Arquivos para : A “Fórmula” – JAURES, economia mista, socialismo democrático, pacificista, gradualista, religioso, com difusão de pequena propriedade de bens

Jaures, socialista religoso, queria coletivismo com difusão maciça da pequena propriedade pessoal

Jaurés, porta voz, na França, do socialismo democrático, lá pro 1894, escrevia:

“Se somos coletivistas, é porque o coletivismo, muito longe de destruir a propriedade individual, no que tem de legítima, é, hoje, o único meio de, não só de estendê-la, mas de universalizá-la. Defenderemos a pequena propriedade aldeã que realiza a ideia socialista, pela união da propriedade e do trabalho”.

Jaures foi assassinado pela direita. 

O padre Antoine S. J. escrevia sobre os possibilistas e a defesa da pequena propriedade rural:

“desde 1892, a palavra de ordem do socialismo internacional é fazer propaganda ativa nos campos. Para isso, promete aos aldeãos a eliminação da grande propriedade em proveito do pequeno e do médio cultivo. Isto é o que foi decidido nos Congressos de Marselha (1892), de Roubaix, de Paris, de Auxerre e de Zurique (1893). Atualmente, o projeto de imposto sobre a renda, apresentado pelo Ministério Radical, excetua do imposto todas as rendas de 2.500 francos para baixo, quer dizer, a maioria dos cultivadores proprietários”.

Lacordaire, em vários textos, já fazia a distinção entre “socialismo ateu” (destruição de toda religião e toda propriedade privada), e “socialismo cristão”, que queria a difusão de bens, estatais, bem comum, “melhoria da situação física e mordal do maior número de pessoas” etc. .

O Populismo católico é o mesmo que o Socialismo democrático católico, ou Trabalhismo

O “populismo” católico, exposto pelo padre Francisco Olgiatti defendia a democratização de todas as estruturas econômicas, culturais e no Estado

Monsenhor Francisco Olgiatti teve o mérito de escrever uma biografia de Karl Marx em 1919.

A biografia de Marx, deste padre, foi a segunda biografia, pois a primeira foi redigida por Franz Mehring (1846-1919) em 1918, sendo as duas quase simultâneas.

Na biografia, Olgiatti soube reconhecer os méritos de Marx.

Consegui adquirir a segunda edição, de 1920, com o prefácio de Frei Agostino Gemelli (“Carlo Marx”, Milano, Ed. Società Editrice Vita e Pensiero, 1920), e a leitura vale a pena.

Frei Agustin Gemelli (n. 1880) foi um dos líderes do tomismo na Itália, tendo elaborado boa síntese do tomismo com as idéias da psicologia experimental.

Olgiatti foi um sacerdote próximo ao círculo mais interno do Vaticano. Suas idéias refletem, assim, algumas idéias presentes no Vaticano. Ele defendia um modelo de democracia participativa, bem próximo dos melhores textos do populismo russo, americano, tal como dos radicais etc.

O livro de Olgiatti, “A questão social” (Rio de Janeiro, Ed. Fides Brasileiae/Gráfica Sfreddo, 1939), foi impresso no Brasil com a recomendação do Cardeal Leme e com amplos elogios de grandes leigos como Felício dos Santos (positivista republicano que se converteu e foi um grande leigo).

Com a recomendação do Cardeal Leme (vide, a propósito, a bela biografia deste cardeal, redigida por Alceu) e o apoio de Felício dos Santos, é óbvio que a doutrina social foi endossada pela cúpula da Igreja, no Vaticano e no Brasil, pois o Cardeal Leme não se mexia sem o aval do Vaticano. Vejamos abaixo o “programa” de Olgiatti.

Na parte programática (sobre “o futuro”), Olgiatti expunha os pontos programáticos referentes ao setor agrícola e urbano. Na parte sobre a área agrícola, Olgiatii defendia a reforma agrária, defendendo o controle camponês sobre a terra, através de “cooperativas entre camponeses, os quais assumem diretamente a gestão do negócio, mediante administração coletiva, integrada pela forma cooperativa, para aquisições e vendas coletivas”. O MST concordaria.

Na parte sobre a indústria, Olgiatti recomendava a “participação nos lucros”, a ampliação da legislação trabalhista e securitária e “a administração direta das fábricas, assumidas sob a sua responsabilidade por cooperativas de produção e de trabalho, isto é, por grupos de trabalhadores que sejam os proprietários dos meios de produção e recebam inteiramente o fruto do seu trabalho”.

