Arquivos para : CNBB e Clero, a favor de Democracia Popular, Estado social

Alguns tópicos do Projeto Social da CNBB, da Igreja, de uma Democracia popular extensa e radical

A CNBB é a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, agrupando mais de 400 bispos (algo próximo a um décimo dos bispos do mundo, que se aproxima de 5.000 bispos católicos).

A CNBB criticou males hediondos como as privatizações, o latifúndio, o imperialismo, capitalismo e a ALCA.

A CNBB patrocina um projeto popular de emenda constitucional (PEC) contra o latifúndio, para proibir o latifúndio (ninguém poderia ter mais de mil hectares).

A CNBB também propôs e colheu milhões de assinaturas para projetos contra a corrupção eleitoral (o projeto ficha limpa e ainda gerou a única lei eleitoral que cassou quem pratica a corrupção eleitoral).

A CNBB defende o financiamento público das campanhas políticas, para livrar o processo eleitoral da influência do dinheiro, do capital.

Há ainda idéias da CNBB, de criação de um governo latino-americano e mundial (destacado por Bento XVI na última encíclica, de 2009), tal como outras boas sugestões sociais.

Na 44ª Assembléia geral da CNBB, em maio de 2006, foi novamente ratificado o projeto do clero brasileiro (e da América Latina), de democratização radical do Estado, inclusive com o instituto da revogação de mandados eletivos:

Democratizar o Estado e ampliar a participação popular. Trata-se de assegurar e ampliar os direitos sociais inscritos na Constituição de 1988, como a universalização dos serviços de saúde, educação, previdência, moradia, segurança, alimentação e respeito às diversidades; regulamentar os processos de referendos e plebiscitos, e constituir comitês populares de acompanhamento dos gastos públicos. (…)

Instituto revocatório de mandatos eletivos

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC), Nº 1/2006, é uma iniciativa da OAB, acolhida pelo Senador Pedro Simon. Na proposta, o artigo 14 da Constituição que trata das várias formas de votação, inclusive dos instrumentos de participação popular, será acrescido de um artigo sobre o instituto revocatório de mandatos eletivos. É justificado pelo princípio basilar da democracia no artigo 1º da Constituição Federal “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. O novo artigo, 14A, diz: “Transcorrido um ano da data da posse nos respectivos cargos, o Presidente da República, ou os membros do Congresso Nacional, poderão ter seus mandatos revogados por referendo popular”. Seus principais parágrafos: o mandato do senador poderá ser revogado pelo eleitorado do Estado por ele representado; o eleitorado nacional poderá decidir a dissolução da Câmara dos Deputados, convocando-se nova eleição, que será realizada no prazo de três meses; o referendo previsto neste artigo realizar-se-á por iniciativa popular, dirigida ao Superior Tribunal Eleitoral; o referendo para revogação do mandato do Presidente da República poderá também se realizar mediante requerimento da maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional, dirigido ao Tribunal Superior Eleitoral”.

Em síntese: o poder legítimo (justo, bom, ético, racional) é fruto da explicitação (da promulgação, da representação) das idéias práticas do povo, das regras e/ou decisões sociais nascidas da consciência da sociedade, da expressão dos interesses, necessidades e aspirações do povo, expressão que ocorre pela via do diálogo, da comunicação, da opinião pública.

A concepção política da Igreja é essencialmente Democrática e popular, cf. Gramsci

Há um comentário de Gramsci bem explicativo sobre alguns pontos da concepção política da Igreja. Este comentário consta do livro de Hugo Assmann, “Sobre a religião” (Tomo II, Salamanca, Ediciones Sígueme, 1975, p. 546). Gramsci comenta um artigo publicado na revista “Civiltà Cattolica” (01.12.1928), com o título “Autoridade e oportunismo”.

Neste artigo, o Vaticano refutava a acusação antiga de Gambetta, que chamava a concepção política da Igreja de “oportunista”, por aceitar revoluções e mudanças de governo, convivendo com os novos governos, inclusive republicanos. Gambetta só estava errado no termo “oportunismo”, pois a Doutrina da Igreja aceita mesmo revoluções e mudanças de governos. Além disso, durante a Idade Média, a maior parte dos governos católicos eram repúblicas, cidades repúblicas. 

