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O elogio católico às paixões, às emoções, à afetividade

O padre Bernhard Häring, um dos teólogos morais mais conceituados e lidos nos seminários católicos do mundo inteiro, no livro “Livres e fiéis em Cristo” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1979, volume I, p. 73), lembra a boa lição de Max Scheler, um grande católico socialista:

Max Scheler estava certo quando insiste, através de seus livros, em que, divorciado do espírito, o instinto humano (tudo o que corpo-alma dirige e estimula) se torna selvagem e passa a ser destrutivo; e é igualmente verdadeiro que, divorciado das emoções, paixões e afetividade, o espírito torna-se impotente e absolutamente não-criativo”.

As boas paixões são motores, fogos para o bem, para divinizar o ser humano

A Teologia católica sempre distinguiu as boas paixões (bons afetos) das más paixões. As boas salvam, são motores essenciais.

Herbert Spencer também distinguia entre os sentimentos (afetos, emoções, paixões), considerando uns como bons e outros como maus. Spencer considerava, corretamente, a ampliação dos “sentimentos altruístas” (os bons sentimentos, os sentimentos racionais) como a base da evolução humana (cf. seu livro “A justiça”).

Jackson de Figueiredo, no livro “A coluna de fogo”, lembrava o ensino da “filosofia tomista”: “deu-nos a Providência a paixão irascível precisamente para resistir ao mal”. Como o mal é a “ausência do bem devido” (como foi demonstrado por Santo Agostinho na discussão com os maniqueus), “resistir ao mal” significa conservar, proteger e promover o bem geral, comum, o bem mais geral e difuso que pudermos.

A “paixão irascível” (indignação, ira etc diante do mal) foi feita para a luta em prol do bem comum. A “paixão da concupiscência” (os prazeres) foi implantada no corpo por Deus para que as pessoas tenham prazeres constantes, moderados e racionais (no fundo, o ideal do próprio Epicuro, tal como do eudemonismo de Aristóteles), o que é essencial para a saúde humana, para a plenitude da natureza humana. Por isso, Deus implantou o prazer sexual para que tivéssemos prazer na união amorosa com nosso par, na geração de filhos, na manutenção da família etc. O prazer da alimentação é essencial para a sobrevivência (para a boa alimentação) do corpo e assim por diante.

A Igreja não despreza o prazer, apenas exige que este seja pautado pela razão e pelo bem comum, as mesmas regras aplicáveis ao poder público.

As paixões e afetos, desde que racionais e sociais, são boas e queridas por Deus, como também ensinou Descartes, em seu “Tratado das paixões”. Em 1880, Leão XIII foi bem conciso: “grande é com efeito a força do exemplo e maior ainda o poder da paixão”. Por isso, os grandes santos eram pessoas apaixonadas, com fortes paixões, mas regidas pela razão e pelo bem comum.

A teologia moral ensina, assim, que existem as boas paixões (os bons afetos e emoções, em harmonia com a razão, com o bem comum) e as más paixões. Na mesma linha, Aristóteles ensinava, na “Poética” (1449), que a boa arte produz a purgação das paixões, a purificação dos afetos (sublimação dos instintos, nos termos de Freud, neste ponto com influência aristotélica), que é, no fundo, a ordenação racional e social (regras que expressam as exigências do bem social) dos afetos, como ensinava Santo Inácio, em seus exercícios espirituais.

O elogio da natureza, a principal mediação da ação de Deus, faz parte das entranhas do catolicismo, tal como das correntes empapadas de catolicismo, como o romantismo, a homeopatia e hidropatia (neste ponto, ver as antigas e boas obras literárias de Monsenhor Sebastião Kneipp, sobre os diversos tipos de água e como curam).

Neste sentido, a ética cristã também coincide (inclusive por ser a matriz) com o melhor da ética muçulmana, como fica claro no livro ético do Dr. Yossef Al-Karadhawi, “O ilícito e o ilícito no Islam” (São Bernardo do Campo, Ed. Alvorada, 1960), especialmente na parte referente aos preceitos éticos consensuais como a base legítima da ética, exaltando o “princípio da permissibilidade” (da aprovação, do consenso), que contém o elogio da liberdade (os atos naturais são naturalmente bons, livres, sendo as proibições uma exceção).

