Arquivos para : A “Fórmula” da Eutanásia dos rentistas, ótima ideia de Keynes e Joan Robinson

A importância da eutanásia do rentismo. Rendas de bens, de dinheiro.

Michael Viriato

Viver de renda é um sonho de todos. Entretanto, a queda da taxa Selic para 6,50% ao ano trouxe para baixo o rendimento de todas as aplicações financeiras, pois todos os rendimentos da economia são uma função da taxa básica. E isto fez com que este sonho ficasse um pouco mais difícil de ser atingido.

A maior parte dos investidores associa aplicações financeiras a dois veículos: a caderneta de poupança e aplicações de curto prazo referenciadas ao CDI ou à Selic. No entanto, estas duas não possuem uma característica essencial para quem pensa em viver de renda.

A proteção para a inflação é um importante atributo necessário para que um veículo financeiro se caracterizare como adequado para os rentistas. A poupança nos últimos anos quase não é capaz de superar a inflação e aplicações de liquidez referenciadas ao CDI ou à Selic proporcionam um ganho reduzido de juros real, acima da inflação. Logo, discuto abaixo cinco alternativas para você ter uma aposentadoria tranquila.

Imóveis

Os imóveis são um dos veículos preferidos daqueles que almejam viver de renda. A atratividade dos imóveis para as pessoas é a capacidade de se tocar nele, o que traz ao investidor um maior sentimento de segurança.

Observa-se no gráfico abaixo que a rentabilidade obtida em investimentos imobiliários caiu conjuntamente com a redução da taxa básica, mencionada acima.

Gráfico da rentabilidade do aluguel de imóveis residenciais. Essa taxa reflete o retorno médio anual com a locação do imóvel e não considera possíveis ganhos de capital com valorização de preço. (Fonte: FipeZap)

A redução do rendimento afeta o quanto é necessário ter investido para viver de renda.

A renda é o produto da rentabilidade de aluguel e do valor investido. Em 2008, quando a taxa de aluguel anual era próxima de 8% ao ano, seria necessário ter R$750 mil em imóveis alugados para ter uma renda de R$5 mil mensais (=R$750mil * 8% / 12).

Uma década depois, o valor investido em imóveis necessário para ter a mesma renda é de R$1,4 milhões, pois o aluguel anual médio caiu para 4,3% ao ano.

Considerando o IR sobre os ganhos, seria necessário um investimento ainda maior para ter a mesada de R$ 5 mil líquida no seu bolso.

O investimento em um imóvel diretamente tem quatro desvantagens: falta de liquidez, alto custo de transação, imposto de renda sobre os rendimentos e falta de diversificação. Todas essas características negativas são superadas com o investimento em fundos de investimentos imobiliários (FIIs).

Fundos de investimentos imobiliários

Os FIIs atendem a todas as vantagens de uma aplicação para rentistas. Além de suplantar as desvantagens do investimento direto em imóvel, os FIIs têm um benefício adicional.

Eles possuem uma rentabilidade líquida de IR superior à obtida no investimento imobiliário direto. Como os FIIs em média apresentam um ganho em dividendos de 0,5% ao mês, bastaria um investimento de R$1 milhão para ter R$ 5 mil mensais líquidos de IR.

Ações pagadoras de dividendos

Em média, empresas pagadoras de dividendos proporcionam uma rentabilidade de 5% ao ano. Esse retorno é calculado dividindo o valor do dividendo pelo preço de mercado da ação.

A vantagem de uma carteira de ações sobre os imóveis é a isenção de IR sobre os dividendos pagos.

Assim como os FIIs possuem volatilidade por negociar em bolsa, as ações apresentam volatilidade ainda superior. Outra desvantagem é a necessidade de um trabalho mais ativo para gerir essa carteira, pois será necessário realizar trocas das ações de empresas quando as perspectivas desta empresa se alterarem.

Considerando a rentabilidade de 5% ao ano, seria necessário um patrimônio de R$1,2 milhões em uma carteira de ações para ter uma renda equivalente a R$5 mil mensais.

Títulos públicos

Os títulos públicos referenciados a IPCA guardam uma vantagem sobre os dois anteriores que é a maior segurança. Em contraponto, o investidor não obtém ganhos de capital, mas apenas ganhos advindos dos juros pagos. O ganho de capital que esses títulos podem apresentar, nada mais é do que a antecipação dos ganhos de juros futuros.

Como a rentabilidade acima da inflação dos títulos conhecidos como Tesouro IPCA (ou NTN-B) está em 5% ao ano, seria necessário R$1,2 milhões.

No entanto, os títulos públicos também são tributados. Logo, seria necessário um investimento acima de R$ 1,4 milhões para ter a renda de R$ 5 mil mensais líquidos de IR.

Títulos privados

Os títulos privados referenciados a IPCA, possuem uma vantagem em relação aos títulos públicos que é a remuneração superior. Em média, eles apresentam uma taxa real 15% superior. Adicionalmente, algumas emissões possuem o benefício de isenção de IR.

Entretanto, esse prêmio de rentabilidade não é de graça, estas aplicações possuem maior risco e, por isso, demandam um maior trabalho de análise de crédito. Em função deste risco, uma carteira de títulos privados deve ser bem diversificada e nenhum emissor individual deveria representar mais de 4% de seu patrimônio.

Considerando os maiores ganhos, é necessário investir proporcionalmente menos nesses títulos para ter os mesmos ganhos mensais.

O ideal para aquele que sonha em viver de renda é construir uma carteira que incorpore pelo menos duas das alternativas de investimentos descritas acima. Também é importante ponderar adequadamente as opções de acordo com seu perfil de investidor.

