Arquivos para : A influência cristã-católica e hebraica nas melhores ideias de Marx e Engels

Ketteler, Buchez e Lamennais influenciaram Karl Marx e explico

O bispo Ketteler foi chamado, por Marx, de chefe do partido socialista católico.

Marx também usou este termo para Buchez. De fato, Buchez influenciou Louis Blanc, Lassalle e o próprio Marx. E da mesma forma, Lamennais influenciou Marx, pela Liga dos Justos, que seguia os textos de Lamennais, desde a década de 30, do século XIX, quando Marx estava no Ginásio. 

Bento XVI, vários anos depois, fez uma justa homenagem a Ketteler.

Ketteler foi um grande bispo católico. Em 1877, já mostrava que a parte positiva do ideário socialista tinha origem cristã. E aceitava aliança prática entre católicos e socialistas, para superar os males do capitalismo. 

Ketteler correspondeu-se com Lassalle. Marx apontou corretamente que o socialismo de Lassalle era uma cópia das idéias de Buchez e, em 1877, no Congresso de Gotha, houve a fusão do partido de Marx com o partido Lassallista, deixando clara a existência de idéias comuns.

O elogio de Ketteler de Mogúncia, por Bento XVI, e a parte boa do marxismo

Bento XVI, na encíclica “Deus caritas est”, escreveu um texto que Marx aprovaria e tem influência de Marx, sobre a influência do processo industrial no século XVIII:

Isto mesmo sempre o têm sublinhado a doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social da Igreja. Do ponto de vista histórico, a questão da justa ordem da coletividade entrou numa nova situação com a formação da sociedade industrial no Oitocentos. A aparição da indústria moderna dissolveu as antigas estruturas sociais e provocou, com a massa dos assalariados, uma mudança radical na composição da sociedade, no seio da qual a relação entre capital e trabalho se tornou a questão decisiva — questão que, sob esta forma, era desconhecida antes”.

“As estruturas de produção e o capital tornaram-se o novo poder que, colocado nas mãos de poucos, comportava para as massas operárias uma privação de direitos, contra a qual era preciso revoltar-se”.

“27. Forçoso é admitir que os representantes da Igreja só lentamente se foram dando conta de que se colocava em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade. Não faltaram pioneiros: um deles, por exemplo, foi o Bispo Ketteler de Mogúncia († 1877)”.

Putin reconhece que o socialismo tem, no núcleo, as ideias cristãs, mesmo que ás vezes distorcidas

Tirei o texto da Agência Sputnik – “O presidente russo, Vladimir Putin, comparou o comunismo com o cristianismo, e a colocação do corpo de Vladimir Lenin no mausoléu – com as honras prestadas às relíquias dos santos.

“Talvez eu agora fale uma coisa que não agrade a algumas pessoas, mas vou falar o que penso. Primeiro, a fé sempre nos acompanhou, se reforçou quando o nosso país, o nosso povo estava em situações especialmente difíceis. Houve os anos duros de combate à religião, quando eliminavam os sacerdotes, desmantelavam as igrejas. Mas, ao mesmo tempo, se criava uma nova religião. A ideologia comunista é muito parecida com o cristianismo, de fato — a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a justiça — tudo isso está enraizado no Livro Sagrado. E o código do construtor do comunismo? É sublimação, é simplesmente uma interpretação simplificada da Bíblia, [os comunistas] não inventaram nada de novo”, afirmou o líder russo em uma entrevista para um documentário cujo trecho foi transmitido por um noticiário no canal de TV russo Rossiya 1.

Vladimir Putin comparou, ademais, a atitude dos comunistas para com Lenin com as honras prestadas pelos cristãos às relíquias dos santos.

“Olhem, Lenin foi colocado no mausoléu. De que forma isto é diferente das relíquias dos santos para os cristãos ortodoxos, e cristãos em geral? Quando me dizem que não, pois no cristianismo não há tal tradição, mas como, vão ao Monte Atos, vejam lá, tem relíquias dos santos, ademais, nós aqui também temos”, exclamou.

“Na essência, as autoridades da época não inventaram nada de novo, mas apenas adaptaram sua ideologia àquilo que a humanidade já havia muito tinha criado”, adiantou Putin”.

O livro de Oliver Stone, com entrevista com Putin, também é excelente, pois mostra como Putin rejeitou o neoliberalismo e quer criar um Estado social amplo, com economia mista, na Rússia. 

A influência cristã em Ho Chi Minh

A influência da concepção cristã atingiu o mundo todo, todas as constituições dos cerca de 240 países, povos.

