Arquivos para : A “Fórmula” Alceu e Dom Hélder: trabalhismo, destinação universal dos bens, primado do trabalho, Democracia Popular PARTICIPATIVA, estatais, economia mista etc

Alceu sempre defendeu um tipo de socialismo democrático trabalhista, nacionalista, de democracia popular

Alceu Amoroso Lima adere a teses de um socialismo católico e democrático desde suas primeiras obras.

Alceu, mesmo antes da conversão, defendeu as candidaturas de Rui Barbosa, que defendia uma “democracia social” (nome, na época, do socialismo democrático) e reformas sociais.

Alceu foi um dos que carregaram, nos braços, Graça Aranha, socialista democrático, na sessão da Academia de Letras, em 1924. E Alceu defendeu sempre o modernismo, numa síntese com o melhor do romantismo, como a literatura popular e nacional. Graça Aranha não era materialista, tinha religiosidade, defendendo um tipo de panteísmo.

Alceu era discípulo de Maritain, que defendia o socialismo democrático na Espanha, contra o franquismo. Alceu seguia Maritain, Mauriac, Alfredo Mendizabal, tendo ao lado estrelas como Mata Machado, Murilo Mendes e outros.

Sergio Milliet escreveu corretamente sobre Maritain: “Em política, coerente com a sua filosofia de uma verdade total e sintética, exigindo, portanto, de seus servidores uma atitude total e sintética, Maritain tomaria partido pela liberdade e a democracia. Em economia seria socialista.” (Sergio Milliet em “Homenagem a Maritain” artigo do “Estado de São Paulo”).

No final da vida, Alceu seguia principalmente Mounier e Merton, que defendiam coligações com os socialistas e com os comunistas, em prol da superação do capitalismo.

Alceu, como Pontes de Miranda, morre, declarando-se como socialista democrático católico.

Alceu defende o trabalhismo e o nacionalismo, desde suas primeiras obras. Deixa isso claro, no livro “Política”, em 1932, defendendo a estatização da energia, dos transportes coletivos, das minas e dos grandes bens produtivos.

Depois, em várias obras repete o mesmo, com ênfase, de 1935 em diante, com ênfase em 1943, e, mais tarde, cada vez mais à esquerda.

Alceu defendeu o New Deal desde o início, e lutou pela aproximação entre Getúlio e Franklin Roosevelt. Roosevelt veio duas vezes ao Brasil, prestigiar Getúlio.

Alceu defendeu sempre o legado trabalhista e nacionalista de Getúlio, do PTB, as estatais, a legislação operária, a Previdência, a expansão do Estado, os controles públicos de preços, as diversas formas de intervenção do Estado na economia etc.

Por exemplo, escreveu em 1949:  que um sistema socialista pode ser “legítimo, porque associou sinceramente a ordem econômica, que pretende impor pela socialização dos meios de produção, às liberdades humanas essenciais” (“Folha da Manhã” de S. Paulo, 15 de maio de 1949). Um tal sistema seria “legítimo e insuspeito por mais que os capitalistas, os neofascistas e os policialistas o considerem com desconfiança” (art. citado).

Alceu, no livro “O problema do trabalho”, deixa clara a primazia do Trabalho sobre o capital e as terras. E escreve:

Podemos falar em século socialista sem negar a variedade que ainda existe nas formas de organização econômica. E sem nos esquecermos de que a incompatibilidade da doutrina da Igreja com o socialismo, é apenas no terreno da filosofia da vida. É do socialismo materialista que a Igreja se separa radicalmente” (obra cit., pag. 152).

Em quase todas as obras, Alceu elogia os fabianos e o Trabalhismo inglês, tal como as boas teses do New Deal, e dos expoentes do Partido Democrático, nos EUA.

Alceu escrevia:

O socialismo — dominante na Inglaterra e representado pelas idéias de Harold Laski e por um grande movimento partidário em toda a Europa continental — é o partido das nacionalizações econômicas e da democracia trabalhista dirigida pelo Estado. Cada vez mais se acentua nele o predomínio das preocupações econômico-políticas, com a plena liberdade de filosofia e religião. É talvez o mais importante dos partidos políticos de após-guerra, na Europa. E o de mais futuro, pois está tendo cada vez mais a inteligência de não confundir as liberdades morais e cívicas essenciais, com a desastrosa liberdade econômica do capitalismo” (“O Problema do Trabalho”, pag. 136).

Alceu elogiava São Tomas Morus. No livro “A Igreja e o Novo Mundo”, Alceu escreveu:

“Entre a Arcádia de 1502 e o Príncipe de 1532, surgia a Utopia em 1516… Morus representava o Cristianismo mais puro do Renascimento. Olhava para o Novo Mundo como um campo possível de irradiação da Fé e como modelo possível para o mundo novo” e

“Sucedia, porém, que o livro de Morus, longe de representar, como tão frequentemente se afirma, o marco inicial moderno do socialismo – que teria passado de utópico a científico – foi, dentro de certos limites, uma solução cristã, por eminência e superação, dos dois extremos representados pelo neopaganismo de Sannazaro e de Machiavel. Daí significar ele, para nós católicos do limiar da idade nova, algo de semelhante ao que o Contrato Social de Rousseau representou para os iniciadores da civilização democrático-liberal ou o Kapital de Marx para os propugnadores de uma Ordem Nova comunista”.

“Em linhas gerais, porém, é a base de uma ordem social baseada na justiça e no amor, como deve ser toda ordem social verdadeira”.

Alceu completava, dizendo que como o livro “Cidade de Deus” de Santo Agostinho foi a Bíblia social da Idade Média, a Utopia de Tomaz Morus “poderá vir a ser, embora em plano bem diverso, com as limitações indicadas, uma Bíblia Social da Idade Nova”.

Alceu ainda dizia: “Foram os homens primitivos [nossos índios], os homens até então tomados como monstros e a quem muitos duvidavam atribuir uma alma humana, que o grande humanista britânico foi buscar como modelos para a humanidade desorientada de seu tempo”.

De fato, o HUMANISMO é basicamente uma criação católica, e isso foi frisado por Pio XII: “Se bem que o humanismo tenha por muito tempo pretendido se opor formalmente à Idade Média que o precedeu, — não é menos certo que tudo o que ele comporta de verdadeiro, de bom, de grande e de eterno pertence ao universo espiritual do maior gênio da Idade Média, São Tomaz de Aquino. Em seus traços gerais, o conceito do homem e do mundo, tal qual aparece na perspectiva cristã e católica, permanece no essencial idêntico a si próprio: tal em Santo Agostinho, como em São Tomaz de Aquino ou em Dante; tal ainda na filosofia cristã contemporânea” (Alocução aos membros do Congresso de Estudos humanistas, a 25 de setembro de 1949).

