Arquivos para : A influência cristã-católica e hebraica nas melhores ideias de Marx e Engels

Na Primeira Internacional já existiam militantes teístas, religiosos

Na Primeira Internacional, existiam militantes teístas. Os marxistas eram minoria. Alguns militantes teístas: G. Harris e Boon.

Estes dois eram “dois membros ingleses do Conselho Geral”, da “seita do defunto Bronterre O´Brien” (texto tirado de carta de Marx a Friedrich Bolte, em 23.11.1871).

James O´Brien Bronterre (1802-1864) foi dos cartistas IRLANDESES, que dirigiu o jornal “The Poor Man´s Guardian” (“O Guardião dos homens pobres”, dos “pobres”), em Londres, onde defendia as ideias católicas socialistas de William Cobbett.

A maior parte dos sindicalistas da Inglaterra, na Internacional, eram pessoas com religiosidade.

O movimento irlandês foi a principal base dos Cartistas, de 1836 a 1848, retomando a luta da Insurreição irlandesa de 1758. A Primeira Internacional se inspirava principalmente na luta dos Cartistas e, nestes, a presença irlandesa-católica era extremamente forte. 

O apreço católico pelo católico William Cobbett está presente sempre. Eu mesmo tenho o livro do católico G. K. Chesterton, “La vie de William Cobbett”, editado em 1929, na França, pela Livraria Gallimard, traduzido por Marcel Agobert.

O principal ponto do Programa da Primeira Internacional era basicamente católico, a fórmula de Buchez, acolhida por Lassalle, no primeiro Partido operário da Alemanha, como reconheceu expressamente Marx, no livro “Crítica ao programa de Gotha”.

O principal ponto era a fórmula de Buchez, apoio estatal às cooperativas, expressa inclusive no esboço de programa para o Congresso da Primeira Internacional, em Moguncia, em 14.07.1870, o Quinto Congresso Geral.

Marx defendia a criação de “Bancos nacionais”, em vez de “bancos de emissões” de moeda privados, para a criação nacional de cooperativas. Estes “bancos nacionais” dariam “condições para a produção cooperativa em escala nacional”. Isso, junto com medidas como “abolir a Dívida Pública” (ponto baseado em William Cobbett, outro católico), substituiriam o capitalismo por um modo de produção cooperativo. Este esboço foi aprovado pelo Conselho Geral, em 12.07.1870. 

 

O padre Ferdinando Galiani, outro precursor católico de Marx e do marxismo, autor de parte das ideias de Marx

O padre Ferdinando Galiani, napolitano, também atacou duramente os erros capitalistas dos fisiocratas (no livro “Diálogos sobre o comércio de grãos”, 1770) e foi muito citado por Marx, inclusive no livro “Contribuição à crítica da economia política”.

Voltaire também elogiou o livro de Galiani, escrevendo “L’homme aux quarante écus” (“O homem com quarenta escudos”), uma sátira aos fisiocratas onde um banqueiro rico (sem terras, mas com muito dinheiro) ri de um agricultor pobre, com apenas 40 escudos, que paga impostos, estando o banqueiro isento.

Os fisiocratas defendiam um sistema tributário com um imposto único sobre a renda da terra, de acordo com os interesses dos capitalistas e ainda combatiam todas as formas de intervenção estatal na economia.

Marx citou também o grande católico Antônio Genovesi (1712-1769), um teólogo italiano inimigo dos erros dos fisiocratas. São algumas das fontes cristãs das idéias de Marx, que facilitam o diálogo.

Marx transcreveu, pelo menos, oito textos de Galiani, no Livro I, de “O capital”.

Marx aprendeu muito com os textos do padre Galiani, citados nos “Grundrisse”. Por exemplo, Marx citou o livro “Da Moeda”, do padre Galiani, escrevendo:

…este autor expressa já um conceito acertado do valor: “a fadiga (…) é a única que dá valor às coisas”. Distingue também qualitativamente o trabalho, não somente distinguindo entre diferentes ramos da produção, senão também entre trabalho mais ou menos intenso etc. (…) Se supera assim a diferença qualitativa e o produto de um tipo mais elevado [de trabalho] se reduz de fato a uma quantidade de trabalho simples. (…) Os metais…são usados como moedas porque valem…., não valem porque são usados como moedas” [Il metalliusansi per moneta perché vagliono…, non vagliono perché usansi per moneta]. 

