Arquivos para : A influência cristã-católica e hebraica nas melhores ideias de Marx e Engels

PCdoB aderiu a algumas teses boas da Doutrina social da Igreja

Aos poucos, toda a esquerda defende a economia mista.

Vejamos um trecho do Programa do PCdoB –

“por surgir das entranhas do modo de produção capitalista e das suas instituições, a transição para a nova sociedade ainda terá uma economia mista, heterogênea, com múltiplas formas de propriedade estatal, pública, privada, mista, incluindo vários tipos de empreendimentos, como as cooperativas”.

“Poderá contar com a existência de formas de capitalismo de Estado, e com o mercado, regulados pelo novo Poder. Todavia, progressivamente devem prevalecer as formas de propriedade social sobre os principais meios de produção”

[frise-se, propriedade social, e não exatamente estatal, e principais, não todos. Ou seja, parte do Estado, estatais, parte cooperativas, parte familiar, moradia para todos, pequenas empresas familiares etc].

Ozanam, Buchez, Leroux, Ketteler, Lamennais e o socialismo utópico cristão, pré marxista, a base principal do que há de bom no socialismo hoje

Em 1848, a linha mais brilhante da doutrina social da Igreja foi explicitada inclusive em discursos e atos de Pio IX. E por centenas de autores da Igreja, que escreveram textos exigindo reformas sociais, intervenção estatal na economia, direitos dos trabalhadores etc. 

O próprio Marx reconheceu que Pio IX e a Igreja atuaram de forma positiva nos movimentos de 1848. A Igreja, na França e em outros países, acolheu bem as reformas sociais e políticas do processo revolucionário de 1848.

Ozanam, em carta de 22.02.1848, escrevia: “julgo ver o Soberano Pontífice consumar o nosso anseio de vinte anos [desde 1828]: passar para o lado dos bárbaros, isto é, do campo dos reis e dos homens de Estado de 1815 para se encaminhar ao povo”.

Ozanam, que é beato da Igreja (santo, na prática), escreveu um ensaio com o título “As origens do socialismo”, onde ressaltou que a maior parte dos socialistas fundamentava suas idéias em “tradições cristãs”, “cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes”.

Por isso, Ozanam escreveu: “não desconhecemos a generosidade” dos socialistas e, tal como Ketteler, queria “proceder à triagem”, pois “as antigas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade” eram “nossas”, sendo o fundo da tradição cristã.

O mesmo pensamento de Lamennais, Leroux, Considerant, Cabet, Weitling e outros grandes cristãos.

Lamennais foi uma das principais influências teóricas sobre a Liga dos Justos, organização que forneceu a Marx a maior parte de suas ideias, ideias cristãs que eram o socialismo cristão, utópico, pré marxista, a base principal do marxismo. 

Ketteler, em 1877, também redigiu um estudo, demonstrando que os católicos poderiam aderir ao partido socialista de Lassalle.

Afinal, Lassalle apenas reproduzia as idéias de Buchez, como o próprio Marx reconheceu várias vezes.

Buchez, Ozanam e Ketteler são as estrelas da doutrina social da Igreja no século XIX e suas idéias apontam uma democracia não-capitalista, real, popular, economia mista, baseada na ampla intervenção do Estado na economia e no cooperativismo (as principais unidades produtivas, das principais forças produtivas, devem ser cooperativas ou estatais com estruturas de co-gestão, sempre pautadas, as duas, por formas de planejamento público participativo).

Frise-se que planejamento público, ampla intervenção estatal, amplo Estado social e econômico, tudo isso é totalmente compatível com ampla difusão de bens, milhões de pequenas propriedades pessoais e familiares, moderadas, sob controle e regulamentação estatal sobre o uso, para que todos tenham pequenas fortunas privadas, moderadas, para proteger a todos da miséria.

A difusão de bens é feita também mediante renda estatal universal, o Estado emitindo papel moeda controlada, para que todos tenham renda pessoal estatal, um mínimo, um colchão contra a miséria, um piso forte, para ninguém afundar na miséria diabólica. 

O ponto essencial da ética, na visão de Ozanam (e dos vicentinos, da Teologia da libertação e da doutrina social, tal como da lei natural), era “promover a abolição do pauperismo”, “advogar a causa dos operários” e “procurar para os homens a maior felicidade terrestre”.