Gramsci destacou bem a teleologia, o finalismo católico. Esta teleologia ensina que a finalidade da sociedade e do Estado é o bem comum:

A questão foi examinada na época de Leão XIII e do “ralliement” de um parte dos católicos em relação à República Francesa e foi resolvida pelo Papa com estes pontos essenciais: 1) aceitação, ou seja, reconhecimento do poder constituído; 2º.) respeito prestado a ele como a representação de uma autoridade advinda de Deus; 3º.) obediência a todas as leis justas promulgadas por esta autoridade, mas resistência às leis injustas, com o esforço tendente a emendar a legislação e a cristianizar a sociedade”.

“Para a “Civiltà Cattolica”, isto não seria “oportunismo”, já que este termo deve ser aplicado somente a atitude servil e exaltadora em bloco das autoridades de fato, e não de direito (a expressão “direito” tem um valor particular para os católicos)”.

“Os católicos devem distinguir entre a “função da autoridade”, que é direito inalienável da sociedade, que não pode viver sem uma ordem [organização voltada ao bem comum], e a pessoa que exerce tal função (…). Os católicos se submetem à função, não à pessoa”.

A síntese de Gramsci do conteúdo do artigo está quase toda correta.

O ponto principal é a função pública (de servir ao povo, ao bem comum) do Estado e dos cargos públicos. A concepção política da Igreja destacava a função de promotor do bem comum da autoridade e também distinguia entre leis positivas justas e leis iníquas (leis espúrias, que prejudicam o bem comum, que não obrigam, que devem ser reinterpretadas ou desobedecidas).

A função intrínseca da autoridade é a de defender, tutelar, conservar, ampliar, promover e aumentar o bem comum. O bem comum é a base da “ordem” verdadeira, cf. Santo Agostinho, sendo a base dos deveres, da hierarquia, da disciplina. Tudo deve girar em torno do bem comum.

O Estado é um feixe de funções, cargos, órgãos, instituições e agentes, que devem atuar em prol do bem comum. Os ocupantes podem mudar, mas o ponto central são as funções, a finalidade do Estado, o tanto que ele atende a sua finalidade intrínseca (como também ensinava Galeno), que é servir ao povo, promover o bem comum.

Em resumo: o finalismo católico (teleologia social, cf. Lukács, próprio de todo trabalho social) é intrinsecamente democrático, pois vincula totalmente o Estado à sociedade, dando prioridade à sociedade, ao povo, à pessoa humana, o centro do universo. Da mesma forma, a concepção de “lei positiva justa” tem o mesmo conteúdo. Como explicou Santo Tomás, toda lei (norma estatal) deve ser uma ordenação racional visando o bem comum, devendo ser promulgada pela sociedade ou pelos representantes do povo, com a participação de todos no poder.

A Nota Profética de dom Antonio Fernando Saburido, Arcebispo de Olinda e Recife

Colhi no excelente Brasil de Fato – “O arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio Fernando Saburido, divulgou nesta terça-feira (2) uma nota pública em que critica a falta de “coerência” do presidente Michel Temer (MDB) em declarar Dom Helder Camara como patrono brasileiro dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que corta direitos e políticas sociais da população mais pobre e vulnerável.

Em nota, o arcebispo que hoje ocupa o ministério que já foi de Dom Helder Camara afirma que: “Nos surpreendemos pela ambiguidade desse decreto”, que foi sancionado por Temer no último dia 26 de dezembro, após aprovação do Congresso Nacional.

“O que significa essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e comprometeu todo o trabalho que vinha sendo feito na luta contra todo tipo de discriminações? Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988? E o que dizer da reforma da Previdência Social pela qual esse mesmo governo pressiona de formas ilícitas para vê-la aprovada?”, questionou Dom Fernando.

Por fim, o atual arcebispo de Olinda e Recife conclama o povo brasileiro a seguir “a luta pacífica pela justiça e pela paz. Assim, como fez Dom Helder Camara, trabalharemos pelos Direitos Humanos a partir da defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, das minorias excluídas e de todo ser vivo.”

Confira abaixo a nota na íntegra:

Nota de esclarecimento

Queridos irmãos e irmãs de nossa arquidiocese,

“Felizes sereis quando os homens vos odiarem, expulsarem, insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do Homem. (…) pois era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. (…) Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois era assim que seus antepassados tratavam os falsos profetas” (Lc 6, 22- 23 e 26).

