Arquivos para : A “Fórmula” para boa ética, tipo o Estoicismo católico e hebraico e ideias de Santo Afonso de Ligório

Ferrater Mora mostra pontos comuns entre ética católica e ética estoica

José Ferrater Mora, no “Dicionário de filosofia” (São Paulo, Ed. Loyola, 2001, tomo II, p. 932), no verbete sobre ética, faz um bom elogio da ética cristã:

os pensadores cristãos… aproveitaram muitas das idéias da ética grega – principalmente as platônicas e estóicas – de tal modo que parte da ética, tal como a doutrina das virtudes e a sua classificação, inseriram-se quase por completo no corpo da ética cristã. Foi muito comum adotarem-se certas normas éticas de algumas escolas (como a estóica)… suprimindo as porções (por exemplo, a justificação do suicídio) incompatíveis com as idéias morais cristãs.

À medida que o pensamento grego foi sendo acolhido dentro do pensamento cristão destacaram-se certos fundamentos que, no fim, eram comuns a ambos. Entre eles mencionamos como o principal a clássica equiparação do bom com o verdadeiro, que os filósofos cristãos desenvolveram em sua teoria dos transcendentais”.

O elogio da razão humana, na Bíblia

João Paulo II, na “Fides et ratio” (1998), mostra como, antes de Cristo, já ocorria uma síntese entre as idéias hebraicas e as melhores idéias da Paidéia.

19. Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua inteligência, é capaz de “conhecer a constituição do universo e a força dos elementos (…), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes” (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo. Retomando o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: “Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso “livro da natureza”; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como Criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre e pelo seu pecado”.

No livro “Sabedoria”, um tratado de ética política, já há uma síntese com idéias do “pensamento da filosofia grega”, especialmente com as idéias estóicas (mescladas, numa síntese, com o melhor das idéias platônicas e aristotélicas).

O elogio judaico dos estoicos, do estoicismo

Julius Guttmann, um grande filósofo judeu, no livro “A filosofia do judaísmo” (São Paulo, Ed. Perspectiva, 2003, pp. 62-63), descreveu corretamente o ambiente filosófico popular estoico platônico, onde o cristianismo nasceu, tal como daí nasceu o “judaísmo rabínico”, o Talmud:

Dessas teorias gregas, somente as formas mais populares em que elas estavam espalhadas entre as massas, por via oral ou escrita, parecem ter obtido eco no Talmud. Muita coisa na ética talmúdica lembra a sabedoria popular estóica. Uma e outra ensinam que tudo quanto o homem possui é empréstimo tomado de Deus, e portanto o homem não deveria queixar-se se Deus exige de volta aquilo que é Dele. Uma e outra consideram a alma uma hóspede [em viagem] deste mundo, louvam a virtude da moderação [medida certa] como a verdadeira riqueza, e aconselham o homem a viver cada dia como se este fosse o último. Algumas das máximas rabínicas que pedem ao homem que cumpra o seu dever sem pensar em recompensa apresentam forte semelhança formal com aforismas estóicos. (…). A influência estóica como tal é fora de dúvida. A comparação da alma a Deus deriva da metafísica estóica; a alma preenche e vitaliza o corpo como Deus preenche o mundo, e como Deus, ela não pode ser vista. O Talmud incorpora idéias de Platão assim como da Stoa, os quais, divorciadas de seu contexto sistemático, eram parte e parcela da cultura grega geral. (…). O Talmud utiliza tais idéias a fim de refutar os argumentos dos oponentes gentios e dos céticos judeus. A admonição “saiba o que responder a um epicurista” (para os rabis, o epicurista é o típico livre pensador)prova que o conhecimento de idéias estrangeiras foi promovido por considerações apologéticas”.

Padre Eleutério Elorduy, grande estoico católico

O padre Eleutério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, vol. I, p. 79), ensinou: as “doutrinas éticas e sociais, religiosas e políticas do estoicismo” foram providenciais para “a preparação do ambiente social” e da “estruturação filosófica da doutrina”, para a difusão do cristianismo.

Elorduy destaca que o estoicismo deu a Roma e à antiguidade “grandes políticos, governantes e escritores”.

O estoicismo tem várias idéias que coincidem e ajudam a explicar as idéias hebraicas.

Há pilhas de excelentes idéias estóicas no Talmud, tal como há nos textos dos Santos Padres.

O elogio católico ao estoicismo

A ligação entre catolicismo e estoicismo foi destacada por Bento XVI, em 02.07.2008.

O papa Bento XVI lembrou, para uma audiência de dez mil pessoas, que “São Paulo deve toda a sua fé a Cristo e ao contexto cultural do seu tempo, em que se destaca a filosofia estoica, com seus altos valores de humanismo e sabedoria”.

