Arquivos para : A “Fórmula” p compreender sobre emoções, paixões, que existem em Deus, nos anjos e nas pessoas. Parte ESSENCIAL das pessoas

As virtudes, os valores, as emoções (paixões), os prazeres, como tudo isso se correlaciona…e tende ao bem comum, à superação da miséria, da exploração…

As virtudes humanas são o equivalente humano dos atributos morais de Deus. São as regras práticas que o próprio Deus segue.

Do mesmo modo, os afetos humanos foram criados à imagem e semelhança das emoções divinas, no modo e nos limites humanos

São Paulo, na “Carta a igreja em Éfeso” (5,9), resume a lista das virtudes (boas ideias, boas regras, e boas condutas que concretizam, realizam as referidas ideias práticas) de uma pessoa da seguinte forma: “andai como filhos da Luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios”.

Na “Carta aos filipenses” (cf. Fp 4,8), São Paulo ensina:

tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

O texto acima tem o mesmo conteúdo que a ética de Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” (livro I, 13): Há também pontos semelhantes com a ética de Cícero e de Sêneca, o mesmo para os melhores textos de Epiteto e Marco Aurélio…

O termo “virtude” (“aretè”) aparece na Bíblia, como ser visto em 1 Ped 2,9, 2 Ped 1,3-5 ou Fp 4,8.

O trecho mais importante é 1 Pd 2,9, pois é uma citação de Isaías 43,21 (da “Septuaginta”; tal como 42,8-12; e 63,7) como o sentido de “atos dignos de louvor” (em hebraico, “te hillah”; “aretas”, em grego).

No livro apócrifo “Macabeus 4”, há o termo “aretè”, com claríssima ligação com os estóicos.

No livro “Sabedoria” (5,13), a virtude (“aretè”) é o contrário da “maldade”, sendo atos (a prática) de bondade, do bem. O livro “Sabedoria” (4,1) ensina que a prática das virtudes gera a “imortalidade”.

O livro “Sabedoria” adota a classificação clássica das quatro virtudes cardeais (cf. 8,7).

Na “Segunda Carta” (2 Pd 1,3-4), São Pedro relaciona a virtude (“aretè”) com a “glória” e com “poder” (“dynamis”).

Virtudes são perfeições, são atualizações do potencial humano, é a plenitude, a realização da natureza humana. Pela prática das virtudes, a pessoa torna-se participante da natureza divina (“theias physeos”), como pode ser visto em Mt 5,48.

No fundo, para isso fomos feitos, para sermos deificados, sermos filhos de Deus, compartilhar da natureza de Deus, da Comunhão, do Corpo Místico de Cristo, do Corpo Místico de Deus, sermos Deuses, “como anjos”, unidos a Deus, mas mantendo nossa independência, nossa autonomia. 

As listas de virtudes têm correlação com as listas clássicas (Fp 4,8 com “Disputas Tusculanas” 5, 23 e 67, obra de Cícero). Esta correlação foi praticamente demonstrada por Santo Ambrósio (no livro “De officiis Ministrorum”, 1, 24-49; com base no livro “De officiis”, “Dos deveres”, de Cícero), por Santo Agostinho (cf. “De libero arbitrio” 1,27), por Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”, I-II, questões 55-67; e II-II, questão 101 e outras).

Uma boa síntese possivelmente seja o livro do padre J. Pieper, “As virtudes fundamentais”, obra que compulsei com cuidado, para a redação deste post.

Virtudes são a prática do bem, como ensinaram Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”) e São Paulo (cf. Rm 12,9).

Amar é querer o bem e daí há também uma relação intrínseca entre o amor e as virtudes, sendo o amor (a caridade, a misericórdia) a alma de todas as virtudes. Há uma correlação entre emoções (paixões no sentido amplo) e virtudes, regras, pois cada regra tem um pathos, uma carga emocional, uma energia emocional, cada emoção tem uma ideia embutida. 

A Igreja, ao nascer, reconhece claramente virtudes e qualidades nos pagãos.