É a velocidade do giro do dinheiro, não a quantidade dos metais, o que faz que o dinheiro seja muito ou pouco [É la velocità del giro del denaro, non la quantità, che fa apparir molto o poco il denaro]. (…)

Uma formosa frase de Galiani:

Esse infinito que (as coisas) não alcançam em sua progressão, o alcançam na circulação (no giro)”.

Falando do valor de uso, diz Galiani, de forma muito bela [correta]:

O preço das coisas é uma relação [ragione, proporção]…o preço é a proporção entre as mesmas e nossas necessidades, e não tem ainda medida fixa. Talvez a medida será encontrada ainda. Eu, por mim, creio que é [a medida] o homem mesmo. (…) De fato, (o homem) é a única e verdadeira riqueza”[ è l’única e vera richezza]. “A riqueza é uma relação entre duas pessoas” [La richezza e una ragione tra due persone”].

De Galiani, Marx aprendeu várias coisas importantíssimas, que em manuais estalinistas aparecem como criações isoladas de Marx (no fundo, toda criação são novas sínteses).

O estudo das fontes de Marx é importantíssimo, pois revela as fontes cristãs de seu pensamento, facilitando, assim, o diálogo entre católicos e marxistas, e a ação conjunta contra o capitalismo.

As frases do padre Galiani – o homem é a “única e verdadeira riqueza” e “a riqueza é uma relação” – mostram que as riquezas (o capital e o latifúndio) são relações sociais de opressão dos trabalhadores.

O ponto mais importante foi Galiani ter escrito que não há medida fixa para os preços das coisas e que a medida é o próprio homem (ou seja, as necessidades das pessoas, os bens que necessitam para uma vida digna).

Galiani retirou esta idéia de Aristóteles e dos textos da Bíblia e dos Santos Padres.

Significa que os bens devem atender às necessidades das pessoas e, por isso, estão sujeitos à soberania (estima comum) da sociedade. Os preços (os valores das coisas), tal como todos os bens e o controle sobre os mesmos, devem ser fixados pela estima comum (como ensinou São Tomás de Aquino), pela sociedade organizada, por formas consensuais, estatais, planejamento público participativo, socialismo participativo.

Estima comum significa soberania da sociedade, consenso popular (que é também a base real da fé cristã e da democracia), ou seja, acordos (planos consensuais) entre as pessoas, visando atender às necessidades de todos e, assim, a destinação universal dos bens. Significam planos, formas de planejamento participativo, com o primado do bem comum e do trabalho.

Estas idéias contêm, implicitamente, as bases teóricas de um modo de produção com base em unidades de produção geridas pelos trabalhadores com formas de planejamento participativo, tendo como finalidade o bem comum (obter condições de vida dignas para todos, como dizia explicitamente João XXIII).

O católico Simão Nicolas Henri Linguet foi outra fonte católica de Karl Marx, do marxismo

Marx aprendeu muito sobre o ordenamento jurídico positivo burguês (com base no direito real quiritário, liberal) lendo as obras de um católico chamado Simão Nicolas Henri Linguet (1736-1794).

O livro de Linguet, “Teoria das leis civis ou princípios fundamentais da sociedade”, 1767, foi elogiadíssimo por Marx (que também elogiava os livros do abade Galiani).

Linguet defendia uma forma de despotismo asiático (o modo de produção asiático), um amplo Estado, com base comunitária, dizendo que o sistema capitalista é que era despótico por reduzir os trabalhadores a uma situação de total dependência.

Linguet criticou corretamente os erros capitalistas dos fisiocratas (os primeiros ideólogos do capitalismo).

Segundo Marx, no livro “Teorias sobre a mais valia” (o último livro de “O capital”, organizado por Kautsky), “Linguet viu bem a essência da produção capitalista”.

