Arquivos para : A “Fórmula” do núcleo da ÉTICA: principalmente ÉTICA SOCIAL, sem hipocrisia. Ética é bem comum, aumentar o bem comum e evitar relações sociais que degradem as pessoas

O núcleo da ética natural e cristã – amar o próximo como a si mesmo

A meta racional do bem comum está resumida em fórmulas como “ama e faze o que queres” (de Santo Agostinho) e “pela caridade, ponde-vos a serviços uns dos outros, pois toda a Lei está contida numa só palavra: amarás a teu próximo como a ti mesmo” (cf. São Paulo, em Gal 5,14).

A parte ética da Revelação é praticamente toda racional (cf. a antropologia ética de Tomás de Aquino, exposta na “Suma Teológica”, I-II).

A ética é baseada na lei natural, nas luzes, nas idéias geradas pela razão natural, como ficou claro no ensinamento jusnaturalista de São Paulo, em Rm 2. O batismo é, como ensinaram os Santos Padres, tido como uma “iluminação” da consciência, um reforço da luz natural da razão. Os batizados eram chamados de “iluminados”, como pode ser visto nos textos de São Clemente de Alexandria, de São Justino e outros. Nos “Salmos”, há frases como “em Tua luz, veremos a luz” (cf. Sl 35,10). Especialmente na mística grega-ortodoxa, a união com Deus tem como sinal a luz.

A mente humana (a alma, a consciência, o espírito) deve iluminar o mundo, deve clarificar (de tornar claro, translúcido, luminoso) as percepções, para a autodeterminação pessoal, familiar e social.

A “Regra áurea” da ética (da lei natural), exposta por Cristo (cf. “Mt 7,12), remete, assim, à luz natural da razão (agir em relação a meu próximo como minha razão diz o que eu gostaria no lugar de meu próximo). Devo fazer, para meu semelhante, o que minha razão ensina, aquilo que minha razão gostaria que fosse feito para mim mesmo.

A “regra áurea” foi exposta por Cristo do seguinte modo “portanto, tudo aquilo que quereis que os homens vos façam a vós, fazei vós mesmos a eles: esta é a [essência, resumo da] Lei e os Profetas” (cf. Mt 5,7; e 22,40, sendo repetida em Rm 13, 8-10; Mt 7,12; 22.36-40, “amai o vosso próximo como a si mesmo”) e outras passagens.

Também está em (Levítico 19,18) e em Tobias (4,15: “o que tu próprio detestas, não o faça a pessoa alguma”). Em todos estes textos é a razão que decide, sendo esta fórmula a principal fórmula da idéia do bem comum. Como explicou São Paulo, a lei divina está como que gravada (inscrita, escrita) na consciência humana (cf. “Carta aos Romanos”, 2; e “Carta aos Hebreus”, 8,10, escrita “na mente e no coração”), pois é o conjunto das ideias práticas da consciência.

O ideal do bem comum é o ideal da justiça e da caridade, vindo de Deus, que “derrama a caridade nos nossos corações” (cf. Rm 5,5). O núcleo ético do Decálogo é a lei natural e “antes passarão o céu e a terra, do que desapareça um jotal ou til da lei” (cf. Mt 5,17-18).

No fundo, a Regra áurea reporta-se à razão (a parte principal da consciência) humana, “aquilo que quereis” para ti, à luz da razão natural, é o que é devido ao outro, ao próximo, a todos. Ou seja, o que a razão diz para voce sobre o que voce gostaria que o próximo fizesse para ti, nas mesmas circunstâncias, isso voce deve fazer, tudo pela luz natural da razão (a graça apenas reforça a luz da razão, a natureza, não anula a natureza e nem a razão). 

Santo Tomás de Aquino resumiu este ensinamento ensinando que a lei natural é a lei (as idéias e regras práticas) da razão, são ordenações (regras) racionais para o bem de todos, para o bem comum.

