Arquivos para : A “Fórmula” Mounier e Alceu: o máximo de personalização com o máximo de socialização. Ideal de economia mista, da Igreja

Os melhores bispos católicos do mundo aceitam uma forma de socialismo democrático com micro e pequenas empresas familiares, economia mista

O verdadeiro socialismo deve ser a concretização (realização, materialização) da destinação universal dos bens e da igualdade fundamental de todos, conforme o Manifesto dos Bispos do Terceiro Mundo, de 1967, ou seja, deve ter como base a difusão do controle dos trabalhadores sobre os bens produtivos, a socialização do uso. 

O “Manifesto dos bispos do terceiro mundo”, de 15 de agosto de 1967, foi assinado por vários bispos católicos, tendo a assinatura de Dom Hélder Câmara em primeiro lugar. Vejamos um trecho deste “Manifesto”:

“A Igreja após um século tolerou o capitalismo com empréstimo a juro legal e seus outros usos pouco conformes à moral dos profetas e dos Evangelhos. Mas ela não pode senão se regozijar de ver aparecer na humanidade um outro sistema social menos distanciado dessa moral.” (…)

“Os cristãos têm o dever de mostrar que o verdadeiro socialismo é o cristianismo integralmente vivido, na justa repartição dos bens e a igualdade fundamental de todos. Bem longe de o repelir, saibamos aderir a ele com alegria, como a uma forma de vida social melhor adaptada ao nosso tempo e mais conforme ao espírito do Evangelho.”

A justa repartição decorre da destinação universal dos bens (“a cada um de acordo com suas necessidades”, cf. Atos dos Apóstolos 2 e 4, duas passagens, para uma vida digna e feliz); exige uma regulamentação jurídica que assegure a todos os bens (o controle sobre estes), com base nas necessidades fundamentais. Este ponto é também amparado pela igualdade fundamental da natureza humana, que é a base do cristianismo e de qualquer socialismo humanista.

Centenas de Bispos já se manifestaram favoráveis a formas democráticas de socialismo, encontrar estas formas jurídicas participativas sobre uso dos bens, que superam o capitalismo, o imperialismo e o latifúndio, é o grande desafio de nossa geração. O antigo PDC (hoje, Partido Democrático, com fusão com o PCI) da Itália defendia coligações com socialistas há décadas e, com Aldo Moro, defendeu coligação com o PCI (que depois se tornou realidade com o PD, fusão do PDC e do PCI). 

Por exemplo, Dom Antônio Batista Fragoso, no livro “O rosto de uma Igreja” (Edições Loyola, São Paulo, 1982, pp. 84-87), escreveu sobre um projeto socialista no Brasil:

Um projeto socialista? (…) Combatendo o modelo capitalista, nas questões de imposto e em tantas outras, será que a Igreja de Crateús quer implantar um modelo socialista, como o único capaz de resolver a nossa situação?

É sempre bom recordar que estou partindo da perspectiva da Fé, do Evangelho, do Reino, e não de uma perspectiva técnica ou político-partidária.

No ponto de vista da Fé, creio que foi revelado por Deus que os bens criados PARA TODOS se destinam com absoluta prioridade A TODOS. A apropriação individual deve ser subordinada a esta destinação universal dos bens.

Consequentemente, se algumas pes­soas têm sobras, são apenas administradoras das mesmas sobras para o bem comum e não têm o direito de usá-las ao seu livre alvitre.

Reafirmando que a Igreja não propõe um projeto de sociedade política ou econômica, reafirmo também – a Igreja pede, em qual­quer projeto de sociedade, seja incorporado esse dado da Revelação: os bens sejam de todos. Isto quer dizer, seja para todos o ter, o saber, o poder.

Ora, uma análise dos projetos capitalistas existentes hoje, mos­tra que, mesmo quando se chamam neocapitalistas, ou quan­do são a forma mais sofisticada do capitalismo, não conseguem colocar o pão para todos no banquete da vida, mas concentram o pão sobre a Mesa Grande, com grave prejuízo para as massas. Historicamente, não podemos esperar de um projeto capitalista que respeite e encarne a proposta da Fé, do Reino, de Deus.

Mas, será que a Igreja propõe uma alternativa socialista? (…)

É explicável, porém, a pergunta seguinte: Será que as grandes linhas do socialismo poderão harmonizar-se com as exigências da Fé, no interior de um futuro projeto elaborado por todo o povo brasileiro?

