Arquivos para : A “Fórmula” Buchez: Estado deve criar cooperativas. Estado deve promover organização do trabalho em cooperativas, unindo autogestão, co-gestão e gestão social participativa

O próprio termo “socialismo” nasceu em meios católicos, lá por 1820, bem antes de Marx

A “doutrina social” da Igreja, exposta por autores como Buchez e Keteller, tem conteúdos semelhantes com a teologia da libertação. No fundo, a Teologia da libertação é apenas um ponto na Torrente da Teologia, mas um ponto luminoso. 

O termo “socialismo” nasceu em águas católicas italianas, nasceu nos meios religiosos italianos, lá por 1820. Depois, foi ressuscitado por Leroux e alguns owenistas religiosos, em 1827. Também foi a linha de Saint-Simon, a linha de um socialismo inspirado nas idéias cristãs, expostas em seu último livro de cristianismo social.

Pierre Leroux (1798-1871) continuou a linha de Saint-Simon, tendo, em paralelo, a ação de homens como Buchez e Etienne Cabet, que foram grandes cristãos.

Pierre Leroux, católico, foi o principal divulgador do termo, usando-o a partir de 1832.

Os seguidores de Fourier também passaram a usar esta palavra, para se autodenominarem, especialmente Victor Considerant (cujos textos cristãos mereceriam ser reunidos para serem lidos nas CEBs).

Owen consagrou o termo “socialismo” em 1841. Os livros de Owen são éticos e têm um fundo religioso, especialmente seus primeiros e últimos textos, de utopia social e religiosa. O mesmo ocorre com Considerant, Leroux e Fourier.

Os textos de Leroux são os mais importantes na difusão do socialismo pré-marxista, de feitio cristão. Os títulos de seus livros falam por si mesmo: “Do cristianismo e de sua origem democrática”, “Uma religião nacional ou do culto” (1844), “Da plutocracia ou dos governos dos ricos” (1848) e outras.

Leroux era sansimoniano católico e se inspirava nos textos de Saint-Simon, que era, por sua vez, também um grande autor socialista cristão, que se inspirou nos textos de Bonald (e de De Maistre), sobre o primado da sociedade.

A religiosidade de Saint-Simon é mais do que explícita e o mesmo vale para Enfantin, seu principal seguidor.

François Huet, um católico social, no livro “O reino social do cristianismo” (1853, livro lido por Marx), usava a expressão “socialismo cristão”. Numa linha paralela com Leroux, houve os textos de Buchez.

No Brasil, o socialismo também nasce na forma utópica, cristã. O general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Bolivar, escreveu o livro “O socialismo”. Além disso, homens como Antônio Pedro Figueiredo, o principal ideólogo da Revolução Praieira, em 1848, na cidade de Recife, tentaram colocar em prática as idéias de uma democracia social. O livro de Tiago Adão Lara, “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo” (São João del Rei MG, Ed. Faculdade Dom Bosco, 1977), ilustra bem a presença do socialismo cristão na vida política brasileira.

Mais tarde, há homens como João Mangabeira, Alceu, San Thiago Dantas, Pontes de Miranda e centenas de outros escritores. O velho Pontes de Miranda morreu se auto-declarando como católico e socialista, a mesma linha de Alceu, Dom Hélder e outros luminares da Igreja, como Fábio Comparato. 

Buchez (1796-1865) era discípulo de Saint-Simon (1760-1825). Simon foi um cristão socialista, com firmes crenças religiosas. Saint-Simon não usava o termo “socialista”, e sim “cristão”. Sua última obra tem o título “Novo cristianismo” e é a mais religiosa e avançada de sua bibliografia. Os sansimonianos eram todos religiosos, a começar por Enfantin.

Tal como seu mestre imediato, Saint-Simon, Buchez unia catolicismo e sansimonismo. A influência de Buchez foi tamanha que foi chamado, por Marx, de “o chefe do partido socialista católico”. Buchez ensinava que “o objetivo humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução [Francesa]: o primeiro é que inspirou o segundo” (cf. “Traité de la politique”, t. III, p. 504).

Marx e Engels fizeram dezenas de referências aos textos de Buchez, em cartas e livros.

Marx o cita desde o livro “Sobre a questão judaica” (texto de abril ou maio de 1843), como historiador da Revolução Francesa. Marx o chamava de chefe da escola francesa católica-revolucionária, do “partido socialista católico”.

Ao lado de Buchez militavam homens como Pierre Pradié (1816-1892), um advogado de esquerda, republicano, deputado na Assembléia Geral da 2ª República, tendo Buchez presidido a Assembléia, em 1848.

Desde 1831, Buchez, em várias obras, como o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso” (1838-1840), desenvolveu suas idéias sobre cooperativas de produção com apoio do Estado. Esta foi a fórmula usada por Louis Blanc e por Lassale, como reconheceu Marx, no texto “Crítica ao Programa de Gotha”.

Buchez tem também o mérito de ter sido o precursor da defesa das cooperativas de produção. Seu trabalho não era apenas teórico, pois, em 1834, ele auxiliou a criação de uma cooperativa de trabalhadores, que continuou a existir até 1873. A cooperativa de Rochedale, para comparar, era apenas de consumo e foi criada em 1844, em Manchester.

