Arquivos para : Análise social do Brasil, para erradicar males

Os EUA tentaram destruir a CEPAL, em 1951. Getúlio salvou a CEPAL

Colhi numa tese sobre a CEPAL e sobre Hans Singer – “Na reunião da CEPAL realizada no México em 1951, uma proposta da delegação norte-americana de seu fechamento foi sustada por poucos votos. Este órgão só não foi extinto devido a aguerrida defesa de Prebisch de seu trabalho e o apoio do Presidente do Brasil, Getúlio Vargas. Este fato é, também, relatado por Furtado,1985″.

De fato, Getúlio soube juntar seu nacionalismo com grandes economistas como Rômulo de Almeida e Jesus Soares. Rômulo de Almeida tinha sido antes integralista. Houve vários integralistas que se tornaram bons nacionalistas democráticos, como Rômulo de Almeida, Abdias do Nascimento, Roland Corbisier, Dom Hélder Câmara e outros. O nacionalismo, no final das contas, sempre termina por combater o imperialismo e se aproximar do campo da Democracia Popular, da economia mista, do socialismo democrático, do trabalhismo.

A doutrina da Igreja quer a extinção das classes opressoras, da opressão, da miséria

A doutrina social da Igreja defende a extinção das classes opressoras, especialmente os latifundiários e da grande burguesia industrial (oligarquia), condições que degradam os seres humanos aprisionados em tais condições infra-humanas (“condições subumanas”, cf. João Paulo II, na “Veritatis splendor”), no prisma ético. A grande burguesia é a personificação do “grande capital”, de grandes meios de produção que trazem, consigo, grande poder, poder demais para pertencer a particulares. Como ensinou De Gaulle,  os oligopólios (trustes e cartéis) devem ser substituídos por grandes cooperativas com planejamento estatal e por boas estatais com co-gestão dos trabalhadores, eleição para diretorias, do Conselho Fiscal etc.  Podem existir milhões e milhões de pequenas empresasprivadas e mesmo médias. 

Quanto aos banqueiros privados, o remédio do franciscano Bernardino de Feltre (sem apoio quanto a suas medidas antisemitas, frise-se) é ainda atual. O correto é a proibição da usura e criação de “Montes da Piedade” (“Montepios”), ou seja, de bancos públicos, que emprestem somas sem juros (ou com juros mínimos e às vezes negativos), apenas com taxas módicas de administração, para manter estes estabelecimentos. Na história da Caixa Econômica Federal e das Caixas Econômicas, os historiadores ressaltam os “Montepios”, fundos públicos (com recursos coletados da caridade) para empréstimos sem usura. No Brasil, estes bancos públicos partiriam da expansão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDES e de outros bancos públicos, com a estatização dos bancos privados. Banquinhos municipais poderiam existir, mas jamais redes como o Bradesco, o Itaú e outras desgraças, que são bombas de sucção da economia popular.

É aceitável uma sociedade formada por camponeses, artesãos, pequenos produtores (pequenos burgueses e trabalhadores autônomos) e trabalhadores associados, em unidades de trabalho (estatais, cooperativas, empresas comunitárias, fundações etc) controladas pelos trabalhadores diretos e pela sociedade, como gestora (“negotiorum gestor”) do bem comum.

Classes sociais no Brasil, as opressoras não precisavam existir

Enrique D. Dussel, na obra “Para uma ética da libertação latino-americana” (das Edições Loyola, São Paulo, 1979, p. 96), lista as classes sociais na América Latina:

As classes sociais na América Latina poderiam ser tipificadas assim:

Classes dominantes:

1. Estamento gerencial estrangeiro [ multinacionais],

2. Patronato:

a. Oligárquico: senhorial parasitário, latifundiário [latifundiários]

b. Moderno: empresarial nacional [grandes capitalistas nacionais];

3. Patriciado:

a. Estatal: político, militar, tecnocrático;

b. Civil: eminências, lideranças, celebridades; setores intermediários ou pequena burguesia

(1. Autônomos: profissionais liberais, pequenos empresários;

2. Dependentes funcionários, empregados);

Classes oprimidas em primeiro grau:

1 Camponeses: assalariados rurais, arrendatários minifundiários;

2 Operários: fabris, serviços);

Classes oprimidas em segundo grau:

Marginalizados: bóia-frias, colhedores, peões e diaristas, emprega dos domésticos, office-boys, mendigos, prostitutas etc.”.

