Arquivos para : As origens cristãs e hebraicas da socialização, do melhor do socialismo

A religiosidade de Anatoli Lunacharsky, a religião na Rev. Russa

Anatoli Lunacharski (1875-1933) foi o primeiro Ministro da Educação (Comissário do Povo para a Educação), de 1917 a 1929, na URSS. 

Lunacharsky tinha alguma religiosidade. Ele escreveu o livro “Religião e socialismo”, ressaltando que “haverá um Deus vivo que trará a todos a felicidade e será onipotente. Esse Deus, nós é que o construiremos”.

Esta idéia está correta no tocante a parte de Deus que é a Comunidade divina, o “Corpo místico” de Deus, o “reino”, o Templo Místico, a Comunidade (Comunhão) ou “república” de Deus, construída por nós, com a ajuda de Deus, onde nós somos as “pedras vivas”. 

Deus nos criou para sermos co-divinos, Filhos de Deus, co-governantes do universo, co-redentores, co-juízes, colaboradores de Deus, sócios, Amigos, Filhos queridos de Deus. Fomos criados para sermos as “pedras vivas” do Templo, cf. imagem usada por São Pedro (Pedro significa Pedra, Petra…).

A corrente dos “construtores de Deus” fazia parte da Revolução russa, com Lunacharsky, Gorki e outros.

Existiam elementos (ideias) verdadeiros de religiosidade nesta corrente, vindas do judaísmo e do cristianismo. 

Bento XVI e Franz Oppenheimer: Democracia tem fontes teóricas hebraicas e cristãs

O sociólogo judeu, Oppenheimer, redigiu sete volumes da obra “Sistema da sociologia”, de grande amplitude. Ele refutou os erros do “darwinismo” distorcido por conta de autores como Gumplowicz, que cultuavam a força (erros ligados também ao pan germanismo, a vários autores ligados à Bismarck).

Bento XVI resgatou bem as idéias de Franz Oppenheimer. Vejamos o texto do papa, inclusive lembrando que a Democracia cresceu, usando o modelos das “constituições monacais” e das estruturas democráticas da Igreja (eleição de Papas, eleição de Bispos etc):

“Não posso senão concordar com o que Oppenheimer disse. Hoje sabemos que o modelo democrático se desenvolveu a partir das constituições monacais que anteciparam esses modelos com os capítulos e a votação. Assim, a ideia de um direito igual para todos pôde encontrar a sua forma política”.

“É claro que antes já tinha havido a democracia grega [e antes a Democracia na Mesopotâmia, nos demos egípcios, nas cidades fenícias, nas cidades hebraicas etc], da qual vieram impulsos decisivos, mas que teve de voltar a ser transmitida depois da queda dos deuses. É um fato conhecido que as duas democracias originárias, a americana e a inglesa, se baseiam num consenso de valores que vem da fé cristã e que só puderam e podem funcionar quando existe um consenso básico no que diz respeito aos valores. De outro modo, elas se dissolveriam e se desfariam. Pode-se, pois, fazer um balanço histórico positivo do cristianismo, o qual levou a uma nova relação do homem consigo mesmo e a um novo modo de ser humanitário. A democracia grega antiga baseava-se na garantia sagrada dos deuses”.

A democracia cristã da época baseia-se no caráter sagrado dos valores garantidos pela fé que são subtraídos à arbitrariedade das maiorias. Precisamente o que disse há pouco sobre o balanço do século XX mostra também que, quando se retira o cristianismo, voltam a irromper, de repente, forças arcaicas do mal que estiveram banidas por causa dele. Pode-se dizer, de um ponto de vista puramente histórico, que não há democracia sem um fundamento religioso, “sagrado”.

Franz Oppenheimer e Bento XVI ensinaram que é “um fato conhecido que as duas democracias originárias”, mais conhecidas, “a americana e a inglesa, se baseiam num consenso de valores [idéias éticas, práticas, idéias simples, de uso cotidiano] que vem da fé cristã” (no plano humano, da síntese entre a fé hebraica com a Paidéia).

A fé cristã aproveitou as idéias naturais e práticas, acolhendo-as, pois a religião cristã é baseada na razão e na fé (nunca é irracional, mas sim, supra-racional).

Conclusão: a Bíblia (o pensamento hebraico concentrado) e o melhor do pensamento antigo (da “Paidéia”) têm, em suas entranhas (essência), um conjunto de idéias jusnaturalistas-democráticas, pois defendem o primado da pessoa (logo, a destinação universal dos bens), os direitos humanos naturais, as idéias e as necessidades presentes na consciência da sociedade.

O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

Pio XII chancelou a doutrina de Suarez, sobre a origem democrática do Estado

Pio XII, em 20.02.1946, no documento “La elevatezza”, ensinou que “a sociedade, no seu conjunto” tem “a sua origem próxima” na “pessoa humana, imagem de Deus”, abonando, assim, a tese de Suárez e dos Santos Padres, que ensina que as pessoas (a natureza, especialmente as pessoas) são a “origem próxima”, imediata, do poder legítimo, do direito justo.

Deus é a Causa Primeira, Mediata, atuando, em geral, por mediações, pelo povo, pelas pessoas. Em outros documentos, Pio XII elogiou Suarez e São Roberto Bellarmino, Doutor e Santo da Igreja, ambos jesuítas. 