Numa linha paralela, Lamennais defendeu o cooperativismo com apoio de um Estado democrático, em obras como “A questão do trabalho” (1848). A idéia de cooperativas com o apoio do Estado também foi adotada por Luís Blanc, que era teísta, tal como por Ledru-Rollin. Num parêntese, é bom recordar que no próprio texto do “Manifesto Comunista”, Marx e Engels consideraram o “partido democrático” e popular de Louis Blanc, aliado e discípulo de Buchez, como o partido aliado do Partido ligado a Marx, na França.

A tese da difusão das cooperativas com apoio estatal está presente também nos textos de Etienne Cabet e reaparece, mais tarde, nos textos de Lassalle, de Ketteler e dos socialistas cristãos, na Inglaterra, influenciados por Lamennais e outros.

A fórmula de Buchez de cooperativismo com intervenção e apoio do Estado consta também do “Programa de Gotha” de 1875 e também no “Manifesto” da 1ª Internacional.

Luís Blanc foi teísta durante toda a vida e há autores que consideram que foi ele que cunhou o termo “capitalismo”, para significar o sistema econômico liberal.

Blanc e Victor Hugo eram amigos, teístas e socialistas democráticos, adotando a mesma fórmula de Buchez. No século XX, o cooperativismo foi bem defendido por Antônio Sérgio, um socialista cooperativista.

Conclusão: Karl Marx, em carta de 13.10.1868, a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale, tal como em outros textos (“Crítica ao programa de Gotha”), reconheceu que Buchez foi o precursor das idéias de Lassale. Marx citou Buchez em várias obras como “A questão judaica”, “A ideologia alemã”, “A sagrada família”, “Crítica ao Programa de Gotha” e em outras, mostrando, assim, que recebeu também a influência das idéias de Buchez.

Em várias obras, Marx e Engels reconheceram que o núcleo do pensamento de Lassale tinha origem em Buchez e, por isso, chamaram Lassale de plagiário.

O próprio Schweitzer, sucessor de Lassalle, elogiava a santidade de Ketteler e o considerava como aliado. Schweitzer escreveu obras como “O espírito do tempo e o cristianismo” (1861) e “Lucinda” (1864).

Bebel, em sua autobiografia, “Minha vida” (3 vols., Stuttgart, 1910-1914), lembra que Schweitzer usava o nome de Ketteler para fortalecer o partido fundado por Lassalle.

Linhas da Doutrina social da Igreja. Buchez foi um grande precursor

O direito natural primário exige a difusão dos bens, de acordo com nossas necessidades (cf. consta em “Atos dos Apóstolos”, capítulos 2 e 4).

Justiça social é igual a realização do bem comum, é o bem comum realizado, operando.

O direito natural secundário exige que sejamos bons gestores (controladores, co-criadores, co-redentores, planejadores, cultivadores, pastores do Universo), ou seja, administradores e distribuidores (cf. lição de Cristo, de São Tomás de Aquino e de São Lucas), controlando os bens mediante o trabalho pessoal, e com limites postos pelo bem comum (por formas de planejamento participativo).

A doutrina da Igreja aprova e recomenda a autogestão, a pequena propriedade limitada e regrada (uma forma de controle dos trabalhadores sobre os bens), a co-gestão (em geral como via para a autogestão, cooperativismo geral, local e setorial, ou como combinação da gestão dos trabalhadores com a planificação participativa) e a planificação pública com gestão participativa.

A Igreja recomenda, com base nos princípios da autodeterminação (da soberania popular, inclusive com o domínio eminente do povo) e da subsidiariedade, mecanismos como: organização de bairros, organização de distritos, organização de municípios, de regiões, federalismo, organização continental e uma República mundial (um governo mundial participativo, esboçado pelo abade de Saint-Pierre, padre Francisco de Vitória, padre Taparelli e por João XXIII).

Leão XIII e as classes sociais

Leão XIII foi núncio na Bélgica, onde escreveu ótimas Pastorais sociais. Depois, tornou-se Papa, em 1878. Ajudou na formação das leis sociais e da Previdência, no governo de Bismarck, tal como trabalhou para a ligação entre católicos e republicanos, na França. Foi abolicionista, ajudando a abolição no Brasil etc.

Leão XIII escreveu a “Rerum novarum”, encíclica social, em 1891, defendendo os trabalhadores.

O Cardeal Gibbons, dos EUA, lhe dirigiu felicitações pela “Rerum”. O mesmo Gibbons que defendeu os Cavaleiros do Trabalho, nos EUA, a primeira organização operária dos EUA (cf. Marx e Lenin) associação que, em 1886, os bispos católicos dos EUA tinham autorizado, e foi presidida por um católico.

O Cardeal Simeoni, em carta de 29.08.1888, autorizou também os Cavaleiros do Trabalho.