Um exemplo deve bastar, para deixar este ponto claro. Há influência cristã mesmo em Ho Chi Minh (1890-1969, cujo nome significa “aquele que ilumina”), um grande líder vietnamita (que viveu na França católica e mesmo no Rio de Janeiro por seis meses, em 1911).

No “Testamento” do grande Ho Chi Minh, ele escreveu: “Toda minha vida, eu tentei o melhor que pude servir à Pátria, a revolução e o povo. Se preciso agora deixar este mundo, não me arrependo de nada, exceto não poder servir mais e mais. Quando eu partir, grandes funerais devem ser evitados, para não gastar dinheiro e o tempo das pessoas” (lembro que, no Vietnam, cerca de sete por cento da população é católica).

Ho Chi Minh completou o testamento, dizendo: “Meu último desejo é que… construam um Vietnam pacífico, unificado, independente, democrático e próspero”. O texto do “Testamento” contém até mesmo uma nota de permanência da personalidade após a morte, ao dizer “quando eu partir” ou “deixar este mundo”, explicitando idéias cristãs e da religiosidade oriental que pautaram a infância de Ho Chi Minh, tal como muitos de seus esforços pelo bem do Vietnam.

Num parêntese, a “ostpolitik” (política para o leste, para o oriente) do Cardeal Agostino Casaroli (1914-1998), com o apoio e orientação de Paulo VI, foram essenciais para a reaproximação da Igreja com o pensamento socialista (o socialismo nasceu com fontes religiosas).

Foram alguns católicos, como Thierry, que descobriram o papel das classes sociais, que Marx apenas refinou

O movimento histórico da democracia emergindo na história foi descrito parcialmente nos livros de Thierry, de Guizot e de outros historiadores românticos.

A concepção da luta dos camponeses, artesãos e pequenos burgueses contra a nobreza, movimento democrático, foi a base explicativa dos conflitos medievais e mesmo da Revolução Francesa. O principal historiador foi o católico Jacques Nicolas Augustin Thierry (1795-1856).

Therry foi um historiador francês católico.

O católico Thierry foi considerado, por Marx e Engels (cf. consta no livro “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã”), como um dos principais descobridores do papel das classes sociais na história. Este grande historiador católico soube descrever parcialmente o movimento histórico de democratização universal, referido mais tarde por Leão XIII, Antoine, Maritain e Alceu Amoroso Lima.

No mesmo sentido, o grande padre Congar escreveu, nos “Jalons”:

A influência das idéias que alimentaram o movimento das comunas foi sentido na Igreja no século XIII, particularmente nas constituições dos dominicanos, imitadas em seguida por outras ordens; conjugada com a influência das idéias políticas da Escolástica sobre a natureza e a origem do poder, ela se exerceu sobre a constituição inglesa e, mais remotamente, até sobre a americana. As democracias nem sempre conhecem a sua verdadeira ascendência” [as fontes, ascendentes, origens católicas…].

No livro “Cartas sobre a história da França” (1827), o católico Thierry elogiou o movimento das comunas, na Idade Média, especialmente a partir do século XI, como o ressurgimento das antigas tradições gaulesas de liberdade. O feudalismo, para Thierry, foi trazido pelos francos. Os nobres latifundiários seriam os descendentes das famílias francas, invasoras e imperialistas. A mesma explicação foi aplicada à invasão dos normandos, na Inglaterra. Os “nobres” eram oligarcas, que queriam a escravização do povo, concepção que também está presente nos melhores textos de Sismondi. E, daí, para Marx, que as consolidou e refinou. 

O núcleo central, a alma, da concepção histórica de Thierry é a superação do feudalismo (da oligarquia) com o ressurgimento da democracia, na França. Em Portugal, Alexandre Herculano descreveu a história de seu país, seguindo os passos de Thierry. Os textos de Herculano eram católicos. O atrito de Herculano com parte do clero teve mais causas passionais do que diferenças de conteúdo. Parte do clero era mesmo reacionário e o grande Herculano era bem intratável e ainda por cima recluso e fechado (terminou a vida na sua quinta, chamada “O vale dos Lobos”, tipo um lobo solitário, se bem que os lobos não são solitários, as matilhas são regidas por casais de lobos…).

Segundo Thierry, a França gaulesa (a antiga Gália, que combatia os romanos), que falava a língua gaulesa (que gerou, até hoje, o irlandês, o gaélico escocês, o manx, o gaulês e o bretão) teria sido democrática. O feudalismo seria algo externo, uma herança e imposição brutal dos francos. Os nobres, a nobreza, seria composta de descendentes dos francos, o principal povo germânico, que ao ocupar a França adotou a língua latina que já estava difundida, por conta das invasões romanas, desde Júlio César.