O termo “aretè” vem da raiz “ari”, de “agradável”, “louvável”, tal como está presente no termo “aristo” (de “melhor”, os melhores). As melhores pessoas são as que praticam as virtudes.

Platão, nos livros “Protágoras” (329) e “Apologia” (n. 25), mostra que Sócrates ensinava que a virtude pode ser ensinada, é fruto da educação e da aceitação desta pelo educando, no fundo, é fruto do auto-educação do educando com a ajuda do educador, como parteiro. Aristóteles destaca que a virtude é “hexis”, um conjunto de hábitos, nascidos da prática de atos louváveis (cf. “Ética a Nicômaco”, 2,4-5; 1106; e outros trechos).

São Paulo, na “Carta aos Gálatas” (5,14), repete o ensinamento de Cristo, e resume toda a ética cristã: “toda a lei se resume em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5,4), em outros termos, fazer ao próximo o que gostaríamos que fosse feito conosco, nos por no lugar do próximo, do outro, cultivarmos a SANTA IGUALDADE.

Um ponto peculiar da ética cristã é relacionar todas as virtudes ao amor (cf. Gl 5,22; Ef 4,32 e 5,2; Cl 3,12; e outros trechos).

As principais listas de virtudes estão em Gl 5,19-23; Fp 4,8; Cl 3,5 e 12; 2 Co 12,20; Tt 3,3; 1 Tm 3,1-13; e outras passagens. Estas listas coincidem, em linhas gerais, com as listas vétero-testamentárias (do Antigo Testamento), tal como do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo. Também há pontos comuns com os Rolos do Mar Morto. Autores como A. Vogtle (“Die Tugende und Lasterkataloge um Neuen Testament”, 1936) tentaram demonstrar a influência estóica nestas listas. Possivelmente exista também influência do mitraísmo (cf. S. Wibbing, “Die Tugend”, 1959). –

Na “Carta aos Gálatas” (2,4), diz que os cristãos “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” desordenadas, no sentido estóico, de ordenação racional dos afetos.

A Igreja nunca foi contra as emoções, e nem contra o sexo e os prazeres, pois sempre ensinou, como mostra o tratado do matrimônio de São Tomás de Aquino, que haveria mais PRAZER SEXUAL sem pecado, que o PRAZER SEXUAL aumenta com AFETO, COM AMOR, e não o contrário. 

A lista das virtudes, no texto da “Carta aos Gálatas” (5,22-23), é a seguinte, formando os nove frutos do Espírito:

1) amor é “ágape”, em grego. Significa “caridade”, misericórdia, bondade, que é principal virtude (vide Primeira Carta aos Coríntios, 13,4 e, principalmente, I Cor 13,13, o “Hino ao amor”). É a mesma lição da Primeira carta de São João (4,7), que ensina que o amor é a primeira das virtudes e é eterno. Caridade em relação ao próximo é misericórdia, que é preocupar-se com o atendimento das necessidades do próximo (cf. explicação de Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”), preocupar-se com o bem do outro, com o bem comum;

2) alegria é “chara”, em grego. Vem do verbo “chairo”, significa alegrar-se com o bem. A Septuaginta usado também a palavra grega “agalliasis”. Em hebraico, “alegria” é “simhah”, do verbo “saimeah”. Deus é um Ser alegre (cf. Sl 16,11; Fp 4,4; e Rm 15,13). São Pedro frisa que o cristão deve ser uma pessoa alegre (cf. 1 Pd 1,8). Neemias ensina: “a alegria do Senhor é a nossa força” (cf. Ne 8,10). A “tristeza” (“lype”, em grego) é um vício, uma paixão desordenada. Os estóicos aconselhavam, na mesma linha: “foge da tristeza” (cf. Periandro, “Sentenças”, 56);

3) paz é “eirene”, em grego. Daí, “pacificador” (“eire”opoieo”), pessoa pacífica. Há referência também em Isaías 45,7. Cristo ensinou: “aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração” (cf Mt 11,29). Em hebraico, “paz” é “shalom”, que significa bem estar no sentido pleno, prosperidade, felicidade etc.;

