Arquivos para : A “Fórmula” Alceu-Boff-Clement Isnard: A IGREJA PARTICIPATIVA POPULAR, c Estruturas COLEGIADAS-ELETIVAS. Leigos na hierarquia, cf. ALCEU. Ordenar casados e mulheres. LITURGIA POPULAR. CLERO nativo

O Brasil sempre teve uma parte do Clero ligada ao povo, a melhor parte do Clero

O livro “História do catolicismo no Brasil” (vol. 2, 1889-1945, Aparecida SP, Ed. Santuário, 2016, p. 239), mostra que a maior parte do Clero do Brasil sempre foi POPULAR-DEMOCRÁTICO E NACIONAL.

Por exemplo, no Levante da ANL, em 1935, a orientação de Prestes para o Nordeste era não atacar os padres “como tais”, sendo preciso “uma linha cuidadosa”,

“será preciso diferenciar, porque uma série de pequenos padres locais se manifesta pela ANL e muitos têm forte influência sobre a população religiosa e atrasada”.

Por isso, dentre os poucos Parlamentares presos, em 1935, um deles era DOMINGOS VELASCO, deputado católico, negro e socialista, de GO.

E outro era João Mangabeira, socialista cristão, cujo filho, Francisco Mangabeira, foi um dos expoentes do catolicismo socialista.

A parte do “clero pobre” seria aliada, pelos documentos apreendidos na casa da Rua Barão da Torre, em Ipanema, onde Prestes mantinha seus arquivos (que não foram destruídos por causa de Paul Gruber, infiltrado do Serviço Secreto inglês na Internacional).

O próprio Otávio Brandão, na correspondência internacional para a URSS, distingue entre a parte do Clero com “fartos haveres” da parte, maior, pobre.

Otávio Brandão, que era defensor de uma aliança vital entre proletariado e pequena burguesia e campesinato (micros e pequenos produtores, que a Igreja também defende, como mostrarei em várias postagens), acrescentava:

“Pelo contrário, há no Brasil uma camada de padres paupérrimos, que conservam uma TRADIÇÃO POPULAR-NACIONAL, DEMOCRÁTICA e mesmo REVOLUCIONÁRIA” .

O ecumenismo é intrínseco no Catolicismo e vale para nossa relação com todas as correntes de pensamento. O diálogo é a forma essencial da ação de Deus no mundo, e nossa forma de ação natural

O ecumenismo, o pluralismo e nossa relação com as correntes socialistas

Dom Hélder Câmara defendeu uma forma de socialismo humanista e o diálogo entre marxismo e cristianismo. Citou como exemplo a síntese feita por São Tomás de Aquino entre Aristóteles e o cristianismo na Idade Média, onde São Tomás assimila, com boas sínteses, tudo que há de bom em Aristóteles e dezenas de outros pensadores.

São Tomás efetuou boas sínteses, mostrando que os textos verdadeiros, mesmo de autores pagãos, são, por serem verdadeiros, coerentes com o cristianismo.

O diálogo tem como finalidade fundamental buscar a verdade nas idéias do interlocutor. Para isso, é vital buscar as fontes comuns e os pontos que unem (as semelhanças, as pontes).

O ecumenismo, o pluralismo, ou a construção de pontes ou sínteses, como dizia Alceu, é fundamental, pois um dos maiores pontos da comunhão (da união com Deus e com o próximo) é a comunicação entre as pessoas.

A importância do diálogo foi também destacada por Paulo Freire e pelo padre Henrique Vaz.

Ao tratar sobre o ecumenismo, é importante lembrar o bom exemplo do arcebispo Nathan Söderblom (1866-1931), que chefiou a Igreja luterana sueca e ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1930. Nathan foi o principal precursor do ecumenismo, junto com alguns católicos que cito mais adiante, especialmente o Cardeal Mercier, tendo organizado a Conferência de Estocolmo para a união das igrejas, em 1935.

O diálogo, com o necessário discernimento, é, hoje, a tarefa mais importante para liquidarmos as opressões, os erros e as mentiras (o capitalismo etc).

O discernimento dos programas era recomendado por Dom Ketteler, que, em dois excelentes textos (em1866 e em 1877), aborda e resolve a questão se um católico podia filiar-se e votar em partidos socialistas (o partido de Lassalle).

Ketteler respondeu que sim, mostrando que nos programas de vários socialistas de seu tempo muitas das reivindicações eram perfeitamente justas, de fundo cristão, a maior parte com origem católica, e eram também deveres sociais dos católicos, deveres exigidos pela fé vinda de Abraão, de Moisés e ampliada por Cristo.

Lassalle planejava, seguindo os passos de Buchez e Louis Blanc (como foi constatado por Marx, no texto “Crítica ao programa de Gotha”), substituir o trabalho assalariado pelo trabalho associado em formas cooperativas.

Lassalle, nos passos de Buchez, queria formar grandes cooperativas de produção com a proteção, o crédito, os recursos e a regulamentação do Estado (que seria controlado pelos trabalhadores, graças ao sufrágio universal, que Lassalle defendia na linha dos cartistas cristãos, pré marxistas, que ensinaram Marx).

Toda a economia –agricultura e indústria – seria gerida por cooperativas e pelo Estado controlado pelos trabalhadores. As cooperativas podem unir trabalhadores ou micros, pequenas e médias empresas familiares. 

Ketteler aprovou as linhas gerais deste programa, seguindo, assim, os passos de Buchez e Louis Blanc.

O diálogo foi sempre elogiado pela Igreja.

Em muitos documentos, a Igreja admitiu elementos salvíficos em religiões como o hinduísmo, o taoísmo, o budismo, o judaísmo (especialmente neste, que é a matriz fundamental do cristianismo), as religiões indígenas e outras.

O papel precursor (na inculturação) dos jesuítas, no Oriente, nas selvas amazônicas, no sul do Brasil, no Maranhão ou em São Paulo teve, neste sentido, muitos pontos positivos.

O diálogo foi considerado o meio principal de evangelização pelos grandes Santos Padres. Quando analisam a literatura grega e romana, “conversam” com os maiores filósofos, examinando os textos destes. A leitura das obras de Santo Agostinho, de Orígenes, de São Justino, de São Clemente, de Santo Ambrósio, de São Gregório de Nissa, de São João Crisóstomo, de S. Alberto Magno, de São Tomás de Aquino e outros grandes santos mostra a importância da busca da verdade, respeitando o que há de bom nas frases e nas idéias do próximo.

Afinal, Deus age na consciência de todos, em todo o mundo, inspirando e suscitando verdades salutíferas. E estas verdades, tal como a natureza humana, são a base fundamental da ação da graça (que não destrói a natureza e sim a eleva, conservando tudo o que há de bom na mesma).

Devemos dialogar com as pessoas que seguem as correntes históricas e atuais do socialismo.

O Bispo Martins Terra deu um bom exemplo, escrevendo o livro “Zeus, o Deus indo-europeu”, examinando os textos magníficos de Homero, Ésquilo, Sófocles, Platão, Cleantes e outros bons autores, demonstrando que a religiosidade grega tinha muitas sementes de verdades, muitas verdades salutíferas.

A Congregação para a Propagação da Fé, numa instrução aos missionários que partiam para a China, em 1659, especialmente jesuítas, escreveu frases que devem ser aplicadas em nosso relacionamento com os socialistas de todas as cores:

Não ponhais zelo nem vos apliqueis a convencer estes povos a mudar os seus ritos, os seus costumes e as suas tradições, a não ser que sejam evidentemente contrários à religião e à moral. Nada é mais absurdo do que transferir para junto dos chineses a França, a Espanha, a Itália ou qualquer outro país da Europa. Não deveis levar-lhes a cultura dos nossos países, mas a fé…Não procureis substituir os usos destes povos com os da Europa, e tende a maior solicitude possível em vos adaptar a eles”.