Leão XIII escreveu a carta “Multiplex causa” (de 09.07.1891), ao cardeal Gibbons, em resposta à felicitação: “Havendo-nos proposto ao escrevê-lo que se implantasse a equidade nas relações entre assalariados e empresários, atender às necessidades dos fracos e, uma vez estabelecida a concórdia entre os cidadãos, contribuir também para a tranquilidade pública, recebemos efetivamente um grande consolo quando varões distinguidos por sua experiência nos manifestam que não foram em vão os cuidados que Nós temos postos em tais assuntos”.

Meu comentário: a forma de obter equidade e concórdia é principalmente organizar a economia por unidades como: estatais, cooperativas e micro e pequenas empresas.

O termo “empresários” significa principalmente administradores de empresas, unidades produtivas, com conhecimentos técnicos, gerenciais, científicos, mercadológicos etc. Os trabalhadores devem ter estes mesmos conhecimentos, sendo as unidades comunidades, pequenas repúblicas.

No fundo, todos devem ser donos dos meios de produção, no sentido de controladores dos meios de produção. O máximo de autogestão com formas de co-gestão e planificação participativa. 

A Fórmula da Igreja é o máximo de autogestão pessoal e social, combinando o máximo de personalismo com o máximo de socialização. 

A Doutrina da Igreja sobre como devem ser as unidades produtivas da sociedade

Cada unidade produtiva pode ter uma divisão de trabalho, mas deve ser a mínima, no tocante às condições de trabalho, jornada e remuneração.

A extração da mais valia é menor nas pequenas empresas. No entanto, mesmo estas devem ser transformadas, gradualmente, em cooperativas, em unidades comunitárias de trabalho.

O mesmo nas estatais e nas grandes cooperativas. O planejamento geral e setorial deve ser também o máximo possível participativo. Estas ideias estavam nos textos do general Velasco Alvarado, de Alceu, de De Gaulle e outros grandes católicos. 

No fundo, a Igreja aceita a divisão social do trabalho voluntária, com primado do trabalho, com primado do aspecto subjetivo do trabalho (o fato que o trabalhador é uma pessoa). Este ponto foi bem expresso por João Paulo II, na “Laborem”. 

O ideal da Igreja é quebrar a divisão entre trabalho intelectual e braçal.

Elevar o nível cultural, técnico, gerencial do trabalhador no nível dos engenheiros, dos técnicos de formação superior.

A alta produtividade do trabalho deve nascer do desenvolvimento educacional, cultural, técnico, científico, gerencial dos trabalhadores.

Este é o caminho para obter a abundância para todos, não uma falsa abundância, que o finado Lauro Campos atacava, como série de bens inúteis, supérfluos, terciários, prejudiciais e não econômicos. 

Um bom socialismo é um socialismo com liberdade, economia mista, participativo

As multinacionais, os trustes, os cartéis, o capital (meios de produção separados e contrapostos ao trabalhador, cf. Marx), os latifúndios e outras formas jurídicas liberais ferem o direito de todos aos bens necessários.

Este direito natural (orgânico e cultural etc) deve ser assegurado por formas jurídicas como as estruturas cooperativas sujeitas ao bem comum, as pequenas propriedades limitadas em moldes não quiritários e sujeitas ao bem comum, estatais com co-gestão, cooperativas sujeitas a planos participativos, fundações etc.

Para que haja justiça, todas as unidades produtivas etc devem ser organizadas juridicamente com o primado do trabalho, do aspecto subjetivo do trabalho, devendo os trabalhadores controlarem os meios de produção, estando este controle sujeito ao bem comum, a formas de planificação participativa da sociedade.

Estas são algumas das bases de um socialismo comunitário e cooperativo, economia mista, participativo, tendo amparo em bons textos de Marx, Rosa de Luxemburgo e outros autores, como será demonstrado neste blog, em milhares de postagens.

No mesmo sentido, os textos de Clodomir Santos de Morais mostram as ligações entre a autonomia, a auto-organização dos trabalhadores, as formas democráticas de organização da produção e a justiça social. Os Laboratórios organizacionais de Clodomir foram bem acolhidos pelo MST em seus assentamentos.

Suas idéias sobre consciência organizativa difundiram-se na Colômbia, Venezuela, Brasil, Equador, Peru, México, Caribe, Moçambique e outros países africanos.

Marx, no livro I, de “O capital” (ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002, pp. 874-891), escreveu bons textos sobre a propriedade pessoal do trabalhador sobre suas condições de trabalho:

Tendência histórica da acumulação capitalista

“A que se reduz, em última análise, a acumulação primitiva, a origem histórica do capital? Quando não é transformação direta de escravos e servos em assalariados, mera mudança de forma, significa apenas a expropriação dos produtores direitos, isto é, a dissolução da propriedade privada baseada no trabalho pessoal, próprio.

“A propriedade privada, antítese da propriedade coletiva, social, só existe quando o instrumental e as outras condições externas do trabalho pertencem a particulares. Assume caráter diferente conforme esses particulares, sejam trabalhadores ou não. Os matizes inumeráveis que a propriedade privada oferece à primeira vista refletem apenas os estados intermediários que existem entre esses dois extremos, a propriedade privada de trabalhadores e a de não-trabalhadores.