4) paciência é “makrothymia”, em grego. Significa “longanimidade”, “paciência”, “constãncia”, “perserança”). Trata-se de virtude elogiada em vários textos como: 1 Cor. 13:4-7; 2 Cor. 6:4-6; Ephes. 4:1-2; Col. 1:11; Col. 3:12-13; 1 Tim. 1:16; 2 Tim. 3:10; e 2 Tim. 4:2. Em hebraico, “paciência” é “arekh”. A Bíblia elogia a paciência de Deus (cf. Ex 34,6; Nm 14,18; Ne 9,17), que é “longo” em irar-se. Daí, o termo “longanimidade”. Deus é lento em irar-se ao tratar com os pecadores (cf. Os 11,8; e Is 48,9). Os cristãos devem imitar a Deus na paciência ao irar-se (cf. Mt 18,26; I Co 13,4; Gl 5,22; Ef 4,2; e 1Ts 5,14);

5) gentileza (“chrestotes”, em grego), elogiada em textos como: 2 Tim. 2:24-26; Tt 3:1-2; e Tiago 3:17;

6) bondade (“agathosune”, em grego), elogiada em textos como: Ex 33:19; Ex 34:6; Rm 2:4; Ef 5:9; Mt 5:44-48; e Lc 6:27-32. A “Septuaginta” usou o termo “agathos” para traduzir a palavra hebraica “tov”, “bom”. O termo “tov” significa “bom”, “alegre”, “agradável” etc. A “Septuaginta” usa o termo “kalos” também, que significa “belo” (“admirável”, “digno”, “honroso”). São Paulo também usa o termo “chrestotes” (cf. Rm 2,4; 11,22). O termo hebraico “hessed” também significa “bondade”, “compassivo”, “misericordioso”, “benigno”, “amoroso”;

7) fidelidade (“pistis”, em grego). Sobre a fidelidade, há um bom texto de Karl Barth, “Fidelidade na comunhão”;

8) modéstia (“praotes”, em grego); e

9.Temperança (“engkrateia”, em grego, autocontrole). Virtude elogiada em textos como: Prov 23:1-3; Prov 25:16; Dan 1:8-16; Rm 13:14; 2 Cor. 9:25-27; Fil 4:5; 1 Tes. 5:6-8; Tt 2:2-3,11-12; 2 Pt 1:5-10. Está expresso nos “Dez Mandamentos”, com o preceito “não cobiçar”.

Como fica claro, as virtudes morais são afetos bem ordenados por idéias práticas do bem, ou seja, pela razão, em prol do bem comum. O ponto central em todas as virtudes é que são práticas do bem, atos que conduzem e produzem o bem comum, a comunhão, como destacou Santo Tomás de Aquino.

Aristóteles, no livro “Ética a Nicômaco” (III-V), listou as principais virtudes, a seu ver: justiça, franqueza (veracidade, amor à verdade), coragem (fortaleza), temperança (autocontrole), liberalidade (querer ajudar o próximo), magnanimidade e mansidão.

Magnanimidade é desejar grandes feitos e ser digno deles, vem de desejar grandeza, grandes obras em prol do bem comum. Santo Inácio também elogiou esta virtude. O livro de Humberto Grande, “O culto à grandeza” (São Paulo, Ed. Ipê S/A, 1949) explica esta virtude, bem cultiva no mundo dos esportes, nas Forças Armadas, no mundo da cultura e das artes e em outros círculos.

Os quatro valores (princípios, idéias-forças, tipos gerais de conduta) “mais altos e universais” (cf. Paulo VI), principais, são, conforme a lista feita em documentos do Vaticano: “a verdade, a liberdade, a justiça, o amor” (cf. discurso de Paulo VI, em 15.12.1967). Estes valores, idéias, estão ligados aos atributos morais principais de Deus.

Assim, o ápice da teologia fundamental e mística ensina o mesmo que a teologia moral e política: o poder, todo poder, até o poder do Todo Poderoso, está vinculado, naturalmente sujeito a estes valores, à ética, ao que há de melhor na consciência humana e também na divina.

