucano, envolvidos numa conspiração, de Pison, para derrubar Nero. Vespasiano (acompanhado por seu filho, Tito) destruiu Jerusalém, em 70 d.C. e perseguiu os estóicos.

Depois, pelo ano 90 d.C., Domiciano, que governou de 81 a 96 d.C., expulsa os estóicos de Roma, incluindo Epicteto (55-126 d.C.). A partir de 94 d.C., passa a perseguir os cristãos.

A perseguição comum deixa clara as idéias comuns entre cristãos e estóicos. A perseguição a Caio Rufo Mussônio (30-102 d.C.) é paralela à perseguição aos cristãos.

Domiciano expulsou também sua sobrinha, Flávia Domitila, uma cristã, casada com o cônsul Tito Flávio Clemente. O cônsul Tito Flávio foi julgado por acusação de costumes judaicos cristãos e de ateísmo (por não prestar culto aos ídolos). Depois, foi executado.

Domiciano não tinha filho e adotara os dois filhos do casal cristão, dando a estes dois meninos o nome de Domiciano e Vespasiano. Seriam seus sucessores e foram designados para isso. Os meninos foram exilados com a mãe. Flávia Domitila era cristã e, com o marido, foi acusada de participar numa conspiração para derrubar Domiciano. A conspiração não foi provada e há uma versão que diz que um dos filhos adotivos teria sido cooptado pelos judeus, ainda em estado latente de guerra, dando continuidade ao conflito de 70 d.C, que desabrochou novamente em 132 d.C, com Bar Kochba.

Domiciano foi um dos maiores perseguidores do cristianismo, quase no nível de Nero.

Nero e Domiciano perseguiram os cristãos e os estóicos, o que explicita bem os pontos comuns entre estoicismo e cristianismo.

Faltou pouco para que um dos dois meninos cristãos, filhos adotivos de Domiciano, passassem ao cargo de imperador, antecipando o que ocorreria com Constantino Magno ou com Juliano (na versão da cooptação, referida acima).

Em Roma, sobrou a catacumba de Domitila, pois Flávia Domitila tinha doado uma área aos cristãos, à Igreja.

Na catacumba há inscrições com o nome do casal cristão. Domiciano também ordenou a morte de Acílio Glábrio, cônsul, cristão, que morreu em 91 d.C. Em 96 d.C., Domiciano morreu assassinado. Seu sucessor, Nerva, proibiu a perseguição aos cristãos.

Cristo foi morto lá pelo ano de 30 d.C. e Sua Igreja foi perseguida duramente pelos romanos.

Os períodos mais pesados da perseguição ocorreram nos governos de Tibério, de Nero, Domiciano, Décio, Valeriano e Diocleciano. Especialmente durante cerca de quatro anos a mando de Nero e por mais quatro anos, a mando de Domiciano.

Nero e Domiciano perseguiram os cristãos e os estóicos. Depois, Juliano, o Apóstata, atacou os cínicos (ligados aos estóicos) e também os cristãos. Juliano escreveu o livro “Contra os cínicos ignorantes”.

No século II, a perseguição difusa aos cristãos diminuiu um pouco por causa de Trajano. Isto ocorreu em decorrência da carta de Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, em 112 d.C., descrevendo os cristãos como pessoas inocentes, que assistiam de manhã a uma ceia e juravam não praticar o mal.

Adriano também atenuou a perseguição. O mesmo ocorreu com Marco Aurélio. Ainda assim, houve vários mártires, mesmo sob o governo destes imperadores mais sábios e mais ligados ao ideário estóico.

O cristianismo usou (como fica claro nos textos do Novo Testamento e nos textos dos Santos Padres) várias idéias estóicas (populares), por estarem em boa harmonia com as melhores idéias hebraicas.

Os textos de Cícero (“Da República”, “Das leis”, “Dos deveres”, “Da República”, “Da Velhice”, “Da amizade”, “Sonho de Cipião”, “Do orador”, “Verrinas” e outros) foram acolhidos com amor pelos Santos Padres.