Linguet “não” era “certamente socialista”, mas “sua polêmica (…) contra a dominação burguesa” era excelente.

Em 1865, Marx reconheceu (e o mesmo sempre foi econômico em elogios) que “a Teoria das leis civis é, não obstante, um livro verdadeiramente genial”.Marx, na carta a J. B. Schweitzer, em 24.01.1865, escreveu que o livro de Linguet é “uma obra genial”.

Marx citou seu precursor, no Livro I, de “O capital”, pelo menos cinco vezes, transcrevendo duas vezes a frase de Linguet: “o espírito das leis é a propriedade”.

Linguet atacou a propriedade capitalista e defendeu a teoria católica do domínio eminente da sociedade (a propriedade universal do Estado, que representaria a sociedade), criticando a usurpação praticada pelos ricos da propriedade comum (dos bens, destinados a todos).

Linguet criticou “as leis civis” capitalistas (com base na propriedade quiritária), pois estas tinham como finalidade consagrar uma primeira usurpação a fim de prevenir outras novas usurpações, sendo uma salvaguarda do rico contra os ataques do pobre.

Enfim, este digno precursor de Marx achava que as leis civis burguesas (com base na propriedade quiritária, na propriedade burguesa), seriam “uma conspiração contra a parte mais numerosa do gênero humano”.

William Cobbett, grande católico, precursor de Marx. Marx o chamou de “maior escritor político da Inglaterra deste século”.

O mecanismo torpe da dívida pública é baseado na usura, em juros absurdos pagos pelo Estado aos capitalistas.

O mecanismo torpíssimo e genocida da dívida pública foi criticado de forma magistral por Cobbett, um jornalista católico muito respeitado por Marx, como pode ser lido em “O capital”.

Marx escreveu, numa nota de rodapé do livro “Contribuição à crítica da economia política” (1857), que William Cobbett (1763-1835) foi “o maior escritor político inglês do século”.

No livro “Teorias sobre la plusvalia” (vol. II, Fondo de Cultura Economica, México, 1987, p. 102), ao dissertar sobre a história da lei ricardiana, Marx repetiu o juízo sobre Cobbett: “…o maior escritor político da Inglaterra deste século”).

O Vaticano, em vários documentos, denunciou uma “dívida que assumiu proporções tais que se torna praticamente impossível o seu pagamento” e pediu o cancelamento destas dívidas, especialmente no Jubileu do ano 2000.

Cobbett foi precursor dos cartistas, lutando pelo sufrágio universal e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Cobbett também denunciou também o imperialismo (no livro “Perish commerce”, “Pereça o comércio”, em 1806), inspirado no livro de William Spence.

Os textos de Cobbett influenciaram Karl Marx, sendo uma das fontes cristãs do marxismo.

Fichte, outro precursor cristão do socialismo

O socialismo de Estado (e também as idéias socialistas de Marx) tem fontes hegelianas, em Fichte, Schelling e outros autores cristãos.

Hegel considerava que o Estado é o Espírito que se realiza no mundo com consciência de si, é o poder da razão e da ética. Os textos de Hegel sobre economia são baseados principalmente em James Steuart, cameralista, colbertista. 

Esta noção ampliada sobre o Estado tem base também nos textos de Fichte, especialmente no livro “O Estado comercial fechado”, de 1800.

Fichte defendia idéias muito cristãs, especialmente que o Estado (de fato, a sociedade, usando principalmente o Estado) deve dar a cada pessoa o que é lhe é devido, dar os bens necessários e proteger as pessoas.

Fichte ensinava que o “fim de toda a atividade humana é viver, e todos o que a natureza introduziu na vida têm igual direito a poder viver”. Enquanto houver pessoas com necessidades, o luxo e o supérfluo não devem existir.

Fichte ensinava ótimas lições como: “Todos têm o direito de comer e de possuir uma casa antes de alguém ter habitações luxuosas; todos devem ser vestidos cômoda e satisfatoriamente antes que alguém tenha o direito de se vestir com magnificência”.

Fichte defendia um Estado racional, com fortes barreiras alfandegárias e com amplos controles estatais.