Lição boa de Alceu Amoroso Lima, no livro “Os direitos do homem e o homem sem direitos”, 1974

Alceu Amoroso Lima, no livro “Os direitos do homem e o homem sem direitos” (Rio, Ed. Francisco Alves, 1974, p. 36), ensinou sobre a convergência entre catolicismo e socialismo:

“O socialismo democrático, a “socialização” cristã, o solidarismo ou a “participação com o que o gaullismo procurou responder aos movimentos sociais na França, no mês de maio de 1968, todos se apoiam na tendência ao TRABALHO ASSOCIADO, único que realmente pode corresponder às exigências de um Código dos Direitos do Homem, de tipo autêntico”.

Alceu elogiava o primeiro De Gaulle, um grande católico social, que liderou a Resistência Francesa, contra o nazismo, na França, tal como o último De Gaulle, no final dos anos 60.

No final da vida, De Gaulle queria transformar todas as grandes empresas francesas em Cooperativas, com direito dos trabalhadores na gestão e nos lucros, tal como ampla Planificação estatal participativa da economia.

De Gaulle queria o fim do colonialismo e teve o mérito de dar fim à colonização francesa na Argélia.

De Gaulle combateu duramente a OTAN, tal como o FMI e o fato dos EUA emitirem o dólar como “moeda mundial”, coisa que De Gaulle odiava, corretamente. 

Nos EUA, os católicos lutaram por políticas praticamente socialistas, trabalhistas, economia mista

A luta dos católicos faz parte intrínseca e essencial do New Deal, também apoiado pelos comunistas, nos EUA.

Friso que até padres mais a direita, como o padre Hamilton Coughlin (1891-1977), também apoiaram o New Deal, em várias ocasiões, tal como ideias mestras do New Deal.

As ideias mestras ainda atuais do New Deal são as ideias de uma Democracia popular, economia mista, Estado social, estatais, controles estatais de preços, impostos altos para ricos, controles públicos da economia, democracia participativa etc.

No fundo, é isso que busca a esquerda do Partido Democrático, nos EUA, com estrelas ótimas como Sanders, e antes com George S. McGovern, a corrente institucionalista de GALBRAITH, os melhores Kennedy, Jimmy Carter e outros. 

Coughlin PECOU, mas teve coisas boas em sua vida. Foi ordenado padre em 1916. Era canadense e foi trabalhado subúrbio de Detroit, onde fundou uma paróquia. Combateu a Ku Klux Khan local, que hostilizava imigrantes e a maior parte dos imigrantes era de católicos. Atacou duramente o governo republicano de Herbert Hoover, que gerou a GRANDE CRISE de 1929.

Coughlin atacava os banqueiros privados e o neoliberalismo. Nestes pontos, Coughlin estava correto. Friso que ter atacado a Ku Klu Khan sempre é algo divino.

A Ku Klu Khan, desde suas origens em meados do século XIX até o século XX e XXI, odeia e continua a odiar CATÓLICOS, JUDEUS, COMUNISTAS e NEGROS.

O ódio da Khan a CATÓLICOS, JUDEUS, NEGROS E COMUNISTAS faz parte do PIOR do Tea Party, do pior da ala dos Republicanos nos EUA, da ala da Sociedade John Birch, dos nazistas dos EUA e de outras pragas.

Acredito que o VOTO DOS JUDEUS, nos EUA, quase SEMPRE nos Democratas, tem, como uma das causas, além da BOA ÉTICA JUDAICA PRO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, a briga contra as ideias da Ku Klu Khan dentro dos Republicanos, de gente como Trump e outras.

Lembro que as leis de cota e de integração, nos EUA, tal como a luta dos negros, especialmente a parte ligada ao santo Martin Luther King, foram lutas do Partido Democrático, dos católicos, dos judeus, dos comunistas e, principalmente, dos NEGROS.

Lembro também a grande figura de Malcolm X, a meu ver, no mesmo plano de Luther King.

Martim Luther King, Malcolm X, John Kennedy, Robert Kennedy foram assassinados pela DIREITA REPUBLICANA nos EUA, com a ajuda da Máfia, da CIA, do FBI etc. 

Nas eleições de 1932, Coughlin apoiou a primeira eleição de Franklin Delano Roosevelt, o New Deal.

Com a ajuda do voto católico maciço, tal como do voto judaico maciço e do voto comunista e socialista maciço, friso o voto do CLERO CATÓLICO NOS EUA, Roosevelt venceu.

Coughlin, como todos os católicos, atacava o capitalismo liberal e defendia o “capitalismo de Estado”, ou seja, a estatização de PARTE dos bens produtivos, dos GRANDES meios de produção. 

O capitalismo de Estado, economia de transição, foi também adotado por Lenin, que defendeu a Nova economia, o NEP, que teve Nicolau Bukharin como dos maiores defensores. Se o NEP, na Rússia, tivesse continuado, a Federação Russa, a URSS, hoje, seria a MAIOR DAS POTENCIAS ECONÔMICAS, pois era a ECONOMIA MISTA, ponto correto, a meu ver, adotado pelos chineses, hoje, na ECONOMIA DE MERCADO SOCIALISTA.

Os chineses (e o Vietnam, e Cuba, e até a Coréia do Norte, hoje) adotam economia MISTA, parte estatal e parte privada (deveria ser apenas de MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS, sem BILIONÁRIOS, claro, é um erro da China ter bilionários…e outros erros sobre trabalho infantil etc).

Como fica claro, há pontos comuns entre católicos, socialistas e comunistas. Pontos essenciais como substituir o Big Business, o GRANDE CAPITAL, por ESTATAIS, pelo ESTADO. FRISO QUE ESTA IDEIA FOI ESPOSADA por Pio XI, na Quadragesimo anno, em 1931, antes do New Deal.

Nos termos de Pio XI, os bens produtivos que atribuem grande poder devem ser do Estado ou de grandes cooperativas produtivas, sob controle estatal. Este ponto TAMBÉM destacado por Pio XII (brandamente) e, PRINCIPALMENTE, por JOÃO XXIII e Paulo VI, tal como por FRANCISCO I, hoje. 

A linha dos católicos, nos EUA e no mundo, era próxima do movimento Free Silver, do populismo dos EUA, irmão do populismo russo. 