Em suma, Olgiatti defendia a fórmula de Buchez, de difusão do cooperativismo, de transformação das unidades produtivas capitalistas em unidades cooperativas, com planejamento estatal participativo. As estatais também teriam co-gestão.

Olgiatti transcreve, na p. 242, um trecho do Manifesto do Episcopado católico dos EUA (pró-Roosevelt), com o seguinte texto: “Acreditamos, olhando para o futuro, que mudanças sejam necessárias na nossa ordem social, mudanças que chegarão até à abolição do sistema de salários”.

Estas idéias estavam presentes também em Sismondi (um grande economista cristão), tal como estavam também nas idéias dos dois Mirabeau.

O próprio Marx citou, nos textos sobre a acumulação originária do capital, “Mirabeau, o leão da Revolução”, onde este ataca “as grandes manufaturas, em que centenas de operários trabalham” para enriquecer “prodigiosamente a um ou mais empresários”.

Mirabeau (o pai, principalmente, mais também, um pouco, o filho, que era assessorado por padres Jesuítas) defendia o campesinato (as pequenas granjas), os artesãos e pequenos burgueses, considerando os latifúndios e os grandes manufatureiros (grandes capitalistas) como exploradores.

Marx descreveu bem este processo de acumulação: “as grandes manufaturas, assim como as grandes granjas [latifúndios], formaram-se unindo muitos pequenos centros de produção e expropriando muitos pequenos produtores independentes”.

Ao lado de Mirabeau filho, que teve imenso papel na revolução francesa, estava o padre jesuíta Cerutti, com grande atuação ao lado do Leão e que rezou missa fúnebre na morte do Leão.

Este apreço por meios de produção pequenos controlados pelos trabalhadores faz parte da tradição cristã, como destacou Alceu Amoroso Lima em inúmeros textos e tem, no bojo do apreço, o ponto programático que os trabalhadores devem controlar os meios de produção, a natureza, e serem os beneficiários da produção.

Olgiatti também defendia a “Sociedade das Nações” (precursora da ONU), como queria Bento XV, “cessados todo o imperialismo cobiçoso e a mútua concorrência fratricida, causa de guerras e de conflitos, se proceda ao desarmamento geral, em terra e em mar”; uma “legislação internacional do trabalho” (sobre remuneração do trabalho, horas de trabalho, sábado inglês–não trabalhar nem nos sábados e nem nos domingos; nascida de “congressos internacionais, representando das classes organizadas de cada nação”. Queria um Estado dirigente, planificador, mas controlado pelos trabalhadores, organizados em extensa organização sindical-profissional.

Leão XIII, na encíclica ao povo francês, em 08.09.1899, já adotava o populismo, exortando a

Ides ao povo, aos operários, aos indigentes. Procurai ajudá-los, por todos os meios, suavizar-lhes a sorte, moralizá-los. Neste intuito, realizai reuniões e Congressos, fundais patronatos, círculos, caixas rurais… É, ainda, com esta finalidade que vós escreveis livros ou artigos nos jornais e nas revistas periódicas”.

Pio XI, na “Divini Redemptoris”, também usou o antigo lema dos populistas, da linha de Sturzo:

“Aos Sacerdotes. É oportuno ir ao povo.

Em todas as coisas deste gênero, que tão estreitamente ligam os interesses da Igreja e do povo cristão, se vê qual deve ser a atitude dos que exercem funções sagradas e quão variados frutos será capaz de produzir a sua doutrina, prudência e caridade. Que é oportuno ir ao povo e freqüentá-lo salutarmente, acomodando-lhe ao tempo e às circunstâncias. Nós o afirmamos mais de uma vez falando a membros do clero. Mais vezes ainda, por cartas dirigidas, durante estes últimos anos, a Bispos e a outras pessoas de caráter sagrado (Ao geral dos Frades Menores, 25 de Novembro de 1898), louvamos essa providência afetuosa para com o povo e dissemos que ela convinha tanto ao clero regular, como ao secular”.

Conclusão: Leão XIII e até Pio X usaram expressões semelhantes, deixando claro que o populismo é a linha anticapitalista da Igreja. A linha da ação católica (cf. Leão XIII), de fazer tudo girar em prol do bem do povo.

Outras raízes históricas do Socialismo democrático católico, da Democracia Popular

Renouvier e outros elos entre o catolicismo e o socialismo democrático e participativo

Entre os elos entre católicos, socialistas democráticos e radicais há também a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República. Esta nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também quase todos os expoentes do socialismo de cátedra.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais e corporativas sejam por si sós insuficientes” etc.