Queridos irmãos e irmãs de nossa arquidiocese,

Todos nós fomos surpreendidos pela Lei n. 13581, de 26 de dezembro de 2017, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República Michel Temer. Declara Dom Helder Camara patrono brasileiro dos direitos humanos.

Todos os brasileiros conscientes e que amam a justiça e o direito concordam que Dom Helder é nosso patrono em toda a luta pacífica pela justiça, pela paz e pelos direitos humanos, tanto individuais, como coletivos das minorias fragilizadas pela sociedade dominante. No entanto, nos surpreendemos pela ambiguidade desse decreto, sentimento já expresso por amigos de Dom Helder, inclusive, Marcelo Barros que escreveu uma profética carta dirigida ao Dom da Paz. O texto dessa lei é sucinto e não explicita motivações, nem consequências. No entanto, nenhum ato dessa natureza é neutro ou sem repercussões.

Em seu tempo, o profeta Jeremias adverte os governantes do seu povo: “Sem responsabilidade, querem curar as feridas do meu povo dizendo apenas Paz, Paz, quando paz verdadeira não existe. Deveriam envergonhar-se, pois o que fizeram foi horrível, mas não se acanham, mesmo eles não sabem o que é ter vergonha” (Jer 8, 11- 12).

É nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos dar peso às palavras e exigir dos poderes públicos coerência em seus posicionamentos. Se a Política que deveria ser um exercício nobre do serviço ao bem comum está tão desacreditada é porque os políticos não primam pela coerência entre o seu falar e o seu agir.

O que significa essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e comprometeu todo o trabalho que vinha sendo feito na luta contra todo tipo de discriminações? Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988? E o que dizer da reforma da Previdência Social pela qual esse mesmo governo pressiona de formas ilícitas para vê-la aprovada?

Como arcebispo de Olinda e Recife, ministério que foi ocupado por Dom Helder Camara, sinto-me, em consciência, obrigado a declarar publicamente que esse decreto presidencial, para ser sincero e coerente, precisa ser acompanhado por outro modo de governar o país e de cuidar do que é público, principalmente do bem maior que é o povo, sobretudo os mais fragilizados.

Em nome de Deus, fonte de Amor e de Vida, conclamo os cristãos e todo o povo brasileiro a prosseguirmos a luta pacífica pela justiça e pela paz. Assim, como fez Dom Helder Camara, trabalharemos pelos Direitos Humanos a partir da defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, das minorias excluídas e de todo ser vivo.

O Espírito de Jesus que nasceu como pobre nos acompanhe e nos fortaleça nesse caminho,

Dom Antônio Fernando Saburido

Arcebispo de Olinda e Recife”. 

A concepção política e econômica da Igreja é o humanismo pleno

A concepção política cristã é a concepção humanista social. Um humanismo pleno. Afinal, por sermos feitos à imagem de Deus, quanto mais humanos formos, mais seremos divinos. 

Este ponto foi bem demonstrado por Jacques Maritain, no livro “Humanismo integral”.

O humanismo cristão é uma síntese entre o pensamento hebraico e o melhor da Paidéia ampliada.

O livrinho da professora Mary Lou Daniel, “A nobre tradição do humanismo cristão” (São Paulo, Ed. Novo Século, 2000, p. 25), expõe a Tradição humanista da Igreja: “o humanismo cristão constitui a mais plena manifestação do conceito clássico grego de Paidéia, na área de formação pessoal”.

A professora Mary Lou Daniel leciona na Universidade de Winconsin-Madiso, nos EUA, sendo especializada em língua portuguesa.

O humanismo cristão está presente nos Santos Padres, tal como em autores como Chesterton, Dorothy Sayers, C. S. Lewis, Newman e milhares e milhares de outros escritores.

Manifesto do Arcebispo de Porto Alegre e de entidades contra o neoliberalismo. Texto divino

Sul 21 – O arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, divulgou nota criticando a “dilapidação do patrimônio nacional” e a “entrega das riquezas naturais à exploração desenfreada de empresas multinacionais, que olham para nossos bens naturais apenas com o olhar da ganância e da avareza”. A manifestação do arcebispo foi encaminhada ao Ato Em Defesa da Soberania e do Patrimônio Nacional, realizado no final da tarde de terça-feira (12), no Auditório Dante Barone, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Promovido por 53 entidades, movimentos, partidos políticos e coletivos sociais, o ato denunciou o processo de entrega de recursos naturais e patrimônio público a empresas privadas, nacionais e internacionais, atualmente em curso no país.