Sem falar como bispo ou em nome da experiência da Igreja de Crateús, avanço o meu modo de pensar.

Todos os projetos socialistas existentes até hoje são criticáveis, imperfeitos e superáveis. Eles ainda não ensaiam e não encarnam plenamente o Projeto de Deus, de destinar para TODOS as oportu­nidades que Ele quer para todos.

No interior de muitos projetos socialistas, a ditadura de um PARTIDO criou uma oligarquia interna, que absorve e usurpa o poder de decisão e marginaliza as multidões.

Penso que não se deve copiar nenhum modelo socialista atual.

Mas, penso também, que as grandes linhas do socialismo, isto é, o TER da humanidade para toda a humanidade, o SABER da humanidade para toda a humanidade, o PODER da humanidade, sobre­tudo o poder de DECISÃO, para toda a humanidade – devem ins­pirar um projeto político brasileiro, se o povo, consciente e orga­nizado, o escolher.

Esta SOCIALIZAÇÃO de oportunidades se compatibiliza, a meu ver, com o Evangelho, com o Projeto de Deus. Não esgota, porém, o Evangelho. Não é todo o Evangelho.

Fé e análise marxista?

Para um projeto político que incorpore a socialização, um cris­tão tem direito de usar a análise marxista da sociedade capi­talista?

Estamos no começo de uma experiência pedagógica. Tivemos apenas 10 a 12 anos de prática das CEBs em Crateús. Toda res­posta que eu der vem de quem está buscando ainda, sem ver claro.

Parece-nos que todo o povo das CEBs, todos os cristãos, devem aprender cada vez mais a ler a realidade com duplo olhar: um olhar humano, que alguns chamam sócio-analítico, e um olhar de Fé.

O olhar humano nasce da experiência humana, dos conheci­mentos humanos, das ciências humanas. Todas as técnicas, ciên­cias, instrumentais científicos de análise, venham de onde vierem, se ajudam o povo a compreender mais objetivamente a realidade e a realizar o plano de Deus, são benvindos.

Não estamos fechados para nenhuma contribuição, de quem quer que seja. Mais ainda: achamos que toda contribuição verdadeira só pode vir do coração de Deus, única fonte de verdade. Deus é louvado e glorificado quando um homem, seja quem for, de qualquer ideologia que seja, oferece um instrumento científico verdadeiro, para a análise da realidade.

O olhar de Fé é um dom gratuito de Deus. Não vamos pedi-lo à Ciência ou à Razão humana. Vamos pedi-lo ao Senhor, na Palavra, na contemplação, na oração, na humilde busca coração.

Esses dois olhares devem se articular de modo permanente na prática do povo. Estamos tentando encontrar os caminhos desta articulação. Para isto, analisamos e debatemos os projetos políticos ticos do Governo, as estruturas e ideologias da sociedade, e, ao mesmo tempo, lemos e meditamos a Palavra de Deus e tentamos iluminar a realidade com a LUZ que vem gratuitamente de Deus.

Não temos as portas fachadas para o instrumental científico de análise da sociedade capitalista, que Marx oferece, pelo fato de vir de Marx. Na medida em que for verdadeiro, não é mais de Marx, é da humanidade.

Achei muito interessante ser convidado por um grupo de bispos para participar de encontro sobre instru­mentos de análise da realidade sob a responsabilidade de teólogos e expertos em Ciências Sociais de alta categoria.

O curso ajudou-nos a conhecer também o que é mesmo de Marx nos marxismos e o que é dos seus discípulos. Ajudou-nos a ler, à luz da Fé, o projeto marxista: o instrumental científico de análise, a concepção materia­lista da História, o método dialético etc.

Penso que, para sermos honestos diante da nossa consciência de cristãos, devemos acolher o Marxismo e todas as outras contri­buições que os homens estão oferecendo para uma análise realista da situação”.

Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, numa intervenção no XII Congresso Brasileiro de Comunicação Social, em Recife, em 15.11.1983, escreveu um texto sobre as “relações Igreja/Estado no Brasil pós-64” (publicado na revista “Vozes”, em dezembro de 1983):

Após 64, a Igreja evoluiu certamente da posição de colaboradora do Estado para a de instância crítica e, em muitas circunstâncias, passou da crítica à solidariedade concreta em favor dos oprimidos. Acredito que ela possa voltar a ser colaboradora do Estado, mas sem deixar de ser instância crítica. Na medida em que o próprio Estado deixar de ser o representante das oligarquias dominantes para se tornar o legítimo intérprete das aspirações populares o que significa: na medida em que o sistema capitalista, baseado na exploração do trabalho e na apropriação da mais valia, for substituído por um tipo de socialismo que respeite os direitos da pessoa humana, lance as bases de relações de trabalho que superem toda dominação e exploração e prepare o advento de uma sociedade sem opressores e sem oprimidos, nessa medida Igreja e Estado voltarão a caminhar juntos. Então o Estado não se oporá à Nação e representará legitimamente o povo, enquanto a Igreja será cada vez mais Povo de Deus em marcha” [para a renovação do universo].

Dom Tomás Balduíno, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara, Dom Fernando Gomes, Dom Luciano, Dom Paulo E. Arns, Dom Moacir Grecchi, Dom Waldyr Calheiros, Dom José Gomes, Dom Antônio Fragoso, Dom José Maria Pires e tantos outros têm as mesmas linhas básicas: é absolutamente necessário superar o capitalismo, o latifúndio e o imperialismo.

O sistema capitalista é horrendo e genocida.

Em quase todo o mundo, a luta contra o mesmo assume o nome de “socialismo democrático” ou participativo, sendo estes modelos harmônicos, em muitos pontos, com a fé cristã, inclusive por terem raízes cristãs fortes e irrefutáveis.

O princípio da subsidiariedade, exposto por Canotilho e sempre defendido pela Igreja

J. J. Gomes Canotilho, na obra “Direito Constitucional e teoria da Constituição” (Editora Almedina, Coimbra, 1997, p. 340), ressaltou a importância do princípio da subsidiariedade, que é uma das colunas da doutrina social da Igreja, uma das regras matrizes da Igreja:

O princípio da subsidiariedade densificado a nível das relações Estados-membros/União Européia e do Estado Unitário/regiões e autarquias locais é expressão de um princípio geral de subsidiariedade que pode formular-se assim: as comunidades ou esquemas organizatório-políticos superiores só deverão assumir as funções que as comunidades mais pequenas não podem cumprir da mesma forma ou de forma mais eficiente. O princípio da subsidiariedade articula-se com o princípio da descentralização democrática: os poderes autonômicos regionais e locais das regiões autônomas e das autarquias locais (comunidades de dimensões mais restritas) devem ter competências próprias para regular e tratar as tarefas e assuntos das populações das respectivas áreas territoriais (administração autônoma em sentido democrático). Estreitamente associado a este princípio da administração autônoma democrática, está o princípio da desburocratização (art. 267º/1) assegurando a participação das populações na defesa e prossecução dos seus interesses (princípio da subsidiariedade como princípio antiburocrático).”

Meu comentário – bom texto, só faltou aplicar o princípio às unidades produtivas, que também devem combinar o máximo de autogestão (personalização) com o máximo de gestão social (socialização).

No fundo, o princípio da subsidiariedade é o princípio da descentralização (ou da participação), que ensina que o poder deve nascer debaixo para cima, sob o controle da base, das pessoas e de suas consciências.

Friso que este princípio não exige apenas que as comunidades (ou órgãos maiores no organograma) não engulam as entidades menores, exige, também, que os órgãos maiores AJUDEM (o termo subsídio vem de ajuda) os órgãos menores.

Assim, toda a estrutura estatal e econômica deve amparar, AJUDAR, os micronegócios, a atividade na base, a vida comunitária, as atividades culturais, a vida florescente da sociedade, lá embaixo, as pequenas iniciativas, as pesquisas científicas, as iniciativas culturais, as pequenas empresas, as associações de moradores etc. 

Igreja ensina a comunhão natural dos bens, a destinação universal dos bens, Deus criou os bens para todas as pessoas terem cada uma uma quota parte, e haver uma parte comum, economia mista

A doutrina da Igreja defende a destinação universal dos bens, comunhão natural dos bens, o domínio eminente da sociedade, para distribuir e regrar os bens para assegurar a todos o bem comum, para cada pessoa um conjunto de bens pessoais e bens sociais, economia mista.