Os católicos eram protecionistas e queriam ampla emissão de papel moeda do Estado para obras públicas, AMPLA INTERVENÇÃO ESTATAL NA ECONOMIA, a mesma ideia de Keynes e dos bimetalistas e dos populistas de esquerda, a parte mais a esquerda do Partido Democrático. A mesma ideia básica do melhor da CEPAL, nos textos de estrelas como Hans Singer. 

Outro ponto correto foi a dobradinha entre católicos (inclusive Coughlin) e Henry Wallace. Católicos e o grande Henry Wallace tinham vários pontos em comum e faziam parcerias, a favor dos camponeses familiares. 

Boa parte da política campesina e agrícola dos EUA, que tem pontos bons, vem de Roosevelt e de Wallace, apoiada por católicos, por Coughlin e pelos comunistas e socialistas dos EUA.

Henry Wallace foi várias vezes Secretário da Agricultura (Ministro da Agricultura, e tinha inclusive Alger Hiss, comunista, dentro do Ministério) e chegou a ir na URSS, tentar ajudar a agricultura soviética.

Mais tarde, Henry Wallace foi vice-presidente de Rooselvet e foi indicado para candidato a Presidente, em 1948, pelo Partido Progressista, com apoio dos comunistas nos EUA.

Em vários pontos, Coughlin fazia coro e dobradinha com a LINHA SOCIALIZANTE da Igreja, do Clero, a linha exposta pelo grande padre John Ryan, responsável por inúmeros pontos sociais do New Deal. Ryan era bem melhor, claro. A linha de Alceu, no Brasil, é a linha de John Ryan, nos EUA, a linha da DEMOCRACIA POPULAR, DO NEW DEAL.

Nos últimos meses de 1934, Coughlin achou que Roosevelt ia devagar demais e passa a atacar Roosevelt. Neste ponto, Coughlin estava TOTALMENTE ERRADO.

Graças a Deus, a maior parte do Clero católico ficou corretamente com Roosevelt. Lembro que Franklin Roosevelt veio DUAS VEZES ao Brasil, durante o governo de Getúlio, levando Getúlio a declarar a guerra contra os nazistas. O Brasil foi o único país latino americano a enviar tropas contra os nazistas, a FEB, e isso foi correto, pois os planos de HITLER eram mesmo DIABÓLICOS e GENOCIDAS. 

Friso também que, na plataforma de Coughlin, tinha PONTOS CORRETOS, pontos da LINHA DE RYAN, como a ESTATIZAÇÃO DOS GRANDES MEIOS PRODUTIVOS, das FERROVIAS, a luta por AMPLA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA e por AMPLA INTERVENÇÃO ESTATAL NA ECONOMIA, usando EMISSÃO DE PAPEL MOEDA, CONTROLES PÚBLICOS DE PREÇOS, ALTOS TRIBUTOS, COMPRAS PÚBLICAS etc. Esta parte era o TRIGO.

O Antissemitismo e os ataques a Roosevelt eram o JOIO, o VENENO, a parte do DIABO, tal como conversas suspeitas de Coughlin com a Embaixada Alemanha. 

Roosevelt apela ao Vaticano, que, em 1939, cala Coughlin. O Vaticano apoiava a linha de Roosevelt, que também tinha o apoio dos comunistas, frise-se.

DESTACO que um dos ERROS E INJUSTIÇAS ENORMES de Coughlin foi ter PECADO POR ANTISSEMITISMO, e ter se aproximado dos malditos nazistas.

Por isso, o VATICANO agiu CORRETAMENTE e com MUITA JUSTIÇA, ao CALAR Coughlin, fazendo-o deixar os programas de rádio.

Se Coughlin tivesse desobedecido ao Vaticano, Roosevelt teria prendido Coughlin, e COM MUITA RAZÃO.

Friso que o Vaticano, o Núncio nos EUA, os Bispos, todos eles fizeram Coughlin se calar, em 1939. Ele continuou como padre até 1966 e morreu com 88 anos. Seus programas de rádio terminaram em 1939, pois o Vaticano apoiou as reeleições de Roosevelt, que também foram apoiadas pelos Comunistas, nos EUA. 

Os padres de esquerda, mesmo com alguns erros (pois errar faz parte da vida), defendiam pontos essenciais E ATUAIS como: renda básica estatal para todos os trabalhadores (no início, quando estivessem desempregados); estatização de vários bens produtivos; ampla legislação trabalhista; apoio do Estado à sindicalização maciça dos trabalhadores; controles públicos de preços essenciais; ampla tributação sobre os ricos; apoio do Estado à produção local de alimentos, roupas, moradia, remédios, livros etc, para nada disso ser importado ou transportado de longe; 

 

A linha católica de SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO, a linha de Alceu, Dom Hélder e de João XXIII

Alceu Amoroso Lima, em suas cartas a sua filha, uma monja contemplativa internada num mosteiro, no livro “Cartas do pai”, abria sua alma.

Nas cartas a filha, por exemplo, em 21.01.1959, dizia apoiar um “socialismo não-comunista” (que não estatizasse todos os bens), um socialismo democrático, economia mista, distributista, avançado, Democrático, “como o de Nenni” (Pietro Nenni, 1891-1980, secretário do Partido Socialista Italiano, que combateu o fascismo, tal como as tropas de Franco, na Espanha).

Alceu defendia a aliança entre o PDC na Itália (“apertura a sinistra”, “abertura a esquerda”) e o PSI, tendo as mesmas ideias da esquerda do PDC da itália. Em 1963, na Itália, o PDC tinha 38% dos votos e o PCI tinha 25%.

Mais tarde, com Aldo Moro, com apoio de Alceu, na década de 70 do séc. XX, o PDC buscou uma aliança com o PCI, para superar o capitalismo, aliança que Alceu defendeu, tal como defendeu o governo de Allende, no Chile.

Alceu vibrou com a visita do genro (Alexei Adjubei, na época diretor do jornal “Izvestia”) e da filha de Kruschev, Rada, a João XXIII, no Vaticano, em março de 1963, onde foram recebidos por João XXIII.

O “Diário” de João XXIII mostra a importância desta visita histórica, tendo escrito João XXIII, “quando se souber o que eu disse e o que ele, Adjubei, disse, penso que” meu nome será “abençoado”.

João XXIII diz, no “Diário”, “deploro e lamento aqueles que se prestaram” a estas críticas injustas, “ignoro e esqueço”.

Lembro que Adjubei esteve no Brasil em 1963, convidado por João Goulart, tendo sido muito bem recebido por San Thiago Dantas, um grande católico, ligado a Alceu e a Dom Hélder e a João Goulart. 