A lista de virtudes e vícios, da Igreja, é a mesma do melhor da Paideia

O livro de Wayne A. Meeks, “As origens da moralidade cristã – os dois primeiros séculos” (São Paulo, Ed. Paulus, 1997), analisou bem as “virtudes” e os “vícios” descritos na Bíblia.

Virtudes são condutas boas (atos, que pela repetição viram bons hábitos).

Vícios são condutas ruins (atos, que pela repetição viram maus hábitos, vícios).

Virtudes são atos em adequação ao bem comum.

Vícios são atos prejudiciais ao bem de todos.

O bem é a plenitude da natureza.

O mal é a destruição da natureza, a ausência do bem, de algo requerido pela natureza, para a perfeição desta. 

Há uns 50 vícios (cobiça, embriaguez, ira etc) e outras tantas virtudes, referidas na Bíblia e nos escritos dos Santos Padres.

A conclusão é “listas de vícios e virtudes encontram-se espalhadas por toda a primeira literatura dos cristãos e, em sua maior parte, elas diferem pouco daquelas que poderíamos coletar… de filósofos e retóricos moralistas da mesma época” (cf. p. 22).

Claro, a natureza é a mesma em todos os seres humanos e a graça atua em todos. 

O grande padre Eleuthério Elorduy, uma das estrelas estoicas da Igreja

O padre Eleuthério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, Tomo II, p. 319), resume bem o primado da sabedoria, que é a razão prática das pessoas (do povo, a base da justificação da democracia), das idéias do bem comum, da subjetividade do trabalhador e da pessoa no processo histórico e social, com as seguintes palavras:

A sabedoria divina, que é o mesmo que o Summum Bonum [o Bem Supremo, a fonte de todo bem, do bem geral, comum] ou o Amor de Deus, é energia radiante e universal comunicadora de perfeição na ordem da atividade individual das pessoas e no coletivo dos corpos sociais. Esta é a visão compartilhada por Sêneca, testemunha deste fenômeno nas grandes domus da Roma de 63-64, como de Agostinho, em sua doutrina universal da “Cidade de Deus”. A visão metafísica do Bem supremo e da Sabedoria divina, Causa Primeira e Agente [Motor] universal, desdobra-se no mundo da realidade pela via da participação – por aderência a Deus em Agostinho e por irradição da “Ratio” [Razão, Logos] em Sêneca – fundamentando a base ontológica de toda perfeição física, moral, social e política, tanto na ordem das naturezas específicas recebidas na criação, como na elevação sobrenatural que em Sua Providência [a “tensão” da Providência] pode Deus estabelecer…(…).

A semelhança do cristianismo com o estoicismo neste ponto implica uma aproximação da filosofia estóica com a teologia Patrística, estudada com grande erudição por Stelzenberger, Spanneut e Pohlenz”.

O padre Eleuthério (Eleuthério em grego é liberdade) deu continuidade ao estoicismo católico, presente nos Santos Padres, em Montaigne, em Descartes, em Justos Lipsos e outros grandes católicos. 

A ideia de “tensão” ou “tonus” mostra como a Energia Divina atua, mais forte que a Endorfina, uma Endorfina, a ação da Graça (do Espírito, cf. Hegel, o Espírito Santo) atua inebriando, energizando, eletrificando, dando brilho, luz, força, energia, ânimo ao ser humano. 

Os hebreus e os cristãos sempre estão abertos às idéias verdadeiras, que formam a “Sabedoria”, como ensinam os livros sapienciais da Bíblia. Estas idéias são salvíficas, são geradoras do bem comum. Os cristãos e os hebreus, tal como os grandes filósofos da antiguidade (inclusive o hinduísmo, no Bhagavad Gita, Confúcio, Buda e outros) sabem que a verdade (as idéias verdadeiras e boas) é a fonte normal do bem comum, é salvífica, liberta (“conhecereis a verdade e esta vos libertará”, cf. Jesus).

Os hebreus deram um grande exemplo de abertura e ecumenismo na tradução da “Septuaginta”, lá por 285 a.C., realizando, na tradução, uma síntese com as idéias da Paidéia.

A “Septuaginta” tem importância essencial, pois foi o texto mais usado pelos Apóstolos e talvez até por Jesus Cristo. A difusão do cristianismo ocorreu pela mediação da “Septuaginta”, já numa forma de síntese entre idéias hebraicas e da Paidéia.

A própria Bíblia contém a incorporação de idéias da Paidéia mais antiga, especialmente do melhor da cultura mesopotâmica (de Ur, Harã e outras cidades, especialmente fenícias e da antiga Síria, Aram, aramaicos), tal como do Egito e da cultura de Canaã. A Bíblia, inclusive o Antigo Testamento, foi formada com base no material das culturas da Antiguidade, com a ajuda da inspiração.