A Igreja defende o direito natural de todas as pessoas aos bens, criados por Deus para todos, sendo que Deus está presente em todos os bens

Pio XII, na mensagem radiofônica de Pentecostes de 1941, em comemoração ao 50º aniversário da “Rerum novarum”, escreveu esta lição acima exposta, com as seguintes palavras:

Todo homem, como criatura viva, dotada de razão, recebe efetivamente da natureza o direito fundamental de usar dos bens materiais da terra, deixando-se à vontade humana e às formas jurídicas dos povos regularem mais minuciosamente sua execução prática”. (…)

“Tudo isto fica, não obstante, subordinado ao fim natural dos bens materiais e não poderá emancipar-se da norma primeira e fundamental do direito, que a todos assegura o seu uso. Antes, pelo contrário, deve contribuir para torná-lo exequível, em conformidade com seu fim”.

O texto acima interpreta o que Leão XIII escreveu na “Rerum Novarum”: (de 16.05.1891), em várias passagens, especialmente a segunite:

Deus concedeu a terra a todo o gênero humano”,

Deus não assinalou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria [no sentido de criatividade] humana e às instituições dos povos”.

João Paulo II repetiu a mesma lição, num discurso aos jovens de Estrasburgo, em 08 de outubro de 1988:

A terra pertence a Deus, mas ela foi doada ao conjunto dos homens. Deus não quer o roubo de uns e a fome de outros, a abundância de uns tendo uma terra fértil e a espoliação dos outros que não possuem a mesma riqueza. (…) A Igreja defende isso da maneira convenientemente forte? Talvez não. Também os membros da Igreja têm as suas fraquezas. Nós somos a Igreja, vocês e eu”.

As “formas jurídicas” (todo o sistema de direitos reais e pessoais) podem variar e variaram durante a história. O que importa, na visão ética da Igreja, é “o direito ao uso dos bens terrenos”, que “é um direito natural de cada ser humano, um direito primário, de valor universal” (cf. documento do Vaticano II, que vou postar mais adiante).

A Igreja defende o direito natural de todas as pessoas aos bens necessários, ao controle (uso) destes bens. Não significa, em nenhum momento, a aceitação do direito de propriedade quiritária, muito menos a aceitação do grande capital e do latifúndio. A Igreja condenou o “capital” (pelo primado do capital sobre o trabalho etc), o latifúndio e o imperialismo.

As “leis e instituições”, todo o ordenamento jurídico positivo, devem assegurar, por formas jurídicas cooperativas e comunitárias, este direito natural. As normas do ordenamento jurídico positivo somente têm validade ética (perante a consciência) se assegurarem o princípio da destinação universal dos bens.

Kautsky e Vandervelde defendiam modelos de economia mista, como a Igreja

Kautsky e Vandervelde também defendiam uma formula bem próxima da adotada pelos sociólogos católicos.

Em resumo, a economia deve ser uma vasta cooperativa de produção, formada por conselhos participativos, combinando pequenas e limitadas propriedades pessoais com amplo setor de propriedade social: cooperativas, estatais e planejamento estatal participativo, boas estatais, sem latifundiários, multinacionais, grandes proprietários privados e mesmo sem a propriedade quiritária.

Grande e boa economia mista. 

O núcleo católico das ideias de Albert Camus, de uma síntese de justiça (socialização) com liberdade (personalização)

Albert Camus (1913-1960), no livro “Primeiros cadernos“ (Lisboa, Ed. Livros do Brasil, sem data, embora a edição deve ser de 1963, p. 313), mostra que seu pensamento, no fundo, é católico. 

Pois Albert Camus adotava como ideal ético o “humanismo”.

Camus ensinava que “o homem pode dominar em si tudo o que deve ser dominado. Ele deve restaurar na criação tudo o que pode ser restaurado”, deve sempre se “revoltar” “contra o mal”. No fundo, são idéias perfeitamente cristãs, intrinsecamente católicas.

O humanismo é a base filosófica do cristianismo, é a “filosofia cristã”, como destacaram Maritain e Paulo VI.

Camus, dando continuidade aos ideais da Tradição hebraica e cristã (e da Paidéia), queria que o ser humano fosse “senhor de si próprio”.

Isso ocorreria pela combinação, síntese, da justiça com a liberdade (socialização com personalização, cf. Dom Hélder).

Na frase de Camus, “se o homem falha na conciliação da justiça e da liberdade, então falha em tudo”.

Camus gostava de citar a seguinte frase de Marx: “um fim que necessita de meios injustos não é um fim justo” (nesta frase, Marx critica a tese do maquiavelismo, tese condenada também pela Igreja, poucos anos após o livro “O príncipe”, de Maquiavel).

