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Cícero era eclético, seguindo Platão, Aristóteles e, mais ainda, os estoicos, nas questões sobre ética

A filosofia cristã é formada de bom ecletismo, ecumenismo. E teve como precursores, pensadores como Cícero. Cícero seguia os passos dos “peripatéticos” (da escola de Aristóteles) e dos estóicos, como ele mesmo diz no primeiro parágrafo de seu livro “Dos deveres” (“De Officiis”, São Paulo, Ed. Saraiva, 1965, p. 27), onde escreveu:

“meu filho,… não deixe tambem de ler minhas obras, nas quais a doutrina pouco difere da dos peripatéticos, pois, eles e eu nos ligamos a Sócrates e a Platão. Use seu próprio pensamento, quando se tratar da essência das coisas” e “aos estoicos [especialmente Panécio], aos acadêmicos, aos Peripatéticos cabem nos ensinar deveres” (p. 29), concluindo que “seguiremos, de preferência, os estoicos, mas sem servilismo, como é nosso costume; nós nos saciaremos em suas fontes, quando julgarmos apropriado, mas não abdicaremos nosso ponto de vista, nosso juízo e nosso arbítrio”.

Uma boa lição da Enciclopédia Britânica sobre a antiguidade da democracia e da naturalidade desta forma de governo

A “Encyclopaedia Britannica” (London-Chicago e Toronto, Ed. William Benton, 1960, vol. 7, p. 177), no verbete “democracy”, ensina corretamente que “a democracia direta é um das mais óbvias formas de organizar a comunidade política. Ela [a democracia] é encontrada em muitas das primitivas sociedades conhecidas pelos antropólogos modernos e suas origens, sem dúvida, recuam a tempos pré-históricos”. De fato, já nas mais antigas vilas de cem habitantes a forma natural de governo era a democracia, pois as decisões eram tomadas em assembleias, por consensos.

A “Encyclopaedia Britannica”, em seguida, transcreve trecho do livro “Política”, de Aristóteles, porque este filósofo teria elaborado a “melhor definição” (“The best definition is given by Aristotle”) sobre a democracia. O texto referido na “Britannica” é o mesmo texto elogiado pelo jurista José Afonso. Aristóteles foi quem melhor justificou a democracia, mostrando que várias cabeças pensam melhor que uma, ou seja, decisões consensuais, fruto do diálogo, são decisões mais sábias e corretas. 

A graça nunca anula a natureza, e sim a aperfeiçoa. O cristianismo quer aperfeiçoar as faculdades naturais

Pio XI, na “Divini Illius Magistri” (31.12.1929), ressalta que Deus, “a Divina Bondade”, difunde “os abundantes auxílios da graça” para suprir e apoiar “as forças da natureza humana”, para “incutir nas almas” “bons costumes”, boas idéias e boas práticas, “virtudes”, atos de bondade para consigo mesmo, com a família, o próximo e com a sociedade. Pio XI, no item 10 desta encíclica, foi bem claro: “o verdadeiro cristão, longe de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir suas faculdades naturais, desenvolve e aperfeiçoa as faculdades, coordenando-as com a vida sobrenatural”.

Igreja e Paidéia em prol da democracia popular, com economia mista etc

A Igreja também recepcionou os melhores textos dos Proculianos (Labeão e outros grandes juristas), de Sêneca, Horácio, Epíteto, Virgílio, Augusto, Quintiliano, os dois Plínios, Tácito, Galeno (129-199 d.C., um grande platônico-aristotélico eclético), Plutarco (que exerceu enorme influência na Revolução Francesa, diga-se de passagem), Gaio, Ulpiano, Papiniano e tantos outros. 

Emílio Papiniano, por exemplo, foi morto a mando de Caracala porque não quis prostituir a ciência jurídica, justificando um homicídio. Pietro Bonfante redigiu um grande elogio a Papiniano, no livro “Storia del diritto romano” (3ª. ed., Roma, 1934). O melhor do direito romano foi recepcionado pela Igreja, como fica claro nos textos de Justiniano e de outros imperadores cristãos, tal como de reis bárbaros cristãos. Os melhores textos do direito romano contêm a teoria política democrática dos gregos, dos romanos e da Antiguidade. Ensinam que o povo é o legislador natural, que o povo deve autodeterminar-se. E o melhor da Paidéia, como a Bíblia, dizem que o governo deve ser popular, democracia popular, com economia mista, com justiça social, distributismo, com difusão dos bens, com bens públicos, estatais, controles públicos da economia, bom sistema tributário etc. 