No mesmo sentido, Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica” (I, q. 79, a. 12-13; I-II, q. 94, a. 1), ensinou que o primeiro princípio da vida prática ética é fazer o bem [o bem para todos, o bem comum, próprio, da família, dos vizinhos, da sociedade, dos grupos e círculos sociais e de todos os círculos da sociedade, local, regional, nacional, continental e mundial) e evitar o mal, ponto também destacado por Joseph de Finance (cf. “Éthique générale”, 1967).

Por isso, o cavaleiro Pedro Du Terrail Bayard (1473-1524), o “cavaleiro sem mácula”, ao morrer, disse: “não há lugar para lamentações, porque morro como um homem de bem”, defendendo boas causas e a pátria (a sociedade), o que é praticamente a garantia da salvação.

A caridade é a rainha das virtudes, a maior das virtudes sobrenaturais, supra-racionais. A justiça é a maior virtude natural. Pois bem, a caridade e a justiça não passam das ideias práticas para o bem comum, partem da premissa que todos os atos conscientes das pessoas (todas as estruturas estatais, normas, regras, todas as formas de gestão de bens etc) devem buscar o bem comum.

A caridade é a justiça elevada, as regras racionais da justiça que visam o bem comum acrescidas de regras supra-racionais, que também visam o bem comum. Sobre a justiça, isto fica claríssimo nos textos de Platão, de Aristóteles, dos estóicos e de Cícero, no melhor da Paidéia, acolhida pelo cristianismo e conservada nos mosteiros.

Conclusão: a razão de cada pessoa (mais os afetos bem naturais), a consciência de todas as pessoas (da sociedade), é a fonte imediata do poder legitimo, do direito positivo justo. As ideias de cada um, ou seja, as ideias do povo. 

O jeito de tornar justo o poder, de tornar bom o poder, é pautar (regrar, organizar) o poder (o Estado e as estruturas sociais, econômicas etc) pelas necessidades do bem comum, por aquilo que o bem comum exige.

A razão movimenta-se naturalmente para o bem comum, como causa final, pois o bem comum é a generalização do bem de cada pessoa (cf. ensina a “Regra áurea”), sendo o bem de todos. O bom direito (o verdadeiro direito, não a contrafação, o direito falso, quiritário) emana da sociedade, da forja, da fonte (nascente) presente na consciência de cada pessoa, em todas as pessoas. As águas do rio da história nascem em cada consciência, como fontes límpidas.

Todas as pessoas são, assim, legisladores naturais, sendo este o Plano de Deus. Esta é a premissa central do jusnaturalismo (a lei é formada naturalmente na consciência de todos), TODOS DEVEM LEGISLAR, JULGAR, ADMINISTRAR, CONTROLAR AS COISAS.

Logo, não há um formalismo ou legalismo, pois a consciência (a razão, os afetos, a imaginação, os instintos etc) prima pela espontaneidade criadora em direção ao bem geral. Esta flexibilidade ou mobilidade foi constatada pelos teólogos casuístas, como pode ser visto nos textos de Santo Afonso de Ligório.

Trata-se de uma ética viva e inteligente do bem comum, ponto bem assinado por Bergson ou por Fábio Konder Comparato, no livro “Ética” (São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, 2006, especialmente na conclusão, “o sentido ético da história”, p. 695).

Organizar tudo para atender às necessidades, aspirações e desejos naturais do ser humano, eis a ética cristã e humana

O Frei dominicano Ambrosius Karl Ruf, no livro “Curso fundamental de teologia moral” (vol. I, São Paulo, Ed. Loyola, 1991, p. 179), expôs corretamente a síntese tomista-casuísta de teologia moral e política.

Esta síntese constitui o fundamento racional e democrático da teologia moral, baseado na seguinte proposição central: “bom é o que corresponde à lei da razão que perpassa toda a criação”, sendo esta a “Lei Divina” (o Plano, o Projeto), na parte que nos é compreensível.