Destinação universal dos bens, bens para todos, estatais, pequenas propriedades etc

A destinação universal dos bens é a tarefa primária da sociedade, do Estado, de todas as instituições e das pessoas. Erradicar a miséria e as grandes fortunas privadas. Sociedade com mediania, com igualdade social. 

As idéias-forças que movem a CNBB e órgãos do Vaticano, tal como toda a Igreja, estão bem explícitas em vários documentos.

Por exemplo, no documento do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, órgão do Vaticano, “Para uma melhor distribuição da terra – o desafio da reforma agrária” (edição resumida e simplificada, publicada pelo Setor Pastoral Social da CNBB, São Paulo, Editora Paulinas, p. 28):

… Na verdade, segundo a linguagem bíblica, “sujeitar” e “dominar” são verbos que servem para descrever o domínio do rei sábio, que cuida do bem-estar de todos os seus”.

O homem e a mulher devem cuidar da criação, para que ela sirva a eles e fique à disposição de todos, não somente de alguns”.

“23. O sentido profundo da criação é ser ela um dom de Deus ao ser humano. Um Dom para todos. E Deus quer que permaneça assim. Por isso, a primeira ordem de Deus manda conservar a terra na sua natureza de Dom e bênção. Ele não quer que ela seja transformada em instrumento de poder ou em motivo de divisão”.

“O direito-dever da pessoa humana de dominar a terra vem do seu ser imagem de Deus: cabe a todos, e não só a alguns, a responsabilidade da criação. No Egito e na Babilônia, essa qualidade era dada a alguns. No texto bíblico, pelo contrário, o domínio pertence à pessoa humana enquanto tal e, por isso, a todos”.

“É a humanidade no seu conjunto que deve sentir-se responsável pela criação. (…)”.

“… E o homem não é o verdadeiro dono da sua terra. Ele é um administrador”.

“O verdadeiro dono é Deus”.

“Lê-se no Levítico: “As terras não poderão ser vendidas definitivamente, porque a terra é minha e vós sois como estrangeiros e inquilinos na minha casa” (25,23). (…)

“25. Desta mensagem tiramos ensinamentos claros. Por um lado, ninguém pode tirar a posse da terra que uma família está usando. Se alguém faz isso, viola um direito divino; nem mesmo o rei o pode fazer”.

“Por outro lado, é negada qualquer forma de posse absoluta e arbitrária, só para vantagem própria: não se pode fazer o que se quer dos bens que Deus deu a todos”.

“É a partir desta base que a legislação introduz, de vez em quando, e sempre em relação a situações concretas, muitas limitações ao direito de propriedade”.

“Alguns exemplos: a proibição de colher frutos de uma árvore durante os primeiros quatro anos (cf. Lv. 19,23-25); o convite a não ceifar até às extremidades do campo, e a proibição de colher fruto e espigas esquecidos ou caídos no chão, porque pertencem aos pobres (cf. Lv. 19,9-10; 23,22; Dt. 24,19-22). (….)

“A destinação universal dos bens e a propriedade particular”

“28. Os frutos da desordem atual confirmam que é preciso chamar a atenção de toda a humanidade para os princípios de justiça, em particular para o princípio da destinação universal dos bens”.

“A doutrina social da Igreja assenta a ética das relações de propriedade sobre os bens da terra na mensagem bíblica. A terra é um Dom de Deus a todos os seres humanos”.

Deus destinou a terra, com tudo o que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com eqüidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade. Por isso… deve-se atender sempre a esta destinação universal dos bens” (Gaudim et Spes, 1965, n. 69)”.

O direito ao uso dos bens terrenos é um direito natural de cada ser humano, um direito primário, de valor universal. Não pode, por isso, ser violado por nenhum outro direito de conteúdo econômico; deve, antes, ser protegido e garantido por meio de leis e instituições.”

Meu comentário – as “leis e instituições” – toda a estrutura estatal, o ordenamento jurídico positivo, as situações jurídicas etc – têm como finalidade primária assegurar e promover o bem comum. Em outras palavras, devem assegurar “o direito [natural e humano] ao uso dos bens terrenos”, que é “um direito natural de cada ser humano, um direito primário, de valor universal”.

Para isso, a sociedade, pela mediação do Estado, deve explicitar as regras da ética (“norma agendi”) e regular o uso (no sentido amplo, incluindo a titularidade) dos bens, como frisou Pio IX, na “Quanta cura”. Esta regulamentação do uso dos bens é feito através de formas jurídicas positivas, por um Estado popular, controlado pelo povo, um vasto Estado social, de proteção social.