Alceu era apoiador apaixonado de João XXIII, a “linha Roncalli-Montini” (João XXIII e Paulo VI, preparando a sucessão de Paulo VI) e crítico de uma parte do Vaticano, a “Junta do Coice”, a ala ligada Ottaviani e Tardini, a parte reacionária, vencida no Vaticano 2. Os relatórios de Dom Hélder mostram a batalha da parte melhor no Vaticano 2, tendo Dom Hélder sido um dos campeões das melhores reformas no Vaticano 2.

No Brasil, Alceu era mais ligado a AP e a parte do PDC mais a esquerda, como Paulo de Tarso (nascido em 1926, foi Ministro da Educação, de João Goulart, de junho a outubro de 1963) e Plínio de Arruda Sampaio, a parte do PDC ligada ao PTB, aliada de João Goulart.

Alceu defendeu todos os atos bons do governo de Getúlio Vargas, como o governo de Juscelino, tal como a posse de João Goulart, e foi contra o golpe de 64.

No final da vida, em 1983, com uns 90 anos, Alceu tornou a declarar que era socialista católico, aconselhando o voto no PT. Pontes de Miranda também morreu como socialista católico, a mesma linha que adoto. 

Alceu, no início dos anos 60, lutou por uma aliança entre Arraes, San Thiago Dantas, Edgar de Matta Machado etcf, para evitar o golpe de 64. Alceu chegou a auxiliar os esforços de Carvalho Pinto e de Magalhaes Pinto (este em MG), para combater a candidatura de Carlos Lacerda e tentar levar um pedaço da UDN a apoiar Juscelino, em 1965.   

Na carta de 16.01.1964, Alceu diz que a UDN era o partido do “direitismo integral”, pior que o “PSD, mais jeitoso e maleável” em alianças com o PTB. Alceu diz que “não é a toa que na UDN, pouco a pouco, se refugiaram todos os ricos e reacionários”.

Nas cartas a filha, Alceu sempre ataca Carlos Lacerda, a quem chama de Hitler, várias vezes, tal como de golpista etc. Em todas as cartas, ataca a TFP, de “Plínio, Sigaud, Mayer e companhia”, tal como faz duras críticas ao Cardeal Jaime Câmara e também a Dom Vicente Scherer.

Alceu criticava sempre Gustavo Corção, o padre Leme Lopes, Sobral e outros reacionários, setores minoritários da Igreja, cooptados pela CIA e pelos ricos.

Alceu diz que aderiu a esquerda em 1936, embora, mesmo antes, já tivesse posições pro socialismo na juventude e no início da década de 30, como pode ser visto no livro “Política”, onde defende a estatização dos bancos e de outros grandes bens produtivos, vasta legislação trabalhista, Previdência etc. 

Alceu defendeu sempre Dom Hélder Câmara.

Como pode ser visto na Carta de 24.11.1963, Alceu defendia, em 1963, a linha de “João XXIII, Kruschev, MacMillan e Kennedy”. MacMillan era Harold MacMillan (1894-1986), primeiro Ministro da Grã-Bretanha, de 1957 a 1963, pelo Partido Trabalhista Ingles.

Alceu era defensor da esquerda do Partido Democrático nos EUA, do Partido Trabalhista inglês, e apreciava Kruschev, pela crítica deste aos erros de Stalin, pela luta em prol da Paz etc. 

Alceu, como está na carta de 07.02.1964, lembrou que escreveu um artigo, no começo do governo de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974, governo de 1946 a 1951), lá por “1946 ou 1947”, defendendo a legalização do Partido Comunista no Brasil, usando os mesmos argumentos, lembra Alceu, de um “editorial do Jornal do Brasil”, de 07.02.1964. 

A Doutrina da Igreja quer um Estado popular, um sistema econômico com o PRIMADO DO TRABALHO, baseado na IGUALDADE NATURAL DAS PESSOAS

O SUJEITO [quem deve exercer, CONTROLAR O ESTADO e as RELAÇÕES DE PRODUÇÃO] da autoridade política [do Estado] é O POVO, considerado, na sua totalidade, como detentor da soberania”, cf. lição de João Paulo II

A concepção política e jurídica da Igreja, como foi resumida por João Paulo II, na “Centesimus” (n. 46), ensina que “o sujeito da autoridade política é o povo, considerado na sua totalidade como detentor da soberania”.

Esta proposição decorre de várias outras proposições-chaves das idéias do cristianismo sobre o poder e o direito, e valem também para o sistema econômico (o Povo, os trabalhadores, devem ter a PRIMAZIA, serem os SUJEITOS, e não o objetos das relações de produção).

O velho e bom Rousseau iria gostar muito de ler este texto de João Paulo II, tal como as encíclicas de João XXIII.

Como ensinou Paulo VI, num discurso de 01.09.1963, ao lembrar de São Vicente Palloti (1795-1850), santo que viveu na França sob a influência direta da Revolução Francesa, os leigos católicos durante a Revolução Francesa

“tinham a ideia viva da coincidência entre os grandes princípios da Revolução, que não tinha feito outra coisa senão apropriar-se de alguns conceitos cristãos: fraternidade, liberdade, igualdade, progresso, desejo de elevar as classes humildes”.

O texto de Paulo VI, acima transcrito, é excelente.

Lembro que Rousseau foi educado como católico e foi católico durante a maior parte de sua vida.

Paulo VI lembrou que “tudo isto era cristão”, fazia parte do “patrimônio evangélico, que visa valorizar a vida humana em um sentido mais alto e mais nobre”.

Os cristãos são a continuação das “raízes vivas” hebraicas, tal como “da Grécia clássica”, da África, da Ásia, do Egito, da Mesopotâmia, dos persas, do Renascimento, do “século das Luzes” (cf. Resolução do Encontro Ecumênico de Santiago de Compostela”, em novembro de 1991).

Num parêntese, vale a pena lembrar que a formação do ideário político democrata, em Atenas e Roma, ocorre já em contato e sob influência da cultura semita.

Roma só adota a forma da República em 510 a.C., com a “expulsão dos Tarquínios”, embora a democracia só passe a existir com “o estabelecimento dos tribunos da plebe” (cf. Maquiavel e Rousseau), em 494 a.C.

O mesmo ocorre na Grécia, só a partir de 500 a.C. há democracia. E, desde esta data, e bem ANTES, já há a influência FENÍCIA-SEMITA. Lembro que os fenícios falavam e escreviam uma língua SEMITA, quase igual aos JUDEUS, SENDO UM POVO IRMÃO dos judeus, sempre próximo dos judeus, como mostra a história de Davi etc.

