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Padre Pio e o poder da contrição para voltar ao estado de graça

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O significado do termo “coração”, na Bíblia, e sua base política e psicológica

O termo “coração” significa “consciência”, ponto que o velho Alceu Amoroso Lima sempre frisou.

A razão (o entendimento) é apenas a faculdade principal da consciência, existindo também a vontade, a memória, os afetos (as emoções, as paixões) e os instintos. Todas estas faculdades da consciência tendem a se moverem de forma harmônica. Assim, seguir a voz da consciência é seguir a voz de Deus, da razão, das tendências da vontade, dos afetos e instintos.

A organização do Estado e a legislação positiva devem ser expressões do “coração” da sociedade, do Povo, como todos os textos. Como disse Cristo: “o que sai da boca (a voz, os textos, as idéias) procede do coração”. No mesmo sentido, Pio XII, num discurso em abril de 1943, ensinava que devemos “infundir” a bondade e as boas idéias favoráveis aos pobres nas “leis”, nas “instituições” e nas “manifestações de vida oficial”, para gerar um Estado servo do povo, um Estado sob o controle do povo, um Estado popular, uma Democracia Popular. 

Lista das emoções (paixões), na teoria de São Tomás de Aquino

O livro do padre jesuíta, T. de Diego Diez, “Theologia naturalis” (Santander, Ed. Sal Terrae, 1955, p. 429), lista as emoções (paixões, “affectus”) principais.

Deixa claro que não são apenas movimentos da do apetite sensitivo (“actus appetitus sensitivi”), mas também (“sed etiam”) do “apetite racional e voluntário” (“appetitus racionalis seu voluntatis”), logo, são movimentos naturais que até Deus e os anjos têm, pelo menos algumas das emoções e este ponto é examinado por São Tomás.

Por exemplo, a própria Bíblia diz claramente que Deus é amor, ou seja, é tão amoroso, inclinado ao bem dos outros, que é praticamente a personificação da emoção máxima, o Amor. Da mesma forma, Deus é alegre, é desejoso do bem do próximo, tem ódio (aversão, abominação) ao mal etc. 

Dividem-se em dois grupos: “concupiscibilis” (“versantur circa bonum et malum …spectata”) e “irascibilis” (“qui versantur circa bonum et malum ut ardua”).

As emoções concupiscíveis são: “amor” (“amor”), “gaudium” (“alegria”), “desiderium” (“desejo”), “odium” (“ódio”, repulsa), “fuga” (“aversio”, aversão) e “tristicia” (“tristeza”). 

As emoções irascíveis são: “spes” (“esperança”), “desperatio” (“recessio”, “desespero”), “audacia” (“coragem”), “timor” (“medo”) e “ira” (“ira”). 

Freud praticamente reconheceu seus erros, no final da vida

O próprio Freud, no final da vida, em cartas a Einstein e nas “novas conferências introdutórias”, terminou por reconhecer que na sociedade do futuro, vindoura, a razão teria a primazia.

Freud, no livro “O futuro de uma ilusão” (1928), escreveu: “a longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência” e ressaltou que o progresso, a civilização, depende do controle racional e social dos “instintos”, tese que teria total apoio e respaldo nos textos de Santo Tomás. Psicanalistas como Fenichel distinguiram, mais tarde, o superego normal e autônomo do heterônomo e infantil, o “normal” é o “autônomo”, como ensina tradicionalmente a ética cristã.

A lição de São Francisco de Sales sobre a importância das paixões boas

São Francisco de Sales ensinava que sem paixões (sem os movimentos afetivos poderosos), nenhuma boa ação é praticada. Os grandes santos e o próprio Cristo eram homem apaixonados, com poderosas paixões, mas ordenadas pela sociedade para que todos seus atos servissem ao bem comum, ou seja, os movimentos afetivos e instintivos movimentavam-se de forma inteligente, de forma racional.

Conclusão: a regra para a boa ordenação da vida pessoal é a mesma regra para a boa ordenação da sociedade. A vida pessoal deve ser pautada pela consciência pessoal, pela razão e pelo bem comum. A vida social deve ser pautada pela consciência social (pela interligação das consciências pessoais pelo diálogo), pela participação de todos no poder, para que tudo sirva ao bem comum, ao bem de todos.

Eupatias, boas paixões

São Tomás de Aquino, na “Suma teológica”, na parte sobre “As virtudes morais e as paixões”, lembra que Santo Agostinho ensinava: “os estoicos sustentam que que na alma do sábio, e correlativas às três perturbações, existiam três eupatias, ou seja, três paixões boas: vontade em lugar de concupiscência; alegria em lugar de regozijo; e precaução em lugar de temor”.

O conceito de eupatia mostra que os estóicos valorizavam os bons afetos, as boas paixões, as boas emoções. 