As famílias francas seriam o tronco da nobreza, dos latifundiários e não passariam de imperialistas (como se fossem as multinacionais, hoje, no Brasil), invasores e parasitas do povo comum, descendente dos gauleses.

Os gauleses de Asterix são os heróis de Thierry.

Engels também elogiava os gauleses e os celtas, dispersos no País de Gales, na Irlanda e outras regiões. O elogio tinha bom fundamento histórico e talvez também tenha sido influência da esposa irlandesa e mui católica de Engels, que o levou inclusive a redigir um manuscrito sobre a história da Irlanda.

Para Marx e Engels, Thierry expôs o “segredo de toda a luta política, neste país”, na França, pois redigiu a história da França com base no conflito entre a aristocracia latifundiária e o povo.

O povo francês seria o “bloco” (na terminologia de Gramsci) dos trabalhadores, artesãos, pequenos burgueses e camponeses. Nos melhores textos da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja este mesmo bloco é apontado como a parte sadia e boa da economia, sendo a oligarquia (latifundiários, grandes capitalistas e grandes fortunas privadas…) a parte maligna, que deve ser erradicada, para erradicarmos a miséria.

Thierry é citado desde as primeiras cartas entre Marx e Engels (por exemplo, em 09.03.1847). Nos livros de François Mignet, Guizot, Mignet e em outros há a mesma linha historiográfica. Foram estes autores cristãos (quase todos católicos) que influenciaram Karl Marx na idéia da luta de classes como motor e explicação da história. No fundo, na parte boa da idéia, é a luta do povo por liberdade e justiça social, pelo bem comum. A origem da parte boa da teoria da luta de classes é católica.

Na carta a Engels, de 27.07.1854, Marx chama Thierry de “pai da luta de classes na historiografia francesa” e elogia o livro “Ensaio sobre a história da formação e dos progressos do terceiro estado”.

Thierry foi um dos expoentes do romantismo católico. Thierry defendia que a Idade Média era o berço das liberdades e do governo representativo. Os germes da democracia tinham sido abafados pelo absolutismo monárquico a partir dos séculos XVI e XVII, tendo o absolutismo atingido o auge no século XVIII. Então, ocorreu a crise da revolução francesa.

A crise, como ensinavam livros médicos ligados a Hipócrates, gera a saúde, pelo movimento pendular destacado por Alceu Amoroso Lima. Marx também lia com cuidado os textos de François Guizot, mas não o elogiava, pois este o expulsou da França, em 1844 e sempre sobra alguma amargura, especialmente quando gerada por uma injustiça. E Guizot teve muitas falhas mesmo, estando o velho Marx correto, em não gostar do sujeito

De fato, na Idade Média existiram governos representativos (ponto destacado por Chateaubriand, no livro “O gênio do cristianismo”), com elementos da democracia. Para demonstrar isso, basta considerar os governos das comunas.

O movimento das comunas foi sempre elogiado como movimento revolucionário, como está bem claro nos textos de Kropotkin, Bakunin, Reclus, Proudhon e de outros autores. A Igreja participou intensamente deste movimento anti-feudal, anti-oligárquico, contra a tirania.

A aclamação dos reis era considerada uma parte intrínseca e um pressuposto da cerimônia da coroação dos reis. Mesmo nas cerimônias de coroação existia o reconhecimento implícito da necessidade do consentimento da sociedade na escolha dos agentes públicos, da forma do Estado e na produção das leis. No próprio juramento de Dom Pedro I, no Brasil, há a fórmula “Eu, Pedro I, por graça de Deus e unânime aclamação dos povos”. Só depois do juramento (de “observar e fazer observar constitucionalmente as leis”) havia a coroação e a entrega do cetro.

O padre Michel Riquet, no livro “Os cristãos e o poder (Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1950) transcreveu o conselho do rei São Luís a seu filho:

“Meu filho, peço-te que te faças amar pelo povo de teu reino; porque, em verdade, preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o povo do reino bem e lealmente a ver-te governá-lo mal” [cf. Joinville, “Histoire de Saint Louis”, Ed. Wally, Paris, 1890, n° 21].