Todos os “costumes” e “tradições” do socialismo que não “sejam evidentemente contrários à religião e à moral” devem ser aceitos e cultivados, num saudável ecumenismo.

Este blog tenta melhorar nosso diálogo com os socialistas, ponto exigido pela teologia da libertação. S

egue também as estruturas de livros como o de Manfred Spieker, “Dialogo marxismo/cristianismo” (Editora Eunsa, Pamplona, Espanha, 1977), um livro escrito em alemão, que traz excelentes textos de Garaudy e outros escritores.

Garaudy, correspondente de Dom Hélder, escreveu dezenas de obras importantíssimas (mesmo as mais antigas, como “As fontes francesas do socialismo científico”, 1948, que apontam o socialismo cristão e utópico, pré-marxista, como precursor).

O padre Hans Küng foi um dos melhores especialistas em ecumenismo. Vejamos alguns de seus textos, extraídos do livro “Igreja católica” (editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pp. 163, 197, 201, 226-227 e 252):

Hoje sei que se teria chegado a um acordo sobre a questão da justificação, como afirmei em minha dissertação de doutoramento Justification (Justificação), em 1957, e como foi confirmado pelo documento de consenso produzido em 1999, após as conversações entre católicos-romanos e luteranos [Küng menciona um acordo sobre a graça entre católicos e luteranos, o que demonstra a importância do diálogo]. [p. 163] (…)

“Qual era a alternativa? Acima de tudo, o abade Henri-Baptiste Baptiste Grégoire trabalhou para uma reconciliação da igre­ja com a democracia no espírito dos ideais do cristianismo mais antigo; como bispo, ele era um líder espiritual da igreja constitucional. Mas esta alternativa não teve chance. Muitas das preocupações de Grégoire só seriam estabelecidas pelo Concílio Vaticano II.

“Desde então, pode-se também afirmar abertamente que “liberdade, igualdade e fraternidade” – há muito vilipendiadas – têm uma base no cristianismo primitivo – embora, como vimos, na igreja, isso fosse encoberto num estágio muito inicial com estruturas de poder hierárquicas.[p. 197] (…)

“No século XIX, sem dúvida houve um ressurgimento de forças religio­sas no clero e no laicato, entre as ordens religiosas, no movi­mento missionário, nas obras de caridade e na educação, e, especialmente, na devoção popular. As associações da igreja, com uma quantidade de iniciativas religiosas, sociais e indire­tamente políticas, eram típicas desse período, especialmente na Alemanha; a principal entre elas era a Associação do Povo Católico, de fato a maior associação católica do mundo. Desse modo, um importante movimento se desenvolveu no catolicismo alemão, particularmente sob a influência do bispo Wilhelm Emmanuel von Ketteler de Mainz. Este movimento fez da igreja a advogada dos pobres e das classes inferiores carentes. [p. 201]. (…)

“Com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica – apesar de todos os obstáculos e dificuldades colocados pelo sistema romano medieval – tentou implementar duas mudanças de paradigma de uma vez: integrou característi­cas fundamentais do paradigma da Reforma bem como do Iluminismo e da modernidade.

“Antes de mais nada, integrou o paradigma da Reforma. Foi reconhecida a cumplicidade católica na divisão da igreja, como o foi a necessidade de reforma constante. Ecclesia sem per reformada, a constante renovação da igreja na vida e na doutrina segundo o evangelho era agora a postura católica demais associações cristãs foram finalmente reconhecida como igrejas. Reclamou-se uma atitude ecumênica de toda a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, adotou-se uma série de preocupações centrais do evangelho, pelo menos em tese e muitas vezes também na prática: houve um novo res­peito pela Bíblia no culto, na teologia e na vida da igreja, como na vida de cada fiel em geral. Houve um culto autênti­co para as pessoas, em vernáculo, e uma celebração reforma­da da eucaristia relacionada com a comunidade. Houve uma revalorização do laicato através de conselhos paroquiais e diocesanos e a admissão dos leigos ao estudo da teologia. A igreja foi adaptada às condições nacionais e locais por uma ênfase na igreja local e nas conferências nacionais de bispos. Final­mente, houve uma reforma da devoção popular e uma abo­lição de muitas formas de devoção da Idade Média, do período barroco e do século XIX.

“Houve também uma integração do paradigma moder­no. Eis alguns princípios fundamentais. Houve uma clara afirmação de liberdade de religião e consciência e de direi tos humanos em geral, que havia sido condenada por Pio XII em 1953. Houve um reconhecimento fundamental de cumplicidade no anti-semitismo e uma inclinação positiva em relação ao judaísmo, do qual deriva o cristianismo. Mas houve também uma nova atitude construtiva em relação ao Islã e outras religiões mundiais. Reconheceu-se que, em princípio, a salvação também é possível fora do cristianis­mo, até para ateus e agnósticos, se eles agirem de acordo com sua consciência. Houve também uma atitude fundamentalmente positiva em relação ao progresso moderno, proscrito há muito, e ao mundo secular, à ciência e à demo­cracia em geral. [pp. 226 a 227]. (…)

“Entretanto, a pergunta “para onde está indo a Igreja Católica?” será entendida de modo equivocado como sen­do exclusivamente preocupação da igreja a menos que, ao mesmo tempo, se pense num outro problema abrangente: “para onde está indo a humanidade?” Aqui, para mim pes­soalmente, o caminho não é, digamos, “da igreja global para uma ética global”, mas “com a igreja mundial para uma ética global”.

É a busca de uma ética comum para a huma­nidade que pode ser apoiada por todas as igrejas e religiões – aliás, também por não-crentes. Nosso globo não pode so­breviver sem uma ética global, uma ética mundial.

“Portanto a Igreja Católica deve apoiar:

“– uma ordem mundial social: uma sociedade em que os seres humanos tenham direitos iguais, vivam em solidarie­dade uns com os outros e em que seja reduzido o abismo crescente entre ricos e pobres;

“– uma ordem mundial plural: uma diversidade recon­ciliada de culturas, tradições e povos na Europa, em que não haja lugar para anti-semitismo e xenofobia;

“– uma ordem mundial em parceria: uma renovada as­sociação de homens e mulheres na igreja e na sociedade, na qual, em todos os níveis, as mulheres tenham a mesma responsabilidade que os homens e na qual possam dar livremente a contribuição de seus talentos, insights, valo­res e experiências;

“– uma ordem mundial que promova a paz: uma socieda­de em que se dê apoio ao estabelecimento da paz e à solução pacífica de conflitos e uma comunidade de povos que contri­buam com solidariedade para o bem-estar dos outros;

“– uma ordem mundial que trate bem a natureza: uma associação dos seres humanos com todas as criaturas, na qual seus direitos e sua integridade também sejam observados;

“– uma ordem mundial ecumênica: uma comunidade que crie os pressupostos para uma paz entre as nações através de uma unidade de confissões e da paz entre as religiões”. [pp. 252-253].

Concordo.

E mais, a Igreja deve, também, a meu ver, lutar por uma democracia social (o velho nome do socialismo), por um socialismo participativo (democrático, comunitário, autogestionário, com o primado do trabalho e do bem comum), que concilie os direitos fundamentais de várias gerações (direitos civis, políticos, sociais, culturais, ambientais, econômicos etc).

A base fundamental deste socialismo humanista (participativo, distributista e comunitário) é o princípio da destinação universal dos bens e a soberania do povo (cf. a teoria da delegação de Suarez, de Santo Ambrósio e de outros).

