Arquivos para : A “Fórmula” Buchez: Estado deve criar cooperativas. Estado deve promover organização do trabalho em cooperativas, unindo autogestão, co-gestão e gestão social participativa

O Socialismo Católico é a principal fonte do Socialismo, na Alemanha, inclusive Lassalle e o partido de Marx

Buchez foi chamado, por Marx, de o chefe do partido socialista católico. Da mesma forma, Buchez é a fonte da fórmula do cooperativismo apoiado e coordenado pelo Estado, segundo Marx

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs, católicas e socialistas de Saint-Simon.

Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana.

Em 1832, Buchez criou as primeiras associações cooperativas de produção, como destacou Charles Gide.

Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil.

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a tendência cristã-democrata e socialista.

A linha que passa entre Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, teologia política européia etc representa, a meu ver, a linha dourada que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa democracia política, econômica, social e cultural.

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras.

Por exemplo, Marx menciona Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital”.

Marx citou, nos primeiros escritos, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX e redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant,

Dois anos após a morte de Lassalle, em 1868, Marx, em carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, diz que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”:

“Depois de um sono de quinze anos [1868 menos 15, igual a 1843], o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle–e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante–sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch–o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele [Lassalle] repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez–assistência do Estado às sociedades operárias–com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

Como fica claro, Marx, como Rosa de Luxemburgo, sabia que existiam várias correntes de socialismo.

E sabia que uma destas correntes, o SOCIALISMO CATÓLICO, já existia em 1843, quando Marx nem tinha ainda criado as bases do “socialismo marxista”, que são frágeis, pois o próprio Marx, em 1882, um ano antes de morrer, no último escrito econômico, sobre Wagner, diz que não existia um socialismo marxista, um projeto delineado de Estado ou sociedade socialistas. Marx cuidava principalmente da crítica ao capital.

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez.

Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. E Engels escreveu no mesmo sentido, frise-se.

O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez.

Ou seja, BUCHEZ, o Socialismo católico, é a origem direta do primeiro partido operário na Alemanha, em 1863, criado por Lassalle.

Engels combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”.

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels, com ciência de Marx:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada. Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

CONCLUSÃO: o partido lassalista usou, assim, em seu programa, idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde vários católicos também militavam e, como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875, e no “Programa de Gotha”, de 1875, usou a fórmula de Buchez.

A fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”.

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto.

Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez que está na origem da tese de substituir o patronato por cooperativas de produção, com a ajuda do Estado. 

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem:

“o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”.

Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez e também de Cabet e Luís Blanc.

Numa linha semelhante, Benoit-Malon, socialista com religiosidade, queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”.

Malon tinha religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos…libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, o livro “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas.

Foi esta também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

Buchez, Rodbertus, Lassalle, Keteller, Louis Blanc, Adolf Wagner e o Socialista de cátedra, correntes próximas da Igreja

O socialismo nasceu de fontes religiosas. Nasceu, lá por 1830 e poucos, antes de Marx, baseado em socialistas de fundo religioso, como Saint Simon, Owen, Fourier, o babovismo (as ideias do padre Morelly e do padre Mably, que Babeuf e Buonarrotti difundiram) e outras.

Outro grande expoente foi Buchez, a quem Marx chamava de chefe do “partido socialista católico”.

Buchez inspirou Louis Blanc e Lassalle (como Marx apontou, na Crítica ao Programa de Gotha). Lassalle era bem próximo da Igreja Católica.

Lassalle manteve correspondência pública com o Bispo católico Ketteler.

Ketteler escreveu um livrinho, mostrando que as linhas do socialismo de Lassalle não tinham nada contra o Catolicismo, sendo possível um católico participar do Partido de Lassalle, criado, na Alemanha, antes do Partido de Marx (houve a fusão, depois).

Lassalle também tinha sólidas ligações com Karl Rodbertus, que escreveu obras sobre socialismo, antes de Marx, obra de 1842. No Brasil, deveriam ser editadas obras como “Cartas de Lassalle a Rodbertus” (Berlim, 1878, com introdução de Adolf Wagner).

Outro livro essencial de Lassalle é a “Teoria sistemática dos Direitos Adquiridos”, onde Lassalle mostra que a evolução histórica consiste numa progressiva restrição dos direitos de propriedade, restrição que, dentro de cem a duzentos anos, levaria a uma sociedade socialista, com usufrutuários (proprietários com função social) gerindo os bens produtivos. Estas ideias são basicamente as ideias da Igreja, de função social inerente a propriedade, de uma propriedade submissa a soberania nacional popular, praticamente usufrutuária. 