A Igreja aceita a socialização com democracia, com liberdades, com distributismo

Os bens, como um rio (águas da vida) que deve escoar por pequenos canais (capilarização, cf. Alceu), devem fertilizar as “terras”, todos os membros da sociedade.

Os bens, como o sangue, devem irrigar todo o corpo social (todos os membros), numa boa estrutura metabólica, ponto bem destacado por Dussel.

Os bens devem ser “partilhados”, serem titulados, participados por todos.

Todos devem ser bons administradores, gestores, bons usufrutuários. Isso pode ser feito pela difusão da pequena propriedade para todos, mais uma base patrimonial pública, comum, acessível, via micro crédito e via difusão (renda básica), a todos. Esta estrutura existia há milênios nas pequenas aldeias, tal como existiam trocas (pequeno comércio), economia mista, ponto que acompanha a humanidade. 

Os bens e, assim, também o poder, é como a água que flui mais pura à medida que dela se haure com mais freqüência, apodrecendo (e enchendo-se de vermes, como dizia São Tiago), se ficar parada, “acumulada”.

Num sentido parecido, há a mesma tese no livro “Democracia industrial” (1892), do casal Sidney e Beatrice Webb, inspirado em idéias do socialismo cristão da Inglaterra, tal como no tolstoísmo.

Maritain elogiou (no livro “Humanismo integral”, p. 81) os Webb por terem esboçado as linhas de uma “democracia multiforme” sem a “subordinação da força-trabalho humana à fecundidade do dinheiro” e do lucro.

Estas imagens e idéias estão nos textos socialistas pré-marxistas, de influência de autores cristãos (como Mably, Morelly, Fauchet, Buonarrotti, mas também Lamenais, que influenciou a Liga dos Justos), reaparecendo, depois, especialmente nas metáforas religiosas usadas por Marx, como bem ressaltou Enrique Dussel.

Estão presentes nos textos dos socialistas cristãos pré-marxistas, nos de Marx, Bukharin e até em Stalin (que foi seminarista até os 21 anos, pois nasceu em 1878 e ficou no seminário até 1899) etc.

Sobre este ponto, vale à pena ler, do mexicano José Porfírio Miranda, os livros “Marx e a Bíblia” (1971), “Comunismo na Bíblia” (1981) e “O humanismo cristão de Marx” (1978). Numa linha próxima, há as obras de Dussel sobre as metáforas (imagens) cristãs usadas por Marx. Mostram que no “marxismo” há um fundo, uma essência, cristã racional, a parte trigo, misturada com joio, erros, distorções. 

Stalin, diante do ataque nazista à URSS, estendeu às mãos à Igreja Ortodoxa, à força moral da religião e do patriotismo.

Stalin tinha a seu lado vários ex-seminaristas, como, por exemplo, Anastas ivanovich Mikoyan (1896-1978). Anastas estudou, por anos, no Seminário Teológico Armênio e, depois, chegou a ser Presidente da URSS, de 1964 a 1965.

Mikoyan ocupou vários Ministérios (Comissariados) de Estado de grande importância, como o de Abastecimento (1926), do Suprimento (1930), da Alimentação (1934), presidente do Comitê de Abastecimento durante a II Guerra e Ministro do Comércio Nacional e Internacional no pós-guerra.

A III Internacional Comunista, desde 1935 (dezoito anos após a Revolução Russa, de 1917), com as teses do VII Congresso, com base em Dmitrov, preconizou a aproximação com as organizações operárias católicas.

Em 15.07.1935, a Junta Central da Internacional comunistas dos jovens recomendava “amiudar os acordos fraternos com os jovens trabalhadores cristãos e as suas organizações, para o incremento da união da mocidade contra o fascismo”.

No fundo, a Revolução Russa, com o NEP, até 1928, seguia a base do socialismo democrático, sem democracia, de economia mista. Possivelmente, o desastre ocorrido na China, em 1927, levou Stalin ao erro da coletivização forçada e ao rompimento com o socialismo democrático (“classe contra classe”, erros gravíssimos da Internacional).

Depois, a partir de 1934, com a política francesa, com a Frente Popular, onde o núncio católico agia (o futuro João XXIII), houve o início da reconciliação com o socialismo democrático, o início das Democracias populares. 