No Brasil, mesmo a antiga Convergência Socialista (tendo seus militantes no PSTU, hoje) terminou por adotar a palavra de ordem “socialismo com democracia”, o que foi muito salutar. Infelizmente, na prática, o PSTU está longe de ser ecumênico (enfatiza muito o Trotskysmo como fonte teórica) e por isso não cresce, mas usou uma bela palavra de ordem. Pior ainda, o PSTU atacou Chavez, Cuba, Líbia, Iraque, Venezuela, sandinistas e em todos estes pontos, fez coro com o imperialismo, especialmente semeando ódio ao PT. Erros crassos e brutais, hiper burros. 

 Infelizmente, acredito que a CIA instiga ataques a políticas de frente amplas contra o imperialismo e o capitalismo, como ficou claro no episódio do Cabo Anselmo, Serra, FHC e outras pragas, infiltradas.

O comunismo tem muitas idéias corretas de origem bíblica. O padre José Porfírio Miranda apontou a influência da Bíblia em Marx e no socialismo. Enrique Dussel escreveu sobre o uso de metáforas religiosas por Marx. E um outro padre Affonso Urbano Thiesen S.J., no livro “A ética política de Lênine”(editado pelo Instituto de Filosofia da UFRS, em Porto Alegre, 1967), examina vários elementos (idéias) de religiosidade em Lênin.

Segundo Chesterton, em todo erro que cativa os corações há uma parte verdadeira, que deve ser separada, como o joio do trigo. Esta é a única forma de diálogo correta. O diálogo exige o reconhecimento das verdades contidas nas frases e no pensamento do interlocutor.

Os elementos revolucionários do cristianismo sempre foram hostilizados pelas classes dominantes. Por exemplo, as obras do padre Júlio Meinvielle (1905-1973) praticamente invertem a evolução da doutrina social da Igreja, distorcendo-a. Estes erros foram também disseminados por Gustavo Corção, em suas tristes obras do final da década de 60. Meinvielle escreveu: “De Lamennais a Maritain”(Ediciones Nuestro Tiempo, Buenos Aires 1945) e “De la Cábala al progresismo” (Editora Calchaquí, Salta 1970). Nestas obras, distorce e inverte a linha evolutiva correta do cristianismo na história. Distorções semelhantes estão na seita neoliberal da TPF e nos textos de Corção. Meinvielle, ligado à direita argentina, criticou Lamennais, Maritain, Sangnier e outros, o que demonstra o potencial revolucionário destas pessoas, que foram elos da doutrina social da Igreja e da teologia da libertação.

Carl Bernstein e Marco Politi, no livro “Sua Santidade João Paulo II e a história oculta e nosso tempo”(Editora Objetiva, 1996, 6ª. edição), mostra como estes elementos de verdade, contidos no comunismo, foram reconhecidos pelo Papa João Paulo II:

Quando o Papa viajou aos países bálticos livres no outubro de 1993, ele deixou estupefato o público em Riga ao declarar: – A exploração produzida pelo capitalismo desumano era um mal real e esse é o grão de verdade no marxismo.- Alguns meses depois, numa entrevista com Jas Gawronski, um deputado italiano do Parlamento Europeu que nasceu na Polônia, João Paulo II foi ainda mais longe:- Essas sementes de verdade no Marxismo não devem ser destruídas, não devem ser carregadas pelo vento. (…) Os adeptos do capitalismo em suas formas extremadas tendem a ignorar as coisas boas conseguidas pelo comunismo: seus esforços por superar o desemprego, suas preocupações com os pobres.

“Ao ouvir essa declaração, lá em Moscou, Gorbachev abriu um sorriso: – Muito interessante- disse ele a um amigo italiano. – Parece que o Papa está começando a compreender que há valores positivos no socialismo e que, aliás, continuarão sendo positivos no futuro”.

O texto do Concílio Vaticano II, “Nostra aetate”, número 2, mostra o bom ecumenismo: “a Igreja católica não rechaça nada do que nestas religiões há de santo e verdadeiro. Considera com sincero respeito os modos de agir e de viver, os preceitos e doutrinas que, (…), não poucas vezes refletem aspectos daquela Verdade que ilumina a todos os homens”. Este ecumenismo, aplicado às correntes socialistas, inspirou este blog.

O Bispo Martins Terra escreveu um livro denominado “Zeus, o Deus indo-europeu”, onde elogiou os aspectos de religiosidade dos antigos gregos e mostrou a correção destas idéias gregas sobre Deus e a ética. É importante fazer o mesmo com as correntes socialistas: mostrar as fontes religiosas destas correntes. Os Santos Padres apreciavam as idéias de Platão, Tito Lívio, Sêneca, Cícero, pois sabiam que Deus se comunica com a consciência de todas as pessoas (o movimento natural da consciência gera verdades, permite às pessoas “ver” Deus na natureza e nos atos cotidianos da vida) e não há dúvida que a consciência de Marx era procurada reiteradamente pelo Deus operário crucificado, que se encarnou para salvar a todos.

Os princípios de ecumenismo, expostos por Hans Küng, devem ser aplicados no diálogo com os socialistas, principalmente com o resgate das fontes comuns. As idéias de ecumenismo poderiam ser úteis no diálogo entre as correntes da esquerda.

As estruturas da Igreja devem ser populares, democráticas

As estruturas da sociedade e da Igreja devem ser POPULARES, participativas e democráticas

A estrutura das CEBs (Comunidades eclesiais de base) tenta resgatar e reimplantar a estrutura originária da Igreja.

Alceu Amoroso Lima destacou o exemplo de São Paulo organizando CEBs, como se fossem sovietes nos “mir” da antiga Rússia ou da Rússia soviética, ou seja, comunidades participativas de vidas (com a preponderância da subjetividade, da participação dos membros como sujeitos conscientes).

Roger Garaudy, no livro “Do anátema ao diálogo” (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1965, p. 63), transcreveu textos de Engels e Lênin reconhecendo “o espírito revolucionário democrático do cristianismo primitivo”:

Engels, em seus estudos sobre o cristianismo primitivo, não se enganou a respeito. Gilbert Mury, em um estudo sobre o Cristianismo Primitivo e o Mundo Moderno, assinalou adequadamente que Engels distinguia cla­ramente a “necessidade religiosa” (a fé) e a “filosofia de escola” (a ideologia) em seu artigo de 1892 sobre Bruno Bauer e o Cristianismo Primitivo.

“Analisando o cristianismo primitivo através do texto do Apocalipse, Engels mostra como ele foi elaborado com base em um protesto universal – embora impotente [NÃO FOI IMPOTENTE, FORAM SEMENTES]– contra uma exploração e uma opressão generalizadas.

“Engels fala de um como que “elemento revolucionário” da “fé des­tas primeiras comunidades belicosas que difere de modo absoluto da que surgiu com a Igreja triunfante poste­rior… – tudo que é posterior é acréscimo ocidental, greco-romano”.

Esta distinção é retomada muitas vezes no decorrer de sua demonstração: depois de ter evocado a fé primitiva do cristianismo apocalíptico como “necessidade exaltada e confusa”, diz ele ainda: “A elaboração definitiva dos dogmas e da moral é obra de um período posterior.” [NO PROCESSO HISTÓRICO, HOUVE ACLARAÇÕES, NUANCES, DETALHAMENTOS]

Lênin faz a mesma distinção quando fala, em “O Estado e a Revolução”, daqueles cristãos do século IV que esquecem “quando seu culto se torna re­ligião do Estado, o espírito revolucionário democrático do cristianismo primitivo” (“Obras”, vol. XXV, p. 454)”.

Cláudia Furiati, na obra “Fidel Castro – uma biografia consentida” (Ed. Revan, Rio de Janeiro, maio de 2003, pp. 674-675), traz um texto de Fidel Castro que é uma paráfrase dos textos de Engels sobre o cristianismo primitivo:

O Papa não pode ser considerado o anjo exterminador de socialismos, comunismos e revoluções. Ele é um permanente crítico da globalização neoliberal, um implacável adversário do neoliberalismo. E muito nos alegramos com isso”.