É a mesma base de Karl Rodbertus, socialista de fundo religioso, que foi inclusive Ministro de Estado da Religião, dos Cultos.

Lassalle ataca as cooperativas (de crédito e de consumo) de Schulze Delitzisch, que rejeitavam a intervenção do Estado, e defendia a ideia de Buchez, de criação de cooperativas de produção, pelos próprios trabalhadores, com a ajuda do Estado.

Lassalle defendia as ideias políticas de Hegel, Rodbertus e Fichte, de um socialismo estatal democrático. Primeiro, houve o Partido de Lassalle, depois o de Marx. Os dois partidos se fundiram em 1875, após a morte de Lassalle.

Esta fusão ocorreu no Congresso de Gotha, que gerou um programa principalmente ligado a Lassalle e a Buchez, criticado no livro “Crítica ao programa de Gotha”, de Marx. O “Programa de Gotha” só foi substituído em 1891, pelo “Programa de Erfurt”, no Congresso de Erfurt, que gerou uma cisão, com Wollmar e outros, apoiando a difusão da pequena propriedade rural. Bebel e Liebknecht ficaram neutros, até 1898. 

Em 1863, Lassalle atacava o Partido Liberal prussiano, também atacado pela Igreja, pelo Partido do Centro, ligado a Igreja. Obras como “A quintessência do socialismo” (1875), de A. Schaeffle, mostram este conjunto de ideias, que foram clarificadas por Adolf Wagner.

Wagner era pessoa religiosa e sempre foi apreciado pelos grandes teóricos da Doutrina Social da Igreja, como Huet (“O reino social do cristianismo”), Ahrens, Pesch, Liberatore (defensor da economia mista), Albert de Mun, Vogelsang, Franz Hitze, padre Charles Antoine, a Escola de Liège e outros.

Outros grandes católicos foram o Cônego Pottier, Hellepute, Arturo Verhaegen, Monsenhor de Harlez, o grande TONIOLO, Georges Goyau (“Sobre o catolicismo social”), o Abade Six e sua revista “Democratie Chrétienne”), o Abade Lemire, o Cardeal Manning, o Abade Naudet (“Propriedade, capital e trabalho”) e outros.

Este apreço e respeito ocorre pelo conteúdo comum entre as melhores ideias de Adolf Wagner e dos grandes Teóricos da Doutrina social da Igreja. Ideias de uma Civilização do Trabalho. 

Ideias defendidas por autores católicos como Lamennais, Ozanam, Lacordaire, Blome, Belcredi, Thun, Depauli, Zalinger, Falkenstein, o Príncipe de Liechtenstein e outros, para superar o regime assalariado.

O próprio termo “socialismo” nasceu em meios católicos, lá por 1820, bem antes de Marx

A “doutrina social” da Igreja, exposta por autores como Buchez e Keteller, tem conteúdos semelhantes com a teologia da libertação. No fundo, a Teologia da libertação é apenas um ponto na Torrente da Teologia, mas um ponto luminoso. 

O termo “socialismo” nasceu em águas católicas italianas, nasceu nos meios religiosos italianos, lá por 1820. Depois, foi ressuscitado por Leroux e alguns owenistas religiosos, em 1827. Também foi a linha de Saint-Simon, a linha de um socialismo inspirado nas idéias cristãs, expostas em seu último livro de cristianismo social.

Pierre Leroux (1798-1871) continuou a linha de Saint-Simon, tendo, em paralelo, a ação de homens como Buchez e Etienne Cabet, que foram grandes cristãos.

Pierre Leroux, católico, foi o principal divulgador do termo, usando-o a partir de 1832.

Os seguidores de Fourier também passaram a usar esta palavra, para se autodenominarem, especialmente Victor Considerant (cujos textos cristãos mereceriam ser reunidos para serem lidos nas CEBs).

Owen consagrou o termo “socialismo” em 1841. Os livros de Owen são éticos e têm um fundo religioso, especialmente seus primeiros e últimos textos, de utopia social e religiosa. O mesmo ocorre com Considerant, Leroux e Fourier.

Os textos de Leroux são os mais importantes na difusão do socialismo pré-marxista, de feitio cristão. Os títulos de seus livros falam por si mesmo: “Do cristianismo e de sua origem democrática”, “Uma religião nacional ou do culto” (1844), “Da plutocracia ou dos governos dos ricos” (1848) e outras.

