Arquivos para : A “Fórmula” para diálogo cristãos e marxistas: destacar a influência cristã-católica e hebraica nas melhores ideias de Marx e Engels e uso papal termos de Marx

Um texto EXCELENTE de Noam Chomsky, sobre Lula e as últimas décadas da exploração pelo imperialismo no continente Sul do Planeta

“Se as prisões fazem pensar à famosa observação de Tolstoi sobre as famílias infelizes: “Cada qual é infeliz à sua maneira”, existem, no entanto, pontos em comum com relação às prisões; o reconhecimento cruel e angustiante de que outra pessoa além de você tem total autoridade sobre sua vida.

Minha esposa e eu acabamos de visitar uma prisão para ver aquele que é indiscutivelmente o maior prisioneiro político da atualidade, uma pessoa de suprema importância na nossa política global contemporânea.

Pelo padrão das prisões americanas que já vi, a prisão federal de Curitiba, (Brasil) não é das mais terríveis ou opressoras – ainda que o nível não seja lá muito alto.

Não é nada parecida com as poucas que visitei no exterior, não se parece nem de perto com a prisão de Khiyam em Israel, no Sul do Líbano, que depois foi bombardeada até sua completa destruição para apagar o crime e está muito longe dos horrores indescritíveis da prisão Vila Grimaldi de Pinochet, onde aqueles que sobreviveram à série de torturas com toques de requinte eram jogados em uma torre até que apodrecessem.

Sem dúvida, sua suposta “normalidade” é um dos meios para assegurar que o primeiro experimento neoliberal sob a supervisão dos economistas de Chicago possa continuar sem o embaraço das vozes dissonantes.

No entanto, não deixa de ser uma prisão.

O prisioneiro que nós visitamos, Luiz Inácio Lula da Silva – ou “Lula” como ele é conhecido mundialmente – foi condenado à prisão perpétua, em um confinamento solitário, sem acesso à imprensa ou aos jornais e com visitas limitadas uma vez por semana.

No dia seguinte à nossa visita, um juiz, citando a liberdade de imprensa, acedeu ao pedido do maior jornal do país, a Folha de São Paulo, para que pudesse entrevistar Lula, mas outro juiz rapidamente interveio e derrubou essa decisão, apesar do fato de que entrevistas com os mais violentos criminosos presos do país – líderes de milícias e traficantes de drogas – são rotineiras.

Para a estrutura de poder brasileiro, prender Lula não é suficiente, eles querem assegurar que a população, que está se preparando para votar, seja privada de ouvi-lo de qualquer maneira e para isso estão dispostos a usar de todos os meios.

O juiz que reverteu a autorização não estava inaugurando um novo precedente. Um de seus predecessores foi o promotor da condenação de Antonio Gramsci pelo governo Fascista de Mussolini que declarou, “temos de impedir seu cérebro de trabalhar durante 20 anos.”

“A história nunca se repete, mas ela frequentemente rima” como o observou Mark Twain.

Ficamos animados, mas não surpresos, de observar que malgrado as condições severas e o chocante erro judiciário, Lula permanece dinâmico como sempre, otimista sobre o futuro e cheio de idéias sobre como tirar o Brasil da via desastrosa que vem trilhado.

Há sempre pretextos para a prisão – talvez válidos, talvez não – mas faz sentido no mais das vezes, buscar quais são as razões no caso em questão. É assim agora.

A primeira acusação contra Lula baseada em uma delação premiada de um homem de negócios acusado de corrupção é que ele teria recebido um apartamento no qual nunca viveu. Está longe de ser uma prova avassaladora.

O pretenso crime é quase que imperceptível pelos padrões brasileiros – e há muito que dizer sobre esse conceito, ao qual voltarei mais tarde. Além disso, a sentença é tão desproporcional para o crime que lhe é imputado que torna-se necessário ir atrás das verdadeiras razões. Candidatos não brotam facilmente.

O Brasil está enfrentando uma eleição que tem uma importância crítica para seu futuro. Lula é de longe o candidato mais popular e venceria facilmente uma eleição justa. Tal desenlace não é o preferido da plutocracia.

Apesar de suas políticas – quando estava no poder – serem consideradas como conciliadoras com os interesses da finança interna e externa, ele é desprezado pelas elites, em parte, sem dúvida, pelas suas políticas de inclusão social e de benefícios para os despossuídos, mas outros fatores parecem intervir: basicamente, o ódio de classe.

Como pode ser permitido a um pobre trabalhador sem educação superior que nem fala corretamente o português, governar nosso país?

No poder, Lula foi tolerado pelo Poder Ocidental, mas com reservas. O entusiasmo despertado pelo sucesso que angariara com seu Ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, ao colocar o Brasil no centro da cena mundial, confirmando as previsões de um século atrás nas quais o Brasil se tornaria o “colosso do Sul”, era limitado.

Algumas de suas realizações eram severamente condenadas, particularmente suas iniciativas para a resolução do conflito sobre o programa nuclear do Irã, em parceria com a Turquia em 2010, restringindo a insistência americana em dominar a cena internacional. De modo geral, o papel de liderança do Brasil para a promoção de forças independentes do Poder Ocidental na América Latina e além, fora acolhido com dificuldade por aqueles que estavam acostumados a dominar o mundo.

Com Lula impedido de concorrer, há uma grande chance de que o candidato favorito da direita, Jair Bolsonaro, possa ganhar a presidência e intensificar as políticas reacionárias do Presidente Michel Temer – que substituiu Dilma Roussef depois dela ter sofrido processo de impeachment através de um processo ridículo na etapa inicial do golpe branco agora em curso no país mais importante da América Latina.

Bolsonaro se apresenta como um autoritário inflexível e brutal, admirador do golpe militar, restaurador da “ordem”. Parte do seu apelo vem do fato de posar como um outsider que virá desmantelar o sistema político corrupto, desprezado com razão pelos brasileiros; uma versão local da pior reação em muitas partes do mundo aos efeitos do assalto neoliberal da última geração. Bolsonaro afirma não saber nada de economia, deixando essa área para o economista Paulo Guedes, um produto ultra liberal da Escola de Chicago.

Guedes é claro e explícito a respeito da solução que considera ser a melhor para o Brasil e seus problemas: “privatizar tudo”, toda a infra-estrutura nacional (Veja, 22 de agosto) a fim de pagar a dívida aos predadores que estão roubando o país ludibriado.

Literalmente tudo, garantindo que o país declinará a um ínfimo grau de insignificância, como um joguete nas mãos dos mais ricos e das instituições financeiras dominantes.

Guedes já trabalhou por um tempo no Chile, sob a ditadura de Pinochet, então pode vir a ser interessante relembrar os resultados da primeira experiência do neoliberalismo de Chicago.

A experiência, iniciada depois do golpe militar de 1973 – que lhe preparou o terreno através do terror e da tortura – foi conduzida sob as melhores condições. Não podia haver nenhum tipo de dissensão, a organização da Villa Grimaldi e outras afins cuidaram disso.

O regime era fiscalizado, na economia, pelos super stars da escola de Chicago. Ele tinha um apoio imenso dos Estados Unidos, do mundo corporativo e das instituições financeiras internacionais.

Os planejadores econômicos eram suficientemente sensatos para não interferir na eficientíssima companhia nacionalizada de minas de cobre, Codelco, a maior no mundo, esteio da economia.

Durante poucos anos, a experiência foi muito elogiada e depois veio o silêncio. Apesar de estar sob condições quase ideais, lá pelos idos de 1982, os “Chicago Boys” conseguiram quebrar a economia. O Estado teve de assumir uma parte maior da economia do que sob Allende. Ironicamente o ocorrido foi chamado de “A Via de Chicago ao Socialismo”.

A economia retornou em larga escala aos gestores tradicionais e retomou o crescimento, mas ficou marcada por resíduos do desastre na educação, nos sistema de proteção social e muitos outros.

Voltando às prescrições da dupla Bolsonaro-Guedes para derrubar o Brasil, é importante ter em mente o enorme poder que o setor financeiro possui na economia política brasileira.