Anton Menger, no livro “Direito ao produto integral”, reconheceu Fichte como um precursor do socialismo. De fato, Fichte influenciou Bruno Bauer, Rodbertus, Lassalle, Moses Hess e outros. Os escritos de Fichte adotam fundamentos religiosos e socialistas e é outro precursor pré-marxista do socialismo.

Na própria Trier, cidade natal de Marx, há um precursor cristão socialista, pré marxista

Ludwig Gall foi um precursor de Marx, exercendo influência sobre o mesmo, quando era adolescente.

Gall foi para Trevès (Trier, em alemão), a cidade natal de Marx, em 1816, antes de Marx nascer. Marx nasceu em 1818. Trevès tinha, no máximo, quinze mil habitantes, sendo a cidade mais antiga da Alemanha (tinha o nome “Augusta Treverorum”, no império romano) e era a cidade que tinha mais igrejas, quase todas católicas.

Dos 15.000 habitantes, a maioria era católica, com apenas 200 protestantes e algumas famílias hebraicas (especialmente a de Marx, que tradicionalmente ocupava os cargos de rabinos).

Gall trabalhou como funcionário público, de 1816 a 1819, ocupando inclusive o cargo de secretário do Conselho de Trier.

Gall escreveu então várias obras, de 1820 a 1835, defendendo os operários e recomendando a formação de cooperativas industriais e agrícolas. Em 1834, publicou o livro “Classes privilegiadas e classes trabalhadoras”.

Gall era cristão, defendia uma síntese entre Fourier e sansimonismo, dois ramos socialistas com raízes religiosas. Basicamente, a síntese que Marx mesmo tentou fazer. 

O termo “socialismo” nasceu do socialismo cristão, PRÉ-MARXISTA, antes de Marx

Pierre Leroux usou o termo “socialismo”, um neologismo, lá por 1834, para se opor ao termo “individualismo”, capitalismo, usando esta palavra nova, no artigo “De l’individualisme e du socialisme”, na Revue encyclopedique.

No fundo, este autor seguia a linha bíblia, de Morus, Morelly, Mably, Bonneville, do padre Claude Fauchet, Bispo Gregoire, padre Jacques Roux, de Babeuf e de outros precursores CRISTÃOS, quase todos CATÓLICOS, do socialismo. Desta forma, inspirou Georges Sand, Flora Tristan e o padre Jacques Pillot.

Pierre Leroux, um cristão católico sansimoniano, é considerado como o primeiro a usar o termo “socialismo” na França (no artigo “Do individualismo e do socialismo”, publicado na “Revista enciclopédica”, em 1834, sobre o qual escreveu anos depois: “fui eu o primeiro que usou a palavra socialismo. Era então um neologismo necessário. Forjei esta palavra em oposição ao individualismo”.

O artigo de Ch. Gruenberg (“A origem das palavras socialismo e socialista”, publicado na “Revue d’histoire des doctrines économiques”, 1908, p. 289), no entanto, lembra que o pastor Vinet, em 1831, usava o termo socialismo em um sentido religioso e aplicado aos sansimonianos.

Leroux escreveu um livro sobre as origens democráticas da Igreja, que deveria ser reeditado, pela atualidade.

Jean Touchard, na obra “História das idéias políticas” (editado pela Publicações Europa-América, 1959), tem um bom texto sobre Pierre Leroux:

Pierre Leroux e a religião da humanidade.

“Mais ainda do que Buchez, Pierre Leroux (1797-1871) é o homem das vastas sínteses. Como Buchez, ele passa pelo sansimonismo (que deixa em 1831) e, como ele também, invoca comovidamente as recordações da Convenção e dá mesmo a entender que nasceu em 1793: “Nasci no tempo em que a Convenção lutava contra o negociantismo”, escreve ele, no ano de 1846, em Malthus et les économistesFala igualmente do “verdadeiro cristianismo” e “destas duas grandes coisas: o Evangelho e a Revo­lução”.

“Pierre Leroux foi muito admirado em vida. O católico Lamartine afirmava que as obras de Pierre Leroux seriam lidas um dia como se lê o Con­trato Social.