Pio XII foi bem claro: “a família e o Estado”, “como a sociedade mesma em geral, tem sua origem próxima [imediata] e seu fim [finalidade] no ser humano completo, na pessoa humana, imagem de Deus” (estes textos foram bem explicados por Alceu, Edgar de Godói da Matta Machado e outros luminares, no Brasil).

Enfim, Deus é a fonte mediata, última, originária, Fonte Primária, Motor primeiro, mas atua por mediações. Suárez explicou esta tese interpretando os melhores textos da Patrística e do tomismo, expondo a tese principalmente no livro “De legibus” (livro III, capítulos I a IV) e na obra “Defensio Fidei contra Jacobum regem” (livro III, capítulos I a III, onde refutou o rei Jaime I, da Inglaterra, que era anglicano).

Num parêntese, Jaime I (1566-1625) era o filho de Maria Stuart. Ele sucedeu a rainha Isabel, anglicana, no trono da Inglaterra, em 1603. Já no início do seu governo enfrentou a Conspiração da Pólvora, em 1605, articulada com a ajuda dos jesuítas.

Um dos primeiros atos e Jaime I (também rotulado como IV) foi a expulsão dos Jesuítas. Expulsou também os primeiros batistas. Os textos monarcómacos dos jesuítas foram também queimados em Paris, quase simultaneamente. O rei Jaime I (também conhecido como Jaime IV), o primeiro monarca da Casa dos Stuarts, era dado às letras e, apesar do pecado de ser absolutista, teve o mérito de organizar a famosa tradução da Bíblia, chamada “Bíblia do rei James” (1611), com excelente texto inglês. Texto que marcou profundamente a língua inglesa, junto com os textos de Shakespeare (1564-1616), o gênio dramaturgo que teve o apoio de Jaime I. Hobbes apoiou a causa dos Stuarts, apoiando o absolutismo, e criticando Bellarmino, Suarez, Mariana e outros padres da Igreja, que defendiam a democracia. 

A influência cristã na Rev de 1917, na Rússia; e na China

Nikolai Berdiaev (1874-1948), no livro “Fontes ou sentido do comunismo russo” (1939), mostrou que o comunismo difundiu-se na Rússia como “uma deformação [secularização] da velha idéia messiânica russa”. 

Dentre as causas teóricas da revolução russa, houve correntes cristãs como o tolstoísmo, os elementos cristãos de vários populistas e as formas religiosas do socialismo (entre várias, o grupo judaico “Bund” e o grupo “Construção de Deus”).

Houve, ainda, o rascolnismo (um movimento de cisão entre os ortodoxos, de 1659, que não aceitou ingerência estatal na direção da Igreja ortodoxa) e também o catolicismo presente em alguns rebeldes como Chadaiev.

Leonardo Coimbra escreveu que “o bolchevismo” é “um extremo lógico do Raskol”.

Houve, na Revolução russa, uma influência subterrânea cristã, especialmente de parte dos ortodoxos rompidos com o Czar desde Pedro, o Grande.

Mesmo na China, há e houve um movimento subterrâneo de idéias cristã na Revolução “Taiping” (lá por 1850, explicitamente cristã) e na implantação da República, em 1911. 

Pio XI – o socialismo tende para as verdades cristãs, seus pleitos concordam com os pleitos católicos

Pio XI, na encíclica “Quadragesimo Anno” (1931), ensina sobre o socialismo:

o socialismo aterrado com as conseqüências que o comunismo deduziu de seus próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou e delas em certa maneira se aproxima; porquanto é inegável que às suas reivindicações concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social”.

Ou seja, os socialistas democráticos, em 1931 e antes mesmo, tendiam “para as verdades que a Tradição cristã sempre solenemente ensinou”.

E mais, “delas em certa maneira se aproxima”, mostrando a aproximação entre católicos e socialistas, especialmente na França, na Alemanha, no Reino Unido e nos EUA (o New Deal apenas consagraria isso), na época.

Além disso, cf. Pio XI, “suas reivindicações”, dos socialistas, “concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social”.

O Papa diz ainda que os pleitos dos socialistas “em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta, não tem razão para declarar-se socialista”, pois são pleitos católicos também.

No Brasil, Domingos Velasco, Alceu e outros seguiram esta linha, tal como Getúlio, Barbosa Lima Sobrinho, Pontes de Miranda, Paulo Bonavides e outros. 

Pio XI recomendava “mostrar aos socialistas que as suas reclamações, naquilo que se mostram justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade”. 

Como fica claro, a fé cristã exige defesa muito mais vigorosa das reivindicações populares defendidas pelos socialistas e católicos. A caridade nos leva a ação mais eficaz na defesa destas reivindicações do povo. 

 

O socialismo nasceu eclético, humanista, com amplas fontes cristãs e hebraicas

O socialismo nasceu eclético, com amplas fontes cristãs.

Este ponto consta claramente no livro “Manifesto do partido comunista”, de Marx e Engels.

E conta no livro “A subversão da ciência pelo sr. Eugen Düring [Anti-Düring]”, publicada em 1878, de Engels.

Engels escreve que o “socialismo” francês da época era “uma espécie de socialismo eclético”, com “nuances extremamente variadas, apresenta uma mistura das mais opacas omissões críticas, sentenças econômicas e ideias do futuro da sociedade de diversos fundadores de seitas”.

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