A inspiração divina incide sobre a razão (por dentro), a natureza, sobre pessoas concretas, mergulhadas em seus habitats culturais, em seus húmus culturais. O mesmo ocorre com a graça, com a profecia, pois o “sobrenatural” é a ação divina sobre a natureza, sem destruir a criação do próprio Deus, e sim a elevando, aperfeiçoando-a, por dentro, por inculturação.

A boa síntese de Cícero, entre platonismo, aristotelismo e estoicismo. A base da Filosofia cristã

Santo Agostinho, tal como Santo Ambrósio e São Jerônimo, apreciava os melhores textos de Cícero e de Sêneca.

O próprio Cícero seguia os passos dos “peripatéticos” (da escola de Aristóteles) e dos estoicos, como ele mesmo diz no primeiro parágrafo de seu livro “Dos deveres” (“De Officiis”, São Paulo, Ed. Saraiva, 1965, p. 27), onde escreveu:

“meu filho,… não deixe também de ler minhas obras, nas quais a doutrina pouco difere da dos peripatéticos, pois, eles e eu nos ligamos a Sócrates e a Platão. Use seu próprio pensamento, quando se tratar da essência das coisas” e “aos estoicos [especialmente Panécio], aos acadêmicos, aos Peripatéticos cabem nos ensinar deveres” (p. 29), concluindo que “seguiremos, de preferência, os estoicos, mas sem servilismo, como é nosso costume; nós nos saciaremos em suas fontes, quando julgarmos apropriado, mas não abdicaremos nosso ponto de vista, nosso juízo e nosso arbítrio”.

Boa obra, sobre Bergson, Edith Stein, Max Scheler, Edmund Husserl e outros. Grandes filósofos judeus se aproximam do Catolicismo

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Discurso Francisco I para a Conferência dos Rabinos Europeus, o Conselho Rabínico da América e a Comissão do Grão-Rabinato de Israel

Discurso em 31.08.2017.

Queridos irmãos e irmãs!

Dirijo com alegria uma cordial saudação a todos vós, especialmente aos representantes da Conferência dos Rabinos Europeus, do Conselho rabínico da América e da Comissão do Grão-rabinato de Israel em diálogo com a Comissão para as Relações religiosas com o Judaísmo da Santa Sé. Agradeço ao Rabino Pinchas Goldschmidt as suas gentis palavras.

No nosso caminho comum, graças à benevolência do Altíssimo, estamos a atravessar um momento fecundo de diálogo. Segue nessa direção o documento Entre Jerusalém e Roma, que elaborastes e que hoje recebo das vossas mãos. É um texto que confere reconhecimentos especiais à Declaração Conciliar Nostra aetate, que no seu quarto capítulo constitui para nós a “magna charta” do diálogo com o mundo judaico: com efeito, a sua progressiva atuação permitiu que os nossos relacionamentos se tornassem cada vez mais amistosos e fraternos. A Nostra aetate evidenciou que os inícios da fé cristã já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas e que, sendo grande o patrimônio espiritual que temos em comum, deve ser promovido entre nós o conhecimento recíproco e a estima, sobretudo através de estudos bíblicos e colóquios fraternos (cf. n. 4). Ao longo dos últimos decénios conseguimos aproximar-nos, dialogando de maneira eficaz e frutuosa; aprofundamos o nosso conhecimento recíproco, intensificando os nossos vínculos de amizade.

Contudo, a Declaração entre Jerusalém e Roma não esconde as diferenças teológicas das nossas tradições de fé. Todavia, exprime a vontade firme de colaborar mais estreitamente hoje e no futuro. O vosso documento dirige-se aos católicos, chamando-os «parceiros, estreitos aliados, amigos e irmãos na busca comum de um mundo melhor que possa gozar de paz, justiça social e segurança». Outro trecho reconhece que «não obstante profundas diferenças teológicas, Católicos e Judeus compartilham crenças comuns» e «a afirmação segundo a qual as religiões devem utilizar o comportamento moral e a educação religiosa — não a guerra, a coerção ou a pressão social — para exercer a própria capacidade de influenciar e de inspirar». Isto é muito importante: possa o Eterno abençoar e iluminar a nossa colaboração para que juntos possamos acolher e atuar cada vez melhor os seus desígnios, «desígnio de prosperidade e não de calamidade», para «um futuro cheio de esperança» (Jr 29, 11)”. 

A religião católica e o judaísmo têm um grande patrimônio de ideias em comum. Visam a justiça social, a prosperidade de todos.

— Updated: 19/09/2018 — Total visits: 35,466 — Last 24 hours: 119 — On-line: 0
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