“George Sand declarava-se um pálido reflexo de Pierre Leroux.

“Renan, nos seus Souvenirs d’ enfance et de jeunesse, põe em destaque a sedução que exercia Pierre Leroux sobre os alunos do semin­ário católico de Saint-Sulpice.

“As suas obras principais, De l’humanité, De l’égalité, Du christianisme et de son origine démocratique, Malthus et les économistes, La grève de Samarez, etc., interessam muito para o conhecimento da época.

“Segundo Pierre Leroux, que inventou o termo, o socialismo tem por missão “fazer concordar, por meio duma síntese verdadeira, a liberdade, a fraternidade e a igualdade”. Liga portanto, também, o socialismo à Revolução Francesa.

“Já em 1832, ele preconiza “a dou­trina da Revolução Francesa, a doutrina da igualdade organizada”.

“Em 1833, no número de Outubro-Dezembro da Revue encyclopédique, escreve: “A luta atual dos proletários contra a burguesia é a batalha daqueles que não possuem os instrumentos de trabalho contra aqueles que os possuem.”

“O pensamento de Pierre Leroux é acima de tudo religioso: “Eu sou crente”, compraz-se ele em repetir, e no seu livro La carrosse de M. Aguado (1848) não hesita em escrever: “Jesus é o maior dos economistas, e não existe verdadeira ciência econômica fora da sua dou­trina.”

“A democracia é para Pierre Leroux uma religião.

“Pensa que o sistema representativo deve ser, não uma representação da realidade, mas uma “representação do Ideal”. Isso leva-o a elaborar, em 1848, um projeto de Constituição dos mais estranhos, em que as instituições parlamentares refletem o mistério da Trindade.

“As passagens estra­nhas não são raras, de resto, em Pierre Leroux, quanto mais não fosse a sua teoria acerca do princípio de continuidade e a utilização do estrume humano…”

Benoit Malon, na obra “O socialismo integral, historia das theorias e tendências geraes” ( do Instituto Geral das Artes Gráficas, Lisboa, 1899, pp. 105-106) escreveu sobre Leroux:

A palavra socialismo foi criada (…) por Pedro Leroux, para ser oposta (conforme este mesmo escritor nol’o ensina na Gréve de Samaraz) ao individualismo que começava a ter curso. L. Reybaud, na sua obra famosa: “Os Reformadores contemporâneos”, adaptou o neologismo de Pedro Leroux e popularizou-o tão depressa e tão bem que foi acreditado como seu autor”.

Meu comentário – Pierre Leroux foi elogiado por Marx em seus primeiros escritos, desde 1842. Ele e a maioria dos socialistas pré-marxistas eram socialistas religiosos, como mais tarde Victor Hugo e outros.

Leroux era lido nos seminários e a religiosidade engajada do mesmo (especialmente no livro “Do cristianismo e de sua origem democrática”) influenciou até mesmos latino-americanos. Foi Leroux quem espalhou o termo “socialismo” na França, o que também prova a tese deste blog, sobre as fontes religiosas do socialismo.

Leroux escreveu, em 1833, quando Marx tinha apenas 15 anos: “a luta atual dos proletários contra a burgueia é a luta dos que não possuem os instrumentos de produção contra os que os possuem” (retirado do livro de Garaudy, “Rumo a uma guerra santa?”, da Jorge Zahar Editor,1995). Leroux foi amigo de Lamennais, sendo os dois amigos de George Sand.

O padre Fernando Bastos de Ávila escreveu um livro sobre o socialismo antes de Marx, socialismo pré-marxista, onde menciona os precursores socialistas cristãos, demonstrando parte do que é exposto neste blog. O marxismo foi uma síntese, formada por várias idéias antes expostas e divulgadas por pensadores cristãos (Hegel, Leroux, Fourier, os socialistas ricardianos que se inspiravam em fontes religiosas, Saint-Simon, Owen, Considérant, Pecqueuer, Ludwig Gall e outros).