A classificação acima traz como classes dominantes as multinacionais (os gerentes e empregados de alto nível das mesmas), os latifundiários, os grandes capitalistas nacionais, os altos funcionários do Executivo, das Forças Armadas e das estatais, mais os pequenos burgueses, profissionais liberais, pequenos empresários e funcionários. Aponta como classes oprimidas os camponeses, os operários e marginalizados.

Há um erro e um exagero em considerar como dominantes os pequenos burgueses, funcionários públicos etc. Na estratégia da frente ampla, Frente Popular, o importante é isolar o latifúndio e o capital monopolista, especialmente as multinacionais, para extinguir estes males. No entanto, Dussel merece elogios por frisar bem a influência do imperialismo e voltar-se contra o mesmo em sua análise social. Dussel é bem completo em sua análise.

Paul Singer, no obra “Dominação e desigualdades” (editada pela Paz e Terra, 1981, Rio de Janeiro, pp. 73-97), esboça a seguinte configuração de classes sociais no Brasil:

1) Burguesia (3,36% da população) – [Considerando que temos hoje 176 milhões, haveriam cerca de 5.913.000, cinco milhões e novecentos e treze mil burgueses].

a) Burguesia empresarial (0,9%) – recebem 10 ou mais salários mínimos mensais) – [hoje, seriam 1.590.000, cerca de um milhão e seiscentos mil, daqueles 5,9 milhões já referidos].

b) Burguesia gerencial (2,46%) – pequeno aumento de 1964 a 1980 – [4.323.000,00, quatro milhões, trezentos e vinte e três mil, dos 5,9 milhões].

2) A pequena burguesia (20,84% da população) [ou seja, 36,6 milhões de pessoas].

a) Pequenos empregadores (1,77%). Com renda mensal inferior a 10 salários mínimos

b) Autônomos (12,47%) – com renda de 1 a 2 salários mínimos; e

c) Não-remunerados (6,6% da população) – aumentou quase duas vezes de 1964 a 1980.

3) O proletariado – assalariados sem poder de decisão (13,75%) – renda de 1 a menos de 10 salários mínimos – 13,75% em 1960 – 28,13% em 1976. – [ou seja, 49,5 milhões de proletários].

4) Subproletariado (46,64% da população), com menos de 1 a 2 salários mínimos:

a) Assalariados (30,94% da população). Setor da construção civil, de serviços domésticos, balconistas etc. E trabalho agrícola, não técnico nem qualificado.

b) autônomos (10,65% da população), não são proprietários.

c) Não-remunerados (6,05% da população), trabalhadores, membros das famílias dos autônomos, subproletários.

O erro da classificação acima é o não reconhecimento dos camponeses, como classe social específica. E não considerar os latifundiários como classe específica (os latifundiários, no Brasil, em geral seguem o sistema “plantation”, de plantarem para o mercado, especialmente para a exportação, mas são latifundiários, ainda que adotem técnicas capitalistas). Seria conveniente que Paul Singer tivesse lido com mais atenção o artigo “O problema camponês na França e na Alemanha”, de Engels, de 1894, onde o mesmo escreveu:

Da Irlanda até a Sicília, da Andaluzia até a Rússia e a Bulgária, o camponês é um fator essencial da população, da produção e do poder político. Somente dois territórios do ocidente da Europa constituem uma exceção. Na Grã-Bretanha, a grande propriedade territorial e a agricultura em grande escala substituíram totalmente o camponês que cultiva a terra para si; na Prússia do leste do Elba este mesmo processo vem ocorrendo desde séculos, e também aqui vemos o camponês cada vez mais “eliminado”, ou, pelo menos, relegado economicamente e politicamente ao segundo plano” [texto colhido do livro “Obras escogidas”, de Carlos Marx e Federico Engels, Editorial Cartago S.R.L, Buenos Aires, 1957].