As “formas jurídicas” (por exemplo, o capital e o latifúndio) que não asseguram o direito de todos ao uso dos bens não têm validade no prisma ético, do direito natural. Estas formas jurídicas iníquas devem, então, serem abolidas e substituídas por outras condizentes com a destinação universal dos bens, com o direito de todos aos bens.

O mesmo vale para os “regimes políticos”, as formas de Estado ou de governo. Se não atendem aos direitos humanos naturais, devem ser alterados em conformidade como bem comum.

O “capital” foi e é uma “forma de propriedade” (de relação econômica-social), sendo as formas variáveis. João Paulo II (e ainda por Paulo VI e Marx) definiu o capital como uma estrutura onde há divórcio entre o produtor e os meios de produção e baseada no mercado e no lucro.

O capital é, assim, uma forma jurídica (de relação social) hedionda pela iniqüidade e precisa ser abolida, tal como o latifúndio. As fotos e lembranças podem ficar num museu de horror, para espanto das futuras gerações. O correto é uma sociedade cooperativa, com milhões de pequenas propriedades pessoais nascidas do trabalho social (moradia para todos, renda para todos), mais pequenas e médias propriedades familiares, cooperativas, estatais etc. 

Em suma, a melhor organização social do trabalho, tal como de todas as atividades (e do próprio Estado), exige formas jurídicas (sócio-econômicas) positivas baseadas na destinação universal dos bens, formas de autogestão, de co-gestão, de planejamento participativo, em formas de comunidades e comunhões etc.

Vaticano – ideal social e econômico exige síntese entre socialização e personalização

O documento “A doutrina social da Igreja na formação sacerdotal”, da Congregação para a Educação Católica (Petropólis, Vozes, 1989), do Vaticano, expõe, como orientação para o clero católico do mundo inteiro, as linhas gerais de uma democracia, econômica e política, participativa, como ideal concreto e histórico dos princípios (idéias práticas) sociais cristãos.

Vejamos, com a transcrição de parte do documento acima referido, o ideal político católico, exposto na formação dos sacerdotes da Igreja:

Participação.
40. A participação ocupa um lugar predominante no desenvolvimento recente do ensino social da Igreja. A sua força está no fato de que assegura a realização das exigências éticas da justiça social. A participação justa, proporcionada e responsável de todos os membros e setores da sociedade no desenvolvimento da vida socioeconômica, política e cultural é o caminho seguro para alcançar uma nova convivência humana. (…)
Trata de uma aspiração profunda do homem, que exprime a sua dignidade e liberdade no progresso científico e técnico, no mundo do trabalho e na vida pública.
Estruturas humanas e comunidades de pessoas
41. A Igreja procurou repetidamente prevenir o perigo real que ameaça a dignidade da pessoa, a liberdade individual e as liberdades sociais, e que deriva da concepção tecnicista e mecanicista da vida e da estrutura social que não deixa espaço suficiente ao desenvolvimento dum verdadeiro humanismo. (…)
A realização destes princípios, que regulam a vida social nos diversos níveis de organização social e nos vários setores da atividade humana, permite superar todas as tensões entre a socialização e a personalização”.

Conclusão: a noção de “democracia participativa” une, numa síntese, a “socialização” e a “personalização”, como queriam Dom Hélder, o Cardeal Lercaro e Alceu.

Trata-se de uma ampliação (mantém o mesmo núcleo e o amplia, “supera”, na terminologia hegeliana) do conceito de “democracia social”, democracia popular.

Correlato a estes conceitos, é certo dizer que a Igreja busca, na atual fase histórica, um Estado social participativo, popular, trabalhista, distributista, comunitário, cooperativo, campesino, verdadeiramente representativo do povo, anti-capitalista, anti-latifundiário, anti-imperialista e anti-oligárquico.

O exemplo da Áustria, que concilia socialismo democrático e catolicismo

A Áustria católica concilia socialismo democrático com distributismo, com democracia, difusão da pequena e média propriedade familiar etc.

O austro-marxismo, especialmente com Karl Renner, é próximo da doutrina social da Igreja.

Renner escreveu boas obras jurídicas sobre a função social, adotando uma concepção de socialismo democrático próxima das idéias da doutrina social da Igreja.