Leroux era sansimoniano católico e se inspirava nos textos de Saint-Simon, que era, por sua vez, também um grande autor socialista cristão, que se inspirou nos textos de Bonald (e de De Maistre), sobre o primado da sociedade.

A religiosidade de Saint-Simon é mais do que explícita e o mesmo vale para Enfantin, seu principal seguidor.

François Huet, um católico social, no livro “O reino social do cristianismo” (1853, livro lido por Marx), usava a expressão “socialismo cristão”. Numa linha paralela com Leroux, houve os textos de Buchez.

No Brasil, o socialismo também nasce na forma utópica, cristã. O general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Bolivar, escreveu o livro “O socialismo”. Além disso, homens como Antônio Pedro Figueiredo, o principal ideólogo da Revolução Praieira, em 1848, na cidade de Recife, tentaram colocar em prática as idéias de uma democracia social. O livro de Tiago Adão Lara, “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo” (São João del Rei MG, Ed. Faculdade Dom Bosco, 1977), ilustra bem a presença do socialismo cristão na vida política brasileira.

Mais tarde, há homens como João Mangabeira, Alceu, San Thiago Dantas, Pontes de Miranda e centenas de outros escritores. O velho Pontes de Miranda morreu se auto-declarando como católico e socialista, a mesma linha de Alceu, Dom Hélder e outros luminares da Igreja, como Fábio Comparato. 

Buchez (1796-1865) era discípulo de Saint-Simon (1760-1825). Simon foi um cristão socialista, com firmes crenças religiosas. Saint-Simon não usava o termo “socialista”, e sim “cristão”. Sua última obra tem o título “Novo cristianismo” e é a mais religiosa e avançada de sua bibliografia. Os sansimonianos eram todos religiosos, a começar por Enfantin.

Tal como seu mestre imediato, Saint-Simon, Buchez unia catolicismo e sansimonismo. A influência de Buchez foi tamanha que foi chamado, por Marx, de “o chefe do partido socialista católico”. Buchez ensinava que “o objetivo humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução [Francesa]: o primeiro é que inspirou o segundo” (cf. “Traité de la politique”, t. III, p. 504).

Marx e Engels fizeram dezenas de referências aos textos de Buchez, em cartas e livros.

Marx o cita desde o livro “Sobre a questão judaica” (texto de abril ou maio de 1843), como historiador da Revolução Francesa. Marx o chamava de chefe da escola francesa católica-revolucionária, do “partido socialista católico”.

Ao lado de Buchez militavam homens como Pierre Pradié (1816-1892), um advogado de esquerda, republicano, deputado na Assembléia Geral da 2ª República, tendo Buchez presidido a Assembléia, em 1848.

Desde 1831, Buchez, em várias obras, como o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso” (1838-1840), desenvolveu suas idéias sobre cooperativas de produção com apoio do Estado. Esta foi a fórmula usada por Louis Blanc e por Lassale, como reconheceu Marx, no texto “Crítica ao Programa de Gotha”.

Buchez tem também o mérito de ter sido o precursor da defesa das cooperativas de produção. Seu trabalho não era apenas teórico, pois, em 1834, ele auxiliou a criação de uma cooperativa de trabalhadores, que continuou a existir até 1873. A cooperativa de Rochedale, para comparar, era apenas de consumo e foi criada em 1844, em Manchester.

Numa linha paralela, Lamennais defendeu o cooperativismo com apoio de um Estado democrático, em obras como “A questão do trabalho” (1848). A idéia de cooperativas com o apoio do Estado também foi adotada por Luís Blanc, que era teísta, tal como por Ledru-Rollin. Num parêntese, é bom recordar que no próprio texto do “Manifesto Comunista”, Marx e Engels consideraram o “partido democrático” e popular de Louis Blanc, aliado e discípulo de Buchez, como o partido aliado do Partido ligado a Marx, na França.

A tese da difusão das cooperativas com apoio estatal está presente também nos textos de Etienne Cabet e reaparece, mais tarde, nos textos de Lassalle, de Ketteler e dos socialistas cristãos, na Inglaterra, influenciados por Lamennais e outros.

A fórmula de Buchez de cooperativismo com intervenção e apoio do Estado consta também do “Programa de Gotha” de 1875 e também no “Manifesto” da 1ª Internacional.