Vejamos o texto de Frei Ambrosius, correlacionando o “bom” (o bem) com a razão e a natureza:

Também a teologia medieval parte das “tendências naturais” para explicar a fórmula: “bom é o que é racional, porque corresponde à natureza”. (…). Em consenso com toda a teologia do seu tempo, Santo Tomás defende as leis seguintes: a inclinação à autoconservação, que é própria a todas as substâncias, a inclinação à conservação da espécie, que é comum a todos os seres sensíveis (homens e animais), a orientação própria só do ser humano para agir de acordo com a sua razão [autodeterminação].

Numa reflexão especulativa, Sto. Tomás mostra que o sujeito moral se acha preparado por natureza para a sua tarefa, porque nato em seu intelecto prático conhece, com a ajuda de alguma reflexão, como necessária, boa e desejável a inclinação que pode conhecer por experiência. Por conseguinte, com as inclinações naturais demarca-se o campo no qual o ser humano deve avançar para a formação de sua personalidade; demonstram-se as necessidades fundamentais da vida humana, que devem ser o objeto de regulamento racional”.

Como o texto acima diz, a ética visa à organização (ordenação, regulamentação, “ordem”, cf. Agostinho) racional da vida humana, para atender (satisfazer) às “necessidades fundamentais”, os desejos legítimos e naturais, as aspirações do ser humano. Isto se aplica à vida pessoal, familiar, social, estatal, econômica etc.

As necessidades materiais, intelectuais e morais humanas são justas e demandam bens materiais suficientes para uma vida digna, tal como o máximo de bens intelectuais e bens morais.

O método de colher o trigo, em toda parte, acatando as ideias do Espírito, na história

Pio XII, num discurso de 28.02.1957, explicou o universalismo católico: a Igreja sempre procura distinguir o bem do mal, mantendo e ampliando o bem comum na história. A Igreja sempre acata o trigo, separando o joio, ficando com as boas ideias da humanidade, sopradas pelo Espírito, pelo Fogo que arde nos corações. 

O método de abertura às verdades implica em “conservar” “em vida” tudo “aquilo que os séculos demonstraram ser bom e fecundo”, as boas tradições.

A Igreja rejeita a “fossilização” de “formas ultrapassadas pelos tempos”.

Assim, o amor às boas “tradições” “não impede absolutamente em nada o justo e feliz progresso”, sendo um “poderoso estímulo para perseverar no caminho seguro”, evitando, assim, “declínios”.

A evolução fica patente nas ciências e artes, especialmente na ciência jurídica, na evolução das normas jurídicas positivas, que são como as idéias científicas positivas, que vão sendo melhoradas com o tempo, pela força do diálogo.

As idéias científicas têm validade na medida em que explicam e são adequadas com a realidade, ou seja, valem pela veracidade das idéias expressas.

O mesmo se aplica às leis positivas. Estas valem pelo conteúdo ético, na medida em que são verdadeiras, em harmonia com as idéias da sociedade. Em outras palavras, na medida em que protegem, promovem e realizam o bem comum.

As idéias práticas das pessoas visam o bem pessoal destas e, da mesma forma, a consciência social, formada pelas idéias consensuais e complementares, em regra, reflete as idéias requeridas pelo bem comum.

Uma boa lição de ética social, de Pio XII, em 12.12.1950

Como ensinou Pio XII, em 12.12.1950, “da obra legislativa” (das leis positivas) “dependem, com freqüência, a vida ou a morte, o contentamento ou a exacerbação, o progresso ou a decadência de inumeráveis seres humanos”.

O ato de “depositar sua papeleta [voto] na urna” faz com os “eleitores” “ponham sua sorte” nas mãos “dos legisladores” (parlamentares).

Assim, “durante a vigência da legislatura [da duração de cada mandato parlamentar], a felicidade ou infelicidade”, “a prosperidade econômica, social, cultural e espiritual” ficam “mais ou menos” “suspensas do voto afirmativo ou negativo” dos parlamentares nos “projetos de leis, que são o objeto” das “discussões e deliberações” nos parlamentos.