No início de 1936, tendo como marco-símbolo o discurso de Thorez (encontrava-se com João XXIII, quando este era núncio, em Paris, depois de 1944), em 17.04.1936, a Internacional orientou seus militantes a estender às mãos aos católicos, na política das mãos estendidas.

Thorez proferiu o discurso pela Rádio Paris, sendo este o marco da “politique de la main tendue” (“política das mãos estendidas”) aos católicos.

Pio XI, na “Divini Redemptoris” (19.03.1937), descreve esta política: os comunistas “convidam os católicos a colaborar” no “campo humanitário e caritativo, propondo por vez coisas em tudo conformes ao espírito cristão e à doutrina da Igreja”. Os comunistas deixavam claro que “em países de maior fé ou de maior cultura”, o socialismo “não impedirá o culto religioso e respeitará a liberdade de consciência”.

A Internacional também mencionava as “mudanças introduzidas” na “legislação soviética”, especificamente na Constituição da URSS, de 1936.

No fundo, Stalin e a Internacional, a partir de 1935, tendo como expoente Dmitrov, lançaram um movimento de aproximação com os católicos, os muçulmanos, a religiosidade africana e com os socialistas democráticos. Isso foi mantido, com erros, por Kruschev, tal como por Tito. E continua, hoje, na China, com a economia mista, a mesma base que a Igreja propõem. Isso foi seguido por Cuba, Vietnam e outros países, que adotam economia mista, hoje. 

Lembro que a Igreja aceita a estatização de grandes meios produtivos, tal como o planejamento democrático da economia. Isso é perfeitamente compatível e complementar com a difusão maciça da pequena e média propriedade familiar.

Enfim, casa para todos, terra para quem quiser, moradias, pequenas firmas varejistas para quem quiser abrir com apoio do Estado, pequenos negócios familiares, empreendedorismo etc.

Como a Igreja ensina, a “apropriação” social ou socialização dos meios de produção se aplica para os grandes poderes sociais, os grandes bens, e exige a estatização-socialização dos meios de produção (bens) que contenham grande poder, os bens gordos, tal como de outros bens que também gerem poder.

Os pequenos bens, quanto mais difundidos, como adubo na terra, melhor, ponto bem destacado por Chesterton e, antes, por Francis Bacon e milhares de autores, inclusive boa parte dos anarquistas, que eram pela difusão da pequena economia familiar (vide Proudhon e outros). 

O ponto central é que as grandes decisões, que concernem a todos, devem ter a participação de todos, como explicavam os Santos Padres.

Por isso, há uma base comum entre católicos e socialistas democráticos, especialmente com os trabalhistas. 

Dom Matthias Ebberhard, colega de Marx, no Ginásio de Trier, que se tornou depois o Bispo de Trier

Um dos colegas de Marx, no Ginásio de Trier, era um dos vários seminaristas católicos que estudavam ali. O ginásio tinha sido um Colégio Jesuíta. Chamava-se Ginásio Speer, em homenagem ao padre Spee, um grande padre, sepultado no pátio do colégio.

O livro de H. Monz, “Karl Marx und Trier” (Trier, 1964), mostra que um destes coleguinhas seminaristas se tornou, depois, o bispo de Trier (Trevéris, em francês). Chama-se Dom Matthias Eberhard. 

Marx teve formação religiosa, estudou num Ginásio católico, que tinha sido Colégio Jesuíta

Estes dados estão nos de livros do teólogo Enrique Dussel, que vê, nos textos de Marx, um cristianismo objetivo. Já Porfírio Miranda, outro grande teólogo católico, achava que Marx era subjetivamente cristão.

A família de Marx era judia, mas seu pai teve que se converter ao luteranismo, entre 1816 e 1817, cerca de um ano antes do nascimento de Marx, em 1818. Um dos tios de Marx era o Rabino em Trier. Outro tio era católico. 

Em 1824, Marx foi batizado como luterano. Em 1830, entra no Ginásio católico de Trevès (ou Tréveris), que tinha o nome Ginásio Spee, em homenagem ao grande padre Spee, que estava sepultado no pátio do Colégio. Spee foi um grande padre que combateu a perseguição às bruxas, lá por 1680. Marx estudou neste Ginásio de 1830 a 1835, dos doze anos aos dezessete anos. 