Luís Blanc foi teísta durante toda a vida e há autores que consideram que foi ele que cunhou o termo “capitalismo”, para significar o sistema econômico liberal.

Blanc e Victor Hugo eram amigos, teístas e socialistas democráticos, adotando a mesma fórmula de Buchez. No século XX, o cooperativismo foi bem defendido por Antônio Sérgio, um socialista cooperativista.

Conclusão: Karl Marx, em carta de 13.10.1868, a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale, tal como em outros textos (“Crítica ao programa de Gotha”), reconheceu que Buchez foi o precursor das idéias de Lassale. Marx citou Buchez em várias obras como “A questão judaica”, “A ideologia alemã”, “A sagrada família”, “Crítica ao Programa de Gotha” e em outras, mostrando, assim, que recebeu também a influência das idéias de Buchez.

Em várias obras, Marx e Engels reconheceram que o núcleo do pensamento de Lassale tinha origem em Buchez e, por isso, chamaram Lassale de plagiário.

O próprio Schweitzer, sucessor de Lassalle, elogiava a santidade de Ketteler e o considerava como aliado. Schweitzer escreveu obras como “O espírito do tempo e o cristianismo” (1861) e “Lucinda” (1864).

Bebel, em sua autobiografia, “Minha vida” (3 vols., Stuttgart, 1910-1914), lembra que Schweitzer usava o nome de Ketteler para fortalecer o partido fundado por Lassalle.

Linhas da Doutrina social da Igreja. Buchez foi um grande precursor

O direito natural primário exige a difusão dos bens, de acordo com nossas necessidades (cf. consta em “Atos dos Apóstolos”, capítulos 2 e 4).

Justiça social é igual a realização do bem comum, é o bem comum realizado, operando.

O direito natural secundário exige que sejamos bons gestores (controladores, co-criadores, co-redentores, planejadores, cultivadores, pastores do Universo), ou seja, administradores e distribuidores (cf. lição de Cristo, de São Tomás de Aquino e de São Lucas), controlando os bens mediante o trabalho pessoal, e com limites postos pelo bem comum (por formas de planejamento participativo).

A doutrina da Igreja aprova e recomenda a autogestão, a pequena propriedade limitada e regrada (uma forma de controle dos trabalhadores sobre os bens), a co-gestão (em geral como via para a autogestão, cooperativismo geral, local e setorial, ou como combinação da gestão dos trabalhadores com a planificação participativa) e a planificação pública com gestão participativa.

A Igreja recomenda, com base nos princípios da autodeterminação (da soberania popular, inclusive com o domínio eminente do povo) e da subsidiariedade, mecanismos como: organização de bairros, organização de distritos, organização de municípios, de regiões, federalismo, organização continental e uma República mundial (um governo mundial participativo, esboçado pelo abade de Saint-Pierre, padre Francisco de Vitória, padre Taparelli e por João XXIII).

Leão XIII e as classes sociais

Leão XIII foi núncio na Bélgica, onde escreveu ótimas Pastorais sociais. Depois, tornou-se Papa, em 1878. Ajudou na formação das leis sociais e da Previdência, no governo de Bismarck, tal como trabalhou para a ligação entre católicos e republicanos, na França. Foi abolicionista, ajudando a abolição no Brasil etc.

Leão XIII escreveu a “Rerum novarum”, encíclica social, em 1891, defendendo os trabalhadores.

O Cardeal Gibbons, dos EUA, lhe dirigiu felicitações pela “Rerum”. O mesmo Gibbons que defendeu os Cavaleiros do Trabalho, nos EUA, a primeira organização operária dos EUA (cf. Marx e Lenin) associação que, em 1886, os bispos católicos dos EUA tinham autorizado, e foi presidida por um católico.

O Cardeal Simeoni, em carta de 29.08.1888, autorizou também os Cavaleiros do Trabalho.

Leão XIII escreveu a carta “Multiplex causa” (de 09.07.1891), ao cardeal Gibbons, em resposta à felicitação: “Havendo-nos proposto ao escrevê-lo que se implantasse a equidade nas relações entre assalariados e empresários, atender às necessidades dos fracos e, uma vez estabelecida a concórdia entre os cidadãos, contribuir também para a tranquilidade pública, recebemos efetivamente um grande consolo quando varões distinguidos por sua experiência nos manifestam que não foram em vão os cuidados que Nós temos postos em tais assuntos”.