A propriedade privada do trabalhador sobre os meios de produção serve de base à pequena indústria, e esta é uma condição necessária para desenvolver-se a produção social e a livre individualidade do trabalhador.

“Sem dúvida, encontramos essa pequena indústria nos sistemas de escravatura, servidão e em outras relações de dependência. Mas ela só floresce, só desenvolve todas as suas energias, só conquista a adequada forma clássica quando o trabalhador é o proprietário livre das condições de trabalho (meios e objeto de trabalho) com as quais opera, a saber, o camponês é dono da terra que cultiva, e o artesão, dos instrumentos que maneja com perícia.(…)

“A expropriação do produtor direto é levada a cabo com o vandalismo mais implacável, sob o impulso das paixões mais infames, mais vis e mais mesquinhamente odiosas.

A propriedade privada, obtida com o esforço pessoal baseada, por assim dizer, na identificação do trabalhador individual isolado e independente com suas condições de trabalho, é suplantada pela propriedade capitalista, fundamentada na exploração do trabalho alheio, livre apenas formalmente. (…)

“O modo capitalista de apropriar-se dos bens, decorrente do modo capitalista de produção, ou seja, a propriedade privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual, baseada no trabalho próprio.

“Mas a produção capitalista gera sua própria negação, com a fatalidade de um processo natural. É a negação da negação. Esta segunda negação não restabelece a propriedade privada, mas a propriedade individual, tendo por fundamento a conquista da era capitalista: a cooperação e a posse comum do solo e dos meios de produção gerados pelo próprio trabalho. (…)

Por princípio, a economia política confunde duas espécie muito diferentes de propriedade: a que se baseia sobre o trabalho do próprio produtor e a sua antítese direta, a que se fundamenta na exploração do trabalho alheio. Esquece que esta só cresce sobre o túmulo daquela. (pp. 881-882) (…)

Mas não estamos tratando aqui de examinar a situação das colônias. Interessa-nos apenas o segredo que a economia política do Velho Mundo descobriu no Novo e proclamou bem alto: o modo capitalista de produção e de acumulação e, portanto, a propriedade privada capitalista exigem, como condição existencial, o aniquilamento da propriedade privada baseada no trabalho próprio, isto é, a expropriação do trabalhador.” (p. 891).

Meu comentário – o texto transcrito é claro. Marx distinguia, corretamente, entre a “propriedade privada individual, baseada no trabalho próprio” (que seria restabelecida, “restabelece”) e a “propriedade privada capitalista”, que seria abolida, junto com o latifúndio.

O ideal religioso socialista, quase católico, de Saint Simon e dos sansimonianos

O sansimonismo apresentou uma forma de interpretação progressista e, em muitos pontos, correta do cristianismo, especialmente no seu último livro “Novo cristianismo”, de 1825. Este livro inspirou socialistas cristãos como Leroux, Buchez, Enfantin, Considérant e outros socialistas cristãos.

Saint-Simon aceitava até mesmo pontos do cristianismo sobre a possibilidade de comunicação e de aparição de santos ou pessoas mortas (basta lembrar das conversas de Santa Joana d’Arc com santas mortas e do diálogo normal dos católicos com os santos , especialmente com Nossa Senhora, das aparições de Maria etc), o que demostrava, explicitamente, sua fé na imortalidade da alma.

Este ponto da fé não é “espírita”, e sim cristão. Foi o espiritismo cristão que assimilou estes dois pontos corretos do cristianismo, acrescentando, infelizmente, erros como a idéia de “possessão” dos mortos pelos “médiuns”.

Saint-Simon escreveu, no livro “Lettre á son Neveu” (1810):

Carlos Magno me apareceu e me disse: desde que o mundo existe, nenhuma família gozou a honra de produzir um herói e um filósofo de primeira linha; esta honra estava reservada à minha casa. Meu filho, teus sucessos como filósofo igualarão àqueles que obtive como militar e como político; e desapareceu”.

Saint-Simon queria a união (no fundo, a cooperação do Estado e da Igreja) do poder temporal com o espiritual:

O poder temporal e espiritual será exercido por todas as Academias de Ciências de Europa. Um conselho de vinte e um sábios escolhidos pela humanidade inteira, o Conselho de Newton, terá a tarefa de representar a Deus sobre a terra e de dirigir aos homens para seu maior bem”.

A corrente socialista sansimoniana sempre apresentou bons elementos de religiosidade, como pode ser visto nos textos e nas vidas de Leroux, Enfantin, Buchez, Georges Sand, Victor Hugo e Louis Blanc.

As raízes cristãs (e há algumas hebraicas também) são claras no sansimonismo. Por exemplo, no livro “Cartas de um habitante de Genebra a seus contemporâneos”, 1803, Saint-Simon coloca a voz de Deus anunciando: “dia virá em que farei da terra um paraíso”.

Esta idéia é claramente católica (e hebraica). Para provar isso, basta a leitura do Catecismo do Vaticano, na parte sobre os novíssimos, relativo ao “oitavo dia” da criação. Ou o livro de Jean Delumeau, “O que sobrou do paraíso?” (editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003).