O próprio SANTO AGOSTINHO é mais fenício que romano, sendo sua língua natal o fenício, pois nasceu perto da antiga Cartago, cidade fenícia, que quase derrotou Roma. 

Em Roma, é bom lembrar, a influência oriental ocorre desde a origem, pois os etruscos tinham origem asiática (cf. Fernand Braudel).

Praticamente na mesma época, em 508 a.C., Atenas adotou a forma republica democrática, graças a Clístenes. Clístenes liderou uma revolta popular em 508 a.C. e é tido como o “pai da democracia” em Atenas. Ele estendeu o direito de voto a quase todos os habitantes da cidade, ainda que não tenha eliminado a escravidão, infelizmente. O grande feito dos gregos, a derrota dos filhos de Psístrato, o tirano, foi feita com a ajuda da colônia fenícia, em Atenas, pois foram dois descendentes de fenícios que mataram o principal filho de Psístrato, o tirano.

Lembro também que a maior escola filosófica “grega”, o estoicismo, é uma corrente FENÍCIA. E que há imensa influência fenícia-semita (e judaica) nos textos de Platão e Aristóteles. 

Conclusão clara: as idéias centrais da DEMOCRACIA (e também da Revolução Francesa) nasceram nas idéias hebraicas da Revelação em interação com o melhor da Paidéia.

Prova disso está no fato que Marx destacou, o amor dos revolucionários franceses e americanos (especialmente Thomas Jefferson) pelos autores romanos e gregos.

Os textos de Diderot, Rousseau, Montesquieu, Mably e outros grandes Enciclopedistas são textos católicos, cristãos, teístas e também baseados na Paidéia. Misturam influência semita-católica com o melhor da Paideia. E cada católico ama a Paideia.

A Igreja foi a maior da instituições na PRESERVAÇÃO do MELHOR DA PAIDEIA, nos mosteiros e conventos, nas bibliotecas, nos livros copiados a mão, pelos BENEDITINOS e outros monges. 

O melhor da Paidéia, do patrimônio cultural da antiguidade, do acúmulo racional de idéias de gerações, foi mantido na “filosofia cristã” (que é a filosofia da Paidéia, depurada), pelos Santos Padres e esta linha perdurou na Idade Média, com a Escolástica, tal como no Renascimento e no Classicismo, nos séculos XVII e XVIII. Esta síntese foi a base filosófica da Revolução Francesa, da Democracia atual. 

A linha de síntese entre Tradição hebraica e Paidéia, de inculturação, está em quase todos os autores católicos, principalmente Suarez, John Dryden (1631-1700), o Abade de Saint-Pierre (1658-1743, que inspirou Rousseau), Montesquieu (1689-1755), Alexander Pope (1688-1744), Mably, o padre Sieyès, Ampère (1775-1836) e outros católicos.

Robespierre também era profundamente teísta e tinha vários amigos padres, esposando idéias cristãs e também da Paidéia.

As idéias democráticas de Robespierre são idéias cristãs, muitas delas vindas do abade Mably e de outros expoentes da Igreja.

O mesmo para Babeus e também para Buonarroti, o autor que inspirou a Liga dos Justos. 

A linha filosófica hegemônica de 1789 foi o jusnaturalismo cristão, o iluminismo cristão, como notou Pio XII, com fortes raízes católicas, ligadas à Tradição.

Esta linha foi sempre a a dos grandes leigos da Igreja, do povo trabalhador e notadamente das velhinhas da Igreja, tão elogiadas por Santo Tomás de Aquino.

Também foi a linha de Aquino, Suarez, de Morus, Domingos Las Casas, dos Santos Padres, tal como é a mesma linha de Leão XIII, João XXIII, Montini (depois Paulo VI), Lercaro, Liénart, Leo Suenes, Frings, Koenig, Dom Hélder, Alfrink, Doepfner, Rahner, Congar, Haring, De Lubac, Hans Kung, Schillebeeckx, Daniélou, Chenu, da maioria do Vaticano II, de Medellin, Puebla, da teologia da libertação, da teologia política e também da doutrina social da Igreja.

A Revolução Francesa foi feita principalmente por leigos católicos.

Num movimento paralelo, existiram movimentos pró-democracia na Polônia, na Irlanda, no Brasil, na Europa inteira.

O movimento da Independência nos EUA foi principalmente por leigos anglicanos, semi-católicos. Ao lado destes, atuaram leigos católicos franceses (no bojo da guerra entre a França e a Inglaterra), tal como leigos irlandeses e ainda as comunidades católicas em Boston, Baltimore (capital de Maryland, um dos treze Estados iniciais, de formação católica), Nova Iorque, Filadélfia e Louisville.

O primeiro bispo católico nos EUA foi John Carroll, bispo de Baltimore, um irlandês, INIMIGO do imperialismo inglês e amigo pessoal de George Washington (1732-1799).

Além dos leigos católicos na França, deve ser considerado que mais de três quartos dos representantes do clero nos Estados Gerais de 1789 se juntaram ao Terceiro Estado. O clero era representado por 208 padres e 47 bispos e boa parte aderiu à Revolução.

Gabriel-Honoré de Riquetti Mirabeau (1749-1791, o Conde de Mirabeau, teve o discernimento e a confiança na Igreja, ao chamar o clero a juntar-se ao terceiro estado, para formar a Assembléia Nacional, tendo o acatamento de quase todos os representantes do clero, que ficaram ao lado do povo. Mirabeau, COM A AJUDA DE UM PADRE JESUÍTA, redigiu obras como “Sobre a educação pública”, “Ensaio sobre o despotismo” e outras, de fundo cristão e democrático. Defendeu a liberdade religiosa.

Mirabeau, a principal liderança no início da Revolução, deixou grandes discursos, sendo a maior parte destes redigidos e elaborados pelo padre José Antônio Joaquim Cerutti (1738-1792), um padre jesuíta.

O padre Cerutti era professor no Colégio Jesuíta de Lyon e escreveu o livro “Apologia geral do Instituto e da doutrina dos Jesuítas”.

Este padre jesuíta estava em Paris em 1789 e se juntou a Mirabeau, redigindo parte de seus discursos. Cerutti escreveu obras como “Memória sobre a necessidade das contribuições patrióticas”. Em 1791, o padre Cerutti torna-se deputado na Assembléia Legislativa.