A estratificação social no Brasil, segundo um esboço do Padre Fernando Bastos Ávila S.J. e de Florestan Fernandes foi esboçada do seguinte modo:

01 – Classe alta urbana metropolitana:

grandes industriais banqueiros, grandes comerciantes, altos funcionários, minoria governante;

profissionais liberais de elevada qualificação. Profissionais em serviços administrativos de elevada qualificação.

02 – Classe alta rural:

grandes proprietários – latifundiários, arrendatários capitalistas;

as pessoas graúdas das cidades no interior;

o médio proprietário, o juiz de direito, o pequeno industrial, o delegado, o comerciante atacadista, os profissionais liberais de altas rendas, o gerente de banco, professores e assalariados de colarinho e gravata que sejam descendentes de famílias tradicionais;

03 – Classe média urbana:

pessoas que formam o topo das grandes empresas industriais, bancárias e comerciais de serviços;

funcionários públicos civis e militares, professores, universitários, jornalistas, profissionais liberais – geral, artesãos urbanos e operários altamente qualificados.

04 – Classe média rural:

médios e pequenos, proprietários rurais que trabalham em regime de empresa familiar, administradores das fazendas e cooperativas rurais e comerciantes das zonas rurais.

05 – Classe baixa urbana:

assalariados das fábricas, empregados de lojas e escritórios com baixo rendimento;

assalariados do setor de serviços urbanos (lixeiros, eletricitários).

06 – Classe dependente urbana:

setor indigente e flutuante das grandes cidades;

situação de emprego irregular, vivem em estado de pauperismo e anomia.

07 – Classe baixo rural

o campesinato, assalariados rurais ou parceiros, meeiros etc.

A classificação acima, a meu ver, é das mais completas, apesar da má terminologia (“baixa”…). As outras (especialmente a de Enrique Dussel, ou a de um escritor tão importante como Paul Singer) também trazem boas luzes e devem ser usadas de forma combinada com a do padre Fernando Bastos de Ávila, pois têm grandes pontos em comum e uma síntese entre as mesmas seria fácil de esboçar.

Os documentos do MST (especialmente o documento “Capitalismo e classes sociais no campo”, de 1995) auxiliam na análise social. Dividem as classes sociais no campo em burguesia agrária (menos de 50.000, com áreas superiores a 1.000 hectares e controlando mais de 50% das terras cadastradas), que o MST praticamente identifica com os latifúndiários. Depois, já os arrendatários capitalistas (uns 30.000 burgueses-arrendatários). E ainda existe a pequena burguesia agrária (uns 500.000 proprietários, com propriedades de 100 a 1.000 hectares). Depois destas três que vivem da terra, há as classes trabalhadoras, que totalizam 23 milhões. Destes 23 milhões, há 5 milhões de proletários rurais (assalariados rurais, permanentes e temporários) e 18 milhões de posseiros, parceiros, meeiros, arrendatários etc. Nestes 18 milhões, há uns 10 milhões de trabalhadores sem-terra e semi-proletários, que vivem em áreas menores de 5 hectares e há os camponeses ou pequenos produtores, no total de oito milhões de trabalhadores que vivem em áreas de 5 a 100 hectares e que trabalham em regime de economia familiar, sendo muitos posseiros.

Márcio Pochmann, no livro “Atlas da Exclusão Social”, organizado pela IPEA, demonstrou que as cinco mil famílias mais ricas do Brasil (0,001%) controlam e possuem 42% do PIB. Em média, estas famílias teriam, cada uma, R$ 138 milhões, mas a má divisão atinge até mesmo estes parasitas, pois há algumas famílias com muito mais e outras com menos. Os piores sãos os banqueiros, os grandes empreiteiros, os donos de TVs, os latifundiários e os grandes executivos das multinacionais.