“Em período não distante da história, a Igreja Católica levantou sua voz para restabelecer a democracia. Em período recente, envidou esforços para aprovar a legislação da ficha limpa para inaugurar uma necessária reforma política e para o combate à corrupção. É preocupante o descrédito da política, o avanço da corrupção e a dilapidação do patrimônio nacional”, afirma Dom Jaime Spengler. Destacando que “o patrimônio natural do Brasil é dos brasileiros”, ele defende que é urgente “encontrar caminhos para a defesa do bem comum e do resgate da dignidade dos empobrecidos e desprotegidos”.

O arcebispo cita ainda recente manifestação do Papa Francisco sobre a situação política na América Latina, defendendo a “necessidade de novas forças políticas, que brilhem pela sua ética e cultura, que façam uso do diálogo democrático, que conjuguem a justiça com a misericórdia, que sejam solidárias com o sofrimento e as esperanças dos povos latino-americanos”.  E acrescenta: “Precisamos de crescimento industrial e tecnologia sustentável; precisamos de políticas corajosas para enfrentar o desafio da pobreza, da desigualdade, da exclusão e do subdesenvolvimento. Isso não pode ser alcançado com a entrega do patrimônio natural brasileiro e submetendo a soberania nacional aos interesses do capital especulativo mundial”.

O ato promovido pelo Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação contou com a presença do geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras, que denunciou o processo de apequenamento da empresa com vistas à privatização da mesma e a entrega dos recursos energéticos do Brasil a companhias estrangeiras. Durante o evento foi lançado o “Manifesto em Defesa da Soberania e do Patrimônio Nacional” que faz um alerta para a ameaça do país sofrer um grande retrocesso histórico, perdendo um patrimônio construído por muitas gerações.

Segundo o cientista político Benedito Tadeu César, um dos coordenadores do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação, um dos principais objetivos da iniciativa é resgatar, junto ao conjunto da população um sentimento de pertencimento a uma nação, com um projeto de futuro e de desenvolvimento próprio, ao invés de entregar os recursos e o patrimônio do país a interesses estrangeiros. Segue abaixo a íntegra do manifesto que está aberto a novas assinaturas (para assinar, clique aqui):

MANIFESTO EM DEFESA DA SOBERANIA E DO PATRIMÔNIO NACIONAL                                                                                                                

O Brasil encontra-se, hoje, diante da ameaça de sofrer um retrocesso histórico, de perder um patrimônio econômico construído por muitas gerações e de voltar a uma posição de total dependência externa e de atraso social.

A partir do início do século XX, após mais de três séculos como colônia exportadora de riquezas naturais e agrícolas, dependente e escravista, o país iniciou o projeto de se tornar uma nação soberana e industrializada, capaz de oferecer à sua população o crescente acesso a direitos sociais e à cidadania.

Desde então, foi constante o embate entre aqueles que defenderam esse novo projeto e os que tentaram reconduzir o Brasil ao antigo modelo exportador dependente. Apesar desse embate, o processo de modernização soberana do país avançou, com a construção de instrumentos estratégicos – como a Petrobrás, a Eletrobrás e o BNDES –, com a criação de milhares de empresas privadas e com o desenvolvimento da produção industrial, da geração de emprego e renda e da mobilidade social. O Brasil foi, no século XX, o país do mundo que mais cresceu, apesar da estagnação dos anos de 1980 e 1990.

Hoje, no início do século XXI, o governo federal está revertendo o avanço realizado até aqui, ao encaminhar reformas e iniciativas que contam com a participação de setores do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público, mas que não têm aprovação popular e que levarão o Brasil ao retrocesso, à dependência externa e ao atraso social.