O economista brasileiro Ladislau Dowbor conta como, quando a economia brasileira caiu em recessão em 2014, os principais bancos aumentaram seus lucros de 25 a 30 %, “uma dinâmica em que mais os bancos lucram, mais a economia perde fôlego” porque os “intermediários financeiros não financiam a produção, mas sugam-na”. (“A era do capital improdutivo”).

Além disso, continua Dowbor, “depois de 2014, o PIB caiu brutalmente enquanto que os juros e os lucros dos intermediários financeiros subiram anualmente entre 20 a 30%”, um claro sinal de que o sistema financeiro “não serve a economia, mas, pelo contrário, se nutre dela. Trata-se de produtividade líquida negativa. A máquina financeira está vivendo a expensas da economia real.”

O fenômeno é global. Joseph Stiglitz resume a situação de forma simples: “Onde, antigamente, a finança era um mecanismo para injetar dinheiro nas empresas, agora funciona para extrair dinheiro das mesmas.”

Essa é uma das brutais reviravoltas da política sócio-econômica trazida ao mundo com o ataque neoliberal, junto com a monstruosa concentração do capital em algumas mãos, enquanto a maioria não sai do sufoco, os benefícios sociais declinam e o funcionamento da democracia é solapado com ferramentas óbvias enquanto que o poder econômico se vê cada vez mais concentrado nas mãos de instituições financeiras predadoras.

As conseqüências são a principal raiz do ressentimento, raiva e desprezo pelas instituições no poder que estão se alastrando através do mundo, conhecidas como “populismo”.

Esse é o futuro planejado pela plutocracia e pelos seus candidatos favoritos.

Seria barrado por uma nova presidência de Lula que trouxe proventos às instituições financeiras e ao mundo dos negócios, mas não o suficiente na era do capitalismo selvagem.

É importante nos atermos um momento sobre o que ocorreu no Brasil durante os anos Lula – “a década de ouro”, nas palavras do Banco Mundial em maio de 2016. Durante estes anos, um estudo do banco relata que:

O progresso econômico do Brasil tem sido excepcional e notado internacionalmente. Desde 2003 [inicio do mandato de Lula], o país ganhou renomada internacional graças a seu sucesso na redução da pobreza e da desigualdade e sua habilidade na criação de empregos.

“Políticas inovadoras e eficientes para a redução da pobreza e para assegurar inclusão social de grupos anteriormente excluídos tiraram milhões de pessoas da miséria.

“Ademais, o Brasil vem assumindo responsabilidades globais. Foi bem sucedido na busca pela prosperidade econômica sem sacrificar a proteção do seu patrimônio natural único.

O Brasil tornou-se um dos mais importantes novos credores, com extensos engajamentos particularmente na África Subsaariana e um player líder nas negociações sobre o clima global.

O caminho de desenvolvimento trilhado na última década mostrou que o crescimento com prosperidade compartilhada, em harmonia com o respeito pelo meio ambiente, é possível. Os brasileiros têm razão em orgulhar-se desses sucessos reconhecidos internacionalmente.”

Ao menos alguns brasileiros, mas não aqueles que detêm o poder econômico.

O relatório do Banco Mundial rejeita a opinião generalizada de que esse progresso substancial era “uma ilusão criada pelo boom das commodities, mas insustentável no ambiente internacional menos favorável da atualidade.” Ele responde a essa alegação com um “‘não´ fundamentado. Não há razão para que os ganhos socioeconômicos recentes sejam revertidos; eles devem na verdade ser ainda mais amplificados com as políticas corretas.”

As políticas corretas deveriam incluir mudanças radicais na estrutura geral que foi instalada durante os anos Lula-Dilma – quando as demandas da comunidade financeira foram acolhidas já que mantidas as políticas dos anos de FHC, incluindo a baixa imposição dos ricos (freqüentemente evitada graças à fuga massiva dos capitais em direção aos paraísos fiscais) e as taxas de juros absurdas que levaram ao surgimento de fortunas para uma pequena minoria atraindo o capital para o setor financeiro ao invés do investimento produtivo.

A plutocracia e o monopólio da mídia acusam as políticas sociais de drenar a economia, mas na verdade os estudos econômicos mostram que o efeito multiplicador da ajuda financeira para os pobres desenvolveram a economia, enquanto que a renda financeira provinda das taxas de juros escorchantes e outros presentes à finança foram as causas reais da crise de 2013 – uma crise que poderia ter sido ultrapassada pelas “políticas corretas”.

O eminente economista brasileiro Luiz Carlos Bresser Pereira, ex Ministro da Fazenda, identifica resumidamente o fator determinante na atual crise em curso: “Não há uma razão econômica” para o bloqueio das despesas públicas e a manutenção das altas taxas de juros, “a causa fundamental das altas taxas de juros no Brasil é o poder dos donos do dinheiro e dos financistas” com suas drásticas conseqüências, ajudados pelos parlamentares (eleitos com financiamento empresarial) e o monopólio da mídia que é essencialmente a voz do poder privado.

Dowbor ressalta que durante a história moderna brasileira, desafios à estrutura regressiva levaram a golpes de estado, “a começar pela demissão e suicídio de Vargas [em 1954] e o golpe militar de 1964” (amplamente apoiado por Washington).

Há uma boa chance de que algo muito parecido esteja acontecendo durante o golpe branco que está em curso desde 2013.

Essa campanha das elites tradicionais, agora concentradas no setor financeiro e apoiada pela mídia altamente monopolizada, chegou ao ponto máximo quando Roussef procurou reduzir as taxas de juros exóticas a níveis mais civilizados, ameaçando diminuir o fluxo do dinheiro fácil para o pequeno setor que possuía todas as benesses nos mercados financeiros.

A presente campanha para preservar o sistema e inverter as conquistas da “década gloriosa”, está explorando a corrupção na qual o Partido dos Trabalhadores governado por Lula, conhecido por PT, participou.

A corrupção é real e séria, embora, distinguir o PT para demonizá-lo é puro cinismo considerando os deslizes dos acusadores.

Além disso, como já foi mencionado, as acusações contra Lula, ainda que se quisesse dar-lhes crédito, não podem ser tomadas como ponto de partida para a punição administrada, que é excluí-lo do sistema político. Tudo o que foi dito o qualifica como um dos prisioneiros políticos de maior importância do momento.

A reação costumeira da elite quando há ameaças ao sistema da economia sócio-política do Brasil se reflete na resposta internacional aos desafios que o Sul Global apresenta ao sistema neocolonial, deixado após séculos de devastação imperial do Ocidente.

Nos anos 50, nos primórdios da descolonização, o Movimento dos Não Alinhados buscou penetrar no sistema internacional. Ele foi rapidamente colocado no seu lugar pelo poder Ocidental.

Um dos símbolos dramáticos disso foi o assassinato – pelos belgas, donos do poder tradicional (surpreendendo até a CIA) – do líder congolês extremamente promissor, Patrice Lumumba.

O crime e seus desdobramentos acabaram com as esperanças de um país que poderia ser um dos mais ricos do mundo, mas que permanece estigmatizado como “Horrendo! Horrendo!” gozando da ampla participação dos torturadores tradicionais da África.

Contudo, a voz perturbadora das vítimas tradicionais continuou quebrando o silêncio enquanto a descolonização prosseguia seu curso agonizante.

Nos anos 60 e 70 com contribuições substanciais dos economistas brasileiros, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento pôs à frente planos para uma Nova Ordem Econômica Internacional, nos quais os interesses das “sociedades em desenvolvimento”, por sinal a grande maioria da população mundial, seriam considerados. Essa iniciativa foi rapidamente esmagada pela regressão neoliberal.

Alguns anos depois, através da UNESCO, o Sul Global veio clamar por uma Nova Ordem Internacional referente à Informação que abriria o sistema global de comunicação e mídia a uma participação externa, independente do monopólio virtual do Ocidente.

Isso deu vazão a um ataque histérico por parte de várias correntes políticas, lançando mão de acusações absurdas e ridículas, e à saída do Presidente Ronald Reagan da UNESCO a partir de pretextos inverossímeis. Tudo isso foi exposto em um estudo devastador (ainda que não lido) realizado pelos acadêmicos William Preston, Edward S. Herman e Herbert Schiller (“Hope and Folly”).