Marx, em vários textos, deixa claro que as classes são os pólos de relações de produção, sendo estas as bases de modos de produção diversos e a sociedade, no tempo de Marx e atualmente, seria formada por várias relações de produção, logo por vários modos de produção, sendo um predominante (o capitalista, como destacou João Bernardo). Assim, no texto sobre o golpe de Luís Napoleão (“O dezoito de brumário de Luís Napoleão), Marx menciona o “modo de produção” (mais adiante diz “modo de vida” ou “condições econômicas de existência”) dos camponeses. Em outros textos fala do modo de produção dos artesãos, dos pequenos burgueses (que trata como classe própria e específica, distinta da burguesia) etc.

A influência de Marx é clara, e vale a pena lembrar que Marx reconheceu, com a honestidade que o caracterizava, que não descobrira as classes sociais. Este ponto é importante para vencer as resistências de liberais mentirosos que insistem em classificar as pessoas nas classes como “A, B, C, D e E”, para camuflar os conflitos sociais com base em sociólogos funcionalistas e empiristas, em textos divulgados pela CIA e pelas multinacionais.

O padre Fernando Bastos de Ávila S.J., no livro “Introdução à Sociologia”, escreveu: “classe social é, talvez, um dos termos, em sociologia, sobre o qual existem maiores divergências. Não sabemos se há dois sociólogos que o empreguem no mesmo sentido”. Também é difícil encontrar dois marxistas que concordem em tudo nos critérios de classificação e na análise. No entanto, fica claro que não há tanta diferença entre as melhores idéias de Marx e as melhores idéias dos pensadores cristãos, inclusive dos papas.

O Pe. Fernando Bastos de Ávila escreveu textos sobre as classes sociais, a causa final e formal das mesmas:

O fenômeno “classe social”, tomando aqui o termo ainda num sentido lato, isto é, o fenômeno pelo qual, no interior de uma sociedade se formam compartimentos ou estratificações mais ou menos estanques, parece um fenômeno inerente a todas as sociedades humanas.

Em O Manifesto Comunista (1848) e a Revolução e Contra-Revolução na Alemanha (1849), Marx fala em oito classes: a nobreza feudal, a burguesia, a pequena burguesia, as classes rurais altas, média e os pequenos agricultores (baixa), os servos da gleba, o proletariado rural e urbano.

No trabalho “A Luta de Classes na França” (1848-1859), já se refere a sete classes: as burguesas financeiras, industrial e comercial, a pequena burguesia, a classe rural, a classe operária e o proletariado miserável (lumpen proletariat).

No livro “O 18 Brumário de Luiz Bonaparte” (1852), só distingue a burguesia financeira, o proletariado e a classe rural.

Enfim, no capítulo interrompido do III volume de “O capital”, Marx alude aos proprietários rurais, à burguesia e ao proletariado”.

Marx interrompeu a redação do último volume de “O capital”, precisamente no capítulo que devia tratar das classes sociais não teve assim tempo, nesta obra de síntese geral, de fixar sua posição definitiva diante de problemas. Nos escritos anteriores, ele distinguira três, sete e mesmo oito classes sociais. Daí se compreende a hesitação que revelam os autores marxistas.

É possível, porém, definir um certo número de itens relacionados ao problema das classes sociais, que são endossados, pela maioria dos marxistas ortodoxos:

a) o que define a classe não é o nível de riqueza ou de renda, mas a identidade de função desempenhada no processo econômico [a posição na divisão de trabalho imposta].

Diversos indivíduos pertencem a diversas classes, conforme as diversas funções que desempenham no processo produtivo por outras palavras, conforme o trabalho que executam, logo, confirma-se a tese de que a divisão da sociedade em classes estaria ligada à divisão social do trabalho!

Stalin, em seus discursos iniciais, confirma isso;

b) É o tipo de trabalho, ou as relações que o homem mantém com a natureza, que determinam seu nível de vida, sua consciência, ideologia, cultura, atitude política. Homens que executam a mesma função na produção tendem a ter o mesmo nível de vida, a mesma consciência coletiva ideológica idêntica, a mesma aspiração com respeito aos mecanismos políticos.

Tais elementos aparecem, pois, como outras tantas conotações que devem ser incluídas no conceito marxistas de classe. Como compreende Marx esta influência do trabalho sobre a formação da consciência, da ideologia? Tomemos o exemplo do proletário. O regime capitalista funciona à base da apropriação dos meios de produção de seu trabalho e lhe pagam um salário que, pelo próprio mecanismo do mercado de trabalho em regime capitalista, nunca pode se manter acima do que é estritamente necessário para a subsistência do proletário.