“No dia 21 de janeiro, Fidel caminhou até a escada do avião para recebê-lo. Preocupado com que nada lhe ocorresse, ia ao seu lado ajustando o passo como a resguardá-lo. Em uma bandeja levada por crianças, João Paulo II beijou mostras da terra de todos os rincões da Ilha. Fidel, em breve discurso em um palanque erguido no aeroporto, resgatou o tempo da primitiva Igreja e a esta associou a Revolução:

Somos um povo que se nega a submeter-se ao império da mais poderosa potência econômica, política e militar da História, muito mais que a antiga Roma. Como aqueles cristãos atrozmente caluniados para justificar crimes, nós, tão caluniados como eles, preferiremos mil vezes a morte a renunciar às nossas convicções.

(…) Que podemos oferecer-lhe em Cuba, Santidade? Um povo com menos desigualdades, menos cidadãos sem amparo… um povo instruído a quem o senhor pode falar com toda a liberdade que desejar… Não haverá nenhum país mais preparado para compreender a sua feliz idéia: de que a distribuição eqüitativa das riquezas e a solidariedade entre os homens e os povos devem ser globalizadas… Bem-vindo a Cuba!”

Para demonstrar como Fidel cultiva o diálogo e como é ecumênico, vale a pena ler Gabriel García Márquez. Este autor, no artigo “O sermão de Fidel Castro”, escreveu: “em certa ocasião, diante de um grupo de congressistas dos dois partidos, de homens de negócios e até de um oficial do Pentágono, fez um balanço muito realista de como seus antepassados galegos e seus professores jesuítas infundiram nele princípios morais que tinham sido muito úteis na formação de sua personalidade, e concluiu: “sou um cristão”.

Fidel Castro defendeu, desde 1971, uma aliança estratégica entre cristãos e marxistas para superar o capitalismo, o latifúndio e o imperialismo.

Lênin reconheceu, pelo texto acima (verifiquei numa edição soviética simples e não encontrei o trecho, ou seja, algum burocrata surrupiou o texto, talvez…rs), em sua obra mais importante “o espírito revolucionário democrático do cristianismo primitivo”.

De fato, o “acréscimo ocidental” e as idéias de origem grega e romana, tiveram boas contribuições (adequadas às idéias implícitas no pensamento hebreu e cristão), mas, também, trouxeram erros.

Um dos erros mais terríveis foi o direito de propriedade quiritário – absolutista, individualista e concentrador – que foi depois ressuscitado na Revolução Francesa, por influência dos fisiocratas e neoclássicos.

A DEMOCRATIZAÇÃO da Igreja é ESSENCIAL, para termos uma sociedade mais justa, condizente com o bem comum

A Igreja (tal como toda associação ou estrutura social) deve ser democrática, participativa, com capilaridade e organizada em comunidades participativas.

A mesma regra que vale para o sistema político, vale para o sistema econômico, e para a Igreja. 

As antigas paróquias tinham no máximo mil paroquianos. A capilarização da Igreja é ESSENCIAL, para ela estar presente em cada pedaço de vida humana. 

A Igreja deve ter diáconos e ministérios diversificados, Conselhos Deliberativos nas paróquias e nas dioceses e outras formas de participação dos leigos na gestão das estruturas eclesiais.

O ideal seria que a maior parte das Freiras se tornassem DIACONISAS. E eu não acho que teria nada de errado, parte delas virarem Sacerdotisas.

Lembro que há muito tempo a Igreja Católica tem PADRES CASADOS. Sempre houve PADRES CASADOS na parte da Igreja Católica no oriente, onde uma parte ligada aos Ortodoxos, aderiu a Roma. 

Lembro também que a Igreja Católica admite que os leigos católicos participem de MISSAS ortodoxas, ministradas por Sacerdotes ortodoxos casados, sendo a Missa perfeitamente válida.

Da mesma forma, os padres anglicanos que se tornam católicos, continuam anglicanos, anglicanos católicos, e continuam ministrando a Missa, como Padres Casados.

Da mesma forma, A Igreja admite, hoje, Diáconos casados, ora, Diáconos fazem parte do Clero, logo, a Igreja admite que parte do Clero seja de homens casados.

Basta ampliar a permissão, criando um Clero casado, ao lado de um Clero não-casado, opcional. 

Deve ser retomada a idéia antiga e tradicional da eleição dos Bispos e aperfeiçoado o Colégio de Cardeais (usam uma faixa na cintura, um chapéu chamado solidéu, meias, batinas e mantas de sede, tudo de cor vermelha, entre escarlate e carmesim, simbolizando a disposição de derramar o sangue), ampliando a participação dos leigos na escolha dos Papas, na gestão dos bens da Igreja e no processo decisório.

Neste sentido, vejamos um documento dos Bispos da França:

Com essa finalidade, por um lado, a Igreja da França empreendeu profundas revisões de seus funcionamentos e até mesmo reformas estruturais importantes, mediante a constituição dos conselhos de presbíteros [sacerdotes], dos conselhos diocesanos de pastoral, dos conselhos pastorais de paróquias e de setores. Por outro, verdadeiros cargos eclesiais são agora confiados a leigos, no domínio da catequese, da animação litúrgica e espiritual, sem esquecer as responsabilidades financeiras e administrativas.

“Muita coisa resta ainda por fazer para encontrar formas de organização, de consulta e de tomada de decisão adaptadas à natureza e à missão da Igreja. Todas as dioceses estão empenhadas nisto, freqüentemente graças ao impulso dado por numerosos sínodos” [texto retirado do livro de Pierre Debergé, “Ética do poder”, Paulinas, 2002, que cita o livro de Claude Dagens, “Proposer la foi dans la societé actuelle”, Paris, Cerf, 1996].

No fundo, o principal é “encontrar formas de organização, (…) de tomada de decisão” com ampla participação, democráticas (afinal, o poder e os bens foram dado por Deus ao povo, cf. Suarez e outros). “Formas de organização” são, no fundo, “formas jurídicas” de relações sociais (econômicas, políticas etc).

A propriedade (tal como o poder), como foi visto por Marx, é uma relação social (uma relação de produção), uma forma jurídica para o controle dos bens e a autodeterminação da sociedade.

Exigir que a sociedade se autodetermine (pela difusão dos bens, inclusive o controle e o poder político) vale, assim, para as estruturas da Igreja e do Estado, tal como para todas as relações (produtivas etc) e estruturas sociais.

Mesmo na Idade Média, nos escritos de Papas centralizadores (como Inocêncio III e Bonifácio VIII) havia a máxima “aquilo que diz respeito a todos deve ser discutido e aprovado por todos” (quod omnes tangit, ab omnibus tractari et approbari debet), como pode ser visto no livro “Ética do poder”, de Pierre Debergé (editado pelas Paulinas, em 2002).

Segundo os melhores teólogos, a forma de escolha (eleição) dos Papa é variável, pode ser alterada.

A escolha atual, por Cardeais do mundo todo que se unem em um conclave e que elegem o Papa, teve origem histórica na Idade Média e é passível de alteração. Sendo uma forma de votação, mostra também a aplicação da teoria da delegação na estrutura da Igreja.

O Papa é o Pontífice Romano, o Bispo de Roma, que, durante muitos séculos, foi escolhido (eleito) pelo povo romano e, hoje, é eleito pelo colégio dos cardeais. Os leigos podem ser cardeais e já houve Papas escolhidos que eram leigos.