Louis Blanc, no livro “Organização do trabalho”, escreveu, desenvolvendo algumas das idéias de Saint-Simon (especialmente a de usar recursos públicos para amparar talentos, trabalho produtivo, pesquisa científica, artes etc, cooperativas, no fundo): “a emancipação dos trabalhadores é uma obra muito complicada (….). É preciso recorrer a toda a força do Estado. O que falta aos proletários, para se emanciparem, são os instrumentos de trabalho. A função do governo é fornecer-lhos. Se tivéssemos de definir o Estado segundo a nossa concepção, responderíamos: o Estado é o banqueiro dos pobres”.

Marx, no documento “Da indiferença em matéria política” (1873), escreveu: “não temos o direito de renegar esses patriarcas do socialismo (Fourier, Owen, Saint-Simon), assim como os químicos atuais vêem nos antigos alquimistas os precursores e os ancestrais”. Correto.

Frise-se: os “patriarcas” (termo bem bíblico), os “ancestrais” e os “alquimistas” do socialismo eram, quase todos, cristãos, deístas ou pessoas com inspiração em idéias religiosas.

Engels escreveu, no prefácio ao livro “A guerra dos camponeses” (editado em Londres, em 1874), uma frase, com base na famosa declaração de Newton sobre os precursores: “o socialismo alemão teórico não esquecerá jamais que se apoiou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e utopia de suas doutrinas, contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras idéias das quais demonstramos presentemente a justeza científica”.

Um bom socialismo nasce do melhor das tradições nacionais mais profundas

José Carlos Mariátegui, um marxista peruano, teve o mérito de ver a importância das tradições comunitárias indígenas, de cunho religioso, para um socialismo peruano, que retome o que havia de bom nas tradições incas. 

Mais tarde, o Sendero Luminoso, mesmo com erros, seguiu em parte estas idéias pela valorização do povo de descendência indígena.

O texto de Mariátegui, “O problema indígena na América Latina” (de 1929, enviado para a 1ª Conferência Comunista Latino-Americana), elogiou os ayllu (aldeias, pequenos municípios) e as terras comunais geridas pelos membros do ayllu. Elogiou também o trabalho cooperativo, através do instituto da minka (semelhante ao mutirão do Brasil), no Peru, na Bolívia, no Equador e no Chile.

Mariátegui foi influenciado pelos textos do idealismo italiano (Benedetto Croce), por Bergson e por Sorel (este, por sua vez, também foi influenciado por Bergson, um filósofo praticamente católico).

Mariátegui, Gramsci e Lukács eram críticos contra a mescla de positivismo e marxismo da II Internacional, especialmente contra o erro crasso do determinismo. Nestes três autores, tal como em Sorel, há um forte componente ético e revolucionário. Enquanto autores como Mariátegui procuravam libertar o povo, escritores asquerosos como Mário Vargas Llosa caíram no pantanal do neoliberalismo, servindo aos interesses das multinacionais.

Diego Rivera, pintor muralista mexicano, também compartilhava o respeito de Mariátegui às tradições indígenas comunitárias (como pode ser visto no texto “O problema indígena no México”, de 1938).

Neste texto, Diego escreveu que o México se tornou independente graças a “acordo entre a sub-burguesia [PEQUENA BURGUESIA] aristocrática colonial mexicana e os poucos chefes insurgentes que restavam, depois de uma terrível luta de 11 anos (o movimento das massas camponesas fora conduzido pelos eclesiásticos e leigos das classes nativas e mestiços oprimidos, como Hidalgo, Morelos e Matamoros, sacerdotes)”.

Conclusão: Diego Rivera apontou corretamente que um bom socialismo nasce do melhor das tradições nacionais. E viu que três padres (Hidalgo, Morelos e Matamoros, os líderes da independência Mexicana) participaram das lutas do povo. As pinturas de Rivera seguem a mesma linha, indígena. Uma tradição que uma boa esquerda deve dar continuidade.

Um bom Estado amplo deve trabalhar junto com a pequena burguesia, o campesinato, os artistas, artesãos, intelectuais, técnicos, profissionais liberais, escritores, servidores públicos. Estes são os aliados corretos dos assalariados. 

Mais precursores cristãos, quase todos católicos, do socialismo, pré marxistas

O padre Heinrich Pesch S.J., jesuíta, citou, corretamente, como precursores da doutrina social da Igreja: Jacques Marat, Jacques Roux, Robespierre, Buchez, Lamennais, Constantin Pecqueur, Francisco Huet, Albert de Mun, La Tour-du-Pin, Antoine e outros.

Buchez escreveu: “o fim humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução; foi no primeiro que se inspirou a segunda”, ou seja, o melhor da Revolução Francesa e do socialismo nascem de ideias cristãs.

Buchez, segundo Charles Gide (considerado o maior teórico do cooperativismo), “foi o fundador das associações cooperativas de produção (1832)”.

Charles Gide também destacou a participação de Lamennais, outro grande católico, que escreveu obras como “A questão do Trabalho” sobre a escravidão moderna do regime assalariado, onde defendeu o cooperativismo, dizendo que “o problema a resolver é chegar a um estado tal que, para o futuro, os operários trabalhem para eles e não para outrem….Dia virá em que ninguém ceifará o campo que não tiver semeado, em que cada um colherá os frutos do seu trabalho”. A inspiração no livro de Isaías (estudado por Marx, num curso na Universidade de Berlim) é clara.