Meu comentário: a forma de obter equidade e concórdia é principalmente organizar a economia por unidades como: estatais, cooperativas e micro e pequenas empresas.

O termo “empresários” significa principalmente administradores de empresas, unidades produtivas, com conhecimentos técnicos, gerenciais, científicos, mercadológicos etc. Os trabalhadores devem ter estes mesmos conhecimentos, sendo as unidades comunidades, pequenas repúblicas.

No fundo, todos devem ser donos dos meios de produção, no sentido de controladores dos meios de produção. O máximo de autogestão com formas de co-gestão e planificação participativa. 

A Fórmula da Igreja é o máximo de autogestão pessoal e social, combinando o máximo de personalismo com o máximo de socialização. 

A Doutrina da Igreja sobre como devem ser as unidades produtivas da sociedade

Cada unidade produtiva pode ter uma divisão de trabalho, mas deve ser a mínima, no tocante às condições de trabalho, jornada e remuneração.

A extração da mais valia é menor nas pequenas empresas. No entanto, mesmo estas devem ser transformadas, gradualmente, em cooperativas, em unidades comunitárias de trabalho.

O mesmo nas estatais e nas grandes cooperativas. O planejamento geral e setorial deve ser também o máximo possível participativo. Estas ideias estavam nos textos do general Velasco Alvarado, de Alceu, de De Gaulle e outros grandes católicos. 

No fundo, a Igreja aceita a divisão social do trabalho voluntária, com primado do trabalho, com primado do aspecto subjetivo do trabalho (o fato que o trabalhador é uma pessoa). Este ponto foi bem expresso por João Paulo II, na “Laborem”. 

O ideal da Igreja é quebrar a divisão entre trabalho intelectual e braçal.

Elevar o nível cultural, técnico, gerencial do trabalhador no nível dos engenheiros, dos técnicos de formação superior.

A alta produtividade do trabalho deve nascer do desenvolvimento educacional, cultural, técnico, científico, gerencial dos trabalhadores.

Este é o caminho para obter a abundância para todos, não uma falsa abundância, que o finado Lauro Campos atacava, como série de bens inúteis, supérfluos, terciários, prejudiciais e não econômicos. 

Um bom socialismo é um socialismo com liberdade, economia mista, participativo

As multinacionais, os trustes, os cartéis, o capital (meios de produção separados e contrapostos ao trabalhador, cf. Marx), os latifúndios e outras formas jurídicas liberais ferem o direito de todos aos bens necessários.

Este direito natural (orgânico e cultural etc) deve ser assegurado por formas jurídicas como as estruturas cooperativas sujeitas ao bem comum, as pequenas propriedades limitadas em moldes não quiritários e sujeitas ao bem comum, estatais com co-gestão, cooperativas sujeitas a planos participativos, fundações etc.

Para que haja justiça, todas as unidades produtivas etc devem ser organizadas juridicamente com o primado do trabalho, do aspecto subjetivo do trabalho, devendo os trabalhadores controlarem os meios de produção, estando este controle sujeito ao bem comum, a formas de planificação participativa da sociedade.

Estas são algumas das bases de um socialismo comunitário e cooperativo, economia mista, participativo, tendo amparo em bons textos de Marx, Rosa de Luxemburgo e outros autores, como será demonstrado neste blog, em milhares de postagens.

No mesmo sentido, os textos de Clodomir Santos de Morais mostram as ligações entre a autonomia, a auto-organização dos trabalhadores, as formas democráticas de organização da produção e a justiça social. Os Laboratórios organizacionais de Clodomir foram bem acolhidos pelo MST em seus assentamentos.

Suas idéias sobre consciência organizativa difundiram-se na Colômbia, Venezuela, Brasil, Equador, Peru, México, Caribe, Moçambique e outros países africanos.

Marx, no livro I, de “O capital” (ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002, pp. 874-891), escreveu bons textos sobre a propriedade pessoal do trabalhador sobre suas condições de trabalho:

Tendência histórica da acumulação capitalista

“A que se reduz, em última análise, a acumulação primitiva, a origem histórica do capital? Quando não é transformação direta de escravos e servos em assalariados, mera mudança de forma, significa apenas a expropriação dos produtores direitos, isto é, a dissolução da propriedade privada baseada no trabalho pessoal, próprio.

