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Lista das emoções (paixões), na teoria de São Tomás de Aquino

O livro do padre jesuíta, T. de Diego Diez, “Theologia naturalis” (Santander, Ed. Sal Terrae, 1955, p. 429), lista as emoções (paixões, “affectus”) principais.

Deixa claro que não são apenas movimentos da do apetite sensitivo (“actus appetitus sensitivi”), mas também (“sed etiam”) do “apetite racional e voluntário” (“appetitus racionalis seu voluntatis”), logo, são movimentos naturais que até Deus e os anjos têm, pelo menos algumas das emoções e este ponto é examinado por São Tomás.

Por exemplo, a própria Bíblia diz claramente que Deus é amor, ou seja, é tão amoroso, inclinado ao bem dos outros, que é praticamente a personificação da emoção máxima, o Amor. Da mesma forma, Deus é alegre, é desejoso do bem do próximo, tem ódio (aversão, abominação) ao mal etc. 

Dividem-se em dois grupos: “concupiscibilis” (“versantur circa bonum et malum …spectata”) e “irascibilis” (“qui versantur circa bonum et malum ut ardua”).

As emoções concupiscíveis são: “amor” (“amor”), “gaudium” (“alegria”), “desiderium” (“desejo”), “odium” (“ódio”, repulsa), “fuga” (“aversio”, aversão) e “tristicia” (“tristeza”). 

As emoções irascíveis são: “spes” (“esperança”), “desperatio” (“recessio”, “desespero”), “audacia” (“coragem”), “timor” (“medo”) e “ira” (“ira”). 

Emoções devem ser equilibradas, harmonizadas, pela razão, e nunca eliminadas

Como Pólemon, Crates de Atenas (escolarca entre 270 e 264 a.C., e é importante não confundi-lo com Crates de Tebas e Crates de Tarso) e Crantor (340-290 a.C.), a Academia, a escola fundada por Platão, ensinava claramente que os afetos e paixões (as emoções) são partes vitais da alma, que devem ser moderadas, ordenadas, equilibradas, pela razão, e não eliminadas.

Lista parcial das virtudes e afetos, elogiados pela Igreja

São Paulo, na “Carta aos Gálatas” (5,14), repete o ensinamento de Cristo, e resume toda a ética cristã: “toda a lei se resume em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5,4). Um ponto peculiar da ética cristã é relacionar todas as virtudes ao amor (cf. Gl 5,22; Ef 4,32 e 5,2; Cl 3,12; e outros trechos).

As principais listas de virtudes estão em Gl 5,19-23; Fp 4,8; Cl 3,5 e 12; 2 Co 12,20; Tt 3,3; 1 Tm 3,1-13; e outras passagens. Estas listas coincidem, em linhas gerais, com as listas vétero-testamentárias (do Antigo Testamento), tal como do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo. Também há pontos comuns com os Rolos do Mar Morto. Autores como A. Vogtle (“Die Tugende und Lasterkataloge um Neuen Testament”, 1936) tentaram demonstrar a influência estóica nestas listas. Possivelmente exista também influência do mitraísmo (cf. S. Wibbing, “Die Tugend”, 1959). No fundo, esta lista estava no melhor dos textos hebreus e fenícios, estando nos textos hititas, sumérios, daí, a lista foi para os persas, acolhida no mitraísmo. E deste complexo, especialmente partindo dos fenícios, influenciou e criou o estoicismo, filosofia nascida de autores de origem fenícia (o fundador do estoicismo era fenício, tal como os maiores expositores). 

Na “Carta aos Gálatas” (2,4), diz que os cristãos “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” desordenadas, no sentido estóico, de afetos sem a ordenação racional, pois os afetos racionais são coisas boas e apreciadas pelos estóicos, ponto que desenvolverei em outra postagem. 

A lista das virtudes, no texto da “Carta aos Gálatas” (5,22-23), é a seguinte, formando os nove frutos do Espírito:

1) amor é “ágape”, em grego. Significa “caridade”, que é principal virtude (vide Primeira Carta aos Coríntios, 13,4 e, principalmente, I Cor 13,13, o “Hino ao amor”). É a mesma lição da Primeira carta de São João (4,7), que ensina que o amor é a primeira das virtudes e é eterno. Caridade em relação ao próximo é misericórdia, que é preocupar-se com o atendimento das necessidades do próximo (cf. explicação de Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”), preocupar-se com o bem do outro, com o bem comum. O amor é também a principal emoção humana. 