Há praticamente um culto a Cícero nos textos de Santo Agostinho, Lactâncio, Tertuliano, Eusébio de Cesaréia (263-337 d.C.), São Jerônimo, Santo Ambrósio e outros.

Cícero, tal como Catão de Útica (também estóico), morreu tentando evitar a destruição das instituições democráticas em Roma.

Os Santos Padres acolheram também os textos de Sêneca, Epicteto, Varrão e também elogiaram os exemplos de Cipião e de Catão, o Censor (os bons exemplos, claro).

Hegel, filósofo cristão, pro aristotélico e estoico

Explicitando sua base aristotélica-estóica, Hegel, no livro “Princípios de filosofia do direito” (São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1997, trad. Orlando Vitorino, p. 12), ensinava que “o domínio do direito é o espírito em geral”.

Em outras palavras, o direito positivo deve ser a expressão das idéias da sociedade. Assim, o Estado legítimo deve ser “o império da liberdade realizada, o mundo do espírito produzido como uma segunda natureza a partir de si mesmo”.

Ao distinguir entre sociedade civil e Estado, Hegel deixa claro que a sociedade deve controlar o Estado, premissa fundamental do hegelianismo democrático. Isso foi visto corretamente por Gans, o professor de Marx. E visto pelos conservadores, que perseguiram o hegelianismo. 

O padre Henrique de Lima Vaz soube mostrar – na linha de Croce -, que o melhor do hegelianismo é democrático e é coerente com o cristianismo.

A boa fundamentação da Democracia, por Aristóteles

Aristóteles ensinou que o povo é o mais qualificado para elaborar leis racionais (justas), pois:

a maioria, cujos membros tomados separadamente não são homens notáveis, está, no entanto, acima dos homens superiores, se não individualmente, pelo menos em massa”, pois (…)”…

“nesta multidão, cada indivíduo tem sua parte de virtude e de ilustração, e todos reunidos formam, por assim dizer, um só homem que têm mãos, pés, sentidos inumeráveis, um caráter moral e uma inteligência em proporção. Por isso, a multidão julga com exatidão as composições musicais e poéticas; este dá seu parecer sobre um ponto, aquele sobre outro, e a reunião inteira julga o conjunto da obra. (…)”

“…pode se deixar ao povo o direito de deliberar sobre os negócios públicos e o direito de julgar [júri]. Assim, Sólon e alguns outros legisladores concederam ao povo a eleição e a censura [o poder de retirar do cargo, de “impeachment”] dos magistrados [agentes públicos], negando-lhes absolutamente as funções individuais [o poder executivo]. Quando estão reunidos, a massa percebe sempre as coisas com suficiente inteligência; e unida com os homens distinguidos, serve ao Estado, como que mesclando manjares poucos escolhidos com outros delicados se produz uma quantidade mais forte e mais proveitosa de alimentos”.

Aristóteles respondeu à objeção que a política exigiria conhecimentos especializados (por exemplo, só um cozinheiro seria bom juiz sobre comidas etc) do seguinte modo:

“O mérito de uma casa, por exemplo, pode ser estimado pelo que a construiu [um arquiteto], mas melhor o apreciará, todavia, o que a habita, isto é, o chefe da família [o povo]. De igual modo, o timoneiro de um barco conhecerá melhor o mérito dos timões que o carpinteiro que os faz; e o convidado, não o cozinheiro, será o melhor juiz de um festim”.

Aristóteles constatou que o “gênio” é uma exceção. As idéias mais importantes da sociedade são geradas pela consciência de todos, pelo diálogo, por um processo de sedimentação e sínteses, não sendo fruto de gênios. Os gênios aproveitam o acúmulo e a matéria-prima e apenas operam como parteiros da criação social.

O principal é a sabedoria prática do povo.

Aristóteles considera como virtude principal a “sabedoria” prática (“Sofia”), que, na vida prática, é a chamada de “prudência” (“fronesis”).

No livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles trata da prudência ou sabedoria prática no livro VI. No livro II, Aristóteles explica que “virtude” é “um estado habitual” (um conjunto de hábitos adquiridos com esforços), “que dirige a decisão [as decisões práticas da vida], consistindo num justo meio em relação a nós, cuja norma é a regra moral, isto é, aquela mesmo que lhe daria o sábio”.

A própria definição de “virtude”, na “Ética a Nicômaco” (II, 4, 1107), é baseada na razão prática (“phrónesis”, sabedoria, prudência) do homem comum, do homem médio, da pessoa do povo, do Povo.

Hobbes era absolutista, mas não era ateu, e explico

Hobbes cometeu erros, erros de absolutismo, combatendo principalmente as ideias democráticas de São Roberto Bellarmino, Doutor e Cardeal da Igreja Católica, tal como dos padres Molina, Mariana e outros.

Hobbes era cristão, de seu jeito, e cometeu erros mesmo. No entanto, há também ideias corretas, de construção de um Estado amplo, mercantilista, interventor na economia etc. 

Hobbes era cristão, não era ateu. O mesmo ocorria em Spinoza, panteísta e ligado também á Tradição estoica, que também defendia as linhas de um extenso Estado social, mas democrático, não absolutista. Spinoza elogiava Cristo, em vários de seus textos, era um judeu ecumênico, aberto. 

Hobbes seguia algumas idéias de Tertuliano sobre a corporalidade diferente de Deus, ponto tirado do estoicismo (com pitadas panteístas, apreciadas por Hegel e pelo jovem Marx) e de alguns textos bíblicos, de pontos da tradição judaica e de alguns Santos Padres.

Hobbes, um pouco como Spinoza, achava que Deus tinha uma forma de corpo (diferente do corpo humano) difuso, expressando a imanência divina, que é um dos atributos de Deus, ao lado da transcendência.

Da mesma forma, esta visão de Hobbes abarcava o ser humano, cujo espírito também teria como que certa materialidade (há alguma coisa parecida em alguns textos de Suarez, sobre a diferença das pessoas).

A ressurreição solucionava a questão da vida após a morte.

Esta concepção vem de Taciano, de Tertuliano e dos estoicos, tal como está na antropologia hebraica, que destaca que o ser humano é um todo. Há pontos comuns em Aristóteles, no hilemorfismo, esposado ainda pelos estóicos e também pela Igreja).

O humanismo cristão é fruto de uma síntese do humanismo hebraico com o humanismo da Paidéia, e a influência estoica, pelo apego ao corpo na estrutura humana, gerou ideias que fazem parte do acervo das ideias de Hobbes.

Em Justo Lipsio, um grande católico estoico, há pontos comuns. 

Uma lição de teologia política do Monge Campanella, lá por 1640

Campanella, no livro “Cidade do Sol”, ensinou que os atributos divinos podem ser compreendidos palidamente, podem ser explicados, para que tenhamos uma idéia de Deus.

Campanella ensinou que os habitantes da Cidade do Sol, mesmo sem a Revelação, pela luz natural da razão, como Platão:

Adoram Deus na Trindade, o que causa admiração, mas dizem eles que Deus é Suma Potência, da qual procede a Suma Sapiência, que é também Deus, e de ambas o Amor, que é Potência e Sapiência, embora o procedente não tenha a essência daquilo de que procede e não retrocede. Não possuem, todavia, como os cristãos, noções distintas das três pessoas citadas, pois não tiveram revelações, mas reconhecem em Deus procedimento e relação própria a se, dentro de se e por se. Todos os seres, portanto, derivam sua essência da Potência, da Sapiência e do Amor, enquanto têm existência, e da Impotência, da Ignorância e do Desamor, enquanto participam do não-ser. Pelas primeiras, adquirem mérito, e, pelas segundas, pecam, ou com ofensas contra o costume e a arte que derivam de todas três, ou somente do terceiro, da mesma forma que uma natureza especial peca por ignorância e impotência quando produz um monstro”.