Também silenciado perniciosamente foi o estudo de 1993 realizado pelo Centro Sul mostrando que a hemorragia de capital dos países pobres para os ricos se fez em fase com exportação de capital ao FMI e ao Banco Mundial, agora “receptores claros de recursos dos países em desenvolvimento.”

Aconteceu o mesmo com a declaração do primeiro encontro da Cúpula Sul reunindo 133 Estados em 2000 que se transformou em uma resposta à auto-adulação do Ocidente sobre sua doutrina de “intervenção humanitária”.

Aos olhos do Sul Global, o assim chamado “direito de intervenção humanitária é uma cobertura para o imperialismo, “o qual não possui uma base legal na Carta das Nações Unidas ou nos princípios gerais da lei internacional.”

Não surpreende o fato do poder não apreciar desafios e ter em mãos inúmeras formas de rechaçá-los ou de simplesmente silenciá-los.

Algo deve ser dito sobre a corrupção política endêmica na América Latina, freqüentemente denunciada de forma cinicamente ingênua no Ocidente. É bem verdade que trata-se de uma praga que não deve ser tolerada.

Mas a praga raramente se limita ao “mundo em desenvolvimento”.

Não é uma mera aberração quando grandes bancos são condenados a pagar uma multa de dezenas de bilhões de dólares (JPMorgan Chase, Bank of America, Goldman Sachs, Deutsche Bank, Citigroup) geralmente através de acordos, de tal forma que ninguém seja legalmente culpado pelas atividades criminosas que destroem milhões de vidas.

Deve-se observar que “a América corporativa acha cada vez mais difícil estar do lado da lei”.

Segundo relato do London Economist de 30 de agosto de 2014, houve 2.163 condenações de empresas entre 2000 e 2014 e a América corporativa possui inúmeras empresas na City de Londres e no continente.

A corrupção vai desde a escala massiva acima ilustrada até mais insignificante crueldade. Um exemplo particularmente vulgar e instrutivo é o roubo de salários, uma epidemia nos Estados Unidos.

São estimados que dois terços dos trabalhadores com baixos salários tenham sua remuneração furtada de seus salários todas as semanas, enquanto três quartos tenham parte ou a integralidade de suas horas extras remuneradas roubadas.

As quantias furtadas dos contracheques de seus funcionários são anualmente superiores àquela dos furtos a bancos e postos de gasolina e lojas de conveniência.

Na prática, não há execução legal.

Manter essa impunidade é estratégico para o mundo dos negócios, ao ponto de tornar-se uma grande prioridade para o principal lobby de negócios, o American Legislative Exchange Council que tem uma ampla participação corporativa.

A primeira tarefa do ALEC é desenvolver legislação para os Estados, um objetivo fácil tendo em vista a confiança dos legisladores nos fundos corporativos e na atenção limitada que recebem na mídia.

Os programas sistemáticos e intensos da ALEC são, por conseguinte capazes de mudar os contornos da política do país inteiro sem chamar a atenção, um ataque furtivo à democracia com efeito substancial. Uma das suas iniciativas legislativas é assegurar que o furto de salários não será sujeito à inspeção ou aplicação na lei.

Mas a corrupção que é tecnicamente criminosa, seja ela em massa ou pequena, é apenas a ponta do iceberg.

A maior corrupção é legal. Por exemplo, o recurso aos paraísos fiscais que drenam estimativamente um quarto ou mais dos 80 trilhões de dólares da economia global, criando um sistema econômico independente, livre de controle e regulação, um paraíso para todos os tipos de atividades criminosas, tanto quanto para a sonegação de impostos.

Também não é tecnicamente ilegal para a Amazon, que acabou de tornar-se a segunda corporação de trilhões de dólares, ter-se beneficiado de imensa isenção de impostos sobre as vendas.

Ou, usar aproximadamente 2 % da eletricidade dos Estados Unidos a tarifas extremamente reduzidas, beneficiando-se de “uma tradição americana antiga para a transferência de custos de empresas para os residentes pobres que já pagam três vezes mais de sua renda em contas de serviços públicos do que o fazem os domicílios mais prósperos”, como é relatado pela mídia.

E há inúmeros outros exemplos.

Outro exemplo importante é a compra das eleições, um tópico que foi estudado em profundidade, particularmente pelo cientista político Thomas Ferguson. Sua pesquisa, feita em conjunto com seus colegas, mostrou que a elegibilidade ao Congresso e ao poder executivo é previsível com uma precisão incrível a partir de uma única variável: a despesa de campanha.

Uma tendência muito importante que vai buscar suas raízes na história política americana e que se estende até a eleição de 2016 (Ferguson, Golden Rule; Ferguson et al., “Industrial Structure and Party Competition in an Age of Hunger Games: Donald Trump and the 2016 Presidential Election,” Working Paper No. 66, Jan. 2018, Institute for New Economic Thinking).

Transformar a democracia formal em um instrumento nas mãos da riqueza privada é perfeitamente legal, mas, diferente do flagelo Latino Americano, não a corrupção,.

Isso não significa que a interferência nas eleições esteja fora da agenda.

Pelo contrário, a suposta interferência russa nas eleições de 2016 é uma das principais questões na ordem do dia, um tema intensamente investigado e comentado histericamente. Por outro lado, o papel massacrante do poder corporativo e da riqueza privada na corrupção das eleições de 2016, seguindo uma tradição que remonta a um século é raramente observada. Afinal de contas, ela é perfeitamente legal, até endossada e estimulada pelas decisões da Suprema Corte mais reacionária dos últimos tempos.

Comprar eleições é a última das intervenções corporativas na intocável democracia americana que vem sendo manchada pelos hackers russos (com resultados imperceptíveis).

As despesas de campanha atingem cumes nunca antes vistos mas isso é eclipsado pelo ação lobista, estimada cerca de dez vezes maior, um flagelo que cresceu rapidamente desde os primórdios da regressão neoliberal.

Os efeitos na legislação são imensos, ultrapassando de longe a redação da legislação, literalmente, pelos lobistas, enquanto os representantes do congresso que assinam a fatura estão ausentes, ocupados pela conquista de fundos para a nova eleição.

Corrupção é sem dúvida uma praga no Brasil e na América Latina, geralmente, mas trata-se de players menores na competição.

Tudo isso nos traz de volta à prisão, na qual um dos mais importantes prisioneiros políticos do período atual é mantido no isolamento para que o golpe branco no Brasil possa continuar seu curso, com prováveis conseqüências graves para a sociedade brasileira e para o resto do mundo, tendo em vista o papel potencial do Brasil a nível mundial.

Pode prosseguir em curso, caso seja tolerado o que está acontecendo.

Louis Blanc, outro precursor cristão de Marx, expoente do socialismo cristão pré marxista

Louis Blanc foi um grande socialista cristão, pré marxista, que influenciou Marx. Trata-se de outra fonte cristã de ótimas ideias esposadas por Marx. A maior parte das “ideias marxistas” são, na verdade, ideias de grandes cristãos socialistas pré marxistas, como mostrou o padre Fernando Bastos de Ávila, Boff, Frei Betto e eu mesmo, no livro “Socialismo. utopia cristã”, de 1.150 páginas, com centenas de textos cristãos pré marxistas. 

Jean-Joseph Louis Blanc (1812-1882) escreveu a obra “Da Organização do trabalho”, em 1839, quando Marx tinha apenas 21 anos e não era ainda socialista.

Louis Blanc defendeu um novo sistema econômico socialista, onde o povo seria o verdadeiro senhor (controlador) e denunciou que a burguesia apossou-se do poder e dos meios do trabalho, defraudando o povo de seus direitos.

Com as manufaturas financiadas pelo Estado cada trabalhador atuaria de acordo com suas faculdades e obteria os bens de acordo com suas necessidades. Seriam financiadas pelo Governo, e geridas pelos trabalhadores.