Os parlamentares, como todas as pessoas, especialmente os agentes públicos, devem buscar “o bem da nação” (o bem comum), devem cumprir “os deveres da vida”, especialmente da vida “pública”.

Os parlamentares devem zelar pelo “interesse do país”, “deixando de lado todo cuidado pessoal”.

Neste discurso, Pio XII destacou que todo posto estatal é “um serviço”, repetindo a lição democrática de Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, e sim para servir” (cf. Mt 20,28).

Ética e Direito – o Direito apenas trata das exigências éticas na medida requerida pelo bem comum

Pio XII ensinou, expressando a tradição do magistério da Igreja, no documento “Arrives au terme” (19.10.1953), que “a moral e o direito, por sua mesma natureza, não se sobrepõem sempre e quando se sobrepõem, ficam, não obstante, formalmente diferenciados”.

Isso ocorre porque “o direito não assume as exigências morais mais do que na medida requerida pelo bem comum”.

O “direito positivo” “propõe” “normas de conduta” para “realizar o bem comum” e este é o fundamento da “obrigação jurídica”, do “controle jurídico” e do “poder coercitivo”.

Estas idéias também foram expostas por Lamennais, em 1825, no livro “A religião considerada nas suas relações com a ordem política e social”, livro elogiado por Daniel-Rops e outros autores.

São idéias antigas, contidas nos textos dos Santos Padres, Santo Tomás, Suárez, Bellarmino, Mably e outros grandes autores da Igreja.

É a mesma lição da “Gaudium et Spes” (1965): “as modalidades concretas pelas quais a comunidade se dá a si mesma a estrutura fundamental e a organização dos poderes públicos” são “diferentes, segundo o gênio [consciência] de cada povo e a marcha de sua historia”.

O elogio de Maritain a Saul Alinsky, à Democracia participativa popular

A Bíblia contém o ideal de autogoverno pessoal, familiar e social.

Este ideal foi bem explicado por Maritain, no livro “Le paysan de la Garonne” (“O camponês do rio Garonne”, Ed. Desclée, 1996), no capítulo III, “O mundo e seus contrastes”.

Maritain explica que Deus criou o universo para que este fosse co-governado pelas pessoas, que devem controlar as próprias vidas (autonomia humana) e a natureza, junto com Deus. Nesta obra da velhice, escrita em 1966, perto da morte, Maritain elogia, na página 41, Saul Alinsky, pensador democrático dos EUA, tal como Eduardo Frei e outros.

Saul Alinsky trabalhou com várias estrelas da democracia, nos EUA, para a defesa dos direitos dos pobres. Trabalhou por uma Democracia popular avançada, na mesma linha que queria Alceu. 

O equiprobabilismo, ou probabilismo moderado, de Santo Afonso, a melhor linha ética da Igreja

O relativismo moderado também está presente no equiprobabilismo (cf. Santo Afonso de Ligório, Haring e Marciano Vidal), sendo aceito porque a Igreja defende a liberdade política das pessoas, o respeito devido a cada pessoa, pois em todas as pessoas há uma consciência, uma razão ativa, sendo todas as pessoas sagradas. O diálogo, a forma natural de elaborar consensos e concórdia, é o método apropriado para encontrar estas soluções que atendam ao maior número possível de opiniões de interesses legítimos.

Nos assuntos humanos, a consciência, por raciocínios, utiliza proposições tópicas, verossimíveis, prováveis, como foi demonstrado por Aristóteles e por Cícero, tal como por Sócrates e Platão. Por conta desta dificuldade é que a Igreja adotou o probabilismo moderado, também chamado de eqüiprobabilismo, como a viga mestra da ética. Isto ficou claro na “Resposta da Sagrada Penitenciária ao arcebispo de Besançon”, de Gregório XVI, em 05.07.1831, aprovando a “teologia moral” de Santo Afonso, como um “caminho seguro” (cf. Pio XI) para reger a vida. Leão XIII, pelo Decreto “Inter eos qui” (23.05.1871), declarou Santo Afonso como “Doutor da Igreja”.