Como explicou São Leão I, que foi Papa de 440 a 461 d.C. na Carta “Quam laudabiliter” (em 21.07.447), a ética é baseada na participação. As pessoas boas são “participantes da verdade, da sabedoria e da justiça”. Estas virtudes fazem parte da “essência” de Deus, que “renova tudo”. Cada pessoa, como o Diabo, tem o livre arbítrio, pode usar mal deste e “não permanecer na verdade” (cf. Jo 8,44), “desligando-se do Sumo Abem, ao qual devia aderir”.

Estas virtudes estão elogiadas também no Sermão da Montanha, nos Dez Mandamentos e também na estrutura da Cabala, nos dez sefirot etc. Também estão na estrutura das virtudes, dos livros aristotélicos e estóicos, livros adotados pela Igreja, por coincidir, em quase tudo, com as idéias cristãs, sendo as idéias cristãs mais completas.

As virtudes estão enunciadas de forma negativa nos Dez Mandamentos, pois o contrário do que é proibido é elogiado e considerado como conduta meritória.

Confúcio também ensinava que o “Tao” (“Caminho”) era baseado em quatro grandes virtudes: “os quatro maiores dons que o Céu concedeu às pessoas sábias são: a benevolência, a amabilidade, a justiça e a prudência”.

Há outras listas de virtudes implícitas na Bíblia. Isso ocorre porque quando a Bíblia critica um vício ou um pecado, a conduta contrária é implicitamente elogiada. Como explicou Aristóteles, para cada virtude há dois vícios, por falta ou por excesso.

O elogio católico às paixões, às emoções, à afetividade

O padre Bernhard Häring, um dos teólogos morais mais conceituados e lidos nos seminários católicos do mundo inteiro, no livro “Livres e fiéis em Cristo” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1979, volume I, p. 73), lembra a boa lição de Max Scheler, um grande católico socialista:

Max Scheler estava certo quando insiste, através de seus livros, em que, divorciado do espírito, o instinto humano (tudo o que corpo-alma dirige e estimula) se torna selvagem e passa a ser destrutivo; e é igualmente verdadeiro que, divorciado das emoções, paixões e afetividade, o espírito torna-se impotente e absolutamente não-criativo”.

As boas paixões são motores, fogos para o bem, para divinizar o ser humano

A Teologia católica sempre distinguiu as boas paixões (bons afetos) das más paixões. As boas salvam, são motores essenciais.

Herbert Spencer também distinguia entre os sentimentos (afetos, emoções, paixões), considerando uns como bons e outros como maus. Spencer considerava, corretamente, a ampliação dos “sentimentos altruístas” (os bons sentimentos, os sentimentos racionais) como a base da evolução humana (cf. seu livro “A justiça”).

Jackson de Figueiredo, no livro “A coluna de fogo”, lembrava o ensino da “filosofia tomista”: “deu-nos a Providência a paixão irascível precisamente para resistir ao mal”. Como o mal é a “ausência do bem devido” (como foi demonstrado por Santo Agostinho na discussão com os maniqueus), “resistir ao mal” significa conservar, proteger e promover o bem geral, comum, o bem mais geral e difuso que pudermos.

A “paixão irascível” (indignação, ira etc diante do mal) foi feita para a luta em prol do bem comum. A “paixão da concupiscência” (os prazeres) foi implantada no corpo por Deus para que as pessoas tenham prazeres constantes, moderados e racionais (no fundo, o ideal do próprio Epicuro, tal como do eudemonismo de Aristóteles), o que é essencial para a saúde humana, para a plenitude da natureza humana. Por isso, Deus implantou o prazer sexual para que tivéssemos prazer na união amorosa com nosso par, na geração de filhos, na manutenção da família etc. O prazer da alimentação é essencial para a sobrevivência (para a boa alimentação) do corpo e assim por diante.

A Igreja não despreza o prazer, apenas exige que este seja pautado pela razão e pelo bem comum, as mesmas regras aplicáveis ao poder público.