Buchez, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, um César Cantu, na Itália, são bons exemplos do papel progressista dos católicos no século XIX.

Renouvier (expoente do neo-criticismo, o que mostra como Kant, teísta, também reaproximou o socialismo da religião) deixou obras importantes como “Manual republicano do homem e do cidadão” (1848), “Ucronia” e “O personalismo”.

Esta última obra praticamente o relaciona com Mounier, mostrando o elo correto das idéias de Renouvier com as idéias da militância católica.

O personalismo de Mounier é um desdobramento do personalismo de Renouvier e tem inúmeros pontos em comum com o radicalismo, especialmente no apreço pela democracia socialista. O mesmo vale para a corrente do existencialismo cristão.

Autores como Léon Bourgeois (1851-1925), em livros excelentes como “Solidarismo” (1896), também são evidências claras da ligação entre católicos e radicais.

O movimento solidarista, em busca de uma democracia popular sócio-econômica e política, brotou de católicos e de radicais, gerando, lá por 1926, na França, uma boa síntese e aliança implícita, inclusive com a condenação da “Ação Francesa”.

Pio XI condenou o movimento de Charles de Maurras (1868-1952) e isso foi decisivo para a Igreja. Herriot, socialista e católico, foi uma das pontes desta aliança, graças à atuação de João XXIII, que era Núncio em Paris.

Outro escritor neste campo democrata e cristão é Charles Secrétan (1815-1895), autor de obras como “A filosofia de Leibnitz” (1840); “A filosofia da liberdade” (1848); “Teologia e religião” (1883) e “Estudos sociais” (1888).

Secrétan seguiu os passos do católico Franz Baader, que influenciou o marxismo, e destacava a importância da liberdade, da razão, da caridade e da justiça, especialmente no livro “A razão e o cristianismo” (1863).

Há, nesta linha de opiniões, outros milhares de escritores. Por exemplo, Charles Bois, Recolin, Célestin Bouglé (1870-1940, autor do livro “O solidarismo”, 1907), Fleurant (“A solidariedade”, 1907) e ainda a Escola Católica com Cláudio Janet.

Também há o cooperativismo cristão de Charles Gide e outras correntes semelhantes.

O velho Comte também escreveu: “nascemos carregados de obrigações de toda espécie para com a sociedade”, expressando o conteúdo da linha sansimoniana e cristã, pois estas são as raízes católicas do contismo, em seus melhores textos.

O partido radical-socialista, na França, foi organizado em 1901, quase simultaneamente ao Partido Trabalhista inglês, com base num socialismo cristão.

No entanto, esta tendência existia como tendência desde os anos 80 do século XIX e, no fundo, era um desdobramento do socialismo cristão pré marxista, de 1820 em diante.

O partido radical representava principalmente os interesses do campesinato, da pequena e média burguesia e de partes do proletariado (enfim, do povo) e governou a França por vários anos, aproximando-se aos poucos das posições da Igreja.

Isso preparou os movimentos de síntese e de alianças entre catolicismo e socialismo democrático, após a Segunda Guerra, nos anos 60, 70 e 80. Este impulso diminuiu com a ofensiva neoliberal nos anos 90, com a queda do socialismo na Rússia, mas foi retomado a partir de 1999.

O radicalismo gerou uma forma de solidarismo, próxima do solidarismo católico e cristão, preparando uma base de socialismo democrático de fundo cristão. Basta considerar Leon Bourgeois e no bom juiz Magnaud. Esta tendência é praticamente idêntica ao solidarismo de Pesch.

No Brasil, nesta linha, houve o padre Fernando Bastos de Ávila, que ressaltou que o solidarismo é a democracia plena, na esfera econômica, política, cultural etc e tem praticamente o mesmo âmbito do socialismo democrático.

Na França, houve também o solidarismo de Leon Duguit, com o culto ao bem comum como finalidade do Estado e da sociedade, que foi um jurista bem apreciado na URSS e com fundamentação cristã.

Nestes movimentos, já estava esboçado a renovação da ligação do socialismo com a religião, ligação esta que está nas origens do socialismo (especialmente no socialismo utópico), o socialismo pré-marxista, cristão.

Em Portugal, a reconciliação entre democracia, socialismo e nacionalismo fica patente nas obras do velho Eça de Queiroz. Suas últimas obras são religiosas e pró-socialismo, pró-democracia social e pró-catolicismo.