François (Francisco) Huet, no livro “O reino social do cristianismo” (1853), usou o termo “socialismo cristão”, conforme consta no livro de Charles Gide, “História das Doutrinas Econômicas”, onde há um capítulo sobre o cristianismo social.

Gide menciona Huet, tal como menciona Renouvier, Fouillée (este, com Boutroux, soube mostrar a conciliação da liberdade com a necessidade, com a idéia de plano, de Providência divina e humana) e Secrétan, todos dirigistas e intervencionistas. Poderia ter citado Pedro Larousse também, republicano e socialista cristão, bem próximo de Vitor Hugo. 

O próprio Auguste Comte elogia muitíssimo a Igreja, principalmente na Idade Média. No “Tratado de Política Positiva”, I, p. 407, Comte escreveu: “a igualdade original dos homens não é um fato de observação… ela foi afirmada claramente e pela primeira vez pelo cristianismo”. É um certo exagero, pois esta verdade é constatável pela razão somente e já consta no Antigo Testamento e no melhor da literatura pagã clássica. Mas, é bom constatar o apreço de Comte e como o mesmo apontou a conexão do princípio da igualdade com o cristianismo.

Sismondi, Carlyle, Ruskin, Buchez, Lamennais e outras centenas de escritores são precursores cristãos do socialismo.

Denunciaram o liberalismo e o capitalismo.

A influência de Sismondi, Buchez e Carlyle sobre Marx e Engels é clara e documentada. Basta considerar as citações de textos de Sismondi, inclusive no “Manifesto Comunista”. O texto do jovem Engels sobre Carlyle (publicado no jornal “Anais franco-alemães”, no início de 1844) também prova esta influência. Houve também a influência de Buchez sobre Louis Blanc e Lassalle e há ligações deste último com Ketteler.

Karl Marx, na obra “Crítica ao Programa de Gotha”, escreveu que as fontes de Lassalle eram as idéias de Buchez e Louis Blanc, dois socialistas cristãos, com boa religiosidade. E Marx frisou principalmente Buchez, socialista católico. 

Eduardo Sanz y Escartín, nascido em 1855, foi outro economista espanhol que defendeu idéias de proteção social aos trabalhadores, colonização interior, municipalização dos serviços públicos e seguros sociais obrigatórios. Escreveu o livro “O Estado y la reforma social” (1896) e “La questión económica” (1890).

O Estado deve apoiar a organização do trabalho em cooperativas, em unidades produtivas com autogestão, co-gestão e controle social

Flora Tristan (n. 1803) foi outra grande socialista cristã, pré marxista, filha de um peruano. Também prova que o socialismo nasceu cristão (e judaico), pré-MARXISTA, antes de Marx. Marx fez uma síntese, sendo um grande socialista, de ideias cristãs, no fundo (cf. Dussel). 

Flora Tristan defendeu ideias baseadas na Fórmula Buchez, o Estado ajudar os trabalhadores a formarem cooperativas, a mesma ideia depois defendida por Luís Blanc e por Ferdinand Lassalle, e que foi acolhida no “Manifesto” de Marx e nos documentos bases da I Internacional.

Conforme consta no livro de Maximilien Rubel, “Karl Marx – ensayo de biografia intelectual” (Ed. Paidos, Buenos Aires, 1970, p. 90), Flora Tristan viajou várias vezes para a Inglaterra, onde se encontrava com católicos irlandeses, como O´Connor e O´Brien e outros cartistas, todos com ampla religiosidade.

Flora Tristan aprendeu bastante com o movimento dos irlandeses católicos. E aprendeu muito com a luta dos poloneses católicos contra o czarismo e com os cartistas.

Os poloneses católicos (e o mesmo vale para os judeus poloneses) sempre lutaram contra países imperialistas (Rússia, Prússia e Áustria). Situada entre a Rússia e a Prússia, tendo embaixo a Áustria, sempre estiveram em estado de rebelião. Frederico II, da Prússia, o amigo de Voltaire, dividiu a Polônia no século XVIII. Depois, em 1815, a Rússia praticamente a anexou. Em 1830, o Czar tentou enviar tropas polonesas contra os revolucionários franceses e belgas.

A Bélgica se emancipou da Holanda, em 1830, movimento que teve a participação efetiva dos católicos, democratizando mais a Bélgica e, depois, o Estado belga deu um bom exemplo construindo ferrovias, ou seja, intervindo diretamente na produção, infringindo “dogmas” do liberalismo econômico.

Diante das tropas do Czar, houve a insurreição em Cracóvia, em 1830 e o Parlamento polonês “destitui” a dinastia russa. Em toda a Europa há movimentos de simpatia pelos poloneses, mas nenhum país os ajuda efetivamente. Em 1832, a Polônia se torna uma província russa e milhares de poloneses emigram, a maior parte para a França. Em 1846, há outra insurreição em Cracóvia e desta vez é a Áustria que anexa a cidade de Cracóvia. Em 1863, há outra insurreição que fracassa e gera a morte e a prisão de milhares de patriotas. Em 1864, a Rússia proíbe até a língua polonesa.