Esta é a fórmula do cooperativismo (unidades produtivas controladas pelos trabalhadores) apoiado pelo Estado, que Marx apontou corretamente, na “Crítica ao Programa de Gotha”, como sendo da autoria de Buchez, mais tarde adotada por Louis Blanc e, depois, por Lassalle e Ketteler.

Em vários textos, que seguem em posts posteriores, Marx adotou esta fórmula (generalização na escala nacional do cooperativismo com recursos públicos), com pequenos variações.

Blanc era deísta, cristão e espiritualista. Foi sempre amigo de Vitor Hugo e os dois sempre conciliaram a fé em Deus e a defesa de modelos de socialismo com liberdades, democracia, economia mista etc.

Blanc, no primeiro volume da sua “Historia da Revolução”, ao citar Jansenius, escreve, na linha católica: “como ler sem indignação e sem terror, no Dicionário do jansenismo, as máximas que precisam, que resumem o espirito da seita? “Jesus Cristo não morreu mais para a salvação dos que não foram eleitos, do que morreu para a salvação do Diabo”. “Deus pode, antes da previsão do pecado original predestinar uns e reprovar os outros… Tudo isso é arbitrário em Deus». – «Deus fez, pela sua vontade, esta terrível diferença entre os eleitos e os réprobos”. – «Só Deus faz- tudo em nós”. – e o homem criminoso, sem o auxilio da graça, vive numa necessidade de pecar”.

Estes textos de Blanc e repetem literalmente ecoam as críticas dos jesuítas e dos Papas contra os jansenistas.

Mostram que parte dos iluministas, ligados a Rousseau e a Diderot, coincidiam com os jesuítas, na crítica aos jansenistas, que tinham uma concepção profundamente pessimista sobre a pessoa.

Os Papas, os jesuítas, Rousseau e parte dos maçons consideravam que a natureza é naturalmente boa, com a ressalva que os jesuítas apontavam que estava decaída, sujeita à tentações, e a natureza humana está destinada a melhorar, deve ser recuperada e elevada (renovava), tal como o resto do universo, que também deve ser renovado com nossa participação (trabalho cooperativo), pelo plano participativo e cooperativo de Deus.

Aloísio Teixeira, no livro “Utópicos, heréticos e malditos” (Editora Record, RJ, 2002, pp. 196-228) traz alguns bons textos muitos cristãos e católicos de Louis Blanc:

Organização do Trabalho (1839) –Louis Blanc

“Pois, para cada indigente que empalidece de fome, há um rico que empalidece de medo. “Não sei,” diz a srta. Wardour ao velho mendigo que a havia salvo, “o que meu pai tem a intenção de fazer por nosso libertador, mas, muito certamente, ele vos colocará ao abrigo da necessidade pelo resto de vossa vida. Enquanto esperais, tomai essa bagatela.” “Para que eu seja roubado e assassinado alguma noite, indo de uma aldeia para outra”, responde o mendigo, “ou para que viva sempre com medo de sê-lo, o que não é melhor! Ei! Se me vêem com um talão de cheques, quem seria louco a ponto de me dar uma esmola?”

“Admirável diálogo! Walter Scott aqui não é mais um romancista: é um filósofo, um publicista. Entre o cego que ouve ressoar na tigela de seu cão o óbolo implorado e o poderoso rei que se lamenta do dote recusado a seu filho, quem é mais feliz?

Mas será que o que é verdadeiro no plano das idéias filosóficas deixará de sê-lo no plano das idéias econômicas? Ah! Graças a Deus, não há para as sociedades nem progresso parcial nem queda parcial. Toda a sociedade se eleva ou toda a sociedade regride. São as leis da justiça melhor compreendidas? Todas as condições sociais saem ganhando. Recaem no obscurantismo as nações onde há justiça? Todas as condições sociais saem perdendo. Uma nação na qual uma classe é oprimida assemelha-se a um homem que tem uma ferida na perna: a perna doente impede a perna sadia de fazer qualquer exercício. Por isso, por mais paradoxal que essa proposição pos­sa parecer, opressores e oprimidos ganharão igualmente se a opressão for eliminada; e perdem igualmente se ela for mantida.

“Querem uma prova gritante? A burguesia estabeleceu sua dominação com base na concorrência ilimitada, que é um princípio de tirania. Muito bem! É pela concorrência ilimitada que vemos hoje a burguesia perecer. Por exemplo: se tenho dois milhões e meu rival apenas um, eu o arruinarei, com toda a certeza, no campo aberto da indústria e com o exército dos preços baixos. Homem débil e insensato! Não compreendeis que amanhã, armando-se contra vós com vossas próprias armas, algum impiedoso Rothschild vos arruinará? Tereis então cara para vos lastimar? Nesse abominável sistema de lutas cotidianas, a indústria média devora a pequena indústria. Vitória de Pirro! Porque ela será devorada por sua vez pela grande indústria, a qual, ela mesma, obrigada a perseguir até a extremidade do globo consumidores desconhecidos, participará em breve apenas de um jogo de azar que, como todos os jogos de azar, acabará para uns em ladroeira, para outros em sui­cídio. A tirania não é somente odiosa, ela é estúpida. Não há inteligência onde não há entranhas.

“Provemos então:

1. Que a concorrência é para o povo um sistema de extermínio;

2. Que a concorrência é para a burguesia causa de crescente empobreci­mento e ruína.

“Feita essa demonstração, ficará claro que todos os interesses são soli­dários e que uma reforma social é para todos os membros da sociedade, sem exceção, um caminho de salvação. (pp. 196-198). (…)

“De que maneira poder-se-ia, a nosso ver, organizar o trabalho

O governo seria considerado como regulador da produção e investido, para cumprir sua tarefa, de grande poder.

“Essa tarefa consistiria em se servir da própria arma da concorrência para fazer desaparecer a concorrência.

“O governo levantaria um empréstimo, cujo montante seria destinado à criação de fábricas sociais nos ramos mais importantes da indústria na­cional.

“Exigindo essa criação recursos consideráveis, o número de fábricas original seria rigorosamente circunscrito; mas, em virtude de sua própria organização, como se verá mais adiante, seriam dotadas de uma força de expansão imensa [esta parte é cópia quase completa de Buchez…].

“Sendo o governo considerado o único fundador das fábricas sociais, se­ria ele quem redigiria seus estatutos. Essa redação, debatida e votada pela representação nacional, teria forma e força de lei.

“Seriam convocados para trabalhar nas fábricas sociais, com a ajuda do capital primitivamente reunido para a compra dos instrumentos de traba­lho, todos os operários que apresentassem provas de moralidade.

“Como a educação falsa e anti-social dada à atual geração não permite que se busque outro motivo de emulação e de encorajamento que não um aumento de retribuição, as diferenças salariais seriam graduadas segundo uma hierarquia de funções, devendo uma educação inteiramente nova sobre esse ponto mudar as idéias e os costumes. Não é preciso dizer que o salá­rio deveria, em qualquer caso, ser amplamente suficiente para a existên­cia do trabalhador.

“No primeiro ano após o estabelecimento das fábricas sociais, o gover­no regularia a hierarquia das funções. Depois do primeiro ano, já não se­ria mais assim. Os trabalhadores, tendo tido tempo para se conhecer mutuamente, e estando todos igualmente interessados, como vai se ver, no sucesso da associação, a hierarquia seria estabelecida por eleição.

“Far-se-ia todos os anos a conta do resultado líquido, que seria dividido em três partes: uma seria repartida em porções iguais entre os membros da associação; outra seria destinada a: 1) Assistência aos idosos, aos doentes e aos acidentados; 2) Minimização das crises que ocorreriam em outras indústrias, devendo todas as indústrias ajudar-se e socorrer-se; 3) E, enfim, o fornecimento de instrumentos de trabalho aos que quisessem fazer parte da associação, de tal modo que ela pudesse ampliar-se indefinidamente.

Em cada uma dessas associações [COOPERATIVAS], formadas nas indústrias que podem operar em grande escala, poderiam ser admitidas pessoas que exercem profissões que sua própria natureza obriga a se dispersar e a se localizar. Assim, cada fábrica social poderia ser composta de profissões diversas, agrupadas em torno de uma grande indústria, partes diferentes de um mesmo todo, obedecendo às mesmas leis e participando das mesmas vantagens.