As paixões e afetos, desde que racionais e sociais, são boas e queridas por Deus, como também ensinou Descartes, em seu “Tratado das paixões”. Em 1880, Leão XIII foi bem conciso: “grande é com efeito a força do exemplo e maior ainda o poder da paixão”. Por isso, os grandes santos eram pessoas apaixonadas, com fortes paixões, mas regidas pela razão e pelo bem comum.

A teologia moral ensina, assim, que existem as boas paixões (os bons afetos e emoções, em harmonia com a razão, com o bem comum) e as más paixões. Na mesma linha, Aristóteles ensinava, na “Poética” (1449), que a boa arte produz a purgação das paixões, a purificação dos afetos (sublimação dos instintos, nos termos de Freud, neste ponto com influência aristotélica), que é, no fundo, a ordenação racional e social (regras que expressam as exigências do bem social) dos afetos, como ensinava Santo Inácio, em seus exercícios espirituais.

O elogio da natureza, a principal mediação da ação de Deus, faz parte das entranhas do catolicismo, tal como das correntes empapadas de catolicismo, como o romantismo, a homeopatia e hidropatia (neste ponto, ver as antigas e boas obras literárias de Monsenhor Sebastião Kneipp, sobre os diversos tipos de água e como curam).

Neste sentido, a ética cristã também coincide (inclusive por ser a matriz) com o melhor da ética muçulmana, como fica claro no livro ético do Dr. Yossef Al-Karadhawi, “O ilícito e o ilícito no Islam” (São Bernardo do Campo, Ed. Alvorada, 1960), especialmente na parte referente aos preceitos éticos consensuais como a base legítima da ética, exaltando o “princípio da permissibilidade” (da aprovação, do consenso), que contém o elogio da liberdade (os atos naturais são naturalmente bons, livres, sendo as proibições uma exceção).

Após deixar claro que as boas paixões (bons afetos, emoções e mesmo bons instintos) marcham junto com a razão, frise-se que usamos a palavra “razão” como faculdade (causa) cognitiva e também o mesmo “razão” como o efeito do ato de raciocinar, significando as idéias racionais. Por isso, escrevemos “a razão humana é uma faculdade essencial” e “esta ideia é irracional”, ou seja, contradiz a razão, contradiz as idéias racionais. Da mesma forma, o poder legítimo é o poder que expressa a faculdade criadora da razão de todos, o poder que adéqua suas estruturas e regras ao conjunto das idéias práticas da sociedade, idéias que expressam as exigências (regras) do bem comum.

A Democracia popular tem ampla fundamentação na religião hebraica e cristã, especialmente no catolicismo

Como Marx reconheceu, no livro “A questão judaica” (texto inspirado nos textos de Moses Hess), a Democracia traduz a concepção cristã sobre o ser humano, como “um ser soberano”, seculariza uma verdade natural e religiosa (há a mesma explicação em Feuerbach).

No mesmo sentido, Lenin reconheceu que o espírito do cristianismo primitivo era essencialmente democrático, tinha e tem fundamentação essencialmente democrática. 

A consciência humana move-se de forma natural para o bem comum, quando não é torcida por paixões desordenadas.

As paixões, os instintos, o prazer, os afetos, os movimentos corporais, tudo isso são coisas naturais e criadas por Deus, sendo boas, quando se movem de forma humana, de forma inteligente e pautada pelo bem comum. 

Padre Pio e o poder da contrição para voltar ao estado de graça

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O significado do termo “coração”, na Bíblia, e sua base política e psicológica

O termo “coração” significa “consciência”, ponto que o velho Alceu Amoroso Lima sempre frisou.

A razão (o entendimento) é apenas a faculdade principal da consciência, existindo também a vontade, a memória, os afetos (as emoções, as paixões) e os instintos. Todas estas faculdades da consciência tendem a se moverem de forma harmônica. Assim, seguir a voz da consciência é seguir a voz de Deus, da razão, das tendências da vontade, dos afetos e instintos.