Quase todos os colegas ginasianos de Marx eram católicos, sendo vários seminaristas católicos. Quando Marx fez o exame de bacharel, de formação no Ginásio, de seus 32 colegas, apenas sete eram luteranos e os outros eram católicos, ou seja, 25. Só 22 foram aprovados no exame. Destes, sete se tornaram teólogos católicos, padres.

O professor de religião de Marx era Johann Abraham Kupper, de boa formação ética e trinitária. O texto de Marx, para a matéria de religião, neste exame, tinha o título “A unidade do crente com Cristo, segundo o Evangelho de São João 15,1-4. É um texto com ideias cristãs, muito bom e talvez seja o primeiro texto de Marx que ficou registrado. 

Após terminar o Ginásio, Marx foi para a Universidade de Bonn, para estudar Direito. No entanto, mudou seus planos e planejava se tornar teólogo, para trabalhar com o teólogo Bruno Bauer. 

Um elogio de Karl Marx a Igreja Católica, no Livro III de O Capital, p. 660, Edição Boitempo

No III Livro de O Capital, na p. 660, Karl Marx escreveu sobre a Igreja Católica, na Idade Média, e disse – “…o fato de que, na Idade Média, a Igreja formasse sua hierarquia com OS MELHORES CÉREBROS DO POVO, SEM levar em conta estamento, nascimento ou patrimônio, foi um dos principais meios de consolidação do domínio eclesiástico”.

Está na última edição, da Boitempo.

OU seja, Marx elogia a Igreja, na Idade Média, e o mesmo vale também depois e hoje, por recrutar “os melhores cérebros do povo”, “sem levar em conta estamento, nascimento ou patrimônio”.

Até na Idade Média, a cúpula da Igreja, a Hierarquia da Igreja, e o mesmo vale para a base (baixo clero e leigos), era formada por pessoas recrutadas no povo, “os melhores cérebros do povo”, expressão de Marx.

É um grande elogio. O principal “meio” do “domínio eclesiástico” seria a composição popular, recrutada “sem levar em conta estamento, nascimento ou patrimônio”.

Marx nasceu em Treves, cidade da Renânia, onde praticamente 90% das pessoas eram e ainda são católicas.

Marx estudou, dos doze aos dezessete anos, num Ginásio que tinha sido Colégio Jesuíta, e onde seus colegas eram quase todos católicos. Vários destes colegas eram seminaristas católicos, inclusive um deles seria, depois, o Arcebispo de Treves.

Mesmo na família de Marx, existiam rabinos, protestantes e um tio (irmão de seu pai) que era católico. 

Texto de formatura ginasial, do jovem Marx, quando tinha 17 anos e tinha religiosidade, pois estudava num Ginásio de católicos

“Reflexões de um Jovem sobre a Escolha de uma Profissão

Karl Marx

Agosto de 1835

A própria natureza determinou uma esfera de atividade na qual os animais devem se mover, e eles pacificamente se movem dentro dessa esfera, sem tentarem ir além ou sequer suspeitarem de outra.

Para o homem, também a divindade concedeu um objetivo geral: o de enobrecer a humanidade e a própria divindade. Mas ela deixou para o homem a tarefa de buscar os meios pelo qual esse objetivo pode ser alcançado, deixou para os homens o trabalho de escolher a posição na sociedade mais adequada a cada um, a partir da qual cada indivíduo pode elevar a si mesmo e a sociedade.

Essa escolha é um grande privilégio do homem perante o resto da criação, mas, ao mesmo tempo, é um ato que pode destruir sua vida, arruinar seus planos e fazê-lo infeliz. Uma consideração séria dessa escolha é, portanto, a primeira tarefa de um jovem que está começando sua carreira e que não quer deixar suas questões mais importantes ao acaso.

Todos possuem um objetivo em vista, o qual, ao menos para o possuidor, parece ótimo, e realmente o é quando sua mais profunda convicção, a mais profunda voz de seu coração, pronuncia que se é ótimo. A divindade nunca deixa os homens totalmente sem um guia, ela fala suavemente, mas com certeza.

Mas essa voz pode ser facilmente afogada, e aquilo que tomamos como inspiração pode ser produto do momento, o qual outro momento pode talvez destruir. Nossa imaginação às vezes é incendiada, nossas emoções agitadas, fantasmas voam diante de nossos olhos e nós mergulhamos de cabeça nas mais impetuosas sugestões do instinto, as quais nós imaginamos que a própria divindade nos tenha apontado. Mas aquilo que nós ardentemente abraçamos logo nos repele e vemos toda a nossa existência em ruínas.