O livro de Santo Afonso de Ligório, “O bom uso da opinião provável” (1765) resumiu, em 360 páginas, seu sistema equiprobabilista. Vejamos a síntese deste equiprobabilista, feita pelo biógrafo de Santo Afonso, o padre redentorista, Théodule Rey-Mermet, “Afonso de Ligório, uma opção pelos abandonados” (Aparecida-SP, Ed. Santuário, 1984, p. 613): “filho e imagem de Deus, o homem é livre; perante uma obrigação duvidosa, sua liberdade continua, porque é certa”.

No livro “A moral de Sto. Afonso” (Aparecida SP, Ed. Santuário, 1996, p. 66), o padre Théodule definiu a posição de Santo Afonso com as palavras do padre Vereecke: “humanismo das luzes, personalismo cristão: Afonso é bem de seu tempo, e é bem do nosso”. Na mesma página, resumiu a doutrina de Santo Afonso: “primado da verdade”, “primado da consciência pessoal, segundo a qual cada um será julgado; primado da liberdade, isto é, do homem” e estes “três primados” “se equilibram e se apóiam mutuamente”. As obras do grande Marciano Vidal dão continuidade à boa linha de Santo Afonso.

O ponto essencial é que o ser humano é bom, que a liberdade é boa, porque a natureza é boa, ponto bem explicado no livro “Genesis”, nas palavras do próprio Deus. O ser humano é livre e deve reger-se pela própria consciência pessoal e a sociedade deve reger-se pelo diálogo, que interliga as consciências pessoais numa comunhão.

A liberdade humana só opera de forma racional: só temos o dever de obedecer quando a regra estiver fundamentada racionalmente, além de qualquer dúvida razoável, como bem explica o Direito. Os atos humanos são bons e a liberdade só deve ser cerceada diante de obrigações (deveres) claros e racionais. A liberdade é “legítima”, as restrições devem ser racionais, claras, “uma lei duvidosa não obriga”.

O próprio Santo Afonso, numa carta a Remondini, em 30.06.1765, deixa claro sua ligação com a ética democrática dos jesuítas, ao elogiar “Lugo, Suárez, Laymam, Lessius, Castropalaus” e outros. No mesmo sentido, Santo Afonso de Ligório, um dos 33 Doutores da Igreja, Patrono da teologia moral, adotava a mesma tese de Suárez e Bellarmino (outro santo e Doutor da Igreja): o poder reside na sociedade, nasce do consenso racional em torno de regras que assegurem e promovam o bem comum.

As sociedades domésticas (famílias), tal como todas as sociedades, nascem pelo consenso e pelo diálogo. O consenso é também a base das sociedades maiores, das vilas, bairros, cidades, Estados-membros (departamentos), Regiões, Nações, Uniões continentais e de um futuro Estado mundial. Como explicou Pio XII, num discurso de 06.04.1951, uma futura “organização política mundial” deve “adotar a forma federal”, federativa, sem “um unitarismo mecânico”, respeitando a justa autonomia dos “diversos povos”.

Num parêntese, o padre Leonhard (Leonardo ou Leonardi) Lessio ou Lessius (1554-1623) foi um jesuíta belga (sediado em Lovaína), da linha de Suárez, Bellarmino e Luís de Molina. Léssio escreveu obras como “De gratia efficaci” (1610) e “De justitia et jure” (1605). Esteve em contato com São Vicente de Paulo. Lessio foi elogiado por Santo Afonso de Ligório e Harold Laski, o que mostra sua importância. Foi uma das estrelas de Lovaína, tendo estado em Roma, onde trabalhou ligado a Bellarmino e a Suarez. Léssio criticou os erros de Bayo.