A teoria e a classificação das paixões, em Aristóteles, Agostinho, Descartes, São Francisco de Sales e Spinoza

A Igreja nunca ensinou, como alguns estóicos (Cícero, Sêneca, Plutarco e alguns outros não incidiram neste erro) e alguns budistas, que as paixões em si são más. As paixões são boas, pois a natureza, apesar de decaída, é boa, e isso vale para o corpo, os prazeres, o prazer sexual, os afetos, os instintos etc. Tudo isto está claro na “Suma Teológica” ou no “Tratado das paixões” de Descartes, tal como estava bem exposto na “Ética a Nicômaco” de Aristóteles e nos livros sobre ética de Cícero (bem apreciados por Santo Ambrósio ou São Jerônimo).

Sobre a distinção entre boas e más paixões, nascidas do apetite sensitivo, vale a pena ler o livro de São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus” (Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1950, p. 32, 34/35), que lembra que Santo Agostinho mostrou que os melhores estóicos admitiam que os sábios pudessem ter afeições (“eupatias”, “boas paixões”):

“… as paixões e afeições são boas ou más, viciosas ou virtuosas, conforme o amor donde procedem é bom ou mau” e “Santo Agostinho reduziu a quatro todas as paixões e afetos. “O amor, diz ele, que tende a possuir aquilo que ama, chama-se desejo; alcançando-o e possuindo-o, chama-se gozo; fugindo ao que lhe é oposto, chama-se temor; e, se este mal lhe sucede, e o sente, chama-se tristeza; e estas paixões são más, se o amor é mau; boas, se ele é bom”. 

Santo Agostinho assim ensina que há cinco paixões (emoções fundamentais): amor, desejo, alegria (gozo, o que inclui o prazer), temor (medo) e tristeza (o que inclui o sofrimento). Cinco. 

Descartes ensinou, no “Tratado das paixões”, sua última obra, que as paixões principais seriam: amor, ódio, desejo, alegria, tristeza e admiração. Vou destacar o ponto sobre a admiração (elogiada por Aristóteles como base da filosofia) em outra postagem. 

São Tomás de Aquino classificou as paixões em onze principais – amor (inclinação), ódio, alegria, tristeza, desejo e aversão (seis do apetite, concupiscíveis) e esperança, desalento, animo, temor (medo) e ira (paixões de defesa e consecução, irascíveis). 

São Tomás, no entanto, distingue, entre as onze, quatro paixões (emoções) fundamentais – desejo, temor (medo), alegria e tristeza (sofrimento). A mesma opinião dada por Santo Agostinho, no livro “Cidade de Deus” (livro XIV). Lembra também que o desejo inclui a cobiça, a base da concupiscência, querer algo. Aristóteles, no livro II da “Ética a Nicômaco” (capítulo 3, 1104b e cap. 5, 1105b), também destacou que a alegria (o que inclui o prazer) e a tristeza (o que inclui o sofrimento) são as paixões fundamentais.

Depois, Aristóteles, no livro “Da alma” (cap. 4), ensina que da concupiscência (desejo) nasce a alegria (quando a pessoa frui, tem a posse do bem querido) e a esperança (a alegria pela espera do bem) e da ira nasce a dor (sofrimento) e o medo (a espera do falta do bem, do mal, do sofrimento). No mesmo livro, “Da alma” (cap. IV), Aristóteles ensina que são quatro as paixões (emoções) fundamentais – alegria (o que inclui o prazer), tristeza (o que inclui o sofrimento, a dor, tristeza), medo e esperança.

Boécio, no livro “Sobre a consolação”, diz que as paixões fundamentais são – alegria, medo (temor), esperança e tristeza (sofrimento). Avicena, no livro “Da alma”, ensina coisa parecida. 

São Tomás ensina também que as paixões do concupiscível estão ligadas a nossa relação com os bens. As paixões do irascível estão ligadas a nossa relação com o mal (a falta do bem devido, correlato). 

Spinoza classifica as paixões principais em alegria, tristeza e desejo. Estas seriam as três mais importantes. Daí, surgiriam outras, totalizando cinco, como as mais importantes. Então, o desejo é um apetite de que temos consciência; a alegria é o efeito da posse de um bem; a tristeza é o contrário; o amor é a alegria acompanhada de uma causa externa; e a ódio é a tristeza acompanhada de uma causa externa. Alegria, tristeza, desejo, amor e ódio. Quase a classificação de Agostinho, aceitando amor, desejo, alegria, tristeza como comuns a estes dois pensadores. Então, Agostinho destaca temor e Spinoza destaca o ódio, na quinta. 

São Francisco de Sales também escreveu: “por isso, o maior homem de bem de todo o paganismo, Epitecto [um escravo estóico], não abraçou este erro de não haver paixões no homem sábio”. São Francisco de Sales, amigo do grande São Vicente de Paulo, reconheceu que os bons pagãos também se salvavam e obtinham a bem-aventurança durante a vida e após a morte. A salvação, para cristãos e para não-cristãos, ocorre pela orientação da vida em prol do bem comum (da “pátria”, da sociedade que os cercava, onde viviam, da humanidade), pela prática das “virtudes” (ações racionais visando o bem), pelo cultivo da “ciência” e por vingarem as afrontas contra o povo e indignarem-se e combaterem os tiranos.