Frederico Engels, em vários livros e textos, elogiou o cristianismo

Frederico Engels, no texto “Estudo sobre o cristianismo primitivo” (de 1884), escreveu que as revoluções camponesas, na Idade Média, eram movidas pelo cristianismo primitivo, ou seja, a religião nem sempre é “ópio” do povo. Só é ópio quando o integrismo ou fundamentalismo (controle do grande capital sobre parte do Clero) tem ação.

Engels, no estudo “O livro do Apocalipse”, repetiu a frase de Renan que dizia que quem quisesse ter uma idéia das primeiras comunidades cristãs, bastaria ver as seções locais da Internacional. Engels comentou a frase de Renan: “isto é correto. O cristianismo apoderou-se das massas, tal como o faz o socialismo (….). O cristianismo, como todo movimento revolucionário, foi estabelecido pelas massas”. Notar a frase – “o cristianismo, como todo movimento revolucionário, foi estabelecido pelas massas”.

Lenin também reconheceu que o cristianismo primitivo era democrático e “revolucionário”. Idem para Rosa de Luxemburgo, em seu bom livro sobre a religião e o socialismo. 

O mesmo Frederico Engels, no pequeno livro “Sobre a história do cristianismo primitivo”, reconheceu que “a história do cristianismo primitivo tem notáveis semelhanças com o movimento moderno da classe operária”.

Ainda Engels, no livro “Bruno Bauer e o cristianismo primitivo” (de 1882), repetiu basicamente a mesma frase, pois considerou corretamente o cristianismo primitivo como “o primeiro protesto universal do homem contra a opressão universalizada”.

O mesmo Engels, numa carta escrita de Londres, escreve: “Podemos observar na Inglaterra que uma classe social se encontra tanto mais na ponta do progresso e com um futuro tanto maior, quanto mais baixa sua escala social, mais inculta no sentido corrente do termo. Essa é uma constante de qualquer época revolucionária, que se manifesta especialmente na revolução religiosa da qual o cristianismo foi produto: ‘bem-aventurados os pobres’, ‘a sabedoria deste mundo se fez loucura’”.

Engels, numa carta a Marx, após a publicação de “O Capital”, se refere a Cristo e diz “nosso velho amigo Jesus” dizia “sejam espertos como a serpente e bons como a pomba”. Com base nesta frase de Cristo, Engels publicou cartas de crítica ao livro “O capital”, para furar o bloqueio da mídia ao mesmo.

O maior parceiro de Marx, Engels, no livro “As guerras campesinas na Alemanha”, elogiou o cristianismo primitivo e disse que Thomas Münzer tinha uma “doutrina política” que “procede diretamente de seu pensamento religioso revolucionário”. Este capítulo (tal como vários textos de Engels transcritos neste blog) prova que Engels admitia que o pensamento religioso pode ser revolucionário, ou seja, que nem sempre a religião é um “ópio do povo”.

O ecumenismo e o pluralismo, no prisma religioso e no campo da esquerda, são as melhores pontes, que podem gerar um poder popular que garanta ao povo a efetiva soberania (e o domínio eminente) sobre os próprios movimentos, os recursos naturais etc.

O próprio Pio X escreveu: “a Igreja, (…), difundiu a civilização, (…) conservando e aperfeiçoando os bons elementos das antigas civilizações pagãs”, ou seja, com ecumenismo (catolicidade, universalismo), que deve ser adotado pelas e com as correntes socialistas.

Leonardo Boff – no início, “o socialismo era de vertente cristã”

Leonardo Boff escreveu: “inicialmente, o socialismo era de vertente cristã”.

No semanário “Pasquim21”, de 2002, há uma entrevista com Leonardo Boff, onde este expõe as origens religiosas do socialismo:

Jesus – Não estaria nascendo um novo paradigma socialista no século XXI apoiado no cristianismo? Não estou falando das Igrejas, mas da proposta social de Cristo, que foi afastada da sociedade pela Revolução Francesa, exilada no plano da religião

Boff – Eu acho que uma das forças, entre tantas que existem, de retomar o discurso socialista vem dos grupos cristãos. Inicialmente, o socialismo era de vertente cristã. Os primeiros socialistas aqui do Brasil eram os jesuítas.