No solidarismo de Antônio Sérgio em Portugal, há a mesma marca, presente também nos textos de Antero de Quental, de Oliveira Martins e de outros escritores socialistas e religiosos.

Na Espanha, basta considerar Eduardo Sanz y Escartín, que defendeu reformas sociais favoráveis aos operários, colonização interior (reforma agrária, como explicava Brizola), municipalização de serviços públicos, seguros sociais obrigatórios etc. Escartín deixou boas obras como “A questão econômica” (1890) ou “O Estado e a reforma social” (1896).

Conclusão: a ligação entre cristianismo, democracia, socialismo utópico, nacionalismo, solidarismo, cooperativismo, sindicalismo e outros movimentos mostram que há um fundo subjacente comum, um fundo jusnaturalista, bem antigo, com raízes no melhor da Paidéia e do melhor das idéias hebraicas.

A corrente jusnaturalista (que ensina que o direito real nasce da consciência social) movimenta-se subjacente ao movimento histórico, nas entranhas deste. Como ideal histórico, explicita-se, aflorando na maior parte do movimento literário e na cultura popular.

O jusnaturalismo é natural ao ser humano, tendo, também, base nas idéias hebraicas e no melhor do pensamento antigo (grego, romano etc, na “Paidéia”, cf. Werner Jaeger).

A Paidéia foi conservada e ampliada, em suas concepções jurídicas e políticas da Igreja (como exemplo, basta pensar no direito romano, codificado por Justiniano, um imperador católico, sendo exaltado por Rousseau).

Estas concepções foram, mais tarde, cristalizadas no que se convencionou chamar de “doutrina social da Igreja”, que tem amplas ligações e muitíssimos pontos comuns com a teologia da libertação.

O movimento da Democracia popular, socialista democrático, é pré marxista, tendo inclusive inspirado Marx, em vários pontos

O movimento democrático-cristão de Buchez, Ozanam, Tocqueville, dos poloneses e irlandeses, de Montalembert, Lacordaire e outros é um dos elos precursores da Teologia da libertação

Marx transcreveu de forma apreciativa, num artigo de 11.07.1856 (publicado no jornal “New York Daily Tribune”), um extenso texto do grande expoente católico, Montalembert, onde este denunciava o regime autoritário de Napoleão III.

Segundo Montalembert, no trecho transcrito por Marx, Napoleão III tinha “sufocado toda a vida política” da França. E ainda, a “grande nação francesa não podia entregar-se ao sonho, à passividade”, pois “a vida política” estava sendo substituída “pela febre da especulação, pela avidez da ganância, pelo afã do jogo”.

Montalembert atacava a especulação da Bolsa, dos monopólios privados, males que Vogelsang também denunciou ardentemente depois.

Montalembert dizia que a França apodrecia e “a verdadeira causa deste mal consiste em que se feito dormitar na França todo espírito político”. Em 1840, Montalembert denunciava o trabalho das crianças nas manufaturas. Marx, ao transcrever Montalembert, como que assina embaixo nas críticas ao governo de Napoleão III.

Numa carta a Engels, em 25.09.1869, Marx menciona o grande Bispo católico, Dom Ketteler:

Eles, como, por exemplo, o bispo Ketteler, de Magúncia, os sacerdotes reunidos no Congresso em Dusseldorf etc., são simpáticos à questão trabalhista em todos os lugares onde lhes é possível sê-lo. Em 1848, trabalhamos em seu favor. Eles são os únicos que se têm beneficiado durante a restauração dos frutos da revolução”.

As idéias de Montalembert influenciaram vários políticos ligados a esquerda do Partido Liberal no Brasil (inclusive Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e outros), ao Partido Progressista e, mais tarde, ao Partido Republicano, na ala católica.

Montalembert, no discurso no congresso de Malines, na “Assembléia geral dos católicos belgas”, em 1863, elogiou o progresso da democracia e ressaltou que a “liberdade de consciência” tem base bíblica, na negativa de obediência às leis iníquas, como ensinaram os Profetas, Cristo, os Apóstolos e os Mártires da Igreja. Montalembert elogiou a liberdade política, civil e de consciência.

Lacordaire, Montalembert, o padre Augusto José Afonso Gratry (1805-1872, com idéias próximas de Rosmini), Dupanloup, Foisset e outros representaram o partido democrata-católico de 1857 a 1870, que é a mesma linha de Alceu, da Teologia da libertação etc.