“Cada membro da fábrica social teria o direito de dispor de seu salário da maneira que lhe conviesse; mas a evidente economia e a incontestável excelência da vida em comum não tardariam a fazer nascer da associação dos trabalhos a voluntária associação das necessidades e dos prazeres.

“Os capitalistas seriam chamados para a associação e lhes tocariam os juros do capital por eles adiantado, juros esses que lhes seriam orçamentariamente garantidos; mas não participariam dos lucros a não ser como trabalhadores.

“Uma vez organizada a fábrica social de acordo com esses princípios, pode-se prever o que daí resultaria. Em qualquer indústria capital, a de máquinas, por exemplo, ou a da seda, ou a do algodão, ou na estamparia, haveria uma fábrica social fazendo concorrência à indústria privada. Seria uma luta prolongada? Não, porque a fábrica social teria, em relação a qual­quer fábrica individual, a vantagem que resulta das economias da vida em comum e de um modo de organização em que todos os trabalhadores, sem exceção, estariam interessados em produzir rápido e bem.

“Seria uma luta subversiva? Não, porque o governo seria sempre capaz de amortecer os efeitos negativos, impedindo a queda a um nível muito baixo dos produ­tos provenientes de suas fábricas. Hoje em dia, quando um indivíduo extremamente rico entra em luta com outros menos abastados, essa luta desigual é necessariamente desastrosa, já que um particular não busca senão o seu interesse pessoal; se ele pode vender duas vezes mais barato que seus concorrentes para arruiná-los e ficar senhor do campo de bata­lha, ele o faz. Mas quando, em lugar desse particular, encontra-se o pró­prio poder, a questão muda de aspecto.

“Terá o poder, esse que desejamos, qualquer interesse em arrasar a in­dústria, em abalar todas as existências? Não será ele, por sua própria natureza e posição, o protetor natural, mesmo daqueles contra os quais, com a finalidade de transformar a sociedade, moverá uma santa concorrência?

“Portanto, entre a guerra industrial que um grande capitalista declara hoje em dia a um pequeno capitalista, e a que o poder declararia, em nosso sis­tema, ao indivíduo, não há comparação possível. A primeira consagra necessariamente a fraude, a violência e todas as infelicidades que a iniqüidade carrega em seus flancos; a segunda seria conduzida sem brutalidade, sem abalos e de modo a atingir apenas a sua finalidade, a absorção sucessiva e pacífica das fábricas individuais pelas fábricas sociais.

“Assim, em lugar de ser, como todo grande capitalista hoje em dia, o senhor e o tirano do merca­do, o governo seria apenas o regulador. Servir-se-ia da arma da concorrên­cia, não para destroçar violentamente a indústria particular, no que estaria acima de tudo interessado em evitar, mas para levá-la mansamente à com­posição. Rapidamente, com efeito, em todos os ramos industriais em que se estabelecesse uma fábrica social, ver-se-ia acorrer para essa fábrica, pelas vantagens que ofereceria aos societários, trabalhadores e capitalistas.

“Ao final de um certo tempo, ver-se-ia produzir, sem usurpação, sem injustiça, sem desastres irreparáveis e em benefício do princípio da asso­ciação, o fenômeno que, atualmente, se produz tão deploravelmente e por força da tirania, em proveito do egoísmo pessoal.

“Um industrial muito rico pode, atualmente, dar um grande golpe em seus rivais e deixá-los mortos na arena, monopolizando todo um ramo da indústria. Em nosso sistema, o Estado tornar-se-ia senhor da indústria pouco a pouco e, em lugar de monopólio, teríamos, como resultado do êxito, obtido o contrário da con­corrência: a associação.

“Suponhamos atingido o objetivo em um ramo particular da indústria; suponhamos, por exemplo, os fabricantes de máquinas postos a serviço do Estado, isto é, submetidos aos princípios do regulamento comum.

“Como uma mesma indústria não opera sempre no mesmo lugar, se ela tiver di­versos núcleos, será possível estabelecer, entre todas as fábricas perten­centes ao mesmo gênero industrial, o sistema de associação estabelecido em cada fábrica isolada.

“Porque seria absurdo, após ter liquidado a con­corrência entre indivíduos, deixá-la subsistir entre corporações. Haveria portanto, em cada esfera de trabalho que o governo chegasse a dominar, um estabelecimento central ao qual se ligariam todos os demais, na qua­lidade de estabelecimentos suplementares.

“Assim como o Sr. Rothschild possui, não apenas na França, mas em diversos países do mundo, casas que se correspondem com aquela em que está fixada a sede principal de seus negócios, da mesma forma cada indústria teria uma sede principal e sucursais. Daí, não haverá mais concorrência. Entre os diversos centros de produção pertencentes à mesma indústria, o interesse seria comum, a hostilidade ruinosa dos esforços seria substituída por sua convergência.

“Não insistirei mais na simplicidade desse mecanismo; ela é evidente. Observai, com efeito, que, como cada fábrica tornar-se-ia auto-suficiente, após o primeiro ano, o governo limitar-se-ia a supervisionar a manutenção das relações entre todos os centros de produção do mesmo gênero e a impedir a violação dos princípios do regulamento comum.

“Não seria como hoje, em que o serviço público se apresenta cem vezes mais complicado. Imaginai-vos por um instante em um estado de coisas em que seja permi­tido a cada um encarregar-se do transporte das cartas, e figurai-vos o go­verno dizendo subitamente: “Somente eu farei o serviço dos correios!” Quantas objeções!

“Como poderia o governo fazer chegar corretamente, na hora marcada, tudo o que 34 milhões de pessoas podem escrever todos os dias, a cada minuto do dia, para 34 milhões de pessoas? E, no entanto, fora algumas infidelidades que decorrem menos da natureza do mecanis­mo que da má constituição dos poderes que tivemos até agora, sabe-se com que maravilhosa precisão o serviço dos correios é feito. Não falo de nossa ordem administrativa e da engrenagem de todos os aspectos que exige. Vede, no entanto, qual é a regularidade do movimento dessa imen­sa máquina!

“O modo de organização à base de divisões e subdivisões faz, como se diz, marchar em passo único todo um mecanismo aparentemente tão complicado. Como! Fazer agir em conjunto os trabalhadores seria de­clarado impossível em um país onde se via, há pouco mais de vinte anos, um homem animar com sua vontade, fazer viver com a sua vida, fazer marchar no passo certo um milhão de homens! É verdade que se tratava de destruir.

“Mas será que está na natureza das coisas, na vontade de Deus, no destino providencial das sociedades que produzir em conjunto seja impossível, enquanto é tão fácil destruir em conjunto? Ademais, as obje­ções formuladas a partir das dificuldades de aplicação não poderiam aqui ser consideradas sérias, repito-o. Pede-se ao Estado que faça, com os re­cursos imensos e de todo gênero que possui, o que vemos fazer hoje em dia simples particulares. (pp. 219-223). (…)

“Façamos um resumo. Uma revolução social deve ser tentada:

1. Porque a atual ordem social é cheia de iniqüidades, de misérias, de torpezas, para poder subsistir por muito tempo;

2. Porque não há ninguém que não tenha interesse, qualquer que seja sua posição, sua classe, sua fortuna, no estabelecimento de uma nova ordem social;

3. Enfim, porque é possível, e até fácil, realizar essa revolução pacifica­mente.

“No mundo novo em que ela nos faria entrar, ainda haveria talvez algu­ma coisa a fazer para a realização completa do princípio da fraternidade. Mas, pelo menos, estaria tudo preparado para essa realização, que seria obra da educação. A humanidade tem estado muito afastada de sua finali­dade para que nos seja dado atingi-la em um dia. A civilização corruptora da qual sofremos ainda o jugo confundiu todos os espíritos e envenenou as fontes da inteligência humana. A iniqüidade tornou-se justiça; a menti­ra tornou-se verdade; e os homens vêm-se entredevorando em meio às trevas.