Até Hobbes viu que a filosofia católica ama a Paideia e a democracia

O amor à Paidéia, especialmente à tradição socrática-platônica e aristotélica em boa síntese com o estoicismo, com preferência pelos textos estóicos na parte ética, na linha de Cícero e de Sêneca, foi constatado inclusive por Hobbes. Este, em seu livro “Leviatã” (2ª. edição, São Paulo, Ed. Abril, 1979, p. ), descreveu a “filosofia moral e civil” da escolástica, da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa grega e russa (e copta, etíope, Armênia e da Geórgia), exposta nos textos de Cícero e de Aristóteles:

Com a filosofia civil de Aristóteles aprenderam a chamar a todos os Estados que não fossem populares (como era então o Estado de Atenas) tiranias. A todos os reis chamaram tiranos. (…) Como também aprenderam a chamar à condição do povo sob a democracia de liberdade. (…). Atribuem maus epítetos a seus superiores, desconhecendo sempre (até talvez um pouco depois de uma guerra civil) que sem esse governo arbitrário tal guerra seria perpétua e que são os homens e as armas, não as palavras e promessas, que fazem a força e o poder das leis. E portanto este é um outro erro da política de Aristóteles, a saber, que num Estado bem ordenado não são os homens que governam, mas sim as leis”.

O absolutista Hobbes viu corretamente como a Escolástica, a Filosofia cristã da Igreja Católica, com base nos textos de Cícero e de Aristóteles, defendia a democracia, sendo esta a razão do ódio de Hobbes a Suarez, a Bellarmino e à Igreja Católica. De fato, a concepção política jusnaturalista de Sófocles, Protágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, dos estóicos e de Cícero foi acolhida pelos Santos Padres, especialmente nos textos de Santo Ambrósio, São Basílio Magno, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Tomás, Suárez e pelo Vaticano.

A cultura clássica é democrática e popular, e coincide com a cultura hebraica e cristã

No discurso “Grand coeur” (25.09.1949), Pio XII fez uma apologia do humanismo da Paidéia, ensinando, em bom paralelismo com Maritain, que o humanismo cristão (e hebraico) coincide com “tudo o que o humanismo” da Paidéia “traz consigo de verdadeiro, de bom, de grande e eterno”.

Nas palavras de Jacques Maritain, no livro “Humanismo integral” (5ª. edição, São Paulo, Ed. Companhia Editora Nacional, 1965, p. 6): “as fontes do humanismo ocidental [e em partes do oriental, especialmente nas áreas muçulmanas, do Leste Europeu, da Rússia, das Igrejas ortodoxas, da Igreja Copta, da Igreja da Etiópia, da Igreja da Armênia e da Geórgia, e com influências difusas em vastas regiões asiáticas] são fontes clássicas [Paidéia] e fontes cristãs [especialmente hebraicas], e não é somente na massa da antiguidade medieval, é também” em “partes” da “herança da antiguidade pagã, aquela que evocam os nomes de Homero, Hesíodo (cf. “Os trabalhos e os dias”), Sófocles, Sócrates, Virgílio”, que “aparecem os caracteres a que acabo de me referir”. Hesíodo já ensinara que o poder público tem fundamento ético, na justiça (“Diké”), no ideal do bem comum.

O destaque a Virgílio reflete velha opinião da Igreja, como fica claro nos textos de Dante. Maritain também deveria ter destacado Cícero, autor do coração de Leão XIII. E o grande Sêneca, e o magistral Galeno, todos homens profundamente religiosos. 

No mesmo sentido, Pio X, na encíclica “Il fermo”, destacou que a Igreja, desde o início, atuou “conservando e apurando os elementos bons das antigas civilizações pagãs, arrancando à barbárie e adestrando à vida civil as novas gentes”, tendo isso ocorrido “a passos lentos, mas com traços seguros e sempre progressivos”.