Michael Viriato é professor de finanças do Insper e sócio fundador da Casa do Investidor.

Texto ótimo de Bresser sobre a importância da taxa cambial, real desvalorizado, para neutralizar a doença holandesa

Texto sobre linhas gerais de uma boa política macroeconômica, texto tirado da revista “CADERNOS do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 11, n. 19, pp.145-165, jul.-dez. 2016”, de Bresser Pereira. 

“Política macroeconômica
A política macroeconômica novo-desenvolvimentista visa manter “certos” os cinco preços macroeconômicos – certos não porque determinados no mercado, porque este definitivamente não os assegura, como podemos ver pelas infindáveis crises econômicas e financeiras, mas de acordo com as breves definições dadas acima.
Os objetivos da política macroeconômica são o pleno emprego e a estabilidade financeira e de preços. Para atingi-los, o novo-desenvolvimentismo não tem grande coisa a acrescentar à política monetária e a política fiscal pós-keynesianas. É importante, apenas, assinalar que a macroeconomia desenvolvimentista enfatiza a responsabilidade fiscal, ou seja, o equilíbrio no longo prazo da despesa pública, que deve observar um comportamento contracíclico, e a manutenção da dívida pública em um nível razoável. Para o  Teoria novo-desenvolvimentista: uma síntese novo-desenvolvimentismo déficits fiscais crônicos constituem populismo fiscal.

A política cambial, que a ortodoxia liberal rejeita, é central para o novo-desenvolvimentismo. Não defende guerra cambial, mas defende que a taxa de câmbio flutue em torno do equilíbrio industrial.

Para isso – para tornar competitivas as empresas produtivas ou competentes – a política cambial deve neutralizar a doença holandesa e, mais amplamente, a tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio, que também é causada pelas três políticas habituais.

Para neutralizar a doença holandesa de maneira completa é essencial o estabelecimento de um imposto ou retenção cambial correspondente à gravidade dessa desvantagem competitiva. Esse imposto eleva o valor do equilíbrio corrente, ou seja, do custo mais lucro satisfatório das empresas que participam do comércio exterior do país, tornando-o igual ao equilíbrio industrial. Para evitar que o país incorra em déficit em conta-corrente, a rejeição das três políticas habituais, geralmente apoiadas pela ortodoxia liberal, deve ser clara e decidida.

São muitos os objetivos da política macroeconômica, mas se fosse permitido ao policymaker definir apenas um objetivo, este não seria a meta de inflação, nem a meta de crescimento, mas a meta de saldo em conta-corrente, que deverá ser zero se o país não sofrer da doença holandesa, e deverá ser tanto mais superavitário quanto maior for a gravidade da doença holandesa, ou seja, quanto maior for a diferença entre o equilíbrio corrente e o industrial.

O novo-desenvolvimentismo não tem uma política fiscal original. Rejeita déficits públicos crônicos e adota a teoria pós-keynesiana. No curto prazo, a política fiscal deve ser rigorosamente contracíclica; no longo prazo, deve apresentar uma poupança pública que, somada a um déficit primário que não aumente a relação dívida pública/PIB, financie de modo satisfatório os investimentos públicos necessários, os quais devem, em princípio, variar entre 20% e 25% do investimento total.

Já ao criticar déficits em conta-corrente e ao defender ou o equilíbrio ou o superávit em conta-corrente (dependendo de ter ou não doença holandesa) o novo-desenvolvimentismo é original e contraintuitivo. E defende a responsabilidade fiscal não apenas como forma de proteger o Estado, mas também de o tornar o resultado fiscal coerente com o resultado da conta-corrente. Quando a taxa de câmbio está equilibrada tende a ocorrer o fenômeno dos déficits gêmeos.

Como o objetivo é um superávit em conta-corrente, tenderá a haver igualmente um superávit fiscal, mas um pequeno déficit público, que não aumente a relação dívida pública/PIB, é desejável.

O novo-desenvolvimentismo defende uma carga tributária relativamente alta, que financie os grandes serviços sociais universais. Não apenas porque esses grandes serviços são mais justos, mas também porque são mais econômicos do que aumentar salários. Entende, porém, que o aumento da carga tributária não deve ser resultado de fait accompli, mas fruto de discussão e negociação política.

Em sociedades que pressupomos serem democráticas, o capitalismo não pode ser apenas desenvolvimentista; ele precisa ser também social. E surge um problema no curto prazo: há relação inversa entre taxa de câmbio e salário real.

Entretanto é preciso considerar que essa mesma relação existe para os rendimentos dos rentistas: juros, dividendos, aluguéis.

Quando a tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio é neutralizada e os cinco preços macroeconômicos são colocados no lugar certo, a taxa de lucro das empresas comercializáveis não-commodity aumenta e os demais rendimentos caem no curto prazo. É preciso aceitar esse sacrifício no curto prazo.

Mas o novo-desenvolvimentismo é necessariamente social, e por isso defende políticas ativas de diminuição das desigualdades que, se deixadas por conta do mercado, são muito elevadas. Que políticas são essas? Não são a expansão fiscal como solução mágica para todos os problemas, muito menos a austeridade em todas as circunstâncias, mas o aumento das despesas sociais do Estado e seu financiamento por um sistema de impostos progressivos. O que torna as sociedades escandinavas muito mais iguais do que a americana não são políticas fiscais expansionistas, uma elevada carga tributária e impostos progressivos”.

— Updated: 17/06/2019 — Total visits: 53,464 — Last 24 hours: 40 — On-line: 0
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