Na mesma linha, existiram milhares de militantes leigos católicos.

Houve ainda estrelas de primeira grandeza, como o bispo Henri Gregório (1750-1831). Este teve grande participação na reunião das três ordens em 1789. Na Convenção, em 1792, o bispo Gregório foi o primeiro a propor a abolição da monarquia e a criação da república.

O bispo santo Gregório também propôs a abolição da pena de morte. O bispo Gregório foi também o principal responsável pela restituição aos judeus dos direitos civis e pela abolição da escravatura, em 1794.

O bispo Gregório também defendeu a Declaração dos Direitos e a queria mais social, com deveres sociais da sociedade etc. Este bispo lutou pela igualdade civil, a liberdade de cultos e pela tolerância religiosa.

O bispo GREGÓRIO redigiu obras como “Ensaio sobre a regeneração física, moral e política dos judeus” (1789); “Discurso sobre a liberdade dos cultos” (1794); “Ensaio histórico e patriótico sobre as árvores da liberdade” (1794); “Da liberdade de consciência e do culto no Haiti”; “Da Constituição francesa do ano de 1814”; “Apologia de Bartolomeu de las Casas”; “Da literatura dos negros”; “Da influência do cristianismo sobre a condição das mulheres” (1821) e outras.

O bispo Gregório ocupou cargos na rede pública de educação e criou várias bibliotecas públicas, organizou livros didáticos simples e baratos etc.

O grande e genial Hipólito Carnot, autor praticamente mercantilista que odiava o imperialismo inglês, redigiu sua biografia, com o título “Henri Gregóire, bispo republicano” (Paris, 1882).

Numa atuação próxima, na época, havia o bispo Jean Baptist Gobel (1727-1794), de Paris, que defendeu a teoria da soberania do povo. Gobel disse, em boa voz, que sempre buscara “aumentar” no “povo”, o “amor aos princípios eternos da liberdade, da igualdade e da moral”.

Além do bispo Gregório, de Gobel e de outros, houve vários grandes figuras do clero que brilharam na Revolução. Especialmente o padre Sieyès, o bispo Claude Fauchet, Nicolau de Bonneville (1760-1828, autor de “Do espírito das religiões”), o bispo Antônio Pascoal Jacintho Sermet (1732-1808) e o padre Jacques Roux, o principal líder dos “enraivecidos”.

Fauchet e Bonneville fundaram o “Círculo Social” (que Karl Marx elogiou e considerou como movimento precursor ao seu movimento), inspirado nas idéias de Saint-Martin, que são extremamente religiosas, formando parte do iluminismo cristão e religioso (a maior parte do movimento iluminista era cristão e religioso, frise-se). Por exemplo, os Iluminados de Avinhão tinham como principal líder o beneditino Pernety. Este criou um rito, em 1760, que foi introduzido na Universidade de Montpellier, em 1799, influenciando José Alvarez Maciel, que conspirou para a independência do Brasil.

Outro bispo que teve grande parte na Revolução Francesa e em seus desdobramentos foi Talleyrand (1754-1838). Talleyrand era bispo em Autun e tornou-se presidente da Assembléia Nacional, em 1790, tendo sido várias vezes Ministro de Estado, no Estado gestado pela Revolução Francesa. Mesmo Taleyrand teve seus méritos, tal como cometeu vários erros éticos graves. No final, acabou tendo uma boa morte, graças à mediação de Dupanloup, um dos maiores bispos do século XIX.

Houve, ainda, milhões de leigos católicos que conciliavam perfeitamente catolicismo com a luta pela democracia. Há vários precursores do Vaticano II, como o padre Anton Gunter (1783-1863), da Congregação dos Redentoristas.

Num parêntese, até mesmo figuras turvas como Metternich e Talleyrand não defenderam a teoria do direito divino dos reis. Talleyrand e Metternich eram partidários de uma teoria consensual (jusnaturalista) de fundo histórico, flexível, parecida com a de Burke, um dos líderes do whig.

Mais tarde, houve homens como o cardeal Hércules Consavi; Sismondi (1773-1842, próximo ao catolicismo); Béranger; Buchez; Lamennais; Villeneuve-Bargemont e vários outros precursores da doutrina social da Igreja (especialmente Buchez, Ozanam e Ketteler).

Há uma linha luminosa e ortodoxa na Igreja: a linha que perpassa por pessoas como Bento XIV; Ercoli Consalvi; Dupanloup e pilhas de bispos progressistas; Leão XIII; os cardeais Rampolla, Desidério Mercier (1851-1926, um grande filósofo também), Ferrari, Ferrata, Della Chiesa, Maffi, Pompili e muitos outros; e deságua em João XXIII, Paulo VI, Bea, Frings, Alfrink, Suenens, Liénart, Giacomo Lercaro, Dom Hélder e outros.

Esta era também a linha do Patriarca libanês, Máximo IV Saigh, que, no Concílio Vaticano II, urgia por uma “mística dinâmica e uma vigorosa moral social, demonstrando que está em Cristo a fonte dos esforços dos trabalhadores, em direção à sua verdadeira libertação”.

Esta linha de luz e calor (cf. o padre Manuel Bernardes) perpassa toda a história da Itália, Bélgica, Irlanda, Espanha, Portugal, os países da América Latina e de outros países cristãos e católicos.

Na Itália, houve estrelas como G. Dossetti, Aldo Moro, Giorgio La Pira, G. Lazzati, Gasperi, Zaccagnini e outros, defensores da teoria do poder público como serviço ao povo, como instrumento e servo do povo.

Outros nomes (estrelas de grande intensidade, que vivem como anjos, atuando ainda) para ilustrar este ponto são Maritain, Mounier, Romulo Murri, Sturzo, G. Donati, F. R. Ferrari, tal como os cardeais Schuster e Dalla Costa.

Mesmo a Internacional Comunista prestou depoimento de elogio da boa linha da Igreja no movimento “mãos estendidas” à Igreja, desde 1934, com o apoio de Stalin (que se aproximava da Igreja Ortodoxa, da qual foi seminarista até quase chegar à ordenação, na Georgia), expressa por líderes como Togliatti (a “utopia religiosa” é fermento revolucionário) e mesmo Antônio Gramsci (1891-1937).

No Brasil, este movimento de mãos estendidas tem um símbolo em Luiz Ignácio Maranhão Filho, do Comitê Central do antigo PCB. Luiz Maranhão foi torturado e morto pela ditadura de 64, mas antes organizou o livro “A marcha social da Igreja” (Rio, Ed. Encontro, 1967), escrevendo um capítulo do livro, com introdução de Alceu Amoroso Lima .

