Arquivos para : Capitalismo de Estado, pontos bons e maus, trigo e joio

Georg Kondratiev e sua tragédia

Georg Kondratiev foi um economista soviético, que criou uma teoria sobre os ciclos longos da economia. Teoria útil para ajudar no planejamento público da economia. Colhi de um estudo, o texto adiante transcrito sobre a tragédia da vida de Kondratiev – “já vinha sendo fortemente criticado dentro do Instituto de Moscou para Pesquisa Conjuntural (Koniunkturny Institut)” (…) após publicar um estudo, em 1928, foi destituído da direção do Instituto. Em 1930, foi preso, acusado de ser o líder de um partido camponês de oposição; e, em 1931, foi condenado a oito anos de prisão na Sibéria. Sua pena foi revista e foi condenado a morte em 1938″.

Os textos de Kondratiev, também atacados por Trotski, são importantes para o planejamento estatal da economia. Vão na mesma linha dos textos de grandes autores como Nicholas Kaldor ou Oscar Lange (1904-1965), tal como Michael Kalecki, Nurkse, Hobson, Keynes e outros grandes trabalhistas e socialistas democráticos. O mesmo para François Perroux. São textos essenciais para uma boa economia mista, que supere o capitalismo. Acredito que Kondratiev, como Chayanov e Bukharin, queriam, no fundo, manter a NEP, um modelo de economia mista, na URSS, que poderia, depois, evoluir para uma boa democracia popular, com economia mista, como acabou ocorrendo, em parte, com a China, o Vietnam, Cuba, a Coréia do Norte etc. 

Os críticos da economia mista erraram. A economia mista é o caminho para superar o capitalismo

Ernst Mandel, fiel aos erros do trotskismo, criticou Paul M. Sweezy (1910-2004) e Paul A. Baran (1910-1964), porque estes dois autores achavam que a economia, depois da segunda guerra mundial, atingira o estágio de capitalismo monopolista, onde a economia se divide entre um setor de pequenas e médias empresas e outro setor de monopólios, inclusive monopólios estatais. Mandel não aceita que a intervenção estatal na economia poderia diminuir as contradições internas do modo de produção capitalista. Vale a pena lembrar que as concepções de Sweezy reprisavam, com diferenças, as ideias do economistas da economia mista.

Mandel, no livro escrito em 1972, estava, na verdade, atacando as ideias de Werner Sombart, que criou a expressão “capitalismo tardio”, para designar o capitalismo organizado, regulamentado e com ampla intervenção do Estado. A meu ver, a forma como o capitalismo será superado é pela intervenção estatal, com estatais, com moderações via legislação, por reformas sociais, graduais. Este é o caminho defendido por Alceu e por muitos socialistas democráticos. Mandel não citou o nome de Sombart, mas os textos de Mandel deixam claro que seu objetivo era atacar Sombart.

Sobre Sombart, vou postar mais textos, inclusive com erros deste economista sobre os judeus, embora o livro de Sombart reconheça os méritos dos judeus na área da economia. Sombart era meio antissemita, mas também soube elogiar a grandeza do povo judeu. Este ponto merece mais desenvolvimento em outras postagens. 

Capitalismo de Estado, parte boa e má

João Paulo II, na “Centesimus” (1991), é bem claro, mostrando que a Igreja quer uma economia mista. Ele, no item 35, rejeita o “sistema econômico” capitalista, que é a “prevalência absoluta do capital, da posse dos meios de produção e da terra”; tal como rejeita o “sistema socialista” (“que, de fato, não passa de um capitalismo de Estado”). Os dois sistemas, capitalismo e socialismo, neste conceito estrito, são unilaterais. O correto é uma sociedade baseada no “trabalho livre”, combinando empresas e controle “pelas forças sociais e estatais”, harmonizando liberdade e justiça, para “garantir a satisfação das exigências fundamentais de toda a sociedade”. Então, ao lutar contra o capitalismo liberal, os católicos não querem abolir o mercado. E ao lutar contra o capitalismo estatal exclusivo (“socialismo real”), não querem abolir o Estado, as estatais, o planejamento público participativo etc. Querem uma síntese, uma boa economia mista, que era a síntese defendida por Platão, nas “Leis”, por Aristóteles (na “Política”), pelos estóicos etc. 

No fundo, esta síntese foi buscada até por Lenin, que queria, no início e durante o NEP, um modelo de capitalismo estatal (estatais para grandes meios de produção) e campesinato, e pequenas e médias empresas familiares. Esta síntese foi defendida principalmente por Bukharin. Esteve presente no modelo de Democracias populares depois da Segunda Guerra. Estava presente no modelo de Pio XI, na “Quadragesimo anno”, onde Pio XI defende a estatização dos grandes meios de produção (os bens que atribuem excesso de poder devem ser do Estado ou de cooperativas sob controle do Estado). E esteve presente nas ideias dos socialistas democráticos, dos trabalhistas, do New Deal, no modelo de socialismo judaico nos primeiros anos de Israel (sob os governos trabalhistas), no trabalhismo inglês, australiano, dos países do Norte Europeu, da Índia, nos nacionalismos do terceiro mundo (Egito, Argentina, Irã, Brasil, México, Africa do Sul com Mandela etc). Todas estas sínteses são baseadas na economia mista. Esta síntese está presente nos melhores textos de Mao, no modelo socialista chinês, tal como está no Vietnam, em Cuba, na Venezuela etc. 

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