A organização do Estado e a legislação positiva devem ser expressões do “coração” da sociedade, do Povo, como todos os textos. Como disse Cristo: “o que sai da boca (a voz, os textos, as idéias) procede do coração”. No mesmo sentido, Pio XII, num discurso em abril de 1943, ensinava que devemos “infundir” a bondade e as boas idéias favoráveis aos pobres nas “leis”, nas “instituições” e nas “manifestações de vida oficial”, para gerar um Estado servo do povo, um Estado sob o controle do povo, um Estado popular, uma Democracia Popular. 

Lista das emoções (paixões), na teoria de São Tomás de Aquino

O livro do padre jesuíta, T. de Diego Diez, “Theologia naturalis” (Santander, Ed. Sal Terrae, 1955, p. 429), lista as emoções (paixões, “affectus”) principais.

Deixa claro que não são apenas movimentos da do apetite sensitivo (“actus appetitus sensitivi”), mas também (“sed etiam”) do “apetite racional e voluntário” (“appetitus racionalis seu voluntatis”), logo, são movimentos naturais que até Deus e os anjos têm, pelo menos algumas das emoções e este ponto é examinado por São Tomás.

Por exemplo, a própria Bíblia diz claramente que Deus é amor, ou seja, é tão amoroso, inclinado ao bem dos outros, que é praticamente a personificação da emoção máxima, o Amor. Da mesma forma, Deus é alegre, é desejoso do bem do próximo, tem ódio (aversão, abominação) ao mal etc. 

Dividem-se em dois grupos: “concupiscibilis” (“versantur circa bonum et malum …spectata”) e “irascibilis” (“qui versantur circa bonum et malum ut ardua”).

As emoções concupiscíveis são: “amor” (“amor”), “gaudium” (“alegria”), “desiderium” (“desejo”), “odium” (“ódio”, repulsa), “fuga” (“aversio”, aversão) e “tristicia” (“tristeza”). 

As emoções irascíveis são: “spes” (“esperança”), “desperatio” (“recessio”, “desespero”), “audacia” (“coragem”), “timor” (“medo”) e “ira” (“ira”). 

Freud praticamente reconheceu seus erros, no final da vida

O próprio Freud, no final da vida, em cartas a Einstein e nas “novas conferências introdutórias”, terminou por reconhecer que na sociedade do futuro, vindoura, a razão teria a primazia.

Freud, no livro “O futuro de uma ilusão” (1928), escreveu: “a longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência” e ressaltou que o progresso, a civilização, depende do controle racional e social dos “instintos”, tese que teria total apoio e respaldo nos textos de Santo Tomás. Psicanalistas como Fenichel distinguiram, mais tarde, o superego normal e autônomo do heterônomo e infantil, o “normal” é o “autônomo”, como ensina tradicionalmente a ética cristã.

A lição de São Francisco de Sales sobre a importância das paixões boas

São Francisco de Sales ensinava que sem paixões (sem os movimentos afetivos poderosos), nenhuma boa ação é praticada. Os grandes santos e o próprio Cristo eram homem apaixonados, com poderosas paixões, mas ordenadas pela sociedade para que todos seus atos servissem ao bem comum, ou seja, os movimentos afetivos e instintivos movimentavam-se de forma inteligente, de forma racional.

Conclusão: a regra para a boa ordenação da vida pessoal é a mesma regra para a boa ordenação da sociedade. A vida pessoal deve ser pautada pela consciência pessoal, pela razão e pelo bem comum. A vida social deve ser pautada pela consciência social (pela interligação das consciências pessoais pelo diálogo), pela participação de todos no poder, para que tudo sirva ao bem comum, ao bem de todos.

Eupatias, boas paixões

São Tomás de Aquino, na “Suma teológica”, na parte sobre “As virtudes morais e as paixões”, lembra que Santo Agostinho ensinava: “os estoicos sustentam que que na alma do sábio, e correlativas às três perturbações, existiam três eupatias, ou seja, três paixões boas: vontade em lugar de concupiscência; alegria em lugar de regozijo; e precaução em lugar de temor”.

O conceito de eupatia mostra que os estóicos valorizavam os bons afetos, as boas paixões, as boas emoções. 

— Updated: 21/09/2019 — Total visits: 59,307 — Last 24 hours: 44 — On-line: 0
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