Vejamos a conclusão de São Francisco de Sales na obra referida acima:

Na vontade há, como no apetite sensitivo, movimentos chamados afetos; mas os da vontade chamam-se ordinariamente afeições, os outros, paixões. Os filósofos gentios podiam amar a Deus, a pátria, a virtude, as ciências; aborreceram o vício, desprezaram as honras, a morte ou a calúnia, desejaram a ciência: podiam até ser bem-aventurados depois da sua morte; animaram-se a vencer os obstáculos que encontravam na aquisição da virtude, temeram a censura, fugiram de cometer muitas faltas, vingaram as afrontas públicas [ao povo], indignaram-se contra os tiranos, sem interesse próprio. Todos estes movimentos residiam na vontade, visto que nem os sentidos, nem por conseqüência o apetite sensual, são capazes de ser aplicados a estas coisas, e, portanto, estes movimentos eram afetos do apetite intelectual ou racional, e não paixões do apetite sensual”.

Correlato às emoções, havia a teoria dos quatro temperamentos, criada por Hipócrates, e desenvolvida por Aristóteles e depois por Galeno. O temperamento melancólico era marcado pelo predomínio das emoções da tristeza, do medo, do receio. O temperamento colérico era marcado pelo predomínio da paixão da ira. O temperamento sanguíneo era marcado pela alegria, otimismo, esperança. O temperamento fleumático era marcado pela temperança, pelo controle racional das paixões. 

Virtudes, emoções (afetos, paixões) e valores, tudo em boa correlação

Aristóteles, no livro “Ética a Nicômaco” (III-V), listou as principais virtudes, a seu ver: justiça, franqueza (veracidade, amor à verdade), coragem (fortaleza), temperança (autocontrole), liberalidade (querer ajudar o próximo), magnanimidade e mansidão.

Magnanimidade é desejar grandes feitos e ser digno deles, vem de desejar grandeza, grandes obras em prol do bem comum. Santo Inácio também elogiou esta virtude. O livro de Humberto Grande, “O culto à grandeza” (São Paulo, Ed. Ipê S/A, 1949) explica esta virtude, bem cultiva no mundo dos esportes, nas Forças Armadas, no mundo da cultura e das artes e em outros círculos.

Os quatro valores (princípios, idéias-forças, tipos gerais de conduta) “mais altos e universais” (cf. Paulo VI), principais, são, conforme a lista feita em documentos do Vaticano: “a verdade, a liberdade, a justiça, o amor” (cf. discurso de Paulo VI, em 15.12.1967). Estes valores, idéias, estão ligados aos atributos morais principais de Deus.

Assim, o ápice da teologia fundamental e mística ensina o mesmo que a teologia moral e política: o poder, todo poder, até o poder do Todo Poderoso, está vinculado, naturalmente sujeito a estes valores, à ética, ao que há de melhor na consciência humana e também na divina.

As emoções humanas foram feitas à imagem das emoções de Deus

A voz de Deus é a voz do povo porque a voz da consciência (da razão) é a voz de Deus. A luz humana é um reflexo da Luz Divina. As boas decisões humanas são feitas à imagem das boas decisões de Deus, como um bom coro, sendo que Deus acolhe sugestões e pedidos humanos. Deus é um Ser Democrático.

A linguagem humana é uma continuação da Linguagem divina (cf. Scholem). As boas emoções humanas também foram planejadas à imagem das boas emoções de Deus e dos Anjos; tal como os maus afetos humanos como que refletem os maus afetos do Diabo, dos demônios (ódio etc). A presença de boas idéias, de bons afetos e de boas obras, em adequação ao bem comum, santifica e aperfeiçoa as pessoas. As idéias do povo tornam justo o poder. Boas emoções são boas paixões. Paixão é um termo complicado, pois tem várias acepções. No significado correto, paixões são emoções.  No sentido restrito e ruim, paixões são emoções irracionais (cavalos correndo sem o controle do condutor, da razão, na imagem de Platão). Neste sentido restrito, a Igreja censura as paixões, mas no sentido amplo e mais correto do termo paixões, a Igreja acha as paixões naturais, boas, em si mesmas, pois são emoções, que confluem naturalmente com a luz da razão, num movimento natural de confluência, de harmonia. A pessoa deve tomar decisões racionais e emocionais, em boa unidade, pois o movimento emocional (e instintivo) é finalisticamente orientado ao bem, já que a natureza humana é boa, apesar de estar decaída. Deve ser restaurada, elevada, o que implica em dizer, conservada e melhorada (e isso ocorre no movimento da parusia, gradualmente). 

O mal do belfegorismo

Benda (1867-1956) cunhou o termo “belfegorismo” para designar as pessoas que desdenham a inteligência e vivem à procura de sensações e prazeres. As pessoas irracionais adoram Belfegor, o ídolo dos moabitas. Benda redigiu vários textos criticando o antiintelectualismo e o sensualismo, ressalvando que os prazeres moderados e racionais são bons, queridos por Deus. Neste ponto, Benda seguia a tradição da Bíblia, da Paidéia e dos clássicos franceses, especialmente Descartes, no livro “Tratado das paixões”, uma de suas últimas obras, que inspirou os melhores textos de Spinoza e de Locke. Benda escreveu obras tolas, algumas detestadas por Maritain, mas também deixou bons textos.

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