Na área da extração do Petróleo, o governo federal eliminou a exigência legal da presença de empresas brasileiras no fornecimento de insumos para a produção do petróleo, estabelecida como forma de incentivar a indústria nacional. Mais ainda, o governo abriu completamente a exploração do petróleo do Pré-Sal para grandes empresas públicas e privadas internacionais, por preços inferiores ao valor real, sem demonstrar qualquer preocupação com a defesa de uma riqueza estratégica para o desenvolvimento do país.

Além do esfacelamento da Petrobrás, as iniciativas de desnacionalização e privatização de empresas brasileiras afetam também o setor elétrico, fundamental para todos os demais setores produtivos do país, ameaçando inúmeras empresas fornecedoras desse setor estabelecidas em solo nacional.

As iniciativas de desnacionalização e privatização vão além, atingindo recursos naturais essenciais, como os hídricos, o que ficou explicitado na intenção de abrir a duas empresas privadas internacionais a exploração do Aquífero Guarani, um dos maiores mananciais mundiais de água doce.

Tais iniciativas chegam a atingir a Caixa Econômica Federal, um dos principais instrumentos governamentais para a implantação de políticas sociais públicas, e até a Casa da Moeda do Brasil.

Acelerando de forma radical o processo de desnacionalização e privatização, o governo federal, sem informar pela imprensa e sem qualquer debate público, criou as condições para a venda das mais importantes empresas brasileiras, através do decreto nº 9.188/2017, de 1º de novembro de 2017, no qual estabeleceu a possibilidade de vender, sem licitação pública, empresas como a Petrobras, a Eletrobrás e o Banco do Brasil.

Com esse decreto de “desinvestimento”, abre-se o caminho para a venda parcial, majoritária ou total, em tempo recorde e a qualquer preço, já que sem licitações públicas, das mais estratégicas empresas estatais, criadas por governos com diferentes posições políticas e ideológicas, para se constituírem em instrumentos de um projeto de desenvolvimento soberano do país.

Essa mesma política está sendo adotada pelo governo do Rio Grande do Sul, que hoje acelera os preparativos para a privatização do sistema financeiro estadual e regional – Banrisul, BADESUL e BRDE – e de empresas do setor energético e de mineração – SULGAS e CRM –, assim como para o fechamento de Fundações estratégicas para o desenvolvimento estadual.

Na área da defesa nacional, fundamental para a soberania do país, o governo federal interrompeu o desenvolvimento do programa nuclear brasileiro e permitiu o acesso de autoridades estrangeiras a tecnologias sensíveis desse programa. Permitiu, ainda, a presença de tropas norte-americanas na estratégica região da Amazônia, em exercício conjunto com tropas brasileiras, e divulgou a intenção de realizar a entrega da Base Militar de Alcântara para uso privativo dos Estados Unidos, medida que já fora rejeitada pelo Congresso brasileiro em 2001.

Além disso, o governo federal está levando adiante inúmeras medidas e reformas antissociais, como o congelamento dos gastos públicos, que agrava ainda mais as condições dos sistemas públicos de saúde, educação, segurança e previdência social, bem como das instituições voltadas para a geração de ciência e tecnologia, fundamentais para o desenvolvimento econômico e social do país.

O Brasil já provou, desde o início do século XX, que é capaz de levar à frente um projeto de desenvolvimento soberano. Para avançar nesse projeto, o país precisa de uma vasta rede de empresas, especialmente no setor industrial, mas também nos setores agrário e de serviços, públicas e privadas, apoiadas em geração de ciência e tecnologia avançadas. Precisa também de instituições de financiamento próprias, de um mercado interno fortalecido e de mão de obra qualificada.

Não há futuro para uma nação que não preserve seu patrimônio e que não tenha autonomia para promover o desenvolvimento econômico capaz de propiciar justiça social a toda sua população, garantindo proteção ao trabalho, saúde, educação, previdência social e segurança pública de forma universal e de qualidade.

Hoje, para que o Brasil possa se desenvolver como Nação soberana, é preciso que a população esteja unida em torno de um governo legitimamente eleito, debatendo as reformas necessárias ao país e decidindo seu futuro de forma democrática e autônoma.

Para começar essa nova etapa da vida nacional, defendemos:

1) a suspensão das medidas antinacionais do atual governo federal;

2) a garantia de eleições livres, diretas e democráticas;

3) a realização de referendum popular, com amplo debate público, para a confirmação ou revogação das reformas aprovadas e dos decretos editados pelo atual governo sem consulta à população.