Como explicou Campanella (com base nos textos de Agostinho e de Abelardo), Deus, a “Suma Potência” (o Criador, o Senhor, a Coroa, o Pai, “Kether”) age sempre pela “Suma Sapiência” (pela Sabedoria, o Verbo, o “Noous”, o Logos, por Jesus, conforme a “Binah” e a “Chochmah”, de forma sábia e inteligente), visando o “Amor”, que é a Bondade, a Misericórdia, a Caridade, o amor ao próximo como a si mesmo, o Bem comum, universal.

Os três pilares (atributos) da noção humana da Trindade (que está bem além de nossa compreensão, tal como está além o que prepara Deus para o futuro) abonam a tese da democracia.

Neste mesmo sentido, Jon Sobrino escreveu “corresponde-se ao Reino de Deus fazendo justiça, eliminando as crassas diferenças sociais, usando o poder de maneira nova em favor dos pobres”.

O livro “Sabedoria”, do Antigo Testamento, traz textos claros, tal como os Salmos. Por exemplo, no Salmo 145,9, há o seguinte texto: Deus “faz as criaturas participarem de Seu Ser, de Sua Sabedoria e de Sua Bondade”, o que ressalta a Trindade (Ser, Sabedoria e Bondade). A expressão “Elohim” também é sinal da Trindade, pois a Bíblia usa uma palavra no plural para designar Deus.

O termo “echad”, “união composta”, também traz, em si, o ensinamento da Trindade. A Bíblia usa a palavra hebraica “echad” para a descrever a união amorosa do homem e da mulher (cf. Gn 2,24) com o termo “echad”, o mesmo termo usada para designar a união de Deus, em “Deuteronômio” 6,4.

Em Gen 1,26, a Bíblia diz: “façamos [plural] o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, da Trindade. Este texto, de Gênesis 1,26-28, tem tamanha carga política, que, por si só, traz toda a teologia política e da libertação, tal como o “Magnificat”, de Maria (que será analisado em postagens específicas, sobre a teologia política de Nossa Senhora, teologia socialista e distributista).

A filosofia eclética preparou a recepção do catolicismo, pela Providência divina

Em Numênio de Apaméia (sírio, que viveu lá pelo século II d.C.), há a mesma idéia de Trindade, que consta em Eudoro, e foi também acolhida por Plotino. Numênio era platônico e pitagórico. Numênio explicava que há o Pai, que é o Bem personalizado; há o Demiurgo; e há a Alma do mundo. Numênio era bem ecumênico e apreciador da sabedoria oriental. Os textos mais importantes de Numênio foram conservados por Eusébio, especialmente os fragmentos das obras “Sobre o Bem” e “Sobre a infidelidade dos acadêmicos [ligados a Carnéades] a Platão”, onde Eusébio elogia o platonismo médio, e mostra a boa conformidade de seus conteúdos intelectuais com as ideias católicas.

O neoplatonismo de Plotino também era eclético, acolhendo vastas porções de estoicismo, de neopitagorismo e de aristotelismo, como fica evidente nos textos de Porfírio e Proclo.

O mesmo ocorre com os textos de Plutarco de Queronéia e de Galeno.

O estoicismo médio e o platonismo médio eram ecléticos e ecumênicos.

Da mesma forma, era eclético o neopitagorismo de Moderado de Gades (fl. c. 90), de Nicômaco de Gerasa (fl. c. 140) e de Numênio de Apaméia (fl. c. 150). O neopitagorismo floresceu no século I a.C., sendo também uma preparação cultural para o cristianismo. Os textos “Ditos áureos”, “Símbolos” e “Cartas”, atribuídos a Pitágoras, datam do século I a.C., tendo conteúdos próximos às idéias hebraicas. Da mesma forma, os textos de Ocello e os textos atribuídos a Hermes Trimegisto, formando a corrente do hermetismo, com muitos pontos coincidentes com o catolicismo. O principal neopitagórico foi Numênio de Apaméia, cidade síria próxima a Tarso, a pátria de São Paulo.