O termo pontífice (de pontifex) vem dos termos latinos “pons”, “tis” e “facere”. Significa fazedores de pontes. Alceu considerava este termo (vindo dos pontífices de Roma, que durante o governo pagão de Sila, antes de Cristo, chegaram a quinze) providencial, expressando a tarefa dos Papas de estabelecer relações fraternas entre as pessoas, com base no diálogo.

O Estado do Vaticano tem também origem histórica. Surgiu no início da Idade Média e não integra a estrutura fundamental da Igreja. Também está sujeito a alterações, especialmente seus braços pesados: as nunciaturas e Congregações Romanas (espécies de Ministérios).

A conclusão é clara: a Igreja, como todas as estruturas da sociedade, deve combinar autogestão, participação e planejamento participativo e democrático.

A participação dos leigos nos ministérios é uma idéia antiga, pois há séculos existiam vários tipos de ministérios: leitores, que cuidam dos doentes, etc. Tal como subdiáconos etc.

O retorno da tradição da ordenação dos homens casados também é importantíssima para ampliar o clero, pois, como disse, recentemente, Dom Jaime, presidente da CNBB, o Brasil deveria ter uns 160.000 sacerdotes e não apenas 16.000.

Márcio Fabri dos Anjos, no livro “Bispos para a esperança do mundo” (Paulinas, São Paulo, 2000), mostrou as raízes tradicionais da Igreja, sempre atuais:

2. História da escolha de bispos. A escolha dos bispos nos primeiros séculos

A forma de escolher os bispos tem variado ao longo do tempo. Na Igreja dos primeiros séculos a escolha dos responsáveis pelas Igrejas e, concretamente, dos bispos, constituía um direito fundamental do clero e do povo. (…)

A nomeação dos membros do presbitério na Igreja primitiva era feita por um acordo geral entre todos os membros da Igreja local, ou, como reflete a carta de Clemente no ano 97, “com o consentimento de toda a comunidade” (n. 44,3).

“Uma norma do século II, que reúne a Tradição apostólica de Hipólito (em 215), diz que “se ordene como bispo aquele que, sendo irrepreensível, tenha sido escolhido pelo povo”.

“Essa norma se impôs a partir do século III. Na escolha de um bispo interferiam três estamentos: o povo de cada Igreja, o presbitério local e os bispos vizinhos.

“Quando não era possível encontrar um candidato adequado dentro da própria comunidade, procurava-se nas dioceses próximas. Uma vez escolhido pelo povo, o candidato era consagrado por um bispo vizinho, assistido por dois colegas. Assim a Igreja preservava a sua liberdade diante dos poderes políticos interessados nas nomeações.

“Segundo são Cipriano de Cartago († 258), o povo “tem poder para escolher bispos dignos e recusar os indignos”.

“A partir do século III, o conselho de presbíteros decidia a nomeação do bispo, com a intervenção do no mínimo três bispos regionais próximos (o ideal era sete), conforme prescreveu Nicéia, em 325.

“Entretanto, a partir de Constantino os bispos adquirem importância política, e os bispados, econômica. Em conseqüência disso, surgem ambições e acontecem eleições discutíveis. Com a divisão do Império em províncias, normalmente era o metropolitano que consagrava os bispos de sua província. Por interesses de poder, os imperadores cristãos intervinham freqüentemente nas escolhas episcopais.

“O Papa Celestino I, em 428, determinou “que não se imponha ao povo um bispo que não seja proposto pelo povo” (Carta 4). Diante do abuso de certos políticos ou eclesiásticos que queriam nomear os bispos conforme sua vontade, o papa Leão Magno (440-461) – em uma carta aos prelados da província de Vienne (França) – sublinhou os direitos das Igrejas locais de nomearem seus máximos responsáveis, com o seguinte critério: “quem preside a todos deve ser eleito de todos” (Carta, 10,6).

“Gregório Magno (590-604) lutou contra a simonia e defendeu a liberdade das Igrejas de escolherem seus próprios bispos. Constantemente lembrou-se entre os séculos VI e XI que a escolha dos bispos era um direito tradicional do clero e do povo com o consentimento do metropolitano. (…)

“Com o tempo passaram a intervir nas nomeações episcopais não apenas os bispos, mas os príncipes e outros senhores feudais, que substituíram o clero e o povo. “O princípio de participação de todo o povo de Deus na escolha dos bispos, que parece ter sido a norma geral nos primeiros séculos”, afirma G. Cereti, “sofreu graves perdas, motivadas sobretudo pelo poder civil naquela que se convencionou chamar de época constantiniana”. Os reis e príncipes decidiam as nomeações episcopais de acordo com interesses políticos (o bispo tinha influência sobre o povo) e econômicos (os bispados produziam “rendas”). Tentou-se lutar contra esses abusos e intromissões a partir de meados do século XI e primeira metade do século XII. Foi decisiva a reforma de Gregório VII (1073-1085) contra as investiduras leigas. O Decreto de Graciano (em 1140) afirma que “a escolha [episcopal] cabe aos clérigos; o consentimento, ao povo”. (…)

“A igualdade de todos os cristãos diante de Deus, com base na iniciação cristão, deveria abrir as portas da Igreja a uma nova forma de escolher seus pastores.

“Há teólogos e canonistas que pedem, neste ponto (cân. 377, § 3), uma revisão do Código de Direito Canônico. O argumento “de proteger a Igreja das pressões políticas locais”, diz H. Tincq, “serviu durante muito tempo” à Santa Sé para nomear os bispos.

“Hoje as circunstâncias não são as mesmas” (pp. 259/264).

Durante séculos, os bispos foram eleitos pelos membros de suas comunidades.

Juan Luis Segundo, no livro “O dogma que liberta” (Paulinas, 2000), lembra que São Cipriano, “opondo-se ao próprio papa Estêvão”, escreveu, na Epístola 4,5 que “nenhum bispo deve ser imposto ao povo que não o quer”.

O papa Leão Magno formulou, de duas formas, em duas ocasiões, um bom princípio: “aquele que a todos deve presidir deve ser eleito por todos” e “ninguém pode consagrar um homem como bispo contra a vontade dos cristãos e sem que esses, expressamente, tenham pedido”.

A fórmula de Graciano, o principal formulador do direito canônico, mostra a aplicação da teoria da delegação (da soberania social) nas estruturas da Igreja.

Graciano defendeu a teoria do domínio eminente da sociedade (a sociedade tem o direito de determinar, por regras, como devem ser usados os bens, e a forma de distribuição dos bens, ponto que Marx adoraria ter lido) e a liberdade, criticando a escravidão e a servidão, com base no direito natural e nos textos de Clemente de Alexandria.

A Igreja vive para pregar uma Doutrina libertadora, democracia popular, economia mista, destinação universal dos bens, comunhão de bens, de vida, de saber, de poder etc

O termo “Igreja” foi escolhido por Deus, por Jesus, para designar o Povo de Deus, sendo o termo “Igreja” a palavra usada antigamente para designar a Assembléia do povo, a instituição que simbolizava toda a democracia antiga. 

Jesus escolheu o termo “Igreja” que era exatamente o termo fundamental da Democracia grega, pois a Igreja (“Ekklesia”) era o Povo em Assembléia, Democracia direta. 

O termo “Igreja” (“Ekklesia”, em grego) significa “o povo em assembléia”, “Assembléia do povo”.

O termo “Ekkesía” foi usado para traduzir o termo “Kahal”, “assembléia do povo”, o que prova que o regime político, social, econômico e cultura dos hebreus, tal como dos gregos (e romanos, fenícios etc), era a democracia.

A Igreja é o “povo de Deus”, o “corpo de Cristo” (cf. Cl 1,24; e Ef. 1,23).

Deus usa como mediação o povo.