“Muitas idéias falsas devem ser destruídas; elas desaparecerão, não devemos duvidar. Chegará, assim, o dia, por exemplo, em que será reco­nhecido que, quem recebeu de Deus mais força ou mais inteligência, deve mais a seus semelhantes. Será então um gênio, constatando, o que é dig­no dele, seu legítimo poder não pela importância do tributo que imporá à sociedade, mas pela grandeza dos serviços que lhe prestará. Porque não é para a desigualdade de direitos que a desigualdade de talentos deve con­duzir, e sim para a desigualdade de deveres” (p. 228).

Estas idéias de Louis Blanc eram cristãs, PERFEITAMENTE CATÓLICAS. 

Suas obras deveriam ser resgatadas nas CEBs e nos textos da teologia da libertação. Mostram claramente as fontes cristãs do socialismo.

Na Primeira Internacional já existiam militantes teístas, religiosos

Na Primeira Internacional, existiam militantes teístas. Os marxistas eram minoria. Alguns militantes teístas: G. Harris e Boon.

Estes dois eram “dois membros ingleses do Conselho Geral”, da “seita do defunto Bronterre O´Brien” (texto tirado de carta de Marx a Friedrich Bolte, em 23.11.1871).

James O´Brien Bronterre (1802-1864) foi dos cartistas IRLANDESES, que dirigiu o jornal “The Poor Man´s Guardian” (“O Guardião dos homens pobres”, dos “pobres”), em Londres, onde defendia as ideias católicas socialistas de William Cobbett.

A maior parte dos sindicalistas da Inglaterra, na Internacional, eram pessoas com religiosidade.

O movimento irlandês foi a principal base dos Cartistas, de 1836 a 1848, retomando a luta da Insurreição irlandesa de 1758. A Primeira Internacional se inspirava principalmente na luta dos Cartistas e, nestes, a presença irlandesa-católica era extremamente forte. 

O apreço católico pelo católico William Cobbett está presente sempre. Eu mesmo tenho o livro do católico G. K. Chesterton, “La vie de William Cobbett”, editado em 1929, na França, pela Livraria Gallimard, traduzido por Marcel Agobert.

O principal ponto do Programa da Primeira Internacional era basicamente católico, a fórmula de Buchez, acolhida por Lassalle, no primeiro Partido operário da Alemanha, como reconheceu expressamente Marx, no livro “Crítica ao programa de Gotha”.

O principal ponto era a fórmula de Buchez, apoio estatal às cooperativas, expressa inclusive no esboço de programa para o Congresso da Primeira Internacional, em Moguncia, em 14.07.1870, o Quinto Congresso Geral.

Marx defendia a criação de “Bancos nacionais”, em vez de “bancos de emissões” de moeda privados, para a criação nacional de cooperativas. Estes “bancos nacionais” dariam “condições para a produção cooperativa em escala nacional”. Isso, junto com medidas como “abolir a Dívida Pública” (ponto baseado em William Cobbett, outro católico), substituiriam o capitalismo por um modo de produção cooperativo. Este esboço foi aprovado pelo Conselho Geral, em 12.07.1870. 

 

O padre Ferdinando Galiani, outro precursor católico de Marx e do marxismo, autor de parte das ideias de Marx

O padre Ferdinando Galiani, napolitano, também atacou duramente os erros capitalistas dos fisiocratas (no livro “Diálogos sobre o comércio de grãos”, 1770) e foi muito citado por Marx, inclusive no livro “Contribuição à crítica da economia política”.

Voltaire também elogiou o livro de Galiani, escrevendo “L’homme aux quarante écus” (“O homem com quarenta escudos”), uma sátira aos fisiocratas onde um banqueiro rico (sem terras, mas com muito dinheiro) ri de um agricultor pobre, com apenas 40 escudos, que paga impostos, estando o banqueiro isento.

Os fisiocratas defendiam um sistema tributário com um imposto único sobre a renda da terra, de acordo com os interesses dos capitalistas e ainda combatiam todas as formas de intervenção estatal na economia.

Marx citou também o grande católico Antônio Genovesi (1712-1769), um teólogo italiano inimigo dos erros dos fisiocratas. São algumas das fontes cristãs das idéias de Marx, que facilitam o diálogo.

Marx transcreveu, pelo menos, oito textos de Galiani, no Livro I, de “O capital”.

Marx aprendeu muito com os textos do padre Galiani, citados nos “Grundrisse”. Por exemplo, Marx citou o livro “Da Moeda”, do padre Galiani, escrevendo:

…este autor expressa já um conceito acertado do valor: “a fadiga (…) é a única que dá valor às coisas”. Distingue também qualitativamente o trabalho, não somente distinguindo entre diferentes ramos da produção, senão também entre trabalho mais ou menos intenso etc. (…) Se supera assim a diferença qualitativa e o produto de um tipo mais elevado [de trabalho] se reduz de fato a uma quantidade de trabalho simples. (…) Os metais…são usados como moedas porque valem…., não valem porque são usados como moedas” [Il metalliusansi per moneta perché vagliono…, non vagliono perché usansi per moneta]. 

É a velocidade do giro do dinheiro, não a quantidade dos metais, o que faz que o dinheiro seja muito ou pouco [É la velocità del giro del denaro, non la quantità, che fa apparir molto o poco il denaro]. (…)

Uma formosa frase de Galiani:

Esse infinito que (as coisas) não alcançam em sua progressão, o alcançam na circulação (no giro)”.

Falando do valor de uso, diz Galiani, de forma muito bela [correta]:

O preço das coisas é uma relação [ragione, proporção]…o preço é a proporção entre as mesmas e nossas necessidades, e não tem ainda medida fixa. Talvez a medida será encontrada ainda. Eu, por mim, creio que é [a medida] o homem mesmo. (…) De fato, (o homem) é a única e verdadeira riqueza”[ è l’única e vera richezza]. “A riqueza é uma relação entre duas pessoas” [La richezza e una ragione tra due persone”].

De Galiani, Marx aprendeu várias coisas importantíssimas, que em manuais estalinistas aparecem como criações isoladas de Marx (no fundo, toda criação são novas sínteses).

O estudo das fontes de Marx é importantíssimo, pois revela as fontes cristãs de seu pensamento, facilitando, assim, o diálogo entre católicos e marxistas, e a ação conjunta contra o capitalismo.

As frases do padre Galiani – o homem é a “única e verdadeira riqueza” e “a riqueza é uma relação” – mostram que as riquezas (o capital e o latifúndio) são relações sociais de opressão dos trabalhadores.

O ponto mais importante foi Galiani ter escrito que não há medida fixa para os preços das coisas e que a medida é o próprio homem (ou seja, as necessidades das pessoas, os bens que necessitam para uma vida digna).

Galiani retirou esta idéia de Aristóteles e dos textos da Bíblia e dos Santos Padres.

Significa que os bens devem atender às necessidades das pessoas e, por isso, estão sujeitos à soberania (estima comum) da sociedade. Os preços (os valores das coisas), tal como todos os bens e o controle sobre os mesmos, devem ser fixados pela estima comum (como ensinou São Tomás de Aquino), pela sociedade organizada, por formas consensuais, estatais, planejamento público participativo, socialismo participativo.

Estima comum significa soberania da sociedade, consenso popular (que é também a base real da fé cristã e da democracia), ou seja, acordos (planos consensuais) entre as pessoas, visando atender às necessidades de todos e, assim, a destinação universal dos bens. Significam planos, formas de planejamento participativo, com o primado do bem comum e do trabalho.

Estas idéias contêm, implicitamente, as bases teóricas de um modo de produção com base em unidades de produção geridas pelos trabalhadores com formas de planejamento participativo, tendo como finalidade o bem comum (obter condições de vida dignas para todos, como dizia explicitamente João XXIII).

O católico Simão Nicolas Henri Linguet foi outra fonte católica de Karl Marx, do marxismo

Marx aprendeu muito sobre o ordenamento jurídico positivo burguês (com base no direito real quiritário, liberal) lendo as obras de um católico chamado Simão Nicolas Henri Linguet (1736-1794).