O ecletismo foi bem elogiado por Diderot, na “Enciclopédia”, sendo o ecletismo o núcleo da filosofia clássica, recepcionada pela Igreja, formando a filosofia cristã.

Nesta recepção, a Igreja recepcionou também o melhor da teoria política grega, da teoria jusnaturalista democrática, bem exposta por Sófocles, por Eurípedes, por Platão (no livro “Protágoras”, também chamado de “Político”), por Aristóteles (no livro “Política” e nas obras éticas) e também pelos estóicos, cujos textos foram bem coletados por Arnim.

A principal estrela do platonismo médio foi o filósofo judeu Fílon de Alexandria (25 a.C. a 50 d.C.). Fílon é como que o precursor da filosofia cristã, pois une o melhor das idéias hebraicas com o melhor das idéias da Paidéia. Fílon de Alexandria foi a continuidade, dentro do judaísmo, da “Septuaginta”, dos livros “Sabedoria”, “Eclesiástico”, “Tobias”, “Macabeus”, “Judite” e outros. A linha de Fílon é também a linha dos fariseus, de Hilel, de Gamalieu e de outros. Esta linha foi, em parte, mantida no “Talmud” e também na “Cabala”, pejada de idéias sobre a Trindade e de idéias próximas do catolicismo.

Antes de Fílon, entre os platônicos médio, houve Cícero, que, na última obra que escreveu, “Dos deveres” (III,20) resume bem o espírito aberto e ecumênico do platonismo médio: “enquanto a mim, a nossa Academia concede-me ampla liberdade para defender, com pleno direito, qualquer opinião que me pareça verossímil”. Cícero continuou a linha de sínteses abertas (ecletismo sadio) de Antíoco, de Panécio e de Posidônio.

Possidônio de Apaméia (135-50 a.C.), outro sírio, deu continuidade ao trabalho de Panécio de Rodes (185-125 a.C.). Apaméia é a antiga Quibotos, mencionada na Bíblia. O termo “quibotos” significa “arca”. No reinado de Sétimo Severo (193-211), foi cunhada uma moeda em Apaméia, representando uma arca (navio) com o nome de Noé.

A influência bíblica e semita difundia-se no Império Romano. Parte desta difusão ocorria pela via do mitraísmo, do zoroastrismo, que era a religião oficial do Império Parta. O zoroastrismo é baseado principalmente em idéias semitas e hebraicas, geradas, tudo indica, pelas diásporas de 721 a.C. e de 586 a.C. especialmente dirigidas a terras da Média, a terra de origem do zoroastrismo.

A cidade de Rodes encarregou Possidônio da defesa de seus interesses junto a Roma, o que mostra a militância política dos estóicos. Possidônio foi amigo de Pompeu e foi professor de Cícero.

A síntese eclética de Possidônio foi feita na mesma linha do trabalho posterior de síntese de Antíoco de Ascalão, que dirigiu a Academia de Platão, nos anos de 85 a 69 antes de Cristo.

Antíoco elaborou uma síntese entre platonismo e estoicismo, chegando ao ponto de afirmar que o estoicismo tinha conservado as idéias de Platão.

Cícero teve como mestres Possidônio e Antíoco, o que mostra a razão de Cícero ser uma síntese de estoicismo médio com platonismo médio.

Por estas e outras razões, Cícero soube elaborar uma síntese de platonismo eclético, com estoicismo eclético e aristotelismo. Síntese que foi ampliada por Sêneca, que apreciava muito os trabalhos filosóficos de Cícero. 

Conclusão: como explicou São Clemente de Alexandria, o melhor da Paidéia atuou como preparação pedagógica para o cristianismo.

Esta proposição foi aceita por Marx, com base nos trabalhos do teólogo Bruno Bauer, o melhor amigo do jovem Marx, de 1839 a 1841, em Bonn, na Alemanha.

O ecletismo da Paidéia foi recepcionado pelo cristianismo, pela Igreja, formando a “filosofia cristã”, sempre aberta e ecumênica.