O regime opera assim na separação violenta de dois seres, que naturalmente deviam estar unidos: o operário e o fruto de seu trabalho. Em outros termos, o regime opera uma alienação”.

Enrique Dussel também escreveu no livro citado no início deste capítulo:

O mais importante para nós, em vista de uma filosofia política latino-americana, é que nos Estados neocoloniais surge uma classe oprimida externa ou periférico-mundial, marginalizado do sistema internacional e dos conglomerados internacionais. São os pobres do mundo, a extrema miséria do “sistema”, que com seu “infra-trabalho” (sofrimento sem limite) gera uma consciência revolucionária nova na história mundial. Eles levantam seu rosto E fazem os “bogotazos” (1948), são os “condenados da terra” que clamam: vox populi vox Dei! Não se deve esquecer que mais de 50% da população da América Latina está marginalizada. Todavia é somente pela consciência da classe operária que se realizará a revolução”.

Depois do “bogotazo”, veio Medellin, Puebla e mais tarde veio o Forum Social em Porto Alegre, em 2001, 2002 e 2003.

Pelos textos acima, fica claro que a doutrina da Igreja busca extinguir as classes opressoras e também o proletariado. Busca extinguir a diferenciação das pessoas pelo gênero do trabalho, ou seja, as classes sociais. Tem como ideal a igualdade social. Este ponto ficou bem claro no V Congresso Mundial da Juventude Operária Católica (JOC), em abril de 1975, em Linz, Áustria. Foi aprovado o ideal de uma “sociedade sem classes”, sem “exploração”. O Cardeal Joseph Cardjn (1882-1968) foi o criador da JOC e o formulador do método “ver, julgar e agir”, que foi endossado por João XXIII, na “Mater et Magistra”.

Conclusão: o ideal de superação das classes, de igualdade social, de eliminação da miséria (do proletariado) e das classes opressoras (da oligarquia) é outra ponte de contato entre cristãos e socialistas, ponte esta que se amplia pela recuperação das fontes cristãs do socialismo pré-marxista e pelo diálogo entre cristãos e marxistas (que destaca as influências cristãs em Marx, as verdades ensinadas pelo mesmo e os pontos científicos do marxismo). Pelo ecumenismo com as correntes socialistas e comunistas.

Alguns grandes inimigos do povo

O “povo” tem três  grandes inimigos, além de outros sobre os quais tratarei em outra postagem: 1º) o imperialismo (as multinacionais, especialmente dos EUA e da Inglaterra); 2º) a burguesia, ou seja, o grande capital, especialmente o capital monopolista e oligárquico; 3º) os latifundiários, ou seja, os donos de terra com mais de mil hectares, especialmente os donos das “plantation”, o setor agro-exportador; e 4º) os agentes públicos ligados aos setores parasitários, já referidos, especialmente os políticos neoliberais.

O anti-povo, o Verme, a oligarquia brasileira

O anti-povo, o grande Verme, a oligarquia, no Brasil, é formado principalmente por umas 5.000 famílias com mais de 50% do PIB. Destas, há uns 2.500 latifundiários que detém milhões de hectares. Num círculo um pouco mais largo, há uns 150.000 milionários no Brasil. São estes, coletivamente, o grande Verme, as grandes sanguessugas, vampiros-vermes que infestam o país. A situação brasileira é bem pior que a retratada por Ferdinand Lundberg, no livro “Os ricos e os super-ricos” (Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1972), onde descreve o controle do poder público norte-americano por “200.000” milionários. Como confessou Cláudio Lembo (ex-reitor da Mackenzie e pefelista-demo, logo, por “dentro”): “nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca perversa”.