Após deixar claro que as boas paixões (bons afetos, emoções e mesmo bons instintos) marcham junto com a razão, frise-se que usamos a palavra “razão” como faculdade (causa) cognitiva e também o mesmo “razão” como o efeito do ato de raciocinar, significando as idéias racionais. Por isso, escrevemos “a razão humana é uma faculdade essencial” e “esta ideia é irracional”, ou seja, contradiz a razão, contradiz as idéias racionais. Da mesma forma, o poder legítimo é o poder que expressa a faculdade criadora da razão de todos, o poder que adéqua suas estruturas e regras ao conjunto das idéias práticas da sociedade, idéias que expressam as exigências (regras) do bem comum.

A Democracia popular tem ampla fundamentação na religião hebraica e cristã, especialmente no catolicismo

Como Marx reconheceu, no livro “A questão judaica” (texto inspirado nos textos de Moses Hess), a Democracia traduz a concepção cristã sobre o ser humano, como “um ser soberano”, seculariza uma verdade natural e religiosa (há a mesma explicação em Feuerbach).

No mesmo sentido, Lenin reconheceu que o espírito do cristianismo primitivo era essencialmente democrático, tinha e tem fundamentação essencialmente democrática. 

A consciência humana move-se de forma natural para o bem comum, quando não é torcida por paixões desordenadas.

As paixões, os instintos, o prazer, os afetos, os movimentos corporais, tudo isso são coisas naturais e criadas por Deus, sendo boas, quando se movem de forma humana, de forma inteligente e pautada pelo bem comum. 

Padre Pio e o poder da contrição para voltar ao estado de graça

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O significado do termo “coração”, na Bíblia, e sua base política e psicológica

O termo “coração” significa “consciência”, ponto que o velho Alceu Amoroso Lima sempre frisou.

A razão (o entendimento) é apenas a faculdade principal da consciência, existindo também a vontade, a memória, os afetos (as emoções, as paixões) e os instintos. Todas estas faculdades da consciência tendem a se moverem de forma harmônica. Assim, seguir a voz da consciência é seguir a voz de Deus, da razão, das tendências da vontade, dos afetos e instintos.

A organização do Estado e a legislação positiva devem ser expressões do “coração” da sociedade, do Povo, como todos os textos. Como disse Cristo: “o que sai da boca (a voz, os textos, as idéias) procede do coração”. No mesmo sentido, Pio XII, num discurso em abril de 1943, ensinava que devemos “infundir” a bondade e as boas idéias favoráveis aos pobres nas “leis”, nas “instituições” e nas “manifestações de vida oficial”, para gerar um Estado servo do povo, um Estado sob o controle do povo, um Estado popular, uma Democracia Popular. 

Lista das emoções (paixões), na teoria de São Tomás de Aquino

O livro do padre jesuíta, T. de Diego Diez, “Theologia naturalis” (Santander, Ed. Sal Terrae, 1955, p. 429), lista as emoções (paixões, “affectus”) principais.

Deixa claro que não são apenas movimentos da do apetite sensitivo (“actus appetitus sensitivi”), mas também (“sed etiam”) do “apetite racional e voluntário” (“appetitus racionalis seu voluntatis”), logo, são movimentos naturais que até Deus e os anjos têm, pelo menos algumas das emoções e este ponto é examinado por São Tomás.

Por exemplo, a própria Bíblia diz claramente que Deus é amor, ou seja, é tão amoroso, inclinado ao bem dos outros, que é praticamente a personificação da emoção máxima, o Amor. Da mesma forma, Deus é alegre, é desejoso do bem do próximo, tem ódio (aversão, abominação) ao mal etc. 

Dividem-se em dois grupos: “concupiscibilis” (“versantur circa bonum et malum …spectata”) e “irascibilis” (“qui versantur circa bonum et malum ut ardua”).

As emoções concupiscíveis são: “amor” (“amor”), “gaudium” (“alegria”), “desiderium” (“desejo”), “odium” (“ódio”, repulsa), “fuga” (“aversio”, aversão) e “tristicia” (“tristeza”). 

As emoções irascíveis são: “spes” (“esperança”), “desperatio” (“recessio”, “desespero”), “audacia” (“coragem”), “timor” (“medo”) e “ira” (“ira”). 

Freud praticamente reconheceu seus erros, no final da vida

O próprio Freud, no final da vida, em cartas a Einstein e nas “novas conferências introdutórias”, terminou por reconhecer que na sociedade do futuro, vindoura, a razão teria a primazia.