Nesta recepção, a Igreja aceitou o melhor da teoria política da Paidéia e da Tradição hebraica, o que mostra como o catolicismo aprecia a Democracia popular, o Estado social, a economia mista, o cooperativismo etc.

A origem da filosofia cristã, aberta, eclética, ecumênica, amante das boas sínteses

O platonismo médio foi descrito corretamente em verbetes do “Dicionário de filosofia de Cambridge” (São Paulo, Ed. Paulus, 2006, obra dirigida por Robert Audi).

Vejamos a transcrição de parte do verbete “estoicismo” (p. 295), deste Dicionário, dado que a Universidade de Cambridge continua a estar entre as cinco ou dez melhores universidades do mundo:

“Convencionalmente, distingue-se uma segunda fase da escola, o estoicismo médio. Este se desenvolveu em grande parte em Rodes, sob Panécio e Posidônio, visto que ambos estes filósofos influenciaram a apresentação do estoicismo nos tratados filosóficos de Cícero, que tanta influência tiveram (metade do século I a.C.). Panécio (c. 185-100) abrandou algumas posições estóicas clássicas, sendo a sua ética mais pragmática e menos preocupada com o sábio idealizado. Posidônio (c. 135-50) tornou o estoicismo mais aberto às idéias platônicas e aristotélicas, trazendo à baila a inclusão platônica de componentes irracionais na alma. Uma terceira fase, o estoicismo romano, é a única era estóica cujos escritos sobreviveram em quantidade. É representado especialmente pelo jovem Sêneca (d.C. 1-65), por Epicteto (d.C. 55-135) e Marco Aurélio (d.C. 121-180). Ele continuou a tendência estabelecida por Panécio, enfatizando fortemente sobre a ética prática e pessoal. Várias importantes figuras públicas romanas foram estóicas”.

O “Dicionário de filosofia de Cambridge”, na p. 728, explica corretamente que Mitridates tomou Atenas, em 88 a.C. e destruiu o prédio da Academia (o prédio foi reconstruído, ao contrário do Liceu, de Aristóteles, que permaneceu destruído fisicamente). Em 86 a.C., a destruição foi ampliada pelo saque de Silas. Então, isso deu mais liberdade e amplitude aos platônicos, dando origem ao platonismo médio, graças a Antíoco de Ascalão.

Sobre o “platonismo médio”, vejamos parte do verbete:

“Platonismo médio, o período do platonismo entre Antíoco de Ascalão (c. 130-68) e Plotino (204-270 d.C.), caracterizado por uma rejeição da posição cética da Nova Academia (…) e certa tolerância, como, p. ex., entre as posições estoicizante e peripatetizante, na esfera ética”.

Fica claro que entre 150 a.C. e 200 d.C., houve a criação de um campo eclético, misturando platonismo, aristotelismo, estoicismo, pitagorismo etc, num conjunto de filosofia que foi recepcionado pela Igreja, formando a base humana da filosofia cristã, aberta, mesclada com as ideias hebraicas, semitas, orientais etc. 

O “Dicionário Oxford de filososofia” (Ed. Jorge Zahar, p. ) traz a mesma informação, ensinando que Antíoco de Ascalon rompeu com Fílon de Larissa. O rompimento foi registrado no diálogo “Luculus”, de Cícero:

“Platonismo médio – (…). O próprio Antíoco tinha extrema simpatia pelo estoicismo. Públio Nigídio Fígulo (98-45 a.C.) e Eudoro de Alexandria (fl. c. 25 a.C.) introduziram novos elementos, tais como a ênfase na transcendência e na natureza imaterial de Deus, o interesse na numerologia mística pitagórica e a tentativa de erigir uma hierarquia divina da realidade. A introdução de novos elementos continuou com a reconciliação das obras pagãs e judaicas, operada por Fílon de Alexandria”.

O platonismo médio aceitou várias idéias estóicas, aristotélicas e neopitagóricas, numa síntese eclética, que foi preparatória, uma pedagogia para o cristianismo, como ensinou São Clemente de Alexandria.