Na “Mishna”, livro hebreu que codifica a “Lei oral”, consta, no “Avot” (1,1), LIVRO EXCELENTE do Talmud (diga-se de passagem), que “Moisés recebeu a Torá [Lei, Instrução, Educação] no Sinai e a transmitiu a Josué, e Josué aos anciãos, e os anciões aos profetas, e os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembléia”. Há uma idéia bem próxima no Pentecostes do Novo Testamento e no papel da Igreja, que é também a Grande Assembléia.

Deus confiou às pessoas a tarefa de construção do Templo Místico, do Corpo Místico de Cristo, o Corpo de Deus, que é, assim, uma Grande República tendo Deus como o Sol, a Luz, a Causa Primeira que atua pelas causas segundas (o Criador é tão bom que não concentra o poder, atua, em geral, pela criação, especialmente pela consciência).

A Bíblia menciona o “Am Ha-Aretz”, o “Povo da terra”, que atuava como sujeito histórico, sendo o antigo Parlamento aberto hebraico, a reunião em Assembléia do povo para decidir questões que interessavam a todos.

O termo “Igreja” foi escolhido por Jesus Cristo para designar Seu povo, seu próprio Corpo.

Este termo foi essencial na difusão da Igreja, pois lembrava, aos olhos dos povos que falavam grego, a principal instituição democrática de Atenas e de toda cidade grega, a instituição que representava a democracia nas cidades antigas, a “assembléia”.

A democracia, em Atenas, só passou a existir quando foram feitas reformas, lá por 500 a.C., que deu a cada cidadão um assento na Assembléia, que elegia as pessoas para ocuparem cargos, fazia as leis, definia o orçamento e julgava as pessoas.

A Assembléia, a “Ekklesia”, era a instituição principal da democracia direta e foi este o nome que Cristo escolheu para designar Sua organização, a Igreja (“Ekklesia”, “Assembléia”).

Da mesma forma que o melhor da Tradição da Paidéia, da tradição antiga, vinda da Mesopotâmia semita, os hebreus usavam o termo “Assembléia” em aramaico, usando a palavra “Kahal”, para designar a assembléia onde o povo das cidades hebraicas decidiam o que era importante e social. Nas tribos indígenas brasileiras, tal como nas tribos bárbaras da Europa e da África (e da Oceania, da Ásia etc), este também era o modo humano de auto-governo.

O que dizia respeito a todos, inclusive julgamentos, era decidido em assembléia, numa “kahal” (cf. Sl 26,5; Num 22,4; Jz 20,2; Jz 21,5-8;, ISam 17,47; 1Rs 12,3; Ex 12,6 e outros textos).

Em cada colônia judaica, na diáspora, a “Kahal” era o centro decisório, funcionando junto com a sinagoga, como algo sagrado e querido por Deus.

A estrutura das comunidades primitivas de cristãos, descritas no livro “Atos dos Apóstolos” e nas Cartas de São Paulo (e de São Pedro, São Tiago, São João e outras), têm a mesma estrutura democrática, que é a estrutura das antigas paróquias e capelanias, da estrutura dos mosteiros e conventos, das Ordens, das CEBs, hoje.

Na Grécia, em Atenas e nas outras cidades gregas, o termo “assembléia” (“Ekklesia”, “Igreja”) era usado para designar a principal instituição da democracia, a instituição e lugar onde se realizava a democracia direta.

O povo se reunia em Assembléia, numa praça ou prédio amplo (muitas vezes, esta praça ficava junto aos portões da cidade, como explica a Bíblia), debatia e decidia a vida social.

Esta forma de agir é tão natural que assim faziam os nativos nas aldeias do continente americano, da África, na Oceania e em toda parte.

A democracia, nas tribos bárbaras da Europa, é atestada por Tácito, pró-estóico, que descreveu estas aldeias no livro sobre a Germânia antiga. No livro de Júlio César há também boas descrições da democracia na Gália.

O termo “Igreja” tem um grande significado político, essencial na teologia política.

É um símbolo, na mesma linha da morte de Cristo na cruz, a morte dos rebeldes políticos, dos escravos, o mesmo tipo de morte de Espártaco. Afinal, Cristo escolheu dar à sociedade que fundou o nome de “Igreja”, o mesmo nome usado pelos gregos para designar o Parlamento das cidades gregas, “Ecclesia”.

Este nome-símbolo (da democracia) foi usado para traduzir a expressão hebraica ou aramaica que Jesus deve ter usado.

Cristo deve ter usado o termo “Qahal” (“Qehal”, “Kahal”), que também significa “Assembléia”, sendo este o nome dos parlamentos existentes nas cidades hebraicas, especialmente nos portões, na portas das cidades (vide o julgamento de Susana e outros trechos bíblicos).

As cidades tinham muros e junto aos portões existiam praças. Nestas praças, reuniam-se a Assembléia e também eram realizados os julgamentos, de forma democrática e participativa.

Os cristãos, ao se congregarem, formavam como que uma cidade dentro da cidade maior, usando o nome familiar em todo mundo antigo, o nome-símbolo da democracia representativa, “Ecclesia”.

Marilena Chaui, no livro “Convite à filosofia” (São Paulo, Ed. Ática, 1995, p. 388), viu corretamente a ligação do nome “Igreja” com os lugares da democracia direta e indireta, na Grécia, entre os judeus e entre os romanos:

A comunidade é a Ekklesia, isto é, a assembléia dos fiéis, a Igreja. E esta é a designada como Reino de Deus. Povo, lei, assembléia e reino: essas palavras indicam, por si mesmas, a vocação política do cristianismo, pois escolhe para referir-se a si mesmo os vocábulos da tradição política judaica e romana”.

O termo “Igreja” significa “assembléia” e tem várias acepções conexas, com nuanças importantes. Usado num contexto, designa a Igreja gloriosa, composta de “multidões de almas, ignoradas sobre a terra” e cujo “número ultrapassa todos os cálculos humanos” (cf. Pio XII, no “Discurso aos esposos”, em 08.05.1940), sendo que esta “multidão” é composta de “gente de toda tribo, língua, povo e nação” (cf. Ap 5,9).

Há também a Igreja no purgatório (“guehinom”, em hebraico), a ante-sala, átrio do Céu, onde devem existir mais gente ainda (na concepção ortodoxa e de Russell Norman Champlin, quase todos os mortos estão se aperfeiçoando, purificando-se, como um grande purgatório).

Esta parte da Igreja, no Céu ou na Ante-Sala do Céu (no purgatório), participa mais plenamente do governo do universo, da história, ao modo dos anjos (sereis “como anjos”, diz a Bíblia), como mediadores, sendo que Deus sempre ouve as pessoas, especialmente as que estão unidas a si (cf. “Apocalipse”, n. 4), também sentadas em “tronos”, co-regendo.

Como ensinou Bento XVI, num discurso de 30.09.2007, os “anjos” são “mensageiros”, mediadores, que “ajudam” cada pessoa a “encontrar sua verdadeira natureza, a si mesmas, a viver a idéia que Deus tem delas”. Os “anjos” “falam ao homem de seu verdadeiro ser, do que em sua vida frequentemente fica coberto e sepultado”.

Depois, há a Igreja invisível, dispersa na terra (“semente” e “início” do Reino, cf. Vaticano II), abarcando as pessoas boas e racionais de todas as partes, pois a graça opera junto com a razão, salvando bons muçulmanos, bons hindus, bons marxistas, bons confucianos etc.

A Igreja visível, na terra, é apenas uma parte bem menor da Igreja, da Grande Assembléia.

Conclusão: a Igreja invisível é o “Reino de Deus”, a “Cidade de Deus” (cf. Santo Agostinho), sendo a Grande República, a Comunhão (comunidade) do Pão e do Amor. O povo é soberano porque Deus habita, em regra, no povo e Deus nos criou para co-reis, co-juízes, co-planejadores, co-laboradores, companheiros, para sermos Filhos de Deus.