Freud, no livro “O futuro de uma ilusão” (1928), escreveu: “a longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência” e ressaltou que o progresso, a civilização, depende do controle racional e social dos “instintos”, tese que teria total apoio e respaldo nos textos de Santo Tomás. Psicanalistas como Fenichel distinguiram, mais tarde, o superego normal e autônomo do heterônomo e infantil, o “normal” é o “autônomo”, como ensina tradicionalmente a ética cristã.

A lição de São Francisco de Sales sobre a importância das paixões boas

São Francisco de Sales ensinava que sem paixões (sem os movimentos afetivos poderosos), nenhuma boa ação é praticada. Os grandes santos e o próprio Cristo eram homem apaixonados, com poderosas paixões, mas ordenadas pela sociedade para que todos seus atos servissem ao bem comum, ou seja, os movimentos afetivos e instintivos movimentavam-se de forma inteligente, de forma racional.

Conclusão: a regra para a boa ordenação da vida pessoal é a mesma regra para a boa ordenação da sociedade. A vida pessoal deve ser pautada pela consciência pessoal, pela razão e pelo bem comum. A vida social deve ser pautada pela consciência social (pela interligação das consciências pessoais pelo diálogo), pela participação de todos no poder, para que tudo sirva ao bem comum, ao bem de todos.

Eupatias, boas paixões

São Tomás de Aquino, na “Suma teológica”, na parte sobre “As virtudes morais e as paixões”, lembra que Santo Agostinho ensinava: “os estoicos sustentam que que na alma do sábio, e correlativas às três perturbações, existiam três eupatias, ou seja, três paixões boas: vontade em lugar de concupiscência; alegria em lugar de regozijo; e precaução em lugar de temor”.

O conceito de eupatia mostra que os estóicos valorizavam os bons afetos, as boas paixões, as boas emoções. 

A teoria e a classificação das paixões, em Aristóteles, Agostinho, Descartes, São Francisco de Sales e Spinoza

A Igreja nunca ensinou, como alguns estóicos (Cícero, Sêneca, Plutarco e alguns outros não incidiram neste erro) e alguns budistas, que as paixões em si são más. As paixões são boas, pois a natureza, apesar de decaída, é boa, e isso vale para o corpo, os prazeres, o prazer sexual, os afetos, os instintos etc. Tudo isto está claro na “Suma Teológica” ou no “Tratado das paixões” de Descartes, tal como estava bem exposto na “Ética a Nicômaco” de Aristóteles e nos livros sobre ética de Cícero (bem apreciados por Santo Ambrósio ou São Jerônimo).

Sobre a distinção entre boas e más paixões, nascidas do apetite sensitivo, vale a pena ler o livro de São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus” (Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1950, p. 32, 34/35), que lembra que Santo Agostinho mostrou que os melhores estóicos admitiam que os sábios pudessem ter afeições (“eupatias”, “boas paixões”):

“… as paixões e afeições são boas ou más, viciosas ou virtuosas, conforme o amor donde procedem é bom ou mau” e “Santo Agostinho reduziu a quatro todas as paixões e afetos. “O amor, diz ele, que tende a possuir aquilo que ama, chama-se desejo; alcançando-o e possuindo-o, chama-se gozo; fugindo ao que lhe é oposto, chama-se temor; e, se este mal lhe sucede, e o sente, chama-se tristeza; e estas paixões são más, se o amor é mau; boas, se ele é bom”. 

Santo Agostinho assim ensina que há cinco paixões (emoções fundamentais): amor, desejo, alegria (gozo, o que inclui o prazer), temor (medo) e tristeza (o que inclui o sofrimento). Cinco. 

Descartes ensinou, no “Tratado das paixões”, sua última obra, que as paixões principais seriam: amor, ódio, desejo, alegria, tristeza e admiração. Vou destacar o ponto sobre a admiração (elogiada por Aristóteles como base da filosofia) em outra postagem. 

São Tomás de Aquino classificou as paixões em onze principais – amor (inclinação), ódio, alegria, tristeza, desejo e aversão (seis do apetite, concupiscíveis) e esperança, desalento, animo, temor (medo) e ira (paixões de defesa e consecução, irascíveis). 