O livro de Linguet, “Teoria das leis civis ou princípios fundamentais da sociedade”, 1767, foi elogiadíssimo por Marx (que também elogiava os livros do abade Galiani).

Linguet defendia uma forma de despotismo asiático (o modo de produção asiático), um amplo Estado, com base comunitária, dizendo que o sistema capitalista é que era despótico por reduzir os trabalhadores a uma situação de total dependência.

Linguet criticou corretamente os erros capitalistas dos fisiocratas (os primeiros ideólogos do capitalismo).

Segundo Marx, no livro “Teorias sobre a mais valia” (o último livro de “O capital”, organizado por Kautsky), “Linguet viu bem a essência da produção capitalista”.

Linguet “não” era “certamente socialista”, mas “sua polêmica (…) contra a dominação burguesa” era excelente.

Em 1865, Marx reconheceu (e o mesmo sempre foi econômico em elogios) que “a Teoria das leis civis é, não obstante, um livro verdadeiramente genial”.Marx, na carta a J. B. Schweitzer, em 24.01.1865, escreveu que o livro de Linguet é “uma obra genial”.

Marx citou seu precursor, no Livro I, de “O capital”, pelo menos cinco vezes, transcrevendo duas vezes a frase de Linguet: “o espírito das leis é a propriedade”.

Linguet atacou a propriedade capitalista e defendeu a teoria católica do domínio eminente da sociedade (a propriedade universal do Estado, que representaria a sociedade), criticando a usurpação praticada pelos ricos da propriedade comum (dos bens, destinados a todos).

Linguet criticou “as leis civis” capitalistas (com base na propriedade quiritária), pois estas tinham como finalidade consagrar uma primeira usurpação a fim de prevenir outras novas usurpações, sendo uma salvaguarda do rico contra os ataques do pobre.

Enfim, este digno precursor de Marx achava que as leis civis burguesas (com base na propriedade quiritária, na propriedade burguesa), seriam “uma conspiração contra a parte mais numerosa do gênero humano”.

William Cobbett, grande católico, precursor de Marx. Marx o chamou de “maior escritor político da Inglaterra deste século”.

O mecanismo torpe da dívida pública é baseado na usura, em juros absurdos pagos pelo Estado aos capitalistas.

O mecanismo torpíssimo e genocida da dívida pública foi criticado de forma magistral por Cobbett, um jornalista católico muito respeitado por Marx, como pode ser lido em “O capital”.

Marx escreveu, numa nota de rodapé do livro “Contribuição à crítica da economia política” (1857), que William Cobbett (1763-1835) foi “o maior escritor político inglês do século”.

No livro “Teorias sobre la plusvalia” (vol. II, Fondo de Cultura Economica, México, 1987, p. 102), ao dissertar sobre a história da lei ricardiana, Marx repetiu o juízo sobre Cobbett: “…o maior escritor político da Inglaterra deste século”).

O Vaticano, em vários documentos, denunciou uma “dívida que assumiu proporções tais que se torna praticamente impossível o seu pagamento” e pediu o cancelamento destas dívidas, especialmente no Jubileu do ano 2000.

Cobbett foi precursor dos cartistas, lutando pelo sufrágio universal e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Cobbett também denunciou também o imperialismo (no livro “Perish commerce”, “Pereça o comércio”, em 1806), inspirado no livro de William Spence.

Os textos de Cobbett influenciaram Karl Marx, sendo uma das fontes cristãs do marxismo.

Fichte, outro precursor cristão do socialismo

O socialismo de Estado (e também as idéias socialistas de Marx) tem fontes hegelianas, em Fichte, Schelling e outros autores cristãos.

Hegel considerava que o Estado é o Espírito que se realiza no mundo com consciência de si, é o poder da razão e da ética. Os textos de Hegel sobre economia são baseados principalmente em James Steuart, cameralista, colbertista. 

Esta noção ampliada sobre o Estado tem base também nos textos de Fichte, especialmente no livro “O Estado comercial fechado”, de 1800.

Fichte defendia idéias muito cristãs, especialmente que o Estado (de fato, a sociedade, usando principalmente o Estado) deve dar a cada pessoa o que é lhe é devido, dar os bens necessários e proteger as pessoas.

Fichte ensinava que o “fim de toda a atividade humana é viver, e todos o que a natureza introduziu na vida têm igual direito a poder viver”. Enquanto houver pessoas com necessidades, o luxo e o supérfluo não devem existir.

Fichte ensinava ótimas lições como: “Todos têm o direito de comer e de possuir uma casa antes de alguém ter habitações luxuosas; todos devem ser vestidos cômoda e satisfatoriamente antes que alguém tenha o direito de se vestir com magnificência”.

Fichte defendia um Estado racional, com fortes barreiras alfandegárias e com amplos controles estatais.

Anton Menger, no livro “Direito ao produto integral”, reconheceu Fichte como um precursor do socialismo. De fato, Fichte influenciou Bruno Bauer, Rodbertus, Lassalle, Moses Hess e outros. Os escritos de Fichte adotam fundamentos religiosos e socialistas e é outro precursor pré-marxista do socialismo.

Na própria Trier, cidade natal de Marx, há um precursor cristão socialista, pré marxista

Ludwig Gall foi um precursor de Marx, exercendo influência sobre o mesmo, quando era adolescente.

Gall foi para Trevès (Trier, em alemão), a cidade natal de Marx, em 1816, antes de Marx nascer. Marx nasceu em 1818. Trevès tinha, no máximo, quinze mil habitantes, sendo a cidade mais antiga da Alemanha (tinha o nome “Augusta Treverorum”, no império romano) e era a cidade que tinha mais igrejas, quase todas católicas.

Dos 15.000 habitantes, a maioria era católica, com apenas 200 protestantes e algumas famílias hebraicas (especialmente a de Marx, que tradicionalmente ocupava os cargos de rabinos).

Gall trabalhou como funcionário público, de 1816 a 1819, ocupando inclusive o cargo de secretário do Conselho de Trier.

Gall escreveu então várias obras, de 1820 a 1835, defendendo os operários e recomendando a formação de cooperativas industriais e agrícolas. Em 1834, publicou o livro “Classes privilegiadas e classes trabalhadoras”.

Gall era cristão, defendia uma síntese entre Fourier e sansimonismo, dois ramos socialistas com raízes religiosas. Basicamente, a síntese que Marx mesmo tentou fazer. 

O termo “socialismo” nasceu do socialismo cristão, PRÉ-MARXISTA, antes de Marx

Pierre Leroux usou o termo “socialismo”, um neologismo, lá por 1834, para se opor ao termo “individualismo”, capitalismo, usando esta palavra nova, no artigo “De l’individualisme e du socialisme”, na Revue encyclopedique.

No fundo, este autor seguia a linha bíblia, de Morus, Morelly, Mably, Bonneville, do padre Claude Fauchet, Bispo Gregoire, padre Jacques Roux, de Babeuf e de outros precursores CRISTÃOS, quase todos CATÓLICOS, do socialismo. Desta forma, inspirou Georges Sand, Flora Tristan e o padre Jacques Pillot.

Pierre Leroux, um cristão católico sansimoniano, é considerado como o primeiro a usar o termo “socialismo” na França (no artigo “Do individualismo e do socialismo”, publicado na “Revista enciclopédica”, em 1834, sobre o qual escreveu anos depois: “fui eu o primeiro que usou a palavra socialismo. Era então um neologismo necessário. Forjei esta palavra em oposição ao individualismo”.

O artigo de Ch. Gruenberg (“A origem das palavras socialismo e socialista”, publicado na “Revue d’histoire des doctrines économiques”, 1908, p. 289), no entanto, lembra que o pastor Vinet, em 1831, usava o termo socialismo em um sentido religioso e aplicado aos sansimonianos.

Leroux escreveu um livro sobre as origens democráticas da Igreja, que deveria ser reeditado, pela atualidade.

Jean Touchard, na obra “História das idéias políticas” (editado pela Publicações Europa-América, 1959), tem um bom texto sobre Pierre Leroux:

Pierre Leroux e a religião da humanidade.