A existência de bilionários e multimilionários é a coisa mais obscena possível. Os livros de René Armand Dreifuss, especialmente “1964, a conquista do Estado” e “Transformações: matrizes do século XXI” (editados pela Vozes, por Rose Marie Muraro), descrevem as nefandas grandes corporações multinacionais, os CEOS e alguns de seus “empregados”, alguns políticos-fantoches neoliberais. Concordo com o falecido René: só um Estado mundial, como queria João XXIII, pode destruir a oligarquia das multinacionais, formando grandes estatais multinacionais que substituam este acúmulo obsceno de poder econômico e político. Transformar os grandes oligopólios (base econômica da oligarquia) em boas estatais e boas cooperativas. 

A maior parte das fortunas privadas, como já ensinava São Jerônimo, vem de crimes, da brutal exploração dos trabalhadores, dos consumidores, da formação de trustes e cartéis e do saque do Estado. O próprio Marx, em “O capital” (Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1998, p. 837), descreveu a origem da riqueza privada dos latifundiários (nobres) e capitalistas ingleses: “os proprietários da mais-valia, nobres e capitalistas… inauguraram a nova era” ampliando “em escala colossal os roubos de terra do Estado, até então praticados em dimensões mais modestas. Essas terras foram presenteadas, vendidas a preços irrisórios ou simplesmente roubadas mediante anexação direta a propriedades particulares”. Outra fonte foi o saque das terras da Igreja e o ouro e os bens do terceiro mundo, especialmente do Brasil.

Hoje, os ricos (isto é, bilionários e multimilionários) amealham fortunas com o mecanismo iníquo da dívida pública (pura usura) e com as privatizações. As piores “entregas” foram a da Vale do Rio Doce, das Teles, do sistema elétrico, siderurgia, bancos estaduais, dos portos etc. As mais de 100 privatizações no governo FHC junto com as privatizações russas feitas por Yeltsin foram, na visão de Hobsbawm, os piores saques do mundo, na década de 90. Outro sumidouro são os contratos de empreitada (os grandes empreiteiros são vampiros) e outros contratos públicos (aluguéis, serviços com terceirização etc) leoninos, onde os ricos drenam os recursos públicos para consolidar seu poder econômico e político.

Os dados sobre os “ricos”, no Brasil, constam de artigos de Márcio Pochmann, tal como no livro de A. Campos, “Os ricos no Brasil” (São Paulo, Ed. Cortez, 2004), tal como em obras elaboradas por Emir Sader. A pirâmide é tão alta que “5 mil clãs parentais possuíam um volume patrimonial equivalente a 42% do PIB anual”, deixando os outros 58% para 51 milhões de famílias. Na América Latina há 14.000 clãs, dos quais 5.000 são do Brasil.

No prisma ético, como Deus fez tudo para todos, a pessoa que tem um patrimônio privado na casa de vários milhões ou mais vive numa situação torpe. Em regra, é uma pessoa depravada no sentido ético, salvo honrosas exceções. Enquanto os pobres, em regra, são honestos, salvo exceções. Por estas razões, o poder público deve ser controlado pelos trabalhadores e remediados (mediania), porque são mais honestos e detendo os cargos-chaves poderão repartir os bens para não haver nem ricos nem pobres, apenas pessoas medianas e honestas, preocupadas com ajudar o próximo.

Esboço de análise social do Brasil. Males a erradicar

A teologia política é importante no Brasil por causa de nossa situação como país capitalista dependente, com males (pecados sociais) gritantes, que bradam aos Céus por justiça (por erradicação, libertação, transformação). Dentre estes males, basta listar dezesseis (há mais de cem outros) chagas (usando a expressão de Rosmini) horrendas da sociedade brasileira:

1º.) temos os maiores latifúndios do mundo, formados pela grilagem, doação espúria de terras públicas, devastação e trabalho escravo ou não pago. E nossa pecuária é das mais sujas, pois os bois são envenenados por agrotóxicos e hormônios, e o mesmo vale para os frangos. De resto, os latifundiários usam as queimadas, derrubam as florestas e devastam, pagando os menores tributos do mundo, não pagam quase em ITR. A bancada ruralista no Congresso protege esta situação horrenda, com políticos horrorosos como Caiado e outros;