A Igreja sempre esposou um otimismo antropológico.

Este otimismo foi parte essencial da educação católica de Rousseau, que foi católico dos 16 anos (de 1728, pois nasceu em 1712) até 1754, ou seja, até aos 42 anos, tendo inclusive freqüentado aulas em seminários católicos.

Rousseau foi influenciado por Montesquieu, Mably e Condillac (Mably e Condillac eram irmãos, sendo os dois sacerdotes católicos) e mesmo depois de passar do catolicismo ao protestantismo, Rousseau condenou os erros antropológicos jansenistas e calvinistas, de pessimismo. Rousseau foi também influenciado por Daniel Defoe e por John Locke.

Sobre o otimismo cristão e o culto à alegria, vale a pena ler João Paulo I, na “Audiência de 20.09.1978:

A mensagem cristã — disse o Concílio não afasta os homens da construção do mundo… impõe-lhes, ao contrário, um dever mais rigoroso” (Gaudium et Spes, 34. Cfr. nn. 39 e 57; e Mensagem ao Mundo dos Padres Conciliares, de 20 de Outubro de 1962).

“Têm surgido de vez em quando no decurso dos séculos afirmações e tendências de cristãos demasiado pessimistas quanto ao homem. Mas tais afirmações foram desaprovadas pela Igreja e esquecidas graças a uma falange de santos alegres e activos, graças ao humanismo cristão, aos mestres de ascética que Saint-Beuve chamou “les doux” [“os doces”] e graças ainda a uma teologia compreensiva. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, coloca entre as virtudes a “iucunditas” ou seja a capacidade de converter num sorriso alegre — na medida e no modo conveniente — as coisas ouvidas e vistas (Cf. 2.2ae, q. 168, a. 2). Jucundo deste modo — explicava aos meus alunos — foi aquele pedreiro irlandês, que se precipitou do andaime e quebrou as pernas. Levado ao hospital, vieram o médico e a Irmã enfermeira. “Pobrezinho — disse esta última feriu-se muito caindo”. Replicou o ferido: “Madre, não foi precisamente caindo, mas chegando ao chão é que me feri“. Declarando ser virtude gracejar e fazer sorrir, Santo Tomás encontrava-se de acordo com a “alegre nova” pregada por Cristo, com a hilaritas recomendada por Santo Agostinho. Vencia o pessimismo, revestia de alegria a vida cristã, convidava-nos a tomar “animo também com os gozos sãos e puros que se nos deparam no caminho. Quando eu era rapaz, li alguma coisa sobre Andrew Carnegie, escocês, que imigrou com os pais para a América e chegou pouco a pouco a ser um dos maiores ricaços do mundo. Não era católico, mas impressionou-me que falasse com insistência das alegrias genuínas e autênticas da sua vida. “Nasci na miséria — dizia —, mas não trocaria as recordações da minha meninice com as dos filhos dos milionários. Que sabem eles das alegrias familiares, da terna figura da mãe que junta em si os cargos de encarregada de crianças, de lavadeira, de cozinheira, de mestra, de anjo e de santa?”.

“Julgo que o Magistério da Igreja nunca insistirá demais em apresentar e recomendar a solução dos grandes problemas da liberdade, da justiça, da paz e do desenvolvimento; e os leigos católicos nunca se baterão suficientemente para resolver estes problemas”.

Boas as palavras acima do finado João Paulo I, que foi papa apenas por trinta e poucos dias.

A linha democrática e popular é a linha do melhor do clero e dos leigos da Igreja. Esta linha fica evidente em luminares como: João XXIII, o Cardeal Suenens, Cardeal Lercaro, Cardeal Martini, Manning, Mercier e outras grandes figuras da Igreja.

João XXIII, na “Mater et Magistra” (n. 65), explicou que a Igreja defende uma síntese de socialização com personalização, que é a base antropológica do ideal histórico de uma democracia popular, real, ponto bem destacado por Lercaro e Dom Hélder.

A ética hebraica, a cristã e a estóica concordam num ponto essencial: a pessoa deve viver para o todo (para a sociedade) e também, em boa síntese, para si mesmo, unindo, numa síntese, a autonomia pessoal e a social.

João XXII lembrou que o Estado deve promover o bem comum, que é “o conjunto das condições sociais” que possibilitem a todas as pessoas “a plenitude do seu desenvolvimento”, o florescimento da natureza. O Estado deve ser social e interventor, mas sob o controle do povo, da sociedade organizada.

São João XXIII lembrou que cada pessoa deve ter sua “efetiva autonomia”, “em sincera harmonia e em benefício do bem comum”.

Para João XXIII, cada sociedade deve ter a “forma” de “autênticas comunidades”, onde “os seus membros” sejam “tratados sempre como pessoas humanas”, “participantes” dos processos decisórios e dos bens, permitindo às pessoas “cultivarem melhor e aperfeiçoarem os seus dotes naturais”.

A linha de luz e vida de João XXIII é a linha do Cardeal Lercaro, de Dom Hélder e de outros expoentes da Igreja. Foi também a linha de outro grande expoente da Igreja, Dom Louis Joseph Liénart (1884-1973), Cardeal e bispo de Lille, na França. Esta é a linha preponderante do Vaticano II, da maior parte da Igreja.

O Cardeal Liénart era chamado de “Cardeal vermelho” (“Cardinal rouge”) ou “Cardeal dos operários” (“Cardinal des ouvriers”).

O bom Liénart foi um dos grandes responsáveis pela difusão do modelo francês de Ação Católica, com base em ramos especializados inseridos. Esteve no Brasil em 1955 e influenciou Dom Hélder nos trabalhos deste nas favelas do Rio do Janeiro.

Enrique Dussel teceu grande elogio ao Cardeal Liénart, no livro “De Medellin a Puebla” (vol. I, São Paulo, Ed. Loyola, 1981, p. 23). O padre Liénart apoiou o movimento grevista em Lille, em 1929. Isto, gerou um ataque do empresariado da cidade. Em 1930, Pio XI ordenou Liénart como bispo e, em seguida, Cardeal (com apenas 46 anos).

No início do Concílio Vaticano II, Liénart declarou “Hoc schema mihi non placet” (“esta minuta não tem meu placet, meu apoio”) e, com esta frase, tendo o apoio implícito de João XXIII, alterou, com os demais bispos do pólo da esquerda, a estrutura do Vaticano II.