São Tomás, no entanto, distingue, entre as onze, quatro paixões (emoções) fundamentais – desejo, temor (medo), alegria e tristeza (sofrimento). A mesma opinião dada por Santo Agostinho, no livro “Cidade de Deus” (livro XIV). Lembra também que o desejo inclui a cobiça, a base da concupiscência, querer algo. Aristóteles, no livro II da “Ética a Nicômaco” (capítulo 3, 1104b e cap. 5, 1105b), também destacou que a alegria (o que inclui o prazer) e a tristeza (o que inclui o sofrimento) são as paixões fundamentais.

Depois, Aristóteles, no livro “Da alma” (cap. 4), ensina que da concupiscência (desejo) nasce a alegria (quando a pessoa frui, tem a posse do bem querido) e a esperança (a alegria pela espera do bem) e da ira nasce a dor (sofrimento) e o medo (a espera do falta do bem, do mal, do sofrimento). No mesmo livro, “Da alma” (cap. IV), Aristóteles ensina que são quatro as paixões (emoções) fundamentais – alegria (o que inclui o prazer), tristeza (o que inclui o sofrimento, a dor, tristeza), medo e esperança.

Boécio, no livro “Sobre a consolação”, diz que as paixões fundamentais são – alegria, medo (temor), esperança e tristeza (sofrimento). Avicena, no livro “Da alma”, ensina coisa parecida. 

São Tomás ensina também que as paixões do concupiscível estão ligadas a nossa relação com os bens. As paixões do irascível estão ligadas a nossa relação com o mal (a falta do bem devido, correlato). 

Spinoza classifica as paixões principais em alegria, tristeza e desejo. Estas seriam as três mais importantes. Daí, surgiriam outras, totalizando cinco, como as mais importantes. Então, o desejo é um apetite de que temos consciência; a alegria é o efeito da posse de um bem; a tristeza é o contrário; o amor é a alegria acompanhada de uma causa externa; e a ódio é a tristeza acompanhada de uma causa externa. Alegria, tristeza, desejo, amor e ódio. Quase a classificação de Agostinho, aceitando amor, desejo, alegria, tristeza como comuns a estes dois pensadores. Então, Agostinho destaca temor e Spinoza destaca o ódio, na quinta. 

São Francisco de Sales também escreveu: “por isso, o maior homem de bem de todo o paganismo, Epitecto [um escravo estóico], não abraçou este erro de não haver paixões no homem sábio”. São Francisco de Sales, amigo do grande São Vicente de Paulo, reconheceu que os bons pagãos também se salvavam e obtinham a bem-aventurança durante a vida e após a morte. A salvação, para cristãos e para não-cristãos, ocorre pela orientação da vida em prol do bem comum (da “pátria”, da sociedade que os cercava, onde viviam, da humanidade), pela prática das “virtudes” (ações racionais visando o bem), pelo cultivo da “ciência” e por vingarem as afrontas contra o povo e indignarem-se e combaterem os tiranos.

Vejamos a conclusão de São Francisco de Sales na obra referida acima:

Na vontade há, como no apetite sensitivo, movimentos chamados afetos; mas os da vontade chamam-se ordinariamente afeições, os outros, paixões. Os filósofos gentios podiam amar a Deus, a pátria, a virtude, as ciências; aborreceram o vício, desprezaram as honras, a morte ou a calúnia, desejaram a ciência: podiam até ser bem-aventurados depois da sua morte; animaram-se a vencer os obstáculos que encontravam na aquisição da virtude, temeram a censura, fugiram de cometer muitas faltas, vingaram as afrontas públicas [ao povo], indignaram-se contra os tiranos, sem interesse próprio. Todos estes movimentos residiam na vontade, visto que nem os sentidos, nem por conseqüência o apetite sensual, são capazes de ser aplicados a estas coisas, e, portanto, estes movimentos eram afetos do apetite intelectual ou racional, e não paixões do apetite sensual”.

Correlato às emoções, havia a teoria dos quatro temperamentos, criada por Hipócrates, e desenvolvida por Aristóteles e depois por Galeno. O temperamento melancólico era marcado pelo predomínio das emoções da tristeza, do medo, do receio. O temperamento colérico era marcado pelo predomínio da paixão da ira. O temperamento sanguíneo era marcado pela alegria, otimismo, esperança. O temperamento fleumático era marcado pela temperança, pelo controle racional das paixões. 

— Updated: 12/12/2018 — Total visits: 42,498 — Last 24 hours: 47 — On-line: 0
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