A Cidade de Deus está dispersa no mundo, pois, como ensinou João Paulo II, “a presença e a atividade do Espírito afeta não apenas indivíduos, mas também a sociedade e a história, povos, culturas e religiões” (cf. “Redemptoris Missio”, 28, encíclica de 07.12.1990).

Os documentos “Lumen Gentium” (n. 4) e “Gaudium et Spes” (n. 45) explicam bem este ponto da eclesiologia, que mostra que a Igreja é o “povo de Deus”. Deus está presente, em regra, no coração do povo, da sociedade e, por esta razão, o povo é a mediação de Deus, o poder nasce do povo, pelo povo e para o povo.

Deus opera por mediações (cf. explicações do Pseudo-Dionísio Aeropagita), pela natureza, pela razão e, principalmente, pela consciência viva do povo, ligada intrinsecamente ao ideal do bem comum.

Nosso ideal concreto, PRÉ-FIGURAÇÃO PROJETO de CONSTRUÇÃO DO CÉU, Utopia em processo

O IDEAL (Pré-figuração projetos de CONSTRUÇÃO do Céu, em Trabalho Associado Cooperativado a Deus) é baseado na DESTINAÇÃO UNIVERSAL DOS BENS, no PRIMADO DO TRABALHO, primado do ASPECTO SUBJETIVO do Trabalho, no direito natural dos trabalhadores de controlarem seus instrumentos de produção (bens produtivos) etc. 

Este ideal, pré-figuração-projeto de construção do FUTURO, foi exposto por Alceu, e pelo melhor de nosso Clero, como Dom Hélder e outros.

Foi exposto também pelo padre Fernando Bastos, no livro “Introdução à sociologia” (Rio de Janeiro, Ed. Agir, 1987, p. 379), apontou a convergência entre socialismo com liberdade e catolicismo, defendendo a socialização dos bens, inclusive do poder:

“sociedade planificada, segundo um tipo qualquer de coletivismo pluralista, fundado sobre o equilíbrio da democracia política e da democracia econômico-social, ou segundo um tipo de estrutura inspirado nos princípios da doutrina social da Igreja”.

Marciano Vidal, no livro “Dicionário de moral” (São Paulo, Ed. Santuário, p. 55), também lembra que “o conteúdo do bem comum não se restringe aos” aos bens econômicos, “mas abrange todos os âmbitos da vida social (cf. Pio XII: AAS 35, 1943; MM, 65; PT, 60;GS, 74; DH, 7)”, inclusive outros bens como o poder, o prazer racional etc.

Vidal acrescenta que, “pelas características do bem comum”, uma opção válida é “o sinal humanista e socialista – humanismo socialista ou socialismo humanista”, pois este pode gerar um “ambiente adequado” para o florescimento da vida e dos valores naturais e cristãos.

Conclusão: o ideal histórico concreto da Igreja, como ensinavam Jacques Maritain e Alceu Amoroso Lima, é uma democracia PLENA e real, econômica, social, popular, comunitária, pedagógica, política, cultural etc.

Um ideal de economia mista, com ampla difusão de bens, poderes e atribuições, onde o povo possa controlar os processos decisórios, os processos produtivos e o próprio destino. A sociedade deve ter “múltiplas formas de convivência social”, “reconhecidas pelo direito privado e pelo direito público” (cf. João XXIII, na “Mater et Magistra”, 1961).

Dom Clemente Isnard, com quase cem anos, deixou as ideias essenciais para a boa REFORMA da Igreja Católica

Cristo resumiu o ideário de sua organização, a organização do Povo de Deus, da Comunhão, escolhendo o nome de “Ekklesia”, “Assembléia do povo”, num elogio à democracia real, que é o ideal histórico da Igreja. A “Ekkesia” era a base da DEMOCRACIA grega, o lugar da Assembléia do Povo, da Democracia Direta, viva, popular, Participativa. 

A Igreja nasceu com uma estrutura democrática e popular. Estas estruturas democráticas da Igreja também foram e devem ser fatores de democratização da sociedade e do mundo

Foi fácil, para a Igreja, a recepção da teoria clássica da Paidéia sobre o poder. Foi fácil porque a Igreja primitiva era toda moldada por eleições.

A Igreja primitiva era democrática em sua estrutura mais íntima, nas partes menores e maiores e precisava ser assim para resistir às perseguições romanas.

Como o próprio Marx, Engels, Lenin, Rosa de Luxemburgo, Kautski, Bebel e outros admitiram, o cristianismo primitivo era popular, democrático, socializante, revolucionário (o livro de Pierre Leroux sobre este ponto deveria ser reeditado).

Os diáconos, os padres, os bispos e o papa eram eleitos pelo povo.

As decisões eram tomadas em Concílios e Sínodos locais, regionais, nacionais e gerais. Hoje, uma parte do clero busca o retorno do desenho original da Igreja. Os livros do padre Comblin têm esta tônica correta. Era o ideal de Ação Católica de Alceu, de Dom Hélder e da maior parte do Clero. 

Entre os bispos há a mesma aspiração, com o mote de uma Igreja com intensa participação dos leigos na própria gestão, o que era também o ideal de Alceu Amoroso Lima, desde antes mesmo da Ação Católica, criada para este fim.

Para exemplificar a presença deste ideal entre os bispos, basta ver as idéias de Dom Clement Isnard, um bispo beneditino de 90 anos, com 49 anos como bispo, que foi da cúpula da CNBB e da Cúria Romana, (da Sagrada Congregação para o Culto Divino).

Dom Isnard, no livro “Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais” (São Paulo, Ed. Olho d´Água, 2008, p. 38), defende as seguintes reformas na estrutura da Igreja:

Os pontos que enumero são disciplinares, embora vitais para a Igreja: a nomeação dos bispos com a participação dos fiéis, fora de um segredo pontifício que acoberta a politicagem eclesiástica e consagra o sacrifício do povo; a garantia para os presbíteros cuja vocação não é o celibato, a fim de que possam exercer o sacerdócio a vida toda; a abertura plena para a mulher ocupar, na Igreja, o lugar que espera Há quase dois mil anos; a sucessão apostólica dando a todo bispo a posição autêntica de sucessor dos apóstolos, e não apenas a de celebrantes de pontificais vestidos de roxo.

“E há muitas outras coisas que foram acrescentadas à disciplina da Igreja, no decurso de dois milênios de sua vida e que não foram corrigidas pelo Vaticano II. Mas penso que todos os católicos têm o dever de fazer algo pela sua correção. Cumpri o meu dever”.

A maior parte da estrutura eclesial era eleita no início.

A Teologia da libertação e boa parte da CNBB, tal como as CEBs, hoje, buscam restaurar as antigas formas da Igreja.

Este ponto foi bem explicitado no livro de José Ignacio Gonzáles Faus, “Nenhum bispo imposto” (São Paulo, Ed. Paulus, 1996). Os papas, como bispos de Roma, eram eleitos pelo povo de Roma e depois passam a ser eleitos nos Conclaves. A “eleição do Sumo Pontífice” exige dois terços mais um dos votos, dentre os cardeais eleitores e não há óbice algum para que leigos possam ser cardeais.

Um exemplo de cardeal leigo foi o Cardeal Hércules Consalvi (1757-1824), Secretário de Estado de Pio VII, que obteve a reconciliação entre o Estado moldado pela Revolução Francesa e a Igreja, sob Napoleão Bonaparte. Num parêntese, a Revolução Francesa apenas consagrou um movimento dos leigos católicos e da melhor parte do clero, que existia antes, pois a derrota dos nobres feudais (latifundiários) vem desde Joana d´Arc (neste sentido, a peça de George Herbert Shaw, teatrólogo socialista e teísta, é excelente) e mesmo antes. Até mesmo Richelieu deu sua contribuição, quando destruiu boa parte dos castelos feudais e retirou vasta porção de poder dos nobres feudais latifundiários.