“A propriedade privada, antítese da propriedade coletiva, social, só existe quando o instrumental e as outras condições externas do trabalho pertencem a particulares. Assume caráter diferente conforme esses particulares, sejam trabalhadores ou não. Os matizes inumeráveis que a propriedade privada oferece à primeira vista refletem apenas os estados intermediários que existem entre esses dois extremos, a propriedade privada de trabalhadores e a de não-trabalhadores.

A propriedade privada do trabalhador sobre os meios de produção serve de base à pequena indústria, e esta é uma condição necessária para desenvolver-se a produção social e a livre individualidade do trabalhador.

“Sem dúvida, encontramos essa pequena indústria nos sistemas de escravatura, servidão e em outras relações de dependência. Mas ela só floresce, só desenvolve todas as suas energias, só conquista a adequada forma clássica quando o trabalhador é o proprietário livre das condições de trabalho (meios e objeto de trabalho) com as quais opera, a saber, o camponês é dono da terra que cultiva, e o artesão, dos instrumentos que maneja com perícia.(…)

“A expropriação do produtor direto é levada a cabo com o vandalismo mais implacável, sob o impulso das paixões mais infames, mais vis e mais mesquinhamente odiosas.

A propriedade privada, obtida com o esforço pessoal baseada, por assim dizer, na identificação do trabalhador individual isolado e independente com suas condições de trabalho, é suplantada pela propriedade capitalista, fundamentada na exploração do trabalho alheio, livre apenas formalmente. (…)

“O modo capitalista de apropriar-se dos bens, decorrente do modo capitalista de produção, ou seja, a propriedade privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual, baseada no trabalho próprio.

“Mas a produção capitalista gera sua própria negação, com a fatalidade de um processo natural. É a negação da negação. Esta segunda negação não restabelece a propriedade privada, mas a propriedade individual, tendo por fundamento a conquista da era capitalista: a cooperação e a posse comum do solo e dos meios de produção gerados pelo próprio trabalho. (…)

Por princípio, a economia política confunde duas espécie muito diferentes de propriedade: a que se baseia sobre o trabalho do próprio produtor e a sua antítese direta, a que se fundamenta na exploração do trabalho alheio. Esquece que esta só cresce sobre o túmulo daquela. (pp. 881-882) (…)

Mas não estamos tratando aqui de examinar a situação das colônias. Interessa-nos apenas o segredo que a economia política do Velho Mundo descobriu no Novo e proclamou bem alto: o modo capitalista de produção e de acumulação e, portanto, a propriedade privada capitalista exigem, como condição existencial, o aniquilamento da propriedade privada baseada no trabalho próprio, isto é, a expropriação do trabalhador.” (p. 891).

Meu comentário – o texto transcrito é claro. Marx distinguia, corretamente, entre a “propriedade privada individual, baseada no trabalho próprio” (que seria restabelecida, “restabelece”) e a “propriedade privada capitalista”, que seria abolida, junto com o latifúndio.

O ideal religioso socialista, quase católico, de Saint Simon e dos sansimonianos

O sansimonismo apresentou uma forma de interpretação progressista e, em muitos pontos, correta do cristianismo, especialmente no seu último livro “Novo cristianismo”, de 1825. Este livro inspirou socialistas cristãos como Leroux, Buchez, Enfantin, Considérant e outros socialistas cristãos.

Saint-Simon aceitava até mesmo pontos do cristianismo sobre a possibilidade de comunicação e de aparição de santos ou pessoas mortas (basta lembrar das conversas de Santa Joana d’Arc com santas mortas e do diálogo normal dos católicos com os santos , especialmente com Nossa Senhora, das aparições de Maria etc), o que demostrava, explicitamente, sua fé na imortalidade da alma.

Este ponto da fé não é “espírita”, e sim cristão. Foi o espiritismo cristão que assimilou estes dois pontos corretos do cristianismo, acrescentando, infelizmente, erros como a idéia de “possessão” dos mortos pelos “médiuns”.

Saint-Simon escreveu, no livro “Lettre á son Neveu” (1810):

Carlos Magno me apareceu e me disse: desde que o mundo existe, nenhuma família gozou a honra de produzir um herói e um filósofo de primeira linha; esta honra estava reservada à minha casa. Meu filho, teus sucessos como filósofo igualarão àqueles que obtive como militar e como político; e desapareceu”.

Saint-Simon queria a união (no fundo, a cooperação do Estado e da Igreja) do poder temporal com o espiritual:

O poder temporal e espiritual será exercido por todas as Academias de Ciências de Europa. Um conselho de vinte e um sábios escolhidos pela humanidade inteira, o Conselho de Newton, terá a tarefa de representar a Deus sobre a terra e de dirigir aos homens para seu maior bem”.