“Mais ainda do que Buchez, Pierre Leroux (1797-1871) é o homem das vastas sínteses. Como Buchez, ele passa pelo sansimonismo (que deixa em 1831) e, como ele também, invoca comovidamente as recordações da Convenção e dá mesmo a entender que nasceu em 1793: “Nasci no tempo em que a Convenção lutava contra o negociantismo”, escreve ele, no ano de 1846, em Malthus et les économistesFala igualmente do “verdadeiro cristianismo” e “destas duas grandes coisas: o Evangelho e a Revo­lução”.

“Pierre Leroux foi muito admirado em vida. O católico Lamartine afirmava que as obras de Pierre Leroux seriam lidas um dia como se lê o Con­trato Social.

“George Sand declarava-se um pálido reflexo de Pierre Leroux.

“Renan, nos seus Souvenirs d’ enfance et de jeunesse, põe em destaque a sedução que exercia Pierre Leroux sobre os alunos do semin­ário católico de Saint-Sulpice.

“As suas obras principais, De l’humanité, De l’égalité, Du christianisme et de son origine démocratique, Malthus et les économistes, La grève de Samarez, etc., interessam muito para o conhecimento da época.

“Segundo Pierre Leroux, que inventou o termo, o socialismo tem por missão “fazer concordar, por meio duma síntese verdadeira, a liberdade, a fraternidade e a igualdade”. Liga portanto, também, o socialismo à Revolução Francesa.

“Já em 1832, ele preconiza “a dou­trina da Revolução Francesa, a doutrina da igualdade organizada”.

“Em 1833, no número de Outubro-Dezembro da Revue encyclopédique, escreve: “A luta atual dos proletários contra a burguesia é a batalha daqueles que não possuem os instrumentos de trabalho contra aqueles que os possuem.”

“O pensamento de Pierre Leroux é acima de tudo religioso: “Eu sou crente”, compraz-se ele em repetir, e no seu livro La carrosse de M. Aguado (1848) não hesita em escrever: “Jesus é o maior dos economistas, e não existe verdadeira ciência econômica fora da sua dou­trina.”

“A democracia é para Pierre Leroux uma religião.

“Pensa que o sistema representativo deve ser, não uma representação da realidade, mas uma “representação do Ideal”. Isso leva-o a elaborar, em 1848, um projeto de Constituição dos mais estranhos, em que as instituições parlamentares refletem o mistério da Trindade.

“As passagens estra­nhas não são raras, de resto, em Pierre Leroux, quanto mais não fosse a sua teoria acerca do princípio de continuidade e a utilização do estrume humano…”

Benoit Malon, na obra “O socialismo integral, historia das theorias e tendências geraes” ( do Instituto Geral das Artes Gráficas, Lisboa, 1899, pp. 105-106) escreveu sobre Leroux:

A palavra socialismo foi criada (…) por Pedro Leroux, para ser oposta (conforme este mesmo escritor nol’o ensina na Gréve de Samaraz) ao individualismo que começava a ter curso. L. Reybaud, na sua obra famosa: “Os Reformadores contemporâneos”, adaptou o neologismo de Pedro Leroux e popularizou-o tão depressa e tão bem que foi acreditado como seu autor”.

Meu comentário – Pierre Leroux foi elogiado por Marx em seus primeiros escritos, desde 1842. Ele e a maioria dos socialistas pré-marxistas eram socialistas religiosos, como mais tarde Victor Hugo e outros.

Leroux era lido nos seminários e a religiosidade engajada do mesmo (especialmente no livro “Do cristianismo e de sua origem democrática”) influenciou até mesmos latino-americanos. Foi Leroux quem espalhou o termo “socialismo” na França, o que também prova a tese deste blog, sobre as fontes religiosas do socialismo.

Leroux escreveu, em 1833, quando Marx tinha apenas 15 anos: “a luta atual dos proletários contra a burgueia é a luta dos que não possuem os instrumentos de produção contra os que os possuem” (retirado do livro de Garaudy, “Rumo a uma guerra santa?”, da Jorge Zahar Editor,1995). Leroux foi amigo de Lamennais, sendo os dois amigos de George Sand.

O padre Fernando Bastos de Ávila escreveu um livro sobre o socialismo antes de Marx, socialismo pré-marxista, onde menciona os precursores socialistas cristãos, demonstrando parte do que é exposto neste blog. O marxismo foi uma síntese, formada por várias idéias antes expostas e divulgadas por pensadores cristãos (Hegel, Leroux, Fourier, os socialistas ricardianos que se inspiravam em fontes religiosas, Saint-Simon, Owen, Considérant, Pecqueuer, Ludwig Gall e outros).

Frederico Engels, em vários livros e textos, elogiou o cristianismo

Frederico Engels, no texto “Estudo sobre o cristianismo primitivo” (de 1884), escreveu que as revoluções camponesas, na Idade Média, eram movidas pelo cristianismo primitivo, ou seja, a religião nem sempre é “ópio” do povo. Só é ópio quando o integrismo ou fundamentalismo (controle do grande capital sobre parte do Clero) tem ação.

Engels, no estudo “O livro do Apocalipse”, repetiu a frase de Renan que dizia que quem quisesse ter uma idéia das primeiras comunidades cristãs, bastaria ver as seções locais da Internacional. Engels comentou a frase de Renan: “isto é correto. O cristianismo apoderou-se das massas, tal como o faz o socialismo (….). O cristianismo, como todo movimento revolucionário, foi estabelecido pelas massas”. Notar a frase – “o cristianismo, como todo movimento revolucionário, foi estabelecido pelas massas”.

Lenin também reconheceu que o cristianismo primitivo era democrático e “revolucionário”. Idem para Rosa de Luxemburgo, em seu bom livro sobre a religião e o socialismo. 

O mesmo Frederico Engels, no pequeno livro “Sobre a história do cristianismo primitivo”, reconheceu que “a história do cristianismo primitivo tem notáveis semelhanças com o movimento moderno da classe operária”.

Ainda Engels, no livro “Bruno Bauer e o cristianismo primitivo” (de 1882), repetiu basicamente a mesma frase, pois considerou corretamente o cristianismo primitivo como “o primeiro protesto universal do homem contra a opressão universalizada”.

O mesmo Engels, numa carta escrita de Londres, escreve: “Podemos observar na Inglaterra que uma classe social se encontra tanto mais na ponta do progresso e com um futuro tanto maior, quanto mais baixa sua escala social, mais inculta no sentido corrente do termo. Essa é uma constante de qualquer época revolucionária, que se manifesta especialmente na revolução religiosa da qual o cristianismo foi produto: ‘bem-aventurados os pobres’, ‘a sabedoria deste mundo se fez loucura’”.

Engels, numa carta a Marx, após a publicação de “O Capital”, se refere a Cristo e diz “nosso velho amigo Jesus” dizia “sejam espertos como a serpente e bons como a pomba”. Com base nesta frase de Cristo, Engels publicou cartas de crítica ao livro “O capital”, para furar o bloqueio da mídia ao mesmo.

O maior parceiro de Marx, Engels, no livro “As guerras campesinas na Alemanha”, elogiou o cristianismo primitivo e disse que Thomas Münzer tinha uma “doutrina política” que “procede diretamente de seu pensamento religioso revolucionário”. Este capítulo (tal como vários textos de Engels transcritos neste blog) prova que Engels admitia que o pensamento religioso pode ser revolucionário, ou seja, que nem sempre a religião é um “ópio do povo”.

O ecumenismo e o pluralismo, no prisma religioso e no campo da esquerda, são as melhores pontes, que podem gerar um poder popular que garanta ao povo a efetiva soberania (e o domínio eminente) sobre os próprios movimentos, os recursos naturais etc.

O próprio Pio X escreveu: “a Igreja, (…), difundiu a civilização, (…) conservando e aperfeiçoando os bons elementos das antigas civilizações pagãs”, ou seja, com ecumenismo (catolicidade, universalismo), que deve ser adotado pelas e com as correntes socialistas.

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