As ideias de Karl Renner são parecidas com a de Harold Laski, Duguit e outros, baseada na função social dos direitos subjetivos, sendo esta a linha católica, de socialização com liberdades.

Socialização com liberdades é igual a economia mista, ou seja, ampla intervenção estatal com liberdades pessoais, socialização com personalização. 

O livro de Karl Renner, “O novo mundo e o socialismo” (1946), mostra esta linha próxima da doutrina social da Igreja. 

Amar o próximo como a si mesmo é outra fórmula para dizer bem comum, comunhão, comunidade, república

A caridade é o amor, o bem, a bondade, a misericórdia, a clemência, a compaixão, a empatia, a simpatia, amizade, companheirismo. São termos sinônimos.

A caridade (o amor) é a maior virtude sobrenatural. Santo Inácio de Loyola, no livro “Exercícios espirituais”, na “Contemplação para alcançar o amor”, definiu o amor (caridade) do seguinte modo: “o amor consiste na comunicação mútua, isto é, que aquele que ama dê e comunique ao amado o que tem ou pode”, ou seja, amor é fazer o bem, ajudar o próximo.

Che Guevara deixou bons textos sobre a importância do amor (como ideia prática e sentimentos) ao povo.

O amor tem vários degraus (espécies de amor, com base no critério do destinatário): amor aos pais (aos pais), amor conjugal, namoro, amor filial, amor da amizade, amor profissional (aos colegas de trabalho), amor à cidade, amor à nação (patriotismo, nacionalismo), amor ao continente (para unificá-lo, numa confederação) e amor à humanidade.

Assim, cada pessoa, para realizar-se (e unir-se a Deus, que é Amor, sendo também o Corpo místico de Deus, a República celestial, a Comunhão), deve pautar a vida considerando o próprio bem, tal como o bem de sua família, de seus amigos, colegas, de sua cidade, de sua região (Estado-membro e Região), de seu País, de seu Continente e do Mundo.

Fica claro como água que o amor ao próximo como a si mesmo é outra fórmula para “bem comum”, que conjuga (sintetiza) a busca do próprio bem pessoal, da família e da sociedade.

Uma boa lição de Frei Luís de Granada sobre socialização e personalização

Frei Luís de Granada (1504-1588) resumia bem o Plano divino, explicando que a ação divina, a graça, visa “transformar o ser humano em Deus, de tal maneira que, sem deixar de ser homem, participe em sua maneira das virtudes e da pureza de Deus” (cf. “Guia dos pecadores”, livro I, cap. XIII).

O Plano divino é a divinização das pessoas, a Ressurreição, a vitória contra o mal, a morte, a mentira, a violência, a injustiça etc.

O Plano divino é a difusão do bem geral, do bem comum, “a cada um de acordo com suas necessidades” (Atos dos Apóstolos, capítulos 2 e 4) e de cada um de acordo com suas possibilidades, capacidades (cf. a Parábola dos Talentos). Foi do Evangelho que Marx copiou estas regras fundamentais da convivência humana.

Frei Luís de Granada (1504-1588) explicou também que ação divina visa unir o Céu à terra, o espírito ao corpo, a eternidade ao tempo, o sobrenatural à natureza, a criação ao Criador.

Como explicou São Bernardo de Claraval, no livro “O amor a Deus”, a união com Deus é um estado, significa “deificar-se”, pois a essência humana une-se à natureza divina, mantendo a consciência pessoal, “como um gotinha de água, dissolvida em muito vinho”, tomando o “sabor e a cor do vinho”; ou como “a água, penetrada pela luz do sol, se transforma na própria claridade solar”.

A união com Deus ocorre por um movimento da consciência, um “retorno para a interioridade”, uma “reflexão” (cf. “Enéadas” V, 3,1; IV, 7,10, obra de Plotino), a consciência de idéias verdadeiras que existem no fundo de nós (cf. Santo Agostinho, em “Sobre a verdadeira religião”, 39).

Encontramos Deus no mais interior de nossa consciência, tal como Deus está em todo lugar e mais além (imanência e transcendência divina).

Plotino foi um eco da concepção paulina, bem clara em I Cor, 2,16, sobre o “homem interior”, sendo que a máxima interioridade implica também no máximo amor, na comunhão social mais fraterna e amorosa, mais voltada e pautada pelas regras do bem comum.

Resumindo tudo, o máximo de personalização com o máximo de socialização, eis o ideal cristã e natural do ser humano. 

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