A corrente socialista sansimoniana sempre apresentou bons elementos de religiosidade, como pode ser visto nos textos e nas vidas de Leroux, Enfantin, Buchez, Georges Sand, Victor Hugo e Louis Blanc.

As raízes cristãs (e há algumas hebraicas também) são claras no sansimonismo. Por exemplo, no livro “Cartas de um habitante de Genebra a seus contemporâneos”, 1803, Saint-Simon coloca a voz de Deus anunciando: “dia virá em que farei da terra um paraíso”.

Esta idéia é claramente católica (e hebraica). Para provar isso, basta a leitura do Catecismo do Vaticano, na parte sobre os novíssimos, relativo ao “oitavo dia” da criação. Ou o livro de Jean Delumeau, “O que sobrou do paraíso?” (editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003).

Louis Blanc, no livro “Organização do trabalho”, escreveu, desenvolvendo algumas das idéias de Saint-Simon (especialmente a de usar recursos públicos para amparar talentos, trabalho produtivo, pesquisa científica, artes etc, cooperativas, no fundo): “a emancipação dos trabalhadores é uma obra muito complicada (….). É preciso recorrer a toda a força do Estado. O que falta aos proletários, para se emanciparem, são os instrumentos de trabalho. A função do governo é fornecer-lhos. Se tivéssemos de definir o Estado segundo a nossa concepção, responderíamos: o Estado é o banqueiro dos pobres”.

Marx, no documento “Da indiferença em matéria política” (1873), escreveu: “não temos o direito de renegar esses patriarcas do socialismo (Fourier, Owen, Saint-Simon), assim como os químicos atuais vêem nos antigos alquimistas os precursores e os ancestrais”. Correto.

Frise-se: os “patriarcas” (termo bem bíblico), os “ancestrais” e os “alquimistas” do socialismo eram, quase todos, cristãos, deístas ou pessoas com inspiração em idéias religiosas.

Engels escreveu, no prefácio ao livro “A guerra dos camponeses” (editado em Londres, em 1874), uma frase, com base na famosa declaração de Newton sobre os precursores: “o socialismo alemão teórico não esquecerá jamais que se apoiou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e utopia de suas doutrinas, contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras idéias das quais demonstramos presentemente a justeza científica”.

Um bom socialismo nasce do melhor das tradições nacionais mais profundas

José Carlos Mariátegui, um marxista peruano, teve o mérito de ver a importância das tradições comunitárias indígenas, de cunho religioso, para um socialismo peruano, que retome o que havia de bom nas tradições incas. 

Mais tarde, o Sendero Luminoso, mesmo com erros, seguiu em parte estas idéias pela valorização do povo de descendência indígena.

O texto de Mariátegui, “O problema indígena na América Latina” (de 1929, enviado para a 1ª Conferência Comunista Latino-Americana), elogiou os ayllu (aldeias, pequenos municípios) e as terras comunais geridas pelos membros do ayllu. Elogiou também o trabalho cooperativo, através do instituto da minka (semelhante ao mutirão do Brasil), no Peru, na Bolívia, no Equador e no Chile.

Mariátegui foi influenciado pelos textos do idealismo italiano (Benedetto Croce), por Bergson e por Sorel (este, por sua vez, também foi influenciado por Bergson, um filósofo praticamente católico).

Mariátegui, Gramsci e Lukács eram críticos contra a mescla de positivismo e marxismo da II Internacional, especialmente contra o erro crasso do determinismo. Nestes três autores, tal como em Sorel, há um forte componente ético e revolucionário. Enquanto autores como Mariátegui procuravam libertar o povo, escritores asquerosos como Mário Vargas Llosa caíram no pantanal do neoliberalismo, servindo aos interesses das multinacionais.

Diego Rivera, pintor muralista mexicano, também compartilhava o respeito de Mariátegui às tradições indígenas comunitárias (como pode ser visto no texto “O problema indígena no México”, de 1938).

Neste texto, Diego escreveu que o México se tornou independente graças a “acordo entre a sub-burguesia [PEQUENA BURGUESIA] aristocrática colonial mexicana e os poucos chefes insurgentes que restavam, depois de uma terrível luta de 11 anos (o movimento das massas camponesas fora conduzido pelos eclesiásticos e leigos das classes nativas e mestiços oprimidos, como Hidalgo, Morelos e Matamoros, sacerdotes)”.