O grende padre Léssio era ligado ao padre Luís de Molina, sendo um molinista, destacando o papel atuante do livre arbítrio na cooperação com a graça divina, ponto que o tomismo também adota, por outra argumentação. A obra mais importante de Lessio, no entanto, foi “De justitia et jure”, onde trata da intervenção do Estado, coibindo juros, regulamentando contratos etc.

O padre e cardeal João de Lugo (1583-1660) também deixou bons textos sobre a graça suficiente e o poder da razão. Santo Afonso o considerava como “o mais importante teólogo depois de Santo Tomás de Aquino”.

O probabilismo moderado é a corrente ética correta e mais aceita entre o Clero, na Igreja toda, porque valoriza a razão, o diálogo, a liberdade humana. Esta é a linha correta da teologia, uma linha democrática, racional, humana, bondosa. Esta era também a linha de São Francisco de Sales (Doutor da Igreja e também molinista, como mostra sua carta de 26.08.1618 ao padre Lessio) e de São Vicente de Paulo.

O probabilismo moderado ensina que os assuntos humanos, especialmente os políticos, ficam entregues ao debate e ao diálogo, ao consenso, aos pactos, aos acordos, à concórdia (cf. Juan Luís Vives, um dos precursores da Previdência Social). Por isso, a Igreja reconheceu várias vezes, especialmente nos textos de Leão XIII, a liberdade política, científica, literária, civil etc das pessoas. Por esta razão, a Igreja rejeita o clericalismo. O clero não pode ditar as linhas mais complexas da vida política, este ponto fica para os leigos. O clero pode apenas ensinar princípios e regras mais abstratas e não detalhadas e posicionar-se quando uma lei ou instituição for injusta, prejudicando a sociedade (especialmente os pobres), mas isso desde que a injustiça e irracionalidade ficquem claras além de qualquer dúvida razoável,

Diante da variedade das opiniões, da multiplicidade de pontos de vista, a solução é o diálogo, os debates, a busca de consensos, a decisão por maioria com respeito à opinião da minoria.

Deus quer que as sociedades se governem pela via do diálogo, por consensos racionais, por sínteses amplas que abarquem o máximo de lados das questões. Para abonar este ponto, basta citar milhares de textos de expoentes como o Cardeal Newman (1801-1890), Ozanam, Lacordaire, Dupanloup, Ketteler, Montalembert, Buchez, Acton, Ketteler, Joaquim Nabuco, Maritain, Marc Sangnier, Mounier, Alceu Amoroso Lima e outros bons expoentes do catolicismo.

O livro de Aristóteles, “Tópica”, foi apreciado por Vico, no livro “De nostri temporis studium ratione”, com o elogio da prudência (sabedoria) como virtude essencial, presente especialmente no povo mais simples. Também foi elogiado por Theodor Viehweg, no livro “Tópica e jurisprudência” (1953). Viehweg ajudou na superação dos erros do positivismo jurídico, reforçando a construção de uma “teoria material da Constituição”, como ressaltou Paulo Bonavides, na mesma boa linha de autores como Konrad Hesse, Friedrich Müller, Peter Heberle ou Martin Kriele. Estes autores formularam métodos de interpretação da Constituição vinculados à meta de concretização dos direitos fundamentais, dos direitos humanos naturais. Esta linha coincide, assim, com as grandes linhas da doutrina social da Igreja, que busca a construção de uma sociedade justa, uma sociedade do diálogo, do bem comum.

João Paulo II, na “Laborem exercens” (n. 6), escreveu: o ser humano “deve submeter a terra” (cf. Gn 1,26), “porque, como imagem de Deus, é uma pessoa, ou seja, um ser subjetivo, capaz de agir de maneira programada e racional, capaz de decidir a respeito de si mesmo, e que tende a realizar a si mesmo”. A subjetividade da consciência, do trabalho, do ser humano e da sociedade deve ter a primazia no processo produtivo, político, econômico e histórico.