Na Igreja primitiva, os bispos eram eleitos pelo povo das dioceses. Mais tarde, os bispos eram eleitos pelos padres da diocese, por parte do clero ou pelos cônegos (os padres mais antigos, vinculados à cúria). Os santos eram eleitos pelo clamor popular. As grandes questões eram fixadas nos Concílios gerais e regionais, com praticamente a estrutura de sínodos. Nas universidades medievais, os reitores eram eleitos.

Nas ordens religiosas, todos os cargos eram eletivos (especialmente na Ordem dos Dominicanos e dos Franciscanos). A estrutura das ordens monásticas era também democrática e formada por leigos, basicamente por monges leigos.

O exemplo da Sorbonne também ilustra bem a amplitude da difusão da concepção política cristã. Roberto de Sorbon (1201-1274), o teólogo que fundou a Sorbonne, em 1257, escreveu “De consciência”, destacando o poder da consciência para nos guiar na vida pessoal e social, para o bem comum e para Deus, o Bem Supremo, a base da comunhão mística entre as pessoas. Roberto era o capelão e confessor de São Luiz IX. Nos seus planos sobre a Sorbonne, seguiu os exemplos das congregações religiosas. Tudo era eleito na Sorbonne, desde a fundação. A Sorbonne era uma sociedade de clérigos seculares, democratas, dedicados ao ensino gratuito.

Como o próprio Geral dos Jesuítas explicou, no documento de convocação da Congregação Geral da Ordem, em 05.01.1995, mesmo na centralizada Ordem dos Jesuítas “a Congregação Geral é, sem dúvida, a autoridade suprema, a instância máxima de poder na Companhia”. Este texto está no documento da XXXIV Congregação Geral dos Jesuítas (São Paulo, Ed. Loyola, 2002, p. 350), em 1995.

Além disso, a doutrina católica era considerada a que era universal, aceita consensualmente por todos (pela maioria, pelo consenso da maioria), sendo a Tradição oral, conservada no povo, ou seja, a opinião do povo, as IDEIAS DO POVO, é uma fonte da fé.

Hoje, cada vez mais, a Igreja retoma sua estrutura mais antiga. Os bispos reúnem-se anualmente em Itaici, nas Assembléias Gerais da CNBB e redigem documentos e planos conjuntos. Os religiosos reúnem-se na CRB, Conferência dos Religiosos do Brasil. Os sacerdotes realizam encontros nacionais.

Por exemplo, o 12º Encontro Nacional de Presbíteros, no Mosteiro de Itaici, município de Indaiatuba (SP), em 2008, propôs ao Vaticano a ordenação de homens casados, tal como a readmissão de padres que deixaram suas funções para se casar. Este Encontro teve 430 delegados representando 18.685 padres de 269 Dioceses, onde há 9.222 Paróquias. Em cada Diocese, há um Conselho Pastoral de Diocese. Em cada Paróquia, há um Conselho Pastorald de Paróquia. E há também o Conselho Presbiteral, dos padres, que o bispo deve ouvir (se não quiser uma migração destes para outras dioceses mais participativas, mais democráticas…).

O Encontro dos Padres do Brasil, referido acima, também pediu regras com “espírito mais transparente, democrático e participativo junto dos presbitérios, dioceses e regionais da CNBB” para a escolha dos bispos, pois, hoje, a escolha fica praticamente entre os bispos da Região da Diocese, o Núncio e o Papa. O Núncio, às vezes, infelizmente, não segue o bom exemplo do Núncio Lombardi, amigo de Dom Hélder, e não ouve o clero local.

Em cada Diocese, há formas de “comunhão e de colaboração”, através de órgãos como a cúria diocesana (que deveria ter mais e mais leigos), o conselho presbiteral (dos padres), o colégio dos consultores, o conselho pastoral diocesano e o conselho diocesano para os assuntos econômicos. São órgãos de “partilha das responsabilidades comuns”, de partilha do poder, na Igreja.

Em cada capela, paróquia, diocese e no Vaticano deve existir formas de PRESTAÇÃO DE CONTAS do uso dos recursos, transparência do uso dos bens, recursos, movimentações financeiras etc. LUZ em toda a Igreja. 

Nas Paróquias, há também vários conselhos e Assembléias. Há os Encontros sobre Fé e Política, que elaboram documentos de análise e diretrizes concretas, para a ação em prol do bem comum, a ação política e patriótica dos leigos.

Na estrutura da Igreja, cada vez mais, há planejamentos participativos de pastorais nas Dioceses etc. Houve o restabelecimento dos Diáconos permanentes, que fazem tudo, exceto oficiar Missas, ouvir em Confissão e ordenar padres. Há a esperança que, logo, estes diáconos casados podem ser também ordenados, atuando como padres casados. Quando o número de diáconos superar o número de padres, ficará evidente que os homens casados devem ser ordenados (há bispos que defendem inclusive a ordenação de mulheres).

A própria Igreja é a parte visível do “povo” de Deus (que abarca bons muçulmanos, bons hindus, bons marxistas etc), guiado pela consciência humana de seus membros, com a ajuda das luzes e da força do Espírito Santo.

Os dons do Espírito Santo são sete e são REFORÇOS à natureza humana, a nossas faculdades: a inteligência, a vontade humana e a afetividade. Em outras palavras, a ação divina reforça sua melhor criação, a consciência humana, criada para a autodeterminação pessoal e social.

Na Igreja, a hierarquia é apenas a serva, uma estrutura com agentes “públicos”, feita para atender às necessidades do povo, para o bem do povo. Como ensinou inclusive Pio X, na “Vehementer”, os “vários graus da hierarquia” (“pastores”, protetores) têm o ofício de “orientar e dirigir os associados ao fim da sociedade”, para o bem comum.

A orientação e a direção são apenas determinações, explicitações, das melhores idéias do povo, das obrigações (deveres, preceitos, preceituações, detalhamentos) das regras racionais para o bem comum.

A hierarquia (clero), como a hierarquia estatal (o “estamento”, os “clérigos leigos”, a “clerezia”, de “clericus”, do grego “kleros”, no sentido lato de “letrados”, cf. Julien Benda e Frei Joaquim de Viterbo), devem ser (pois, no fundo, é esta sua natureza) “servos” (como ensinou explicitamente o próprio Jesus Cristo).

Toda hierarquia é formada, no fundo, por educadores (o termo magistrados vem de magistério), que devem se pautar pelo diálogo, pela razão em prol do bem comum (cf. o próprio Julien Benda, em “A traição dos clérigos”).

A função essencial do clero e de toda hierarquia é de “diakonia”, de ajudar, como um médico que auxilia a auto-cura (a base da melhoria é a contrição-consciência do erro e propósito-projeto de melhorar, a confissão é apenas outra forma, ligada a cura e orientação espiritual). O clero apenas ajuda o processo de aperfeiçoamento endógeno, em nós. 

Toda hierarquia só se justifica como forma de serviço público, de servir ao povo, de ajudar ao povo, como forma para ajudar o povo a pautar-se pela busca da verdade (mediante o diálogo), em prol do bem comum.

Conclusão: a estrutura antiga e atual da Igreja (que pode ser aperfeiçoada e melhorada ainda) é também um fator de democratização, um argumento importante em prol da democracia participativa.

Neste sentido, os textos de Suenens, Congar, Dom Hélder e do padre Comblin ilustram bem a importância das estruturas eclesiais serem bem abertas, transparentes e participativas (com CEBs e ampla participação dos leigos).

Este era o ideal também de vários ótimos padres, que conheci em São Leopoldo, lá por 1983, visitando paróquias.

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