No platonismo médio há inclusive um esboço da idéia da Trindade, nos textos de Eudoro de Alexandria (fl. c. 25 a.C.), que ensinava que existe um Deus supremo, que é a Mônada; tal como um Deus criador secundário, o Demiurgo [Cristo]; e, também, uma Alma do mundo (o Espírito Santo).

Os cristãos recepcionaram estas idéias platônicas, explicando que Cristo é o Demiurgo, que opera (age) com base nos Planos do Pai, moldando a matéria-prima do universo, atuando no mundo especialmente pelo Espírito Santo, Ruach, em hebraico (cf. “Timeu”, 51 a-b).

A luta pela Democracia popular, pela difusão de bens, Estado social, economia mista, nosso ideal concreto histórico

Não há uma filosofia oficial, confessional, cristã.

A “filosofia cristã” é, em si mesma, ecumênica, pluralista, como a própria razão, pois é fruto da razão humana, com a ajuda da graça e da fé. Graça e fé são ajudas da razão, limpam e aperfeiçoam o gume da razão, a luz natural da razão, que foi feita para nos guiar. Deus nos criou para sermos os senhores de nossos destinos.

Da mesma forma, não há uma estética (ou sociologia, ou biologia) cristã, como já apontada Bréhier. Também não há um modelo concreto de economia ou de Estado cristão, só linhas gerais. Não há uma política cristã, mas há uma visão cristã da política, um conjunto de idéias e diretrizes, ligadas historicamente à Igreja, idéias que são gerais, respeitando a liberdade política dos católicos. Dentro das ideias gerais, podemos ter diferenças legítimas. 

Este ponto foi bem explicado na “Fides et ratio”, por João Paulo II:

“76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos designam com a expressão filosofia cristã. A denominação, em si mesma, é legítima, mas não deve dar margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela designação, deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua pesquisa, quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico que não seriam alcançados sem a contribuição, direta ou indireta, da fé cristã”.

A expressão “filosofia cristã” significa, assim, como bem explicou João Paulo II, “o pensamento filosófico” gerado pela luz da razão e da experiência histórica (da “tradição”), sem “contradizer a fé” e que abraça os “importantes avanços do pensamento filosófico”, sendo mutável pela ampliação gradual do conhecimento na história.

Por valorizar a razão e a história, no fundo, por valorizar a vida concreta e histórica, o catolicismo exige a liberdade política, cultural, filosófica, pedagógica, civil, liberdades civis moderadas pelo bem comum etc.

João Paulo II, ainda na “Fides et ratio” (14.09.1998), no capítulo 19, ensinou:

Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua inteligência, é capaz de “conhecer a constituição do universo e a força dos elementos (…), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes” (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo.

Retomando o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: “Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso “livro da natureza”; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre e pelo seu pecado.

João Paulo II explicou bem que “a Revelação propõe claramente algumas verdades que, embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria”.

Frise-se: grande parte da Revelação, especificamente dos textos bíblicos, é também acessível pela via natural da razão. Estas verdades naturais são salvíficas, venham de onde vierem. Ao serem aprofundadas por grandes pensadores, geraram como que uma corrente filosófica cristã (sempre racional, ressalte-se), mas sem uma união indissolúvel, pois há um progresso da razão no tempo e também no aprofundamento do entendimento dos dados da Revelação.

No mesmo documento, João Paulo II elogia como exemplos:

“74. A prova da fecundidade de tal relação é oferecida pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se distinguiram também como grandes filósofos, deixando escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados ao lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da Igreja, de entre os quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S. Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino.

A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov’ev, Pavel A. Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij.

Ao referir estes autores, ao lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir para o avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da Igreja e da humanidade”.

Os “grandes mestres da filosofia antiga”, por serem grandes eruditos (que reconheceram o conhecimento disperso nas culturas egípcias, persa, grega, suméria, babilônica etc), coincidem, em grande parte, com as idéias bíblicas e com as idéias dos Santos Padres e da Escolástica.

Assim, os textos de homens como São Gregório Nazianzeno, São Basílio, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino são ainda fecundos.