Devemos, portanto, examinar seriamente se nós realmente fomos inspirados na escolha de nossa profissão, se nossa voz interior aprova isso, ou se essa inspiração é uma ilusão e o que tomamos como um chamado da divindade foi apenas auto decepção. Mas como podemos reconhecer essa ilusão sem rastrear a fonte da própria inspiração?

O que é ótimo brilha, e esse brilho desperta ambição. Essa ambição pode facilmente ter produzido a inspiração, ou aquilo que tomamos como inspiração, mas a razão não pode mais conter o homem que está tentado pelo demônio da ambição e ele mergulha de cabeça no que esse impetuoso instinto sugere: ele não mais escolhe sua posição na vida; em lugar disso, sua posição é determinada pelo acaso e pela ilusão.

Não somos chamados a adotar a posição que nos oferece as mais brilhantes oportunidades, essa não é aquela que, ao longo dos anos que talvez a manteremos, nunca nos irá cansar, nunca irá amortecer nosso zelo, nunca irá deixar nosso entusiasmo crescer frio, mas aquela na qual nós, em breve, veremos nossos desejos insatisfeitos, nossas ideias insatisfeitas e então invejaremos a divindade e amaldiçoaremos a humanidade.

Mas não é apenas uma ambição que pode despertar entusiasmo repentino por uma profissão em particular, nós talvez a tenhamos embelezado em nossa imaginação e embelezamento é a causa em razão da qual isso nos parece o que a vida tem de melhor a oferecer. Nós não a analisamos, não consideramos seus encargos totais, a grande responsabilidade que nos impõe a vimos apenas de uma grande distância; e distância é algo enganoso.

Nossa própria razão não pode nos guiar aqui, pois ela não é baseada na experiência nem na observação profunda, sendo enganada pela emoção e cega pela fantasia. Para quem então devemos nos voltar? Quem pode nos ajudar onde nossa razão nos trai?Nossos pais, que já atravessaram a estrada da vida e experimentaram a severidade do destino. Nosso coração nos diz isso.

E se mesmo assim nosso entusiasmo persistir, se nós continuarmos a amar uma profissão e crer que somos chamados para ela – mesmo após examiná-la a sangue frio, após termos considerado seus encargos e estarmos familiarizados com suas dificuldades –, então nós devemos adotá-la. Assim, nem somos enganados pelo entusiasmo e nem a precipitação nos leva embora.

Mas nem sempre somos capazes de atingir a posição para a qual acreditamos termos sido chamados. Nossas relações sociais começaram, até certo ponto, a ser estabelecidas antes mesmo de estarmos em uma posição para determiná-las.

Nossa própria constituição física é frequentemente um ameaçador obstáculo, que não deixa ninguém burlar seus direitos.

É verdade que podemos tentar passar por cima disso, mas então nossa queda será ainda mais rápida. Nós estaremos nos aventurando a construir algo em cima de ruínas, e assim toda nossa vida será uma infeliz luta entre o princípio mental e o físico. Mas quem é incapaz de reconhecer os elementos conflitantes dentro de si próprio? Como se pode resistir ao tempestuoso estresse da vida? Como se pode agir calmamente? E é a partir da calma, sozinha, que grandes atos podem surgir, ela é o único solo onde frutos maduros se desenvolvem com sucesso.

Apesar de não podermos trabalhar por muito tempo, e raramente felizes com uma constituição física que não é adequada à nossa profissão, continua a surgir o pensamento de sacrificar nosso bem-estar pelo dever, de agir vigorosamente apesar de sermos fracos. Mas se nós escolhemos uma profissão para qual não possuímos talento, nunca poderemos exercê-la dignamente. Nós logo perceberemos, com vergonha, nossa incapacidade e diremos a nós mesmos que somos criaturas inutilmente criadas, membros da sociedade que são incapazes de cumprir sua vocação. Então a mais natural consequência é o auto desprezo. E qual sentimento é mais doloroso e menos capaz de ser compensado por tudo o que o mundo exterior pode oferecer? Auto desprezo é uma serpente que roí o peito, suga o sangue vital do coração e o mistura com seu veneno de misantropia e desespero.