2º.) sujeição da economia ao imperialismo, com altas taxas de internacionalização de ramos inteiros da economia. Um grupinho de 400 multinacionais controlam posições e ramos inteiros de nossa economia, na forma de trustes e cartéis, formando uma parte particularmente maligna de nossa oligarquia perversa;

3º.) temos um dos piores índices de Gini (concentração privada de bens), onde um por cento da população possui mais renda que os 50% mais pobres. O livro “Atlas da exclusão social no Brasil” (São Paulo, Ed. Cortez, 2004), organizado por Márcio Pochmann, traz extensa base estatística da iníqua pirâmide social brasileira, onde há uma base subterrânea no pântano do subsolo da miséria e uma ponta finíssima, de elevada estatura, que massacra os excluídos, os oprimidos. Na base na pirâmide há também quase um milhão de pessoas nos presídios, penitenciárias, manicômiocos e Febens e Cajes, pessoas reificadas com destruição acentuada da personalidade, por obra do Estado controlado pela oligarquia;

4º.) a economia é controlada por cartéis, trustes, latifúndio, num total de dez mil famílias, que têm vasto controle sobre a economia, a sociedade e o Estado. O Carteal da Mídia golpista é formado por NOVE famílias que controlam quase toda a mídia. O Cartel infame dos bancos é formado por dez a vinte famílias, que controlam quase todo o crédito do sistema financeiro privado. O que salva em parte são os Bancos públicos. A Estatização dos bancos e a criação de uma grande BBC (rede pública de TV e rádio e banda larga) trariam boa parte da libertação do povo, junto com a erradicação do latifúndio;

5º.) uma das piores dívidas públicas do planeta, praticamente toda ela espúria e já paga, mas que forma um duto onde mais de bilhões irrigam e ampliam a fortuna de cerca de cinco mil famílias. Estes rentistas têm a maior Bolsa rentista do planeta, pois temos os piores juros do planeta;

6º.) há uma rede de olipólios de comunicações sociais, capitaneadas pela Rede Globo, pela Record, SBT e outras, tal como há um controle oligárquico das emissoras de rádio, das gráficas e de outros ramos. Os meios de comunicação estão a serviço da oligarquia, quando deveriam ser meios de comunicação do povo, dos trabalhadores;

7º.) o Brasil tem um dos piores e mais oligarquizados sistemas bancários do planeta, com as maiores taxas de juros e de concentração de capitais, onde uma dúzia de bancos privados detém incomensuráveis poderes sociais e políticos, controlando centenas de bilhões;

8º.) o Brasil tem uma das mais longas jornadas de trabalho do mundo, reificando e destruindo a personalidade das pessoas; causa de reificação e de milhões de acidentes de trabalho, de desagregação familiar etc;

9º.) o Brasil tem uma das piores remunerações do trabalho, constituindo infração direta à justiça comutativa, ou seja, não passa de forma vil de usura, de extração de mais-valia, que é a fonte principal das fortunas milionárias, que são ilegítimas, iníquas, pois não são fruto do suor dos milionários, e sim dos proletários;

10) temos ampla corrupção epidêmica, que é outra forma de dominação dos capitalistas e dos latifundiários;

11) cerca de metade dos trabalhadores assalariados do Brasil sequer tem carteira de trabalho assinada;

12) os direitos trabalhistas positivados são ínfimos e exíguos, pois os celetistas sequer têm estabilidade no emprego, podem ser demitidos sem justa causa;

13) os aposentados não têm proteção contra a inflação, tendo rendimentos pífios;

14) o Brasil tem um dos piores sistemas carcerários, verdadeiros campos de concentração, com torturas e maus tratos, fábricas de loucos e de criminosos, em vez de serem centros de recuperação e regeneração. Temos coisas horrorosas como o inquérito policial, onde a polícia tem amplos poderes, para incriminar pobres e famélicos; e

15) há racismo generalizado, com ínfimas ações afirmativas que poderiam destruir as relações sociais de opressão, cristalizadas.

16) o Brasil tem um dos piores, recessivos e iníquos sistemas tributários, com amplas isenções, não-tributações e benesses aos ricos e amplíssima tributação aos pobres e às classes médias. Há também o benefício de regiões ricas que colonizam regiões pobres;

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