Frise-se que os exemplos dados por João Paulo II conciliavam catolicismo com democracia popular, Estado social, distributismo, bem comum, difusão de bens. Este ponto fica patente nos textos do Cardeal Newman, em Rosmini, Maritain, Etienne Gilson, Edith Stein (morta pelos nazistas) e em outros grandes autores (faltou uma boa citação de Mably, Dupanloup, Ketteler, Ozanam ou Buchez).

O papa também citou corretamente Soloviev e Chaadaev, no mundo oriental ortodoxo (que tem as mesmas idéias católicas, podendo inclusive os católicos participarem das Missas ortodoxas, confessarem perante padres ortodoxos etc).

Erros e acertos de Anatole France

Anatole France, no livro “O jardim de Epicuro”, escreveu que “a existência seria intolerável se não houvessem sonhos”. Escreveu também que o melhor da vida “é a idéia que nos sugere que há algo indefinível que não se acha nela. O real só nos serve para construir, melhor ou pior, um pouco de ideal. Talvez não seja útil para outra coisa”.

Nesta obra referida acima, Anatole France defende uma vida simples, com base nos estudos, nos prazeres simples e honestos etc. O mesmo ideal dos estoicos, ideal que a parte boa dos textos de Epicuro defendia e isso foi visto corretamente por Sêneca, quando mostra a parte boa dos textos de Epicuro, em boa sintonia com o estoicismo. 

No livro “Opiniões de Jerônimo Coignard”, de Anatole France, o personagem principal é o abade Coignard, uma “mescla maravilhosa de Epicuro e de São Francisco de Assis”, “os dois melhores amigos que a humanidade sofrida encontrou em sua marcha desorientada”. Anatole coloca um personagem literário padre, para ser o porta-voz de sua doutrina, de suas ideias sobre a vida, o que mostra o apreço de Anatole por parte das ideias cristãs. 

No livro, “Opiniões de Jerônimo Coignard”, Anatole France elogia Sully e Richelieu, dois grandes católicos.

No entanto, Anatole cometeu erros graves, pois se divertia atacando a luz natural da razão, que seria um “traste molesto”. Anatole fazia isso para valorizar os afetos, os sentidos, o instinto e neste ponto estava correto, mas deveria saber que o elogio católico da razão natural ocorre com o elogio simultâneo dos sentidos, das percepções, do instinto e das emoções. 

Os bons textos de Anatole foram corretamente apreciados por Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, dois grandes católicos. Os bons textos de Anatole são aqueles que mantêm a linha cristã. Seus piores textos são horríveis e prejudiciais, de um hedonismo vazio, embora temperado, pois chegou a criticar as piores obras de Zola, a parte ruim das obras realistas de Zola.

A Paideia foi incorporada pelo Catolicismo, por ser fruto da razão e da influência semita-hebraica, boa e salutar

Como explicou Pio XI, na “Urbi Arcano” (27.12.1922), os primeiros princípios são “os princípios de justiça, que os próprios filósofos pagãos, como Cícero, reconheceram”, chamando-os de “lei eterna” (“eterna” por vim do Eterno, de Deus), “lei universal”, “comum a todos” (daí, “common law), de “lei natural”.

Dentre os jusnaturalistas, há estrelas como: Sófocles, Protágoras, Heráclito, Sócrates, Platão, Xenofonte (autor de “Hieron” ou “Da tirania”), Pitágoras, Anaxágoras, os cínicos, os estóicos, os epicureus, Cícero, Plutarco e centenas de outros grandes escritores, formando a parte mais relevante da Paidéia, incorporada pelo cristianismo, como explicou Werner Jaeger, em suas boas obras.

A Paideia foi incorporada ao cristianismo porque é fruto da razão (que sempre anda em harmonia com a fé e a graça) e pelo fato da Paideia ter amplas fontes semitas-hebraicas, desde o início (inclusive o alfabeto). 

— Updated: 21/10/2018 — Total visits: 38,783 — Last 24 hours: 74 — On-line: 0
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