Uma ilusão acerca de nossos talentos é um erro que se vinga de nós, e mesmo que não nos encontremos com a censura do mundo exterior, isso faz surgir uma dor mais terrível em nosso coração do que a dor infringida pela censura.

Se nós considerarmos tudo isso, e se as condições de nossas vidas permitirem que escolhamos qualquer profissão que gostarmos, nós podemos adotar aquela que nos assegura maior valor (1), aquela baseada em ideias sobre cuja veracidade estamos completamente convencidos, que nos ofereça o âmbito mais amplo para trabalharmos pela humanidade e para nós mesmos chegarmos perto do objetivo geral para o qual cada profissão é apenas um significado: perfeição.

O valor de uma profissão é aquele que mais ergue um homem, o qual transmite alta nobreza a suas ações e seus esforços, que o faz invulnerável, admirado pela massa e elevado acima dela.

Mas valor somente pode ser assegurado por uma profissão com a qual não seremos apenas ferramentas servis, mas na qual agimos independentemente em nossa própria esfera. Só pode ser assegurado por uma profissão que não demande atos repreensivos, mesmo se repreensivos apenas na aparência; uma profissão onde o melhor pode seguir com nobre orgulho. A profissão que assegurar essas condições, no mais alto grau, nem sempre é a mais alta, mas sempre é a mais preferível.

Entretanto, assim como uma profissão que não nos assegura valor nos degrada, nós também certamente sucumbiremos sob os fardos de uma que se baseia em ideias que mais tarde reconheceremos como falsas.

Não temos outro recurso senão o autoengano e a salvação desesperada, aquela obtida pela autotraição.

Essas profissões que não são tão envolvidas com a vida, e são preocupadas com verdades abstratas, são as mais perigosas para um jovem cujos princípios ainda não são firmes e cujas convicções ainda não são fortes e inabaláveis.

Ao mesmo tempo, essas profissões parecem ser as mais exaltadas caso tiverem raízes profundas em nossos corações e se formos capazes de sacrificar nossas vidas e nossos esforços pelas ideias que nelas prevalecem. Elas podem conceder felicidade ao homem que tem vocação para elas, mas destroem quem as adota precipitadamente, sem reflexão, cedendo aos impulsos do momento.

Por outro lado, a grande consideração que temos pelas ideias sobre as quais nossa profissão é baseada nos dá uma alta posição na sociedade, aumenta nosso valor e torna nossas ações incontestáveis.

Quem escolhe uma profissão que valoriza muito estremecerá a ideia de a ela ser indigno, e irá agir de maneira nobre apenas se sua posição for nobre.

Mas o guia que deve nos conduzir na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição. Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito, que um tenha que destruir o outro; pelo contrário, a natureza humana é constituída de modo que o homem apenas pode alcançar sua própria perfeição trabalhando pela perfeição, pelo bem, de seus iguais. Se ele trabalhar apenas para si mesmo, pode até se tornar famoso, um grande sábio, um excelente poeta, mas ele nunca poderá ser perfeito, um homem pleno.

A história chama de grandes esses homens que se enobreceram trabalhando pelo bem comum, a experiência aplaude como os mais felizes aqueles que fizeram o maior número de pessoas felizes, a própria religião nos ensina que o ser [Cristo] em quem todos devem se espelhar se sacrificou pelo bem da humanidade. E quem se atreveria a reduzir a nada tais julgamentos?

Se escolhermos a posição na vida com a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encargo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos. Então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer a milhões, viveremos de ações silenciosas, mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres”.

* Primeira Edição: Archiv für die Geschichte des Sozalismas und der Arbeiterbewegung. Leipzig: K. Grünberg, 1925; escrito entre 10 e 16 de agosto de 1835.

Fonte: .

Tradução: Lucas Fabricio.

HTML: Fernando A. S. Araújo.

Direitos de Reprodução:  Licença Creative Commons.

Outras fontes do socialismo cristão católico pré marxista, que inspiraram Marx

Na Inglaterra, os cartistas cristãos foram os precursores do socialismo e o primeiro movimento operário organizado.

Os principais líderes cartistas eram Thomas Cooper e especialmente Feargus Edward O´Connor (1794-1855). Feargus era o dirigente cristão da ala esquerda dos cartistas, fundador e redator do jornal “A Estrela do Norte, que era o órgão central do cartismo, autor elogiado por Marx e Engels. 