O amor (logo, o consentimento) do povo e o bom governo (com base no bem comum) é a base real da legitimidade do poder, é o que torna justo o poder. O que há de comum entre vários reis religiosos (São Luís, Santa Isabel, São Venceslau, Alfredo e outros) é o fato de ajudarem os pobres, buscarem erradicar (extinguir) a miséria física, econômica, moral e intelectual do povo. Este é o papel do Estado, que se torna bom ao se pautar pelo bem comum, pelas idéias da ética cristã e natural.

Conclusão: os textos de Thierry e da maior parte dos historiadores românticos e cristãos do século XIX descreveram o movimento histórico de democratização, em prol da soberania nacional e popular, que exige o fim das classes opressoras, das opressões sociais. Exige a instauração cada vez mais ampliada e profunda do bem comum.

Os melhores textos históricos de Marx também seguem esta linha histórica, identificada com o iluminismo e o romantismo. Trata-se, no fundo, de um movimento providencial e divino contra as opressões, fazendo parte do núcleo (do coração) do processo histórico.

Hegel (e Eduardo Gans) também adotou esta teoria histórica, com base teleológica (que Gramsci valorizava, diga-se de passagem), uma teoria que ressalta uma linha histórica e providencial no núcleo do processo histórico (os Santos Padres chamam esta ação de ação da Providência, do Amor).

Thierry e Hegel, tal como Saint-Simon, redigiram textos com boas bases cristãs, principalmente católicas, e estas bases estão presentes nas melhores idéias do marxismo. São alguns dos “elementos de verdade” presentes no marxismo, como ressaltou João Paulo II, a parte boa, do trigo, que devemos preservar inclusive porque tem origem cristã, hebraica e no melhor da Paidéia.

O Padre Fernando Bastos de Ávila mostrou bem a influência cristã em Marx

O livro do padre Fernando Bastos de Ávila, “O pensamento social cristão antes de Marx” (Rio, Ed. José Olympio, 1972), lista vários expoentes do socialismo cristão, arrolando uma coletânea de textos destes autores, que escreveram antes de Marx, influenciando-o.

Em outras obras de Ávila, há a mesma tese, onde explica que a expressão “democracia social e participativa” é também conhecida como “solidarismo” ou “socialismo democrático”.

Ávila descreveu a linha que passa por Mably, Chateaubriand, Buchez, Ozanam, Ketteler, Lacordaire, Montalembert, Albert de Mun e outras estrelas da doutrina social da Igreja, que lutaram por uma democracia verdadeira, a Democracia Popular.

O primeiro livro sobre Socialismo, no Brasil, é um livro de socialismo católico

A primeira obra sobre socialismo, no Brasil, foi o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), obra que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). Notar a data, 1855, quando Marx ainda engatinhava, como liderança. 

O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico, cristão, católico.

O socialismo nasce na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos (Schuster, Weitling, Becker, Schapper e outros), antes de Marx.

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio da reedição deste livro.

O General Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824. Abreu e Lima foi para a Colômbia e teve a honra de lutar, como General, ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

A influência de Lamennais e de Buchez sobre o General Abreu e Lima foi clara. Em relação a Lamennais, um grande católico, autor das “Palavras de um crente”, Aprígio de Guimarães destacou o quanto Lamennais “influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo [Abreu e Lima], vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, um grande católico negro, também já defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, ligada a Buchez, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

O socialismo nasceu eclético, com amplas fontes cristãs

Este ponto consta claramente no livro “Manifesto do partido comunista”, de Marx e Engels.

E conta no livro “A subversão da ciência pelo sr. Eugen Düring [Anti-Düring]”, publicada em 1878, de Engels.

Engels escreve que o “socialismo” francês da época era “uma espécie de socialismo eclético”, com “nuances extremamente variadas, apresenta uma mistura das mais opacas omissões críticas, sentenças econômicas e ideias do futuro da sociedade de diversos fundadores de seitas”.

A Primeira Internacional era pluralista, tinha vários tipos de socialismo

O socialismo democrático era a principal corrente do movimento socialista, no final da metade do século XIX, antes dos textos de Marx.

Esta corrente tinha raízes (fundamentação) religiosas. Esboçaram a idéia de uma democracia social, de um “socialismo democrático” (expressão usada por Engels numa nota de rodapé no “Manifesto”, para designar a corrente de Luiz Blanc, Buchez e outros).

A mesma base de ideias, religiosas, deste “socialismo democrático” está nos textos de Lamennais, Buchez, Ozanam, Ketteler e outros autores ligados à Igreja.

A maioria dos membros da 1ª Internacional, inclusive os anarquistas, concordava com as linhas gerais da Democracia social, inclusive apreciando os “princípios elementares da moral e do direito” (texto expresso da Internacional).