Católicos e judeus lutavam lado a lado contra o czarismo, tal como lutaram juntos, dentro do Partido Democrático, nos EUA, apoiando o New Deal e a luta contra o racismo e pelo Estado social. 

No século XIX, os católicos irlandeses, poloneses e da Renânia foram expoentes em prol da Democracia e do Estado social. 

Quando Marx chegou a Paris, Ruge o aconselhou a conhecer Proudhon e as “mulheres”, Flora Tristan e George Sand, pois “elas são mais radicais que Louis Blanc e Lamartine” (cf. a carta de Ruge a Marx, de 01 de dezembro de 1843).

Marx citou Flora Tristan no livro “A Sagrada Família”, escrito no final de 1843. Ruge era ardentemente democrata, e por isso foi amigo de Marx por vários anos (desde 1841 ou antes e permaneceu em parte amigo mesmo após a briga contra Marx, em 1844).

Os palácios operários de Flora Tristan, tal como os falanstérios de Fourier e as fazendas com grandes casas comuns de Owen, tinham como precursoras os mosteiros e as comunidades religiosas (shakers etc).

Queriam unir campo e cidade, fortalecendo as pequenas cidades, formando agrovilas, o mesmo plano do MST, hoje, em linhas gerais. 

Vale a pena lembrar que nos mosteiros e conventos os abades eram eleitos democraticamente, com rodízio e com eleições periódicas, como também foi bem lembrado por Frei Betto, em um texto onde defende que o socialismo é co-natural aos religiosos (pelo voto de pobreza, pela ojeriza à propriedade privada, pela escolha dos abades, o espírito colegial etc).

Flora Tristan seguiu, explicitamente, os exemplos do grande católico Daniel O´Connor, um grande líder católico, tal como dos cartistas. A luta dos católicos irlandeses deu o exemplo para a organização dos cartistas e a que tentou Flora Tristan, que morreu com pouco mais de 41 anos, e ainda assim é precursora de Marx em vários pontos, especialmente na terminologia.

As idéias de organizar ou constituir a classe dos trabalhadores no país e internacionalmente foram divulgadas por Flora, que teve como exemplo Daniel O´Connor e também os Companheiros, uma organização gremial de artesãos muito antiga e ligada à Igreja.

Flora Tristan leu e conversou com Agricole Perdiguier, autor do “Livre du Compagnonnage”, de 1840. A instituição “compagnonnage”, Companheiros, remonta à Idade Média. Daí, Flora lançou o movimento “União Operária”, possivelmente uma das maiores precursoras da Internacional, da ideia de organizar os trabalhadores no prisma internacional.

Flora também conheceu François Villegardelle, editor das obras de Campanella e de Morelly, o que também demonstra bem a origem cristã católica de suas idéias, pois Campanella e Morelly baseavam suas idéias na Bíblia e nos Santos Padres. Os palácios operários teriam 3.000 trabalhadores, parecidos com os falanstérios de Owen.

Flora, seguindo as ideias de Buchez (e de Leroux) defendeu a inalienabilidade dos bens dos palácios operários, ou seja a limitação do elemento mais importante do direito de propriedade quiritário e liberal, a disponibilidade dos bens. A inalienabilidade significava a retirada do bem do mercado, da apropriação privada, e a vinculação do mesmo a formas de gestão colegial (em geral eleitas) e a funções sociais (atender às necessidades de pessoas).

A inalienabilidade (e sua vinculação a funções sociais, a atender às necessidades materiais e espirituais dos pobres, dos necessitados) era o instituto jurídico aplicado aos bens da Igreja (e do Estado) – mosteiros, conventos, paróquias, orfanatos, hospitais, as instituições de caridade e de quase todos os bens da Igreja.

Qualquer instituição ou unidade produtiva com bens alienáveis, com o trabalho, vai progredindo, pois os retornos são re-investidos, não sendo divididos, ficando os trabalhadores no controle dos bens produtivos e estes sob controle social-estatal. 

Marx, em “O capital”, seguindo textos do grande católico William Cobbett, criticou a usurpação dos bens da Igreja, apontando a usurpação destes bens, tal como a usurpação da propriedade comunitária (bens inalienáveis, como os mosteiros e a ideia de Buchez) dos camponeses, como uma das causas da acumulação primitiva dos capitais dos capitalistas.

A inalienabildade dos bens e sua vinculação às necessidades sociais é também a base jurídica das fundações e cooperativas (daí o plano do padre católico Renard de transformar todas as unidades produtivas em fundações, que são patrimônios dotados de personalidade jurídica e vinculados a fins sociais) e das cooperativas. 

Friso que o socialista católico Buchez foi o principal pensador a ressaltar os fundos indivisíveis na base das cooperativas, ponto que os Pioneiros de Rochdale também seguiram.