O padre Gratry escreveu obras como o “Curso de filosofia” 91855), “A moral e a lei da história” (1868), “Do conhecimento de Deus” e “Lógica”.

O padre Gratry saudou a Revolução Francesa como uma “renovação da face do mundo, na justiça, na verdade e na liberdade”. Gratry influenciou Blondel, especialmente pela obra “A moral e a lei da história” (1874).

Montalembert era um dos principais líderes dos melhores militantes leigos da Igreja na França e as palavras acima de Marx são como que um elogio indireto a esta corrente.

Montalembert escreveu obras como “Pio IX e a França de 1848 e 1859” (1861) e “A Igreja livre no Estado livre” (1863). Este último livro foi a base teórica principal da luta de Cavour (1810-1861). Cavour, Primeiro-ministro do Piemonte, usava como “lema” o título do livro de Montalembert, adotando também os textos de Rosmini e de Gioberti (elogiados até por Tobias Barreto).

Estes católicos defendiam o progresso, a liberdade e a justiça social, continuando os ideais de Lamennais, Buchez e do grande católico, William Cobbett (um inglês que elogiava a Igreja e que escreveu obras como “Papel contra ouro; ou, a história e o mistério do Banco da Inglaterra, da dívida”, em 1828).

Outras estrelas católicas: Ozanam ou Charles François Chevé (1813-1865, diretor do jornal “Voz do povo” e aliado de Proudhon) e outros autores ligados ao romantismo cristão. Por exemplo, Chevé, que militava ao lado de Proudhon, se denominava socialista ao modo dos Santos Padres e escreveu o livro “O reino de Cristo”.

O grande Simonde de Sismondi (1773-1824), que é a fonte de uma boa parte do movimento socialista do século XIX, escreveu o livro “Novos princípios de economia política”, que foi amplamente citado por Marx, Rodbertus e outros.

Sismondi era profundamente cristão e foi apreciado inclusive pelo Visconde de Cairu. Marcuse, no livro “Razão e revolução” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1978, p. 307), também elogiou Sismondi por ter elaborado “a primeira crítica imanente radical do capitalismo” e por ter colocado a “nu os mecanismos do capitalismo industrail nascente” que produziam a miséria.

Para Sismondi, “todas as formas de organização social” existiam (no sentido de tinham o dever) de “satisfazer as necessidades humanas” e, com base nesta premissa, como apontou Marcuse, ele criticou o capitalismo.

Sismondi foi chamado por Marx de “economista romântico” e foi considerado por Lênin como a base do romantismo econômico e do populismo. No fundo, são constatações indiretas de Marx e de Lênin sobre as bases cristãs do romantismo e do populismo, tal como da crítica cristã ao capitalismo.

Friso que o romantismo e o populismo eram movimentos cristãos, católicos principalmente, e precederam o marxismo, como pode ser visto nos textos de Lenin, sobre o Populismo Russo e dos EUA, que tinham lideranças cristãs, como Zheliabov e outros.

Proudhon tinha respeito pela “escola de Buchez e Ott, representantes modernos da democracia cristã” e redigiu bons textos sobre o cristianismo primitivo e sobre a Bíblia. Em suas primeiras obras, Proudhon era panteísta (bem religioso, especialmente no livro sobre a propriedade, que Marx elogiava muito).

Depois, Proudhon adotou uma filosofia que ele mesmo descreveu no livro “Da justiça na revolução e na Igreja”: Deus “é a personificação do Equilíbrio Universal: Deus é o Arquiteto” e, “na ordem moral, Ele é a Justiça“, dirigindo o processo histórico com nossa participação.

Nestas idéias, há elementos hebraicos e cristãos corretos, junto com uma ganga de erros maniqueístas, em parte presentes na maçonaria heterodoxa, como veremos mais adiante.

A maçonaria mais tradicional é jusnaturalista e teísta, seguindo idéias da Paidéia, do judaísmo e do cristianismo.

Durante o século XIX houve uma corrente romântica e eclética que teve maioria no Brasil e na Europa, baseado numa síntese entre cristianismo e democracia.

Victor Cousin (1792-1867), um dos principais formuladores da escola eclética, numa linha paralela com Hegel, de quem era correspondente, num discurso na Câmara dos Pares, na França, em 21.04.1844, ressaltou que esta corrente baseava-se “nas grandes verdades naturais que pertencem ao senso comum, que formam o patrimônio da razão humana”, base da “verdadeira moral pública e privada”.