É hora de nos unirmos e manifestarmos para preservar o patrimônio público, social e econômico da Nação brasileira e garantir o futuro das próximas gerações.

CNBB e a Democracia popular participativa, nossa linha social

A CNBB, em 1986, sua 24ª Assembléia Geral, ao aprovar o documento “Por uma nova ordem constitucional”, como contribuição para a Assembléia Constituinte que geraria a Constituição de 1988, destacou um ponto essencial na concepção racional e cristã sobre política:

A sociedade deverá ganhar a condição de sujeito coletivo da transformação social, conquistando instrumentos de uma democracia que lhe permitam organizar e controlar a ação do Estado, colocando-o a seu serviço”.

A sociedade, o povo, deve ser o “sujeito da história, para o efetivo exercício da cidadania e para o reencontro da sociedade consigo mesma”.

O povo torna-se sujeito na medida em que amplia sua “auto-organização”, sua “autodeterminação”, seu controle sobre a própria vida e sobre os bens, possibilitando a nova criação de novos direitos positivos, especialmente de natureza social e econômica.

A Igreja participou de cada Assembléia Constituinte no Brasil, lutando, em todas, por democracia política, social e econômica. 

A Igreja é formada pelo Clero e pelos leigos católicos, pelo povo católico, que teve participação positiva e fecunda contra as opressões, mas a luta contra as oligarquias é constante.

O correto é a igualdade social. 

Pio XI, em carta ao Episcopado brasileiro, lembra opção preferencial aos operários e camponeses

Pio XI, numa “Carta ao Episcopado brasileiro”, já frisava que “o principal desvelo” deve ser “sempre em favor das classes” oprimidas, “máxime operários e camponeses, aos quais a Igreja, seguindo o exemplo de seu Divino Fundador, consagrou sempre amor de predileção”.

Uma boa lição de João Paulo II, na “Laborem exercens”, 1981

João Paulo II, na “Laborem exercens” (14.09.1981), ensinou que “o trabalho humano” (os movimentos humanos) deve buscar “o pão” (os bens para uma vida plena), “contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica” e “sobretudo para a incessante elevação moral e cultural da sociedade na qual vida em comunidade com os próprios irmãos”.

Método ver, julgar e agir, consagrado pela Igreja

A Igreja Católica consagrou o método ver-julgar e agir.

Como ensinou Paulo VI, em 1971, na “Octogesima Adveniens” (n. 4), “cabe” “às comunidades” (os povos), especialmente aos leigos:

1) “analisar, com objetividade, a situação própria de seu país e procurar iluminá-la” (“ver”, mediação sócio-analítica);

2) sugerindo, pela luz natural da razão e da Revelação, “opções e compromissos que convém tomar” (“julgar”, mediação hermenêutica);

3) para realizar as transformações sociais, políticas e econômicas que se apresentam como necessárias e urgentes” (“agir”, mediação prática).

Ver é fazer exames de conjunturas e estruturas, com objetividade, mediação sócio-analítica.

Julgar é a mediação hermenêutica, análise crítica, formulação de propostas.

E agir é por em prática, militar, lutar, combater os opressores, os males sociais.

A lição do Sínodo Extraordinários dos Bispos Católicos, em 1985 – denunciar toda forma de miséria e de opressão.

A Igreja Católica tem cerca de 1,3 bilhões de católicos, quase meio milhão de padres e cerca de cinco mil Bispos.

Estes Bispos se encontraram no Sínodo Extraordinário dos Bispos, em 1985, onde ensinaram, em unidade com o Papa: “a Igreja deve denunciar, de maneira profética, toda a forma de miséria e de opressão, e defender e fomentar em toda a parte os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa”.

Ressaltaram que “a doutrina social da Igreja” sempre exige a “promoção humana, em circunstâncias sempre novas”, com ênfase na “opção preferencial pelos pobres”, pelos oprimidos.

Destacaram que “os aspectos naturais e os sobrenaturais” são distintos, mas não há “separação”.

A “missão espiritual” exige “a diaconia [serviço, ajuda, colaboração] em favor do mundo”, “a promoção também no campo material”.

— Updated: 20/02/2018 — Total visits: 21,808 — Last 24 hours: 62 — On-line: 0
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