O instituto dos “bens de mão morta” e as “sociedades perpétuas” significam que as associações  e unidades produtivas cooperativas operárias iriam gerir os meios de produção de forma institucional e ainda com funções sociais (deveres para com o bem comum, sujeição à soberania popular e ao domínio eminente). Eram esboços de formas jurídicas cooperativas vinculadas a funções sociais, ao bem comum.

Buchez lembrou expressamente a inalienabilidade como base de suas unidades produtivas operárias (tal como Louis Blanc).

Nos Princípios (regras fundamentais do) de cooperativismo esta inalienabilidade é conhecida como “fundos indivisíveis” das cooperativas. De fato, as chances de superar o patronato, pelo menos o grande, estão nestas associações operárias, com fundos indivisíveis, combinadas com o apoio estatal e a planificação participativa.

Ota Sik, o principal líder intelectual da “Primavera de Praga” e Ministro da Economia de Alexander Dubcek, em 1968, também destaca a importância de unidades produtivas com fundos indivisíveis, autogeridas, sujeitas a formas de planejamento participativo.

Em Praga, na antiga Tchecoslováquia, em 1968, houve um esboço de um “socialismo de rosto humano” (elogiado por Hobsbawm, no livro “Tempos interessantes”, da Companhia das Letras, 2002, onde este autor também exalta o comunismo italiano, pela ênfase na democracia etc). Infelizmente, os tanques soviéticos esmagaram a Primavera de Praga.

No entanto, surgiram outros movimentos marxistas que se aproximaram das idéias da Igreja: o austromarxismo (Max Adler, Otto Bauer, Rudolf Hilferding e outros), formas de marxismo humanistas, a Escola de Frankfurt, o eurocomunismo, alguns idéias boas de Gorbachov, o socialismo autogestionário (o iugoslavo e outros modelos), o socialismo ligado aos ideais de José Martí de Fidel Castro e outros.

Autores como Henri Lefebvre também se aproximaram das teses cristãs, especialmente em livro como “Posição: contra os tecnocratas” (1967), ou em “Lógica formal, lógica dialética” (1947), onde defende a validade da lógica formal para o discurso. Sua concepção de socialismo fundada no “autogoverno”, como base para superar o burocratismo e a tecnocracia, se aproxima de boas idéias cristãs. As obras “Sobre uma interpretação do marxismo” e “Além do estruturalismo” (com crítica a Louis Althusser) trazem bons pontos de união, tal como a crítica que fez contra a teoria da consciência-reflexo. Lefebvre elaborou uma boa definição de socialismo num artigo que foi publicado na revista “Le Monde” (Paris, 29.01.1964 e depois na revista Esprit, n. 346, de fevereiro de 1966, por Desroche e ainda no livro “A utopia”, de Luiz Alberto Gómez de Souza). 

Pensadores como István Meszáros têm conceitos bem semelhantes, pois exigem um modo de produção que combine autogestão, co-gestão com planificação participativa. O mesmo para Maritain e também para Jacques 

Em cada cidade da Europa e do Brasil Colonial (cf. o livro de Nélson Omegna, “A Cidade Colonial”, elogiado por Alceu) e em outras cidades do mundo, onde a Igreja atuou, existiam pessoas bondosas (ou seja, santas, sendo a santidade algo mais comum do que se pensa), que se organizavam em várias formas societárias e jurídicas (grêmios, mosteiros, conventos, ordens, congregações, confrarias, paróquias, grupos de mútua ajuda, capelas, mutirões, corporações de trabalhadores etc), para gerirem bens comuns e para ajudarem o próximo. Estas formas continham, em embrião, em germes, as ideias sociaistas, de socialismo participativo. 

No fundo, eram grupos (associações, estruturas participativas) onde as pessoas se reuniam para a mútua ajuda (cooperação) e a solidariedade, com fundos inalienáveis, indivisíveis, que serviam como base material para estas formas de cooperação. Quem entender de mais valia e de autofinanciamento, sabe o potencial das cooperativas, se forem apoiadas pelo Estado, para erradicar o capitalismo, desde que existam outras reformas sociais essenciais. 

Da mesma forma, as pessoas se organizam em formas familiares (em famílias), que também são estruturas participativas, onde o preceito maior é a comunhão de bens, bens indivisíveis, inalienáveis, ao modo de pequenas cooperativas clãs.

Esta rede de ajuda mútua, de comunidades, de comunhão de bens, era e é a base da vida correta, tal como das famílias, que são igrejas (comunidades) domésticas. São estas as idéias que devem inspirar um modo de produção cooperativo e socialista (participativo).

Os fundamentos anticapitalistas deste tipo de idéias são evidentes, tanto pelos preceitos positivos, quanto pelas críticas (preceitos negativos), expressas nas frases contra os ricos (contra a propriedade quiritária, contra as relações de produção com base na acumulação e na exploração). Críticas proferidas por Cristo, São Judas Tadeu, São Lucas, São Paulo, São Pedro, Moisés, os Profetas bíblicos, os Santos Padres, Roux, Buchez, Ketteler e, hoje, pelos teólogos da libertação.

— Updated: 19/09/2018 — Total visits: 35,466 — Last 24 hours: 119 — On-line: 0
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