2) alegria é “chara”, em grego. Vem do verbo “chairo”, significa alegrar-se com o bem. A Septuaginta usado também a palavra grega “agalliasis”. Em hebraico, “alegria” é “simhah”, do verbo “saimeah”. Deus é um Ser alegre (cf. Sl 16,11; Fp 4,4; e Rm 15,13). São Pedro frisa que o cristão deve ser uma pessoa alegre (cf. 1 Pd 1,8). Neemias ensina: “a alegria do Senhor é a nossa força” (cf. Ne 8,10). A “tristeza” (“lype”, em grego) é um vício, uma paixão desordenada. Os estóicos aconselhavam, na mesma linha: “foge da tristeza” (cf. Periandro, “Sentenças”, 56);

3) paz é “eirene”, em grego. Daí, “pacificador” (“eire”opoieo”), pessoa pacífica. Há referência também em Isaías 45,7. Cristo ensinou: “aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração” (cf Mt 11,29). Em hebraico, “paz” é “shalom”, que significa bem estar no sentido pleno, prosperidade, felicidade etc.;

4) paciência é “makrothymia”, em grego. Significa “longanimidade”, “paciência”, “constãncia”, “perserança”). Trata-se de virtude elogiada em vários textos como: 1 Cor. 13:4-7; 2 Cor. 6:4-6; Ephes. 4:1-2; Col. 1:11; Col. 3:12-13; 1 Tim. 1:16; 2 Tim. 3:10; e 2 Tim. 4:2. Em hebraico, “paciência” é “arekh”. A Bíblia elogia a paciência de Deus (cf. Ex 34,6; Nm 14,18; Ne 9,17), que é “longo” em irar-se. Daí, o termo “longanimidade”. Deus é lento em irar-se ao tratar com os pecadores (cf. Os 11,8; e Is 48,9). Os cristãos devem imitar a Deus na paciência ao irar-se (cf. Mt 18,26; I Co 13,4; Gl 5,22; Ef 4,2; e 1Ts 5,14);

5) gentileza (“chrestotes”, em grego), elogiada em textos como: 2 Tim. 2:24-26; Tt 3:1-2; e Tiago 3:17;

6) bondade (“agathosune”, em grego), elogiada em textos como: Ex 33:19; Ex 34:6; Rm 2:4; Ef 5:9; Mt 5:44-48; e Lc 6:27-32. A “Septuaginta” usou o termo “agathos” para traduzir a palavra hebraica “tov”, “bom”. O termo “tov” significa “bom”, “alegre”, “agradável” etc. A “Septuaginta” usa o termo “kalos” também, que significa “belo” (“admirável”, “digno”, “honroso”). São Paulo também usa o termo “chrestotes” (cf. Rm 2,4; 11,22). O termo hebraico “hessed” também significa “bondade”, “compassivo”, “misericordioso”, “benigno”, “amoroso”;

7) fidelidade (“pistis”, em grego). Sobre a fidelidade, há um bom texto de Karl Barth, “Fidelidade na comunhão”;

8) modéstia (“praotes”, em grego); e

9.Temperança (“engkrateia”, em grego, autocontrole). Virtude elogiada em textos como: Prov 23:1-3; Prov 25:16; Dan 1:8-16; Rm 13:14; 2 Cor. 9:25-27; Fil 4:5; 1 Tes. 5:6-8; Tt 2:2-3,11-12; 2 Pt 1:5-10. Está expresso nos “Dez Mandamentos”, com o preceito “não cobiçar”.

Como fica claro, as virtudes morais são afetos (emoções, paixões, correlatas a ideias) bem ordenados por idéias práticas do bem, ou seja, pela razão, em prol do bem comum. O ponto central em todas as virtudes é que são práticas do bem, como destacou Santo Tomás de Aquino.

A teorias das emoções, de São Tomás de Aquino

Em sua teoria sobre as emoções (afetos, paixões), Aquino frisa que as emoções (paixões, afetos, instintos) são bons em si mesmo, são criações de Deus, da alma humana e o próprio Deus tem emoções, afetos. Os afetos devem ser equilibrados (“justo meio”), ordenados, racionalmente. Há um elo entre os movimentos intelectuais, volitivos, as imagens, a memória, as emoções (afetos, paixões), os instintos e as necessidades corporais, como explicou Ruyer, no livro “Elementos de psico-biologia”. Esta relação é fundamental numa boa teoria psicológica-antropológica, que respalde uma teoria humanista sobre o poder. A antropologia semita, inclusive dos estóicos, foi acolhida pelos Santos Padres e pelo tomismo, tal como estava presente nos grandes textos de Aristóteles. O hilemorfismo da Igreja não separa alma e corpo, a pessoa humana é um ser composto, uma substância composta, onde alma e corpo estão unidos. 

Vontade e desejo (apetite, movimento), relações

Como Cícero explicou, no livro “Questões Tusculanas” (IV, 6,12), “a voluntas” (vontade, “boulesis”, em grego) “é um desejo acompanhado de razão”, “do momento que se apresenta a imagem de uma coisa, qualquer que seja, que pareça boa, a Natureza [Deus] nos impulsiona a tentar alcançá-la”, se “essa tendência procede com constância e sabedoria” “nós a denominamos vontade” (“voluntas”, em latim; “boulesis”, em grego”, como “os estóicos a denominam”). Vontade são moções internas e afetivas razoáveis. No ato da vontade, misturam-se a representação intelectual da ideia, a representação sensível da imagem correspondente à ideia, mais o desejo no restrito restrito e o movimento da vontade, também no sentido restrito. 

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