Conclusão: Diego Rivera apontou corretamente que um bom socialismo nasce do melhor das tradições nacionais. E viu que três padres (Hidalgo, Morelos e Matamoros, os líderes da independência Mexicana) participaram das lutas do povo. As pinturas de Rivera seguem a mesma linha, indígena. Uma tradição que uma boa esquerda deve dar continuidade.

Um bom Estado amplo deve trabalhar junto com a pequena burguesia, o campesinato, os artistas, artesãos, intelectuais, técnicos, profissionais liberais, escritores, servidores públicos. Estes são os aliados corretos dos assalariados. 

Mais precursores cristãos, quase todos católicos, do socialismo, pré marxistas

O padre Heinrich Pesch S.J., jesuíta, citou, corretamente, como precursores da doutrina social da Igreja: Jacques Marat, Jacques Roux, Robespierre, Buchez, Lamennais, Constantin Pecqueur, Francisco Huet, Albert de Mun, La Tour-du-Pin, Antoine e outros.

Buchez escreveu: “o fim humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução; foi no primeiro que se inspirou a segunda”, ou seja, o melhor da Revolução Francesa e do socialismo nascem de ideias cristãs.

Buchez, segundo Charles Gide (considerado o maior teórico do cooperativismo), “foi o fundador das associações cooperativas de produção (1832)”.

Charles Gide também destacou a participação de Lamennais, outro grande católico, que escreveu obras como “A questão do Trabalho” sobre a escravidão moderna do regime assalariado, onde defendeu o cooperativismo, dizendo que “o problema a resolver é chegar a um estado tal que, para o futuro, os operários trabalhem para eles e não para outrem….Dia virá em que ninguém ceifará o campo que não tiver semeado, em que cada um colherá os frutos do seu trabalho”. A inspiração no livro de Isaías (estudado por Marx, num curso na Universidade de Berlim) é clara.

François (Francisco) Huet, no livro “O reino social do cristianismo” (1853), usou o termo “socialismo cristão”, conforme consta no livro de Charles Gide, “História das Doutrinas Econômicas”, onde há um capítulo sobre o cristianismo social.

Gide menciona Huet, tal como menciona Renouvier, Fouillée (este, com Boutroux, soube mostrar a conciliação da liberdade com a necessidade, com a idéia de plano, de Providência divina e humana) e Secrétan, todos dirigistas e intervencionistas. Poderia ter citado Pedro Larousse também, republicano e socialista cristão, bem próximo de Vitor Hugo. 

O próprio Auguste Comte elogia muitíssimo a Igreja, principalmente na Idade Média. No “Tratado de Política Positiva”, I, p. 407, Comte escreveu: “a igualdade original dos homens não é um fato de observação… ela foi afirmada claramente e pela primeira vez pelo cristianismo”. É um certo exagero, pois esta verdade é constatável pela razão somente e já consta no Antigo Testamento e no melhor da literatura pagã clássica. Mas, é bom constatar o apreço de Comte e como o mesmo apontou a conexão do princípio da igualdade com o cristianismo.

Sismondi, Carlyle, Ruskin, Buchez, Lamennais e outras centenas de escritores são precursores cristãos do socialismo.

Denunciaram o liberalismo e o capitalismo.

A influência de Sismondi, Buchez e Carlyle sobre Marx e Engels é clara e documentada. Basta considerar as citações de textos de Sismondi, inclusive no “Manifesto Comunista”. O texto do jovem Engels sobre Carlyle (publicado no jornal “Anais franco-alemães”, no início de 1844) também prova esta influência. Houve também a influência de Buchez sobre Louis Blanc e Lassalle e há ligações deste último com Ketteler.

Karl Marx, na obra “Crítica ao Programa de Gotha”, escreveu que as fontes de Lassalle eram as idéias de Buchez e Louis Blanc, dois socialistas cristãos, com boa religiosidade. E Marx frisou principalmente Buchez, socialista católico. 

Eduardo Sanz y Escartín, nascido em 1855, foi outro economista espanhol que defendeu idéias de proteção social aos trabalhadores, colonização interior, municipalização dos serviços públicos e seguros sociais obrigatórios. Escreveu o livro “O Estado y la reforma social” (1896) e “La questión económica” (1890).

— Updated: 16/11/2018 — Total visits: 40,905 — Last 24 hours: 55 — On-line: 0
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