No discurso “Grand couer”, Pio XII chamou Santo Tomás de “o maior gênio da Idade Média”, ressaltando a unidade de seus textos com os de Santo Agostinho. Há implícito, nesta apreciação, a tese da unidade essencial entre Platão e Aristóteles, uma tese do platonismo médio, de Antíoco, sendo este o platonismo de Agostinho, um platonismo eclético, aberto ao melhor do aristotelismo e do estoicismo. Pio XII também elogiou Santo Tomás e seu discípulo principal, Suárez. Sobre este ponto, é importante lembrar que os textos democráticos de Suárez e de Bellarmino influenciaram Grócio, Locke, Leibnitz, Jefferson e outros grandes democratas.

O platonismo é democrático, popular, pro socialismo

O platonismo foi uma corrente democrática. O “Dicionário de filosofia de Cambridge” (São Paulo, Ed. Paulus, 2006, p.727), no verbete sobre “Platão”, resume bem a teoria política dos últimos textos de Platão: “a soberania da lei em tal Estado [no Estado ideal de Platão, exposto no livro “Leis”, sua última obra] é continuamente sublinhada. Os cargos políticos devem ser preenchidos por meio de eleições e sorteios, e os magistrados estão sujeitos a cuidadosas investigações e processos. O poder divide-se entre diversos conselhos e funções. A educação filosófica não é um pré-requisito para a participação política”. Depois, o “Dicionário” acrescenta: “é notável que Platão” “tenha dedicado tanta energia para a” “participação popular”, “em sua obra final”. O livro “Leis”, de Platão, foi a base do livro “Política”, de Aristóteles e são obras democráticas.

Cultura clássica e teoria cristã e natural sobre o poder

Os Padres Apostólicos e os Santos Padres adotaram as idéias jurídicas e políticas de Cícero (baseadas no melhor do estoicismo, de Aristóteles, Platão e da tradição romana) por expressarem o melhor da Paidéia e coincidirem com as idéias bíblicas. Também acolheram com amor os textos de Sêneca. Isto fica evidente nos livros de São Gregório de Nissa (335-394), o irmão de São Basílio Magno, especialente o livro “Sobre a criação do homem”, “Vida de Moisés” e “Contra o destino”.

O livro de São Basílio, “Homília aos adolescentes”, também exalta a importância da cultura clássica, da Paidéia, na educação. Esta mesma linha está nos textos de Leôncio de Bizâncio, no século VI, próximos dos textos de São João Damasceno (vide “Fonte do Conhecimento”) e de Boécio (480-525), no elogio aos textos de Aristóteles. Também há os textos de Santo Isidoro de Sevilha, especialmente a grande obra “Etimologias”. Também é a linha de São Beda (674-735), na Inglaterra. O mesmo amor à Paidéia está nos textos de Alcuíno (730-804) e de Scotus Erígena (810-877), reaparecendo em Remígio de Auxerre.

A importância de Cícero (autor de cabeceira de Voltaire, Thomaz Jefferson, Joaquim Nabuco e de Leão XIII) está no fato deste resumir, em bons textos, a teoria política da Paidéia. Em outros termos, resumia teoria democrática, defendida por Hesíodo, Sófocles, Protágoras, Aristóteles, Górgias, Isócrates, Sófocles, Péricles, Clístenes e outros grandes expoentes da cultura grega-romana. Foi esta a teoria acolhida pela Igreja, forjada pela razão e pela graça presente em todos os povos. 

A linda cultura clássica, sempre útil, boa e atual

O amor dos papas italianos, a maior parte dos Papas, na verdade de todos os Papas, pela cultura clássica mostra bem o amor da Igreja pela cultura clássica. Todo o Renascimento mostra isso. E teve como epicentro a Itália, a Igreja. A Igreja sempre apreciou autores como Virgílio, Cícero, Horácio, Catão, Plutarco, Varrão e outros. Este amor à cultura faz parte intrínseca e essencial do catolicismo, um movimento de universalismo, de ecumenismo, de ecletismo verdadeiro. Um exemplo do apreço católico a Cícero e a Sêneca é o livro “Ensinamentos dos antigos”, de Frei Bartolomeo dea San Concordio (1262-1347), que traz textos destes dois autores, mais textos de Ovídio e outros. O bispo Dom Martins Terra, no DF, é outro bom exemplo, pena que não se tenha dedicado quase nada à questão social, um erro, mas pelo menos foi correto ao amar e difundir a cultura clássica, em seus vários livros. 

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