João XXIII apoiou o pólo de esquerda dos bispos. O apoio do Papa, tal como o apoio do papa seguinte, Paulo VI, após a morte de João XXIII, foi decisivo para a aprovação dos melhores textos do Vaticano II.

A revista “La Civiltà Cattolica” (n. 3344, IV, p. 105-117, 1989), dos jesuítas, uma grande porta-voz do Vaticano, no editorial, lembrou que a Revolução Francesa” foi um “grande sinal dos tempos”, pois “exprimia e dava atuação histórica aos grandes valores [idéias, ideais] humanos da liberdade, da igualdade, da democracia, promovendo os direitos do homem frente ao poder absoluto e despótico” e “representava para a própria Igreja a libertação da dependência do poder civil, que a constrangia”. Da mesma forma, a Revolução superava a “confusão entre sociedade civil e sociedade religiosa”.

O “sujeito da autoridade política é o povo”.

Esta premissa basilar está bem clara nos textos de Cícero, dos estóicos e dos grandes juristas romanos. Está, por exemplo, nos textos de Gaio, especialmente nos trechos deste jurista, que muitos consideraram cristão, conservados no livro “Mosaicarum et Romanarum legum Collatio”, onde um escritor tentou demonstrar como o melhor do direito romano, a parte democrática, estava em adequação com as Leis de Moisés.

Os textos semi-cristãos e democráticos de Gaio influenciaram também a “Lex Romana Visigotorum”, a organização jurídica dos povos bárbaros.

Gaio era jusnaturalista e ensinava que a “lei é o que o povo ordena e estabelece” (cf. “Instituciones”, “Commentarius primus”, n. 2). Em todos os textos de Gaio, o sujeito político principal é o “Populus”, o “Povo”, o que é o enunciado fundamental da doutrina jusnaturalista da democracia (na mesma linha de Thomas Jefferson, Thomas Paine, Robespierre e outros luminares da democracia).

O enunciado de Gaio é também o enunciado de Mably, Spedalieri, Giuseppe Toniolo, de Ozanam, Windsthorst, Ketteler, Buchez e outras estrelas da doutrina social da Igreja.

Também é o núcleo (o miolo, o cerne) da concepção política do humanismo hebreu e também da Paidéia. Esta concepção põe a pessoa no centro do mundo, como senhora natural do mundo (cf. Gen 1,26), dado que fomos criados para a liberdade, para a autonomia e para o controle do universo, da natureza em geral e de nossa natureza. Fomos criados para sermos guardiões e cultivadores (cf. frases de Deus, na criação, vide Genesis) do Universo, para sermos co-criadores, dando continuidade à Criação, ao Universo, pela ETERNIDADE.

Conclusão: a genealogia do poder tem como causa imediata o povo organizado (no fundo, a união de mentes gerada pelo diálogo), como destacaram Cícero, os Santos Padres e também Suarez, Bellarmino e outros grandes luminares da Igreja.

A Igreja sempre ensinou que o poder político (na terminologia medieval, o poder secular, o poder temporal) é algo mundano, algo humano, regido pelas leis naturais, pela ação da liberdade humana. Pode ser bom ou mal, sendo bom o poder que é regido por boas idéias. Esta linha está clara inclusive nos textos mais agrestes dos Papas São Gregório VII e de Bonifácio VIII.

O sistema capitalista é perverso e iníquo porque reifica, aliena, usurpa o poder político, pondo-o à serviço da oligarquia, do grande capital (e do latifúndio, lembrando que o latifúndio, hoje, é o AGRONEGÓCIO, um setor CAPITALISTA).

Por esta razão, tal como por outras, fica claro que democracia e capitalismo são coisas antitéticas, contrárias, opostas, como destaca bem autores como Frei Betto, Emir Sader e outros grandes escritores CATÓLICOS, da LINHA HEGEMÔNICA DE ALCEU AMOROSO LIMA.

Paulo VI, quando tinha 22 anos, escreveu texto mostrando como Católicos e socialistas podem e devem trabalhar juntos, para superar o capitalismo

Giovanni Battista Montini (nascido em 1897, que depois se tornou Papa, com o nome Paulo VI) escreveu um artigo no jornal “A Funda” (com inspiração na funda de David usada contra Golias), em 03 de setembro de 1919 (quando tinha 22 anos, e estava prestes a entrar no Seminário Lombardo), onde escreveu:

não só estamos dispostos a todas as transformações sábias e reformas que possam ajudar o povo mas as queremos, propugnamos; e se não somos extremistas nisto, é porque nós excluímos toda e qualquer forma materialista, toda a injustiça, toda a violência, todo o capricho arbitrário, todo o método socialista. Tirem à sua concepção social o aspecto materialista…fazendo consistir toda a reforma social em reformas econômicas e a elevação do povo (…) tirem o veneno das suas almas, e estaremos de acordo em propugnar um programa comum de justiça integral: isto é, eles estarão de acordo conosco!” [texto retirado da página 71 do livro “Paulo VI”, de Carlo Cremona, editado pelas Paulinas, em 1977].

Montini, o futuro Paulo VI, reconhecia que era possível “um programa comum de justiça” aceitável para católicos e socialistas. A mesma linha de Buchez, Ketteler, Pesch, Mounier, Maritain e outros. 

Por “método socialista” entendia o uso da violência e da mentira (afinal, alguns socialistas, infelizmente, usavam frases maquiavélicas sobre a licitude de meios imorais).

O programa socialista humanista, concernente a “reformas econômicas”, era considerado, implicitamente, em harmonia com as idéias da Igreja e, por isso, Montini terminava dizendo: “eles estarão de acordo conosco” (praticamente a mesma frase de Pio XI, sobre a aproximação dos socialistas com os católicos).

Mounier, na França, mostrou que o socialismo não está ligado intrinsecamente com o marxismo, sendo este um complexo de idéias, das quais, muitas, têm procedência cristã ou hebraica.

Mounier mostrou claramente que a democracia, e seu aprofundamento no socialismo participativo, democrático, são coerentes com o cristianismo.

Erich Fromm, tal como vários pensadores do século XIX e XX, apontou como precursores do socialismo os profetas bíblicos: Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, Daniel e outros.

Fromm (piedoso, em alemão) esboçou uma síntese entre marxismo e as idéias de Freud, com abertura para a religião.

No Brasil, Hélio Pellegrino fez algo semelhante (sendo mais profundo), unindo cristianismo, socialismo, respeito a algumas idéias corretas de Freud, marxismo e ainda teologia da libertação. Os textos de Pellegrino e Fromm também abonam as teses deste blog. 

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