A objetividade da verdade, cf João Paulo II e a ética

A objetividade da verdade foi explicada por João Paulo II, na encíclica “Veritatis splendor” (06.08.1993), do seguinte modo:

“Perdida a idéia duma verdade universal sobre o bem, cognoscível pela razão humana, mudou também inevitavelmente a concepção de consciência: esta deixa de ser considerada na sua realidade original, ou seja, como um acto da inteligência da pessoa, a quem cabe aplicar o conhecimento universal do bem a uma determinada situação e exprimir assim um juízo sobre a conduta justa a ter aqui e agora; tende-se a conceder à consciência do indivíduo o privilégio de estabelecer autonomamente os critérios do bem e do mal, e de agir em consequência. Esta visão identifica-se com uma ética individualista, na qual cada um se vê confrontado com a sua verdade, diferente da verdade dos outros ».

O movimento cognitivo da consciência analisa o processo histórico-econômico e dele extrai idéias, combinando-as em juízos factivos e de valor. Depois, estes juízos são aplicados como premissas segundas aos fatos, gerando juízos concretos que formam as normas gerais e particulares de nossas condutas. Há a mesma explicação nos textos de Roberto Lyra Filho e em alguns textos do tridimensionalismo jurídico.

A razão pela qual a Igreja condenou o nazismo

Pio XI, na “Mit brennender sorge”, encíclica onde condenou o nazismo, em 1937, ensinou a razão principal da condenação:

As leis humanas que estão em aberta contradição com o direito natural acham-se afetadas de um vício original, que se não remedeia nem com a violência, nem pela pressão de forças externas. Segundo este critério deve ser entendido o princípio: Direito é o que é útil à nação (Recht ist was dem Volke nützt). É verdade que a este princípio se pode dar um sentido justo, se se admite que o que é moralmente ilícito jamais se pode tornar realmente proveitoso para o povo. Este princípio, separado da lei ética, significaria, naquilo que se refere à vida internacional, um eterno estado de guerra entre as nações; na vida nacional desconhece, ao confundir interesses com direitos, o fato fundamental de que o homem, como pessoa, possui direitos outorgados por Deus, e que devem ser tutelados contra atentado, por parte da comunidade, negando-os, abolindo-os ou impedindo seu exercício. O Criador quer a sociedade como meio para obter o desenvolvimento pleno das faculdades individuais e sociais, das quais se deve o homem valer”.

Pela doutrina da Igreja, as pessoas, as sociedades e os Estados devem proteger e promover o bem comum, “o que é útil à nação”

Conclusão: o Estado e a organização da sociedade devem assegurar a perfeição da vida, condições de vida plena para todos, para que todos possam realizar as potências contidas na natureza humana e na própria pessoa, em concreto. Estas idéias estão claras inclusive no livro “Dom Quixote”, de Cervantes, onde Dom Quixote saiu para o mundo para “amparar os fracos e os abandonados” e ensinava que “a Natureza e Deus fizeram livre” todas as pessoas. A Igreja NUNCA chancelou o autoritarismo, o absolutismo, as ditaduras, as tiranias, o Estado sem controle do povo. 

O elogio da política, da militância política, e do Estado, por Pio XI e Paulo VI

Pio XI, no “discurso à Federação Universitária Católica Italiana” (18.12.1937), destacou bem a importância do poder público: “nada, poder-se-ia dizer, exceto a religião, é superior ao domínio político, que concerne aos interesses de toda a sociedade e que, neste sentido, é o domínio por excelência da forma mais extensa da caridade: a caridade política”.

No mesmo sentido, Paulo VI, na “Octogesima adveniens” (n. 46), destacou que “a política é uma maneira exigente… de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros”. De fato, na concepção cristã sobre o poder, este é intrinsecamente um “serviço”, estando sujeito aos “interesses de toda a sociedade”, ao bem comum.

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