Estes princípios de ética e de direito são verdades práticas que nascem naturalmente como fruto do brilho da inteligência das pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus.

A primeira Internacional era pluralista. César de Paepe, belga, teve ampla participação na primeira internacional e deixou textos proferidos em congressos da internacional, onde fica claro que esta organização não era “marxista”, e sim pluralista, baseada em pontos comuns entre mutualistas, cooperativistas (muitos deles eram cristãos), federalistas, seguidores de Proudhon, alguns positivistas, anarquistas, socialistas religiosos e marxistas.

Estas correntes “abraçam-se e completam-se na Internacional”, tentando elaborar “uma nova concepção de sociedade, concepção sintética, que busca simultaneamente garantias para o indivíduo e para o coletivismo. Em síntese, era a liberdade e a solidariedade” (texto colhido na pág. 31 do livro “Universo ácrata” de Edgar Rodrigues, vol. I, Florianópolis, Ed. Insular, 1999).

César de Paepe combatia a “concepção jacobina de Estado onipotente e da comuna [município] subalterna”, pois valorizava (numa linha que seria reprisada pelos militantes da Comuna de Paris e, depois, pelos fabianos) os municípios, defendendo uma sociedade baseada em comunas (municípios) emancipadas “nomeando [por eleições] ela própria todos os seus administradores, fazendo a legislação, a justiça e a polícia”. Também criticava a “concepção liberal do Estado gendarme”.

A doutrina da Igreja também e é municipalista (há bons textos de Kropotkin reconhecendo este ponto) e fica claro, pelas idéias expostas por César de Paepe, que já havia clara identidade de algumas idéias entre os cristãos e os outros participantes da Internacional.

César de Paepe queria um grande Estado social, dividido em províncias e municípios.

A Igreja defende todos os elos sociais, defende municipalismo, provincialismo federalista, nacionalismo, união política dos continentes e Estado mundial, sendo que o Estado mundial seria Federalista ou Confederalista, não eliminando os elos menores, e sim os protegendo. 

Pi y Margall, como Anselmo e outros anarquistas, elogiaram o movimento das comunas nos séculos XII e XIII, como o berço da democracia na Europa e este movimento teve ampla participação da Igreja.

A Igreja, o socialismo e o liberalismo, distinções importantes, precisões

Há palavras vagas que trazem confusões, exigindo distinções, esclarecimentos, precisões, para evitar erros graves.

Por exemplo, no bojo do termo “socialismo” há as idéias boas e cristãs como: a primazia da pessoa, do bem comum, a destinação universal dos bens, a vinculação dos bens às necessidades humanas, o planejamento estatal, as estatais e autarquias para bens que atribuem grandes poderes (cf. fórmula de Pio XI), a cooperação humana para o bem comum, cooperativismo, ação estatal difusora de bens e redistribuidora, de promoção da santa igualdade social etc.

O socialismo nasceu como um movimento de vários socialismos, sendo quase todos cristãos, pré-marxistas, com ampla fundamentação cristã, como mostrarei neste blog, em centenas de postagens. 

Da mesma forma, na palavra “liberalismo” há idéias boas e cristãs como: a importância da liberdade natural, civil e política; do controle social do Estado; a importância da difusão de bens próprios (casa, renda básica, ferramentas, bens familiares etc); a importância das liberdades pessoais, da privacidade, das esferas pessoais etc. O liberalismo político nasceu com ideias democráticas boas, sendo corrompido.

O liberalismo econômico mesmo teve pontos bons, de elogio a pequena e média empresa familiar, como pode ser visto em Adam Smith, mas sem os controles públicos e a intervenção do Estado, gerou as piores injustiças do planeta. 

Por isso, a doutrina social da Igreja sempre evita filiação a estas palavras mais vagas.

No fundo, a doutrina da Igreja é ecumênica (universal, católica), traz elementos que agrupam as partes boas, contidas em todas as correntes.

A expressão que melhor encarna as idéias gerais da doutrina da Igreja, na etapa atual da história, que dá nome ao ideal histórico da Igreja, é a expressão “democracia popular, social, participativa, comunitária”, democracia econômica, política, cultural etc.

Esta democratização geral e plena, humanismo pleno, é também chamado, por muitos, de socialismo humanista, trabalhismo ou socialismo democrático.

— Updated: 19 de Janeiro de 2018 — Total visits: 19,672 — Last 24 hours: 34 — On-line: 0
Pular para a barra de ferramentas