Feargus lutava por uma extensa reforma agrária na Inglaterra. Queria a difusão da pequena propriedade familiar, como sempre quis a doutrina social da Igreja. 

Os cartistas inspiraram-se no movimento dos irlandeses católicos, especialmente em líderes católicos como o grande católico Daniel O´Connell (1775-1846), tio de Feargus.

Daniel O´Connell foi um advogado irlandês, que encabeçou o movimento pela emancipação irlandesa. Em 1832, Daniel fundou a “Great Catholic Association” e, em 1840, como líder católico, a “Royal National Repeal”, cujos métodos em boa parte inspiraram a luta dos cartistas, pois boa parte destes era formada por irlandeses.

O próprio Feargus começou a militar entre os “repeals” (de repelir a união da Irlanda com a Inglaterra, coisa que foi obtida, parcialmente, lá por 1922, com a fundação da República da Irlanda).

Flora Tristan, em suas viagens a Inglaterra, conheceu os cartistas, a O´Connell e O´Brien e foi influenciada por estas correntes, tal como pelo sansimonismo.

É possível que Marx tenha conhecido pessoalmente Flora, pois ao ir para Paris, Ruge aconselhou que conhecesse Flora e George Sand, socialistas com grande religiosidade.

Nos EUA, este papel precursor, de socialismo cristão pré marxista, coube aos Cavaleiros do Trabalho. Esta organização nasceu em 1869 e, em 1878, tinha, como principal liderança, o católico Terêncio Powderly, um operário mecânico.

Os Cavaleiros tiveram o apoio do Cardeal Gibbons e de outros nove grandes prelados, tal como do Cardeal Manning e, por fim, de Leão XIII. Os Cavaleiros recrutavam milhões de trabalhadores e defendiam uma forma de socialismo cooperativo, com difusão de bens, Estado social, democracia popular etc.

O cartismo, uma das maiores fontes cristãs do Estado social

O cartismo, na Inglaterra, também foi um movimento organizado por idéias cristãs, sendo formado, em boa parte, por irlandeses católicos.

Lênin elogiou o cartismo, escrevendo: “a Inglaterra deu ao mundo o primeiro movimento amplo, verdadeiramente de massas, politicamente formado, um movimento proletário revolucionário, o cartismo”.

Stalin, nas “Conversas com Wells” (embutida no livro “Questões do leninismo”, 1936), também elogiou o cartismo, como movimento precursor do socialismo marxismo e do socialismo.

A principal influência teórica dos cartistas foi Daniel O´Connor, um irlandês católico, “distributista”, que lutava por democracia, reforma agrária e outras reformas sociais.

Outro autor que influenciou os cartistas foi William Cobbett, que Marx apreciava e elogiava.

Cobbett era católico, tal como Daniel O´Connor, lideranças católicas. Nos EUA, o movimento operário precursor foram os Cavaleiros do Trabalho, liderados por um católico, também. 

A ética e o socialismo, a ética é a matriz, a fonte, a origem das ideias do socialismo

Ernest Belfort Bax (1854-1926) e Emile Vandervelde (1866-1938) censuraram Paul Lafargue, o genro de Marx, por este não entender a importância dos “princípios éticos”. Estes princípios, para estes socialistas, eram conceitos universais e necessários e essenciais inclusive para a crítica do capitalismo.

Ernest Belfort Bax e Vandervelde deixaram explícitas as bases éticas de suas idéias socialistas. O livro de Bax, “A ascensão e queda dos anabatistas” deixa explícita esta linha ética.

A esta crítica, Paul Lafargue, o genro de Marx, respondeu:

“Por Deus! Tal como os filósofos mais espirituais, eu não posso me evadir de meu meio social: é necessário sofrer [ser influenciado] as idéias correntes, cada um as corta a sua medida e toma seus conceitos individuais para criticar as idéias e as ações dos outros”.

A discordância de Lafargue era apenas que não considerava estes conceitos como os “axiomas da matemática”, pois achava que estes variavam nos lugares e épocas.

Conclusão: Lafargue não sabia, mas o jusnaturalismo adotado na doutrina da Igreja atende a seu pleito. O jusnaturalismo católico admite claramente, na linha dos textos de Tomás de Aquino e de outros Doutores, a variabilidade, a flexibilidade do direito natural – tendo em conta diversidade de tempos, lugares, circunstâncias etc – e, assim, da própria doutrina social.

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