Eles foram para as cortes e explicaram o seu ensaio comunista e socialista. Eram todos socialistas, tanto é que Marx dialoga e discute com o socialismo utópico, que é o socialismo religioso, e funda o socialismo científico, o socialismo como estratégia de análise da sociedade, como montagem de uma força histórica alternativa para derrubar o capitalismo e que acabou condenando o socialismo utópico como não viável. Hoje nós entendemos que os dois se completam. O socialismo utópico apresenta horizonte maior, uma sociedade aberta, radicalmente democrática – porque o socialismo é a democracia integral, na política, nas eleições, na economia (com a socialização dos meios de produção), na cultura (com acesso ao Eros, ao prazer, à diversão, à arte). Esse é o horizonte utópico. Resgatar a tradição religiosa, de onde nasceu o socialismo, incorporando o socialismo histórico dos franceses, dos italianos, com as experiências boas do leste (eles criaram todo um senso de solidariedade, que foi perdido para a nova configuração de socialismo), é o grande sonho das periferias do mundo

Jesus – Eu acho que esse novo paradigma deve nascer das comunidades analfabetas, porque elas não estão comprometidas com esse paradigma iluminista que está aí.

Boff – Exatamente. Eu acho que nós teremos condenado o socialismo não porque queremos. Ou nós socializamos os recursos escassos que temos na Terra: água, energia fóssil, alimentação ou não chegamos a lugar algum. Nós queremos criar o modelo adequado, o processo de globalização onde as tribos da Terra se encontram em um único lugar (que é o próprio planeta). Ou nós repartimos, socializamos, criamos a Federação dos Povos da Terra e a república mundial, igualitária, socialista, ou então caímos na versão vigente hoje, que é o modelo que Locke já bolou, na visão de uma superpotência, com mão fechada, que se impõe a todas as demais e as alinha com sua estratégia”.

Minhas humildes considerações – o socialismo, como democracia radical (a extensão da democracia política à economia, às unidades produtivas, à cultura, às estruturas sociais, estabelecendo o poder do povo em todas as relações e instâncias), é, basicamente, a mesma concepção de um Betinho (um dos líderes da A.P. na década de 60), de Henfil, Frei Betto, Boaventura de Sousa Santos, Clodovis Boff e outros.

As raízes deste socialismo são bíblicas e científicas, estão nos Santos Padres, tal como em Buchez, Lamennais, Ozanam, Sangnier, Simone Weil, o Clarté, Mounier, Alceu e outros autores.

As idéias de Leonardo Boff coincidem com as idéias fundamentais expostas neste blog, abonam as afirmativas com sua autoridade intelectual e moral e seus bons argumentos.

A lição de Villeneuve de Bargemont, precursor da doutrina social da Igreja, autor que Marx leu, no início de sua vida como socialista

Leão XIII ensinou, na “Diuturnum illud” (29.06.1881), que o que justifica (torna justo, correto, legitima, torna legítimo) o poder público, o Estado, é a realização do bem comum.

A sociedade e o Estado devem ser organizados para a realização do bem comum. As ideias práticas para a realização do bem comum formam o que se convencionou chamar de “lei natural”.

Santo Agostinho simplificava – lei natural são as ideias práticas para a melhoria e a defesa da natureza, especialmente da natureza humana. 

Villeneuve de Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), ensinava a mesma coisa: “a finalidade da sociedade não pode ser só a produção de riquezas [bens materiais]”, coisa legítima, em si mesma.

A “finalidade” da sociedade e do Estado é “a mais ampla difusão possível da abundância, do bem-estar e da moral”, entre as pessoas.

A “abundância” (cf. Jo 10,10) ou riqueza da sociedade não significa grandes fortunas privadas, e sim a difusão de bens necessários, úteis, convenientes e decorosos para todos, para uma vida plena, digna e feliz para todas as pessoas, como Frei Caneca destacava, em seus textos.

A verdadeira abundância ou prosperidade da sociedade é a erradicação da miséria e da oligarquia.

— Updated: 22/07/2018 — Total visits: 30,871 — Last 24 hours: 41 — On-line: 0
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