Cousin, em 1856, enviou uma carta ao Papa, ressaltando que sua filosofia era compatível com o catolicismo e morreu católico.

No livro “Fragmentos filosóficos”, Cousin escreveu que “as verdades estão ao alcance de todos, o senso comum as possui em sua consciência espontânea, sem necessidade de qualquer ciência especial: a única coisa que distingue o filósofo das outras pessoas é que ele descobre no que consiste a consciência através da introspecção”, enquanto o outro distingue as mesmas verdades essenciais sem tanta reflexão e elaboração, de forma mais rude. Enfim, há uma “fé natural e permanente do gênero humano” com base na “razão natural”.

Na mesma linha de Cousin, do ecletismo, houve autores como Emilio Castelar, Jules Simon (1814-1896, autor de obras como “O dever”, “Deus, pátria, liberdade” e “A religião natural”), Sully Prudhomme e outros.

Jules Simon foi discípulo e continuador de Victor Cousin, o grande eclético, tendo sido deputado de 1848 a 1850, Senador de 1876 a 1877 e ainda ocupou outros cargos.

Estes e outros autores foram a base do solidarismo, do socialismo democrático, da Terceira República, possibilismo etc. Esta é a base e raiz do socialismo de Jaurès, que fazia questão de dar ao filho um ensino religioso, e que era teísta.

Na linha da defesa dos poderes da razão, antes de Cousin, houve o pastor Richard Price (1723-1791), secretário particular de Sherburne (primeiro-ministro da Inglaterra).

Price, num discurso em 04.11.1789, elogiado por Thomas Paine, no início de seu livro “Direitos do homem” (1792), ensinava que o Direito cristão (anglicano e católico) inglês, desde a Carta Magna de 1215 e da Revolução Gloriosa de 1688, reconhece o direito do povo de eleger os governantes. Da mesma forma, o direito de cassá-los por má conduta (tirania) e de moldar o governo para que sirva ao bem comum, sirva a sociedade.

Price era unitário, uma corrente próxima ao catolicismo, na valorização da razão e da natureza humana, contra os erros jansenistas e calvinistas. Era também jusnaturalista.

Conclusão: o movimento democrata cristão é a principal corrente política da democracia, pois os principais expoentes da democracia fundamentaram seu ideário político nas idéias de Jesus Cristo.

O socialismo democrático de Jean Jaures era pro economia mista, democrático, gradualista, com fundo religioso e humanista

Jean Jaurès foi um dos maiores socialistas franceses, sempre conservando uma base religiosa e democrática.

O ideal pró-socialismo de Mounier fica patente em obras como “O pensamento de Charles Péguy” e outras, bem próximo a Jaurès.

Péguy defendia um socialismo cristão, católico, bem próximo de Jean Jaurés, que era teísta e humanista. No fundo, democracia participativa e social e socialismo participativo, democrático e humanista são, de fato, sacos com a mesma farinha, o mesmo bom milho.

Há a mesma base democrática e humanista, de socialismo democrático, em autores como Benoit Malon, com religiosidade. Idem para Laveleye, ou Magalhães Lima, em Portugal. 

Obras como “O socialismo na Europa” de Magalhães Lima; “O socialismo integral” de Benoit Malon (discípulo do socialista religioso, Constantin Pecqueur); “História do socialismo”, de Jaurès; ou “O socialismo contemporâneo” de Emilio Laveleye eram recomendadas pelo Partido Socialista Brasileiro, de 1902, como pode ser lido no jornal “O Estado de São Paulo”, de 28.08.1902 (do livro de Edgar Carone, “Movimento operário no Brasil”, Rio de Janeiro, Difel, pp. 322-327).

Estas obras defendiam um socialismo democrático, economia mista, com fundamento democrático e religioso. 

Em 1894, Jaurès escreveu:

“Se somos coletivistas é porque o coletivismo, muito longe de destruir a propriedade individual no que tem de legítima, é, hoje, o único meio, não só de estende-la, senão de universalizá-la… Defenderemos a pequena propriedade aldeã que realiza a ideia socialista pela união da propriedade e do trabalho”.

No mesmo sentido, escreveu Vandervelde, na “Revue Socialiste”, de fevereiro de 1894, p. 130:

“A expropriação só se impõe, desde o ponto de vista do interesse social, nos ramos da indústria onde a concentração de capitais fez desaparecer a pequena propriedade fundada [baseada] no trabalho”.

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